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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Julian Assange: “Criptografia é arma chave na luta contra estados imperiais”

9/7/2013, Julian Assange, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Julian Assange
O que começou como meio para preservar a liberdade individual pode agora ser usado por estados menores, para frustrar as ambições dos maiores.

O cypherpunks  [1] originais eram, na maioria, californianos libertaristas. [2] Eu vinha de tradição diferente, mas todos nós buscávamos proteger a liberdade individual contra a tirania do Estado. Nossa arma secreta era a criptografia. Já se esqueceu o quanto isso foi subversivo. A criptografia, então, era propriedade exclusiva dos Estados, para uso em suas muitas guerras. Ao escrever nossos próprios programas e distribuí-los o mais amplamente possível, liberamos a criptografia, a democratizamos e a espalhamos pelas fronteiras da nova internet.

A reação contra, sob várias leis “de tráfico de armas”, falhou. A criptografia se difundiu nos browsers da rede e em outros programas que, hoje, as pessoas usam diariamente. Criptografia forte é ferramenta vital na luta contra a opressão pelo Estado. Essa é a mensagem do meu livro Cypherpunks. Mas o movimento para disponibilizar universalmente uma criptografia forte tem de trabalhar para obter mais do que isso. Nosso futuro não está apenas na liberdade para os indivíduos.

Nosso trabalho em WikiLeaks implica compreensão semelhante da dinâmica da ordem internacional e da lógica do império. Durante o período de formação de WikiLeaks, encontramos evidências de pequenos países abusados e dominados por países maiores, ou infiltrados por empresas de fora, forçados agir contra eles próprios. Vimos o desejo popular ao qual não se dava voz e expressão, eleições compradas e vendidas, e países ricos, como o Quênia, assaltados e leiloados por plutocratas em Londres e em New York.

A luta pela autodeterminação latino-americana é importante para muito mais gente do que os que vivem na América Latina, porque mostra ao resto do mundo o que pode ser feito. Mas a independência da América Latina ainda engatinha. Tentativas para subverter a democracia latino-americana ainda acontecem, inclusive recentemente, em Honduras, Paraguai, Haiti, Equador e Venezuela.

Por isso a mensagem dos cypherpunks tem importância especial para os públicos latino-americanos. A vigilância em massa não é só problema para a governança e a democracia – é uma questão geopolítica. Se a população de um país inteiro é vigiada por país estrangeiro, há ameaça contra a soberania. Intervenção após intervenção nos assuntos da democracia na América Latina ensinaram-nos a ser realistas. Sabemos que os velhos poderes ainda explorarão, para benefício deles, qualquer possibilidade de retardar ou suprimir a eclosão da independência latino-americana.

Considere-se a simples geografia. Todos sabem que os recursos em petróleo regem a geopolítica global. O fluxo do petróleo determina quem é dominante, quem é invadido, quem é posto em ostracismo fora da comunidade global. O controle físico sobre um segmento de oleoduto define maior poder geopolítico. Governos que se ponham nessa posição podem obter concessões gigantescas. Num golpe, o Kremlin pode condenar a Europa Oriental e a Alemanha a um inverso sem calefação. E até a possibilidade de Teerã controlar um oleoduto para o leste, até Índia e China, é pretexto para a lógica belicosa de Washington.

Mas o novo grande jogo não é a guerra por oleodutos. É a guerra pelos dutos pelos quais viaja a informação: o controle sobre as vias de cabos de fibras óticas que se espalham pela terra e pelo fundo dos mares. O novo tesouro global é o controle do fluxo gigante de dados que conecta todos os continentes e civilizações, conectando as comunicações de bilhões de pessoas e empresas.

Não é segredo que, na Internet e no telefone, todas as rotas que entram e saem da América Latina passam pelos EUA. A infraestrutura da Internet dirige 99%  do tráfego que entra e que sai da América do Sul por linhas de fibras óticas que atravessam fisicamente fronteiras dos EUA. O governo dos EUA não mostrou qualquer escrúpulo quanto a quebrar sua própria lei e plantar escutas clandestinas nessas linhas e espionar os seus próprios cidadãos. Todos os dias, centenas de milhões de mensagens de todo o continente latino-americano são devoradas por agências de espionagem dos EUA, e armazenadas para sempre em armazéns do tamanho de pequenas cidades. Os fatos geográficos sobre a infraestrutura da Internet, portanto, têm consequências sobre a independência e a soberania da América Latina.

O problema também transcende a geografia. Muitos governos e militares latino-americanos protegem seus segredos com maquinário de criptografia. São caixas e programas que “desmontam” as mensagens na origem e as “remontam” no destino. Os governos compram essas máquinas e programas para proteger seus segredos – quase sempre o próprio povo paga (caro) – porque temem, corretamente, que suas comunicações sejam interceptadas.

Exemplo de e-mail criptografado
Mas as empresas que vendem esses equipamentos e programas caros mantêm laços estreitos com a comunidade de inteligência dos EUA. Seus presidentes e altos executivos são quase sempre matemáticos e engenheiros da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) capitalizando as invenções que eles mesmos criaram para o Estado de Vigilância. Não raras vezes, as máquinas que vendem são quebradas: quebradas propositalmente, por uma razão. Não importa quem as use ou como as usem – as agências dos EUA conseguem “remontar” os sinais e leem as mensagens.

Esse equipamento é vendido para a América Latina e outros países como útil para proteger os segredos do comprador, mas são, de fato, máquinas para roubar aqueles segredos.

Enquanto isso, os EUA aceleram a próxima grande corrida armamentista. A descoberta do vírus Stuxnet vírus – e depois dos vírus Duqu e Flame – marca o início de uma nova era de programas complexos usados como arma, que estados poderosos fabricam para atacar estados mais fracos. A primeira ação agressiva contra o Irã visou a minar os esforços daquele país com vistas a defender sua soberania – ideia que é anátema para os interesses de EUA e de Israel na região.

Longe vai o tempo em que usar vírus de computador como arma de ataque era peripécia de romance de ficção científica. Agora, é realidade global, que se espalha graças ao comportamento leviano do governo de Barack Obama, em violação da lei internacional. Outros estados agora por-se-ão na mesma trilha, aumentando a própria capacidade de ataque.

A China fornece equipamentos de telecomunicações para Uganda
Os EUA não são os únicos culpados. Em anos recentes, a infraestrutura de Internet de países como Uganda tem recebido grandes investimentos chineses. Gordos empréstimos chegam, em troca de contratos africanos para que empresas chinesas construam a espinha dorsal da infraestrutura de Internet ligando escolas, ministérios do governo e comunidades ao sistema global de fibra ótica.

A África vai-se conectando online, mas com máquinas vendidas por potência estrangeira aspirante ao status de superpotência. A Internet africana será o meio pelo qual o continente continuará subjugado no século 21?

Essas são algumas das importantes vias pelas quais a mensagem dos cypherpunks vai além da luta pela liberdade individual. A criptografia pode proteger não só as liberdades civis e os direitos individuais, mas a soberania e a independência de países inteiros, a solidariedade entre grupos que lutem por causa comum, e o projeto da emancipação global. Pode ser usada para enfrentar não só a tirania do estado contra o indivíduo, mas a tirania do império contra estados menores.

O grande trabalho dos cypherpunks ainda está por fazer. Junte-se a nós.



Notas dos tradutores

[1]  Sobre cypherpunks, ver também:


[2] Orig. “libertarian”. Nos EUA, são liberais conservadores, que combatem, sobretudo o Estado, sem qualquer associação ou conotação com comunistas anarquistas. O movimento Tea Party, por exemplo, é dito libertarian. Dadas as conotações comunistas anarquistas do adjetivo (port.) “libertário”, que aqui absolutamente NÃO CABEM, optamos pela neologia “libertarista”. É solução tentativa, há outras possibilidades, e todos os comentários e correções são bem-vindos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O “Filho de África” reclama as jóias da coroa de todo um continente


John Pilger

por John Pilger

A 14 de Outubro, o presidente Barack Obama anunciou o envio de forças especiais americanas para a guerra civil do Uganda. Nos próximos meses, tropas de combate americanas serão enviadas para o Sudão do Sul, Congo e República Centro-Africana. Obama assegurava também, satiricamente, que estas apenas “atuarão em "autodefesa”. Com a Líbia securizada, está então em marcha uma invasão americana do continente africano.

A decisão de Obama é descrita pela imprensa como “bastante invulgar”, “surpreendente” e até como “esquisita. “

Nada está mais longe da verdade. É a lógica própria à política externa americana desde 1945. Recordemos o caso do Vietnã. A prioridade era então fazer frente à influência da China, um rival imperial, e “proteger” a Indonésia, considerada pelo presidente Nixon a “maior reserva de recursos naturais da região” e como “o maior prémio”.

 O Vietnã estava simplesmente no caminho dos EUA; a chacina de mais de 3 milhões de vietnamitas e a destruição e envenenamento daquela terra era o preço a pagar para alcançar este objetivo.

Como em todas as invasões americanas posteriores, um rastro de sangue desde a América Latina até ao Afeganistão e ao Iraque, a argumentação era sempre a da “autodefesa” e do “humanitarismo”, palavras há muito esvaziadas do seu significado original.
Sudão do Sul, país recém criado.

Em África, diz-nos Obama, a “missão humanitária” é ajudar o governo do Uganda a derrotar o Exército de Resistência do Senhor (LRA), que “assassinou, violou e raptou dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças na África Central”. Esta é uma descrição exata do LRA, que evoca múltiplas atrocidades administradas pelos próprios Estados Unidos, como é disso exemplo o banho de sangue que se seguiu, nos anos 60, ao assassinato perpetrado pela CIA do líder congolês Patrice Lumumba, democraticamente eleito, ou ainda a operação da CIA que instalou no poder aquele que é considerado o mais venal tirano africano, Mobutu Sese Seko.

Outra justificação de Obama também parece ridícula. Esta é a “segurança nacional dos Estados Unidos”. O LRA esteve fazendo o seu trabalho sujo durante 24 anos, com interesse mínimo dos Estados Unidos. Hoje ele tem pouco mais de 400 combatentes e nunca esteve tão fraco. Contudo, “segurança nacional” estadunidense habitualmente significa comprar um regime corrupto e criminoso que tem algo que Washington deseja.

O “presidente vitalício” de Uganda, Yoweri Museveni, já recebe a parte maior dos US$45 milhões de “ajuda” militar dos EUA – incluindo os drones favoritos de Obama. Este é o seu suborno para combater uma guerra por procuração contra o mais recente e fantasmático inimigo islâmico da América, o andrajoso grupo al Shabaab na Somália.

O LRA desempenhará um papel de relações públicas, distraindo jornalistas ocidentais com as suas perenes histórias de horror.

No entanto, a principal razão para a invasão americana do continente africano não é diferente daquela que levou à guerra do Vietnã. É a China.

Num mundo de paranóia servil e institucionalizada, que justifica aquilo que o general Petraeus, o antigo comandante norte-americano e hoje diretor da CIA, chama um estado de guerra perpétua, a China substituindo a Al-Qaeda como a “ameaça” oficial americana. Quando entrevistei Bryan Whitman, secretário de estado adjunto da Defesa, no Pentágono, no ano passado, pedi-lhe para descrever os perigos atuais para os EUA no mundo. Debatendo-se visivelmente repetia: “Ameaças assimétricas… ameaças assimétricas”. Estas “ameaças assimétricas” justificam o patrocínio estatal à lavagem de dinheiro por parte da indústria militar, bem como o maior orçamento militar e de guerra da História. Com Osama Bin Laden fora de jogo, é a vez da China.

A África faz parte da história do êxito chinês.

Recursos da África em hidrocarbonetos. 
Onde os americanos levam drones e desestabilização, os chineses levam ruas, pontes e barragens. O principal interesse são os recursos naturais, sobretudo os fósseis.

A Líbia, a maior reserva africana de petróleo, representava durante o governo Kadafi uma das mais importantes fontes petrolíferas da China. Quando a guerra civil começou e a OTAN apoiou os “rebeldes” fabricando uma história sobre supostos planos da Kadafi para um “genocídio” em Bengazi, a China evacuou 30 mil trabalhadores da Líbia.

A resolução do Conselho de Segurança da ONU que permitiu a “intervenção humanitária” por parte dos países ocidentais, foi sucintamente explicada numa proposta dos “rebeldes” do Conselho Nacional de Transição ao governo francês, divulgada no mês passado pelo jornal Libération, na qual 35% da produção de petróleo Líbia eram oferecidos ao estado francês “em troca” (termo utilizado no texto em questão) do seu apoio “total e permanente” ao CNT. O embaixador americano na Tripoli “libertada” Gene Cretz, confessou: “Sabemos bem que o petróleo é a jóia da coroa dos recursos naturais líbios”.

A conquista de facto da Líbia por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados imperiais é o símbolo da versão moderna da “corrida à África” do século XIX.

Tal como na “vitória” no Iraque, os jornalistas desempenharam um papel fundamental na divisão dos líbios entre vítimas válidas e inválidas. Uma primeira página recente do Guardian mostrava um líbio “pró-Kadafi” aterrorizado e os seus captores de olhos brilhantes que, como intitulado, “festejavam”. De acordo com o general Petraeus, existe hoje uma guerra da “percepção... conduzida continuamente pelos meios de informação”.

Durante mais uma década, os Estados Unidos procuraram estabelecer um comando militar no continente africano, o AFRICOM, mas este foi rejeitado pelos governos da região, receosos das tensões que daí poderiam advir.

A Líbia, e agora o Uganda, o Sudão do Sul e o Congo, representam a oportunidade dos Estados Unidos. Como revelou a Wikileaks e o departamento americano de estratégia contraterrorista (National Strategy for Counterterrorism – White House), os planos americanos para o continente africano são parte de um projeto global, no quadro do qual 60 mil elementos das forças especiais, incluindo esquadrões da morte, operam já em mais de 75 países, número que aumentará em breve para 120. Como já dizia Dick Cheney no seu plano de “estratégia de defesa”:

Os Estados Unidos desejam simplesmente dominar o mundo.

Que esta seja a dádiva de Barack Obama, o “filho de África”, ao seu continente é incrivelmente irônico. Não é?

Como explicava Frantz Fanon no seu livro “Pele negra, máscaras brancas”, o que importa não é a cor da tua pele, mas os interesses que serves e os milhões de pessoas que acabas por trair.
20/Outubro/2011

O artigo original, em inglês, encontra-se em: “The Son of África claims a continent’s crown jewels”.
Tradução de MQ.
Esta tradução foi extraída de: “Resistir.info”.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Guerra sem fim! É a estratégia da política externa dos EUA...

Sobre o mesmo tema, ver “Obama, rei da África”, Pepe Escobar, Asia Times Online, em português.

Carta de Barack Obama ao Congresso informando sobre o envio de soldados dos EUA para UGANDA.

Do: Presidente Barack Obama, Casa Branca, Washington, DC, EUA
Para: Presidente da Câmara de Deputados dos EUA
Para: Presidente interino do Senado dos EUA
Data: 14/10/2011

Assunto: O Exército da Resistência de Deus [Uganda]

Caro Sr. Presidente:

Há mais de duas décadas, o Exército da Resistência de Deus [ing. Lord's Resistance Army (LRA)] assassinou, estuprou e sequestrou dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças na África Central. O LRA continua a cometer atrocidades na República Sul-Africana, República Democrática do Congo e Sudão do Sul, que implicam impacto desproporcional na segurança regional. Desde 2008, os EUA têm apoiado esforços militares regionais para enfrentar o Exército da Resistência de Deus e proteger comunidades locais. Mas, apesar da limitada assistência militar dos EUA, os esforços militares regionais têm sido infrutíferos e não conseguiram remover do campo de batalha o líder do Exército da Resistência de Deus, Joseph Kony ou seus principais comandantes. 

Na “Lei da Recuperação do Norte de Uganda e Desarmamento do Exército da Resistência de Deus”, de 2009, lei n. 111.172, aprovada em 24/5/2010, o Congresso dos EUA também manifestou apoio à ampliação de esforços, pelos EUA, para mitigar e eliminar a ameaça representada pelo Exército da Resistência de Deus, contra a estabilidade civil e regional.

Para reforçar aquela política, que o Congresso dos EUA já aprovou, autorizei o envio de um pequeno número de soldados de combate equipados dos EUA à África Central, para dar assistência e aconselhamento às forças regionais que trabalham para a remoção de Joseph Kony do campo de combates. Creio que o envio desses soldados das Forças Armadas dos EUA reforça interesses da segurança nacional e da política exterior dos EUA e será contribuição significativa para a contenção dos esforços do Exército da Resistência de Deus na África Central.

Dia 12 de outubro, a equipe inicial do pessoal militar dos EUA, com adequado equipamento de combate partiu para Uganda. Ao  longo do próximo mês, forças adicionais serão enviadas, inclusive uma segunda equipe com equipamento de combate e pessoal para instalar os comandos, as comunicações e a logística necessária. O número total de pessoal militar dos EUA agora enviado nessa missão é 100 militares, aproximadamente. Essas forças atuarão no aconselhamento e assessoramento de forças parceiras que têm o objetivo de remover Joseph Kony e outras altas lideranças do Exército da Resistência de Deus. Sob aprovação das autoridades de cada respectiva nação, elementos desses forças dos EUA serão distribuídos em Uganda, Sudão do Sul, República Sul-Africana e República Democrática do Congo. 

O apoio agora oferecido, de forças militares dos EUA, ampliará os esforços regionais contra o Exército da Resistência de Deus. Mas, apesar de viajarem com equipamento de combate, essas forças militares dos EUA nada farão além de oferecer informação, aconselhamento e assistência às nações parceiras e não se engajarão em combate direto contra o Exército da Resistência de Deus, senão em ações de autodefesa. Tomaram-se todas as necessárias precauções para garantir a segurança do pessoal militar dos EUA durante esse deslocamento e instalação final.

Ordenei esse deslocamento, que é do interesse da segurança nacional e da política externa dos EUA, no exercício de minha autoridade constitucional para conduzir as relações internacionais dos EUA e como Comandante-em-chefe e Chefe do Executivo. 

Essa comunicação é parte dos meus esforços para manter o Congresso dos EUA plenamente informado, nos termos do que determina a Resolução dos Poderes de Guerra (lei n. 93 148). Agradeço o apoio do Congresso nessa ação.

Sincerely,
Barack Obama

Pepe Escobar: “Obama, rei da África”

Pepe Escobar

17/10/2011, Pepe Escobar, ATol
Traduzidopelo Coletivo da Vila Vudu


Se o presidente dos EUA Barack Obama quisesse realmente livrar-se do novo bicho papão da hora, Joseph Kony, de Uganda – ex-coroinha, transformado em profeta/político cristão místico, com, conhecidas, 60 esposas – teria ordenado que o Procurador Geral dos EUA, Eric “Velozes e Furiosos” Holder, armasse um complô, subcontratando, como matador alugado, um iraniano doido ligado a um cartel mexicano. 

O Plano B seria mandar a ONU dizer à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que impusesse uma zona aérea de exclusão sobre as cabeças dos “rebeldes” que seguem Kony do Exército da Resistência de Deus [ing. Lord's Resistance Army (Exército da Resistência de Deus)] e, depois, bastaria a OTAN bombardear quem se opusesse a Kony, até reduzir tudo e todos a ruínas. 

O Plano C seria detonar o Exército da Resistência de Deus, com uma frota de MQ-9 Reapers, aviões-robôs comandados à distância (drones), embora a base de drones mais próxima esteja muito distante de Uganda (no Djibouti, no Chifre da África). 

Mas não havia mexicanos disponíveis e, nesse caso, os “rebeldes” são “os bandidos”. Então, Obama preferiu a via imperialista clássica: deu uma de Af-Pak e ordenou, para o caso de Uganda, uma avançada (com coturnos em terra); enviou 100 soldados das Forças Especiais para socorrer um ditador corrupto – o presidente Yoweri Museveni, de Uganda – e ajudá-lo a esmagar lá mesmo um punhado de “rebeldes” (mas “bandidos”) locais. 

Não erra quem veja a Uganda como uma Líbia de cabeça para baixo: é exatamente isso. O ditador de Uganda é “do bem” (um dos “nossos filhos da puta”). Portanto, ali, os “rebeldes” é que fizeram pacto com o diabo. Será só isso? 

Sinto um ímpeto de avançar 

A realidade em Uganda é confusão absoluta, mortal. Tanto quanto os “rebeldes” do Exército da Resistência de Deus, o governo de Museveni (ajudado por Washington) também perpetrou os mais horrendos massacres de civis. Kony talvez seja, mesmo, quase um aprendiz amador, comparado ao presidente Museveni. 

Museveni é o ditador vitalício que supervisionou o deslocamento e assassinato em massa de, pelo menos, 20 mil ugandenses, como desejavam algumas grandes empresas inglesas. Além disso, Museveni fraudou as eleições em Uganda, no início do ano passado. 

A “avançada” de Obama em Uganda tem de ser vista como crucial troca de favores com o ditador Museveni – que enviou milhares de soldados ugandenses para comporem a força da União Africana que combate, na Somália, os islamistas linha duríssima do grupo al-Shabaab. Assim, ao mesmo tempo em que Uganda faz guerra em que substitui os EUA na Somália, Washington ajuda o ditador a livrar-se dos “rebeldes” do Exército da Resistência de Deus. Não surpreende que o Pentágono mostre-se tão simpático com Uganda. Recentemente, Museveni recebeu 45 milhões de dólares em armas – incluídos quatro pequenos aviões-robôs comandados à distância, quatro drones-zinhos. 

O Exército da Resistência de Deus – um bando de furiosos cristãos fundamentalistas linha duríssima – tem base no norte de Uganda, mas estão espalhados por quatro países, inclusive no Sudão do Sul e no Congo, na Ásia Central. Não têm armamento pesado. Portanto, não têm nenhuma chance de desestabilizar o governo de Uganda – e tampouco, muito menos, são ameaça à “segurança nacional” dos EUA. O bicho papão Kony está, provavelmente, escondido em algum ponto da imensa fronteira Sudão-Congo, com força que não ultrapassa 400 combatentes que lhe restaram. 

A chave para entender toda a questão é que Uganda é vizinha próxima do novo país, recém criado, o Sudão do Sul. Até aqui, para o Sudão do Norte, o Exército da Resistência de Deus tem funcionado como útil barreira armada contra Museveni, fantoche do Ocidente. Mas, sobretudo, toda essa região é palco de disputa feroz entre a China e os EUA-Europa, centrada em petróleo e minérios – no coração da Guerra do Século 21 pelas Matérias Primas Africanas. 

Pelo controle do reino mineral 

Pode-se assim ver Uganda como uma nova terra de oportunidades. Ah! E são imensíssimas as possibilidades da guerra humanitária! Para ter alguma aparência de sucesso, os primeiros passos da ‘avançada’ africana de Obama terão de incluir uma base militar com grande pista de pouso e uma mini-Guantanamo para prender os “terroristas”. Se parecer bom demais para ser verdade, é porque é verdade: comecem a considerar a possibilidade de o quartel-general do Africom (Comando Africano) do Pentágono meter-se num túnel do tempo e mudar-se, de Stuttgart, Alemanha, diretamente para algum ponto do território de Uganda. 

Qualquer aluno de primeiro grau de realpolitik sabe que os EUA não se metem em “intervenções humanitárias” por humanitarismo. O verdadeiro nome do jogo parece ser, mesmo, a primeira “avançada” no Africon à caça de minerais preciosos: extração e mineração. Em Uganda – e ali perto, no leste do Congo – há quantidades fabulosas de, dentre outras riquezas, diamantes, ouro, platina, cobre, cobalto, estanho, fosfatos, magnetita, urânio, ferro, gipsita, berilo, bismuto, cobre, lítio, nióbio e níquel. Vários desses são ultrapreciosas terras raras – das quais a China tem hoje o monopólio virtual. 

A corrida pelos minérios africanos já é uma das grandes guerras por matérias primas do século 21. A China está à frente, seguidas de empresas indianas, australianas, sul-africanas e russas (a Rússia, por exemplo, já instalou uma fundição de ouro em Kampala). O ocidente está léguas atrás. O nome do jogo, para EUA e europeus, é não economizar golpes para minar as miríades de negócios comerciais que a China já construiu por toda a África. 

E, como sempre, há também o inescapável ângulo do Oleodutostão. Pode haver em Uganda “vários bilhões de barris de petróleo”, segundo Paul Atherton, da Heritage Oil, parte de uma jazida recém descoberta na África subsaariana, a maior jamais encontrada em terra. Implica que é preciso construir um oleoduto de 1.200 km e 1,5 bilhão de dólares até Kampala e a costa do Quênia. E há também outro oleoduto, que parte do Sudão do Sul recém “libertado”. Washington quer garantir que só os EUA e a Europa tenham acesso a todo esse petróleo. 

Obama, rei da África

O governo Obama insiste que os 100 soldados das Forças Especiais são “conselheiros” – não soldados de combate. Lembrem o Vietnã, no início dos anos 1960s; também começou com “conselheiros” – e o resto é história. Agora, os “conselheiros” devem espalhar-se de Uganda para o Sudão do Sul, a República Centro-Africana e a República Democrática do Congo. 

Não é, sequer, a primeira vez que acontece. George W Bush tentou fazer a mesma coisa em 2008. Acabou em lastimável e completo desastre por causa – e o que mais seria? – da corrupção dentro do exército de Uganda. Kony foi avisado e escapou antes de o seu acampamento ser atacado. 

Assim sendo, temos, na superfície, uma elevada narrativa do primeiro presidente negro dos EUA profundamente perturbado pela “crise humanitária” em mais um país africano, Uganda. É cobertura perfeita, matéria de capa, para Uganda, satrapia britânica, ser convertida em base avançada para que Washington se aproxime e crave a faca no coração da África islâmica. 

A imprensa oficial em Washington só faz repetir que o Exército da Resistência de Deus “assassinou, estuprou e sequestrou dezenas de milhares de homens mulheres e crianças” [1]. Compare-se com a devastação perpetrada por Washington, em duas décadas, no Iraque: pelo menos 1,4 milhões de mortos, diretos e indiretos, milhões de refugiados, uma guerra civil entre sunitas e xiitas ainda em andamento e o flanco ocidental da nação árabe virtualmente destruído. 

E compare-se também com o tonitruante silêncio da Casa Branca de Obama, enquanto os “rebeldes” racistas do leste da Líbia fazem o diabo, perseguem, torturam e assassinam africanos subsaarianos. 

A África combate contra, desde sempre, várias modalidades do grande senhor branco genocida sempre ajudado por várias modalidades de ditadores/cleptocratas negros. E agora, no início do século 21, aparece-lhe pela frente um presidente dos EUA, descendente direto de africanos, que nada tem de melhor, a oferecer, que soldados das Forças Especiais, drones, uma “avançada” militarizada armada até os dentes e intervenção “humanitária” embalada em pura mentira e hipocrisia “midiáticas”.



Nota dos tradutores