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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pepe Escobar − “Balé da Energia 2: Síria, Ucrânia e o Oleogasodutostão”

26/8/2014, [*] Pepe Escobar, RT − Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

foto: Andrey Sinitsin
Assim como Irã, Rússia, EUA e União Europeia estão envolvidos num sofisticado balé nuclear/de-energia, Síria e Ucrânia são também dois vetores chaves nos jogos de energia, com peso suficiente para determinar grande parte do que acontece a seguir no Novo Grande Jogo na Eurásia.

E essas duas guerras, na Síria e na Ucrânia, também são guerras de energia.

O plano máster do governo Obama para a Síria era “Assad tem de sair”; a mudança de regime geraria uma entidade da Fraternidade Muçulmana apoiada pelos EUA, e uma perna chave do Oleogasodutostão – o gasoduto Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – estaria amputada para sempre.


O próprio emir do Qatar em pessoa tomou a estrada de Damasco em 2009 para negociar um gasoduto Qatar-Síria-Turquia. Mas Bashar al-Assad disse que não; explicou que não tinha interesse algum em pôr em risco os negócios de energia entre Síria e Rússia.

Mesmo assim, prosseguiram as conversas e, lembrando que em 2001, acontecera um entendimento para um projeto rival Irã-Iraque-Síria. Significa que já aparecia escrito na parede – ou nas tubulações (de aço) que chegariam, mais dia menos dia, ao Mediterrâneo Leste. O gás para consumidores europeus potenciais viria, de fato, do campo Pars Sul, no Irã, contíguo ao campo Cúpula Norte, do Qatar; juntos, os dois campos formam o maior campo de gás de todo o planeta.

Não só para o Qatar e para a Turquia, mas especialmente para a Voz do Patrão, era negócio inaceitável; a política oficial dos EUA de “isolar o Irã” estaria em cacos. Pior: a possibilidade estaria aberta para que a União Europeia em seguida se convertesse em consumidora privilegiada de ambos, Rússia e Irã, dos quais passaria a receber nada menos que 45% de seu suprimento de gás. A plena integração energia/comércio da Eurásia – nesse caso envolvendo grande parte da União Europeia, Rússia e Irã – é anátema absoluto para o Império do Caos.

Eis aí o contexto argumentacional que “explica” o desastre intitulado “Assad tem de sair”; uma guerra DE terror, financiada em grande parte por Qatar e Arábia Saudita, com apoio logístico da Turquia, com Ancara, a CIA e a gangue do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) criando uma ponte aérea “secreta” para armar os chamados jihadistas “do bem”, usando para isso aviões cargueiros militares sauditas, qataris e jordanianos, desde 2012.

foto: Khaled al-Hariri
O mínimo que se pode dizer, é que a volta do chicote no lombo do chicoteador foi espetacular. “Assad tem de sair” deu em nada. E nada menos que o Estado Islâmico (IS), antes conhecido como ISIL, liderado pelo Califa Ibrahim, ergueu a própria cabeçorra. Até as Forças Especiais dos EUA estão embasbacadas ante o poder de luta deles.

O Califato, que engloba partes da Síria e do Iraque está ganhando rios de dinheiro vendendo – ironia mãe de todas as ironias – petróleo e gás a preço de liquidação no mercado negro. São pelo menos US$ 38 milhões de dólares/mês: US$ 8 milhões de um campo de gás capturado na Síria e US$ 30 milhões de, no mínimo, seis campos de petróleo capturados no Iraque.

As Casas de Saud e Thani mostram-se hoje ostensivamente horrorizadas com o Califa e seus degoladores, inclusive os já chamados jihadistas-Beatles. Mas mesmo assim os doadores sauditas e qataris privados, além de outros notáveis do CCG, continuam a fazer chover dinheiro e armas sobre o Califato. O presidente Erdogan na Turquia está hoje também oficialmente horrorizado. Mas a fronteira turco-síria continua escancarada para o ir e vir de todos os jihadistas viajantes.

No pé em que estão as coisas no Oleogasodutostão, a possibilidade de o projeto do gasoduto Qatar-Síria-Turquia decolar é zero. E as coisas não estão mais bem paradas no que tenha a ver com Irã-Iraque-Síria, considerando que dois desses três países estão em guerra civil sem final à vista.

Deem-nos Grad, que a gente frack

No cenário da Ucrânia, o “vilão” é a Rússia, em vez do Irã. E a implicação é muito mais direta sobre interesses dos EUA.

O que realmente interessa no leste da Ucrânia é limpar uma vasta área para o fracking – mediante uma ofensiva com mísseis Grad, o que levou a êxodo em massa de refugiados.

Michael Hudson resumiu muito bem:

Agora, imaginem se aqui nos EUA o presidente Obama e o vice-presidente Biden mandassem tropas para o interior do estado de New York, que se opõe à perfuração para extração de petróleo/gás, e bombardeassem as cidades de Rochester, Buffalo, e se pusessem a bombardear as cidades e a matar todos os que se opõem ao fracking. Pois isso, exatamente, é o que está acontecendo na Ucrânia. E estão fazendo isso com o apoio do Banco Mundial.

A empresa Royal Dutch Shell é a principal interessada em perfurar/extrair xisto betuminoso no leste da Ucrânia; em janeiro, assinou negócio de US$ 10 bilhões.

E há também a Exxon, além da conexão Burisma Holdings. O governador nomeado de Dnepropetrovsk, cidadão israelense-ucraniano, o tenebroso bilionário Igor Kolomoisky – que também mantém sua própria milícia privada – está na cama com ninguém menos que o vice-presidente dos EUA Joe Biden. O filho de Joe Biden foi contratado como diretor para negócios de petróleo e gás da Burisma Holdings – exatamente a maior empresa de extração/refino de xisto betuminoso [fracking] na Ucrânia.

Além disso tudo, o Parlamento em Kiev aprovou lei que permitirá que investidores dos EUA e da União Europeia participem – em termos de joint venture – de até 49% da propriedade da tubulação enterrada no trecho ucraniano e das instalações subterrâneas de armazenamento de gás.

A conversa dos “especialistas” de Kiev é previsível: a joint venture trará o tão necessário “investimento”. E porá na prateleira para sempre o gasoduto Ramo Sul, de 2.446 km, planejado para levar o ouro azul da Gazprom pelo subsolo do Mar Negro e entrar na União Europeia na Bulgária, absolutamente sem passar pela Ucrânia. Tradução: o já periclitante orçamento de Kiev encolherá ainda mais, com a redução nas taxas cobradas pela “passagem” do gás.

foto: Gleb Garanich
A União Europeia importa da Rússia quase 30% do gás de que precisa. Metade disso transita hoje pela Ucrânia. Mas em futuro próximo o gasoduto Ramo Norte, pelo subsolo do Mar Báltico entrará em operação, e o Ramo Sul é praticamente certo, tão logo a confusão na Ucrânia seja resolvida. Contornar a Ucrânia é opção mais firme a cada dia.

Compare-se isso ao sonho molhado de Kiev, inflado por Washington, de vir a “controlar” todo o fluxo de gás da Gazprom para a União Europeia e, além do mais, de controlar todo o comércio em dólares norte-americanos. Mais uma vez, voltamos à política básica do Império do Caos – impedir maior integração econômica/de-energia entre Rússia e União Europeia.

Assim sendo, a prioridade de Washington no curto prazo é sabotar o Ramo Sul; não surpreende que o gasoduto esteja suspenso, com a Comissão Europeia obedecendo caninamente a Voz do Patrão. Mas a obediência nesse caso também significa que, por hora, largas porções da União Europeia permanecem reféns da Ucrânia.

É sob essa luz que se tem de examinar a recente intervenção, pelo vice-ministro do Petróleo do Irã, Ali Mejidi, quando declarou entusiasticamente que o eternamente conturbado Nabucco, a ópera do Oleogasodutostão, se algum dia houve tal coisa, estaria outra vez “em cena”.

A ideia do gasoduto Nabucco é levar gás para a União Europeia via Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria. Sim, mas, gás vindo de onde? O Turcomenistão e o Cazaquistão ficaram, afinal, excluídos. Poderia ser gás do Azerbaijão, mas essa via exige uma fortuna extra em investimentos. A indústria iraquiana não estará, tão cedo, em operação. E o Irã só estará no jogo se assinar algum acordo nuclear até o final de 2014 e se as sanções forem levantas em 2015 (e todos esses “se” são gigantes).

Assim sendo, na Ucrânia, como na Síria, estamos de volta ao começo do jogo, em termos de energia. O país é uma arca de recursos econômicos, que está sendo sugado para dentro do poço do capitalismo de desastre. No fim, é provável que a Gazprom surja como vencedora.

Não está entendendo Síria e Ucrânia? Calma: basta seguir a trilha das guerras da energia.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge,  Nimble Books, 2007.    
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pepe Escobar – “Bandar Bush, “libertador” da Síria”

13/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bandar bin Sultan
O espião voltou. O príncipe Bandar bin Sultan, também conhecido como Bandar Bush (para Dábliu, Bandar era da família), reapareceu espetacularmente à tona, depois de um ano de limbo atapetado de especulações (teria morrido, teria sobrevivido, a uma tentativa de assassinato  em julho de 2012). E estava de volta ao palco, bem ali, nada mais, nada menos: em encontro cara a cara  com o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Rei Abdullah
Arábia Saudita
O rei Abdullah da Arábia Saudita, para citar Bob Dylan, “não está ocupado em nascer: está ocupado em morrer” [1].  Pelo menos, foi capaz de pegar da pena e, recentemente, nomeou Bandar para comandar o Diretorado Geral da Inteligência Saudita; Bandar está encarregado, pois, do grande plano conjunto EUA-Sauditas para a Síria.

O encontro de quatro horas entre Bandar Bush e Vlad - a Marreta, já alcançou status mítico. Na essência, segundo vazamentos diplomáticos, Bandar pediu que Vlad abandonasse o presidente sírio Bashar al-Assad e esquecesse a coisa de bloquear uma possível resolução do Conselho de Segurança da ONU para que se implante uma zona aérea de exclusão (como se Moscou algum dia admitirá o replay da Resolução n. 1.973 da ONU contra a Líbia). Em troca, a Casa de Saud compraria carregamentos e mais carregamentos de armas russas.   

Vlad, previsivelmente, não se deixou embasbacar. Nem quando Bandar audazmente garantiu que, qualquer que seja a configuração de um quadro pós-Assad, os Sauditas permanecerão “completamente” no controle. Vlad – a inteligência russa – já sabia de tudo. Não se embasbacou, nem Bandar extrapolou, prometendo que a Arábia Saudita não permitirá que nenhum membro do Conselho de Cooperação do Golfo – o Qatar, no caso – invista no oleogasodutostão que atravesse a Síria para vender gás natural na Europa e, assim, prejudique interesses russos (da Gazprom).

Quando Bandar viu que não estava conseguindo coisa alguma, voltou à posição anterior: a única saída do caso sírio é a guerra – e Moscou que esqueça a sempre adiada conferência de paz de Genebra II, porque os “rebeldes” não aparecerão.

Vijay Prashad
De novo, ninguém precisaria lembrar Vlad de que os sauditas – em “cooperação” com Washington – não têm qualquer controle sobre a galáxia “rebelde”. O Qatar foi confinado à lata (cara) de lixo, como Vijay Prashad comenta. É parte do plano de Washington – se é que há plano – para isolar a Fraternidade Muçulmana Síria e suas sombrias ramificações / conexões jihadistas.

Bandar, o dissimulado, por sua vez, não é tolo a ponto de acreditar na própria propaganda. Ele sabe que Moscou tem interesses geoestratégicos mais complexos que apenas manter a Síria como compradora de armas. E deve ter desconfiado de que Moscou simplesmente não se incomoda com concorrentes do Golfo que ataquem mercados-alvos europeus no oleogasodutostão.

É instrutivo lembrar que em 2009 Damasco não assinou acordo com o Qatar para construir um oleogasoduto através da Síria; mas assinaram o memorando de entendimento, ano passado, para construir o oleogasoduto Irã-Iraque-Síria, de US$10 bilhões. Implica que, para Damasco, o negócio com o Irã é muito melhor; e se o oleogasoduto chegar a ser construído, a Gazprom poderá até participar do negócio, na infraestrutura e na distribuição. O caso é que Moscou já concluiu que a Gazprom russa não perderá o controle sobre a energia europeia em benefício do gás natural qatari. Pode-se até dizer que a Gazprom tem mais poder sobre a eurozona – em tumulto, decadente, virtualmente insolvente – que o Banco Central Europeu [European Central Bank (ECB)].

Oleogasoduto Síria - Iraque - Irã (setas verdes)
O que Vlad, sim, realmente, teme, é que algum super caos, que se instale em algum período pós-Assad, venha a ser explorado pelos jihadistas-salafistas.

Nunca será demais lembrar que de Aleppo a Grozny são apenas 900 quilômetros. A próxima parada da Jihad Global na Síria seria o Cáucaso. E quanto a isso, sim, Bandar Bush e Vlad - a Marreta podem ter interesses convergentes; o interesse estratégico que os aproxima é controlar os jihadis – apesar de Bandar, de fato, também já os estar armando.

O novo Afeganistão

Moscou não abandonará Damasco. Ponto. Parágrafo. Ao mesmo tempo, como Bandar ameaçou, é mais difícil acontecer Genebra II, do que o governo Obama parar de “dronar” o Iêmen até a morte.

"Rebelde" na Síria dispara arma fornecida pela Arábia Saudita
Como Asia Times Online já noticiou extensamente, o nome do jogo, na prática, ainda é a Síria, como o novo Afeganistão, com a Casa de Saud no controle de todos os aspectos da jihad (com Washington “liderando pela retaguarda”). A mais mortal ironia da história também se aplica aqui: em vez de colidir de frente com a União Soviética, agora os sauditas colidem de frente com a Federação Russa. Bandar é simultaneamente o novo fornecedor-de-armas-em-chefe   e o libertador-em-chefe da Síria. Mas o espião-de-volta-à-cena não dá sinais de estar atento à inevitável, terrível volta do chicote sobre o lombo do chicoteador. Ainda mais alarmante é que o governo Obama está ali, exatamente na cola dele.

A visita de Bandar Bush a Moscou jamais teria acontecido sem luz verde de Washington. Então, qual é o (atrapalhado) master plan? O governo Obama parece acreditar num Acordo Sykes-Picot remixado – quase um século depois do original. O problema é que não tem nem a mais remota ideia de como configurar novas zonas de influência. Enquanto isso, os sauditas que carreguem o piano! O primeiro passo foi eliminar do quadro o Qatar. É inacreditável o quão rapidamente o emirado, que há dois meses era aspirante a mini superpotência, está hoje reduzido a menos que uma quinta, sexta via a (talvez) considerar.

Bashar al-Assad
Mas é possível que Bandar, agora, já tenha captado a mensagem escrita (com sangue) no muro: Bashar al-Assad permanecerá no poder na Síria até as eleições de 2014; é possível que vença as eleições. Os sauditas talvez possam aceitar alguma forma de compensação no Líbano, com seu protegido, o cosmicamente incompetente Saad al-Hariri, de volta ao poder, numa coalizão de governo que incluirá o braço político do Hezbollah – não o outro, que os poodles europeus chamam de “terrorista”. Mas até isso parece pouco provável.

Então... o que fará Bandar “O Libertador”? Bem... Sempre poderá dirigir seu jato particular para Dallas e afogar as mágoas num mar de uísque single malt, cortesia da Casa de Dábliu.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

Livros
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Nota dos Tradutores
[1] It’s alraight, Ma (I’m only bleeding). Ouve-se, com legenda . A seguir:

A expressão aparece também, retraduzida, em verso de Caetano Veloso em “Panis et circencis” (com os Mutantes): “Mas as pessoas na sala de jantar / são ocupadas em nascer e em morrer”.
A seguir: