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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Comandante Nicolás Rodríguez Bautista, “Gabino”


EJÉRCITO DE LIBERACIÓN NACIONAL, ELN-COLOMBIA

18/9/2012, Entrevista concedida a Carlos Lozano (Marcha, Argentina)
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Carlos Marín Guarín
Desde que o presidente Santos anunciou o acordo para iniciar negociações de paz com as FARC, praticamente nada mais se ouviu do Ejército de Liberación NacionalELN.

Até agora, o único a falar fora o dirigente Carlos Marín Guarín, “Pablito”, integrante da Frente Oriental do ELN, onde se localizam os níveis mais intensos de atividade da guerrilha. Em entrevista coletiva da a um grupo de correspondentes nacionais e internacionais, distribuída na Argentina pela rede Cartago TV, Guarín disse apenas que “Como chefe do ELN, cabe a nosso comandante Nicolás Rodríguez Bautista decidir com quem mantém negociações”.

Nicolás Rodríguez Bautista
Rodríguez Bautista, conhecido como “Comandante Gabino”, integra a guerrilha desde a formação, em 1964. De família católica, chegou ao comando em 1998, depois da morte do sacerdote e dirigente guerrilheiro Manuel Pérez Martínez. O correspondente do jornal argentino Marcha, que acompanham na Colômbia as negociações de paz, fez contato com o Comandante Gambino, que concordou em conceder essa entrevista, na qual o comandante histórico do ELN fala sobre o que sua organização pensa dessa nova etapa da luta política na Colômbia.

Marcha: Por que só as FARC, não o ELN, participam das negociações de paz recentemente anunciadas?

Comandante Gabino:
Antes de tudo, recebam saudações respeitosas do ELN da Colômbia, com nosso desejo de que mantenhamos aberta essa linha de comunicação. Esperamos que a irmandade de nossos povos nos una sob as bandeiras de nossos grandes, como San Martín, Bolívar, Artigas, o Che, Camilo Torres e tantos outros lutadores pela liberdade e pela democracia.

Respondendo sua pergunta: a única vez que a guerrilha sentou à mesma mesa de negociações foi na década dos 1990 do século passado, nos diálogos com o presidente Gaviria. Todas as outras experiências foram diálogos em separado, com cada força guerrilheira. Mais uma vez, será feito assim. O ELN entende que o mais acertado, para construir um processo de paz, é uma única mesa de negociações para toda a guerrilha. Temos de nos esforçar para chegar lá. É preciso alcançar níveis de unidade e estamos caminhando para conseguir isso. Respeitamos o processo que o governo iniciou com os companheiros das FARC e desejamos a eles o máximo êxito. Confiamos que, adiante, o processo que agora se inicia, de negociações em separado, possa convergir para uma mesma mesa. Exceto algumas diferenças, somos forças com objetivos semelhantes, o que é o mais importante.

Marcha:
Quais são hoje, na Colômbia, os requisitos para essa paz que voltou a estar na boca de todos, inclusive do presidente Santos?

Comandante Gabino:
 A maioria dos colombianos estão cansados de uma guerra interna que já dura mais de 50 anos; os vários setores sociais foram-se organizando e falou-se de uma saída política que leve ao término dos confrontos, como é o caso do Congresso dos Povos, que está organizando um Congresso de Paz para o próximo ano. Também muitas organizações populares e sociais já se manifestaram sobre a urgência de construir a paz. Quando se fala de paz, todos os colombianos e colombianas queremos que o momento chegue. O problema é que entendemos a paz de diferentes modos e a queremos em condições diferentes, conforme a situação e os interesses de cada grupo. As grandes maiorias na Colômbia, inclusive a guerrilha, entendemos que paz é justiça e igualdade social, democracia e soberania. Mas para a classe dominante, paz é o que se consegue quando se derrota o inimigo interno no campo de batalha – palavras do próprio presidente Santos, dias antes de se iniciarem os diálogos com as FARC.

Processo de paz, nas condições colombianas, para que leve a paz estável e duradoura, requer a participação não só da guerrilha e do governo, mas dos vários setores populares que são os que carregam às costas o peso da guerra. A paz é processo longo e dispendioso, contra o qual se alinham inimigos poderosos, os mesmos que lucram muito com a guerra.

Marcha
: Como é a situação social, nas comunidades onde o ELN está presente?

Comandante Gabino:
Nas comunidades onde o ELN está presente, vive-se em estado de guerra. São os territórios conhecidos como “zonas vermelhas”, submetidos a operações militares e policiais permanentes. Tudo ali é controlado, movimentos, provisões, especialmente alimentos e remédios. Toda a vida da população é vigiada, sob o pretexto de que as pessoas colaboram com a guerrilha. As forças repressivas do governo, aliadas a forças mercenárias paramilitares, atuam com a população como força de ocupação. A população é exposta a todos os tipos de vexames e ações repressivas.

As áreas onde os camponeses subsistem do cultivo de plantas de uso ilícito, como a folha de coca, são castigadas, os proprietários, por serem proprietários das terras, e as plantações por serem consideradas ilegais, todos submetidos à aspersão permanente de um fungicida, Glifosato, que destrói as plantas da folha de coca e também outras plantas, e causa danos irreparáveis a animais e seres humanos, às crianças e aos idosos, sobretudo, e a mulheres grávidas.

Essa repressão já gerou massa considerável de exilados internos, que não podem circular nos centros urbanos, porque são considerados ilegais, e perambulam pelo país, como alvos vivos dos ataques das forças armadas, que os consideram alvo militar. Está gerada uma situação muito grave para numerosas famílias, cuja única proteção é a guerrilha. Passou a ser dever da guerrilha proteger essas pessoas, contra o ataque das forças governamentais. Nada disso é novidade. Essa é uma das explicações pelas quais muitos jovens camponeses, homens e mulheres, não têm alternativa de sobrevivência, além de alistar-se na guerrilha.

Marcha:
Em função das experiências anteriores, como o senhor acredita que terminará essa recente nova tentativa de diálogo?

Comandante Gabino:
Apesar de diálogos tentados antes não terem tido êxito, vemos com expectativa a possibilidade de um processo sério e realista, que abra caminho para a paz, como desejam as maiorias colombianas, esgotadas em mais de meio século de conflito social e armado, que já ultrapassou todos os limites. A classe dominante não conseguiu derrotar a guerrilha, nem o movimento popular, apesar da violência da guerra suja e do terrorismo de Estado.

As forças governamentais, assessoradas pelos EUA e por Israel, tentaram aplicar aqui a experiência de outras guerras; mas, apesar da violência e da crueldade, nem o movimento popular nem a guerrilha foram derrotados, e se mantêm.

Entendemos que nessa realidade, o caminho certo a seguir é o que chamamos “uma saída política” – que significa que, mediante um diálogo aberto, que envolva não só a guerrilha e o governo, mas as mais variadas expressões populares e sociais,  consiga chegar-se a um acordo responsável para superar as causas que produziram o levante armado e ponha fim à confrontação, com solução bilateral e todos possamos cuidar de reconstruir o país, superando a crise profunda que destroçou o tecido social e a convivência normal na Colômbia.

O ELN propôs, há mais de 20 anos, a saída política. Cinco governos anteriores assumiram nossa proposta como sinal de fraqueza e trataram, só, de aproveitar como vantagem militar o nosso interesse em dialogar. Dessa vez, afinal, parece que a classe do poder está assumindo com mais realismo a responsabilidade de construir a paz, como as maiorias reclamam, em nosso país.

Marcha:
Como o ELN vê o futuro da guerrilha na Colômbia, para os próximos anos. Consideram a possibilidade de renunciar à luta armada e dirigir toda sua força para a luta política?

Comandante Gabino:
Nos levantamos em armas há quase 50 anos, porque a luta popular ampla e legal não recebeu garantias políticas e jurídicas. Quando se alterar essa lógica perversa, e haja garantias e respeito para que a luta popular prossiga, o povo já não precisará de armas para defender seus direitos. Mas essa decisão, hoje, está em mãos da classe que ainda domina a Colômbia; são os únicos que, como se diz, têm a palavra. Se, depois de 50 anos de guerra fratricida, dispõem-se afinal a reconhecer à maioria da população seu direito a justiça e igualdade social, à democracia e à soberania, então, afinal, se poderá avançar para a paz. Claro que não se faz paz por decreto. Mas é urgente que se comece a andar nessa direção.

Não concebemos que a solução esteja na desmobilização e no desarmamento da guerrilha. Essa forma já foi tentada e fracassou, porque a essência do conflito é social; e foi o conflito social que levou ao levante armado. É preciso portanto ir às causas originárias do conflito, para encontrar soluções. Só assim será possível superar o conflito e mudar a situação em campo.

Continua na Parte 2 de 17/9/2012 (a seguir)


Marcha: Depois das fortes ofensivas do governo do ex-presidente Uribe, há territórios liberados, sob controle da guerrilha?

Comandante Gabino: Nesse meio século de luta guerrilheira, não houve territórios liberados, no sentido de territórios nos quais as forças governamentais não podem entrar. Os desenvolvimentos dessa guerra de quarta geração não permitem territórios vedados nem para as forças do governo nem para as forcas da guerrilha. O que existe são extensas regiões nas quais a guerrilha permaneceu por meio século e, embora a força militar inimiga tenha entrado, não pôde nem aniquilar nem expulsar a guerrilha. A esses territórios, vários analistas chamam de “zonas vermelhas”. São regiões de população camponesa de centenas de quilômetro onde o Estado apenas marca presença com suas forças repressivas.

Marcha: Arauca é uma das províncias petroleiras mais importantes da Colômbia, onde o ELN consolidou presença mediante ações de defesa dos bens comuns e das comunidades indígenas. Qual a situação atual em Arauca?

Comandante Gabino: Propusemos ao governo e ao país uma proposta soberana e de benefício social para a exploração do petróleo, mas os governos mantiveram-se surdos, porque sua política na exploração dos recursos minerais e energéticos é imposta pelo capital internacional, em troca de financiamento para a guerra contra o povo. Denunciamos a exploração irracional de petróleo em Arauca e no país, em detrimento dos interesses dos colombianos, o dano às comunidades indígenas, a destruição da biodiversidade o grave dano ao meio ambiente. Nossa política tem várias identidades com a dos trabalhadores do petróleo e da população dessa região.

Recentemente desenvolvemos campanha político-militar, de 7/6 a 16/8, contra as forças armadas que protegem o capital estrangeiro. Tivemos ali oito combates contra o exército, 17 emboscadas, 47 ações de comando, 11 explosões no oleoduto Caño Limón Coveñas, foram destruídos dois blindados militares e provocamos 105 baixas no exército e polícia do governo.

Desde junho, até hoje, a construção do Oleoducto Bicentenario está paralisada, resultado de ação revolucionária.

É urgente discutir-se uma proposta de exploração dos recursos minerais e energéticos, que se baseie na soberania e no bem-estar para os colombianos, particularmente para os trabalhadores e a gente que vive na região araucana e em harmonia com o meio ambiente. É preciso pensar no bem-estar e no bem-viver das futuras gerações. A política do presidente Santos em matéria de minérios e energia á anti-pátria, a serviço do capital transnacional. E se não for contida, a Colômbia no futuro será um imenso lixão, sem vida para os seres humanos, com gravíssimas consequências para a mãe-terra.

Uma mesa de diálogo com o governo deve por, no centro da discussão a questão sensível do interesse nacional. O ELN dispõe-se a suspender sua ação revolucionária contra a infraestrutura petroleira, se se abrir discussão sobre esse tema, para abrir caminho para uma saída soberana e em benefício das maiorias.

Marcha: O governo de Santos, de algum modo, buscou um equilíbrio com o governo de Chávez, diferente da pressão belicista que o antigo presidente Uribe mantinha. Veem isso como positivo?

Comandante Gabino: Consideramos que os países do continente americano estão unidos por laços históricos que os irmanam, apesar de suas diferenças políticas e ideológicas. A classe governante colombiana não é monolítica, e uma das expressões disso são os mandatários.

Tanto no primeiro como no segundo mandato, boa parte dos votos que elegeram e reelegeram Uribe foram conseguidos pelos paramilitares, a sangue, fogo e terror. Na Colômbia, todos sabem disso. O lema de Uribe como presidente foi a luta sem quartel contra o terrorismo, para conseguir a chamada “segurança democrática”. Essa concepção delirante levou-o a ver como acérrimos inimigos todas as organizações que foram críticas ao seu governo, além de organizações, personalidades e governos do exterior que o criticaram.

Qualifica todos esses como terroristas ou auxiliadores de terroristas. Nessa concepção, atacou o Equador, que é país irmão, e participou das intentonas golpistas contra o governo do presidente Chávez. Recentemente, o ex-presidente disse que lhe faltou tempo para atacar a Venezuela e fez campanha na fronteira, buscando canalizar os setores mais retrógrados, num esforço desesperado para desestabilizar o governo bolivariano e fortalecer a oposição.

O presidente Santos é parte de uma grande família de raízes históricas misturadas com o poder econômico e político colombiano, representante da oligarquia tradicional. Santos chega à presidência com o caudal eleitoral dos partidos políticos que representam esse poder oligárquico, mas também muitos eleitores seguidores e intimidados pelo uribismo, para os quais sua campanha não mostrava diferenças políticas em relação ao antecessor, que Uribe apenas continuava.

Não é que o presidente Santos seja profundamente diferente de Uribe, mas tem outro modo de governar e dá ênfase a pontos que Uribe nunca destacou. Parte disso são as relações internacionais, dar força à institucionalidade e um pacote de leis reformistas para o Estado, com forte componente publicitário.

Não há dúvidas de que a política internacional de Santos é inteligente e está afinada com a atual fase do capitalismo; e a de Uribe foi torpe e isolou seu governo, do mundo  externo que é importante para qualquer país.

Marcha: Organizações camponesas da Venezuela queixaram-se da alegada presença da guerrilha naquele país. Qual é a política do ELN nas áreas de fronteira e em relação às organizações populares da Venezuela?

Comandante Gabino: Nossas frentes de guerrilha no Norte, Nordeste e Leste estão assentadas num amplo território da fronteira com a Venezuela há mais de 30 anos. Nossos eventos democráticos definiram nossa política de profundo respeito à soberania, autodeterminação dos países, governos e povos irmãos e reafirmamos nossa coerência com esses postulados. A acusação de que nossas forças cruzam a fronteira é invenção dos inimigos da revolução dos dois lados, do lado colombiano e do lado venezuelano. Inventaram um escândalo, a serviço dos interesses que se beneficiam de gerar confusão e animosidade contra as boas relações entre nossos dois países.

Estamos informados de uma das recentes campanhas publicitárias, orquestrados pela oposição venezuelana, na qual nos acusavam de prejudicar as organizações populares na Venezuela. É muito significativo que aquela campanha tenha sido patrocinada pelos setores mais duros da oposição venezuelano nos estados de fronteira entre Colômbia e Venezuela.

Marcha: Cuba e Venezuela apresentaram-se como avalistas dos diálogos de paz entre Santos e as FARC. O ELN teve diálogo direto com os mediadores desses governos?

Comandante Gabino: Os governos de Cuba e Venezuela trouxeram generosa contribuição nos esforços anteriores, feitos pelo ELN, em busca da paz, com os governos de Cesar Gaviria, Andrés Pastrana e Álvaro Uribe. Temos certeza de que também agora têm a mesma disposição de antes, o que muito valorizamos, com alto respeito.

Outros governos do Continente e de outras regiões do mundo, entre os quais a Noruega, também estão interessados em contribuir para o processo de paz da Colômbia. A participação da comunidade internacional é vital para que o processo de paz tenha confiabilidade e êxito, até a paz.

Marcha: No marco das negociações de paz atuais, qual pode ser a contribuição do governo argentino? O que esperam das organizações populares da Argentina e do continente?

Comandante Gabino: Hoje, quando se tornam maiores as possibilidades de um diálogo do governo com toda a guerrilha colombiana, solicitamos mais uma vez e respeitosamente ao governo da presidenta Cristina Fernández, sua contribuição decidida, como parte do grupo de governos do continente que são amigos da paz da Colômbia. Para a paz na Colômbia, é indispensável a contribuição da comunidade internacional e dos países que integram a União de Nações Sul-americanas (Unasul), a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), que podem trazer apoio muito positivo.

O povo argentino que, em sua grandeza, ergueu símbolos como San Martín, Che Guevara e tantos outros, é irmão do povo colombiano, e suas organizações devem estreitar laços de união, solidariedade e luta, para construir e sonhar o futuro de justiça, democracia, soberania e paz que nós todos merecemos. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Alfonso Cano, Herói da Colômbia


Alfonso Cano

07.Nov.11  - Miguel Urbano Rodrigues


Alfonso Cano, comandante-chefe das Forças Armadas Revolucionarias da Colombia caiu combatendo no dia 4 de Novembro.

Alfonso Cano bateu-se pela libertação da Colômbia durante mais de quatro décadas. De origem burguesa, rompeu com sua classe na Universidade de Bogotá quando estudava Antropologia. Dirigente da Juventude comunista conquistou ali o respeito de professores e colegas pelo seu talento, cultura e firmeza de caráter. Era um intelectual brilhante que tinha dos clássicos do marxismo e da História do seu país um conhecimento profundo quando aderiu às FARC.

Terá sido com Jacobo Arenas um dos mais criativos ideólogos da organização revolucionária. Não surpreendeu, portanto, a sua nomeação para comandante-chefe quando Manuel Marulanda morreu.

Como era de esperar chovem agora sobre o presidente Juan Manuel Santos felicitações dos dirigentes dos países imperialistas. O crime é por eles transformado em grande vitória da democracia contra o terrorismo.

A imprensa-de-mercado do sistema já elaborou e divulgou uma extensa lista dos «crimes» cometidos pelo «terrorista» e «narcotraficante» morto.

Bandeira das FARC
Omitem obviamente que Alfonso Cano foi o responsável do projeto que as FARC enviaram à ONU e ao governo colombiano nos anos 90, propondo a erradicação da cultura da coca num prazo de 10 anos do município de Cartagena del Chairá, o maior produtor da planta maldita no país. Essa experiência piloto exigiria apenas o modesto financiamento de 10 milhões de dólares. A iniciativa foi, porém imediatamente vetada pelo governo de Bogotá, considerado por Washington modelo de democracia e o seu melhor aliado na América do Sul.

A oligarquia colombiana festejou, naturalmente, com entusiasmo a morte do líder das FARC. A organização guerrilheira define o regime, desde a presidência de Uribe, como fascistizante. E não exagera no qualificativo.

O Presidente Juan Manuel Santos, ministros e generais deslocaram-se a Popayan, capital do Departamento do Cauca onde foi assassinado Cano, para ver o seu cadáver, em exposição, condecorar os matadores e celebrar o crime em ambiente de entusiasmo. Os militares esclareceram que no acampamento onde se travou o ultimo combate foram encontrados os computadores do comandante e que o seu conteúdo «será estudado». A notícia logo correu mundo. Tudo indica que o governo, repetindo o uso que fez dos computadores manipulados do comandante Raul Reyes, tornará em breve públicas revelações sensacionais sobre a sua descoberta.

Combatentes das FARC
O comandante Alfonso Cano, como outros membros do secretariado do Estado-Maior central das FARC tinha a cabeça a premio por mais de um milhão de dólares. É incômodo para Santos e os seus epígonos reconhecer que na Operação «Odisseia» - insulto ao herói grego de Homero - montada para abater o comandante das FARC participaram 2300 oficiais sargentos e soldados, aviões Super Tucano e muitos helicópteros.

No início do ano o governo de Bogotá divulgou notícias segundo as quais Alfonso Cano se encontraria no Oriente, próximo da fronteira da Venezuela. Eram falsas.

O secretariado das FARC, no momento em que escrevo, ainda não se pronunciou sobre as circunstâncias do crime.

Mas o simples fato de as selvas do oriente do país distarem cerca de 800 quilômetros do município de Suarez, no Cauca, onde ele morreu, após dois bombardeamentos maciços e um cerco montado por tropas especiais convida à reflexão. Duas cadeias de gigantes andinos da Cordilheira Oriental e da Central separam essas frentes de combate.

Ignoro por onde se movimentou Cano nos últimos meses. As declarações ao diário El Tiempo dos militares que o mataram não inspiram confiança. Num ponto coincidem todas: Alfonso Cano caiu combatendo!

A capacidade estratégica e a mobilidade dos guerrilheiros das FARC, cruzando montanhas, rios e florestas, em travessias que a História registrou e inspiraram poetas e novelistas somente encontram precedente na saga de Bolívar galgando os Andes, durante a campanha de libertação de Nova Granada (a atual Colômbia).

Alfonso Cano, como Jorge Briceño, Jacobo Arenas e Manuel Marulanda souberam, pelo seu exemplo como revolucionários comunistas, conquistar em vida o respeito de milhões de compatriotas. Mortos, os seus nomes permanecerão na História como heróis da América Latina.

Foram duríssimos os golpes recebidos nos últimos anos pela organização guerrilheira mais antiga do Continente, que se bate há mais de quatro décadas por uma Colômbia democrática, livre, progressista, enfrentando um exército de 300 000 homens, armado e financiado pelos EUA.

Mas a hierarquia da Igreja e inclusive a oligarquia crioula estão conscientes de que não há solução militar para o trágico conflito que ensanguenta a nação.

A euforia de Juan Manuel Santos – protetor de paramilitares assassinos - não consegue ocultar a sua certeza de que o combate das FARC vai prosseguir. Ele próprio reconheceu já essa evidência. A imprensa de mercado avalia em 10 000 o número atual de guerrilheiros das FARC.

A luta continua na Colômbia!

Vila Nova de Gaia, 5 de Novembro de 2011
Extraído do Diário Info.

domingo, 6 de novembro de 2011

SEMANA DE DOER – TEVE DE TUDO


Laerte Braga

Laerte Braga

Uma das melhores críticas que já tive oportunidade de ver em toda a rede mundial de computadores. “Multidão aguarda ansiosa a inauguração da estátua de Sérgio Cabral” e em seguida a foto da “multidão”. Era de pombos.

Os norte-americanos Scott e Kiera Rivera decidiram se casar no dia 31 de outubro. E até aí tudo bem, o diabo é quando chegar ao térreo, se vai esborrachar ou não. Em “Tudo pode dar certo” de Woody Allen o cara se “arrebenta” num toldo e fica manco. Tenta outra vez e cai em cima de uma jovem senhora que passeava com seu cachorro, acabam se casando. Scott e Kiera Rivera decidiram que o casamento seria num cemitério de Albuquerque.

Segundo a noiva “o Halloween é o único dia em que você pode fazer algo diferente, mas ninguém vai achar estranho”.  

Os Estados Unidos são como que um museu de cera de barbárie e bizarrice.

Daniel Torroll foi preso e acusado de ato sexual com uma boneca – boneca comum – próximo a uma escola. O fato aconteceu em agosto e o julgamento vai ser em dezembro.

O policial que prendeu o dito disse o seguinte em seu relatório – “ele estava totalmente nu e eu notei que seus quadris estavam se mexendo para frente. Eu vi uma cabeça pequena e eu pensei mesmo que era uma criança sendo abusada”.

O advogado de Torroll disse à imprensa que seu cliente é “boa pessoa” e não “queria prejudicar ninguém”.

De repente se percebe que a tal “indústria anti-semita” é financiada por Israel. É simples de entender. Não havendo mais líderes nazistas a serem caçados mundo afora, outro pretexto é necessário para manter a boçalidade frente a palestinos e o controle dos “negócios” nos EUA.

A onda agora é em torno dos “preparativos para atacar o Irã, ameaça de extermínio da humanidade”.

Mais de cem mil cidadãos de Israel estavam nas ruas no último final de semana para protestar contra o governo de Benjamin Netanyahu. Nada de saúde, nada de educação, tudo pela guerra.

E tome Grécia. O primeiro-ministro Papandreou não voltou atrás na sua vontade de ouvir o povo grego sobre as medidas de austeridade exigidas pela Comunidade Européia para “salvar a Grécia”, no duro mesmo, bancos franceses, alemães, ingleses, norte-americanos, etc. “Foi voltado” como se diria em Minas Gerais pela chanceler alemã Ângela Merkel e o presidente francês Nicolás Sarkozy. A dupla fez valer os interesses dos banqueiros e o ministro da Fazenda da Grécia passou por cima de Papandreou e desautorizou o teoricamente chefe do governo.

Com isso os gregos vão pagar a conta por anos a fio. E no efeito cascata vão rolar despenhadeiro abaixo os italianos, os espanhóis, em futuro próximo os franceses, está começando a rolar a Ucrânia, permanecem vivos e fortes os integrantes do movimento OCCUPY WALL STREET.

A GLOBO é que não mostra por aqui. Teme que a verdade desperte o que William Bonner chama de “Homer Simpson”, o telespectador do JORNAL NACIONAL e todos percebam que existem mais agentes norte-americanos na mídia brasileira que o outro William, o Waack.

Seria interessante saber o número exato, sem maquiagem, de telespectadores do MANHATTAN CONNECTION. Deve andar na casa dos dez. No máximo. Onze já é sucesso pleno e absoluto.   

A semana esteve imersa nas questões do ENEM – EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO. Uma escola no Nordeste conseguiu acesso a um razoável número de perguntas antecipadamente. Como não interessa às elites, o ENEM, afinal, não interessa também a política de cotas nas universidades públicas; o negócio é desacreditar o exame e o ministro da Educação, pré candidato a prefeito de São Paulo. Não admitem que na vizinha república FIESP/DASLU, condomínio de FHC, Serra, etc., outros cantem no poleiro.

O ser robô, aquele que grita pula, pula, quando o sujeito ameaça despencar do vigésimo andar e vaia quando o dito é salvo, passou a semana ironizando o câncer do ex-presidente Lula.

São os efeitos de bombardeios por raios Faustão, Luciano Hulk, VEJA, JORNAL NACIONAL, FOLHA DE SÃO PAULO, a turma da mídia golpista. Geram um tipo de câncer ainda não muito percebido. Atrofiam o cérebro. Tem gente que adora sinfonia de Mozart – nada demais, pelo contrário – mas rege orquestra no banheiro achando-se Hitler ouvindo Wagner.

A Cavalgada das Valquírias.

Para em seguida, numa espécie de alerta/terror, aparecer desdentado, que nem vampiro velho, para dizer que “estamos vivos”. São os soturnos habitantes dos porões da ditadura que ainda sobrevivem maldizendo a democracia e ameaçando o País com uma ordem unida.

Se você chegar no estado do Espírito Santo, ou do Rio, em/ou muitos outros, e encontrar um monte de placas indicando obra da Norberto Odebrecht, não se assuste. Pode até confundir e achar que a cidade se chama Odebrecht. Nada disso. É que a turma da empreiteira é a favorita de onze entre dez detentores de mandatos públicos para “negócios”. Arrasta atrás de si um monte de outras negocistas padrão Queiroz Galvão.

E se tiver problemas para legalizar sua casa ilegal é só procurar, como o fez Luciano Huck, o escritório da mulher de Cabral. Legaliza tudo.

Mas, segurança no caso do deputado Marcelo Freixo nem pensar. O cara que se vire se as milícias querem transformá-lo em presunto. Ele e sua família.

Vai daí que numa indústria fajuta, de mentirinha, no estado de Virgínia, EUA, a CIA seguindo os tuítes, as postagens no FACEBOOK e outras redes sociais. Com isso o grupo conhecido como “os bibliotecários vingativos” analisa tudo, até jornais, canais de tevê, emissoras de rádio, etc., para informar a Casa Branca, organização terrorista com sede em Washington.

Segundo os “especialistas” dá um perfil do “humor do mundo” para que o governo dos EUA possa tomar decisões.  

O grupo leva em conta ainda informações repassadas por embaixadas norte-americanas em todo o mundo e seus informantes. No caso brasileiro, um dos mais “qualificados”, a despeito de errar quase todas as previsões, como Miriam Leitão, é William Waack.

A mídia norte-americana, neste momento, além disso tudo, está preocupada ainda com o julgamento de uma mulher de 43 anos que teve relações sexuais com um amigo de seu filho, com apenas 12 anos. Deve passar doze anos na cadeia.

George Bush continua em liberdade em seu rancho no Texas e Barack Obama virou zumbi com um buraco de tiro na testa durante os festejos do Halloween. Coisas de republicanos.

Polícia Militar num campus universitário é como que um som estúpido em show da OPUS DEI, grupo fascista que se apresenta no Vaticano e se faz ouvir em todo o mundo, desde os tempos de João Paulo II, um dos maiores enganadores da história. Talvez antevendo isso, Charlie Chaplin disse que o “o som aniquila a beleza do silêncio”.

Alfonso Cano principal comandante das FARCs – FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS COLOMBIANAS – foi morto numa operação que chamam de guerra. O modus operandi é dos pistoleiros do velho oeste numa combinação com a crueldade típica dos norte-americanos, diretores da peça que apresentam ao mundo como “terrorismo”.

Contam vinte milhões de indigentes nos EUA e historicamente continuam – os donos – intrínseca e extrinsecamente sendo boçais. A polícia da “grande democracia” está baixando o pau em manifestantes contra Wall Street. Não há risco de bombardeios da OTAN a guisa de ajuda humanitária. Os gregos vão pagar parte da conta, como outros povos do mundo estão pagando sempre.     

A culpa disso tudo é do Irã.

Enviado por Juntos Somos Fortes
Ilustração: redecastorphoto

sexta-feira, 3 de junho de 2011

FARC, ELN: a guerra na Colômbia

Um povo que se defende
por *Javier Monagas Maita

Combatentes das FARC - ELN
Não creio que exista no mundo alguém que deseje a guerra e ao mesmo tempo se converta a si próprio em vanguarda de luta. As guerras são promovidas por interesses egoístas e desejos absurdos de dominação, mas os seus promotores têm o cuidado de não ir para a frente de batalha ou enviar os seus. Ante a destruição e o abuso, as vítimas entram na guerra para se defender. É a única alternativa que resta aos povos contra os excessos, crimes e violações que contra eles se cometem.

A pobreza sempre foi promovida por minorias a fim de submeter as maiorias aos caprichos e desejos dos seus interesses particulares ou de classe. Assim, por dinheiro ou por comida, os filhos dos pobres, intencionalmente desqualificados, são organizados em exércitos e policias, para enfrentar as rebeliões dos seus irmãos de classe que, com dignidade, combatem o inimigo opressor na defesa da sua liberdade e dos seus direitos. O engano para a justificação dessa pobreza causada intencionalmente, usa como veículos os meios de comunicação, as religiões e a força bruta. A negação da educação é também um instrumento de subjugação, bem como de distorção da verdade histórica. Tudo isso converge para uma “desconsciencialização” do subjugado que, sem o saber, se torna um instrumento contra si e contra a sua classe social.

Na Colômbia das dores e dos amores de Simon Bolívar, o povo sempre foi alvo dos ataques de uma oligarquia indolente, gananciosa e sem sentido patriótico.

Confrontado com estas agressões, nascem as FARC, ELN e outras organizações populares de um povo que é sistematicamente despojado de tudo o que possui, até mesmo do sagrado direito de existir e decidir por si mesmo. Nascem como a resposta certa para evitar ser dizimados ou exterminados por conveniência de uma elite sanguinária que tudo quer para si. Elite que não envia os seus filhos para a batalha. Eles valem-se desse ardil para recrutar, a partir do seio desse mesmo povo, aqueles que servem de instrumento para a defesa de seus domínios.

A oligarquia colombiana é maléfica e sangrenta; porque ela não é vítima da sua repressão e, por sua vez, os seus filhos vivem e estudam no estrangeiro. Na sua covardia, esses serventuários do colonialismo internacional imperial não têm coragem nem categoria para lutar nas suas guerras, e então dividem e enganam o povo oprimido, para criar as suas policiais e exércitos que o manterá preso à dominação pela força.

Aqueles que acreditam que é fácil andar numa selva, embora com a dignidade acrescida, mas com a vida por um fio, convido-os a tentar sobreviver ainda que sejam três dias num ambiente destes. Essas más línguas que tudo distorcem, apresentam a vida na selva, como turismo de negócios, onde todos os membros da guerrilha são milionários que comem e dormem em quartos de hotel de cinco estrelas com ar condicionado e água quente, desfrutando de uma dieta equilibrada e praticando equitação como desporto, não dizem porque razão o exército regular e irregular da oligarquia vai deixando atrás de si cemitérios clandestinos, pedaços de pessoas esquartejados ao fio de motosserras, propriedades ancestrais em novas mãos ao serviço de transnacionais, através do uso da força.

Aos índios, camponeses e povoações pulverizadas com glifosato, com o qual destroem até o gene cromossómico dos pobres, infertilizam-nos e as suas mulheres são violadas, expropriando-lhes até a dor e o sonho, para os converterem em terror e travão para viver. Ver em:


É encorajador ver que existem pessoas que resistem a essa calamidade pública imposta pela oligarquia colombiana e seus amos. Agradeço a existência das guerrilhas e sua capacidade de luta, a sua entrega humanista e compreensão do momento para a resistência.

A invasão da Venezuela, passa pela derrota da guerrilha colombiana. O apoio a esses irmãos, mais que a um governo, é devido a um povo. Os verdadeiros terroristas, demonizam o povo e sua vanguarda, qualificando-os daquilo que eles são. É por isso que a oligarquia colombiana e as elites sionistas que governam nos EUA acusam de terroristas aqueles que se defendem das suas agressões.

*Ensaísta, venezuelano,

O original, em espanhol, encontra-se em: FARC, ELN beligerancia em Colombia
Tradução de Guilherme Coelho.
Esta tradução encontra-se em: Resistir

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Funcionários do GOVERNO DO BRASIL comentam o caso do refugiado suspeito de ser terrorista das FARC com a Embaixada dos EUA.


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

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CÓPIA CORRIGIDA – ACRESCENTARAM-SE ENDEREÇOS
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ASSUNTO: Funcionários do GOVERNO DO BRASIL comentam o caso do refugiado suspeito de ser terrorista das FARC 

1. (S/NF) RESUMO. O embaixador e conselheiros políticos fizeram contato [ref A] com altos funcionários do governo no Brasil, destacando as preocupações do governo dos EUA sobre a decisão, do dia 14/7/2006, tomada pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE, MJ), de garantir status de refugiado a um suspeito de ser terrorista das FARC, Francisco Antonio Cadena Collazos (refs B and D), apesar do claro pedido de que Cadena fosse extraditado, feito pelo governo da Colômbia e da obrigação, para o Brasil, de negar paraíso seguro a terrorista, nos termos da Resolução n. 1373 do Conselho de Segurança da ONU.
O subsecretário para Assuntos Políticos Antonio de Aguiar Patriota e outros altos funcionários do Ministério de Relações Exteriores (MRE) disseram que a decisão pelo CONARE foi complexa e laboriosa, na qual pesaram muito fatores “humanitários”. Disseram que o CONARE, fortemente encorajado pelo representante do Conselho de Segurança da ONU, não considerou Cadena como “terrorista” mas como refugiado de um “conflito armado interno”, abordagem que, disseram, é a mesma que tem sido tomada consistentemente pelo CONARE nos casos de mais de 300 outros colombianos que vivem no Brasil como refugiados. 

Luiz Paulo Barreto, presidente do CONARE e funcionário de segundo escalão do Ministério da Justiça do Brasil, disse ao conselheiro político que o comitê deliberou ao longo de quase um ano (diferente dos 30 dias de discussão em outros casos de refugiados), que o processo do governo da Colômbia contra Cadena foi considerado fraco; que o timing do pedido de extradição para Cadena (que vivia no Brasil já desde 1992) foi considerado motivado por interesses da campanha eleitoral na Colômbia; e que nada encontraram na história de Cadena, mesmo depois de muita investigação, que comprovasse ser ele comandante militar das FARC, não o comissário político, sacerdote e representante político que declarou ser. Apesar de haver relatos confiáveis que demonstram o contrário, Barreto negou que tenha havido pressão política sobre o CONARE para que garantisse status e proteção de refugiada a Cadena. E disse que estaria pronto para revogar “num minuto” o status de refugiado garantido a Cadena, se (1) se constatasse alguma mentira no pedido que Cadena apresentou; (2) se Cadena não cumprisse as condições a que o status de refugiado o obriga; (3) se o Governo da Colômbia acrescentar novas informações em nova apelação ao CONARE. 

Barreto disse também que está disposto a receber e assumir pessoalmente a responsabilidade pelo sigilo de qualquer informação que a inteligência dos EUA tenha sobre Cadena e que tenha alguma relação com a solicitação de status de refugiado e com sua história com as FARC na Colômbia. FIM DO RESUMO. 
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Providências no Ministério de Relações Exteriores 
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2. (SBU) DCM (servindo como embaixador naquele momento) fez contato [ref A] com o Embaixador Antonio de Aguiar Patriota, Subsecretário para Assuntos Políticos do MRE, dia 4 de setembro. [DCM SIPDIS] destacou que a decisão do CONARE incongruente com os compromissos assumidos pelo Brasil sob a Res. n. 1.371 do Conselho de Segurança da ONU. 

Patriota pareceu não estar atualizado sobre detalhes da decisão do caso Cadena, mas disse que a questão fora discutida com o Ministro Amorim, de Relações Exteriores, e outros. Disse que, segundo o representante do MRE no CONARE, o representante do Conselho de Segurança da ONU havia pressionada muito a favor de o Brasil conceder o status de refugiado, no que fora processe extensivo e “desapaixonado” na comissão. Observou que algumas das considerações chave foram “humanitárias” – i.e., que Cadena já vivera pacificamente no Brasil por 15 anos e tem mulher e filho brasileiros. 

3. (SBU) Essa embaixada tomou uma segunda providência dia 5 de setembro junto à Secretária-assistente para Organizações Internacionais do MRE, Embaixadora Maria Luiza Veotti. Veotti estava acompanhada por Marcus Fagundes, chefe da Divisão OAS e representante alternativa do Ministério na direção do CONARE. O Embaixador enfatizou que o governo dos EUA não tem intenção de interferir nos processos legais brasileiros, mas manifestou o desagrado do governo dos EUA [orig. USG dismay] com a decisão do caso Cadena; e questionou como o Governo do Brasil enquadraria essa decisão, à vista de seus deveres nos termos da Resolução n. 1.371 do Conselho de Segurança da ONU. 

4. (SBU) Veotti enfatizou que o CONARE classificou Cadena como refugiado, não como beneficiário de asilo político. O status de refugiado é garantido unicamente e independentemente pelo CONARE, [BRASILIA 00001910 002.2 OF 003] que inclui representantes do Governo do Brasil dos ministérios da Justiça e das Relações Exteriores, além de representantes do Conselho de Segurança da ONU e ONGs de base religiosa e da sociedade civil. O asilo político é processo nacional, no qual o Governo do Brasil estaria diretamente envolvido. Mas o pedido de Cadena só se referia ao status de refugiado, e foi enviado ao CONARE. Como refugiado no Brasil, Veotti afirmou que Cadena não pode ser extraditado, e o papel do Judiciário nesse estágio é essencialmente passivo (como disse ela). Se, por qualquer razão, o CONARE revogar o status de refugiado, a extradição ainda poderá ser considerada pelos tribunais. Veotti reiterou o que Patriota dissera sobre a deliberação do CONARE (que foi laboriosa, e que as questões humanitárias emergiram como decisivas). Disse que era importante notar que o CONARE “jamais definiu ou caracterizou Cadena como terrorista,” mas, sim, como um colombiano “envolvido ou afetado pelo conflito armado interno em seu país, que temia ser morto, ferido ou perseguido; e que o CONARE seguiu a definição da ONU, de 1951, em seus procedimentos.”  É o mesmo contexto no qual o CONARE tem abordado outros pedidos feitos por colombianos, de refúgio no Brasil – acrescentou ela. [Esse embaixador] observou que visitaria o presidente do CONARE que acolheu o pedido de Cadena. E Veotti encareceu que essa Embaixada procurasse esclarecimento detalhado nessa futura reunião. 

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Com o presidente do CONARE
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5. (C) O secretário executivo do Ministério da Justiça Luiz Paulo Barreto encontrou-se com esse embaixador dia 6 de setembro para discutir o caso Cadena. Barreto, além de ser alto funcionário de carreira [como advogado] no Ministério, é presidente do CONARE e preside as seções de deliberação. Barreto é há muito tempo contato cooperativo dessa embaixada, em várias questões de aplicação da lei e de contraterrorismo. Pedindo sigilo [orig. Requesting confidentiality on our part] e rompendo o silêncio que normalmente cerca as decisões do CONARE sobre refugiados, expôs os fatores que mais pesaram na gestão do pedido de refúgio que Cadena apresentou ao CONARE:

-- Barreto disse que o comitê considerou viciado [orig. vicious], em termos legais, a alegação e o pedido de extradição apresentados pelo Governo da Colômbia contra Cadena. Observou que o suposto crime foi cometido em 1991, e que só em 2005 o Governo da Colômbia encaminhou pedido de extradição ao Brasil; disse que o caso parece depender completamente do depoimento de uma testemunha recentemente surgida, e que fontes brasileiras informam que teve sua sentença reduzida na Colômbia e recebeu compensação financeira em troca da acusação contra Cadena. 

O CONARE entrevistou Cadena longamente, e ele negou as acusações de assassinado e disse que estava na Venezuela na data do ataque de 1991 ao posto da Polícia Nacional Colombiana onde aconteceram os assassinatos. Barreto reconheceu que Cadena não tinha testemunhas que comprovassem o que dizia. -- Barreto disse que o CONARE entendeu que o interesse e o timing [das ações] do Governo da Colômbia em conseguir a extradição de Cadena estava sendo motivado por fatores da política interna da Colômbia. 

Barreto disse que Cadena já vivia no Brasil desde 1992, mas que nesse período voltou algumas vezes à Colômbia, em alguns casos com autorização do Governo da Colômbia. Barreto disse que o Governo do Brasil tinha informação oficial, confirmada pelo testemunho do próprio Cadena, de que Cadena serviu como negociador ocasional entre o Governo da Colômbia e as FARC, mais recentemente em 2000. CONARE questionou o motivo pelo qual governos colombianos anteriores deram prova de considerar Cadena inócuo e, mesmo, chegou a apoiar que participasse de negociações como facilitador, permitindo que entrasse e saísse de território colombiano, mas o governo Uribe – precisamente em ano eleitoral – decide, repentinamente, pedir que Cadena fosse extraditado. 

Barreto argumentou que as intervenções do Governo e da Embaixada da Colômbia com o CONARE, sobre o caso, virtualmente cessaram quando Uribe foi reeleito. (Comentário: É argumento vicioso, dado que Cadena recebeu o status de refugiado menos de dois meses depois da reeleição de Uribe. FIM DO COMENTÁRIO.) 

-- Barreto disse que o Governo do Brasil, inclusive os serviços militares e de inteligência, auxiliaram o CONARE durante vários meses, em “investigações exaustivas” sobre a história de Cadena na Colômbia com as FARC, e não encontraram qualquer informação que sustentasse as alegações do Governo da Colômbia, de que Cadena seria comandante militar de campanha das FARC, capaz de [BRASILIA 00001910 003.2 OF 003]liderar um ataque contra uma base militar. 

Cadena afirma que serviu às FARC como comissário político, professor e sacerdote na Colômbia; e, depois, como representante informal do grupo no Brasil, mas não como combatente, menos ainda como comandante militar. 

Barreto disse que a informação desenvolvida pelo CONARE e pelo governo do Brasil não desmente essas assertivas (disse que a única imagem que o Governo do Brasil obteve de Cadena em uniforme das FARC tem 30 anos e o mostra segurando uma Bíblia numa das mãos e uma arma na outra). -- Barreto disse que há 350 colombianos vivendo no Brasil com status de refugiados, reinstalados aqui depois de terem conseguido convencer o CONARE de que enfrentariam riscos relacionados ao conflito interno no país, se voltasse à Colômbia. Alguns foram reinstalados aqui a pedido do Governo da Colômbia; outros requereram por iniciativa própria o status de refugiados; que são egressos das fileiras das forças de segurança da Colômbia, paramilitares e guerrilheiros; e que também há cidadãos comuns. Entre eles, disse Barreto, como exemplo a ser contrastado com o caso de Cadena, há dois ex-soldados do exército colombiano que mataram comandantes das FARC em combate, aos quais o exército da Colômbia não podia garantir condições de segurança depois de desmobilizados. Observando que o CONARE analisou o caso Cadena durante nove meses – a maioria das decisões é tomada em um mês –, Barreto disse que o CONARA pesou atentamente todas as informações. No final, disse ele, concluíram que Cadena apresentou caso consistente ao CONARE, no qual demonstrou que padecia de medo justificável de que seria morto nas mãos de elementos paramilitares, se voltasse à Colômbia – argumento que se sobrepôs aos argumentos e ao pedido de extradição apresentado pelo Governo da Colômbia, que pareceram ao CONARE questionáveis em vários pontos, como acima relatado.

6. (C) Em resposta a pergunta direta desse embaixador, Barreto disse que o CONARE não sofreu pressão política de nenhuma origem, quando avaliava o caso. Acrescentou que o status de Cadena é condicionado ao pleno cumprimento dos deveres que se impõem a refugiados (i.e., nenhum ativismo político em solo brasileiro, rompimento de qualquer contato com as FARC), e que, no caso de o CONARE ter conhecimento de que Cadena mentiu em qualquer das declarações que se lêem no processo, ele [o próprio Barreto] recomendaria “num minuto” que seu status fosse revogado e que se abrisse o caminho para a extradição. Barreto disse que o CONARE está aberto a outros apelos e a novas informações, vindas do Governo da Colômbia, se houver, sobre o caso. 

Pediu que o Governo dos EUA forneça qualquer informação relevante que porventura tenha ou obtenha sobre o caso Cadena, enviando-a diretamente a Barreto, que assumia responsabilidade pessoal pelo sigilo e utilização da informação, no caso de envolver fontes e métodos de Inteligência. 

7. (S/NF) COMENTÁRIO. Os funcionários do Governo do Brasil contatados por essa embaixada, sobretudo Barreto, ofereceram explicação cogente da decisão do caso Cadena, embora, de nosso ponto de vista, não seja explicação na qual se deva particularmente confiar. Mostram entender bem os objetivos de nossas providências, foram francos, não autodefensivos, em suas reações, e tinham respostas prontas a oferecer, o que reflete processo exaustivo de decisão, conduzido dentro dos padrões que o Conselho de Segurança da ONU espera ver observados.

Nada disso altera nossa opinião inicial, de que a decisão do CONARE foi tomada sob efeito de pressão dos mais altos escalões do Governo do Brasil, e que os membros do Governo do Brasil ativos no CONARE, de fato, responderam favoravelmente àquela pressão (é nossa opinião que os membros da ONU e das ONGs sempre estarão abertos nessa direção, em qualquer evento). 

Isso dito, se o Governo da Colômbia estiver preparado para lutar contra a decisão do CONARE, terá de construir e desenvolver caso judicial-legal o mais sólido, o mais detalhado possível contra Cadena, concentrando-se nas acusações específicas relacionadas ao comando do ataque à base da Polícia Nacional Colombiana em 1991 e nas duas mortes lá ocorridas. Nessa direção, qualquer informação que o Governo da Colômbia ou o Governo dos EUA consigam obter sobre a história de Cadena nas ações militares das FARC também será útil. [Assina: SOBEL]