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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Rússia poderá dispensar a rede SWIFT

E utilizar outro sistema de comunicações/compensações internacionais interbancárias

12/11/2014, [*] Yves SmithNaked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Muitos observadores nos EUA mostraram-se descabidamente excitados sobre o que chamam, pejorativamente, de “esforços para quebrar a hegemonia do dólar”, como, dentre outros, o esforço conjunto dos chamados países BRICS para formar um banco de desenvolvimento.

Por mais que seja considerado importante manter uma cadeia internacional de entidades de financiamento, particularmente as que se focam em atividades que, em teoria, aumentam os benefícios coletivos de depender de uma moeda de reserva, não se pode concluir disso que lançar novas e úteis instituições de financiamento quebrará a dominação do dólar. Por mais que faça todo o sentido que os países se ressintam de os EUA abusarem muito da sua posição de emissor da moeda de reserva, também é verdade que não há concorrente à espera nas coxias. A Eurozona acabou com a chance que tinha, ao fracassar na operação de sanear pelo menos, que fosse, os seus bancos ainda mais doentes do que os norte-americanos, e ao piorar ainda mais uma situação já ruim e aderir a destrutivas políticas de austeridade.

Claramente, a China tem potencial para deslocar os EUA no longo prazo, mas não dá sinais de disposição para incorrer nos indispensáveis déficits comerciais, uma vez que isso significaria exportar demanda e, portanto, empregos. Nenhum país fez, sem solavancos, a transição, de grande economia puxada por exportações, para grande economia puxada pelo consumo; uma crise, ou qualquer prolongado mal-estar, também adiariam o momento em que a China consiga substituir os EUA como cão chefe da moeda.

Mas não poder livrar-se do dólar no curtíssimo prazo absolutamente não significa que países que os EUA tentam castigar (usando a influência norte-americana sobre o sistema internacional de pagamentos) não consigam encontrar vias de fuga em prazo bem menos longo. A Rússia, convertida em inimigo n° 1 dos EUA, aparentemente pelos pecados de ajudar a Síria (quando o Congresso opôs-se firmemente a qualquer ação militar); por opor-se, com sucesso, contra o golpe de estado patrocinado pelos EUA na Ucrânia; por colaborar com o Irã; por dar abrigo a Edward Snowden tornou-se alvo de sanções econômicas cada vez mais violentas. As que mordem mais fundo são as sanções aplicadas contra bancos russos, que estão expostos em moedas estrangeiras e têm usado os mercados de capital estrangeiros para lançar papéis da dívida e ações [orig. to issue debt and equity].

Hoje, a Rússia anunciou que planeja lançar um novo sistema de comunicações de compensações interbancárias, que dispensará qualquer recurso à Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, o sistema de pagamento SWIFT. Como se lê em Russia Today:


A Rússia planeja ter com o seu próprio sistema de compensações interbancárias internacionais, operante, em maio de 2015. O Banco Central da Rússia diz que precisa apressar as providências para ter já montada sua versão da Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), no caso de surgirem possíveis novos “desafios” vindos do ocidente.

“Considerados os desafios, o Banco da Rússia está criando seu próprio sistema para transmissão de mensagens financeiras (...) É preciso pressa. Nos próximos poucos meses com certeza já teremos o que mostrar. Todo o projeto para retransmissão de mensagens financeiras estará completado em maio de 2015” – disse Ramilya Kanafina, vice-diretor do departamento do sistema nacional de pagamentos do Banco Central da Rússia [orig. Central Bank of Russia (CBR)].

Instruções para não usar o sistema da SWIFT nos bancos russos começaram a se tornar mais frequentes à medida que se deterioravam as relações entre Rússia e EUA, por causa das sanções. Até aqui, a SWIFT tem dito que, apesar da pressão que tem recebido de alguns países ocidentais para integrar-se às sanções contra a Rússia, não tem qualquer intenção de fazê-lo...

A SWIFT, é atualmente uma das principais conexões entre a Rússia e o sistema bancário internacional e, se for cortada, pode haver grave dano à economia russa, no curto prazo. Globalmente, a SWIFT transmite ordens para transações que chegam a mais de US$ 6 trilhões, e envolve mais de 10 mil instituições financeiras em 210 países. Segundo o estatuto da SWIFT, o sistema mantém grupos nacionais de membros e usuários em cada país. Na Rússia, é a ROSSWIFT – a segunda maior sociedade SWIFT mundial, menor, só, que a SWIFT dos EUA.

Todos os comentários dos leitores são bem-vindos, mas, para mim, há aí duas questões.


Primeira,  que, embora a SWIFT continue aberta para negócios com a Rússia, pode ser fechada a qualquer momento. É claro que Moscou não pode ter deixado de perceber que o Banco Central do Irã e muitos outros grandes bancos são barrados e impedidos de operar a partir da SWIFT em 2012. Como se lê no Wall Street Journal:

A União Europeia disse que está banindo qualquer tipo de transação financeira com empresas iranianas incluídas nas listas negras para sanções, mas políticos norte-americanos deixaram claro que insistirão para ação mais ampla.

A Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias com sede na Bélgica, SWIFT – sistema de comunicação financeira e de autenticação que é usado pela maioria dos grandes bancos em todo o mundo – disse que acataria as instruções da União Europeia.

A sanção aplica-se só a bancos iranianos que a União Europeia incluiu numa lista negra de sanções. Inclui o Banco Central do Irã e mais de uma dúzia de outras empresas.

Enquanto isso, o Congresso dos EUA está pedindo a total interrupção de todas as transações com todos os bancos iranianos, e ameaça punições contra a diretoria e alta administração da SWIFT, caso não rompam todos e quaisquer laços com o setor financeiro iraniano. Políticos norte-americanos não se cansam de repetir que o Irã está transferindo o financiamento de seu programa nuclear, tirando-o dos bancos sob sanção dos EUA e passando-o para outras empresas.

Segunda, que criar canal para pagamentos fora do âmbito da SWIFT pode permitir que a Rússia crie um sistema financeiro para todos que não desejem ficar submetidos ao que os EUA “ordenem”. Bancos que fizeram negócios com o Irã, tanto antes como depois das sanções aplicadas pela SWIFT, foram atingidos por sanções pelo crime de lavagem de dinheiro. Foram pagamentos em dólar, e feitos para ramos dos bancos em New York, o que os torna sancionáveis pela lei norte-americana. Todas as transações em dólares entre bancos são compensadas no final do dia comercial em New York; os pagamentos interbancários dependem, em última instância, da ação de um banco central, e muitos grandes pagamentos são feitos também pelo sistema de comunicações interbancárias do Fed, o FEDWIRE. Por tudo isso não há, pelo menos por hora, como construir qualquer coisa que fuja de todo esse cerco.

Benjamin Lawsky, superintendente de serviços financeiros de New York, ameaçou cassar a licença de operação do primeiro banco desobediente com que teve de lidar, o Standard Chartered.


Reguladores federais norte-americanos e britânicos mostraram-se muito ofendidos pela ação de Lawsky, mas os reguladores federais rapidamente reconheceram que Lawsky lhe prestara imenso favor. Eles subiram muitíssimo a aposta, quando atacaram outros bancos estrangeiros que estavam desafiando ordens dos EUA e fazendo negócios através de sistemas de pagamentos norte-americanos com países estrangeiros “listados”. Lawsky multou o Standard Chartered em US$ 340 milhões em 2012, multa que se somou às multas federais de mais US$ 327 milhões. Por espantosamente alta que fosse naquele momento, essa multa empalidece ante os US$ 8,9 bilhões em multas e penas impostas ao banco BNP Paribas. (Lawsky novamente multou o banco Standard Chartered em mais US$ 300 milhões, em agosto, por reincidência).

Mas muitos bancos estrangeiros, e até reguladores estrangeiros, ficaram impressionados pela magnitude das multas que os EUA impuseram por lavagem de dinheiro (como no caso de usar os sistemas de pagamento norte-americanos, para fazer negócios com empresas “proibidas”). Jornais-empresa e políticos franceses uivaram de fúria ante a multa de US$8,9 bilhões aplicada ao BNP Paribas.

Se o sistema russo de pagamentos funcionar (se for impenetrável aos espiões da Agência Nacional de Segurança, porque podem todos apostar que os EUA aplicaram todos os seus melhores talentos do hacking e do roubo de dados contra qualquer sistema russo!), permitirá que bancos como BNP Paribas e Standard Chartered negociem com o Irã. E, claro, facilitará o processo para que essas empresas tenham uma desejada vingança contra os EUA.

Além do mais, há na Europa, com certeza, empresários que não estão gostando do modo como as sanções da União Europeia estão ferindo seus respectivos negócios. Ainda não se pode saber quantos desses estariam dispostos a passar para o lado “selvagem” e a desafiar as sanções. Mas processar transações através de um sistema de pagamento controlado pelos russos sempre lhes parecerá menos detectável que pagamentos feitos através da SWIFT.

Em outras palavras, o movimento dos russos visa a reduzir a efetividade, como arma, de usar o dólar dominante. Ainda não se pode ter certeza de que os russos consigam criar e manter sistema suficientemente robusto, bem protegido e suficientemente rápido, de comunicações internacionais interbancárias. Mas é movimento inteligente de defesa e potencialmente, também de ataque. Pode vir a ter ramificações de longo prazo, se outros países, que não estão felizes com a ação dos EUA, decidirem usar o sistema russo, por motivos ou práticos ou políticos. Permaneçam sintonizados.

Nota dos tradutores
[1] Sigla de Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication [lit. Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais. A palavra  swift    (ing.)  criada nessa sigla, traduz-se pelo adjetivo “rápido”

[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige Aurora Advisors, uma empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York Times, The Christian Science Monitor, Slate, The Review Conference Board, Institutional Investor, The Daily Deal e da Australian Financial Review. É graduada no Harvard College e Harvard Business School. Anima o blog Naked Capitalism desde 2006.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Nasce um novo sistema econômico-financeiro: o exemplo de Rússia e Argentina

12/8/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Graças ao trabalho de nossa equipe russa (obrigado, pessoal!) que traduz à velocidade da luz, posso partilhar com vocês uma matéria do canal Rossia-1 da televisão russa, que me pareceu totalmente fascinante. Mostra como Rússia e Argentina foram literalmente empurradas pelos EUA a trabalhar unidas, e o tipo de resultado a que essa cooperação está levando. A matéria foca o caso argentino, mas tenho certeza de que fenômeno semelhante está acontecendo em vários lugares, especialmente entre os países BRICS.

É muito difícil alterar sistema que esteja em operação, sistema do qual as pessoas dependem para receber salários, sistema que foi estável ao longo de anos e que, embora longe de ser perfeito, pelo menos era claramente compreendido pelos envolvidos. Por essa razão, apesar de todas as imperfeições do sistema, algumas das quais já próximas da disfunção, o que eu chamaria de “sistema econômico-financeiro ocidental” era tão importante e, falando francamente, tão atraente: porque funcionava.

Mas foi quando os EUA fizeram algo extremamente perigoso: puseram-se a usar e abusar daquele sistema, para seus próprios e estreitos objetivos políticos: MasterCard, Visa & o resto, de repente, excluíram Wikileaks; o Irã foi excluído da Sociedade para Telecomunicação Financeira Interbancária Mundial [orig. Society for WorldwideInterbank Financial Telecommunication, SWIFT]; os franceses foram “multados” em bilhões a favor do Tio Sam, porque venderam barcos Mistral aos russos; os russos receberam ordens para compensar as perdas de Khodorkovsky; os suíços foram chantageados para desistir do tradicional segredo bancário deles, etc..

Claro que o US dólar e os interesses econômicos ocidentais não vivem só de atrair com suculenta cenoura. Chegaram sempre com um grande porrete: os militares norte-americanos.

Mas ao mesmo tempo, bem quando os EUA puseram-se a usar e abusar do sistema financeiro econômico ocidental... Os EUA também começaram a perder guerras uma depois da outra.

De fato, pode-se dizer que os EUA não venceram em guerra nenhum único inimigo importante desde 1945, ou da Coreia. Mas, graças a Hollywood e à Guerra Fria, os EUA conseguiram manter a ilusão de que continuariam a ser superpotência militar. Fato é que depois do 11/9, também essa ilusão começou a escapar pelo ralo, na sequência dos desastres no Iraque e no Afeganistão (e da derrota abjeta deIsrael contra o Hezbollah).

Resultado desse duplo colapso – do sistema econômico-financeiro ocidental e da capacidade de “detenção-impedimento” [orig. deterrence] que o poderio militar dos EUA tivera – o resto do planeta começou a dar-se conta de que se podia desafiar abertamente o Tio Sam e escapar vivo. Oh, claro que a Bolívia, sozinha, não poderia fazer tal coisa. Nem a Malásia. Mas liderados pelos BRICS, e os próprios BRICS, provavelmente, inspirados pelos países da ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América), mais e mais países passaram a dar-se conta dessa verdade básica: ser aliado dos EUA pode ser muito mais perigoso do que desafiá-los abertamente.

É claro que, no atual momento da história, Rússia e Argentina estão, de fato, lutando pela própria sobrevivência; portanto, não surpreende que mostrem máxima determinação para implantar um novo sistema econômico-financeiro livre dos EUA e do dólar norte-americano. Mas o comportamento absolutamente irresponsável dos EUA, ou, dito bem claramente, o comportamento enlouquecido dos EUA nos últimos anos, está, creio eu, assustando o resto do planeta, a tal ponto que creio firmemente que o exemplo de Rússia e Argentina é só a ponta de um iceberg muito maior.

Em primeiro lugar e muito importante, há a aliança de-facto entre China e Rússia, a maior potência econômica do planeta, com o maior poder militar.

BRICS + Argentina
Esses, por sua vez, estão apoiados no BRICS; na Organização para a Segurança Coletiva da Europa, OSCE; na Comunidade Econômica Eurasiana, EAEC; na Organização de Cooperação de Xangai, SCO; na ALBA; no MERCOSUL e nas muitas organizações regionais as quais, de um modo ou de outro, reúnem as 100 ou mais nações que não votaram com o Império Anglo-sionista na ONU, na questão da Ucrânia.

O resumo da história é o seguinte: bem poucas nações ainda se mantêm atraídas pelo modelo imperial anglo-sionista. O resultado é o tipo de colaboração (não deu na MSM [nem foi notícia do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) no Brasil], que vocês podem ver na matéria a seguir e com legendas em inglês). Aproveitem!



The Saker

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pepe Escobar: “EUA querem pôr a SWIFT [1] na guerra contra o Irã”


17/2/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O que afinal pensavam os poodles europeus? Que Teerã se encolheria e absorveria o embargo do petróleo imposto pela União Europeia, marcado para começar dia 1º de julho? 

Não surpreende que Bruxelas tenha sido apanhada pela galhada, como veado pirateado da Gucci, quando começaram a aparecer notícias de que Teerã se antecipará preventivamente e imporá seu próprio bloqueio de petróleo a seis países da União Europeia – os países europeus Club Med em crise: Portugal, Itália, Grécia e Espanha, mais França e Países Baixos atingidos pela recessão. 

Imediatamente, os ministérios do Petróleo e das Relações Exteriores do Irã negaram tudo; a decisão de impor bloqueio ou embargo teria, tecnicamente, de ser anunciada oficialmente pelo Conselho Supremo de Segurança nacional, encarregado também das negociações sobre as questões nucleares. 

Mas só cegos-surdos-mudos não entenderam a mensagem: é a volta do chicote no lombo das ridículas, contraproducentes sanções/embargo inventadas pela União Europeia, que só conseguirão lançar vastas fatias da União Europeia em sofrimento econômico ainda mais profundo. 

O Irã fornece 500 mil barris/dia de petróleo à União Europeia. A simples ameaça (desmentida) de que o Irã imporia embargo a alguns países já fez explodir os preços do petróleo. 

Assumindo-se que os países Club Med fossem capazes de obter petróleo de outras fontes – o que não é de modo algum garantido; a Arábia Saudita quer preços altos para o petróleo, como vingança – mesmo assim teriam de reconfigurar suas refinarias para processar o petróleo que recebam de outras fontes. Inevitavelmente faltaria gasolina; o italiano médio, por exemplo, já está furioso com o aumento desembestado do combustível nas bombas. 

Talvez aquelas dezenas de milhares de inúteis burocratas belgas carregando de um lado para outro os seus arquivos multicoloridos devessem tomar alguma atitude que fizesse algum sentido, e escrever a Washington, congratulando-se oficialmente por terem conseguido empobrecer ainda mais dezenas de milhões de cidadãos da União Europeia. 

Na dúvida, invente mais sanções

Mas os abutres, chacais e hienas da mudança de regime/guerra jamais saciarão sua luxúria que exige sempre mais sanções. Os EUA estão agora forçando a União Europeia a excluir o Irã da rede SWIFT, que tem base em Bruxelas. A rede SWIFT – é um mecanismo/rede de compensação independente, de telecomunicações, usada por todos os bancos do mundo para trocar dados financeiros (o nome oficial é Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication [Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais]) [1]. O próprio Banco Central do Irã pode ser a próxima vítima. 

Em síntese, a rede SWIFT é a correia de transmissão que movimenta as transações financeiras e o comércio globais. Se isso não é declaração de guerra ampliada, remixed, de guerra econômica total contra um país – nada será. 

Funcionará? Pouco provável. Com certeza implicará mais ampla devastação imposta ao “povo iraniano” – essa vaga entidade à qual os EUA “não fazem oposição”. Mais de 40 bancos iranianos usam a rede SWIFT para processar transações financeiras; os iranianos usam a rede como todos, em todo o mundo, na economia globalizada. 

Arrastará para a lama a reputação da rede SWIFT, tão atentamente preservada, como instituição neutra e confiável; imaginem a reação de outros países membros, ao verem que qualquer país membro pode ser totalmente marginalizado, conforme os impulsos-desejos dos EUA. 

Para nem comentar que Washington não pode dizer à rede SWIFT o que fazer. E nem se trata de “pressionar” sutilmente, ao estilo da Máfia, os países europeus: a “mensagem” foi entregue pessoalmente por David Cohen, subsecretário do Departamento do Tesouro dos EUA para assuntos de inteligência financeira e terrorismo. 

E tudo isso, para quê? Segundo a incansável, ininterrupta, sufocante artilharia dos ‘especialistas midiáticos’ na imprensa-empresa ocidental, para “talvez” ganhar algum tempo para que o governo Obama consiga “persuadir” o governo obcecado-com-criar-guerras-e-dono-de-enorme-arsenal-nuclear do partido Likud israelense a não atacar o Irã na próxima primavera. 

Fiquem de olho no camelo norte-americano 

Enquanto isso, segundo a Organização de Energia Atômica Iraniana, o Irã desenvolveu centrífugas de quarta geração, feitas de fibra de carbono, que são “mais rápidas, geram menor quantidade de resíduos e ocupam menos espaço” ao operar em velocidades supersônicas para purificar urânio. 

E os primeiros bastões de combustível radiativo enriquecido a 20% fabricados no Irã já foram instalados no Reator de Pesquisas de Teerã – que não é fábrica de bombas, mas instalação civil construída para produzir isótopos radiativos usados no tratamento contra o câncer; o Reator de Pesquisas pode afinal operar, sem depender de interferência estrangeira. 

E ainda mais: Teerã enviou carta à União Europeia, “saudando e acolhendo com simpatia” o grupo P5+1 – os membros do Conselho de Segurança da ONU que têm poder de veto, mais a Alemanha – caso estejam seriamente interessados em voltar à mesa de negociações para retomar seriamente discussões sobre o dossiê nuclear do Irã. 

Vejamos o que significa isso. 

É uma pequena e sofisticada miniatura persa – a ser decifrada pelos europeus que se deem o trabalho de decifrá-la. Teerã está dizendo: desejamos sinceramente conversar com os senhores; mas não desistiremos de nosso programa nuclear civil; e, se continuarem a nos tratar como cachorros, com sanções, embargo e, agora, o golpe SWIFT, podemos também pressionar muito as suas já muito abaladas economias. 

Com certeza perderá dinheiro quem apostar que os políticos europeus e seus burocratas subalternos ignorantes entenderão a mensagem. 

E há ainda o argumento estúpido de que os recentes atentados à bomba e as bombas que não explodiram em Delhi, Georgia e Bangkok seriam a retaliação de Teerã, vingança pelo assassinato de cinco cientistas nucleares civis iranianos – que foi trabalho do grupo terrorista MeK, no Irã, obedecendo ordens do Mossad israelense. 

Se e quando Teerã decidir atacar interesses israelenses, poderá fazê-lo bem mais perto de casa. O Irã tem todos os agentes operadores competentes necessários para fazer o que quiserem e sem deixar pistas. A ideia de que Teerã enviaria agentes iranianos a países asiáticos aliados, como Índia e Tailândia – e que agentes iranianos se comportariam como os Três Patetas, e andariam por Bangkok exibindo os passaportes e malas cheias de moeda iraniana – é ridícula, inverossímil. Não há dúvida de que a coisa foi encenada: a questão é saber quem manipulou os Três Patetas. 

Se a histeria promovida por Washington/Telavive já está chegando à estratosfera, esperem só até 20 de março, quando a Bolsa de Petróleo iraniana começará a vender petróleo em outras moedas, e o dólar perderá a exclusividade, movimento que marcará o nascimento de um novo marcador-precificador para o petróleo, baseado em euros, yens, yuans, rúpias ou numa cesta de moedas. 

Será ótimo para os clientes asiáticos do Irã – dos BRICSs Índia e China, aos aliados dos EUA Japão e Coreia do Sul, para nem falar da Turquia, membro da OTAN. Mas também será ótimo para os clientes europeus, que poderão suas próprias moedas para pagar pelo petróleo que comprarem de Teerã. E também interessará a muitos atores chave no mundo em desenvolvimento, que não desejam continuar ligados ao petrodólar. Essa pode bem ser a palha que quebrará a espinha dorsal do já carregadíssimo camelo norte-americano.



Nota dos tradutores

[1]  SWIFT  é sigla de Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication   [Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais], à qual o autor refere-se adiante. 

A sociedade SWIFT opera uma rede mundial de mensagem que interliga bancos e outras instituições financeiras. A sociedade SWIFT também comercia softwares e outros serviços para instituições financeiras, a maior parte deles para serem usados na própria rede SWIFTNet, e códigos de identificação bancária [ing. bank identifier codes, BICs] ISO 9362, conhecidos como “códigos SWIFT”. A maioria das mensagens internacionais interbancos são feitas pela rede SWIFT. 

Em setembro de 2010, a rede SWIFT interligava mais de 9 mil instituições financeiras em 209 países e territórios, que em média, até aquela data, trocavam entre si mais de 15 milhões de mensagens por dia (em 1995, essa média diária era de 2,4 milhões de mensagens). 

A rede SWIFT-Net é considerada altamente segura para transporte de mensagens financeiras, mas não mantém registros dos membros. A rede SWIFT não facilita transferência de fundos; em vez disso, emite ordens de pagamento, que podem ser convertidas em dinheiro via contas correspondentes que as instituições mantêm umas nas outras. A instituição financeira, para completar as transações de câmbio, deve ter algum tipo de contato com bancos (a instituição tem de ser banco, ou ser associada a um ou mais bancos), para poder usufruir esses específicos serviços da rede SWIFT-Net. 

A SWIFT foi fundada em 1973 e é constituída como cooperativa de várias instituições financeiras, nos termos da lei belga. Mantém escritórios em todo o mundo. A sede está localizada em La Hulpe, Bélgica, próxima a Bruxelas. Também pode-se ler a estranha história da SWIFT no Brasil.