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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sim, podemos: pensadores e filósofos não europeus


19/2/2013, Walter Mignolo, Al-Jazeera, Qatar 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Walter D. Mignolo
Os artigos de Santiago Zabala e Hamid Dabashi publicados em Al Jazeera trazem à discussão uma das questões cruciais do século 21: a revisão dos processos de re-ocidentalização (com a volta de modos ocidentais de pensar, do Cristianismo ao Liberalismo e ao Marxismo) e de desocidentalização e descolonização em todas as esferas da vida, da política, economia, religiões, estética, conhecimento e subjetividade.

A discussão concentra-se, principalmente, nas duas últimas questões. Começou com o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, no qual celebrava Slavov Zizek. Em resposta, Dabashi tratou do significado diferencial entre os nomes de filósofos ocidentais e os países nos quais filósofos não europeus ou vivem ou “estudaram em academias dos EUA ou da Europa”.

As respostas de Zabala a Dabashi enfatizaram o renovado, refrescante comunismo de Zizek. De minha parte – afinal, sou pensador descolonial limítrofe – concentro-me em questões que emergem nas fronteiras da discussão.

A crença nas hierarquias

Hamid Dabashi
A resposta de Hamid Dabashi ao artigo de Zabala sobre o papel do filósofo contribuiu para a circulação do texto em áreas da opinião pública nas quais, sem aquela resposta, o texto não teria circulado. A resposta de Dabashi foi uma reflexão sobre o parágrafo inicial do artigo sobre Zizek que Zabala publicou:

Há hoje muitos filósofos ativos e importantes: Judith Butler nos EUA; Simon Critchley na Inglaterra; Victoria Camps na Espanha; Jean-Luc Nancy na França; Chantal Mouffe na Bélgica; Gianni Vattimo na Itália; Peter Sloterdijk na Alemanha; e, na Eslovênia, Slavoj Zizek, para não falar de outros que trabalham hoje no Brasil, Austrália e China.

Santiago Zabala
A estratégia de Dabashi acompanha seu argumento: não menciona os nomes dos autores dos artigos. Esse silêncio de Dabashi traz para o procênio o significado dos nomes. Sua resposta é um signo, dentre muitos, de que nós, no planeta, vivemos uma mudança de época, mais que uma mudança a mais numa época de mudanças. A mudança de época é anunciada, na esfera do conhecimento, no processo de desencadear-se de uma cadeia de efeitos longamente duradouros, de diferenças epistêmicas coloniais e imperiais.

Nesse quadro, os nativos norte-americanos têm sabedoria, os anglo-americanos, ciência; os africanos têm experiência, os europeus, filosofia; o Terceiro Mundo tem Cultura e o Primeiro Mundo tem Ciências Sociais, inclusive antropologia que estuda as culturas do Terceiro Mundo; chineses e indianos têm tradições, os europeus, modernidade; o Islã vive em mundo de religião; os europeus, no secularismo.

Essas crenças já se foram, para número crescente de intelectuais, pensadores e ativistas não europeus. Para mim, essa é a principal afirmativa implícita no artigo de Dabashi.

O que pensadores não europeus pensam

Slavoj Zizek
Li o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, não porque estivesse interessado em Zizek (que não me interessa), mas porque era artigo de Santiago. Participamos de várias conferências nos últimos três anos, assistimos às falas um do outro, conversamos, mantemos ativa correspondência por e-mail e trocamos artigos.

O que leio, da filosofia continental, não leio à procura de luzes que me auxiliem a enfrentar questões de histórias não europeias, mas porque me interessa saber o que “eles” estão pensando, quais as preocupações “deles”, em que “eles” andam envolvidos.

Consumo a maior parte do meu tempo envolvido com pensadores não europeus. É a partir da orientação e da luz desses pensadores que, quando necessário, aproximo-me de filósofos europeus. Exemplo desse relacionamento é meu contato com A leftist Plea For “eurocentrism”  (1998).

Li esse artigo, não porque tivesse sido escrito por Zizek, mas porque tratava de eurocentrismo. É problema que me interessa sempre e profundamente; em segundo lugar, interessa-me o que tenham a dizer as pessoas que enfrentem a questão do eurocentrismo. Como pensador não europeu, meus sentidos reagiram logo à primeira frase do artigo de Zizek: 

Quando alguém diz eurocentrismo, qualquer intelectual pós-modernista de esquerda que se autorrespeite tem reação tão violenta quanto a de Joseph Goebbels quando ouvia a palavra cultura – pega logo a pistola, urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista. Mas será possível imaginar uma apropriação, pela esquerda, do legado político europeu?

Discuti esse artigo com mais detalhe noutro lugar. Aqui, me interessa destacar um só ponto. Minha resposta àquele parágrafo, publicada, é a seguinte: 

Quando alguém diz Eurocentrismo, nenhum intelectual descolonizante que se autorrespeite tem reação violenta como a de Joseph Goebbels à cultura – de pegar uma pistola urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista.

Intelectual descolonizante que se autorrespeite, recorrerá a Frantz Fanon: “Agora, camaradas, é chegada a hora de decidir mudar de lado. Tirar de nossas costas a imensa sombra noturna que nos envolveu e sair para a luz. Que o novo dia que está raiando nos encontre determinados, ilustrados e resolutos. Nesses termos, meus irmãos, como não compreender que temos coisa melhor a fazer, que seguir os passos da Europa?”

Com esse comentário, não quero discutir a avaliação de Zizek, como filósofo, feita por Zabala. O que estou dizendo é que nós, intelectuais descolonizantes, mesmo que não sejamos filósofos, “temos coisa melhor a fazer” como diria Fanon, que nos deixar envolver nas questões debatidas pelos filósofos europeus.

Relevância não é universal 

A questão levantada por Dabashi não é nova entre nós, pensadores do ex-Terceiro Mundo (ainda que muitos de nós baseados nos EUA). Ao dizer que não é questão nova, não digo, por implicação, que a resposta de Dabashi seja ultrapassada. Quero dizer que as questões de que hoje se trata foram debatidas na África, no Caribe e na América do Sul, no final dos anos 50s e nos anos 60s. Mas foram discutidas “entre nós”, não “com eles”.

Kishore Mahbubani
Agora, o diferencial de potência epistêmica começou a ser discutido entre todos “nós”, filósofos não europeus e filósofos europeus. A exceção no domínio da diplomacia foi Kishore Mahbubani, que levantou a questão em seu polêmico Can Asians Think? [Asiáticos pensam?] (1999).

Contudo, se queremos usar o termo “filosofia” para identificar pensadores, sejam europeus ou não europeus, devo dizer que, ainda que Zizek possa ser o mais importante filósofo contemporâneo, seu trabalho é menos relevante para muitos que o trabalho do filósofo jamaicano Lewis Ricardo Gordon; ou do filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr; ou do filósofo chinês Wang Hui; ou do egípcio Nawal El Saadawi ou do filósofo latino-americano Enrique Dussel.

E se por trás de Zizek há Derrida na filosofia continental, por trás de Gordon há Fanon na filosofia africana; por trás de Seyyed Hossein Nasr há Ali Shariati na filosofia muçulmana; por trás de Wang Hui há Liu Xun na filosofia chinesa; por trás de El Sadawi, o legado da falsafa muçulmana. E por trás de Dussel há Rodolfo Kusch na filosofia latino-americana.

A relevância não é universal; depende do universo de significação e do sistema de crenças sob o qual se determina a relevância. Temos aqui um mundo diverso de pensadores e filósofos no processo de desocidentalizar e descolonizar o legado imperial da filosofia ocidental.

A questão da filosofia no mundo não europeu jamais foi fácil. Pensadores africanos e latino-americanos com formação e treinamento em filosofia debateram, nos anos 1970s, essa questão crucial: “Há filosofia africana/latino-americana?” Seria pergunta impensável na Alemanha, nos mesmos anos.

Robert Bernasconi
Robert Bernasconi, escrevendo sobre o filósofo afro-americano Lucius T Outlaw, resumiu o dilema nos seguintes termos:

A filosofia ocidental captura a filosofia africana numa dupla armadilha: ou a filosofia africana é tão semelhante à filosofia ocidental, que não faz contribuição significativa e, efetivamente, desaparece; ou é tão diferente que suas credenciais para ser definida como genuína filosofia sempre estarão sob suspeita (Bernasconi 1998, 188; Postcolonial African Philosophy: A Critical Reader)

É o gargalo e o quebra-cabeça que atormenta pensadores com formação e treinamento acadêmico em filosofia na África, na América do Sul e no Caribe.

Comunismo é uma opção

Tudo o que acima ficou dito leva-me à questão do comunismo, foco da resposta de Zabala, e dos quatro poderosos antagonismos que – segundo Zizek – poderiam impedir a infinita reprodução do capitalismo:

1. “A ameaça sempre crescente da catástrofe ecológica”.
2. “A apropriação indevida da noção de propriedade privada, para a chamada “propriedade intelectual”.
3. “As implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (especialmente na biogenética)”.
4. “Novas formas de apartheid, novos muros, novas favelas”.

Nas últimas duas décadas, muito tenho ouvido sobre esses quatro pontos mencionados por várias pessoas, não só filósofos mas também pensadores e militantes sérios. Não estou dizendo que Zabala estaria dizendo que Zizek seria o primeiro a pensar sobre essas questões, nem que seria muito importante que Zizek tivesse trazido essas questões para o debate filosófico europeu. De fato, seria desnecessária arrogância supor que o mundo, particularmente o mundo não europeu, careceria de que Zizek nos informasse de que o mundo está pegando fogo.

Para Zabala, “Ser comunista em 2012 não é escolha política, mas questão existencial. Os níveis globais de desigualdade política, econômica e social aos quais chegaremos esse ano, por causa da lógica capitalista de produção, não são só “muito graves”: eles ameaçam nossa existência”.

Ora, reconhecer os problemas não significa que o único meio para avançar seja o comunismo. E, como a história nos ensina, identificar o problema tampouco significa que só haja uma solução. Ou, dito ainda de outro modo: vários podem coincidir na prospectiva de um futuro global desejável; o que não implica que o comunismo seria o único modo de andar até lá.

Não há uma única solução, simplesmente porque há muitos modos de ser, o que significa diferentes meios de pensar e de fazer. O comunismo é escolha. O comunismo não é um universal abstrato.

Tariq Ramadan
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o comunismo é escolha forte, na Europa. Talvez não seja opção para migrantes da Ásia e da África (talvez seja escolha para migrantes da América Latina, sobretudo os que tenham ascendência europeia), ou talvez seja ideia a ser promovida por Tariq Ramadan (europeu muçulmano e filósofo muçulmano).

Mas na Europa, com certeza, é escolha inescapável. Afinal, o comunismo nasceu na Europa.

No mundo não europeu, o comunismo é mais parte do problema, que parte da solução. O que não significa que, se você não é comunista, no mundo não europeu, você é capitalista.

O ponto de referência nesse debate foi e continua a ser a Conferência de Bandung, convocada por Sukarno em 1955. O legado de Bandung não é nem o capitalismo nem o comunismo, mas a descolonialidade e a desocidentalização (o que significa distanciar-se tanto do comunismo quanto do capitalismo).

Caso a observar, hoje, pode ser a Bolívia. A fórmula “socialismo comunitarista” do Estado da Bolívia é rejeitada pelo CONAMAQ (Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu), organização liderada por aimaras e quechuas, que trabalham para a reorganização dos ayllus e markas de Tawantinsuyu.

Não há espaço aqui para explicar o que significa tudo isso (e esse, precisamente, é problema do eurocentrismo: gastar espaço, sem explicar o que não se encaixe no interesse dos europeus, de esquerda ou de direita), mas significa, basicamente que há modo de ser baseado no comunal, a partir da perspectiva de harmonia baseada  na história das civilizações andinas, não na da civilização europeia.

Assim sendo, o fato de que Zizek e outros intelectuais europeus estejam repensando seriamente o comunismo significa que abraçam uma opção (reorientar a esquerda) dentre várias que, hoje, marcham na direção de uma ideia de harmonia que sobrepassa a necessidade de guerra; sobrepassa o sucesso e a competição que gera corrupção e egoísmo, e promove a plenitude da vida, sobre o desenvolvimento e a morte.

Frantz Fanon
Construindo um futuro harmonioso

Em resumo, a troca de ideias – nessa publicação – entre Santiago Zabala e Hamid Dabashi lança luz sobre uma questão fundamental na construção global de futuros harmoniosos. Há um paralelo entre a crescente convicção quanto ao fracasso do neoliberalismo no mundo não europeu, que acompanha a crescente convicção dos limites (e ao mesmo tempo do valor) da filosofia continental.

Sartre resumiu tudo isso no prefácio que escreveu para Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (1961), ao dizer, falando ao público francês e europeu: “Prestem atenção, ouçam o que Fanon diz: ele já não está falando conosco”. 


 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que Israel atacou Gaza... outra vez?


29/11/2012, Hamid Dabashi, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hamid Dabashi é professor da cátedra Hagop Kevorkian de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade Columbia, NY. Acaba de lançar seu novo livro – Arab Spring: The End of Postcolonialism – pela editora Zed.


Bombardeio de Israel sobre as áreas civis de Gaza
Falando numa conferência de imprensa depois do anúncio do cessar-fogo na 4ª-feira, 21/11, o ministro da Defesa Ehud Barak disse que: “Todos os nossos objetivos foram alcançados, acabar com os foguetes Fajr, plataformas de lançamento e escritórios do Hamás”. Mas em seguida, ele mesmo se autodesmentiu: “E mesmo agora, nesse momento, tarde da noite, continuam a cair foguetes em território israelense. As comunidades do sul de Israel continuarão a ser atacadas nos próximos dias”. E, no frigir dos ovos, concluindo, Barak “agradeceu ao Exército de Israel e seus comandantes, e ao governo Obama pela ajuda para financiar o “Domo de Ferro” [antimísseis]”. [1]

Pelo menos, não se vangloriou de ter assassinado 161 palestinos, no mínimo; entre os quais 71 civis. [2]

Por hora, à parte a evidência de que o ministro de Defesa de Israel não consegue engatar duas frases consecutivas sem se autodesmentir, o que, precisamente, os israelenses teriam conseguido nessa mais recente rodada de bombardeio assassino contra Gaza – e por que, para começo de conversa, lançaram esse novo ataque?

O ministro da Defesa diz que alcançaram “todos os seus objetivos”, a começar por “destruir os Fajr rockets”; em seguida, na linha adiante, admite que “os foguetes Fajr continuam a chover sobre Israel”. Quem produz essas história alucinadas? Quem acredita nessas conversas – por que se preocupar com isso? De fato, para quem tente entender o ataque israelense contra Gaza, o que digam os senhores-da-guerra de Israel não faz, mesmo, diferença alguma.

Assassinaram o agente que fazia o acordo de paz

“Acho que Israel cometeu erro estratégico grave e irresponsável ao assassinar o comandante Jaabari”. Não é avaliação feita por palestino, ou árabe, ou muçulmano, em artigo publicado por revista esquerdista, islamista ou anti-Israel. É a avaliação de Gershon Baskin, o negociador israelense que estava em contato com o Hamás; e essa avaliação foi publicada no New York Times  [3]. Baskin diz mais:

Gershon Baskin
Passando mensagens de um lado para o outro, constatei, pessoalmente, que o comandante Jaabari não estava interessado apenas em algum cessar-fogo de curto prazo; foi também o homem encarregado de implementar outras negociações anteriores negociadas com a agência de inteligência egípcia. O comandante Jaabari implantou e fez valer aqueles acordos de cessar-fogo só depois de confirmar que Israel, sim, concordara em suspender os ataques contra Gaza. Na manhã do dia em que foi assassinado, o comandante Jaabari recebera minuta de acordo para um cessar-fogo de longo prazo com Israel – que incluía mecanismos para fiscalizar os movimentos e ações dos dois lados e assegurar o cumprimento do que fosse acordado. Essa minuta de acordo fora negociada por mim e pelo vice-ministro de Relações Exteriores do Hamás, Sr. Hamad, na semana anterior, quando nos encontramos no Egito.

Assim, se Israel está de fato interessada em paz e em proteger seus próprios cidadãos, como Barack Obama e outros sionistas norte-americanos vivem a repetir que estaria, nesse caso por que assassinar a sangue frio a única pessoa capaz de construir paz efetiva e, imediatamente depois, lançar ataque massivo contra alvos civis, ataque que, sem possibilidade de dúvidas, desencadearia resposta de vingança feroz? Nada disso faz qualquer sentido.

Esse fato, agora corroborado por um alto funcionário israelense, expõe o contexto mais amplo no qual se vê que Israel se interessa por qualquer coisa, menos pela paz, conclusão inescapável e claramente evidente no assalto incansável contra terras palestinas, roubadas, de fato, dia a dia, todos os dias, sem que algum governo dos EUA ou a chamada “comunidade internacional” tenham jamais tido força para impedir a ação criminosa dos colonos israelenses, violentos, assassinos, verdadeiras gangues organizadas para roubar terras palestinas. Nada mais distante, portanto, dos planos de Israel que paz nem, sequer, algum arremedo de paz – o que se viu ainda recentemente na nova rodada de atrocidades contra Gaza.

Cada vez que há um ataque militar, contra o qual não se vê qualquer reação, é sinal de que, enquanto Israel bombardeia Gaza, em outros pontos da Palestina há israelenses roubando terras palestinas. As gangues de colonos vivem dia de ação intensa, sempre que há essas ‘'operações militares'’ israelenses: enquanto duram os ataques, o roubo de terras palestinas pode avançar sem qualquer tipo de obstáculo ou impedimento. Essa ação de roubo ininterrupto de terras – que se faz à luz da história – é absolutamente oposta a qualquer noção (ou desejo) de paz.

Obama gosta de repetir que os israelenses tem (teriam) o direito de se defenderem. É o mesmo que dizer que tem(teriam) pleno direito de roubar cada dia mais terra palestina, aterrorizar os palestinos e continuar a consolidar o estado de apartheid racista de Israel. É estado de apartheid tão racista que, enquanto Obama defende Israel, o próprio aparelho de propaganda e os próprios agentes de propaganda-em-chefe em Israel zombam, pelas redes sociais, do próprio Obama e fazem piada sobre a cor da pele do presidente dos EUA! [4]

Será que a África do Sul também tem (teria) direito de defender o seu próprio estado racista de apartheid? Ou o sul racista dos EUA tem (teria) direito de defender o seu próprio estado de apartheid escravista? E a Índia tem (teria) também direito de pregar o fundamentalismo hindu?

Grande parte das pessoas que hoje vivem em Gaza provêm, de fato, de áreas que os sionistas hoje chamam de “Israel”. Tiveram suas terras roubadas e foram empurrados para um grande campo de concentração, no qual, hoje, são bombardeados pelos jatos de Israel. Israel controla todas as entradas e saídas e todas as fronteiras desse campo de concentração e decide, até, a quantidade de calorias que os homens, mulheres e crianças palestinos podem comer.

A militarização radical

Segundo relatórios recentes [5], “cerca de 10% das crianças palestinas em Gaza, com menos de cinco anos de idade, já tiveram o crescimento comprometido pela desnutrição. Relatório recente de Save the Children e Medical Aid for Palestinians constatou que, além da desnutrição, a anemia alastra-se na população, afetando 2/3 dos bebês, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de 1/3 das mulheres grávidas”. Será essa a “tática” dos israelenses para promover a paz?

Por tudo isso, pode-se dizer que desde o primeiro dia de existência, até hoje, Israel jamais, nem por um só dia, interessou-se por construir qualquer paz. O único interesse de Israel sempre foi expulsar e assassinar mais e mais palestinos, e roubar suas terras – e o presidente Obama, “Mr. Audácia da Esperança” aí está, hoje, dedicado ainda a promover o projeto sionista israelense, apesar de soldados israelenses racistas zombarem do presidente e de milhões de cidadãos norte-americanos por serem negros, nas mais repugnantes manifestações imagináveis de racismo.

E voltamos sempre à pergunta inicial: por que, afinal, Israel atacou Gaza... outra vez?! Há um traço bem evidente de ambição eleitoreira aí operante – como Marwan Bishara escreveu em Al-Jazeera, [6] imediatamente depois de Israel ter (re) começado a bombardear Gaza: 

Marwan Bishara
Netanyahu, como seus predecessores, está usando o assassinato do líder do Hamás, Ahmed al-Jaabari e a subsequente escalada militar para minar as lideranças políticas na Palestina (do Hamás e do Fatah) e aumentar suas chances de reeleição, incendiando as questões de segurança nacional de Israel, pondo-as em evidência acima das questões de segurança econômica, na mente dos eleitores israelenses.

Bishara lembra que: “Há seis anos, escrevi um artigo sob o título Oriente Médio: o ciclo das retaliações tem de acabar [7] (em inglês) que se aplica hoje, com pequenas correções de datas, alguns nomes etc. Dado que os fatos não mudam e repetem-se incansavelmente, repito também a análise”.

A vantagem de reler o artigo de Bishara é ver com perfeita clareza o ciclo vicioso de desculpas e mentiras que Israel continua a impingir ao mundo: Israel não tem nenhuma intenção de fazer ou tentar qualquer tipo de paz. A única intenção de Israel é assassinar o maior número possível de palestinos para roubar e confiscar suas terras.

Outra consequência óbvia desse ciclo de mentiras que sempre se repete é a militarização radical da Resistência palestina, que vê as crianças palestinas serem programática, sistematicamente assassinadas por esse inimigo pervertido – militarização radical a qual, por sua vez, é pretexto perfeito para justificar a massa de bilhões de dólares em ajuda militar que Obama oferece a Israel, armamento tão poderoso que, por sua vez, explica que a República Islâmica também continue a ter imenso poder em Gaza, como ajuda à Resistência.

E assim está criado o ciclo vicioso e/ou a profecia que se autorrealiza. A propaganda pró Israel intensifica-se em Washington, DC; e, em todo o mundo árabe cresce a fúria antissionista, a começar por Teerã – o que é exatamente o de que precisam Israel e a República Islâmica para se manterem relevantes nas questões da Região.

Muitos lembraram que com certeza haveria meios melhores para testar o novo sistema antimísseis de Israel, “Domo de Ferro” – sistema de defesa antiaérea considerado à prova de ataques –, presente que Obama deu a Israel, pensando em instalá-lo ali para ser usado, adiante, num possível futuro ataque dos EUA contra o Irã.

A explicação talvez seja essa. Cercado já por pesados muros de apartheid, Obama agora protegeu toda a empreitada colonial israelense com um “Domo de Ferro” de vários bilhões de dólares. Ah! E o quanto é simbólico o tal “domo”!

Agora, Israel está completamente, não só metaforicamente, convertida em máquina autista, autocentrada, encapsulada dentro de seus próprios muros inexpugnáveis e, ainda, com uma cúpula de ferro a proteger-lhes a cabeça, como uma nave militar espacial vinda de planeta estrangeiro e distante, com o objetivo de matar a maior quantidade de seres humanos, adultos e crianças, e, sempre, em total impunidade. Agora, com o tal Domo instalado, talvez Obama espere que, pelo menos, no caso de algum país da região jogar alguma bomba sobre Israel, os senhores-da-guerra israelenses tenham alguns minutos para pensar e, com sorte, talvez decidam não se pôr a bombardear Gaza.

Obama pescando
Tudo faz crer que a principal função da operação Gaza é mostrar a superioridade militar de Israel: conseguiram cercar 1,7 milhão de seres humanos no maior campo de concentração que o mundo jamais viu, para poder bombardeá-los sem qualquer “risco” de punição. Enquanto isso, Barack Obama, depois de dar luz verde a Israel, viajou para pescar em Myanmar.

A verdadeira ameaça existencial

Esses e talvez outros fatores estão todos no campo das possibilidades – mas nenhuma delas dá conta, nem singularmente nem coletivamente, dos motivos pelos quais Israel sempre, de tempos em tempos, põe-se a assassinar palestinos. Portanto, a pergunta continua: por quê?

Netanyahu jamais se teria atrevido a atacar Gaza quando a Primavera Árabe estava em plena floração. Nada disso. Naquele momento, dedicou-se a ameaçar invadir o Irã. Teria sido uma segunda linha de ataque de seu governo. – Mas não deu certo; Adelson e Murdoch não conseguiram comprar-lhe um presidente Republicano o qual, aí sim, teria presenteado Netanyahu com sua sonhada guerra ao Irã. E lá está Obama, outra vez, no Salão Oval. Então... Netanyahu atacou Gaza, como sempre, para mostrar que ele manda, que é o chefão, que imensa superioridade militar é a dele! Eis aí, afinal, porque as coisas sempre se repetem e Israel sempre volta e volta a atacar Gaza.

Mas, por baixo de todos esses fatores, há sempre o medo instintivo de Netanyahu, que treme de medo das revoluções árabes – dos levantes democráticos de ponta a ponta no mundo árabe.

Mahmoud Ahmadinejad
Porque esses levantes e essa democracia, sim, são A ameaça existencial que pesa contra Israel. Fantasiar que Mahmoud Ahmadinejad ou, mesmo, a República Islâmica seriam ameaça existencial contra Israel é piada perversa, doentia, que a máquina de propaganda israelense transformou em bicho-papão assustador, horrendo, apavorante.

As revoluções árabes, mesmo no estágio nascente, turbulento em que estão (ou principalmente nesse estágio) são, sim, ameaça existencial contra as colônias de apartheid exclusivas para judeus [orig. are the existential threat to the Jewish apartheid settler colony]. Para piorar, nem o partido Likud, nem os sionistas liberais parecem ter qualquer ideia sobre o que fazer ou propor para redesenhar o destino de mais de 6 milhões de judeus colhidos na armadilha do sionismo, essa ideologia falida, que tenta sobreviver cercada por trás de seus muros-armadilhas de apartheid e, agora, também coberta por um Domo-armadilha de Ferro.

Fazer chover bombas assassinas sobre palestinos inocentes em Gaza foi mais uma tentativa desesperada para fazer o relógio andar para trás, fazê-lo voltar a dezembro 2008/janeiro 2009, apenas um ano antes de as revoluções árabes eclodirem. Foi ato de nostalgia assassina pervertida, de sionistas alucinados, que se veem atropelados pela história.

É possível que Netanyahu também estivesse testando Mursi? Mas, nesse caso, não teria sido o único: egípcios e árabes em geral também estão testando Mursi (...).

Mas, de fato, o medo de Netanyahu e a causa de ter perdido o rumo e o prumo, não é Mursi. O que transtorna Netanyahu é, isso sim, a erupção vulcânica que, para começar, levou Mursi ao poder, em eleições livres. A Israel que Netanyahu governa, além da Arábia Saudita e outras petroditaduras retrógradas do Golfo Persa, e além dos EUA, por um lado, e, por outro, também o clericato que governa o Irã e a ditadura síria, todos esses temem um único e inegável fato: as revoluções árabes, que – mais dia menos dia, imediatamente ou dentro de algum tempo – porão abaixo todos esses regimes de opressão.

Nas excelentes palavras de of Haidar Eid [8], professor da Al-Aqsa University, em Gaza:

Haidar Eid
Agora é a hora da verdade, hora de mandar mensagem bem clara ao novo mundo árabe: a era Mubarak e Abu el-Gheit é passado. O poder de “contenção” que dependia do massivo desequilíbrio de poder entre Israel e os palestinos, já não está nas mãos de Israel e dos seus aliados ocidentais. Esse poder hoje está com os homens e mulheres comuns nas ruas de Túnis, Cairo, Rabat, Doha, Amã e Muscat. As manifestações, que irromperam em Londres, New York, Glasgow e outras cidades, todas elas, se traduzirão em nova realidade, concreta. Nesses novos tempos, palestinos e árabes, os egípcios em particular, devem ser parceiros da paz, não mediadores em negociações que os povos não controlam.




Notas de rodapé

[1]  21/11/2012, Jerusalem Post, em: Barak: We achieved all our goals against Hamas
[2]  21/11/2012, Associated Press, Josef Federman,em: Cease-fire begins between Israel and Hamas
[3]  16/11/2012, New York Times, Gershon Baskin em: Israel’s Shortsighted Assassination
[5]  17/11/2012, Informed Comment, Juan Cole: Top Ten Myths about Israeli Attack on Gaza
[6]  18/11/2012, redecastorphoto, Marwan Bishara, em: Oriente Médio redux: O Hamás é consequência, não causa, da violência da ocupação (português)
[7]  30/6/2006, New York Times, Marwan Bishara em: Mideast: End the cycle of retaliation - Editorials & Commentary - International Herald Tribune (em inglês).
[8]  19/11/2012, Al Jazeera, Haidar Eid, em: Gaza 2012!” 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os xiitas revolucionários


Malise Ruthven


22/11/2011, Malise Ruthven, New York Review of Books, vol. 58, n. 20
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


RESENHA DE: DABASHI, Hamid. 2011. Shi’ism: A Religion of Protest, Harvard: Belknap Press/ Harvard University Press, 413 pp., $29.95

O Bazare-e-Bozorg, mercado coberto na praça Naqsh-e Jahan, Isfahã, Irã, dezembro de 2003

1

Em 2004, antecipando a vitória dos partidos xiitas nas eleições parlamentares no Iraque, o rei Abdullah da Jordânia alertou contra o risco de “um crescente xiita” que se estenderia do Irã para Iraque, Síria e Líbano e dominaria o Irã, com sua ampla maioria de líderes religiosos xias e xiitas. A ideia foi rapidamente colhida pelo ministro das Relações Exteriores saudita, que descreveu a intervenção dos EUA no Iraque como “entregar o Iraque ao Irã”, uma vez que os EUA apoiavam lá vários grupos xiitas, depois de terem derrubado o governo sunita de Saddam Hussein. O presidente Hosni Mubarak do Egito disse que os xiitas residentes nos países árabes são mais leais ao Irã que aos respectivos governos nacionais. Em coluna publicada no Washington Post em novembro de 2006 [1], Nawaf Obaid, conselheiro para segurança nacional do rei Abdullah da Arábia Saudita, falava sobre a urgente necessidade de apoiar a minoria sunita no Iraque, que perdera o poder depois de séculos durante os quais governou uma maioria xiita, de mais de 65% da população iraquiana.

A fobia contra muçulmanos xiitas nada tem de novidade para a Arábia Saudita. A legitimidade do reino saudita lhe advém do culto de uma seita wahhabista do islamismo, de um grupo de muçulmanos sunitas que atacaram santuários xiitas no Iraque no século 19 e que, hoje, discrimina sistematicamente contra os xiitas. Sabe-se, por documentos publicados por WikiLeaks, que o governo dos EUA considera a monarquia saudita como “base de apoio financeiro fundamental” para a al-Qaeda, os Talibã, o grupo Lashkar-e-Taiba e outros grupos terroristas. À parte atacarem alvos norte-americanos e indianos, todos esses grupos são violentamente antixiitas. Sabe-se também que o rei saudita, ardilosamente, exigiu que os EUA, seus aliados, cortassem “a cabeça da serpente” – o que, traduzido, significa atacar o Irã xiita.

No Bahrain, os protestos pró-democracia feitos por xiitas (cerca de 70% da população) prosseguiram sobretudo em vilas xiitas em torno da capital, Manama, apesar das décadas de perseguições pelo governo, recentemente com a ajuda de tropas sauditas e de mercenários sunitas vindos da Jordânia, do Paquistão e dos Emirados Árabes Unidos. Os sauditas, que abertamente enviaram soldados para o Bahrain em março, vivem aterrorizados, temendo que os protestos espalhem-se pela Província Oriental, rica em petróleo, onde vivem as minorias xiitas da Arábia Saudita. Ativistas de direitos humanos lembram que os xiitas são menos de 20% da força de trabalho no reino saudita e menos de 2% dos integrantes da polícia e forças de segurança dos sauditas. [2]

Vários dos envolvidos nos recentes levantes árabes dizem que as ansiedades sectárias são deliberadamente estimuladas por regimes autoritários, para manter subjugadas as minorias. O espectro da violência sectária pode vir a revelar-se mais uma “profecia” que se autorrealiza.

Muitos dos manifestantes nas ruas do Oriente Médio negam seguir agendas religiosas ou sectárias; reivindicam democracia, direitos civis, o fim da corrupção e novos governos eleitos. Timur Kuran escreveu, em coluna no New York Times [3] na primavera passada, que a maioria daqueles manifestantes parece não ter ideologia específica ou coerente nem estar organizada em grupos políticos disciplinados. Exceção nesse quadro é a altamente organizada e disciplinada Fraternidade Muçulmana (organização sunita), cujo Partido Liberdade e Justiça é o mais cotado para eleger a maioria nas eleições egípcias, graças à organização e a popularidade dos vários programas de estado de bem-estar informal que mantêm. A estrutura piramidal da Fraternidade Muçulmana combina traços da tradicional ordem sufi (muçulmanos místicos), constituída de vários graus hierárquicos de iniciação, com modernos métodos de organização, como ônibus para transportar eleitores às urnas. A Fraternidade Muçulmana é a opositora muito forte a ser derrotada, na falta de qualquer tipo de organização intermediária entre os indivíduos e o Estado.

A fragilidade das organizações da sociedade civil que caracteriza muitas sociedades muçulmanas ajuda a entender a facilidade com que grupos assumem o controle do Estado, sejam grupos militares sejam grupos religiosos ou tribais. E regimes de força servem-se frequentemente do espectro do conflito sectário para justificar as medidas de repressão. A experiência dos EUA no Iraque – onde a política tresloucada implantada pelo administrador dos EUA no Iraque, Lewis Paul "Jerry" Bremer III, de dissolver o exército e o Partido Baath imediatamente depois da invasão norte-americana, levou a um conflito brutal entre a maioria xiita e a minoria sunita muito enfraquecida – expôs as fundações frágeis da identidade nacional iraquiana, traço que o Iraque partilha com muitos outros países do Oriente Médio. 

O xiismo, como explica Hamid Dabashi, nesse seu novo livro, desafiador e brilhante, é complemento perfeito para o poder, mas deixa a desejar como moderna ideologia de Estado. O xiismo nasceu com as disputas pela sucessão de Maomé, que morreu em 632, aos 60 anos, sem haver nomeado sucessor. Seu auxiliar mais próximo era Ali, seu primo e genro, marido de Fatima, filha do Profeta. A minoria xiita acredita que Ali tenha sido designado para suceder Maomé e que, por três vezes, o poder sobre o califato – a liderança sobre todo o Islã – lhe foi usurpado, até que Ali foi assassinado por um apoiador desiludido, depois de um reinado curto e muito contestado.

O filho mais jovem de Ali, Husayn foi morto em Karbala em 680 numa tentativa frustrada para conquistar o califato então sob domínio da dinastia Umayyad que reinava em Damasco e, assim, restaurar a legítima linha sucessória do Profeta. Embora os Umayyads tenham sido derrubados numa revolta inspirada pelos xiitas em 750, a vitória não coube a descendentes diretos de Maomé, mas a um de seus tios, Abbas. Apesar de uma tradição da maioria, que mais tarde passaria a ser chamada “sunita”, incluir Ali como o 4º dos “califas corretamente orientados”, os xiitas minoritários rejeitam os três primeiros califas que sucederam Maomé, os quais são, até hoje, ritualmente amaldiçoados nas mesquitas xiitas.

Os xiitas, em resumo, crêem que a liderança do Islã – quando não também seus ensinamentos – foi usurpada, desviada do curso natural por usurpadores. Convencidos de que a causa do verdadeiro Islã havia sido traída pelos Umayyads, e mais tarde pelo Califato abbassida (750-1258), os xiitas reuniram-se em torno de seus líderes usurpados, os imãs (“autoridades religiosas da Casa de Ali”) para restaurar a religião verdadeira e o governo legítimo. Diferente do cisma que separou católicos e protestantes, depois de 15 séculos de unidade na cristandade ocidental, o legado de Maomé é disputado, pode-se dizer, desde os primeiros dias da própria religião.

Max Weber, como se sabe, demarcou uma distinção entre profetas “exemplares”, como o Buda, que indicam o caminho da salvação pelo exemplo pessoal; e os profetas “éticos”, como Maomé, que exigem que seus ensinamentos sejam respeitados. Dabashi, nesse livro, discorda dessa classificação weberiana; para ele, Maomé reúne traços das duas categorias – com consequências diferentes para as duas principais tradições religiosas que nasceram daquela mesma origem e missão. Enquanto a vasta maioria dos muçulmanos sempre foi de sunitas que “assimilaram a conduta exemplar do Profeta” (e os ensinamentos do Corão), incorporando-os na Lei da Xaria, os xiitas “não querem que se perca o caráter exemplar do Profeta e, assim, trabalham para estender sua presença carismática incorporando-a em seus imãs”. Sempre foi indispensável “a presença exemplar de um imã”, para manter o caráter carismático do Profeta.

A diferença crucial entre xiitas e sunitas não está tanto na letra da lei – que os estudiosos sunitas interpretam segundo uma hierarquia de fontes que incluem o Corão, a prática do Profeta (sunna, costume), o consenso e o raciocínio por analogia. Essa diferença crucial está na autoridade quase mística de que são investidos os intérpretes sunitas, na sua missão de interpretar a lei. 

Na tradição sunita, os ulama, ou estudiosos encarregados de interpretar e, nesse sentido, distribuir e aplicar a lei, são uma espécie de categoria rabínica, encarregada de interpretar o Corão e distribuir os ensinamentos éticos que se inferem da conduta exemplar do Profeta, como registrada nos hadith (relatos tradicionais; traduz-se também por “tradições”). 

A tradição geral sunita está hoje divida em quatro principais escolas “de estudos da lei”, às quais se permitem variações na interpretação dos textos canônicos. Os aspectos místicos “não mundanos” do legado do Profeta são hoje terreno de estudos e práticas do sufismo, ordens místicas que cresceram em torno de miríades de “homens santos”.

Os xiitas, por sua vez, institucionalizaram o carisma do Profeta, investindo-o nos imãs, cujo conhecimento vem também de fontes de conhecimento esotérico às quais, mediante os líderes religiosos, os xiitas também têm acesso. Por isso há quem diga que o xiismo faz abordagem mais unificada do Islã, que o sunismo, embora essa abordagem (como o protestantismo) oponha-se à corrente dominante. Durante a era de formação do Islã, muitos dos imãs santos (sem pecado) dos xiitas na linha de Maomé foram massacrados e convertidos em mártires, pelos califas sunitas usurpadores. Depois de o 12º imã na linha direta de sucessão de Maomé “desaparecer”, em 940, a autoridade xiita passou a ser exercida por um poderoso establishment clerical – comparável ao establishment católico. Esses especialistas em temas da religião eram considerados detentores do conhecimento esotérico e mestres na arte da interpretação, indispensáveis para dar orientação direta à vida das comunidades. Há semelhanças impressionantes com os primeiros tempos da cristandade. Para os chamados Ithnasharis, ou “Dozesistas” (a maioria dos xiitas), o imã “desaparecido”, ou “Imã Oculto” é figura messiânica que um dia voltará (como o Cristo na ressurreição), para trazer paz e justiça a um mundo caído em desgraça e guerras.

Dabashi mostra como esse sistema tradicional de crenças, que se conserva na cultura popular, volta à superfície na literatura contemporânea. A morte inaceitável do Imã Husayn – neto do Profeta – em Karbala, em 680, é anualmente reencenada em montagens populares da Paixão, que se veem em todas as cidades e vilas do Irã. Para os xiitas comuns, é o mártir arquetípico, que morreu lutando por justiça e verdade; para autores marxistas, como Khosrow Golsorkhi (1944-1974) e Ahmad Shamlou (1925-2000), Husayn é, simultaneamente, uma vítima, como Cristo, e um ícone revolucionário. Para Ali Shariati (1933-1975), ideólogo islamista e pensador que inspirou a revolução iraniana de 1979, é “figura cósmica, cujo assassinato pesa na consciência de toda a humanidade”. Na tradição dos “Doze do Islã”, o “desaparecimento” do último imã iniciou uma tradição escolástica “na qual a santidade da letra da lei” passou a representar (e importantíssima) “a presença carismática dos imãs xiitas.” 

Os pensadores (“interpretadores”) xiitas não constituem uma igreja no sentido cristão, porque não há sacramentos formais e não lhes são dados poderes para salvar os muçulmanos ou dar-lhes absolvição. Os mais altos líderes, os aiatolás (“signos de deus”), não são organizados em hierarquia, mas ganham seguidores – e riqueza considerável – diretamente do reconhecimento, na sociedade, de seus saberes, além de receberem também o pagamento de impostos religiosos. Os aiatolás xiitas não compõem corpo monolítico, longe disso. Diferem muitíssimo uns dos outros (como entre os sunitas) em termos de doutrina e práticas. Mas, diferentes dos aiatolás sunitas (cuja autoridade diminuiu muito desde o império otomano, com o crescimento do estado moderno e da educação secular), os aiatolás xiitas ainda conservam extraordinária capacidade para promover mudanças nas sociedades onde vivam.

Além do mais, a bomba relógio escatológica [4] que se oculta no mito da volta do Imã Oculto, tem também uma formidável carga política. A Tradição dos Doze Imãs Xiitas é absolutamente dominante no Irã (90%) e em países vizinhos: Azerbaijão (85%), Iraque (65%) e Bahrain (75%), com minorias importantes no Kuwait (40%), na Arábia Saudita (cerca de 8%), no Afeganistão (30%) e no Paquistão (30%).

No Iraque, manifestantes exibem imagens do
líder xiita Moqtada al-Sadr (Bagdá, abril de 2004).
Os governos do Golfo têm bons motivos para muito nervosismo. Revoltas inspiradas por líderes xiitas foram muito frequentes nos primeiros séculos do Islã; e vários movimentos sociais e tribais ganharam fôlego político ante a perspectiva da volta do Imã Oculto, ou justificadas pela aspiração de fazerem justiça aos herdeiros usurpados do Profeta. Até que, em fevereiro de 1979, Khomeini chegou a Teerã. 

Por mais que Khomeini tenha sido suficientemente inteligente – e religiosamente correto – e jamais se tenha formalmente apresentado como o Imã Oculto, deixou que crescessem as expectativas populares em torno de seu nome, como se o Imã Oculto trabalhasse a seu favor.

Dabashi argumenta que a tensão entre o legalismo intelectual da tradição e o ímpeto revolucionário produz um equilíbrio sempre precário. Exemplifica com o caso do Iraque onde, por um lado, há o Grande Aiatolá Ali Sistani, com 81 anos, intelectual e jurista; e, por outro lado, há o militante radical e líder popular Seyyed Moqtada al-Sadr, “dois xiitas em dois pontos opostos mas complementares da mesma fé, defendendo uma causa comum e sustentando o destino histórico da própria comunidade, por duas vias rigorosamente paralelas, embora retoricamente divergentes”. O poder nominal está hoje com Nuri al- Maliki, que tem de negociar esse delicado equilíbrio xiita tendo, do outro lado, os sunitas do Iraque, os curdos e outras minorias.

Vê-se a mesma tensão também muito visível no Irã, onde o presidente Mahmoud Ahmadinejad desafia a autoridade do Supremo Líder, o aiatolá Ali Khamenei. No período que antecede as eleições de 2013, Ahmadinejad tenta ocupar efetivamente a presidência. A disputa entre o presidente – acusado pelo “Movimento Verde” de ter fraudado as eleições de junho de 2009 – e Khamenei (sucessor de Khomeini, como Supremo Líder) reflete o que o sociólogo Sami Zubaida descreveu como “uma dualidade contraditória de duas soberanias” – entre Deus e o povo –, inscrita na Constituição da República Islâmica” [5].

As expectativas populares relacionadas ao retorno do Imã Oculto são cruciais nessa disputa. Khamenei, que representa uma parte da “velha guarda” clerical que chegou ao poder com a revolução, já sugeriu, até, que se altere o sistema parlamentar iraniano, e que se elimine a figura do presidente eleito – movimento que o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani declarou “contrário à Constituição e que comprometeria o poder do povo para escolher governantes”. Ahmadinejad optou por uma virada escatológica no debate: declarou que muçulmanos comuns não precisam da intermediação de clérigos para manter contato com o Imã Oculto (“leitura” que já foi descrita como “desviante” por clérigos conservadores). 

No cerne desse debate está o problema da legitimidade, baseado, como Dabashi o vê, numa longa tradição na qual os impulsos revolucionários nascidos da usurpação histórica do direito de suceder Maomé competem com ansiedades compulsivas sobre qual o comportamento social mais “correto”, mais próprio:

Quanto mais voláteis, instáveis e impulsivas são as irrupções dos movimentos revolucionários no xiismo, desde a Idade Média até hoje, por causa de sua origem traumática, mais o xiismo busca encontrar a interpretação precisa, exata, da lei xiita, para conseguir regular, até o mais mínimo detalhe, os assuntos da vida dos crentes xiitas – dos rituais de limpeza do corpo, aos detalhes dramatúrgicos de suas reuniões comunitárias, e, também, a eterna desconfiança política contra todos que reclamem autoridade legítima exclusiva.

Rituais de limpeza corporal servem para reforçar as identidades comunitárias. Como a antropóloga Mary Douglas observou no seu clássico Purity and Danger, regras sobre a lavagem do corpo são substitutos de regras de moralidade: “Não dependem de nenhum equilíbrio de direitos e deveres. A única questão material é se houve ou não contato proibido”.

Ao mesmo tempo, como Dabashi sugere, a noção religiosa de que direitos essenciais dos seres humanos teriam sido violentados por poderes existentes, que jaz no coração do xiismo, contribui para a noção segundo a qual

a veracidade da fé só permanece legítima se é combativa, se não se acovarda e se sempre diz a verdade ao poder; mas (inversamente) quase instantaneamente perde aquela legitimidade, quando chega realmente ao poder político.

Resolução lógica desse paradoxo seria uma separação formal de poderes entre religião e Estado, segundo a qual as lideranças religiosas “dizem a verdade ao poder”, sem exercer, simultaneamente, autoridade executiva. Essa foi a posição dos clérigos durante o regime dos xás Pahlavi e durante a maior parte do reinado da dinastia Qajar que os precedeu (1785-1925), quando houve o que Said Amir Arjomand chamou de “concordata tácita” entre o Estado e o establishment clerical (mas os clérigos cuidavam para não criticarem as políticas da dinastia).

Quem alterou radicalmente aquela concordata de facto foi Khomeini, com sua doutrina do Vilayet e-Faqih – do Conselho dos Guardiães Jurisconsultos – segundo a qual o Líder Supremo e o Conselho de Guardiães indicado por ele aprovam os candidatos parlamentares e têm poder de veto sobre leis aprovadas pelo Parlamento (além de controlarem boa parte da burocracia e das forças armadas), competindo, nisso, com o presidente eleito. 

A contradição no coração da República Islâmica exemplifica o que Zubaida descreve como “dualidade contraditória de duas soberanias” e constitui obstáculo considerável a qualquer reforma. Foi o Conselho de Guardiães, por exemplo, que efetivamente derrotou a agenda reformista do presidente Sayyid Mohammad Khatami (1997-2005), rejeitando suas propostas (aprovadas pelo Parlamento), a favor de mudanças na Constituição para reduzir o poder do Conselho e ampliar os poderes do presidente. Em termos constitucionais, a luta de Khatami foi semelhante à que Ahmadinejad trava hoje.

Esse impasse constitucional, na minha opinião, é efeito direto do paradoxo da legitimidade que Dabashi identifica. 

2.

Se Dabashi se tivesse limitado à análise política e teológica, sua tese já seria suficientemente interessante, mas o autor é mais ambicioso. Como explica no Prefácio, parte de seu livro mapeia uma “ampla mudança epistêmica” no xiismo, das questões doutrinais que brotam de eventos históricos, para manifestações artísticas da fé, inclusive na literatura e na arquitetura. Questão que surge é como uma visão tão ampla da fé pode preservar o rótulo distintivo, como xiita – uma vez que muitos dos traços que Dabashi demarca podem ser descritos, mais amplamente, como “islâmicos”, ou, mais especificamente, como persas ou iranianos. Dabashi escreve eloquentemente sobre quatro mestres da literatura persa – entre os quais o grande místico Jalal al-Din Rumi (1207-1273), fundador da ordem Mehlevi de derviches; e o poeta Sa’di (1184-1291). Vê esses autores persas como vanguarda de uma tradição literária que culmina na lírica do grande Hafez (c. 1320-1389), que deu

a todos que tenham tido a sorte de nascer depois dele um universo em expansão, como Bach, Mozart e Beethoven mapearam a topografia do cosmos emocional dos filósofos e místicos europeus.

Essas grandes figuras, Dabashi reconhece, transcendem as afiliações sectárias, como os grandes artistas que cita transcendem as tradições luteranas ou católicas dentro das quais nasceram e formaram-se. “Quando os lembramos, nem sabemos nem nos importa saber se são sunitas ou xiitas, nem a diferença tem qualquer importância.”

Fiel a essa abordagem, Dabashi argumenta que o xiismo não é tanto uma seita ou uma tradição minoritária do Islã; que é, mais, uma versão ampla, compreensiva e variada de toda a fé. É o “próprio sonho/pesadelo do Islã como espalhou-se pelo mundo (...), uma promessa já tornada impossível de cumprir-se, para a própria fé e para o mundo.” É a “alma oculta do Islã, o suspiro de alívio de todos os próprios sofrimentos contra um mundo em estado de permanente mal-estar ante o que é”. 

Mas essa visão do xiismo como uma força moral, ou uma consciência, incorporada nas próprias raízes do Islã parece contradizer o relato histórico que o autor faz da Pérsia safavida [6], para ele a apoteose da civilização islâmica, com variados traços do xiismo misturados triunfantemente no “no painel paradoxal do que foi então uma religião da maioria do Estado, com persistente complexo de minoria.” 

Os safavidas, que governaram a Pérsia e terras circundantes entre 1501 e os anos 1730s, fizeram do xiismo a religião do Estado. Segundo Dabashi, conseguiram integrar as dimensões místicas e práticas do Islã sobre fundamentos xiitas, mantendo ao mesmo tempo uma abordagem filosófica consoante com a ideia de Deus como o intelecto cósmico ou consciência máxima. Dabashi vê o esplendor arquitetural de Isfahã, capital safavida, como expressão material de um espírito intelectual comparável ao que a cristandade ocidental alcançara às vésperas do Iluminismo. Para ele, a magnífica praça [meydan] Naqsh-e Jahan (Imagem da Praça do Mundo) corresponde à visão de Immanuel Kant, de um espaço público vasto e vital. Ali ter-se-ia aberto o caminho para que “a razão se tornasse pública, para que o intelecto saísse das cortes reais e da santidade das mesquitas, e adentrasse e encarasse a face política de toda uma nova concepção de um povo.” 

Tragicamente, na visão de Dabashi, a ideia dos safavidas de um espaço público como fórum de discurso racional sucumbiu ante os “lobos famintos”: os invasores afegãos, rivalidades imperiais entre russos e otomanos, e as maquinações coloniais de franceses e britânicos. Forças internas de dissolução também participaram, com um tribalismo violento substituiu a vigorosa cultura pública e cosmopolita que os safavidas haviam criado. Ao final do século 18, o Irã xiita havia regredido a formas tribais de governo, com restauração do escolasticismo religioso.

O triunfo do tribalismo nômade na dinastia Qajar, que se estendeu de 1785 até 1925, “exigia uma classe clerical de juristas de turbante e seu escolasticismo feudal para proteger sua sempre precária legitimidade.” Essa regressão histórica, segundo Dabashi, foi exacerbada pela vitória doutrinal da escola Usuli de juristas (que usavam o raciocínio independente em suas sentenças) sobre os Akhbaris, mais limitados pela existência de precedentes.

Tudo isso considerado, a visão de Dabashi aparece como contraintuitiva, porque o uso do raciocínio independente poderia garantir maior espaço para a iniciativa individual e a razão pública. Mas se se considera o peso do renovado tribalismo na era pré-safavida, a vitória dos juristas Usuli serviu para promover a autoridade clerical, à custa dos aspectos públicos e cosmopolitas do xiismo que o Estado safavida encorajara. De fato, o establishment clerical firmou um pacto com os governantes tribais nômades, usando a autoridade para promover o próprio poder, em troca de privilégios clericais. Membros de um establishment clerical autorreferente, xenófobo, obcecado com rituais de lavagem e purificação, tornaram-se guardiães da tradição e portadores privilegiados da identidade popular, processo que foi acelerado pelas respostas defensivas contra os enclaves territoriais de russos e otomanos e, depois, pelas pressões de um já crescente poder europeu.

Mesquita  Sheik Loft Allah vista do palácio de Ali Qapu, Isphahan, Dez. 2003
Dabashi é fascinado não só pelas ramificações intelectuais e políticas desse processo – a ascensão de Khomeini, a queda do xá, o estabelecimento da República Islâmica –, mas também pelo que se pode chamar de suas manifestações na psique xiita. Explorando essa paisagem, reconhece e agradece a influência de seu professor e orientador Philip Rieff (1922-2006), autor de The Triumph of the Therapeutic [7], e dos principais intérpretes de Freud.

Segundo Rieff, os sintomas neuróticos que Freud identificou em seus pacientes eram reflexo do declínio das moralidades tradicionais: as âncoras religiosas afrouxaram-se, os desejos instintivos escaparam a qualquer controle. Freud concebeu, como solução, oferecer aos pacientes uma técnica que os capacitasse a administrar a vida instintual de modo prudente e racional. A falha, na abordagem ateísta de Freud – segundo Rieff – estaria em não conseguir ver que persistência dos mitos repressivos que informam a ação humana tem raízes numa fonte de autoridade supraempírica ou transcendental, a saber, no sagrado.

Na visão de Rieff, a autoridade baseada no sagrado infunde culpa em nossa criatividade, sem a qual não podemos administrar nossos impulsos instintivos. Desejo e limitação, eros e autoridade, são intimamente conectados. A tensão entre tudo isso é fonte de energia para todos os tipos de fazeres artísticos. Mas se os desconstruímos e, na desconstrução, os desmascaramos, como a polícia secreta, os terapeutas, nos fazem fazer, nossa cultura perde o vigor [8]. “Cultura sem repressão, se pudesse existir” – escreve Rieff em passagem citada por Dabashi, “matar-se-ia ela mesma, diminuísse a distância entre o desejo e seu objeto. Todo o pensado e o sentido seria feito, instantaneamente (...) Em resumo, a cultura é repressiva”. 

Adotando uma abordagem que se baseia nas ideias de Rieff, Dabashi analisa dois trabalhos bem conhecidos de artistas iranianos. Em Close-Up (Nema-Ye Nazdik, 1990), Abbas Kiarostami criou um filme sobre pessoa real – Hossein Sabzian – que, na vida real representou o celebrado ativista convertido em cineasta Mohsen Makhmalbaf. Nesse filme, Kiarostami faz Sabzian reencenar aquela representação frente às câmeras. O filme, segundo Dabashi, é movido pela “estética da representação formalizada”: Kiarostami joga com o efeito de duplo espelho, a ironia, de ter uma pessoa real representando ela mesma numa recriação ficcional de evento real.

As implicações políticas ficam sem explorar, nesse estudo. Dabashi vê o filme de Kiarostami como exemplo da profunda fissura que há dentro do xiismo, entre arte e política, com a arte desengajada da política, e a política assumindo

uma disposição ideológica crescentemente unilateral, apoiada quase exclusivamente no escolasticismo feudal das suas raízes, ao custo, altíssimo, de negar, rejeitar ou destruir a herança não jurídica – da herança filosófica e mística, à herança literária, poética, performativa e visual.

Em contraste com Close-Up, Dabashi encontra graça e redenção e “ato singular de piedade visual” em Tuba (2002), uma vídeo-instalação da artista Shirin Neshat. Nesse vídeo, a face de uma mulher “dissolve-se” [fades out] numa paisagem de colinas pedregosas. Peregrinos param à entrada de um espaço sagrado, antes de entrar, ou profanar, o local. A demorada descrição de Dabashi traça a arqueologia da instalação de Neshat, desde a origem ambígua numa frase do Corão, elaborada nos primeiros comentários, até a invocação gnóstica de uma divindade feminina e o paraíso que se esvai no romance Tuba and the Meaning of Night (1988) de Shahrnoush Parsipour. 

O comentário sugere que a fissura psíquica que acomete o xiismo, entre o escolasticismo dos aiatolás e o formalismo estético – que o autor lamenta – pode ser transitório. Dabashi escreve que, embora alguma cultura possa fantasiar que seria, ela mesma, “secular”, mesmo assim “as memórias sagradas estão sempre ativadas, pensando as ideias sociais e povoando os sonhos do povo”. 

Iraniano-norte-americano bem conhecido por sua hostilidade contra Israel e as políticas dos EUA para o Oriente Médio, Dabashi não faz concessões. 

Ataca Seyyed Vali Reza Nasr, autor do conhecido The Shia Revival (“informante nativo”, que reduz “a cultura do xiismo, que é multifacetada, polifônica, mundana, transnacional e cosmopolita” a um sistema “unívoco, de um só lado, divisionista, sectário e faccioso” – perspectiva que serve para “facilitar a ocupação militar, pelos EUA, de uma área estratégica”, ao mesmo tempo em que parece “confirmar” como fato “o clericalismo beligerante de todos os xiitas”). No caso de Noah Feldman, conselheiro jurídico de Paul Bremer, Dabashi acusa-o de ter introduzido o sectarismo na Constituição do Iraque.

No cômputo geral, a crítica da opinião de acadêmicos como ele, que algumas vezes parece precipitada ou injusta, é largamente contrabalançada pela visão generosa de Dabashi, não do xiismo, mas do Islã concebido de maneira muito ampla. Para construir seu argumento e sua visão, Dabashi combina suas reflexões sobre a cultura islâmica e um grupo impressionante de pensadores ocidentais (entre os quais Hegel, Nietzsche, Marx, Weber e Habermas) – e muito Freud, refratado pelo pensamento importante, mas tantas vezes negligenciado, de Philip Rieff.

O livro de Dabashi aqui resenhado é extraordinariamente rico e poderoso; extrai o xiismo dos guetos sectários aos quais foi confinado, desde quando foi convertido em arma ideológica do Império Persa, no confronto com os sunitas otomanos. E presta importante serviço ao pensamento ocidental contemporâneo – cultural e político –, ao expor uma reflexão sobre o xiismo na qual se ouvem mais as vozes profundas históricas do próprio xiismo que as opiniões do Departamento de Estado ou do Departamento de Defesa dos EUA, ou da “mídia”, sobre o Irã contemporâneo, visto exclusivamente como inimigo de guerra.

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Notas dos tradutores


[2] Os tradutores optaram por excluir desse ensaio todos os comentários sobre a situação na Síria, que é caso especial, sobre o qual nenhuma informação produzida no ocidente é confiável. A exclusão nos livra de divulgar informação “de guerra” pró-EUA e seus aliados, sem, simultaneamente, nos impedir de ler o que é reflexão menos comprometida, nesse artigo, sobre tema absolutamente ausente na imprensa ocidental, em português. No endereço acima, em inglês, o artigo pode ser lido na íntegra, com todos os comentários do resenhista, sempre pró-EUA. Sem os comentários do resenhista “enviesada”, o artigo nos pareceu interessante. O inverso complementar perfeito da “liberdade de escrever” é a “liberdade de apagar”.

[3] 28/5/2011, NYT - “The weak foundations os Arab democracy”.

[4]
Orig.eschatological. O adjetivo “escatológico” tem duas acepções em português. Está usado aqui na acepção 2, teológica, que se lê no Dicionário Houaiss: “relativo a escatologia, doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico”.

[5] ZUBAIDA, Sami. Islam, The People and the State: Political Ideas and Movements in the Middle East (Routledge, 1989). Ver também, do mesmo autor, “Is Iran an Islamic State?”, em Political Islam: Essays from Middle East Report, Joe Stork e Joel Beinin (Eds.) University of California Press, 1996).

[6] Sobre a dinastia dos safavidas persas (em inglês).

[7] RIEFF, Philip, O Triunfo da Terapêutica, São Paulo: Ed. Brasiliense, 1ª ed. 1990, 267 pp. (esgotado na editora).