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terça-feira, 17 de setembro de 2013

De Hiroshima à Síria: o inimigo cujo nome não queremos dizer

11/9/2013, [*] John Pilgerjohnpilger blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros: “Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz”. Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.


Na parede de meu escritório tenho emoldurada a primeira página do jornal Daily Express do dia 5/9/1945 e a manchete: “Escrevo, como um alerta ao mundo”.

Era a primeira linha da matéria de Wilfred Burchett sobre Hiroshima, a primeira que se leu no ocidente, escrita em Hiroshima, 30 dias depois do ataque norte-americano. Foi o furo jornalístico do século. 

Wilfred Burchett
Por causa dessa sua longa, perigosa viagem, que desafiou as autoridades da ocupação norte-americana, Burchett foi massacrado, sobretudo por outros jornalistas “incorporados” às tropas norte-americanas. A matéria denunciava que os EUA haviam cometido um ato de assassinato premeditado em massa, em escala gigantesca e iniciado uma nova era de terror.

Hoje, praticamente todos os dias, Burchett tem sua revanche. A criminalidade intrínseca do uso de armas de destruição em massa, que os EUA inauguraram, está todos os dias aí, ao alcance de todos os olhos, nos Arquivos Nacionais dos EUA e em décadas de militarismo camuflado como democracia. O psicodrama em que os EUA vivem mergulhados em tudo que tenha a ver com a Síria exemplifica tudo isso. Mais uma vez, o povo dos EUA foi capturado e é refém de uma ameaça terrorista ainda negada até pelos mais progressistas críticos das políticas dos EUA para o mundo. 

A terrível verdade jamais mencionada nos EUA é que o mais perigoso inimigo da humanidade vive “do lado de cá” do Oceano Atlântico. 

A farsa de John Kerry e as piruetas de Barack Obama são temporárias. O acordo de paz que a Rússia construiu para as armas químicas da Síria logo, e não demora, começará a ser tratado nos EUA com o desprezo que os militaristas dedicam à diplomacia. Agora, com os EUA já aliados à Al-Qaeda, e os golpistas armados pelos EUA já bem instalados no governo do Cairo, os EUA passam a dedicar-se a tentar esmagar os dois últimos estados independentes que restam no Oriente Médio: primeiro a Síria, depois o Irã.

“Essa operação [na Síria]”, disse o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas, em junho, “é antiga. Começou há muito tempo. Foi preparada, preconcebida e planejada”. Vídeo a seguir (em francês com legendas em inglês):


Num momento em que a opinião pública está “psicologicamente apavorada”, como disse Jonathan Rugman, do Channel 4, tentando explicar a absoluta rejeição, na população britânica, a um ataque militar contra a Síria, é absolutamente urgente e necessário repor, para a discussão pública, o “inimigo cujo nome não se pronuncia” nos EUA.

Gaylord Nelson
Não importa quem tenha usado armas químicas nos subúrbios de Damasco. São os EUA – não a Síria – os mais frequentes usuários dessas armas terríveis. Em 1970, o Senador Gaylord Nelson relatou ao Senado que:

Os EUA lançaram sobre o Vietnã uma quantidade produtos químicos tóxicos (dioxina) que correspondeu a 2,73kg [orig. 6 pounds] por cabeça, contra a população.

Foi a “Operação Hades” [Inferno], cujo nome adiante foi trocado para Operação Ranch Hand [Operação “Mão rancheira”], conforme a campanha de publicidade, que apresentava o uso de agentes químicos desfolhantes, o “agente laranja”, lançado de aviões sobre o Vietnã, como ajuda aos agricultores vietnamitas que estariam enfrentando pragas nas lavouras]; essa é a origem do que muitos médicos no Vietnã e em todo o mundo chamam de “um ciclo de catástrofe fetal”. Eu mesmo vi muitas crianças deformadas. John Kerry, com seu currículo de guerra encharcado de sangue também viu e deve lembrar.

Também vi crianças deformadas no Iraque, onde os EUA usaram armas de urânio baixo-enriquecido e de fósforo branco, como fizeram os israelenses em Gaza, que fizeram chover armas químicas de destruição em massa sobre escolas e hospitais da ONU. Nesses casos, não houve “linha vermelha” de Obama. Nem shows televisionados de piedade pelas vítimas.

Richard Falk
O debate repetitivo sobre se “nós” devemos “agir” contra ditadores cuidadosamente selecionados é parte também da lavagem cerebral a que os norte-americanos somos submetidos. Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional e Relator Especial da ONU para a Palestina, descreve o processo como:

(...) modo autocomplacente, arrogante, de selecionar só imagens positivas e morais para divulgar valores ocidentais e inocência, e assim validar uma campanha de irrestrita violência política.

E é campanha tão ampla que:

(...) resulta virtualmente indesmentível. 

E a mentira maior de todas é a dos “liberais realistas” na política anglo-norte-americana, de “especialistas” acadêmicos e da mídia, que se ordenam, eles mesmos, gerentes da crise mundial, quando, na verdade, são a causa dela. Os EUA estudam outros povos como se não fossem parte da mesma humanidade; se não servem aos desígnios da potência ocidental, são “estados falhados”, “estados-bandidos” ou “estados do mal” carentes de “intervenção humanitária”.

Um ataque contra a Síria ou contra o Irã ou contra qualquer dos “demônios” que os EUA criam para o mundo se resumiria a variante “da moda”, da tal “Responsabilidade de Proteger”, cujo garoto-propaganda é o ex-ministro australiano de Relações Exteriores, Gareth Evans, co-presidente de um “Centro Global” (Global Centre) que tem sede em New York. Evans e seus bem remunerados lobbyists têm papel crucial na propaganda para arrastar a “comunidade internacional” a atacar países nos casos em que “o Conselho de Segurança rejeita alguma proposta ou não consegue lidar com a ameaça”.

Evans é conhecido. Aparece em meu filme Death of a Nation, de 1994, que desmascara a escala do genocídio no Timor Leste. O sorridente homem de Canberra lá está, erguendo a taça de champagne num brinde ao ministro indonésio, com dois sobrevoando o Timor Leste em avião australiano, depois de terem assinado o tratado para saquear petróleo e gás do país destroçado, onde Suharto, o tirano indonésio, matou a bala ou de fome um terço da população. 

No governo de Obama, “o Fraco”, o militarismo cresceu talvez mais do que nunca antes. Sem que se veja um único tanque nos gramados da Casa Branca, houve um golpe militar em Washington. Em 2008, com seus devotos liberais secando as últimas lágrimas de “decepção”, Obama pôs-se sob o comando do Pentágono de George Bush: assumiu todas as suas guerras e seus crimes de guerra. 

Com a Constituição já substituída por um estado policial emergente, os mesmos que destruíram o Iraque com choque e pavor, que pilharam e saquearam no Afeganistão e que reduziram a Líbia a um pesadelo hobbesiano, são hoje os senhores e mandam e desmandam no governo dos EUA. Hoje, nos EUA, morrem mais soldados por suicídio, que nos campos de batalha. Só no ano passado, 6.500 veteranos de guerra dos EUA suicidaram-se. E haja bandeiras!

Norman Pollack
O historiador Norman Pollack chama de “fascismo liberal”. “Esses, do passo-de-ganso” – Pollack escreveu, – substituíram qualquer militarização aparentemente menos inócua da cultura nos EUA. E para liderá-los, bombástico, temos hoje o reformador fracassado, aplicadamente dedicado a organizar assassinatos, um a um ou em massa, e sempre exibindo sorriso que, mais branco, impossível”.

Todas as 3ª-feiras [é hoje!], Obama supervisiona pessoalmente uma rede terrorista mundial de drones que esmagam gente “como insetos”, pelo mundo, os que acorram para socorrê-los, os que se aproximem para chorar os mortos e quem mais passe por ali.

Nas zonas de conforto do ocidente, o primeiro presidente negro eleito na terra da escravidão sente-se muito bem, como se só o fato de ele existir já fosse prova de progresso social e apesar das pegadas de sangue que se veem por onde ele pisa. O servilismo com que os norte-americanos curvaram-se ante o símbolo que acreditaram ver na extraordinária eleição de Obama destruiu o movimento antiguerra nos EUA.

Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros:

Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz.

Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.
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[*] John Pilger - nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Awardna área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor-Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

domingo, 11 de agosto de 2013

Asilo para Snowden: “É a lei, estúpido!”

8/8/2013, [*] Richard Falk, Al-Jazeera, Qatar  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Documento de concessão temporária da Rússia a Edward Snowden, por um ano, com status de refugiado político
A imprensa-empresa mais influente nos EUA tem usado três meios para reforçar seu viés a favor do governo, no caso Snowden:

Primeiro, refere-se sempre a Snowden como “vazador” [orig. lit. leaker], em vez de “alertador” [orig. whistleblower, lit. “tocador de apito”] ou “dissidente [do estado] de vigilância”, designações mais precisas e mais respeitosas.

Segundo, a imprensa-empresa dominante ignora completamente o quanto o gesto dos russos, de dar status de refugiado temporário a Snowden por um ano está em perfeito acordo com o nível normal de proteção a ser dada a qualquer pessoa acusada de crimes políticos não violentos em país estrangeiro, e perseguida diplomaticamente e legalmente por governo que busque indiciá-la e processá-la.
A Rússia entregar Snowden aos EUA nessas condições seria moralmente e politicamente escandaloso, considerando-se a natureza dos crimes de que os EUA acusam Snowden.

Terceiro, a imprensa-empresa dominante recusa-se a reconhecer que espionagem, a principal acusação feita contra Snowden, é a principal e maior, a “ofensa política” essencial, na lei internacional, e como tal é rotineiramente excluída de qualquer lista de ofensas que geram extradição.

Assim sendo, ainda que existisse tratado de extradição entre EUA e Rússia, seria preciso deixar absolutamente claro que não há nenhum dever legal, para os russos, de entregar Snowden às autoridades dos EUA para ser processado criminalmente e, sim, haveria um dever moral e político de não o entregar, sobretudo nas circunstâncias que cercam a controvérsia sobre Snowden.

Barack Obama
Se todos esses elementos estivessem sendo claramente articulados na discussão, pela imprensa-empresa, o governo dos EUA já teria sido exposto como ridículo, ao reclamar contra a disposição de vários governos estrangeiros de dar asilo a Snowden.

O governo Obama e os cabeças quentes do Senado que lastimassem o quanto quisessem por não poderem processar Snowden nos EUA; mas que o fizessem só com seus próprios botões. Em todos os casos, qualquer reclamação sempre seria o que é: império petulante, mostrando ira e fúria em caso no qual todo o seu poder mais duro, em todo o mundo, não lhe serve para coisa alguma; e suas opções políticas são proibidas por lei.

Nessas condições, pôr-se a ameaçar países estrangeiros com consequências diplomáticas adversas no caso de se recusarem e entrar no jogo não é só manifestação de frustração infantiloide: também é gesto que denuncia a própria derrota.

Os países que ofereceram asilo a Snowden ou que se recusaram, na forma adequada, a atender à requisição de Washington, quando os EUA requisitaram a custódia de Snowden, fizeram a única coisa decente que havia a fazer.

Surpreendente, isso sim, que outros governos não se tenham apresentado para fazer o mesmo. Assim se criou uma situação na qual países relativamente pequenos, como Bolívia, Venezuela e Nicarágua foram forçados a encarar sozinhos as violentas táticas “de braço longo” dos EUA – o que talvez sinalize uma bem-vinda nova atitude, mais firme, mais decidida, em toda a América Latina, de não mais aceitar como identidade regional a posição de quintal dos fundos do colosso do Norte.

Deve-se registrar que o presidente Vladimir Putin, considerando a natureza das revelações sobre o alcance global dos sistemas norte-americanos de vigilância e controle, agiu com excepcional deferência e muita consideração ante as sensibilidades norte-americanas. Em vez de simplesmente declarar que Snowden só seria entregue aos EUA se assim o desejasse, Putin cuidou de dizer que não queria que o incidente ferisse as relações da Rússia com os EUA. Chegou até a condicionar a concessão do asilo a uma muito estranha promessa, que exigiu de Snowden, de que não voltaria a divulgar documentos que arranhassem interesses norte-americanos.

Charles Schumer
Foi abordagem construtiva, em situação extremamente delicada, que supera, qualitativamente, os arroubos hiperbólicos e as palavras agressivas do senador suposto Democrata de New York, Charles Schumer:

A Rússia nos apunhalou pelas costas (...) Cada dia que Snowden permanece em liberdade, é mais uma corte do punhal, na ferida.

Devem-se cobrar respostas honestas a esses senadores tão terrivelmente ofendidos, entre os quais John McCain e Lindsey Graham, que não perdem chance de inventar brigas. O que teriam feito, se um alertador russo tivesse revelado detalhes de um sistema russo de espionagem que estivesse ouvindo todas as deliberações secretas do governo em Washington e invadindo a privacidade de todos os norte-americanos? A indignação arrogante seria sem limites nos EUA, como também seria infinita a gratidão que cobriria o Snowden russo.

Mas Washington só faz procurar meios para manifestar o quanto está ‘ofendida’ pelo comportamento dos russos. O secretário de imprensa da presidência dos EUA, fala de “extremo desapontamento”, que pode levar Obama a cancelar encontro marcado  com Putin para setembro, em cuja agenda estão itens como Síria, redução de arsenais nucleares e o Irã.

John McCain (E) e Lindsey Graham (D)
Os senadores John McCain e Lindsey Graham, saudosos dos dias da Guerra Fria, lançaram manifesto conjunto incendiário, exigindo que os EUA passem a considerar a Rússia numa ótica de conflito. Propuseram impetuosamente que, como reação ao asilo concedido a Snowden, se acelerem os planos para instalação de sistemas de mísseis de defesa na Europa e expanda-se a OTAN, em termos que o Kremlin teria de interpretar como de antagonismo declarado.

É verdade que a nova identidade de Putin, como “defensor de direitos humanos” não tem toda a necessária credibilidade, se se considera o modo como os dissidentes políticos são tratados na Rússia, mas isso não diminui a evidência de que a resposta que deu ao caso Snowden foi corretíssima.

Há obtusidade na fúria com que a diplomacia dos EUA está atuando nesse caso. Os atos de espionagem que Snowden cometeu são puro delito de natureza política. Além disso, a natureza do que foi revelado mostrou que, sim, há ameaça real e repetida à confidencialidade das comunicações de governo em todo o mundo

No mínimo, em vez de se deixar intimidar pelas demandas descabidas dos EUA, a resposta internacional mais apropriada e mais saudável seria gritar “Falta!” e parar o jogo.

Se o mundo fosse constituído de estados igualmente soberanos e houvesse legislação global, os EUA teriam de humildemente pedir desculpas e, no mínimo, prometer que não repetiriam no futuro, o comportamento de até agora.

Snowden seria punido por desobedecer à lei norte-americana, mas seria condecorado por apontar algumas feias agressões à liberdade e à ordem constitucional, inclusive dentro dos EUA, mostrando o quanto é perigoso deixar o serviço de equilibrar segurança e respeito às liberdades civis entregue à boa fé e ao juízo de burocratas e políticos.

Vivemos um triste momento de verdade, que fala muito de alinhamentos e sensibilidades. Alguns importantes comentaristas nos EUA, como o ex-diretor da CIA Robert Gates, e Jeffrey Toobin, especialista da rede CNN para questões legais, alinharam-se com a ordem estabelecida; disseram que confiam mais em anônimos funcionários públicos obedientes ao governo, que num dissidente como Edward Snowden que se dá o direito de decidir o que o público precisa saber.

Bradley Manning (E) e Julian Assange (D)
Como nos casos de Julian Assange e Bradley Manning, o teste crucial não acontece nesse nível de abstração, mas tem a ver com a concretude e implica decidir se o que foi revelado é o tipo de segredo sujo que uma sociedade democrática poderia ignorar para sempre.

Seria de esperar que governo genuinamente democrático não desejasse encobrir crimes de guerra e a invasão da privacidade dos cidadãos, nem que tanto se empenhasse para manter esses crimes protegidos contra qualquer procedimento para aumentar a transparência.

Darth Vader
Na era das maravilhas digitais, mais do que nunca dependemos de cidadãos de consciência, que nos protejam contra cenários orwellianos cerebrados por aspirantes a Darth Vaders que vivem nas profundezas obscuras da burocracia governamental em Washington. Esses são os indivíduos que repetidamente arrastam os EUA para o lado obscuro da força, em lugares como Guantánamo, Abu Ghraib e a base Bagram da Força Aérea, e constroem os infames “buracos negros” e inventam procedimentos depravados como a “entrega extrema” [orig. extreme rendition], pela qual suspeitos podem ser torturados sob certeza de impunidade para os torturadores, também no caso de se comprovar que o torturado é inocente.

Nós, cidadãos do mundo, devemos ser gratos pelos sacrifícios de indivíduos como Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, com certeza os principais heróis do nosso tempo. E se sonhamos com governos legítimos, nossos governantes e representantes eleitos devem também ser gratos pela possibilidade de pôr fim aos abusos do poder.


[*] Richard Falk é Professor Emérito da cátedra Albert G. Milbank de Direito Internacional na Princeton University e Professor Visitante Emérito de Estudos Internacionais na University of California, Santa Barbara. É também Relator Especial da ONU para Direitos Humanos na Palestina.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uma visão sionista do mundo e o massacre em Gaza


19/11/2012, Lawrence Davidson, Midia with Conscience
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Lawrence Davidson
Logo depois que meu artigo, de 4/11, “In Defense of Richard Falk [Em defesa de Richard Falk] foi publicado no blog Media with a Conscience (MWC), o editor enviou-me uma resposta especialmente grandiloquente. De estranhar, porque vinha assinada por intelectual e autor relativamente conhecido, de nome Fred Skolnik.

O Sr. Skolnik é editor-em-chefe de uma Encyclopedia Judaica de 22 volumes, em 2ª edição, trabalho que lhe valeu a Medalha Dartmouth em 2007. É também autor de numerosos trabalhos de ficção, todos sobre a vida em Israel. Não é raro que sionistas me escolham para malhar, e Skolnik é, sem dúvida alguma, sionista. Mas é raro que os que decidam julgar e condenar tenham a estatura intelectual de Skolnik. Portanto, é absolutamente necessário responder.

A bandeira de Israel

O Sr. Skolnik não gosta do Dr. Falk, o qual, o leitor sabe, é o atual Relator Especial da ONU para os Territórios Palestinos (TPOs). E, porque defendo Falk, Skolnik tampouco gosta de mim. De fato, na opinão de Skolnik sou parte de “um exército de odiadores de Israel (...) sempre agitando, infindavelmente (...) meias verdades venenosas” sobre a Terra de Israel. Apesar disso, Skolnik dedicou-se a escrever comentário de três páginas para corrigir a mim e meus leitores.

Diz que exporá “a causa de Israel no menor número possível de palavras, embora saiba que você talvez não publique minha resposta para não estragar o efeito que visa a alcançar”. Bobagem. Não tenho qualquer objeção a que meus leitores leiam, na íntegra, a resposta do Sr. Skolnik. Ou basta ir à página de MWC; procurar pelo meu nome: Davidson; selecionar “In Defense of Robert Falk”; e descer pela lista de comentários, até chegar ao comentário de Skolnik.

Resolvida essa parte, eis o que tenho a dizer sobre o que o Sr. Skolnik expõe como “a causa de Israel”.

1º. Diz Skolnik: “Não há Palestina histórica que tenha algo a ver com os árabes, nem há ali população muçulmana “indígena” ou nativa”. Essa é uma antiga fantasia, ou mito, que se desenvolveu ao longo dos anos, para permitir que sionistas radicais e colonos violentos racionalizassem a absorção histórica das terras dos palestinos.

Fred Skolnik
Se se consulta o verbete “Povo Palestino” da Wikipedia, verbete que reflete a mais recente pesquisa sobre a questão de quem vivia onde e quando, inclusive com resultados de análise genética, aprende-se que os palestinos são “descendentes contemporâneos, hoje, dos que viveram ao longo de séculos na Palestina e que hoje são, na vasta maioria, cultural e linguisticamente, árabes. (...) A análise genética sugere que uma maioria dos muçulmanos da Palestina, inclusive os árabes que são cidadãos israelenses, são descendentes de cristãos, judeus e outros habitantes do sul do Levante, cujas raízes chegam aos tempos pré-históricos”.

Além disso, “estudo das sequências de DNA demonstraram que porção substancial dos cromossomas Y dos judeus israelenses (70%) e dos palestinos árabes muçulmanos (82%) pertencem ao mesmo conjunto cromossômico”.

Isso significa, precisamente, que os ancestrais daqueles palestinos que hoje são cultural e linguisticamente árabes vivem na Palestina desde tempos imemoriais. Ao longo dos séculos, a população fragmentou-se, assumiu religiões e traços culturais e linguísticos diferentes. De fato, todos aqueles indígenas palestinos, judeus e cristãos locais, eles também, são basicamente o mesmo povo, que seguiu vias culturais em vários sentidos, separadas.

Triste é que o Sr. Skolnik apoie, hoje, tão ardentemente, a limpeza étnica de seus próprios primos.

Joan Peters
2º. Diz Skolnik: “A maioria dos árabes com “raízes” na Terra de Israel migraram para lá de outras partes do mundo árabe no século 19 e início do 20, enquanto os judeus sempre estiveram presentes, continuadamente, na Terra de Israel, por mais de 3.000 anos”.

Aí está outro mito, introduzido, principalmente, por um livro de Joan Peters, publicado em 1984, intitulado From Time Immemorial [Desde tempos imemoriais]. O argumento do livro e as “provas” foram examinadas e, uma a uma, demonstradas falsas por Norman Finkelstein, no livro Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict (1995).

3º. Diz Skolnik: “O deslocamento dos árabes na Terra de Israel durante a Guerra de Independência de Israel (...) foi acompanhado pelo deslocamento de centenas de milhares de judeus que viviam então em terras árabes, e que viviam vida insuportável sob o vingancismo da lei árabe.” Por isso, os israelitas “receberam de braços abertos os irmãos judeus”, enquanto os países árabes que receberam refugiados árabes “meteram-nos em campos e os trataram como animais.”

Para editor de enciclopédia de 22 volumes, Skolnik manifesta deplorável tendência a generalizações e estereótipos e,
literalmente, a misturar e confundir eventos e efeitos que nada têm a ver uns com os outros. Alguns pontos historicamente bem conhecidos:

– A verdade é que o êxodo dos judeus árabes de seus países de residência aconteceu ao longo do tempo e, em alguns casos, como na Argélia, nada teve a ver com os eventos na Palestina. Em outros casos, o país árabe viu-se em guerra com Israel, como com o Egito, e a imigração de judeus foi resultado direto de os sionistas terem expulsado populações árabes. E no caso do Marrocos, o governo local muito tentou assegurar segurança e bem-estar aos judeus, na tentativa de retê-los, contra a propaganda sionista que tentava arrancá-los de lá.

– Em alguns casos, o “deslocamento” foi forçado, como aconteceu no Iraque, por agentes sionistas que cometiam violentos atos de sabotagem contra comunidades de judeus iraquianos.

Norman Finkelstein
– A recepção que os judeus árabes encontraram em Israel nada teve dos “braços abertos” que Skolnik pinta. Foram recebidos pelos “irmãos” judeus europeus com ativo preconceito racial. Mesmo hoje, ainda são tensas as relações entre azquenases e sefarditas/Mizrachi dentro de Israel.

– Quanto aos refugiados árabes que, diz o Sr. Skolnik, teriam sido “tratados como animais” por outros árabes, o exagero é flagrante. Houve diferentes quadros em diferentes países. Por exemplo: no Líbano, foram maltratados; na Jordânia, foram bem tratados. Em nenhum dos campos de refugiados em país árabe as condições foram piores do que nas cidades-tendas e “cidades em desenvolvimento” no deserto de Negev, para onde os israelenses encaminharam 80% dos judeus árabes refugiados.

4º. O Sr. Skolnik diz outras coisas, que não tenho nem espaço nem tempo para corrigir. Leitor interessado encontrará meus comentários no ensaio sobre o Dr. Falk. Quem se interesse e leia, cuide, por favor, de seguir as fontes referidas de informação – trabalhos de historiadores israelenses, como Ilan Pappe e Benny Morris e os artigos jornalísticos de Amira Hass e Gideon Levy (ambos jornalistas que trabalham para o jornal israelense Haaretz), e os relatórios do grupo israelense de defesa dos Direitos Humanos, B’Tselem. São, todas essas, fontes israelenses, mas narram história completamente diferente da que nos chega pelo Sr. Skolnik.

De Skolnik a Gaza

Como o Sr. Skolnik demonstra tão claramente, todos vivemos em nosso mundo próprio. Cada um desses nossos mundos é construído pela criação e pela educação que recebamos: a família, os amigos, as escolas, as universidades, o nível de conexão que desenvolvemos com nossa comunidade. Essa conexão é quase sempre sustentada e aprofundada pelo ambiente informacional que a comunidade nos fornece.

Esses ambientes nos convertem em “bons” cidadãos e, simultaneamente estreitam nossa visão do mundo, ao mesmo tempo em que vão conformando paradigmas políticos e culturais aceitáveis. O processo, em geral, funciona bem. Mesmo assim, é verdade que em qualquer comunidade há, ativo, um continuum de aceitação e concordância que vai do cético ao verdadeiro crente. Para o crente, a comunidade jamais erra, e o comportamento social pode sempre ser racionalizado. No que tenha a ver com Israel, Skolnik é verdadeiramente um crente.

Num país como Israel, ainda que você viva armado até os dentes, a sensação é de perene insegurança; e, se há crentes verdadeiros no governo, difícil imaginar situação mais perigosa. Ao longo dos anos, os líderes israelenses, quase sempre imbuídos da mesma fé que anima Fred Skolnik, tiraram dos palestinos todos os direitos e todos os bens, e cuidam hoje de fazer a limpeza étnica da região, empurrando os palestinos para áreas cada vez menores, onde são forçados a viver concentrados.

Gaza é o pior exemplo disso. É hoje uma “prisão a céu aberto” onde 1,5 milhão de seres humanos congestionam completamente uma superfície de 139 milhas quadradas – é a área de mais alta densidade populacional da Terra. Ali, com a cumplicidade dos EUA e da União Europeia, os israelenses tratam de reduzir quase todos os habitantes à mais abjeta miséria.

Quando, periodicamente, aquelas pessoas erguem-se contra seus torturadores, quase sempre sem maior efeito, são imediatamente definidos como “terroristas” e, outra vez com o apoio do ocidente, furiosamente atacados, com violência desproporcional, pelos israelenses. Hoje, já se assiste ao massacre ao vivo, em tempo real, pela internet.

Conclusão

Nessas circunstâncias, não fazem qualquer sentido os argumentos de Skolnik, de que os judeus estavam “antes” na Palestina e que os árabes chegaram depois.

Mas digamos, só para argumentar, que Skolnik esteja certo, que os judeus, também os que chegaram da Europa e só conheciam a língua e a cultura europeias, fossem, por alguma razão os “autênticos” palestinos nativos, que estariam de volta à terra natal depois de uma ausência de (no mínimo) 2.000 anos.

Ainda que essa ficção contivesse um átomo de verdade, nem por isso os israelenses de 2012 teriam algum direito de tratar como tratam os palestinos. O que, nessa história fictícia, e mesmo que fosse toda ela verdadeira, daria aos israelenses de hoje o direito de matar palestinos? O que, nessa história fictícia, e mesmo que fosse toda ela verdadeira, daria aos israelenses de hoje o direito de construir muros de apartheid em toda a Cisjordânia ocupada? O que daria aos israelenses de hoje o direito de reduzir 1,5 milhões de habitantes de Gaza a um projeto de empobrecimento calculado, para, então, porem-se os israelenses a provocá-los até que reajam, reação que, então, daria aos israelenses o “direito” de promover assassinato em massa de palestinos?

Não acredito em nada na pseudo-história de Skolnik. Nada me interessa ou preocupa menos, do que saber quem vivia ou quem mandava na Palestina há 3.000 anos. Os que hoje controlam a Palestina não são, em nada, superiores aos bárbaros. E os líderes, em todo o ocidente que os apoiam têm, hoje, as mãos manchadas do sangue dos palestinos.

Onde se trate de limpeza étnica e genocídio cultural, é incabível, é inadmissível, falar de autodefesa. E nenhuma das fantasias de Fred Skolnik algum dia bastarão para justificar os crimes em curso. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Em Trípoli, um mundo “Smiley’s” [1]

4/9/2011, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Richard Falk, o conhecido ex-correspondente do Independent para o Oriente Médio, previu, brilhantemente, que, a menos que a inteligência ocidental conseguisse passar a mão, antes de todos, nos arquivos do regime líbio, surgiriam detalhes escandalosos dos contatos íntimos entre o Ocidente e Muammad Gaddafi.

Agentes do MI6 e soldados em terra da SAS britânica que controlavam as operações militares em Trípoli parecem ter conseguido, pelo menos em parte, manter fechada a caixa de vermes líbio-ocidental – ou, pelo menos, estavam conseguindo, até que ‘rebeldes’ líbios e outras gangues invadiram, sem saber, um prédio desconhecido da inteligência ocidental, do qual, ao que parece, operava Moussa Koussa, o homem forte e braço direito de Gaddafi, e onde guardava seus dossiês.

O que emergiu não chega a ser chocante – o passado controverso de Gaddafi não é, de modo algum, segredo. – Mas expôs muitos detalhes do nexo muito próximo entre o regime líbio e os serviços secretos britânico (MI6) e norte-americano (CIA). É, outra vez, a história de um ditador brutal cuja cumplicidade com o ocidente acaba, sem happy end, no instante em que o ditador brutal deixa de ter utilidade para o ocidente ou começa a ter ideias próprias e a criar dificuldades para estratégias ocidentais regionais. No caso de Gaddafi, quase com certeza, as divergências começaram em anos recentes, quando passou a dar sinais de querer afastar-se do ocidente e voltar-se para Rússia e China (e Índia). Em matéria de petróleo, esse foi o ponto ‘da virada’.

Documentos da inteligência líbia revelam que: MI6 e CIA operaram em íntima conexão com o governo de Gaddafi; a CIA manteve uma base na Líbia, por muitos anos; Gaddafi cooperou no programa de “entregas excepcionais” à Líbia, de prisioneiros islâmicos suspeitos de ter ligações com terroristas; a Líbia partilhou informações de inteligência com EUA e Grã-Bretanha, relacionadas ao mundo árabe em geral; na guerra ao terror, Gaddafi cooperou com a inteligência ocidental quase tanto quanto Hosni Mubarak do Egito; espiões do MI6 e da CIA competiam entre eles, por acesso privilegiado aos meandros do aparelho de inteligência de Gaddafi. A matéria do Time pode ser lida em: How Libya Seems to Have Helped the CIA with Rendition of Terrorism Suspects.

A pregação moralista de Barack Obama e David Cameron, do alto do pedestal dos princípios, dos direitos humanos e da democracia, sobre a intervenção ocidental na Líbia, dá náuseas, para dizer o mínimo.

Nota dos tradutores
[1] Para saber o que é (se não souber) clique em “Mundo Smiley’s”.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O resíduo tóxico do colonialismo

14/2/2011, Richard FalkAl-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


De fato, referência aberta, declarada, até agora nada se ouviu nem de Washington nem de Telavive – os governos que mais têm a perder com os desdobramentos da revolução do Egito – sobre intervenção militar. Essa ‘contenção’ manifesta mais sanidade geopolítica do que moralidade pós-colonial, mas ainda assim torna possíveis algumas mudanças que desequilibram, pelo menos temporariamente, a ordem política fixada.

Mesmo assim, por meios visíveis e ocultados, atores externos, especialmente os EUA, com uma mistura caracteristicamente norte-americana de pressupostas prerrogativas imperiais e paternalistas, ainda buscam interferir para modelar os resultados desse extraordinário levante do povo egípcio, há tanto tempo amordaçado pela ditadura cruel e corrupta de Mubarak. O traço que mais claramente define essa diplomacia conduzida de fora pelos EUA é o direito pressuposto de gerenciar a situação, de modo a que o regime sobreviva e os manifestantes voltem ao que perversamente está sendo chamado de “normalidade”.

O que me parece mais inacreditavelmente surpreendente é o presidente Obama apresentar-se como autoridade para instruir o regime Mubarak sobre como deve responder ao levante revolucionário. Alguma tentativa não me surpreenderia, e surpreender-me-ia, sim, se não houvesse. Mas me surpreende muito o nada tímido exercício da autoridade imperial, a nenhuma contenção da arrogância imperial, numa ordem mundial que, supostamente, estaria sendo construída em torno da legitimidade da autodeterminação, da soberania das nações e da democracia.

Também surpreende muito Mubarak ter dito em público que essa interferência, mascarada de aconselhamento, é inaceitável – mesmo que, a portas fechadas, ouça tudo e obedeça. Essa encenação geopolítica da farsa do senhor e do servo sugere a persistência da mentalidade colonial dos dois lados, tanto do lado do colonizador quanto do lado dos colaboracionistas nacionais.

A única mensagem pós-colonial genuína seria a homenagem: “Saia da frente, fique ao lado e aplauda”. As grandes lutas de transformação do século passado envolveram vários desafios em todo o sul global, até dar-se fim aos impérios coloniais europeus. Mas a independência política não deu fim aos métodos indiretos, ainda insidiosos, de controle, inventados para proteger interesses econômicos e estratégicos. É uma dinâmica que significava confiar em líderes políticos que sacrificariam o bem-estar do próprio povo para servir aos desejos de mal agradecidos ex-senhores coloniais, ou de seu sucessor ocidental remanescente, os EUA – que há muito já substituíram a França e a Grã-Bretanha no Oriente Médio depois da crise de Suez de 1956.

Os servidores pós-coloniais do ocidente passaram a ser bem pagos autocratas, cobertos de direitos virtuais de propriedade em relação à riqueza indígena do próprio país, desde que não criassem obstáculos aos capitais estrangeiros. Desse ponto de vista, o regime de Mubarak é exemplo impressionante de duradouro sucesso pós-colonial.

Os olhos liberais ocidentais há muito se acostumaram a não perceber os padrões internos de abuso que sempre acompanham o sucesso dessa política externa – os quais, vez ou outra, anotados por algum intrépido jornalista, logo voltam a ser ignorados ou, se preciso, desacreditados por alguma sempre disponível acusação de “esquerdismo”. Se nem isso bastar, sempre haverá quem diga, com um sorriso condescendente, que a tortura está inscrita ‘no DNA’ cultural territorial dos árabes – ideia que estrangeiros espertos sempre adaptam para uso próprio, sem nem vestígio de pudor.

De fato, no caso do Egito, essas práticas foram de grande serventia. O Egito serviu como local de interrogatório-tortura, item indispensável da desgraçada prática da “extreme rendition[1].

De fato, o Egito serviu como local excepcionalmente útil para os EUA, porque, pelos passos da extreme rendition, oferecia local de prisão e interrogatório, vale dizer, de tortura, com prédios e instrumentos especialmente criados para a finalidade, de “terroristas suspeitos” que a CIA prendia pelo mundo e não poderia manter presos nem torturar suficientemente em nenhum país civilizado, oficialmente. Esse o aliado que, dia desses, falava de “presidência que respeita os direitos humanos”? O enviado especial do presidente Obama ao Egito de Mubarak, no auge da crise, ninguém menos que Frank Wisner, homem de uma das mais conhecidas linhagens da CIA, com certeza riu da piada.

É indispensável que se entendam com clareza as relações que há entre esse tipo de Estados pós-coloniais, que servem aos interesses dos EUA – petróleo, Israel, deter o Islã, impedir que proliferem armas nucleares – em troca de poder, privilégios e riqueza sempre concentrados em minúsculas corruptas elites nacionais, que só têm, para entregar ao inimigo, e entregam, o bem-estar e a dignidade dos que nascem e vivem naqueles territórios.

Esse tipo de estrutura, na era pós-colonial, quando e onde ideias de soberania nacional e direitos humanos já circulam na consciência popular, só pode ser mantida se se constroem barreiras de medo, reforçadas por um Estado de terror, desenhado para intimidar as massas e impedir que lutem por seus valores e seus objetivos. Quando essas barreiras são vencidas, como aconteceu na Tunísia e no Egito, então a fraqueza do regime opressor aparece, brilhando nas trevas.

O ditador escafede-se pela porta mais próxima, como fez Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia, ou é camuflado pela própria entrourage e amigos estrangeiros, de modo que o desafio revolucionário possa ser maquiado em qualquer tipo de acomodação prematura. Esse parece ser o caso das recentes manobras da elite palaciana no Cairo e seus apoiadores na Casa Branca. Só o tempo dirá se as fúrias da contrarrevolução ganharão o dia, possivelmente à bala ou a chicote, e possivelmente mediante reformas emolientes que se apresentam como promessas que, com o tempo, se tornam impagáveis; isso, se o velho regime não for totalmente reconstruído.

São promessas que ninguém cumprirá – e a reimposição da ditadura, a corrupção e as enormes desigualdades na distribuição da riqueza só farão aumentar a miséria dos mais pobres. E se não for ditadura e opressiva, não conseguirá conter a luta por direitos, por justiça econômica e social, nem a justa solidariedade à luta dos palestinos.

Aqui está o nó da ironia dita “ética”. Washington respeita a lógica da autodeterminação, desde que seja convergente com a grande estratégia dos EUA. E ignora completamente o desejo dos povos, em todos os casos em que a manifestação dos desejos dos outros seja vista como algum tipo de ameaça aos super lords neoliberais da economia do mundo globalizado, ou aos alinhamentos estratégicos tão caros aos planejadores do Departamento de Estado ou do Pentágono.

Resultado disso é um inevitável vai-não-vai, com os EUA tentando ao mesmo tempo festejar e lastimar, celebrar o advento da democracia no Egito e reclamar da violência e das torturas do regime podre – ao mesmo tempo em que, por fora, opera para impedir qualquer mudança genuína, e, mais ainda, qualquer transformação democrática radical no Estado egípcio. Ungir o principal contacto da CIA e fiel escudeiro de Mubarak, Omar Suleiman, para presidir o processo de transição, aparece como mal disfarçado plano de jogar Mubarak às piranhas, enquanto trata de estabilizar o regime que ele presidiu por mais de 30 anos.  

Eu esperaria mais sutileza dos gerentes geopolíticos, mas é possível que a nenhuma sutileza seja, mais, sinal de miopia dos imperialistas – sintoma que sempre acompanha a decadência dos impérios.

Chama a atenção que praticamente todos os manifestantes no Egito, quando entrevistados sobre por que arriscavam a vida nas ruas do Cairo, respondem variações de “Queremos o que é nosso direito” ou “Lutamos por liberdade e dignidade”. Claro. Desemprego, miséria, fome – e fúria contra a corrupção e os abusos e as pretensões dinásticas do governo Mubarak – são alimento compreensível para a ira que, sem dúvida, também serve de combustível às chamas revolucionárias. Mas o que sobe à superfície dos discursos é “direitos” e “dignidade”, nessa consciência política despertada.

Essas ideias, em larga medida cozinhadas nos fornos da consciência ocidental e simploriamente exportadas como sinal de boa vontade – como o nacionalismo, há um século – podem ser sido cozinhadas apenas como bandeiras de Relações Públicas e propaganda. Mas, com o tempo, essas ideias deram forma aos sonhos dos pobres e oprimidos. Então, quando o inesperado momento histórico finalmente se apresentou, aquelas ideias acenderam o fogaréu. Lembro, há quase uma década, falando com radicais indonésios em Jakarta, que eles diziam sobre o quanto o envolvimento nas lutas anticoloniais fora estimulado pelo que haviam aprendido dos professores colonizadores holandeses, sobre o nascimento do nacionalismo como ideologia política, no ocidente.

Pode acontecer de algumas ideias serem difundidas com objetivos conservadores, mas adiante, quando tiverem alguma serventia imediata na luta dos pobres oprimidos, as mesmas ideias renascem – e dão fundamento a uma nova política emancipatória. 

Nada ilustra melhor esse processo que o percurso hegeliano da ideia de “autodeterminação”, proclamada pela primeira vez por Woodrow Wilson depois da 1ª Guerra Mundial. 

Wilson foi governante que procurou, mais que tudo, manter a ordem; que acreditava na importância de satisfazer os objetivos dos investidores e corporações estrangeiras; e que nada tinha a reclamar dos impérios europeus coloniais. Para ele, a autodeterminação nunca foi mais que instrumento útil para esquartejar o Império Otomano, estimulando a formação de uma série de Estados étnicos.

Wilson pouco se preocupou – apesar dos muitos avisos de seu secretário de Estado –, com a possibilidade de a autodeterminação ser usada no serviço de outros deuses, e tornar-se poderosa ferramenta de mobilização para derrubar a ordem colonial. 

O conceito de direitos humanos, nos tempos que correm, seguiu trilha semelhante, muitas vezes usado como mero slogan de propaganda para assustar inimigos nos tempos da Guerra Fria, outras vezes como barreira contra alguma identidade imperial – e às vezes como fundamento do ímpeto revolucionário, como parece ser o caso agora, nas lutas ainda em curso por direitos e por dignidade que varrem o mundo árabe sob várias formas.

Não se pode adivinhar o futuro. Há muitas forças em jogo, em circunstâncias de incerteza radical. No Egito, por exemplo, crê-se que o exército ainda controle a maior parte das cartas em jogo e que o fator determinante de qualquer resultado será aquele no qual o Exército decidir apostar. Mas essa “lógica” convencional não será apenas mais um sinal de que o “realismo” do poder da brutalidade ainda domina nossa imaginação, e sempre seriam os generais e suas armas o fator decisivo, não o desejo do povo nas ruas?

Claro, todas as pressões se confundem e o exército pode estar, apenas, deixando andar o barco, mantendo-se de lado para depois, quando se conhecer o vencedor, afinal alinhar-se com ele. Que motivos haveria para alguém confiar na sabedoria, na prudência, na boa vontade de exércitos – não só no Egito, cujos comandantes militares devem suas posições a Mubarak – mas em qualquer ponto do mundo?

No Irã, o exército manteve-se à parte e um processo revolucionário popular pôs abaixo o castelo de poder do Xá, construído de corrupção e ataques brutais à oposição. O extraordinário movimento popular não violento prevaleceu durante algum tempo, até que um movimento contrarrevolucionário subsequente converteu a democracia em teocracia.

Há poucos casos de vitória revolucionária e, dentre esses poucos casos, mais raros ainda são os casos em que se cumpre sem ruptura o programa revolucionário. O desafio está em manter a revolução contra os quase inevitáveis projetos contrarrevolucionários, muitas vezes trazidos por pessoas que, no momento revolucionário, estavam unidas contra a velha ordem, mas que, depois, optam por seqüestrar a vitória para seus próprios objetivos. As complexidades de um momento revolucionário exigem máxima atenção dos que lutam por emancipação, justiça e democracia, porque haverá inimigos aos quais interessa tomar o poder a qualquer custo, mesmo ao custo de ceder os valores humanos da revolução.

Um dos traços mais impressionantes da Revolução Egípcia até agora é o extraordinário ethos de não-violência e solidariedade que se viu nas massas, mesmo ante as sangrentas repetidas provocações da baltagiyya dos mercenários do regime. Esse ethos resistiu às provocações e deve-se esperar que as provocações parem e que a maré contrarrevolucionária arrefeça, percebendo ou a inutilidade de andar contra a história ou por implosão, consumida pelos efeitos corrosivos da longa existência em condições de ilegitimidade.


Nota de tradução

[1] Em português alguma coisa, como “tutela extraordinária” ou “tutela extrema”, em tradução tentativa temerária. Consiste em enviar prisioneiros para serem mantidos presos em outros países que não são nem o país do prisioneiro, nem do crime, nem da vítima. 
A prática tem uma alegada história “clássica”, de lei grega que autorizava país estrangeiro a seqüestrar prisioneiros de qualquer nacionalidade que interessasse aos gregos julgar e condenar.
Essa história clássica, sempre mal contada e várias vezes lembrada no caso de “tutela excepcional” dos tempos modernos, nada tem a ver com as práticas da CIA, a partir dos anos 1980s e cada vez mais, com o avanço da “guerra ao terror”, de ignorar todos os processos legais contemporâneos de extradição.
De um ponto em diante, a extreme rendition passou a consistir em os EUA obterem legalmente a guarda de algum prisioneiro, em qualquer ponto do mundo, o qual contudo jamais chega a território dos EUA e é entregue a policiais de terceiros países, muitas vezes sem pisar em solo americano, para ser mantido prisioneiro por tempo indeterminado, sem acusação formal e em local oficialmente ignorado (ou em Guantánamo, por exemplo).
Essas prisões são centros “internacionais” de tortura que, de fato, não estão submetidos a lei de país algum. Em 1995, Bill Clinton assinou lei que autoriza a CIA a servir-se da extreme rendition, regulamentando lei assinada por George H. W. Bush em janeiro de 1993 (mais sobre isso em Extraordinary rendition by the United States).