| Stanley McChrystal |
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| Al Hammadi |
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| Eric Prince (Blackwater) |
| Stanley McChrystal |
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| Al Hammadi |
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| Eric Prince (Blackwater) |
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Um
soldado dos EUA massacrou 16 civis (mulheres, velhos e crianças) no Afeganistão.
Foi o momento “Mi-Lai” no Afeganistão, segundo Pepe Escobar. (Foto EPA)
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| Pepe Escobar |
Uma atmosfera de tensão envolve nos EUA a campanha para as eleições legislativas de Novembro.
A crise económica e financeira evoluiu nas últimas semanas para uma crise global na qual a componente militar assume crescente importância.
Nesse contexto a perda de prestígio do Presidente Barack Obama é transparente, o que favorece o Partido Republicano e penaliza o Democrata, ameaçado perder a maioria no Congresso.
O aumento da violência no Iraque e no Paquistão e a caótica situação existente no Afeganistão agravaram o mal-estar nas Forças Armadas. Os grandes media estadounidenses reconhecem que a ofensiva de Marjah foi, afinal, um fracasso e a anunciada campanha em Kandahar tem sido sucessivamente adiada. O país está atolado num lago de corrupção – a produção de ópio nunca foi tão elevada – e o presidente fantoche Hamid Karzai, em vésperas de uma nova farsa eleitoral, permite-se criticar a politica de Washington para a Região.
A famosa entrevista em que o general Stanley McChrystal, comandante supremo no Afeganistao, desaprovou em termos chocantes a estratégia de Obama traduziu o mal estar no exército de ocupação norte-americano. O general foi demitido, mas o seu substituto, o general Petraeus, repetiu, usando outra linguagem, as críticas à politica do Presidente para a Região . E a Casa Branca não reagiu. Outros generais imitaram-no, em flagrante violação do regulamento de disciplina militar. Nenhum deles foi punido.
O clima de derrotismo entre as forças da NATO alastra a cada semana e alguns dos aliados dos EUA fixaram já datas para a retirada das tropas que mantêm no país.
O silêncio do Presidente Obama perante os actos de indisciplina dos seus generais é interpretado por analistas prestigiados como prova da sua fragilidade.
Num recente Seminário promovido em Caracas pelo Centro de Estudos Latino-americanos Rómulo Galegos, o vice-presidente do Parlamento Latino-americano, o venezuelano Carolus Wimmer, definiu como golpe de estado virtual contra Obama a situação criada pela atitude assumida por chefes militares que há poucos meses eram apresentados como heróis nacionais.
É inocultável hoje que o Pentágono tem uma influência cada vez maior na Administração, reduzindo o Presidente, na expressão de Wimmer, a figura decorativa.
Lisboa, 29 de Agosto de 2010
OS EDITORES DE ODIÁRIO.INFO

Mesmo os seus defensores disseram que as observações de McChrystal foram mal-educadas e um erro. Dado o fato de McChrystal ser uma pessoa excepcionalmente inteligente e muito ambiciosa, por que fez ele isso?
O general Stanley McChrystal, comandante dos EUA no Afeganistão, deu uma entrevista à revista Rolling Stone na qual ele e o seu staff insultaram os líderes civis do seu país. Foi demitido por insubordinação pelo presidente Obama. Mesmo os seus defensores disseram que as observações de McChrystal foram mal-educadas e um erro. Dado o fato de McChrystal ser uma pessoa excepcionalmente inteligente e muito ambiciosa, por que ele fez isso?
McChrystal deu a entrevista para ser demitido. E por que queria ser demitido? Porque sabia que as políticas que estava aplicando na guerra do Afeganistão não funcionavam, não podiam ter sucesso. E ele não queria ficar manchado pela censura pública.
Vejam a longa história que conduziu a esta entrevista. A estratégia militar que os Estados Unidos forjaram no Afeganistão e no Iraque foi originalmente imposta pelo então secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld. Era uma política de “machismo” ilimitado. Bombardeiem o inimigo de grande altitude e não se preocupem com quem morre. Usem a tortura em quem capturarem. Não consultem ninguém, mesmo que sejam chamados de aliados. Ocupem o país, indefinidamente.
Stanley McChrystal era general de uma estrela no início destas guerras, trabalhando em Washington como um dos golden-boys de Rumsfeld. Tinha um longo histórico, desde os seus dias de West Point, de rebelde desafiador que sabia exatamente quando parar – desdenhoso de superiores que não respeitava, mas sempre à procura de se promover. Rumsfeld deu-lhe a responsabilidade das unidades militares de elite mais secretas, envolvidas em “operações especiais” e conhecidas por serem “máquinas de matar”. Teve um resultado brilhante, como de costume.
Até que, em 2006, se ainda nos lembramos, os militares, os políticos, e a imprensa começaram a dizer que os Estados Unidos estavam a perder a guerra no Iraque. A resistência parecia demasiado forte, e o número de vidas perdidas crescia mês a mês. Os republicanos tiveram um mau desempenho nas eleições de 2006. Algo tinha de ser feito.
Algo foi feito. Rumsfeld foi despedido pelo presidente Bush. O vice-presidente Cheney, o mais forte defensor de Rumsfeld, perdeu influência para a secretária de Estado Condoleezza Rice e para o sucessor de Rumsfeld, Robert Gates, que fez campanha por uma abordagem mais “moderada”, enfatizando a diplomacia. Uma nova estratégia militar subitamente ganhou terreno, a contra-insurgência (referida pelo acrônimo COIN) foi desenvolvida por um antes obscuro militar, David Petraeus.
Petraeus é tão ambicioso e orientado quanto McChrystal, mas tem uma personalidade bastante diferente. Ele é o que se poderia chamar um militar intelectual. Ganhou o prêmio da nota mais alta do Command and General Staff College de 1983. Doutorou-se em relações internacionais em Princeton em 1989. Ensinou relações internacionais em West Point. Ao mesmo tempo, tem um longo registo de experiente oficial de combate. E cultivou relações com os políticos de Washington.
Desde os anos 80, os seus artigos e relatórios defendiam a contra-insurgência como doutrina. Inspirou-se nas experiências dos franceses que a usaram na Argélia e dos Estados Unidos no Vietnã. Como observam os críticos de direita de Petraeus, não foram sucessos notáveis. A COIN enfatiza a necessidade de “ganhar os corações e mentes”, o que significa necessariamente incorporar considerações diplomáticas e políticas na tática militar. O autor da entrevista da Rolling Stone, Michael Hastings, descreveu desta forma a COIN: “Pensem nos Boinas Verdes como um Corpo de Paz.”
O presidente Bush virou-se para Petraeus em 2006 e permitiu-lhe que implementasse a COIN no Iraque. Foi o famoso “surge” (avançada), que envolveu o aumento de tropas americanas no Iraque e uma mudança de estratégia. Basicamente, Petraeus fez duas coisas que reduziram, de fato, o volume de violência contra as tropas dos EUA. A primeira foi subornar os líderes tribais sunitas no Iraque central e ocidental para abandonarem o seu apoio tácito às unidades da al-Qaeda não-iraquianas. Como os sheiks sunitas não tinham gostado nunca das unidades da al-Qaida, estavam dispostos a esquecer a sua aversão aos americanos – por um preço.
A segunda coisa que Petraeus fez foi permitir a limpeza étnica em Bagdad, transformando uma cidade multiétnica em duas zonas segregadas, uma zona xiita maior e uma zona sunita sitiada e menor. Isto reduziu a violência contra as tropas dos EUA à custa de um aumento de violência inter-iraquiana. Também serviu aos interesses do mais persistente e efetivo oponente dos interesses americanos no Iraque, Mokhtada al-Sadr, que emerge como o negociador-chave do recém-eleito parlamento iraquiano.
Como disse Hastings numa entrevista ao Huffington Post sobre o seu artigo, “Petraeus é uma espécie de genio, conseguiu transformar o que teria sido uma derrota catastrófica no Iraque numa retirada que "livrou a cara". Mas é claro que uma retirada para "livrar a cara" não é uma vitória, mesmo que o senador Jhon McCain tenha insistido nisso quando se candidatou a presidente em 2008 – sem sucesso.
Quando Barack Obama se candidatou, disse de forma bastante clara que estava contra a guerra no Iraque e a favor da guerra no Afeganistão. Por isso, tinha obviamente de dedicar-se a ela. Promoveu Petraeus, adoptou a COIN, e nomeou McChrystal comandante no Afeganistão. Fiel ao seu estilo “rebelde”, McChrystal pediu publicamente mais 40 mil soldados a Obama que, depois de meses de reflexão, lhe deu 30 mil – mais uma data de retirada.
Nesse momento, contudo, McChrystal abandonou o seu anterior estilo “machista” e tornou-se entusiasta, talvez demasiado entusiasta, da aplicação da contra-insurgência no Afeganistão. Proclamou diretivas super-estritas para evitar baixas civis, uma política nada apreciada pelas unidades de infantaria dos EUA. Desenvolveu relações calorosas com o presidente Hamid Karzai, que era mantido à distância por outros líderes dos EUA. Pensou que podia obter uma rápida vitória em Marja e entregou a área às forças afegãs. Mas a decisão revelou-se um fracasso. E recentemente anunciou que a operação-chave na província de Kandahar, o coração das forças talibãs, tinha de ser adiada até Setembro.
Até o Chefe de Operações de McChrystal, o major general Bill Mayville, diz que o Afeganistão será como o Vietnã: “Não vai parecer uma vitória, cheirar a vitória, ou ter sabor de vitória... Isto vai acabar numa contenda.” Hastings termina desta forma o seu artigo: “Vencer, parece, não é realmente possível. Nem sequer com Stanley McChrystal no comando.”
Assim, que faria você se fosse McChrystal? Convidava um repórter de uma revista de rock-and-roll, considerado de esquerda, para acompanhá-lo em aviões e beber em festas e zombar do governo. Era garantia de ser demitido. E significava também que a futura “contenda” não iria envolvê-lo.
Que podia Obama fazer? Tinha de demitir McChrystal. Depois, atirou a batata quente para Petraeus, que não podia recusá-la. O próximo ano ou dois serão um jogo de movimentos rápidos no qual Obama e Petraeus vão tentar atirar a censura pública pela derrota das costas de um para as do outro.
A extrema-direita, os amigos de Rumsfeld e Cheney, não se deixaram enganar. Diana West, uma das suas especialistas, diz: “O pesadelo da COIN continua.” Para ela, COIN significa ordenar às tropas “que exerça fantasias de relativismo cultural que façam sentido de esquerda numa sala de aula do Posto de Comando, mas que são pouco menos que apavorantes na linha da frente.” Um ponto-de-vista menos mordaz foi o do coronel da reserva Douglas Macgregor: “A ideia de que vamos gastar um trilhão de dólares para remodelar a cultura do mundo islâmico é um rematado disparate.”
Claro que Macgregor tem razão. Quais são as escolhas políticas? A extrema-direita quer a guerra perpétua. A única alternativa é uma rápida e completa retirada. Obama não quer a primeira e teme abraçar politicamente a segunda. Por isso, manda o director da CIA, Leon Panetta, dar uma entrevista à ABC News, dizendo que os progressos no Afeganistão são difíceis e virão mais lentamente que o previsto. Efetivamente, é verdade.
Immanuel Wallerstein
Comentário nº 284, 1 de agosto de 2010
Wallerstein interessou-se pela política internacional quando ainda era adolescente, acompanhando a actuação do movimento anticolonialista na India. Obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou até 1971.
Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova York, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo.
extraído de Esquerda.net
Petraeus: o sucesso pode ser pior que o fracasso
12/7/2010, Tom Engelhardt, Washington, Tom Dispatch – traduzido por
Em depoimento triunfalista à comissão do Senado reunida para aprová-lo, ocasião em que foi saudado pelos dois lados do plenário como herói conquistador vitorioso, o general David Petraeus anunciou a retirada dos primeiros 1.000 soldados norte-americanos do Afeganistão para ainda esse mês.
“É o início do cumprimento da promessa que o presidente fez ao povo norte-americano, de reduzir o número de soldados enviados para lá em
Em julho do ano passado, quando o general Petraeus substituiu o general Stanley McChrystal como comandante da guerra do Afeganistão, Petraeus foi saudado como “herói dos EUA” pelo senador John McCain; como “o mais talentoso oficial de sua geração” por George Packer do New Yorker; e como “o primeiro guerreiro-diplomata da nação” por Karen DeYoung e Craig Whitlock do Washington Post – típicos comentários que se ouviam naquele momento, de Republicanos e Democratas, de liberais e conservadores. Petraeus, então, garantiu que os EUA estariam no Afeganistão “para vencer”.
No ano que transcorreu de lá até hoje, a guerrilha Talibã foi duramente “contida” e “chegou-se a um ponto de virada”, diz um alto oficial do exército dos EUA, atualmente servindo na International Security Assistance Force no Afeganistão, que só pode falar sob anonimato, conforme as regras de sua corporação. Segundo ele, por todos os índices mensuráveis – número de bombas de fabricação caseira ou minas de beira de estrada, ataques de homens-bomba, atentados dos Talibãs contra funcionários locais, baixas entre os aliados e civis afegãos – a intensidade da guerrilha diminuiu consideravelmente. O exército e a polícia afegãos, embora ainda não sejam capazes de liderar o combate à guerrilha em seu país, foram notavelmente fortalecidos graças às missões de treinamento de EUA e OTAN. O governo do presidente Hamid Karzai, ainda considerado fraco e corrupto, conseguiu dar “cara afegã” àquela guerra.
Deputados e senadores Democratas críticos do general Petraeus e da estratégia de “avançada” [ing. surge] do presidente Obama mantiveram-se estranhamente calados essa semana, enquanto o general visitava, uma a uma, as centrais de poder de Washington, do John Podesta’s Center for American Progress ao American Enterprise Institute, festejado como herói do momento e potencial candidato à presidência em 2016. Como em 2007, quando foi nomeado para supervisionar a “avançada” de George W. Bush no Iraque, e os críticos diziam que não havia “avançada” que desse jeito no Iraque.
Daquela vez, os impressionantes mapas que o general apresentou em seu depoimento ao Congresso, também mostraram vivamente o contrário do que tantos diziam.
A situação no Afeganistão parece estar passando agora pela mesma metamorfose que se viu acontecer no Iraque, depois de atingir o fundo do poço em julho de 2010, e críticos e apoiadores da guerra concordam que, passados nove anos, a guerra está fracassando, a estratégia de contra-insurgência deu em nada e as pesquisas de opinião nos EUA mostram que a guerra do Afeganistão é cada dia mais impopular.
“Um ano faz muita diferença!”, disse um animado alto funcionário do Pentágono. Em apenas 12 meses, como o general Petraeus gosta de dizer, ele conseguiu sincronizar os “relógios” do Afeganistão e de Washington; e no processo, como já fez ná época do Iraque, tirou os jornais e noticiários, da guerra; e a guerra, dos jornais e noticiários.
A última pesquisa Gallup mostra que 63% dos norte-americanos, hoje, “apóiam” o modo como o general vê a Guerra do Afeganistão...
O que significará “o sucesso” no Afeganistão
OK, ainda não aconteceu – e tudo indica que jamais acontecerá. Mas imaginemos, por um momento, que histórias de sucesso comecem a pipocar nos jornais e noticiários, à medida que o mais político dos generais norte-americanos volte a uma Washington agradecida.
Não há indicadores e estatísticas que demonstrem que a Guerra do Afeganistão poderia estar pior do que está hoje. A antiguerrilha, estratégia implantada pelo general McChrystal, mas concebida pelo general Petraeus, dá sinais de fracasso; e a única ‘avançada’ que se vê por lá é dos Talibãs. Em torno desses fatos, ergueu-se um coro de críticas e lamentações, da esquerda, da direita e do centro.
Há quem diga que o fracasso alimenta os críticos, como cadáveres alimentam vermes. Ou, dito de outro modo, é fácil criticar um projeto fracassado dos EUA. Mas... e um projeto bem-sucedido?
E se Petraeus realmente aparecer como o general milagreiro dos belicistas norte-americanos do século 21 – o que, se diga de passagem, só significa que ele teria de ‘conter’ a ‘avançada’ dos guerrilheiros Talibã (o que corresponde à definição moderna de vencer, dado que os belicistas norte-americanos já não usam a palavra “vitória”)?
Hoje, o fracasso cada dia mais auto-evidente da política dos EUA para o Afeganistão tem feito ouvir, cada dia mais, vozes que exigem datas definitivas para a retirada, completa ou parcial, do Afeganistão (ou, do lado dos Republicanos, vozes que protestam, exatamente, contra a fixação de qualquer data), para atacar o presidente Obama. Nessas circunstâncias, ninguém é claro, está preocupado com determinar o que significará, de fato, ter sucesso no Afeganistão. Estamos tão por baixo, há tanto tempo, que já ninguém nem tenta refletir sobre o que seria melhor para os EUA.
Pior, impossível. E temos de refletir sobre isto. Digamos, então, que Petraeus volte a Washington exibindo o que, no pé em que estão as coisas, facilmente passará por triunfo. A pergunta é: e daí? Ou, dito de outro modo: não parece razoável temer que esse tipo de sucesso no Afeganistão será ainda pior, para os EUA, do que o fracasso lá?
Consideremos que, em julho de 2011, os militares norte-americanos mal estarão conseguindo controlar as áreas chaves do país, como Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão. Os EUA mantêm lá quase 100 mil soldados regulares (e, no mínimo, outros 100 mil mercenários contratados por empresas privadas); e está em marcha uma lenta retirada dos 30 mil soldados que Obama mandou para o Afeganistão em dezembro de 2009. Houve também uma “avançada” de pessoal civil, que triplicou o número de funcionários do Departamento de Estado no Afeganistão. E houve “avançada” também de pessoal da CIA – além de “avançada” de empresas que estão construindo bases militares e que, como sempre, seguem a CIA. Até julho de 2011, haverá também “avançada” dos aviões-robôs comandados pela CIA e que “avançam” todos os dias sobre as fronteiras do Paquistão. Especialistas estimam que a campanha de contraguerrilha dure vários anos, provavelmente, décadas; os aliados da OTAN só falam de sair de lá; e, outra vez segundo especialistas, os Talibãs, cada vez mais profundamente enraizados na minoria pashtun afegã, são simplesmente, em qualquer sentido da palavra, inderrotáveis.
Isso, portanto, seria “o sucesso” dos EUA no Afeganistão, depois de dez anos de guerra. Dado o pesadelo logístico que é garantir apoio a tantos soldados, agentes de inteligência, funcionários civis e empresas contratadas para operar no Afeganistão, os quase 7 bilhões de dólares que se gastam por mês hoje, são preço que os EUA teremos de continuar pagando ainda por muito tempo (calculado por baixo, se se consideram o desperdício com a guerra em si e, mais, o custo de tratar os feridos e os veteranos feridos no corpo e na alma, cujo número só aumentará sempre).
Os frágeis exército e polícia afegãos terão de receber treinamento longo e continuado, num país em que o orçamento nacional é mínimo e que (diferente do Iraque) não tem petróleo nem qualquer fonte de renda imediata; caberá também aos EUA construir e manter o exército e a polícia afegãos. Tudo isso, sem esquecer que a Força Aérea dos EUA terá de ser, ainda por muito tempo, a Força Aérea do Afeganistão. Em outras palavras: “sucesso dos EUA no Afeganistão” significará que os EUA terão de manter o Afeganistão ainda por muito tempo.
Assim sendo, o que de fato os EUA têm a mostrar, obtido em troca de tanto dinheiro, esforço e vidas?
Dando tudo certo, teremos ganho – e vitória sempre precária – um território dividido, arruinado, restos de 30 anos de guerras, terras remotamente distantes dos EUA, do outro lado do planeta. Os EUA teremos ocupado o 5º país mais pobre do mundo. Os EUA teremos ocupado o 2º país mais corrupto do mundo. Os EUA teremos ocupado o principal narcoestado do mundo, o único Estado que produz, com magnitude de monocultura, uma planta que ninguém come e que só serve para produzir ópio. Em termos de guerra global ao terror, os EUA teremos ocupado um país que, segundo cálculos do diretor da CIA, abriga de
Se se considera o objetivo declarado da guerra – “Não podemos permitir que a Al Qaeda ou qualquer outro grupo transnacional de extremistas estabeleçam santuários fixos em pontos dos quais possam atacar nossa pátria ou nossos aliados”, nas palavras do general Petraeus no discurso ante o Congresso, quando foi aprovado, no final de junho de 2010 –, o sucesso dos EUA no Afeganistão significa praticamente nada, e menos a cada momento. O Afeganistão jamais foi importante, em si, para a al-Qaeda. Sempre foi local (relativamente) conveniente, nunca mais que isso. Os EUA teriam de ocupar muitos outros países aos quais, sendo o caso, seria preciso impedir o acesso da al-Qaeda.
De fato, o que resta da Al-Qaeda original – segundo estimativas da inteligência dos EUA, não chegam a 300, entre líderes e agentes – parece ter-se fixado nas áreas tribais do Paquistão, áreas que o exército dos EUA jamais ocupará, por mais ataques com aviões-robôs que a CIA tente. A inteligência dos EUA sugere, cada dia mais insistentemente, que a Al-Qaeda está em processo de fusão com pequenos grupos jihadistas locais naquelas fronteiras, no Iêmen, na Somália, no Norte da África e sabe-se lá onde mais. Trata-se de uma rede “amorfa e dispersa”, ou talvez já seja só uma ideia de ideologia crua, que existe mais online do que em algum ponto específico do planeta.
Nesse sentido – e essa é a única razão jamais apresentada para a presença dos EUA no Afeganistão –, qualquer “sucesso” da estratégia de contraguerrilha jamais significará coisa alguma, a menos que os EUA, baseados no mesmo pensamento estratégico, invadissem a seguir o Paquistão, a Somália, o Iêmen e inúmeros outros países. Em outras palavras, os EUA teriam de conseguir fazer algo que os anos Bush provaram, definitivamente, que os EUA não conseguem fazer: impor a Pax Americana em todo o planeta Terra.
Sim, o governo Bush ofereceu outras explicações para a Guerra do Afeganistão, inclusive dar cobertura contra o que chamavam de “arco de instabilidade”, que iria do Norte da África à fronteira da China (essencialmente, onde está o coração de petróleo do planeta); empurrar a Rússia de volta para seu velho ‘quintal’ soviético na Ásia Central; e garantir o fluxo do petróleo do Mar Cáspio rumo oeste. Mais recentemente, com a revelação de que há um trilhão ou mais de dólares, em recursos naturais, no subsolo do Afeganistão, o que obriga a acrescentar àquela lista de “causas” da guerra também o interesse das mineradoras ocidentais. Mas o governo Obama nada explica; sendo governo por natureza gerencial, mais que visionário, no que tenha a ver com a política exterior dos EUA, talvez sequer conheça alguma explicação de por que os EUA estão
Seja qual for a explicação do dia, as guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão contam história diferente de todas as explicações já aparecidas.
O que de mais singular parece ter sido produzido pela Guerra do Iraque é, no máximo, o aumento da influência do Irã sobre o Iraque. Economicamente, o Iraque é hoje local mais seguro para que lá operem as petroleiras ou controladas ou de propriedade do Estado, de China e Rússia, além de outras, de outras nações não-ocidentais. No Afeganistão, em termos desses recursos naturais futuros, os EUA parecem estar em guerra para tornar o Afeganistão mais seguro para os investimentos chineses (assim como as recentes sanções ‘debilitantes’ aplicadas contra o Irã também ajudam a tornar o Irã mais ‘seguro’, só no que tenha a ver com ser controlado pelos chineses).
O ponto [final, de interrogação?], da questão afegã
Tudo isso faz com que os massivos investimentos de recursos norte-americanos, inclusive vidas, no Afeganistão, continue a ser impenetrável mistério que não se discute e do qual ninguém fala. Por aí, seja nos vastos campos de papoulas do Afeganistão, seja entre as paredes da burocracia encarregada da segurança nacional em Washington, vagueia uma enorme pergunta jamais perguntada. A mesma pergunta vagueou também, embora claramente perguntada, há quase meio século, sobre o Vietnã, a guerra que os EUA perderam e à qual David Petraeus retornou, em 2006, como fonte a partir da qual produziu o manual de contraguerrilha do Exército que é a base da atual “avançada”.
A pergunta foi: por que estamos no Vietnã? (Foi até título de romance de Norman Mailer.) Em 1965, o governo do presidente Lyndon Johnson produziu um filme de propaganda exclusivamente para responder àquela pergunta, que já começava a arrastar para o fundo do poço os números das pesquisas eleitorais do próprio Lyndon Johnson e de sua “Grande Sociedade”. O filme recebeu o nome de “Why Viet-Nam” [Por que Vietnã?]. Não levava ponto de interrogação, e muito se discutiu esse ponto, no sentido mais literal da discussão, dentro do governo.
O filme começava com o presidente lendo uma carta que recebera de “uma mãe do meio-oeste”, cujo filho estava no Vietnã. Ouve-se a voz do presidente, com aquele sotaque, assumir a pergunta da mulher como se fosse pergunta sua. “Por que Vietnã?”, ele repetia três vezes, enquanto o título do filme surge na tela. Só então, oficial ou extra-oficial, aparecia um grande ponto de interrogação, cobrindo toda a tela, como se cobrisse a própria guerra.
Em certo sentido, esse mesmo ponto de interrogação reapareceu depois da invasão do Iraque em 2003. Mas ainda não apareceu associado ao Afeganistão.
Por causa do 11/9, a Guerra do Afeganistão continuou durante anos a ser considerada guerra (relativamente) “boa” (e em grande medida, guerra esquecida). Até que o fracasso visível trouxe à tona o que os EUA efetivamente já estão pensando sobre o Afeganistão.
É hoje mais que hora de nos propormos a mesma pergunta, apesar de o governo Obama viver a repetir o mantra da Al-Qaeda dos anos Bush, quase palavra a palavra e com as mesmas explicações (nenhuma).
Por que os EUA estamos no Afeganistão? Por que estamos consumindo lá, todas as riquezas que nos faltam aqui?
Já ninguém duvida de que o fracasso da guerra de contraguerrilha no Afeganistão será catástrofe cara demais, à qual os EUA não se podem expor.
Não percamos mais um ano para descobrir que o futuro que lá nos espera é ainda mais terrível que o presente, um “sucesso” que nos prenderá lá por anos e anos, enquanto, em casa, nossos problemas só engordarão.
Quem precisa, além das dificuldades de hoje, também de uma Síndrome de Patraeus?
A artigo original, em inglês, pode ser lido em: Why Are We in Afghanistan?
