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domingo, 7 de setembro de 2014

Paul Craig Roberts: “O ocidente pavimenta com mentiras a estrada para a guerra”

5/9/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por mberublue

Vladimir Putin e Sergey Lavrov
Declarações oficiais do governo russo indicam que o presidente e o ministro do exterior continuam a confiar na boa vontade de seus “parceiros ocidentais” para o desenvolvimento de uma solução diplomática razoável para o problema ucraniano causado por Washington.

Não apenas não existe qualquer evidência de boa vontade nas capitais ocidentais como as medidas hostis contra a Rússia seguem aumentando. Além disso, essas medidas hostis aumentam mesmo quando se torna claro que seus efeitos são desastrosos para a Europa.

Por exemplo: o presidente socialista da França resolveu seguir caninamente as ordens de Washington e se recusou a entregar para a Rússia navios que está construindo sob contrato. As notícias sobre o assunto são tão mal relatadas que não dão conta se a Rússia já pagou pelo navio ou se o pagamento ainda está à espera de complementação. Se a Rússia ainda não pagou, então a falha na entrega causará danos apenas para quem financiou a construção do navio. Se a Rússia já pagou, então o imbecil presidente francês colocou a França em flagrante violação de contrato e sob a lei internacional o país estará sujeito a pesadas sanções financeiras.

Porta-helicópteros Classe Mistral encomendados pela Rússia à França ( e não entregues)
Não está claro como isso prejudicaria a Rússia. São as forças estratégicas nucleares da Rússia que o ocidente tem que temer, não porta-helicópteros. A lição que Hollande está dando para a Rússia é a seguinte: não faça negócios com a França ou qualquer outro país da OTAN.

A Rússia pode simplesmente colocar de imediato a violação contratual em julgamento. No caso a França deverá sofrer sanções com penalidades cujo valor pode exceder o próprio valor do contrato, ou então o ocidente estará provando que em suas mãos a lei internacional não passa de um amontoado de palavras sem sentido. Se eu fosse a Rússia desistiria tranquilamente dos navios porta-helicópteros apenas para deixar estabelecido esse ponto.

Atualmente a França tem apenas um líder: Marine Le Pen, (da direitona mais braba, Nrc) a qual, embora seu apoio tenha crescido exponencialmente, não está no poder. Le Pen disse que a atitude subserviente de Hollande para com Obama “acarretará um custo enorme para a França: a perda de milhões de horas trabalhadas e uma multa entre 5 a 10 bilhões de euros” (nessas de contar prejuízo a direitona braba é especialista (Nrc).

Hollande tenta justificar sua submissão abjeta aos EUA com uma mentira:

As ações da Rússia no leste da Ucrânia transgridem princípios fundamentais da Segurança Europeia.

Comporte-se, Rússia, ou então...
Definitivamente certos caras não
aprenderam NADA com a História
Ocorre exatamente o oposto. São as ações estúpidas de Hollande, Merkel e Cameron que colocam em perigo a Segurança Europeia ao permitir que os EUA continuem com a sua rota de guerra contra a Rússia.

Tomando-se por base as reportagens (pelo que elas valem), os EUA e seus fantoches da União Europeia estão preparando mais sanções contra a Rússia. Levando-se em conta a incompetência crônica de Washington e Bruxelas, é incerto quem será mais prejudicado com tais sanções, se Rússia ou Europa. O que importa é que a Rússia nada fez para merecer que as sanções lhe sejam impostas.

As sanções baseiam-se na mentira dos EUA afirmando que, nas palavras de Obama (03 de setembro) “forças russas de combate, com armas russas e tanques russos” instalaram-se no leste ucraniano. Conforme relato do Professor Michel Chossudowsky no Global Research, observadores da OSCE (Organization for Security ond Cooperation in Europe – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) “não houve registro de tropas, munição ou armas que tenham cruzado a fronteira entra a Rússia e a Ucrânia nas últimas duas semanas”.

As passagens seguintes são relatos do Professor Chossudovsky baseadas nas conclusões da OSCE:

Michel Chossudovsky
A missão de observação da OSCE está instalada nos postos de controle russos de Gukovo e Donetsk a pedido do governo russo. A decisão foi tomada em acordo consensual por todos os 57 Estados que participam da OSCE, muitos dos quais se encontram representados na Cúpula da OTAN em Gales.

O relato da OSCE contradiz as declarações do regime de Kiev e de seus padrinhos EUA e OTAN. Confirma que as acusações que se referem ao fluxo de tanques russos não passam de uma mentira deliberada.

A OTAN deu apoio para as declarações de Obama, baseadas em imagens falsas de satélite (28 de agosto ode 2014) as quais supostamente mostrariam forças russas engajadas em operações de combate no interior do território soberano da Ucrânia. Estas declarações foram refutadas detalhadamente por relatos da missão de monitoramento da OSCE estacionada nas fronteiras entre a Rússia e a Ucrânia. Os relatórios da OTAN que se basearam nas fotos de satélite construíram uma evidência falsa.

Note-se como importante que a OSCE monitoriza cuidadosamente os movimentos através da fronteira, movimentos estes que consistem na maioria em refugiados.

Tal como no Iraque, Afeganistão e Líbia, atacados com base em mentiras evidentes e Síria e Irã, que estão na mira de outros ataques também suportados em mentiras transparentes, as sanções contra a Rússia igualmente se apoiam apenas em mentiras descaradas.

De acordo com o UK Telegraph as novas sanções proibirão que todas as companhias estatais russas de defesa ou petrolíferas façam captação de recursos nos mercados europeus de capital. Em outras palavras qualquer empresa petrolífera em operação na Rússia também pode ser excluída desse mercado. Ninguém ficará imune.

Uma das possíveis respostas russas a tal sanção pode ser o confisco de qualquer empresa ocidental em operação na Rússia como forma de compensação para o eventual prejuízo causado pelas sanções infligidas ao país.

Outra resposta pode ser voltar-se para a China na busca por financiamento.

Ainda outra pode ser o financiamento próprio para a indústria de energia e defesa. Se os Estados Unidos podem imprimir dinheiro para manter quatro ou cinco megabancos à tona, a Rússia pode muito bem imprimir dinheiro para financiar suas necessidades.


A lição que Washington está proporcionando para grande parte do mundo é que um país tem que estar completamente louco para fizer negócios com o ocidente. O ocidente usa os negócios de forma hegemônica para punir, explorar e saquear. É incompreensível que depois de tantas lições amargas ainda existam países que recorrem ao FMI para empréstimos. É impossível não ter consciência atualmente que os empréstimos do FMI tem dois propósitos: o saque do país pelo ocidente e a subordinação do país à política hegemônica ocidental. Pois mesmo assim, governantes imbecis ainda candidatam-se para os empréstimos do FMI.

Toda a escalada da situação ucraniana é trabalho dos Estados Unidos, União Europeia e Kiev. Aparentemente, Washington interpreta a resposta moderada da Rússia como se o governo russo estivesse intimidado. Mas, quando Putin tem todas as cartas na mão, pode destruir a Europa simplesmente desligando a torneira do fluxo de gás natural e pode reincorporar a Ucrânia inteira de volta para a Rússia em apenas duas semanas ou menos, como pode os EUA vir a impor seja o que for?

Será que a Rússia está tão desesperada para fazer parte do ocidente que sucumbirá, transformando-se em apenas mais um dos Estados fantoches de Washington?

Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

A Junta de Kiev é claramente um governo NEONAZISTA...

1/6/2014, [*] Michel ChossudovskyGlobal Research,
Traduzido por mberublue


Usam a saudação NAZISTA...

ELES sabem o que são?

NÓS sabemos o que eles são?

Há “ultraconservadores” no governo de Kiev, mas “eles não são neonazistas”. De acordo com o jornal New York Times, isso não passa de propaganda russa.

No entanto, a mídia alternativa reconhece que existe uma “coalizão livre de centro-direita” integrada por dois partidos neonazistas (Svoboda e Pravy Sektor), “mas não é um governo neonazista”. Acontece que tanto o Svoboda quanto o Pravy Sektor (Setor Direita) exibem emblemas NAZISTAS.

Trata-se de uma mera coalizão livre? Se um governo exibe emblemas nazistas, não existe aí uma sugestão de que esse governo se comprometeu com a ideologia nazista?

A partir do momento em que o regime de Kiev exibe “oficialmente” emblemas nazistas como forma de identificação de entidades de seu aparato de segurança nacional e militar que operam normalmente, assume que é um governo neonazista.

Vemos a seguir o emblema NAZISTA da Guarda Nacional (Національна гвардія України) que se define como Reserva das Forças Armadas da Ucrânia. Opera sob a jurisdição do Ministério de Administração Interna. A Guarda Nacional faz parte das “tropas internas da Ucrânia”. Seu símbolo é uma suástica estilizada (veja abaixo).

Usam apliques NAZISTAS estilizados...
O mais importante de tudo é que a Guarda Nacional está sendo diretamente financiada pela administração Obama. Para dizer de outra forma, o governo dos Estados Unidos está apoiando e financiando uma entidade claramente NEONAZISTA.

As imagens abaixo dizem tudo.

O Batalhão de Azov (Батальйон Азов) que exibe o emblema da SS nazista é descrito pela Junta de Kiev como sendo “um batalhão de voluntários para a defesa territorial”. Está sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos e compõe a Guarda Nacional. Oficialmente baseado em Berdyank, no Mar de Azov, teve como escopo quando de sua formação pela Junta de Kiev, o combate contra a insurgência no leste e sul da Ucrânia. Tudo igualmente financiado pelo governo dos EUA.

Usam emblemas NAZISTAS...

  • Estas milícias que utilizam-se do emblema nazista são patrocinadas pelo Ministério de Assuntos Internos da Ucrânia (Junta de Kiev) equivalente ao Departamento de Segurança Interna dos EUA.
  • Eles se autorreferem como “Combatentes da Liberdade”.
  • Tudo por uma boa causa. “Democracia é o objetivo”.
  • Nas palavras do jornal NYTimes, “Os EUA e a União Europeia encamparam a revolução (na Ucrânia) outro florescimento da democracia, afastando o autoritarismo e a cleptocracia do antigo espaço soviético” (1/3/2014).
  • Nem é preciso dizer que o “patrocínio” da formação do governo neonazista na Ucrânia comprometem a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Congresso dos EUA com “tendências fascistas”.
A seguir várias fotos do Batalhão de Azov (neonazista) que se dizem “Combatentes da Liberdade”:







Fotos extraídas do  sítio neonazista: https://news.pn/en/public/104475   


[*] Michel Chossudovsky (nasceu em 1946 no Canadá) é professor de Economia (emérito) da Universidade de Ottawa. Foi professor visitante internacional e tem sido conselheiro de vários governos de países em desenvolvimento. Em 1999, juntou-se a Fundação Transnacional para Pesquisa Futura e a Paz como conselheiro

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

À sombra da geopolítica dos EUA, ou Como sempre, é a “Grande Israel”

10-11/11/2013, [*] Olga Chetverikova, Strategic Culture
In the Shadow of American Geopolitics, or Once Again on Greater Israel (I)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Novo Oriente Médio pensado pelos EUA/Israel
(clique no mapa para aumentar)
Ralph Peters
Há trinta anos, os estrategistas dos EUA introduziram a ideia do “Grande Oriente Médio”, ou “Oriente Médio Expandido” [orig. The Greater Middle East], correspondente ao espaço do Maghreb a Bangladesh, e declararam que esse vasto território passava a ser zona de interesse prioritário dos EUA. 

Em 2006, o programa de domínio pelos EUA nessa região foi renovado e definido mais concretamente: a então secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice introduziu a expressão “O Novo Oriente Médio”, com destaque para um plano para retraçar as fronteiras no Oriente Médio, da Líbia à Síria, Iraque, Irã e até Afeganistão. A estratégica apareceu referida como “um caos construtivo” (...)

No mesmo ano (2006), um mapa do “Novo Oriente Médio” (ver acima) preparado pelo coronel Ralph Peters foi publicado na revista norte-americana Armed Forces Journal que circulou no governo e em círculos políticos e militares mais amplos, preparando a opinião pública para as mudanças iminentes.

Olga Chetverikova
Desde o início da “Primavera Árabe”, os EUA vêm se movimentando na direção de uma reestruturação geopolítica da região, a qual, é claro, também levantou a discussão sobre o destino de Israel. Desde então, a questão permanece na agenda. E não importa a forma que assuma, o tom não muda: Israel é invariavelmente apresentada como a vítima.

Assim, na primavera de 2011, no auge da guerra contra a Líbia, quando a Autoridade Palestina levantou a questão de tornar-se membro da ONU, a imprensa-empresa ocidental rapidamente pôs-se a denunciar a traição, por Washington, que estaria “entregando” o Estado Judeu aos islamistas. Hoje, quando o absurdo dessa ideia já é óbvio para todos, a ênfase passou para a ameaça mortal que o Irã representaria para Israel, ênfase que, pelo que se vê, cresce alinhada à deterioração da situação na Síria.

Nesse processo, a questão mais importante está sendo ocultada ou, simplesmente, foi varrida: o agudo interesse que Israel tem na desestabilização dos países árabe-muçulmanos que a cercam; e em manter e expandir a guerra na Síria.

Avraam Shmulevich
O rabino Avraam Shmulevich, um dos criadores da doutrina do “hipersionismo”, influente na elite israelense, falou abertamente sobre as razões desse interesse, em entrevista, em 2011. É interessante: ali, ele via a “Primavera Árabe” como uma bênção para Israel.

O mundo muçulmano, escreveu Avraam Shmulevich, está mergulhando em um estado de caos, e esse desenvolvimento será positivo para os judeus. O caos é o momento perfeito para assumir o controle de uma situação e pôr em operação o sistema da civilização judaica. Exatamente agora, acontece uma batalha pelo lugar de guia espiritual da humanidade: Roma (o Ocidente) ou Israel. (...) Agora é o momento em que devemos tomar em nossas mãos o controle. (...) Não apenas varrer a elite árabe, mas fazê-la comer na nossa mão. (...) Quem alcance a liberdade deve, ao mesmo tempo, ser orientado sobre como usar essa liberdade. E essa orientação, para toda a humanidade, será escrita por nós. (...) O judaísmo florescerá, do incêndio das revoluções árabes. [negritos da autora].

Sobre os objetivos da política externa de Israel, Shmulevich enfatizou a necessidade de manter “as fronteiras naturais ao logo do Nilo e do Eufrates estabelecidas na Torah”, que deverão então ser seguidas na segunda fase da ofensiva – expandindo a hegemonia de Israel para toda a região do Oriente Médio. Também sobre isso, Shmulevich falou com extrema clareza:

Está começando simultaneamente no Oriente Médio uma cadeia de desintegração e reforma. Assad, que atualmente está afogando em sangue os processos revolucionários na Síria, não conseguirá, contudo, manter-se por mais um, dois anos. A revolução está começando na Jordânia. Até os curdos e o Cáucaso estão emergindo como parte integrante do Oriente Médio (...) [negritos da autora].

Não é difícil ver aí um Iraque, ou um Afeganistão, continuados.

Seria possível classificar Shmulevich como pensador marginal, não fosse o fato de que ele repete os princípios fundamentais do plano estratégico que líderes israelenses traçaram em 1982, conhecido como “Plano Yinon”. O plano visava a garantir a superioridade regional para o governo israelense, mediante a desestabilização e a “balcanização”, ou seja, a desestabilização dos estados árabes adjacentes ou, em outras palavras, o mesmo que se leu, reproduzido, no projeto “Novo Oriente Médio” esboçado por Condoleeza Rice e pelo coronel Ralph Peters.

Grande Israel ou Terra Prometida por Oded Yinon
O plano traça “Uma estratégia para Israel nos anos 1980s”, documento preparado por Oded Yinon, jornalista israelense ligado ao Ministério de Negócios Exteriores. Foi publicado primeiro em hebraico, na revista Kivunim [Rumos], do Departamento de Informação da Organização Sionista Mundial, em fevereiro de 1982. No mesmo ano, a Associação de Universitários Árabe-Norte-Americanos publicou uma tradução do texto, assinada e anotada por Israel Shahak [1]. Em março de 2013, o artigo de Israel Shahak foi publicado na página de Michel Chossudovsky na Internet, Global Research.

Michel Chossudovsky
Esse documento, que é parte da formação da “Grande Israel”, escreve Chossudovsky na introdução ao artigo, é a pedra de toque de poderosas facções sionistas dentro do atual governo de Netanyahu, do Partido Likud e do establishment militar e de inteligência israelense (...). Vistas no atual contexto, a guerra contra o Iraque, a guerra de 2006 contra o Líbano, a guerra de 2011 contra a Líbia, a atual guerra contra a Síria, para nem falar do processo de “mudança de regime” no Egito, têm de ser compreendidos em relação àquele Plano Sionista para o Oriente Médio” [negritos da autora].

O plano está baseado em dois princípios fundamentais que determinam as condições da sobrevivência de Israel em seu ambiente árabe:

(1) Israel tem de tornar-se potência imperial regional; e
(2) Israel tem de fragmentar toda a área circundante em estados menores, mediante a dissolução de todos os estados árabes existentes. O tamanho desses estados dependerá da composição étnica e religiosa de cada um. Sobretudo: a criação de novos estados baseados na religião será fonte de legitimidade moral para o governo israelense.

Deve-se dizer que a ideia de fragmentar os estados árabes do mundo não é nova. Existe há muito tempo no pensamento estratégico sionista, [2] mas a matéria de Yinon, como Israel Shahak já destacara em 1982, ofereceu um “plano acurado e detalhado do então governo sionista (de Sharon e Eitan) para o Oriente Médio, baseado na divisão dos territórios em estados pequenos, e na dissolução dos estados árabes existentes”.

Aqui, Shahak chama a atenção para dois pontos:

Israel Shahak
(1) A ideia de que todos os estados árabes devam ser quebrados, por Israel, em unidades menores, ocorre seguidas vezes no pensamento estratégico dos israelenses. E
(2) A forte conexão com o pensamento dos neoconservadores nos EUA, que inclui a ideia da “defesa do ocidente”, é muito proeminente, mas é puramente retórica, porque o real objetivo do autor do trabalho é construir um império israelense e convertê-lo em potência mundial (“Em outras palavras”, Shahak comenta, “o objetivo de Sharon é enganar os norte-americanos, depois de ter enganado todos os demais”).

O principal ponto do qual Oded Yinin parte é que o mundo está nos estágios iniciais de uma nova época histórica, cuja essência estaria na “visão racionalista, humanista, como pedra basilar sobre a qual se apoiam a vida e as realizações da civilização ocidental desde a Renascença”.

A seguir, Yinon oferece as ideias do “Clube de Roma” sobre a limitação dos recursos do planeta, insuficientes para atender as necessidades econômicas e demográficas da humanidade.

Oded Yinon
Num mundo no qual há 4 bilhões de seres humanos e recursos econômicos e de energia que não crescem proporcionalmente para atender à demanda da humanidade, não é realista esperar atender todas as demandas da Sociedade Ocidental, i.e. o desejo e a aspiração ao consumo ilimitado. A visão segundo a qual a ética não tem papel determinante na direção que o Homem tome, e que só suas necessidades materiais contam – essa visão está se tornando dominante hoje, quando vemos um mundo do qual quase todos os valores estão desaparecendo. Estamos perdendo a capacidade para avaliar as coisas mais simples, especialmente no que tenha a ver com a simples questão de o que é o Bem e o que é o Mal.

O mundo caminha para uma guerra global por recursos, e isso diz respeito, em primeiro lugar, ao Golfo Pérsico. Avaliando a situação do mundo árabe-muçulmano em relação a isso, o “Plano Yinon” anota:

No longo prazo, esse mundo não conseguirá existir dentro de seu atual quadro nas áreas em torno de nós [de Israel], sem passar por genuínas mudanças revolucionárias. O Mundo Árabe Muçulmano está construído como temporário castelo de cartas erguido por estrangeiros (França e Grã-Bretanha nos séculos 19-20), sem que os planos e desejos dos habitantes tenham sido levados em consideração. Foi arbitrariamente dividido em 19 estados, todos feitos de diferentes combinações de minorias e grupos étnicos que são hostis uns aos outros, de tal modo que cada estado árabe muçulmano hoje enfrenta a destruição étnica e social de dentro para fora, e em alguns já há guerra civil (...).

Mundo Árabe Muçulmano (legendado)
(clique na imagem para aumentar)
Depois de pintar um quadro misto do mundo muçulmano árabe e não árabe, Yinon conclui:

Esse quadro de minoria nacional étnica que se estende do Marrocos à Índia e da Somália à Turquia aponta para a ausência de estabilidade e uma rápida degeneração em toda a região. Se se soma a esse quadro o quadro econômico, vê-se que toda a região está construída como um castelo de cartas, incapaz de sobreviver aos seus graves problemas.

Nesse ponto, Yinon chega a listar as novas “oportunidades para transformar a situação” que Israel deve aproveitar na década seguinte.

Quanto à Península do Sinai, implica estabelecer controle sobre o Sinai como reserva estratégica, econômica e de energia para o longo prazo. Diz Yinon:

O Egito, no atual quadro político doméstico, já é um cadáver, ainda mais se se considera a crescente divisão entre muçulmanos e cristãos. Assim sendo, o objetivo de Israel nos anos 1980s, no seu front ocidental, é dividir territorialmente o Egito em distintas regiões geográficas [negritos da autora].

Sobre o front oriental de Israel, mais complicado que o front ocidental, Yinon escreve:

A total dissolução do Líbano em cinco províncias serve como precedente para todo o mundo árabe incluindo Egito, Síria, Iraque e a Península Arábica e já está seguindo aquela trilha. A dissolução da Síria e do Iraque depois, em áreas etnicamente ou religiosamente uniformes, como no Líbano, é o primeiro objetivo de Israel no front oriental para o longo prazo, enquanto a dissolução do poder militar desses estados fica como objetivo primário no curto prazo [negritos da autora]. A Síria cairá em partes, segundo sua estrutura étnica e religiosa, dividida em vários estados, como o Líbano de hoje, de modo que haverá um estado xiita alawita no litoral; um estado sunita na área de Aleppo; outro estado sunita em Damasco, hostil ao vizinho do norte; e os drusos criarão seu estado, talvez até em nosso Golan, e com certeza no Hauran e no norte da Jordânia.

A "balcanização" da Síria pensada por Israel (Plano Yinon)
O Iraque, rico em petróleo, por um lado, e internamente fracionado, por outro, é candidato garantido a alvo de Israel. A dissolução do Iraque é até mais importante para nós que a da Síria (...) Todos os tipos de confrontação inter-árabes nos ajudará [ajudará Israel] no curto prazo e encurtará o caminho até o objetivo mais importante de quebrar o Iraque em áreas por religião, como na Síria e no Líbano. No Iraque, é possível uma divisão em províncias por linhas étnicas/religiosas, como a Síria durante os otomanos. Assim, haverá três (ou mais) estados em torno das três maiores cidades: Basra, Bagdá e Mosul; e áreas xiitas no sul separadas do norte sunita e curdo.

Toda a Península Arábica é candidata natural à dissolução, dadas as pressões internas e externas, e é inevitável [negritos da autora], especialmente na Arábia Saudita, independente de que sua economia baseada no petróleo permaneça intacta ou enfraqueça no longo prazo. As rixas e fraturas internas são desenvolvimento claro e natural, à vista da atual estrutura política.

A Jordânia é alvo estratégico imediato no curto prazo, mas não no longo prazo, porque não é real ameaça no longo prazo depois da dissolução, do fim do longo reinado do rei Hussein e da transferência de poder para os palestinos no curto prazo. Não há possibilidade alguma de que a Jordânia continue a existir com a estrutura atual, por longo tempo [negritos da autora], e a política de Israel, seja na paz, seja na guerra, tem de ser dirigida à liquidação da Jordânia do atual regime e à transferência daquele território para a maioria palestina. Mudar o regime a leste do rio também porá fim ao problema dos territórios densamente povoados de árabes a oeste do rio Jordão. (...) Só reinarão coexistência genuína e paz sobre a terra, quando os árabes entenderem que sem governo judeu entre o Jordão e o mar eles jamais terão nem segurança nem existência [negritos da autora]. Só terão nação deles e segurança, na Jordânia.

Na sequência, Yinon lista os objetivos internos estratégicos de Israel e os modos de alcançá-los, enfatizando a necessidade de sérias mudanças no mundo [negritos da autora].

Dispersar a população é assim objetivo doméstico estratégico da mais alta ordem; sem isso, deixaremos de existir em quaisquer fronteiras. Judea, Samaria e a Galileia são nossa única garantia para a existência nacional (...) Alcançar nossos objetivos no front oriental depende, antes, de realizarmos esse objetivo estratégico interno. A transformação da estrutura política e econômica, para permitir que se alcancem esses objetivos estratégicos, é a chave para obter toda a mudança [negritos da autora]. Temos de mudar, de uma economia centralizada na qual o governo está extensamente envolvido, para um mercado aberto e livre e temos de mudar, da dependência atual em que dependemos dos contribuintes norte-americanos para nosso desenvolvimento, para uma infraestrutura econômica genuinamente produtiva. Se não conseguirmos fazer livre e voluntariamente essa mudança, seremos forçados a ela pelos desenvolvimentos mundiais, especialmente nas áreas das finanças, energia e política, e pelo nosso crescente isolamento. 

Rápidas mudanças no mundo também trarão mudanças na condição dos judeus em todo o mundo, para os quais Israel se converterá não só no último recurso, mas na única opção existencial.

Avaliando esse plano, podem-se extrair as seguintes conclusões.

Em primeiro lugar, dado que traça objetivos estratégicos de Israel, é plano de longo prazo, particularmente importante hoje. Em segundo lugar, a possibilidade de realizar a estratégia externa aí exposta envolve sérias mudanças, na posição da própria Israel e em escala mundial. E isso é, exatamente, o que começou a acontecer em meados dos anos 1980s.

Com a classe governante global em transição para uma estratégia neoliberal, Israel experimentou mudanças profundas, que resultaram em o país acabar controlado por 18 das famílias mais ricas. O capital israelense foi ativamente investido fora de Israel, e o mercado israelense, por sua vez, revelou-se amplamente aberto ao capital estrangeiro. Resultado dessa ativa “integração” no sistema econômico global, o capital israelense misturou-se de tal modo ao capital transnacional, que a noção de uma “economia nacional de Israel” perdeu completamente qualquer significado. Nessas condições, a transição de Israel para um expansionismo ativo até se tornou possível, embora se tenha manifestado pela infiltração intelectual e econômica, não pelo controle militar ou pela presença de forças. O mais importante é o envolvimento do território em geral, no centro do qual está Israel.

Shmulevich também se referiu a isso, ao apontar que um dos conceitos fundamentais do judaísmo é “ser a força que guia a civilização humana e demarca os padrões para a civilização humana”.

Exemplo dessa união árabe-israelense é a criação do fundo de investimentos Markets Credit Opportunity (EMCO) com 1 bilhão de dólares do grupo bancário suíço Credit Suisse AG e o envolvimento de três dos maiores acionistas do banco – o IDB Group de Israel; o fundo estatal de investimentos do Qatar, Qatar Investment Authority; e a empresa privada saudita de investimentos, Olayan Group.

Ainda mais revelador, é o fato de que a Arábia Saudita entregou à empresa G4S, a mais antiga empresa de segurança de Israel, o trabalho de prover a segurança dos peregrinos que visitam Mecca (o perímetro considerado vai do aeroporto de Dubai aos Emirados e à área de Jeddah). Um braço saudita da companhia já está em operação desde 2010, com meios para recolher informação pessoal não só dos peregrinos, mas também de todos os passageiros que voem por Dubai.

G4S empresa de Israel é responsável pela segurança dos peregrinos em Meca
No que tenha a ver com o planejado “caos no mundo muçulmano”, Israel está operando por procuração, exclusivamente mediante agências de inteligência, enquanto vai preservando o mito de que seria “uma vítima do islamismo”. Quanto a isso, as explicações de Israel Shahak, sobre por que a publicação do plano estratégico de Israel não implica qualquer risco particular para Israel, ainda são relevantes e pertinentes.

Chamando atenção para o fato de que, se houvesse esse risco, só poderia vir do mundo árabe e dos EUA, Shahak lembrou:

O mundo árabe até agora se mostrou incapaz de fazer análise racional detalhada da sociedade israelense-judaica (...) Nessa situação, mesmo os que gritam contra os perigos do expansionismo israelense (que são perigos muito reais) fazem-no não por conhecimento factual e detalhado, mas porque acreditam em mitos (...) Os especialistas israelenses assumem que, no geral, os árabes não darão atenção às discussões israelenses sobre o futuro.

A situação é semelhante nos EUA, onde toda a informação sobre Israel é distribuída pela imprensa-empresa de direita pró-Israel. Isso tudo considerado, Shahak chega à seguinte conclusão:

Por hora, portanto, dada a situação real de que Israel é efetivamente uma sociedade fechada para o resto do mundo, porque o mundo deseja permanecer de olhos fechados, a publicação não terá consequências; e os movimentos iniciais de tal plano já em execução continuam viáveis.



Notas dos tradutores:

[1] Israel Shahak (1933-2001) tornou-se conhecido como crítico das ideias de políticos israelenses sobre não judeus. Foi professor de Química Orgânica na Universidade Hebraica de Jerusalém, presidente da Liga Israelense pelos Direitos Humanos e Direitos Civis e publicou inúmeros estudos, entre os quais The Non-Jew in the Jewish State [Não judeus no estado judeu], Israel’s Global Role: Weapons for Repression [O papel global de Israel: armas para repressão] e Jewish History, Jewish Religion: The Weight of Three Thousand Years [História dos judeus, religião dos judeus: o peso de 3 mil anos].

[2] É o que escreve Livia Rokach, em seu livro Israel’s Sacred Terrorism [O terrorismo sagrado de Israel] (1980), publicado pela mesma Associação. O livro baseia-se nas memórias de Moshe Sharett, o primeiro ministro de Negócios Estrangeiros de Israel e ex-primeiro-ministro; expõe o plano sionista com vistas à Líbia e o processo de seu desenvolvimento em meados dos anos 1950s. A primeira massiva invasão da Líbia, em 1978, contribuiu para o desenvolvimento desse plano até os menores detalhes; e a invasão de junho de 1982 visou a implementar parte do plano, pelo qual a Síria e a Jordânia teriam de ser divididas.

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