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terça-feira, 30 de julho de 2013

Golpe no Egito: “No Cairo, lendo Marx”

29/7/2013, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O gigante pressupõe o anão. Cesar, o herói, deixou atrás de si um Otaviano... (Karl Marx)

Kaveh L. Afrasiabi
Quando o novo homem forte do Egito, general Abdel Fattah al-Sisi, convocou seus apoiadores para que manifestassem sua solidariedade ao Exército na 6ª-feira (26/7), 57º aniversário da nacionalização do Canal de Suez, ato do carismático Gamal Abdel Nasser, minha reação instintiva foi correr à prateleira, para reler O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, de Karl Marx, em homenagem à analogia histórica. 

No livro de Marx, tem-se um modelo de análise de repetições históricas (a segunda vez, como farsa), que surge da comparação entre o golpe na França em dezembro de 1851 (orquestrado por um sobrinho do grande Napoleão, e o qual, embora sem ter nem uma mínima fração do gênio do tio, se autodenominou Imperador Napoleão III). Do ponto de vista de Marx, o golpe de 1851 foi uma caricatura do golpe de Napoleão em 1799 – devida, sobretudo, à “grotesca mediocridade” do sobrinho.

Abdel Fattah al-Sisi, o neopinochet 
Na comparação, o general Sisi, cujos atiradores assassinaram a sangue frio dúzias de manifestantes no Cairo e em outras cidades naquela 6ª-feira (26/7/2013), não chega a ser nem cópia pálida do Nasser pan-arabista, que pôs fim a 72 anos de dominação britânica no Egito e, assim, se tornou herói do anticolonialismo pós-Segunda Guerra Mundial. Sisi, não. Sisi mostra-se, a cada dia, mais e mais parecido com um neo-Augusto Pinochet, em tudo semelhante ao que Friedrich Engels, camarada de Marx, escreveu de Napoleão III: “o sargentinho e seu bando de marechais”.

Mohamed Mursi
Desde a derrubada do presidente Mohamed Mursi, dia 3 de julho, Sisi, o novo imperador do Egito, vem decaindo pela trilha dos ditadores mais brutais, mostrando pouca ou nenhuma piedade ou respeito pelos adversários, pronunciando discursos sombrios sobre “enfrentar o terrorismo”, desculpa capenga para disparar sem qualquer limite o seu reinado de terror, contra as vastas porções da população que se opõem ao golpe militar.

Por ironia, Sisi quer vencer em todas as frentes e a qualquer custo: quer obter a legitimidade, associando-se ao orgulhoso legado de Nasser, ao mesmo tempo em que ataca o presidente Mursi, deposto por fazer precisamente o que Nasser fez em meados dos anos 1950s: promulgar uma nova Constituição que centralizava o poder monopolizado, em suas mãos autoritárias.

Já não há dúvida alguma de que Sisi e seus co-conspiradores calcularam mal a extensão da oposição popular ao golpe contra Mursi – tacitamente aprovado por Washington, como se comprovou no empenho do presidente Obama dos EUA para não chamar o golpe, de “golpe”; no não tomar nenhuma providência para impedir o golpe; e no movimento de, sem um segundo de hesitação, anunciar que não haveria qualquer interrupção na ajuda militar e na venda de armas ao Egito.

Pseudo Nasser”

John Kerry
“Nenhuma lei nos obriga a dizer golpe ou qualquer outra coisa” – disse um porta-voz do governo dos EUA, frase dúbia e posição duvidosa que zombam da lei norte-americana e da responsabilidade legal e ética dos EUA. A lei norte-americana muito claramente proíbe que países vítimas de golpes de Estado recebam ajuda humanitária e inventar exceções a essa regra é desenvolvimento doentio que não augura qualquer boa notícia para o futuro das relações entre EUA e mundo árabe. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que não se deu sequer o trabalho de dar um telefonema aos generais egípcios integrados à lista de pagamento do Departamento de Estado, para desestimulá-los de insistirem no golpe que estava em curso, vive agora a gemer que o Egito está “à beira do abismo” e suplicando que todos os partidos retrocedam.

O que se vê aí é diplomacia de má qualidade, diplomacia inepta, orientada pelo velho vício imperial de controle e dominação, que já não oferecia qualquer garantia a partir do momento em que as urnas levaram Mursi e sua Fraternidade Muçulmana ao poder. Não surpreende que a desculpa que mais se ouve, para justificar o golpe, seja a “estabilidade” num país geoestrategicamente importante. De fato, o que se tem aí é o reflexo da velha húbris imperial, que errou seus cálculos e avaliou mal o desejo popular e a rejeição a qualquer golpe, também entre egípcios que pouco têm a ver com a Fraternidade Muçulmana. Resultado disso, a coalizão chefiada pela Fraternidade contra o golpe vai-se tornando mais forte a cada dia – como reação vital direta à repressão brutal que Sisi desencadeou e comanda. Falta a Sisi o horizonte intelectual dos nasseristas, que agiram segundo uma dialética interna da história egípcia.

Esse pseudo-Nasser, consumido integralmente pelos inimigos internos, opera como força de desagregação social, de desunião e discórdia, assegurando o resultado mais catastrófico. As forças seculares nacionalistas e liberais que o apóiam condenam-se a perder a própria legitimidade apenas por se aproximarem dos golpistas e desse neo-pinochet do Cairo, cujo discurso a favor da “unidade nacional” jaz afogado no fundo do Nilo. Ainda não se sabe o que o futuro reserva ao Egito, mas o lugar do general Sisi na lista dos líderes de farsa da narrativa que Marx construiu já está selado. “Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1848 a 1851 pela Montanha de 1793 a 1795, o sobrinho pelo tio” – Marx escreveu; e a mesma caricatura aplica-se nas circunstâncias dessa recente edição de mal disfarçada neoditadura militar no Egito.


quinta-feira, 14 de março de 2013

Gasoduto iraniano: Paquistão desafia os EUA


13/3/2013, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre o óleo-gasoduto IP, ver também: 19/7/2012, redecastorphoto, Pepe Escobar: “China quer saber de negócios, não de sanções”

KL Afrasiabi
Embora a ONU jamais tenha imposto sanções contra o setor de energia do Irã, o governo dos EUA opôs-se à decisão do Paquistão, de iniciar afinal a construção de um óleo-gasoduto que o unirá ao Irã. Para os EUA, o negócio implicaria “violação das sanções impostas pela ONU contra o programa nuclear do Irã”.[Ler (em inglês): Saving the Peace Pipeline]. Ao que parece, os EUA mais uma vez confundem suas próprias leis e as leis da comunidade internacional.

Asif Zardari (e) e Mahmoud Ahmadinejad (d)  cumprimentam-se em 11/3/2013
Na 2ª-feira passada, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã e o Presidente do Paquistão, Asif Zardari, deram início oficial à construção da porção paquistanesa do óleo-gasoduto, que percorrerá 1.600 quilômetros. Batizado de “óleo-gasoduto da paz”, o projeto começou a ser traçado em 1994, como projeto trilateral Irã-Paquistão-Índia (IPI). (Em 2009, apesar de suas graves carências de energia, mas pressionada pelos EUA, a Índia abandonou o projeto).

Como seria de esperar-se, a grande imprensa-empresa ocidental já adotou ativa posição contra o gasoduto Irã-Paquistão. Foi chamado de “delírio”, “sonho fantasioso”, com repetidos comentário sobre a impossibilidade de o Paquistão conseguir arcar com gastos da ordem de US$1,5 bilhão, para completar uma linha de transmissão de gás pela qual passarão, por dia, 750 milhões de pés cúbicos de gás natural, diretamente bombeados para o coração da economia paquistanesa sequiosa de energia.

Hina Rabbani
Nada justifica o pessimismo “jornalístico”. Com o Paquistão atormentado por racionamentos de energia, numa economia que precisa crescer, esse gasoduto é “assunto de interesse nacional do Paquistão”, como disse a Ministra de Relações Exteriores”, Hina Rabbani.

Os dois países também assinaram acordo para construir uma refinaria em Gwadar, província do Baloquistão, no sudoeste do Paquistão, com capacidade para refinar 400 mil barris de petróleo. Especialistas estrangeiros, como Dan Millison do Banco de Desenvolvimento Asiático [orig. Asian Development Bank (ADB)], é otimista. Millison defendeu uma avaliação feita pelo ADB, sobre o “óleo-gasoduto da paz” baseada exclusivamente em aspectos econômicos e considerando a crescente demanda por energia no subcontinente.

A grande questão é: quando o óleo-gasoduto Irã-Paquistão estiver completado, como a Índia conseguirá resistir à tentação de renovar o pedido para conectar-se a ele, questão que permanece adormecida? Em 2005, o Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh disse que “estamos desesperadamente carentes de energia e de novas fontes de energia”.

Do ponto de vista dos EUA, o anúncio feito por Ahmadinejad-Zardari na fronteira entre Irã e Paquistão, significa várias coisas, de várias faces: em primeiro lugar, o negócio é o primeiro grande desafio importante, em palco internacional, contra as sanções unilaterias que os EUA impuseram ao setor de energia do Irã. A significação do desafio vai bem além das relações bilaterais entre os dois vizinhos na Ásia e bem pode servir como exemplo a ser seguido por outras nações.

Victoria Nuland
[Depois do evento, a porta-voz do Departamento de Estado Victoria Nuland disse: “Estamos gravemente preocupados, se esse projeto realmente avançar, que tenhamos de disparar a Lei das Sanções contra o Irã” – segundo matéria da Agência France-Presse. – “Temos jogado limpo com os paquistaneses sobre essas preocupações. Já vimos esse gasoduto ser anunciado 10, 15 vezes antes, no passado. Temos de ver, portanto, o que realmente acontece”].

Em segundo lugar, o óleo-gasoduto é uma oportuna brecha, para Teerã, que padece sob pressões econômicas do ocidente. Enfraquece a política de alavancagem dos EUA nas negociações nucleares, que estão em ponto crucial.

A terceira razão pela qual o óleo-gasoduto é má notícia para os EUA é que ele põe Washington em rota de confrontação com o Paquistão, seu importante parceiro na “guerra ao terror”, destinado a desempenhar papel chave no Afeganistão depois da retirada dos EUA, planejada para 2014. O dilema dos EUA é como esperar que o Paquistão desempenhe papel de maior estabilizador, se, simultaneamente, os EUA o ameaçam com sanções (colaterais), nos termos da Lei das Sanções norte-americana?

Em quarto lugar, os EUA preocupam-se, em silêncio, sobre alguma futura virada na Índia, que estimule uma atitude de desafio pelo Paquistão. Qualquer movimento dos paquistaneses para contornar as pressões norte-americanas, pode levar New Delhi a voltar a pensar em se conectar ao óleo-gasoduto iraniano.

Oleogasoduto Irã-Paquistão-Índia (O trecho da Índia está suspenso)
Se isso acontecer, os EUA comerão o pão que o diabo amassou para evitar grandes torvelinhos em sua política para a Índia, ou enfrentar novas e graves dores de cabeça em sua política externa em todo o mundo. Teste limite para a hegemonia dos EUA no pós-Guerra Fria, o sucesso ou o fracasso da política de sanções dos EUA contra o Irã afeta todo o quadro da política global dos e da liderança global dos EUA.

Para impedir que a questão entre em espiral incontrolável, é indispensável que os EUA produzam política mais realista para o Irã – política que considere a viabilidade de um acordo para “suspender a suspensão”, pelo qual o Irã poria fim ao enriquecimento de urânio a 20%, em troca do fim das principais sanções.

O acordo para a construção do óleo-gasoduto Irã-Paquistão evidencia que os EUA estão cada da mais isolados na batalha pelo Irã. As sanções dos EUA contra o Irã não passam de violência sem qualquer plano de jogo. Quanto mais depressa os políticos dos EUA entenderem isso, melhor.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A guerra de Israel contra Gaza reforçou a posição do Irã


28/11/2012, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kaveh L. Afrasiabi
NEW YORK – Agora que a poeira de sete dias de guerra contra Gaza já baixou, vê-se que a roda da fortuna geoestratégica da guerra girou, sem dúvida alguma, a favor do apoio militar que o Irã dá ao Hamás.

Os líderes israelenses podem falar o quanto queiram do pesado dano que teriam infligido à capacidade de ataque do Hamás, fato é que Israel não alcançou seu principal, quase único objetivo: comprometer a capacidade dos foguetes do Hamás. É fato, sim, também, que o dano que tenha havido será rapidamente reparado pelo Hamás, o qual, nos meses vindouros, poderá reabastecer e fortalecer seus arsenais.

A impressionante capacidade dos foguetes do Hamás, que resistiu à fúria de cerca de 1.500 incursões dos jatos israelenses que bombardearam sem cessar área densamente povoada, e o fracasso do “Domo de Ferro” de Israel, que não impediu que cerca de 420 foguetes atingissem Israel, reflete o que está sendo chamado no ocidente de novo “equilíbrio do terror”, denominação que já se afasta consideravelmente da versão tradicional da supremacia militar de Telavive e aponta para novas áreas de vulnerabilidade dos israelenses, as quais, por sua vez, incidem de forma dramática sobre a posição anti-Irã, de Israel.

Ali Baqeri
É o que já se depreende da declaração de Ali Baqeri, subsecretário do Conselho Superior de Segurança Nacional do Irã:

Se o regime sionista já não tem condições para derrotar a Resistência na Faixa de Gaza sitiada, é claro que, definitivamente, já não tem o que dizer, tampouco, sobre a força e a potência da República Islâmica.

Sentimentos semelhantes foram manifestados também pelos comandantes militares iranianos, entre os quais o comandante dos Guardas Revolucionários, General Mohammad Ali Jafari, que já admitiu publicamente que o Irã forneceu ao Hamás a tecnologia para montar os foguetes Fajr-5, e que “os foguetes foram produzidos rapidamente”.

Mohammad Ali Jafari
“Se a intenção de Israel ao provocar essa guerra foi usá-la como prelúdio para um ataque contra o Irã, foi fracasso completo, principalmente porque a guerra terminou com vitória do Hamás, do Irã e do Hezbollah [libanês], triunvirato de poder que impõe hoje desafio formidável, em qualquer cenário de guerra contra o Irã” – disse um professor de ciência política da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado.

A impressão generalizada de que qualquer ataque de Israel contra o Irã é hoje ainda menos provável do que no passado, como resultado direto da guerra de Gaza, deve, com certeza, influenciar o clima de negociações entre o Irã e as nações do grupo “5+1” – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU plus Alemanha – marcadas para breve.

A “opção militar” que Israel usou para coagir o Irã na mesa de negociações perdeu agora, embora pouco se fale sobre isso, grande parte da serventia prevista, o que faz pesar a balança geral, consideravelmente, na direção de solução diplomática.

“No mínimo, o resultado favorável ao Irã, da Guerra de Gaza, implicou abertura mais ampla da janela diplomática, o que se traduz em maior flexibilidade e maior disposição, entre os governos ocidentais, para negociar e para ceder” – disse o professor de Teerã.

Conversações nucleares: estrada aberta à frente

Antes da próxima rodada de conversações multilaterais, reuniões bilaterais entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), marcadas para a segunda semana de dezembro em Teerã, podem preparar o caminho para uma modalidade de “cooperação estruturada” que vise a resolver as questões invocadas no mais recente relatório da AIEA, de  novembro desse ano.

Yukiya Amano
O diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, já admitiu tacitamente que parte do relatório de inteligência citado no “Anexo” do relatório que a Agência divulgou em novembro de 2011 pode ser considerado ‘questionável’, posto que, como disse o diretor-geral, “todo” aquele anexo é pouco confiável; em outras palavras, a AIEA já sabe que nem todas as informações de inteligência que lhe foram encaminhadas merecem ser tomadas como material confiável.

A descoberta chave do mais recente relatório, divulgado no início desse mês de novembro, é que os inspetores não encontraram qualquer tipo de prova de que o material nuclear declarado esteja sendo utilizado para fins não declarados pelo Irã – considerados os dados obtidos por todos os mecanismos de verificação, inclusive inspeções anunciadas em prazo curtíssimo, amostras de material recolhido no meio ambiente em períodos regulares de tempo e o emprego de câmeras de vigilância em todas as praças de enriquecimento de urânio no Irã.

Outra constatação chave é que o Irã já converteu alta porcentagem de seu urânio enriquecido a 20% em bastonetes e placas de combustível, e mantém hoje limitada em cerca de 110 kg a quantidade de material enriquecido – provável sinal de boa-vontade, uma vez que o país não reabasteceu metade das centrífugas instaladas na usina superprotegida conhecida como Fordo.

No caso de as conversações Irã-AIEA mostrarem progresso real, como preveem funcionários do governo do Irã, com certeza criar-se-ão condições de melhorar-se o tom da conversa iraniana com os representantes dos “5+1” liderados pela secretária de Relações Externas da União Europeia, Catherine Ashton, a qual, em recente reunião em Bruxelas, destacou a importância de negociações diplomáticas sustentadas.

Catherine Ashton
A questão, evidentemente, é de se os negociadores ocidentais estarão dispostos a levar em consideração o fortalecimento da posição do Irã, resultado da Guerra de Gaza, desenvolvimento que deve ter reduzido o ímpeto de ataque militar contra o Irã. Se raciocinarem nesses termos e nessa direção, é preciso saber ainda como a ideia traduzir-se-á em maior disposição a reduzir as sanções contra o Irã, em comparação ao que se viu em rodadas anteriores, quando os governos ocidentais recusaram-se a considerar qualquer abrandamento nas sanções, mesmo no caso de o Irã concordar com suspender completamente o enriquecimento do urânio a 20%.

Hoje, depois de três rodadas inconclusivas de negociações, no início de 2012, o cenário parece preparado para que se cultive otimismo moderado em relação em relação à próxima rodada. Outro desenvolvimento importante que afeta aquelas conversações, também a favor do Irã, foi a decisão dos EUA de forçar o adiamento da muito esperada conferência sobre um Oriente Médio livre de armas de destruição em massa, prevista para acontecer na Finlândia.

Ali Asghar Soltanieh
A decisão dos EUA, interpretada por muitos como concessão a Israel – principal agente de proliferação de armas de destruição em massa em todo o Oriente Médio –, foi fortemente condenada pelo Irã e por vários países árabes, que denunciaram o papel dúbio que os EUA desempenham, atentos, sempre, a excluir Israel de qualquer tratado ou decisão antiproliferação de armas de destruição em massa. O enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh, criticou duramente os EUA sobre esse tema; e Irã e Rússia uniram-se a favor de antecipar-se a data da conferência do próximo ano, na Finlândia. [1]

Certamente, na próxima rodada, o Irã e as nações do “5+1” muito terão a conversar sobre o estimulante objetivo de implantar-se uma zona sem armas nucleares no Oriente Médio – circunstância que muito favorece aos interesses do Irã, interessado em destacar as intenções exclusivamente pacíficas de seu programa.

A possibilidade de que o representante do Irã encontre, como parece afinal possível, público mais receptivo na mesa de negociações, como acima se discute, parece ser efeito, em não pequena medida, da guerra de Israel contra Gaza, que, bem claramente, não levou a bons resultados para Israel.



Nota de rodapé
[1] Ver entrevista com o embaixador Ali Asghar Soltanieh (9/6/2012, Iran prepares for Moscow, Kaveh Afrasiabi, Asia Times Online, (em inglês). 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

“P5+1” e Irã preparam-se para Moscou


Ali Asghar Soltanieh, Embaixador do Irã na Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA)

8/6/2012, entrevista a Kaveh L. Afrasiabi, Asia Times Online  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dois dias de conversações entre as potências mundiais e o Irã em Bagdá, no final de maio, produziram poucos resultados tangíveis, exceto o acordo para outra encontro marcado para Moscou, a iniciar-se dia 17 de junho de 2012. 
Na 2ª-feira (4/6/2012), o Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA, Yukiya Amano informou que a Agência reunir-se-á com o Irã dia 8/6/2012.

Ali Asghar Soltanieh, Embaixador do Irã na AIEA, conversou com Kaveh L Afrasiabi, em entrevista exclusiva ao jornal Asia Times Online.


Kaveh Afrasiabi
Kaveh Afrasiabi: Senhor embaixador, os membros do alto comando da AIEA acabam de concluir reunião de dois dias. No que tenha a ver com o Irã, o que houve naquela reunião? 

Ali Asghar Soltanieh: Foi reunião de rotina dos diretores da AIEA, na qual se discutiram várias questões, novos membros, suprimento nuclear, implementação de acordos, agenda de futuras reuniões, etc. Quanto ao Irã, mais uma vez os membros do Movimento dos Não Alinhados, mais de 100 países, apoiaram o Irã e os direitos nucleares do Irã, em declaração que foi lida pelo embaixador do Egito. O Irã também apresentamos uma declaração, tentando manter o foco no atual estado de coisas, identificando pontos que tenham de ser rediscutidos, as tendências mais preocupantes. E recomendamos que haja avanços construtivos. 

Especificamente, lembrei os presentes de que alguns governos ocidentais operam para manipular a AIEA e afastá-la do cumprimento de sua real tarefa. Tentam converter as “salvaguardas construídas a partir do material nuclear existente” em “salvaguardas construídas a partir de informações recolhidas por espiões” – quando a AIEA é organização internacional de caráter técnico, onde não trabalham espiões nem agentes de inteligência. Por causa desse desencaminhamento da Agência, os inspetores estão sendo obrigados, por alguns estados-membros, a envolver-se em atividades e práticas de espionagem, recebendo informação produzida pelos serviços de inteligência de alguns países, ou acusações de que o Irã estaria envolvido em atividades nucleares. 

Nada disso é aceitável, e esse tipo de atitude está minando a relação de confiança que todos entendemos que deva haver entre o Secretariado da AIEA e os estados-membros. 

Quanto ao Irã, depois de recente visita que o diretor-geral fez a Teerã, estamos tentando inaugurar um novo capítulo nas nossas relações com a AIEA, razão pela qual foi marcada nova rodada de conversações para 8 de junho, para discutir uma modalidade que permita abordagem estruturada que cubra todas as questões de preocupação que constam do Anexo ao relatório da AIEA de novembro de 2011 sobre o Irã. 

KA: Como o senhor reage às matérias recentemente publicadas na mídia ocidental, segundo as quais o Irã terá “limpado” e em seguida destruído um prédio suspeito no complexo militar em Parchin e removido a terra da área próxima? [1] 

AAS: Infelizmente, temos visto muitos exemplos desse tipo de boato sem fundamento, baseado em informação de inteligência deficiente e negligente e repetido pela mídia ocidental, durante os últimos dez anos, e mais. Em 2004, por exemplo, acompanhei os inspetores da AIEA a um local que fora citado em relatórios de espiões, baseados em imagens de satélites e, naquela época a notícia era sobre uma mina secreta de urânio, instalações de enriquecimento e toda a parafernália. Daquela vez, os inspetores confirmaram claramente que as alegações eram falsas e no local funcionava uma fábrica normal, sem coisa alguma de “suspeito”. 

KA: Então, a solicitação da AIEA, para visitar o complexo militar em Parchin está na agenda, nesse novo quadro de cooperação? 

AAS: Como eu já disse, todas as questões levantadas no relatório de novembro de 2011 serão cobertas pela nova modalidade. 

KA: Uma vez que os pedidos da AIEA vão além do que determina o atual acordo de salvaguardas com o Irã, essa nova modalidade não implicará uma implementação de facto, pelo Irã, do invasivo Protocolo Adicional? E, sendo assim, quais as chances de que o Irã adote formalmente, no futuro, o Protocolo Adicional? 

AAS: Bem... O Irã estava implementando o Protocolo Adicional já há dois anos, até que o Irã foi injustamente denunciado ao Conselho de Segurança da ONU. O Parlamento Iraniano, então, ordenou que o governo limitasse a cooperação com a AIEA, mantendo-se nos estritos limites do acordo de salvaguarda. Portanto, qualquer possibilidade de readotar o Protocolo Adicional depende de resolverem-se as questões com o Conselho de Segurança da ONU. 

KA: A implementação da nova modalidade poderia levar à possibilidade de o arquivo nuclear do Irã passar a receber tratamento “de rotina”? 

AAS: Estamos determinados a trabalhar intensamente com o secretariado da Agência, especialmente com o diretor-geral, na esperança de resolver rapidamente a questão. Como tenho dito e repetido, o arquivo do Irã foi, infelizmente, politizado; e está sendo manipulado. Todos os dias, questões antigas e irrelevantes ressurgem na pauta de discussão. 

Há alguns anos, tivemos outro acordo, um plano de trabalho com a AIEA, que previa que os arquivos do Irã fossem tratados como os demais, de outros países, depois que as principais questões tivessem sido equacionadas. As principais questões já foram de fato resolvidas e inteiramente a favor do Irã. Infelizmente, as coisas não avançam exclusivamente porque a AIEA é manipulada por alguns governos. 

Yukiya Amano
O Irã garantiu à AIEA uma das mais completas e amplas inspeções que a AIEA jamais fez, em toda a sua existência: já são mais de 4.000 homens/dia de inspeções, além das 100 inspeções “surpresa” que o Irã recebeu. Todas essas inspeções confirmaram que sequer um grama de material nuclear foi algum dia desviado para finalidades militares no Irã. Há, inclusive, vários relatórios assinados pelo atual diretor-geral e pelo anterior a ele, que o confirmam. 

Digo-lhe bem francamente: a única razão pela qual o arquivo do Irã permanece aberto e eternamente em discussão, são alegações fantasiosas, politicamente motivadas, que alguns poucos países ocidentais insistem em apresentar e reapresentar repetidas e repetidas vezes. Como esses são os mesmos países que influenciam a AIEA e a usam para seus próprios objetivos políticos. Mas ainda não perdemos a esperança. Continuamos a esperar que a AIEA consiga reorientar-se e passe a agir, em relação ao Irã, de modo mais técnico, mais profissional e mais equilibrado, sem se deixar comandar por interesses políticos e pelo alarido da imprensa. 

KA: Como o senhor recebeu as recentes notícias, na imprensa dos EUA, de que o presidente Barack Obama teria autorizado um ciberataque, com o vírus Stuxnet, contra o Irã? [2] 

AAS: Nossa posição é muito simples: nem o [vírus] Stuxnet nem o [vírus] Flame [outra arma de ciberataque, também muito noticiada] [3] nem qualquer ato de sabotagem ou atentado contra nossos cientistas etc. terá jamais qualquer efeito contra a decisão do Irã de exercer seus direitos nucleares, nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear do qual somos signatários. De fato, essas ações ilegais contra o Irã só reforçam nossa decisão de continuar a fazer avançar o programa nuclear iraniano para finalidades pacíficas. 

KA: O senhor já várias vezes criticou a atitude dos que dirigem a AIEA, que seria preconceituosa e viciada, sempre contra o Irã. O senhor realmente espera que a Agência, dessa vez, tenha atitude mais equilibrada? 

AAS: Sim, sem dúvida, esperamos. A recente visita do diretor-geral ao Irã foi passo muito positivo. E estamos decididos a cooperar com a AIEA, de modo a que se gerem relatórios menos problemáticos sobre a realidade no Irã, para que se evitem conclusões precipitadas, antes de concluídos os indispensáveis estudos técnicos (como se viu acontecer no caso do relatório sobre o enriquecimento de urânio a 27%). Mas, à luz dos progressos na discussão da modalidade, esperamos receber agora abordagem menos belicosa, mais amigável. 

KA: Que conexão há entre as conversações Irã-AIEA e as conversações paralelas multilaterais entre o Irã e as nações do [grupo] “P5 +1” [os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais Alemanha], marcadas para continuar em Moscou, no final de junho? 

AAS: A questão é muito simples. O outro lado, nas negociações entre o Irã e o “P5 +1” insiste, há vários anos, em falar da questão nuclear; agora, pela primeira vez, em Istambul [onde se realizou uma rodada dessas conversações, em abril], o Irã fez uma concessão e aceitou discutir o tema. É perfeitamente natural, portanto, esperar que a disposição do Irã, de cooperar amplamente com a AIEA, seja considerada nessas conversações. 

KA: O senhor vê com otimismo a próxima rodada das conversações, marcadas para Moscou? 

AAS: Como disse na declaração que divulguei hoje, acho recomendável que os dois lados, que se preparam para voltar a encontrar-se em Moscou, trabalhem construtivamente, quero dizer, que se evitem declarações e comentários que criem ambiente negativo, já antes de as conversações serem retomadas. Para que as conversações sejam produtivas no encontro de Moscou, é importante que a atmosfera não esteja poluída pela animosidade que se cria com alegações fantasiosas e golpes de propaganda. Temos de investir na construção de confiança, que já é um primeiro resultado dessas conversações. No momento, estão sendo preparadas uma agenda provisória e alguns primeiros acertos preparatórios, para facilitar a discussão em Moscou e para que cheguemos a resultado produtivo.



Notas dos tradutores
[1]  A notícia pode ser lida no Jerusalem Post, 4/6/2012, que cita a agência Reuters como fonte, a qual, por sua vez, diz que o diretor-geral da AIEA disse que satélites mostram que teria acontecido assim (em “IAEA sees demolition at Iran site, new talks set”)
[2] A notícia surgiu no New York Times, dia 1/6/2012, em: Obama Order Sped Up Wave of Cyberattacks Against Iran
[3] No New York Times, dia 1/6/2012, em: “Cyberattacks on Iran — Stuxnet and Flame

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Traumas familiares diminuem a distância que separa EUA e Irã


Sobre Separação (2011), roteiro, produção e direção de Asghar Farhadi, Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Los Angeles, EUA, fev. 2012

28/2/2012, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
27/2/2012, AToL – The Roving Eye

Kaveh L.
Afrasiabi
PALO ALTO, California – A ideia de que a arte imita a vida é belamente demonstrada no muito aclamado filme iraniano Separação, indicado para o grande prêmio em duas categorias do Oscar-2011: Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Roteiro Original.

É o quinto filme de Asghar Farhadi, que ilumina aspectos da vida e do povo iraniano de modo claro, preciso e sutil, cheio de simbolismo e de realismo cinematográfico.

Como em À Procura de Elly (Darbareye Elly, 2009 [1]) filme anterior de Farhadi, Separação oferece um sortimento de questões iranianas, de classe, culturais, normativas e psicológicas, algumas das quais, como a ética do cuidado com os mais velhos, são universais e repercutem nos públicos globais. 

Os dois filmes entram fundo na questão da confiança e das mentiras (in)convenientes, embora, comparado a Elly, Separação seja filme mais contido, e, talvez, inferior ao outro, ainda o mais refinado filme de Farhadi, que toca a questão do amor tabu, que, com o tempo, ressoa cada vez mais.

Asghar Farhadi
O estilo verité de Farhadi – a vida diária, mostrada com todas as suas complexidades e tensões dinâmicas, diretamente na tela – parece saudavelmente divorciado do tom “filme de diretor” característico do “novo cinema iraniano”. Com isso, Farhadi consegue abordar com sutileza vários temas, como as relações de gênero e o papel da religião e do secularismo – ingredientes standard das narrativas de “tradição versus modernidade”. 

O filme começa e termina em cenas sombrias de audiências numa vara de Justiça da Família, mas, a rigor, não é “filme de divórcio”, como o apresentaram, equivocadamente, alguns críticos. Os protagonistas, um casal, marido e mulher de classe média, está vivendo uma separação, motivada por diferentes opiniões sobre emigrar do Irã; mas ao longo do filme, o que se vê é marido e mulher que tentam manipular um o outro, no que parece ser rompimento apenas temporário.

A filha do casal (11 anos, mas intensamente protointelectual) ganha o direito de escolher com quem quer ficar, o que não se decide, no filme, embora fique bem claro, no ar, que a menina também tem seu próprio plano para reunir pai e mãe. 

Para o público ocidental médio, acostumado aos estereótipos negativos associados aos homens iranianos, que seriam patriarcas patológicos, graças à singular contribuição de um filme norte-americano muito popular, Nunca sem Minha Filha  [2] (1991), o filme de Farhadi tem o mérito de oferecer correção oportuna. Apresenta retrato muito mais simpático dos homens (e também das mulheres) iranianos, sem traço de chauvinismo machista ou obcecação por dominar e controlar. 

Fã do dramaturgo britânico Harold Pinter, Farhadi espalhou elementos pinterianos ao longo de Separação. Entre eles, a fúria e a frustração do outro marido que se vê no filme, cuja esposa grávida trabalha como empregada doméstica no apartamento do casal protagonista, onde também vive o pai do marido, que sofre do Mal de Alzheimer em estágio avançado – até ser sumariamente demitida por maus tratos ao velho e suspeita de roubo. 

De uma abertura atormentadamente comum, o filme avança para um melodrama raro que combina olhares sutis e silêncios com diálogos ríspidos, que evitam qualquer mensagem grandiloqüente ou ruídos ideológicos; como no teatro de Pinter, as pausas e olhares não são apenas traços que ajudam a compor o retrato dos personagens, mas “congelam” a ação, para indicar que, naqueles pontos, assistimos a outro estrato da realidade. 

Em sua dedicada busca por uma neutralidade política, Farhadi mesmo assim nos desafia com um rápido sussurro sobre o descontentamento político entre a classe média iraniana – na primeira cena do filme, quando a esposa, entre angustiada e irritada – personagem brilhantemente construído por Leila Hatami, diz que prefere que a filha não cresça “nas atuais circunstâncias” do Irã. 

O juiz pergunta “que circunstâncias?” e ela cala, autocensurando-se, como uma classe média moderna, no Irã, que, em vários sentidos, sente-se culturalmente sufocada. Essa é, de fato, a única cena “simbólica” de todo o filme. No torvelinho que eclode, disparado pela tragédia acidental que desaba sobre a empregada, que sofre um aborto espontâneo, os dois casais descobrem-se ante um sistema judiciário que os trata de forma rigorosamente idêntica e sem preconceitos, bem distante do estereótipo ocidental do que seria a justiça no Irã, pressuposta arcaica e bárbara. 

Por outro lado, o filme não esconde a influência da fé religiosa no comportamento individual (por exemplo, a empregada consulta, por telefone, uma autoridade religiosa, para saber se ela pode ou não lavar – e portanto tocar – o corpo do velho doente; e, adiante, ela faz considerável sacrifício de um princípio religioso) e, assim, como que afirma o status quo que, hoje, está cada vez sob mais intenso sítio ocidental. 

Simultaneamente, ao optar por mostrar, sem lhes fazer oposição, questões de fé, lealdade e estratificação social, Farhadi traz à luz as dificuldades da classe trabalhadora iraniana, que só aumentarão, como resultado do massacre das sanções ocidentais contra o Irã. 

Os únicos vilões, no filme, são as circunstâncias objetivas, os contextos fluidos da existência social que disparam os acontecimentos, os acidentes e os relacionamentos complexos, em termos da zeitgeist do filme, no contexto das dificuldades induzidas do exterior que formam o contexto implícito, e, assim, dão ao filme uma urgência política indireta. 

A indicação desse filme ao prêmio [e, hoje, ainda mais, a premiação (NT)], pela indústria americana do cinema, até há pouco mais mobilizada pela islamofobia e pelo “choque de civilizações”, que por sentimentos de tolerância ante a civilidade e o “outro” muçulmano [3], pode ser vista como um cessar-fogo artístico que, esperemos, emocione os políticos norte-americanos e os faça ver que a abordagem furiosamente belicista contra o Irã está a exigir imediata reconsideração. 

Em certo sentido, Separação enfrenta as clivagens transculturais das separações, interiorizadas no contexto das interações familiares entre personagens da classe média e da classe trabalhadora, e chama a atenção para a necessidade de compreenderem-se melhor as camadas de significação que jazem abaixo das realidades de superfície, não muito diferente do discurso filosófico de Terrence Malick em seu mais recente filme, A árvore da vida  [4]. 

Mas enquanto Malick é caracteristicamente americano, em sua ambição de desvendar o mistério da natureza, do cosmos, da humanidade, o microcosmo de Farhadi mantém-se focado no dasein heideggeriano da existência presente, que é simultaneamente mundana e eletricamente dinâmica, e causa os arranhões e as escoriações de percepções mutáveis e de personagens em processo. 

Há diferenças estilísticas profundas entre Farhadi e Malick, como o uso intenso, em Malick, da trilha sonora, como parte de sua narrativa; enquanto Farhadi praticamente dispensa a música – o que talvez sugira algum excesso de confiança na capacidade de o roteiro, só ele, conseguir fazer avançar a narrativa (o que nem sempre consegue plenamente). 

Seja como for, uma comparação limitada entre os dois diretores surge quase espontaneamente, apenas porque ambos operam sobre relações familiares, e fazem do cinema veículo muito rico de provocação e de reflexão. Postos lado a lado, esses dois filmes, feitos em continentes diversos, lembram o público da pulsação vital da estética humanista que se pode ouvir no Oriente e no Ocidente.

Separação, 2011, roteiro, produção e direção de Asghar Farhadi. Distribuído por Film Iran (no Irã); Sony Pictures Classics (nos EUA); Memento Films (distribuição mundial).
Lançado dia 1/2/2011, no Tehran Fajr Film Festival, e dia 15/2/2011, no Festival de Cinema de Berlim.
Já foi assistido por 3,1 milhões de pessoas no Irã; e por 9,6 milhões, em todo o mundo.


Notas dos tradutores
[1] Sobre o filme, exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ver: À Procura de Elly (Darbareye Elly)
[2]  Sobre o filme, ver: Nunca Sem Minha Filha
[4]A Árvore da Vida, 2011, ficha técnica. Trailer a seguir: