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domingo, 18 de setembro de 2011

O fim da ética da IstoÉ, a revista que vende reportagens por quilo


Da Secretaria Nacional do MST em 18 de setembro de 2011


A revista IstoÉ publica na capa da edição desta semana um boné do MST bem velho e surrado, sob terras forradas de pedregulhos.

Decreta na capa “O fim do MST”, que teria perdido a base de trabalhadores rurais e apoio da sociedade.

Premissa errada, abordagem errada e conclusões erradas.

A mentira

A IstoÉ informa a seus leitores que há 3.579 famílias acampadas no Brasil, das quais somente 1.204 seriam do MST.

A revista mente ou equivoca-se fragorosamente. E a partir disso dá uma capa de revista.

Segundo a revista, o número de acampamentos do MST caiu nos últimos 10 anos. E teria chegado a apenas 1.204 famílias acampadas, em nove acampamentos em todo o país.

Temos atualmente mais de 60 mil famílias acampadas em 24 estados.
Levantamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) aponta que há 156 mil famílias acampadas no país, somando todos os movimentos que lutam pela democratização da terra.

A revista tentou dar um tom de credibilidade com as visitas a uma região do Rio Grande do Sul, onde nasceu o Movimento, e ao Pontal do Paranapanema, em São Paulo. 

Se contasse apenas os acampados nessas duas regiões, chegariam a um número bem maior do que divulgou.

A reportagem poderia também ter ido à Bahia, por exemplo, onde há mais de 20 mil famílias acampadas que organizamos.

O repórter teve oportunidade de receber esses esclarecimentos e até a lista de acampamentos pelo país.
Mas não quis ou não fez questão, porque se negou a mandar as perguntas por e-mail para o nosso setor de comunicação.

Outra forma seria perguntar para o Incra ou pesquisar no cadastro do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). 

Tampouco isso a IstoÉ fez.

Se foi um erro, além de incompetente, a direção da IstoÉ é irresponsável ao amplificá-lo na capa da revista.

Se não foi um erro, há mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, como escreveu William Shakespeare.

O desvio

A IstoÉ se notabilizou nos últimos tempos nos meios jornalísticos como uma revista venal. A revista é do tipo “pagou, levou”. Tanto é que tem o apelido de "QuantoÉ".

Governos, empresas, partidos, entidades de classe, igrejas (vejam a capa da semana anterior) compram matérias e capas da revista. E pagam por quilo, pelo “peso” da matéria.

A matéria da IstoÉ não é fruto de um trabalho jornalístico, mas de interesses de setores que são contra os movimentos sociais e a Reforma Agrária.

Não é de se impressionar uma vez que a revista abandonou qualquer compromisso com jornalismo sério com credibilidade, virando um “ativo” para especuladores.

Nelson Tanure e Daniel Dantas, do Grupo Opportunity, banqueiro marcado por casos de corrupção, disputaram a compra da revista em 2007.
Com o que esses tipos têm compromisso? Com o dinheiro deles.

Reação do latifúndio

A matéria é uma reação à nossa jornada de lutas de agosto.

Foram mobilizados mais de 50 mil trabalhadores rurais, em 20 estados.

Um acampamento em Brasília, com 4 mil trabalhadores rurais, fez mobilizações durante uma semana e ocupou o Ministério da Fazenda para cobrar medidas para avançar a Reforma Agrária.

A jornada foi vitoriosa e demonstrou a representatividade social e a solidez das nossas reivindicações na luta pela Reforma Agrária.

O governo dobrou o orçamento para a desapropriação de terras para assentar 20 mil famílias até o final do ano, liberou o orçamento para cursos para trabalhadores Sem Terra, anunciou a criação de um programa de alfabetização e a criação de um programa de agroindústrias.

Interesses foram contrariados e se articularam para atacar o nosso Movimento e a Reforma Agrária. Para isso, usam a imprensa venal para alcançar seus objetivos.

Os resultados da jornada e a reação do latifúndio do agronegócio, por meio de uma revista, apenas confirmam que o MST é forte e representa uma resistência à transformação do Brasil numa plataforma transnacional de produção de matéria-prima para exportação e à contaminação das lavouras brasileiras pela utilização excessiva de agrotóxicos.

A luta vai continuar até a realização da Reforma Agrária e a consolidação de um novo modelo agrícola, baseado em pequenas e médias propriedades, no desenvolvimento do meio rural, na produção de alimentos para o povo brasileiro sem agrotóxicos por meio da agroecologia.

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Enviado por Alípio Freire

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O retrato de um país feliz


A incontestável vitória de Dilma Rousseff tem um significado especial. Ela simboliza a ascensão social e econômica de milhões de brasileiros

Por Leonardo Attuch
Para além da continuidade nas políticas econômica e social, Leonardo Attuch, redator-chefe da Dinheiro, aposta em uma ênfase maior às mulheres na composição do novo governo. 
Confira a análise em vídeo abaixo:


Dia D. O 31 de outubro de 2010 será lembrado para sempre como o Dia Dilma. O dia em que o Brasil consagrou, pela primeira vez em sua história, uma mulher como presidente da República. Dilma Vana Rousseff, uma mineira de 62 anos, chega ao poder pelos votos de 55,7 milhões de brasileiros, 12 milhões a mais do que seu oponente José Serra. 
Um resultado convincente, incontestável e que revela um significado óbvio: a presidente eleita é o retrato de um Brasil feliz e que pretende seguir no mesmo rumo, com crescimento econômico e inclusão social. 
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"Como a primeira mulher a chegar à Presidência da República, eu não tenho o direito de errar.
E eu não vou errar"
De um país onde mais de 40 milhões de pessoas – praticamente uma Espanha – foram incorporadas à classe média e ao mercado de consumo nos últimos anos. E onde a erradicação da pobreza extrema já parece ser uma meta alcançável num horizonte relativamente curto.“Eu pretendo honrar a confiança dos brasileiros”, disse Dilma Rousseff, na noite do domingo 31, ao saber do resultado final. “Vou dar tudo de mim e um pouco mais.”
Chegar à Presidência da República de qualquer nação relevante nunca é fruto de uma escolha pessoal – é quase sempre destino. Da militância estudantil ao Palácio do Planalto, Dilma construiu uma trajetória única e absolutamente original. Combateu a ditadura militar, foi presa, incorporou-se à vida política no Rio Grande do Sul, enfrentou o apagão elétrico como secretária de Minas e Energia do governo gaúcho e foi descoberta pelo PT às vésperas da posse de Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato. 
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Rumo mantido: Lula cumprimenta sua candidata pela eleição. "Valeu, Dilma", disse ele 
Trabalhadora, firme e disciplinada, ela foi aos poucos conquistando seu espaço em Brasília e soube se impor sobre outros nomes do PT que antes pareciam mais fortes. Ao longo da campanha, mostrou fibra, determinação e transmitiu mais credibilidade e sinceridade ao eleitor. 
Ganhou não apenas pela popularidade transferida a ela pelo presidente Lula, mas também por seus próprios méritos. Um deles, o de contribuir, com a coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento, para o novo ciclo de desenvolvimento que se inicia no Brasil. 
Afinal, os ventos que a levam ao Palácio do Planalto são, sobretudo, econômicos. A média de crescimento do PIB nos oito anos do governo Lula foi de 4%, o que foi suficiente para gerar mais de 14,5 milhões de empregos com carteira assinada. São brasileiros que, como a grande maioria da população, progrediram nos últimos anos. 
“O ganho não foi apenas econômico, mas essencialmente de autoestima”, avalia o professor e ex-ministro Delfim Netto. “Perdemos definitivamente o nosso complexo de vira-latas.” 
No campo social, a curva de redução da pobreza extrema, que já vinha caindo desde 1994, com a implantação do Plano Real, acentuou-se nos últimos anos. Eram 26,6% da população em 2002 e hoje são 15,5%. E a renda média do trabalho também avançou de forma mais rápida. 
No início do governo Lula, um trabalhador que vivesse com o salário mínimo necessitava de 175 horas de trabalho para adquirir uma cesta básica – em 2009, eram necessárias 109 horas. 
“Com mais renda, milhões de brasileiros entraram no mercado e foram ao varejo para ter acesso a bens de consumo indispensáveis”, avalia a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, uma das maiores redes varejistas do País.
Aos ganhos de renda, somou-se uma oferta de financiamentos jamais vista no País. No início do governo Lula, o estoque das operações de crédito era de R$ 400 bilhões – hoje, o volume é de R$ 1,6 trilhão. 
Esse R$ 1,2 trilhão a mais fez com que o País se transformasse no quarto maior mercado de veículos do mundo e experimentasse uma revolução no mercado imobiliário. O Brasil, nas palavras de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, passou a colher os “dividendos da estabilidade”.
Dilma herdará, portanto, um país no auge de saúde econômica e financeira no dia 1º de janeiro de 2011, quando receber a faixa presidencial das mãos de Luiz Inácio Lula da Silva. 
A média das estimativas de mercado aponta uma tendência de crescimento de 5,5% nos próximos quatro anos. A inflação deve permanecer dentro da meta de 4,5%, e a dívida interna pode cair para pouco mais de 30% do PIB.
São números alvissareiros. Pela primeira vez, o Brasil elege uma liderança que chega ao poder sem grandes incêndios econômicos a apagar. Dilma, portanto, terá a oportunidade de fazer com que o Brasil avance em áreas como educação, saúde, segurança e infraestrutura. E, neste último campo, o Brasil não tem escolha. 
Gerar mais energia e modernizar estradas, portos e aeroportos será essencial não apenas para garantir a continuidade do crescimento, como também para preparar o Brasil para dois eventos de porte global: a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. A vantagem é que, apesar do desafio, o Brasil tem os recursos necessários para superá-lo.
Já como presidente eleita, Dilma Rousseff emitiu vários sinais importantes – e todos eles na direção correta. O primeiro foi a escolha do ex-ministro Antônio Palocci como seu braço direito. Palocci será sempre uma âncora relevante não apenas na economia, mas também na articulação política. 
No tocante à equipe, há também indícios de que os dois timoneiros da economia, Guido Mantega e Henrique Meirelles, poderão continuar nos postos que ocupam. E Dilma também falou sobre os primeiros desafios, como o de enfrentar a guerra cambial antes mesmo da posse – ela será convidada de honra da próxima reunião do G20, em Seul, na Coreia do Sul, nos dias 11 e 12 de novembro. 
Por fim, Dilma também sinalizou que fará um governo de políticas afirmativas em relação às mulheres, ajudando a construir um país em que todos tenham oportunidades iguais. Sim, Dilma, a mulher também pode. Sim, Dilma, você pode!
Especial - A presidente Dilma
extraído da Revista IstoÉ  

sábado, 30 de outubro de 2010

"Meu governo não será um engavetador de denúncias"

Entrevista exclusiva da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff

Octávio Costa


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DESAFIO
Dilma afirma que um dos seus principais objetivos,
se eleita presidente, é erradicar a miséria
 
A revista ISTOÉ elaborou uma entrevista com as mesmas 15 perguntas para os dois presidenciá­veis – tratando de temas relevantes para o País, como emprego e educação – com o compromisso de democraticamente abrir o mesmo espaço para suas ideias. O candidato
José Serra preferiu não responder. A candidata Dilma Rousseff concedeu a entrevista e a seguir publicamos o seu teor.
ISTOÉ – O Brasil cresce hoje a 7%. O que esperar dos próximos quatro anos?
Dilma Rousseff –
Nos últimos oito anos, abriu-se uma nova era de prosperidade para o Brasil. Temos uma política econômica que vem dando resultados altamente positivos, com crescimento do PIB a taxas inéditas no País e com distribuição de renda. O Brasil está perto de se tornar uma das maiores potências mundiais. No meu governo, se eleita, seguirei a trajetória do presidente Lula, que criou 15 milhões de empregos com carteira assinada, reduziu a informalidade, aumentou e recuperou o poder de compra do salário mínimo, ampliou o crédito e o consumo interno, estabeleceu uma política de investimentos públicos e privados, deu estabilidade macroeconômica. Colocou o Brasil num novo patamar mundial. Mas trabalharei incansavelmente para erradicar a miséria. Já fizemos muito para chegarmos a esse objetivo, 28 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e outras 36 milhões ascenderam à classe média.

ISTOÉ – Há anos o Brasil sofre com uma elevada taxa de juros. O que fazer para baixá-la?Dilma – Temos conquistado, progressivamente, taxas de juros reais menores ao longo do tempo. Eram 16% no início de 2003 e chegamos a menos de 6% nos últimos meses. Concordo que é preciso baixar mais, mas isso, infelizmente, não se consegue só com boa vontade. É preciso reunir condições para isso. Estamos aumentando o investimento e reduzindo a dívida pública. Isso permitirá uma redução adicional na Selic, que, por sua vez, diminuirá a pressão atual pela apreciação do real. Outro fator que permite a redução, sem comprometer o controle da inflação, é o crescimento da nossa produtividade.

ISTOÉ – Qual deve ser o perfil do seu futuro ministro da Fazenda?Dilma – Não se fala em cargos e perfis, sem saber o resultado das urnas.

ISTOÉ – O BC deve continuar autônomo em relação à Fazenda?Dilma –
O Banco Central brasileiro tem autonomia operacional e isso deu muito certo. Acho que o BC é o seguinte: autonomia operacional e status ministerial no que se refere ao seu presidente.

ISTOÉ – O País tem uma das maiores cargas tributárias do mundo. Como diminuir o peso dos impostos na produção e no consumo?Dilma – O principal foco da reforma tributária deve ser o de simplificar e racionalizar a arrecadação de impostos. Avançamos muito nos últimos anos, com desonerações e ampliação de sistemas tributários simplificados, como o Super Simples. Ainda assim, as empresas brasileiras gastam muito tempo e recursos para pagar impostos e o governo também gasta muito tempo e recursos para arrecadar e fiscalizar os impostos. Assim, minha proposta de reforma tributária vai priorizar o aumento na eficiência produtiva, tanto do ponto de vista das empresas quanto do governo. Alguns impostos podem e devem ser reduzidos, como a contribuição sobre a folha de pagamentos, serviços públicos essenciais, remédios e investimentos. Vou também construir um sistema de devolução automática de créditos, em acordo com os governadores, envolvendo os impostos e as contribuições federais e estaduais, pois um crédito não devolvido é um tributo pago indevidamente.

ISTOÉ – O Brasil precisa garantir melhor qualidade ao sistema público de saúde. É possível fazer isso sem recriar a CPMF? Como?Dilma – Se eleita, vou construir a estrutura definitiva do SUS, o que requer financiamento compatível com suas necessidades. Vou apoiar a regulamentação da Emenda Constitucional nº 29 para fixar novos patamares de vinculação da receita e definir o que são ações e serviços públicos de saúde. Promoveremos maior equidade na distribuição dos recursos federais e estaduais para a saúde utilizando critérios epidemiológicos, de rede instalada, renda per capita, IDH e outros para corrigir as desigualdades. Aperfeiçoaremos os mecanismos de acompanhamento, monitoramento e controle social dos recursos do Ministério da Saúde e os transferidos a Estados e municípios, priorizando o combate ao desperdício e a desvios.

ISTOÉ – Quais são seus planos para o Mercosul?Dilma – O Mercosul é uma realidade histórica com quase 20 anos de existência. Todas as iniciativas devem ser voltadas para o seu fortalecimento, não para a sua morte. Com a multipolarização do mundo, os problemas encontram cada vez mais soluções de natureza regional. É assim na Ásia, na América ou em outras regiões. Vale para questões econômicas, ambientais ou de segurança. Os últimos anos do Mercosul foram marcados por um extraordinário incremento comercial. A crise global, que abateu especialmente a indústria, afetou as transações comerciais. Mas em 2010 observamos uma forte recuperação. O fortalecimento institucional do Mercosul e uma integração produtiva maior devem fazer parte de uma agenda para o Mercosul.

“Acho que o BC é o seguinte: autonomia operacional e
status ministerial no que se refere ao seu presidente”

ISTOÉ – Como evitar que nossa Previdência Social entre em colapso, como acontece agora na Europa?Dilma – Não precisamos de uma grande reforma na Previdência. Se houver necessidade, poderão ser realizados ajustes pontuais, para adaptar a estrutura de aposentadorias e pensões às novas realidades da economia e da sociedade.
 
ISTOÉ – O que fazer para melhorar o padrão educacional do Brasil?Dilma – O grande salto para um país verdadeiramente desenvolvido é a educação de qualidade, desde a creche até a pós-graduação. E tenho absoluta convicção de que não chegaremos a este lugar se não investirmos fortemente no professor, na sua carreira, na sua formação, no seu salário. Este será um dos grandes investimentos de meu governo, se for eleita.
 
ISTOÉ –Hoje o Brasil bate recordes na geração de empregos. Qual a sua política para manter esse ritmo?Dilma –A taxa de desemprego de 6,9% aponta para um quase pleno emprego. E isso graças aos sucessivos recordes de geração de empregos nos últimos anos. Vamos fechar em algo em torno de 15 milhões, com carteira assinada. A receita para continuar gerando empregos é: fortalecer as políticas sociais; continuar investindo em infraestrutura; estimular a produção; apoiar o agronegócio e a agricultura familiar; fortalecer as micro e pequenas empresas. E manter as políticas sociais que estimulam o consumo das famílias, além da política de valorização do salário mínimo. Mas tenho duas propostas que serão decisivas para avançar ainda mais: a desoneração da folha de pagamentos, reduzindo a alíquota de contribuição patronal, o que beneficiará principalmente os setores intensivos em mão de obra, como calçados, alimentos, têxteis; e a criação do Ministério das Micro e Pequenas Empresas, que permitirá aprimorar todas as políticas voltadas a este segmento, dando-lhe mais competitividade e, desta forma, ampliando a capacidade da economia brasileira de gerar empregos de qualidade.
 
ISTOÉ – Como será a relação do governo com o MST?Dilma – Como foi no governo do presidente Lula, sempre com diálogo. Nós não tratamos movimentos sociais com cassetete nem com repressão. Não apoiamos nenhuma ação que fuja da legalidade, mas também não fechamos as portas do diálogo para resolver conflitos.
 
ISTOÉ – Como preservar o meio ambiente fazendo o Brasil crescer? Dilma –No governo Lula, demonstramos que é possível crescer, distribuir renda e ser ambientalmente sustentável. Este é o modelo de desenvolvimento que perseguimos e que continuarei perseguindo. Tenho proposta clara para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Entendo ser fundamental, por exemplo, avançar na agenda da sustentabilidade em todos os segmentos de políticas públicas. No PAC 2 já previmos investir R$ 9,7 bilhões no período 2011-2014 em fontes alternativas de geração de energia, em especial eólica e biomassa. Temos o compromisso com a implementação da Política Nacional de Mudanças Climáticas e vamos consolidar os acordos setoriais no âmbito do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. O grande avanço que tivemos nesses oito anos e que continuará sendo a marca da nossa gestão, se eleita for, é a vinculação da questão social e da ambiental. Consolidar este modelo de desenvolvimento nos levará a uma situação de maior justiça social, valorização dos nossos recursos naturais e preservação da nossa biodiversidade.
 
ISTOÉ – É necessária uma mudança na matriz energética brasileira?Dilma –O governo Lula deixará um legado importantíssimo para os quatro anos do próximo governo, que é a contratação de 100% da oferta necessária para atender à demanda de energia elétrica no Brasil, com o País crescendo a taxas desejáveis. Não farei diferente. A minha experiência no setor – que é grande – mostra que a política de geração de energia elétrica no Brasil deve sempre priorizar, como fizemos no governo Lula, a modicidade tarifária, a segurança do abastecimento e uma matriz energética renovável. Lembro que uns 47% de toda energia que produzimos no Brasil é proveniente de fontes renováveis, com destaque para a hidreletricidade, os biocombustíveis e as energias alternativas – biomassa, pequenas centrais hidrelétricas e eólica. É sempre bom lembrar que a hidreletricidade abasteceu 85% de nossa demanda de energia elétrica em 2009. E só utilizamos um terço do potencial energético de nossos rios para a geração de eletricidade, o que significa que temos todas as condições para manter elevada a participação das energias renováveis nos próximos anos, principalmente com a entrada em operação das hidrelétricas do rio Madeira e de Belo Monte. A fonte hidráulica, tão abundante em nosso país, com toda certeza terá papel preponderante na próxima década. Todavia, para que aproveitemos de forma racional as características dessa energia, será preciso completá-la com fontes alternativas também renováveis.

“Alguns impostos podem e devem ser reduzidos,
como a contribuição sobre a folha de pagamentos,
serviços públicos essenciais, remédios e investimentos”

ISTOÉ – A ONG Transparência Internacional mostra que o Brasil ocupa uma vergonhosa 69º posição no ranking da percepção de corrupção. O que fazer para mudar isso?Dilma –Não vou vender para a população a ideia de que as coisas são perfeitas e de que não vai acontecer nada. Um governo se mede pela capacidade que tem, não de garantir que não haja nada, mas de, em havendo, tomar providências, investigar e punir. O governo do presidente Lula não foi – e o meu, caso eleita, não será – um engavetador de denúncias, como aconteceu no passado. É importante lembrar, também, que fortalecemos e valorizamos os órgãos investigativos, como a CGU e a Polícia Federal.
 
ISTOÉ – Qual a melhor maneira de enfrentar o déficit habitacional brasileiro? Construindo casas populares ou facilitando o crédito para a população de baixa renda?  Dilma – Com o Minha Casa Minha Vida, que terá atenção especial em meu governo. Nós retomamos no País o papel do Estado na política habitacional, por meio desse programa. Se os mais pobres não têm condições de pagar a prestação de uma casa própria, o Estado tem que subsidiar. Mas esta é uma política também para reaquecer o setor da construção civil, que é grande empregador. Vamos continuar nessa linha, mantendo crédito e financiamento. Fizemos o Minha Casa Minha Vida, que coordenei pessoalmente como ministra-chefe da Casa Civil, e já temos prevista a segunda edição do programa para o período 2011-2014. Serão construídos dois milhões de moradias com investimentos de R$ 71,7 bilhões. É importante lembrar que 60% das unidades habitacionais serão destinadas a famílias com renda de até 2,4 salários mínimos.

extraído da IstoÉ Independente

Duas eras em confronto - Partes 1 e 2

PT e PSDB comandaram o País nos últimos 16 anos. Conheça quais são as diferenças entre as gestões e tenha mais elementos para definir o seu voto

Amauri Segalla e Luiza Villaméa

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TRUNFOS
A marca do governo Lula é o pré-sal. Na gestão tucana, as privatizações.
Abaixo, FHC com Wilma Motta, viúva de Sérgio Motta,
e Mendonça de Barros, que caiu após escândalo
 
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A eleição do domingo 31 não vai apontar apenas o nome do vencedor da corrida presidencial. Ela também simboliza um inédito confronto entre os partidos que dominaram a cena política nos últimos anos – o PT e o PSDB. Pela primeira vez, os brasileiros terão como base de comparação dois períodos precisos, que duraram exatamente oito anos, e que ficaram marcados por diretrizes econômicas e ações políticas divergentes na maioria das vezes. O PSDB deteve o poder de 1995 a 2002, com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003, é o PT quem dá as cartas por intermédio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A despeito de convicções ideológicas, tão exacerbadas nestes tempos de eleição, os dois inegavelmente estão na lista dos líderes mais importantes da história do Brasil. Ambos tiveram méritos e defeitos, erros e acertos, e é impossível não creditar à dupla o excepcional momento vivido pelo País. Mas, afinal, como comparar os dois governos? Por mais que um lado ou outro possa reclamar, não há forma mais justa de avaliar as duas eras do que colocar na mesa de discussões os indicadores de cada gestão. Foi isso o que ISTOÉ fez, no levantamento mais completo já realizado a respeito dos dois governos.
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Principalmente nas áreas econômica e social, a análise dos números indica que a gestão petista tem resultados melhores para apresentar. Nesse aspecto, o primeiro dado que chama a atenção é a evolução do Produto Interno Bruto (PIB), que traduz o aumento da riqueza de um país. Nos dois mandatos de FHC, a taxa média anual de crescimento foi de 2,3%. Nos governos Lula, o índice será de 4% (considerando uma alta do PIB de 7,5% em 2010, embora analistas independentes acreditem que a taxa possa chegar a 8%). Lula também conseguiu uma proeza notável: elevou a renda per capita brasileira a US$ 10 mil, um marco que aproxima o índice brasileiro do indicador observado em países desenvolvidos. Nesse ponto, FHC não brilhou. Entre 1995, primeiro ano do governo Fernando Henrique, e 2002, quando ele deixou o poder, a renda per capita brasileira caiu de US$ 4,85 mil para US$ 2,86 mil. Em defesa de FHC, é importante lembrar que ele enfrentou duas sérias crises (da Ásia e da Rússia), que causaram estragos mundo afora.
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REMÉDIO
O PSDB popularizou os genéricos, medicamentos mais baratos
img.jpgALIMENTO
O PT criou o Bolsa Família, que tirou brasileiros da miséria
 
 
Para muitos especialistas, o principal acerto econômico do governo Lula foi a política de crédito. “A expansão brutal do crédito dinamizou a economia”, diz Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Ela gerou empregos, estimulou investimentos das empresas e blindou o Brasil diante das crises financeiras internacionais.” Com empréstimos mais acessíveis, as pessoas passaram a comprar mais bens, o que contribuiu para o aumento da produção industrial, mobilizada para atender à crescente demanda. Nesse ciclo, mais empregos foram gerados e, como consequência, veio o aumento da renda da população. Um dos efeitos colaterais dessa lógica capitalista é a alta inflacionária, em geral associada ao consumo desenfreado. Com metas de inflação rigorosamente cumpridas, o governo Lula não foi vencido por esse mal. No quesito controle de preços, motivo de orgulho para os tucanos, Lula também obteve um desempenho destacado. Na era Fernando Henrique, a inflação média foi de 9,1%. Nos oito anos de governo Lula, o índice deverá fechar abaixo de 6% – número surpreendente diante dos recorrentes argumentos utilizados pelos defensores de FHC, de que Lula supostamente levaria o País ao abismo inflacionário. “Lula demonstrou uma responsabilidade econômica que foi fundamental para o desenvolvimento do País”, diz o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília.
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Justiça seja feita, Fernando Henrique herdou um quadro econômico muito mais complicado do que Lula. Inflação desenfreada, desconfiança internacional, empregos em declínio, investimentos minguados, tudo isso elevou de forma significativa os desafios colocados diante de seu governo. Ao PSDB deve ser atribuído o feito histórico de, enfim, consolidar no País uma moeda forte – o real –, que permitiu que os brasileiros controlassem suas despesas e planejassem melhor o futuro. A estabilidade econômica representou uma virada brutal, que fixou os alicerces necessários para sustentar o crescimento que viria mais adiante. Por sua vez, o PT pegou a casa relativamente arrumada, pronta para avançar num ritmo mais intenso. Lula, porém, foi suficientemente inteligente para prosseguir apostando no que funcionava. “Um dos méritos de Lula foi ter dado continuidade às políticas fiscal e monetária do governo Fernando Henrique”, diz Fleischer.
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ENERGIA
Acima, apagão no governo FHC.
Abaixo, Lula no anúncio do pré-sal
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Embora a condução da política econômica tenha convergido em alguns pontos, as eras PSDB e PT possuem características muito distintas. Qual é a marca principal de cada governo? No caso FHC, seu maior legado foi a estabilidade da moeda, façanha reconhecida por economistas de qualquer inclinação ideológica. No campo das realizações, Fernando Henrique se notabilizou pelas privatizações. Apesar das críticas, o processo de venda das estatais trouxe a melhoria dos serviços e foi fundamental para a multiplicação dos resultados financeiros das empresas. Algumas delas – como as de telefonia – estiveram envoltas em suspeitas de favorecimento a grandes grupos econômicos, denúncia que culminou na demissão do então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e do presidente do BNDES à época, André Lara Resende.
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Parte 2

A principal marca do governo do PT é a política desenvolvimentista. Nos últimos oito anos, foram criadas as condições para que o consumo se acelerasse e as empresas incrementassem o nível de investimento. Iniciativas como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) funcionaram como impulsionadoras de diversos setores – da construção civil à energia – e colocaram em circulação uma enxurrada de recursos. “A orientação do governo Lula foi muito mais pró-crescimento”, diz o professor Policarpo Lima, chefe do departamento de economia da Universidade Federal de Pernambuco. “Houve um crescimento regional mais bem distribuído.” O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que distribui recursos para todos os Estados, alcançou em 2010 seu nível mais alto de investimentos (R$ 15 bilhões, contra os R$ 2,5 bilhões aplicados em 2002). O Nordeste atingiu na era PT um desenvolvimento sem precedentes. Em 2010, os três Estados brasileiros que vão apresentar maior avanço do PIB serão Bahia, Ceará e Pernambuco, com indicadores muito próximos aos da China, o país que mais cresce no mundo. Uma das indutoras do avanço nordestino foi a Petrobras, que ganhou no governo Lula uma relevância que não tinha na gestão tucana. “No governo Lula, a indústria da construção naval foi implantada no Nordeste e isso tem a ver com a Petrobras, que está comprando os navios que são produzidos na região”, diz o professor Policarpo Lima.
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A Petrobras está por trás de uma das maiores fronteiras do desenvolvimento do País. Se o pré-sal confirmar o seu potencial, o Brasil vai ficar entre as seis nações que possuem as maiores reservas de petróleo, atrás apenas de Kuwait, Emirados Árabes, Irã, Iraque e Arábia Saudita. Lula deu sorte com o fato de as reservas serem descobertas em seu governo, mas afinal foi ele quem liberou os recursos que permitiram a pesquisa em novos campos de prospecção. “A Petrobras tem vários papéis importantes para a sociedade”, diz o sociólogo Carlos Roberto Winckler, da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Heuser, em Porto Alegre. “Os investimentos feitos pela empresa causam impacto, a começar pela ciência e tecnologia.” Lula foi perspicaz ao detectar a importância da petrolífera para a sua política desenvolvimentista – e, por isso, passou a usar a empresa como instrumento de marketing político. Funcionou. Em seu governo, o valor de mercado da Petrobras disparou e hoje ela está entre as três maiores corporações das Américas. No campo energético, o PSDB não teve a mesma performance. Os dois últimos anos do governo Fernando Henrique ficaram carimbados pela crise do apagão, que obrigou os brasileiros a racionar energia elétrica.

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EMPREGO E MOEDA FORTE
O PT criou 15 milhões de postos de trabalho
e o PSDB conseguiu estabilizar a moeda

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Nos últimos 16 anos de domínio de PSDB e PT, o Brasil se tornou um país muito melhor. As acertadas políticas econômicas dos dois períodos transformaram a vida de milhões de brasileiros. No campo social, provavelmente nenhuma outra nação passou por uma mudança tão veloz. No governo do PSDB, dois milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza. No governo petista, o contingente chegou a 23 milhões. Criado em 2003, o Bolsa Família teve um papel vital nesse processo. Ele atende 12,6 milhões de lares e, sozinho, foi responsável pela erradicação de quase 30% da extrema pobreza. “Um aspecto gritante, que salta aos olhos, é a ênfase do governo Lula na dimensão social”, diz o cientista político Fábio Wanderley, da Universidade Federal de Minas Gerais. “No governo Lula, houve uma transferência de renda muito grande, o que possibilitou a milhões de pessoas ascender socialmente”, afirma o sociólogo Winckler. Uma comparação simples dimensiona a transformação em curso no País. De 2003 a 2008, a renda dos 10% mais pobres aumentou 8% ao ano, enquanto os ganhos dos ricos cresceram 1,5%. Ou seja, na divisão da riqueza nacional, os pobres começaram enfim a reduzir a gigantesca desvantagem em relação aos que estão no topo da pirâmide. Na área social, o PSDB tem alguns trunfos para apresentar. O partido criou programas bem-sucedidos como o Bolsa Escola e o Cartão Alimentação, que em 2002 atenderam 3,6 milhões de famílias. O governo Fernando Henrique também foi marcado pela disseminação dos remédios genéricos, o que facilitou o acesso a medicamentos considerados de qualidade.

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Para muitos analistas, uma conquista que se deve aos dois governos é o inédito protagonismo internacional alcançado pelo Brasil. “Fernando Henrique começou a enfatizar a li derança brasileira na América do Sul e ambicionou a reforma na ONU para que o Brasil venha a assumir um assento permanente no Conselho de Segurança”, diz o cientista político David Fleischer. Segundo ele, porém, Lula deu mais ênfase a esse processo e abriu portas até então fechadas ao País. “Lula tem sido o que chamamos de presidente-chanceler, por ser realmente o promotor da política externa do País.” Algumas iniciativas marcantes alçaram o presidente à condição de líder internacional. Lula apostou suas fichas na estruturação do G-20 como um novo organismo de coordenação econômica mundial, algo que viria a se transformar em realidade. Sua visita ao Irã, com o objetivo de intermediar um acordo entre o país e as Nações Unidas para pavimentar o caminho da paz nuclear, foi vista inicialmente com ressalvas, mas acabaria por afirmar o Brasil como um grande ator em uma área em que nunca tinha tido participação. “Lula virou o segundo chefe de Estado brasileiro a visitar o Oriente Médio”, diz Fleischer. “O primeiro foi dom Pedro II, por volta de 1876.” Em oito anos de governo, entre 1995 e 2002, FHC fez 115 viagens internacionais. A marca foi batida com folga por Lula. Até outubro de 2010, ele tinha realizado 194 viagens para o Exterior.

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Qualquer que seja o resultado das eleições, o próximo presidente terá um desafio adicional. Fernando Henrique e Lula deixaram aos seus sucessores um indiscutível legado de estadistas e deram ao cargo de presidente a dimensão que ele merece. O novo presidente também vai largar tendo como base de comparação um passado marcado por incontáveis realizações. Por essas razões, será provavelmente mais complicado superá-las. Isso, porém, não tira do próximo líder o dever de fazer o País tão grande quanto ele deve ser – ou pelo menos tão grande quanto o PT e o PSDB o fizeram se transformar nos últimos 16 anos.

Colaboraram: Alan Rodrigues e Adriana Nicacio da IstoÉ Independente

inspirado na caríssima Maria Frô