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domingo, 7 de setembro de 2014

Paul Craig Roberts: “O ocidente pavimenta com mentiras a estrada para a guerra”

5/9/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por mberublue

Vladimir Putin e Sergey Lavrov
Declarações oficiais do governo russo indicam que o presidente e o ministro do exterior continuam a confiar na boa vontade de seus “parceiros ocidentais” para o desenvolvimento de uma solução diplomática razoável para o problema ucraniano causado por Washington.

Não apenas não existe qualquer evidência de boa vontade nas capitais ocidentais como as medidas hostis contra a Rússia seguem aumentando. Além disso, essas medidas hostis aumentam mesmo quando se torna claro que seus efeitos são desastrosos para a Europa.

Por exemplo: o presidente socialista da França resolveu seguir caninamente as ordens de Washington e se recusou a entregar para a Rússia navios que está construindo sob contrato. As notícias sobre o assunto são tão mal relatadas que não dão conta se a Rússia já pagou pelo navio ou se o pagamento ainda está à espera de complementação. Se a Rússia ainda não pagou, então a falha na entrega causará danos apenas para quem financiou a construção do navio. Se a Rússia já pagou, então o imbecil presidente francês colocou a França em flagrante violação de contrato e sob a lei internacional o país estará sujeito a pesadas sanções financeiras.

Porta-helicópteros Classe Mistral encomendados pela Rússia à França ( e não entregues)
Não está claro como isso prejudicaria a Rússia. São as forças estratégicas nucleares da Rússia que o ocidente tem que temer, não porta-helicópteros. A lição que Hollande está dando para a Rússia é a seguinte: não faça negócios com a França ou qualquer outro país da OTAN.

A Rússia pode simplesmente colocar de imediato a violação contratual em julgamento. No caso a França deverá sofrer sanções com penalidades cujo valor pode exceder o próprio valor do contrato, ou então o ocidente estará provando que em suas mãos a lei internacional não passa de um amontoado de palavras sem sentido. Se eu fosse a Rússia desistiria tranquilamente dos navios porta-helicópteros apenas para deixar estabelecido esse ponto.

Atualmente a França tem apenas um líder: Marine Le Pen, (da direitona mais braba, Nrc) a qual, embora seu apoio tenha crescido exponencialmente, não está no poder. Le Pen disse que a atitude subserviente de Hollande para com Obama “acarretará um custo enorme para a França: a perda de milhões de horas trabalhadas e uma multa entre 5 a 10 bilhões de euros” (nessas de contar prejuízo a direitona braba é especialista (Nrc).

Hollande tenta justificar sua submissão abjeta aos EUA com uma mentira:

As ações da Rússia no leste da Ucrânia transgridem princípios fundamentais da Segurança Europeia.

Comporte-se, Rússia, ou então...
Definitivamente certos caras não
aprenderam NADA com a História
Ocorre exatamente o oposto. São as ações estúpidas de Hollande, Merkel e Cameron que colocam em perigo a Segurança Europeia ao permitir que os EUA continuem com a sua rota de guerra contra a Rússia.

Tomando-se por base as reportagens (pelo que elas valem), os EUA e seus fantoches da União Europeia estão preparando mais sanções contra a Rússia. Levando-se em conta a incompetência crônica de Washington e Bruxelas, é incerto quem será mais prejudicado com tais sanções, se Rússia ou Europa. O que importa é que a Rússia nada fez para merecer que as sanções lhe sejam impostas.

As sanções baseiam-se na mentira dos EUA afirmando que, nas palavras de Obama (03 de setembro) “forças russas de combate, com armas russas e tanques russos” instalaram-se no leste ucraniano. Conforme relato do Professor Michel Chossudowsky no Global Research, observadores da OSCE (Organization for Security ond Cooperation in Europe – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) “não houve registro de tropas, munição ou armas que tenham cruzado a fronteira entra a Rússia e a Ucrânia nas últimas duas semanas”.

As passagens seguintes são relatos do Professor Chossudovsky baseadas nas conclusões da OSCE:

Michel Chossudovsky
A missão de observação da OSCE está instalada nos postos de controle russos de Gukovo e Donetsk a pedido do governo russo. A decisão foi tomada em acordo consensual por todos os 57 Estados que participam da OSCE, muitos dos quais se encontram representados na Cúpula da OTAN em Gales.

O relato da OSCE contradiz as declarações do regime de Kiev e de seus padrinhos EUA e OTAN. Confirma que as acusações que se referem ao fluxo de tanques russos não passam de uma mentira deliberada.

A OTAN deu apoio para as declarações de Obama, baseadas em imagens falsas de satélite (28 de agosto ode 2014) as quais supostamente mostrariam forças russas engajadas em operações de combate no interior do território soberano da Ucrânia. Estas declarações foram refutadas detalhadamente por relatos da missão de monitoramento da OSCE estacionada nas fronteiras entre a Rússia e a Ucrânia. Os relatórios da OTAN que se basearam nas fotos de satélite construíram uma evidência falsa.

Note-se como importante que a OSCE monitoriza cuidadosamente os movimentos através da fronteira, movimentos estes que consistem na maioria em refugiados.

Tal como no Iraque, Afeganistão e Líbia, atacados com base em mentiras evidentes e Síria e Irã, que estão na mira de outros ataques também suportados em mentiras transparentes, as sanções contra a Rússia igualmente se apoiam apenas em mentiras descaradas.

De acordo com o UK Telegraph as novas sanções proibirão que todas as companhias estatais russas de defesa ou petrolíferas façam captação de recursos nos mercados europeus de capital. Em outras palavras qualquer empresa petrolífera em operação na Rússia também pode ser excluída desse mercado. Ninguém ficará imune.

Uma das possíveis respostas russas a tal sanção pode ser o confisco de qualquer empresa ocidental em operação na Rússia como forma de compensação para o eventual prejuízo causado pelas sanções infligidas ao país.

Outra resposta pode ser voltar-se para a China na busca por financiamento.

Ainda outra pode ser o financiamento próprio para a indústria de energia e defesa. Se os Estados Unidos podem imprimir dinheiro para manter quatro ou cinco megabancos à tona, a Rússia pode muito bem imprimir dinheiro para financiar suas necessidades.


A lição que Washington está proporcionando para grande parte do mundo é que um país tem que estar completamente louco para fizer negócios com o ocidente. O ocidente usa os negócios de forma hegemônica para punir, explorar e saquear. É incompreensível que depois de tantas lições amargas ainda existam países que recorrem ao FMI para empréstimos. É impossível não ter consciência atualmente que os empréstimos do FMI tem dois propósitos: o saque do país pelo ocidente e a subordinação do país à política hegemônica ocidental. Pois mesmo assim, governantes imbecis ainda candidatam-se para os empréstimos do FMI.

Toda a escalada da situação ucraniana é trabalho dos Estados Unidos, União Europeia e Kiev. Aparentemente, Washington interpreta a resposta moderada da Rússia como se o governo russo estivesse intimidado. Mas, quando Putin tem todas as cartas na mão, pode destruir a Europa simplesmente desligando a torneira do fluxo de gás natural e pode reincorporar a Ucrânia inteira de volta para a Rússia em apenas duas semanas ou menos, como pode os EUA vir a impor seja o que for?

Será que a Rússia está tão desesperada para fazer parte do ocidente que sucumbirá, transformando-se em apenas mais um dos Estados fantoches de Washington?

Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Nasce um novo sistema econômico-financeiro: o exemplo de Rússia e Argentina

12/8/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Graças ao trabalho de nossa equipe russa (obrigado, pessoal!) que traduz à velocidade da luz, posso partilhar com vocês uma matéria do canal Rossia-1 da televisão russa, que me pareceu totalmente fascinante. Mostra como Rússia e Argentina foram literalmente empurradas pelos EUA a trabalhar unidas, e o tipo de resultado a que essa cooperação está levando. A matéria foca o caso argentino, mas tenho certeza de que fenômeno semelhante está acontecendo em vários lugares, especialmente entre os países BRICS.

É muito difícil alterar sistema que esteja em operação, sistema do qual as pessoas dependem para receber salários, sistema que foi estável ao longo de anos e que, embora longe de ser perfeito, pelo menos era claramente compreendido pelos envolvidos. Por essa razão, apesar de todas as imperfeições do sistema, algumas das quais já próximas da disfunção, o que eu chamaria de “sistema econômico-financeiro ocidental” era tão importante e, falando francamente, tão atraente: porque funcionava.

Mas foi quando os EUA fizeram algo extremamente perigoso: puseram-se a usar e abusar daquele sistema, para seus próprios e estreitos objetivos políticos: MasterCard, Visa & o resto, de repente, excluíram Wikileaks; o Irã foi excluído da Sociedade para Telecomunicação Financeira Interbancária Mundial [orig. Society for WorldwideInterbank Financial Telecommunication, SWIFT]; os franceses foram “multados” em bilhões a favor do Tio Sam, porque venderam barcos Mistral aos russos; os russos receberam ordens para compensar as perdas de Khodorkovsky; os suíços foram chantageados para desistir do tradicional segredo bancário deles, etc..

Claro que o US dólar e os interesses econômicos ocidentais não vivem só de atrair com suculenta cenoura. Chegaram sempre com um grande porrete: os militares norte-americanos.

Mas ao mesmo tempo, bem quando os EUA puseram-se a usar e abusar do sistema financeiro econômico ocidental... Os EUA também começaram a perder guerras uma depois da outra.

De fato, pode-se dizer que os EUA não venceram em guerra nenhum único inimigo importante desde 1945, ou da Coreia. Mas, graças a Hollywood e à Guerra Fria, os EUA conseguiram manter a ilusão de que continuariam a ser superpotência militar. Fato é que depois do 11/9, também essa ilusão começou a escapar pelo ralo, na sequência dos desastres no Iraque e no Afeganistão (e da derrota abjeta deIsrael contra o Hezbollah).

Resultado desse duplo colapso – do sistema econômico-financeiro ocidental e da capacidade de “detenção-impedimento” [orig. deterrence] que o poderio militar dos EUA tivera – o resto do planeta começou a dar-se conta de que se podia desafiar abertamente o Tio Sam e escapar vivo. Oh, claro que a Bolívia, sozinha, não poderia fazer tal coisa. Nem a Malásia. Mas liderados pelos BRICS, e os próprios BRICS, provavelmente, inspirados pelos países da ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América), mais e mais países passaram a dar-se conta dessa verdade básica: ser aliado dos EUA pode ser muito mais perigoso do que desafiá-los abertamente.

É claro que, no atual momento da história, Rússia e Argentina estão, de fato, lutando pela própria sobrevivência; portanto, não surpreende que mostrem máxima determinação para implantar um novo sistema econômico-financeiro livre dos EUA e do dólar norte-americano. Mas o comportamento absolutamente irresponsável dos EUA, ou, dito bem claramente, o comportamento enlouquecido dos EUA nos últimos anos, está, creio eu, assustando o resto do planeta, a tal ponto que creio firmemente que o exemplo de Rússia e Argentina é só a ponta de um iceberg muito maior.

Em primeiro lugar e muito importante, há a aliança de-facto entre China e Rússia, a maior potência econômica do planeta, com o maior poder militar.

BRICS + Argentina
Esses, por sua vez, estão apoiados no BRICS; na Organização para a Segurança Coletiva da Europa, OSCE; na Comunidade Econômica Eurasiana, EAEC; na Organização de Cooperação de Xangai, SCO; na ALBA; no MERCOSUL e nas muitas organizações regionais as quais, de um modo ou de outro, reúnem as 100 ou mais nações que não votaram com o Império Anglo-sionista na ONU, na questão da Ucrânia.

O resumo da história é o seguinte: bem poucas nações ainda se mantêm atraídas pelo modelo imperial anglo-sionista. O resultado é o tipo de colaboração (não deu na MSM [nem foi notícia do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) no Brasil], que vocês podem ver na matéria a seguir e com legendas em inglês). Aproveitem!



The Saker

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um Kosovo nas estepes da Ásia Central

7/8/2010, M K Bhadrakumar, AToL – Traduzido por Caia Fittipaldi


Uma robusta empreitada geopolítica empurrada pelos EUA orientada para inventar uma função para a Organização de Segurança e Cooperação na Europa [ing. Organization for Security e Cooperation in Europe (OSCE)] na resolução de conflitos no Quirguistão e no Afeganistão ameaça reinscrever as rivalidades do grande jogo na Ásia Central, antes que se chegue a qualquer acordo sobre o Afeganistão.


A iniciativa dos EUA impõe desafios políticos à Rússia, que é uma das 56 nações-membros da OSCE, e à China, que não é. Os veículos de segurança pilotados por cada uma das duas respectivas potências regionais – a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)] e a Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO) – são pilotadas pelas potências regionais, mas são regidas, de fato, pelos EUA.


Apesar disso, aparecida em momento em que a crise no Quirguistão só faz aprofundar-se e aproxima-se o fim do jogo no Afeganistão, a iniciativa dos EUA traz um ar de pensamento positivo e algo de oportuno e imediato, enquanto nem Rússia nem China têm qualquer contraestratégia disponível.



Paradoxalmente, Rússia e China podem acabar por ficar com a iniciativa, se, seja por que for, o plano da OSCE para estabilizar a situação no Quirguistão der errado e houver crescimento das tensões étnicas, com violência e anarquia. Mas seria vitória muito duvidosa, porque Rússia e China, à sua moda, também são partes interessadas na estabilidade regional.


Uma “equipe B”, para a guerra do Afeganistão

O traço menos bem-comportado de tudo isso é que é o Cazaquistão, com o qual ambas, Moscou e Pequim, contavam como seu mais sóbrio e ponderado parceiro regional, que está na boleia da carruagem da OSCE. Nas palavras claras e firmes do presidente cazaque Nurusultan Nazarbayev, “Não há qualquer dúvida de que é necessária nova estratégia da OSCE para o Afeganistão”.


Os EUA deliciaram-se; e, como num acordo de dupla mão, Washington acedeu ao desejo dos líderes cazaques que queriam a presidência da reunião de cúpula da OSCE a realizar-se ainda esse ano em Astana, e assim começar a aparecer no palco planetário. A última reunião de cúpula da OSCE aconteceu em 1999. E é o 35º aniversário do Helsinki Final Act [1].


"A abordagem estratégica pelo Cazaquistão da questão afegã tornou-se um dos pilares de um consenso histórico a que se chegou [na reunião dos ministros dos países da OSCE realizado em Almaty nos dias 16-17 de julho passado], no sentido de organizar-se reunião de cúpula da OSCE em Astana antes do final de 2010," admitiu abertamente o ministro de Estado e de Relações Exteriores do Cazaquistão Kanat Saudabayev.


O Cazaquistão receberá conferência especial da OSCE em Astana nos dias 20-21 de outubro, de cuja agenda o principal item será a questão afegã e o papel que a OSCE poderá desempenhar no Hindu Kush. Essa conferência é mais uma das ações que visam a encontrar uma solução política para o problema afegão.


“Gostaria de destacar a importância de mudarmos o próprio paradigma de que todos se têm servido para enfrentar os desafios diários que vêm do Afeganistão: da ênfase nos meios militares, para a erradicação das fontes daqueles desafios. Ajudar os afegãos a saírem de um conflito militar, para uma trilha mais construtiva, é um dos principais objetivos da OSCE e da coalizão internacional [liderada pelos EUA]”, disse Saudabayev.


Astana elaborou a partir dessas ideias em documento intitulado “Efforts to intensify cooperation with Afghanistan” [Esforços para intensificar a cooperação com o Afeganistão”], segundo o qual a OSCE pode oferecer ajuda no seu nicho de competências, em questões de segurança não-militar [ing. soft security] e negócios civis. Dentre essas questões estão treinamento de pessoal dos corpos de segurança do Afeganistão que operam no controle de narcóticos, guardas-fronteiras e aduanas; assistência na organização, realização e monitoramento e no desenvolvimento de instituições democráticas e políticas no Afeganistão.



O Cazaquistão propôs – evidentemente com apoio de Washington – que a OSCE aponte um representante especial para o Afeganistão, e que a OSCE tenha presença local, lá.

Moscou objetou imediatamente, informando o conselho permanente da OSCE em Viena, mês passado que:


“No que tenha a ver com fronteiras, aduana e projetos antidrogas para auxiliar o Afeganistão (...) [a Rússia] não pode aceitar a ideia de a OSCE operar em território do Afeganistão, nem aceitaremos tentativas de estender obrigações de direitos humanos e democracia àquele país. Tampouco vemos qualquer justificativa para que se crie o cargo de representante especial da OSCE para o Afeganistão."


É fácil compreender a indignação dos russos. Os EUA passaram-lhes a perna. Há cinco ou seis anos, a Rússia insiste em que a CSTO poderia estar atuando como parceira construtiva da OTAN, para estabilizar a situação no Afeganistão. Até agora, Washington sempre se dedicou atentamente a ignorar a ideia. Agora, os EUA tiram da cartola a OSCE (organização na qual a Rússia está representada), como uma “equipe B” para cuidar do Afeganistão, de modo que a OTAN possa concentrar-se exclusivamente na luta contra os guerrilheiros.



Dito em termos claros, os EUA preparam-se passo a passo para um prolongado envolvimento com o paradigma que está em desenvolvimento para a segurança do Afeganistão e da Ásia Central.


Moscou jogando no contra-ataque

O problema é que a Rússia está obrigada a reagir com um braço amarrado às costas. Os EUA não perdem ocasião de referir-se à sua iniciativa no Quirguistão como excelente exemplo da cooperação EUA-Rússia, no melhor espírito do que o presidente Barack Obama chamou de “desligar e reiniciar” [ing. reset] as relações com seu contraparte russo Dmitry Medvedev.


Moscou está impedida de desafiar abertamente a interpretação dos EUA, num momento delicado do processo de “desligar e reiniciar” as relações. Além do mais, Moscou esperava que a cooperação no Afeganistão evoluísse para modelo mais amplo do “desligar e reiniciar”. Quanto ao papel da OSCE, Moscou sempre procurou transformar aquele organismo em efetiva organização de segurança, e a iniciativa dos EUA no Quirguistão não está em oposição ao desejo dos russos. Outra vez, a Rússia livrou-se de ter de desempenhar unilateralmente um papel de estabilização na situação do Quirguistão e adotou posição de cautela, temerosa de embrenhar-se lá num atoleiro que poderia ser financeiramente muito pesado.


Evidentemente, nas circunstâncias atuais, a Rússia tampouco pode fazer objeção forte à iniciativa dos EUA, com a China sentada na cerca, assistindo à disputa entre Washington e Moscou. Além do mais, os dois países-chave da Ásia Central –Cazaquistão e Uzbequistão – estão, eles também, aquecendo relações com os EUA.


Dito em termos genéricos, Washington está vivendo um certo tipo de “desligar e reiniciar” também com Astana e Tashkent. E, ora, essas duas capitais da Ásia Central estão, no fundo, tentando copiar o exemplo russo, de priorizar os laços com os EUA. Por seu lado, Washington também é pragmática nesse seu projeto de democracia para a Ásia Central, que sempre irritou os regimes autoritários na região.


Evidentemente, está em curso uma mudança de paradigma na Ásia Central, e o crédito cabe à diplomacia dos EUA; a influência norte-americana está em curva ascendente. O fato é que, diferente da Rússia, que agiu ad-hoc, os EUA têm a oferecer uma abordagem compreensiva da crise do Quirguistão; e a credibilidade da CSTO está desgastada.



Em depoimento à Comissão Helsinki em Washington semana passada, o secretário-assistente de Estado Robert Blake foi franco sobre as intenções dos EUA, de manter sua presença militar no Quirguistão no futuro próximo. Disse ele:


“Não estamos disputando influência com qualquer outro país na Ásia Central (...). Manter o Manas Transit Center [base aérea dos EUA] é importante prioridade de segurança nacional para os EUA, mas esse centro só pode ser mantido se o próprio Quirguistão for parceiro estável e confiável, e nós próprios somos totalmente transparentes no funcionamento do centro. O centro é parte importante de nossa parceria, mas nosso foco foi e continua ser desenvolver nossa relação política, econômica e de segurança.”


Os EUA tampouco perderam tempo na implantação de um grande programa de ajuda para a reconstrução econômica do Quirguistão. A conferência de doadores internacionais que houve em Bishkek, capital do Quirguistão, dia 27 de julho, foi patrocinada pelo Banco Mundial, mas teve o imprimatur de Washington. O 1,5 bilhão de dólares que os doadores ofereceram ao Quirguistão para os próximos 30 meses ultrapassou o que Bishkek pedira. Em termos políticos, nada demonstraria melhor do que isso, que “os EUA estão fortemente comprometidos com o Quirguistão”, como disse Blake.


Em fala dia 30 de julho ao Carnegie Endowment for International Peace, Blake deixou bem claro que Washington não está disposta a fazer concessões na Ásia Central – “uma região de significativa importância para os interesses nacionais dos EUA” – à Rússia. Disse ele:


“Reconhecemos que outros países têm interesses na Ásia Central. Mas não aceitamos que país algum tenha interesses exclusivos. Afirmamos que é do interesse de todos os países na região implantar políticas que gerem estabilidade mais durável e parceiros mais confiáveis para todos, inclusive para os EUA, e enfrentar e superar desafios críticos regionais e globais, da não proliferação nuclear à luta contra os narcóticos, à segurança energética e ao combate ao terrorismo.”


Outro Kosovo?

Tudo isso posto, a audaciosa estratégia dos EUA tampouco é isenta de riscos reais; e são preocupantes as perspectivas de médio prazo do Quirguistão. A paisagem política é extremamente fraturada, e ninguém pode garantir que uma nova constituição funcione na prática, nem que as eleições marcadas para outubro sejam livres e justas. Há luta política aguda entre os clãs políticos, e o governo provisório em Bishkek continua fraco.


Não bastasse isso, as divisões regionais no Quirguistão estão-se aprofundando. A retórica nacionalista guirguiz torna-se mais estridente, a insegurança prossegue, a divisão étnica entre quirguizes e uzbeques continua enorme, e praticamente ninguém está dando atenção aos sofrimentos da minoria uzbeque. Com os órgãos de segurança e agências policiais exibindo preconceitos contra os uzbeques, são possíveis os ataques de vingança.


Enquanto isso, como escreveu Martha Olcott, destacada especialista norte-americana que estuda a Ásia Central,


“dificilmente os uzbeques simplesmente desaparecerão (...). Pequenos grupos de jovens também já estão tomando o rumo dos campos de treinamento e das redes jihadistas no Afeganistão e dali para o Paquistão. Isso implica que, mesmo que o governo do Quirguistão consiga manter ocultas as tensões étnicas no sul no curto prazo, os eventos de junho [o pogrom contra os uzbeques étnicos] podem ter graves ramificações no Quirguistão e no Uzbequistão, ainda por muitos anos.”


Também se pode pensar nos termos em que um sensível analista da situação no Quirguistão escreveu recentemente no Guardian de Londres:


“Há três modelos possíveis para o futuro: o do Sri Lanka, onde uma poderosa organização de guerrilheiros emergiu dos tumultos étnicos; o da Chechênia, onde um nascente movimento nacionalista foi cooptado nas redes islâmicas; e o do Uzbequistão, que respondeu a Andijan [o levante que houve lá, em 2005] com repressão violentíssima. Nenhum dos três parece muito entusiasmante.”


De fato, alguns observadores russos entrevêem um quarto modelo como cenário mais provável: o Kosovo.


Segundo eles, os EUA estariam procedendo conforme plano cuidadosamente coreografado, no qual a introdução da OSCE como força policial seria um primeiro passo necessário.


Afinal, os 52 policiais desarmados da OSCE previstos no plano do grupo pouco podem fazer para estabilizar o sul do Quirguistão. O mais provável é que fracassem em ambiente hostil, no qual a maioria da população do Quirguistão parece opor-se à intervenção da OSCE. Político russo, membro do Comitê de Assuntos Internacionais da Duma russa já observou que:


“Se algo acontecer a esses policiais da OSCE, serão enviadas unidades armadas ao Quirguistão. Quem mandará unidade militares para lá? A OTAN, é claro. Há uma base militar dos EUA em Manas, uma base aérea francesa em Dushanbe, e contingente de 154 mil soldados da OTAN no Afeganistão. Que dificuldade haveria? Se isso acontecer, veremos uma situação muito interessante, semelhante à do Kosovo... O risco de ativa interferência ocidental, nos termos do cenário do Kosovo, é muito real.”


À primeira vista, o deslocamento da OSCE pode visar a aliviar tensões, mas o impacto à vazante deste deslocamento pode levar a resultado exatamente oposto. Pode acontecer de a presença de observadores internacionais estimular os uzbeques étnicos do sul do Quirguistão a buscar a autonomia.


Em certa medida, os EUA já estão mexendo com os sentimentos separatistas latentes dos uzbeques nas regiões de Osh e Jalalabad no sul do Quirguistão. Questão chave aí é saber se essa seria abordagem calibrada em acordo com Tashkent; essa é questão chave, com profundas conseqüências no rumo futuro da geopolítica da Ásia Central e tem a ver, de fato, com a integridade do Quirguistão e sua viablidade como Estado.


Um aumento no sentimento uzbeque separatista no sul do Quirguistão dispararia a resposta do nacionalismo quirguis. Depois, seria só questão de tempo, antes de que um “homem forte” quirguis assumisse as rédeas e rumasse para o centro do palco, tirando de cena os democratas quirguises apoiados pelos EUA em Bishkek; assim, rapidamente se poderia chegar a um ponto sem volta possível.


Se isso acontecer, o Uzbequistão e o Tadjiquistão – por causa do enclave voruque étnico na província de Batken no sul do Quirguistão – seriam arrastados, o que cercaria três dos cinco Estados da Ásia Central. Em resumo: seria a Iugoslávia, outra vez.


Nota de tradução:


[1] O Helsinki Final Act foi o documento final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa [ing. Conference on Security and Cooperation in Europe] realizada em Helsinki, Finlândia, nos meses de julho e agosto de 1975. 35 Estados, entre os quais EUA, Canadá e todos os Estados europeus exceto Albânia e Andorra, assinaram a declaração, em tentativa para melhorar as relações entre o bloco comunista e o Ocidente.


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: A Kosovo on the Central Asian steppes