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terça-feira, 5 de novembro de 2013

O futuro do Afeganistão (3/3)

12/10/2013, [*] Nikolai BOBKIN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Leia antes:


Mapa político do Afeganistão e suas fronteiras
(clique no mapa para visualizar)
Washington não exclui que a repetição do cenário da Síria, causado pela retirada da OTAN do Afeganistão, pode resultar em vantagem estratégica a favor de seus interesses. O caos controlado é método conhecido e testado. Uma possível guerra no Afeganistão permitirá aos norte-americanos controlar os uigures da Região Autônoma de Xinjiang; manter a instabilidade nas vizinhanças das fronteiras do Irã; e exacerbar as relações entre Índia e Paquistão. E os EUA terão base a partir da qual pressionar contra a Ásia Central. A partir de 2014, o Afeganistão deve converter-se em grave problema de segurança para a Rússia...

Com seus aliados – membros da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)] – a Rússia planeja, em ritmo de urgência, medidas de segurança que, de fato, já deveria ter tomado há muito tempo. No final de setembro, houve uma reunião da CSTO em Sochi, prévia à grande conferência, na qual a Rússia foi eleita para a presidência da organização, também antes do previsto. Presidentes da Rússia, Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão conversaram sobre passos práticos pelos quais enfrentar os aspectos principais do problema de segurança. Si vis pacem, para bellum (Se quer paz, prepare-se para a guerra).

Dia 1/10/2013, a Câmara Baixa do Tadjiquistão ratificou um acordo sobre o status da 201ª base militar russa. Assinado em 5/10/2012, em alto nível, o acordo da base militar russa tem vigência até 2042. Com as forças tadjiques, a base garantirá a segurança do Tajiquistão. A Rússia já começou a transferência ao país, de um pacote de $200 milhões de ajuda militar. Equipamentos para a força aérea e outros materiais de guerra serão transferidos gratuitamente para as forças armadas tadjiques.

Vladimir Putin e Emomalii Rahmon inauguram a 201ª base russa  no Tadjiquistão
Segundo os especialistas, há passos a serem empreendidos com urgência; por exemplo, o deslocamento de guardas russos de fronteira para cobrir os quase 1.500km de fronteira entre Afeganistão e Tadjiquistão, hoje protegidos por apenas 16 mil guardas tadjiques. De modo algum as autoridades tadjiques conseguirão enfrentar sozinhas o problema dos refugiados e das gangues armadas. Há oito anos, os guardas russos de fronteira deixaram a área, onde permaneceram apenas algumas poucas dúzias de fortes grupos operacionais. Desde então, a situação só piorou. Novos pontos de confronto surgiram ao longo da fronteira tadjique, os extremistas ganharam influência, o número de campos de treinamento para militantes vindos dos países membros da CSTO só fez aumentar.

Falando na reunião de Sochi da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, o presidente do Tadjiquistão, Emomalii Rahmon, pediu esforços combinados para reforçar a fronteira afegã. Muitos políticos e militares russos apóiam a ideia de enviar soldados russos de fronteira, de volta para o Tadjiquistão. Mas Nikolay Bordyuzha, secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, opôs-se à ideia. Para ele, o Tadjiquistão precisa de ajuda para treinar e dar melhor qualificação técnica às próprias forças de fronteira, incluindo combate em área de alta montanha e entrega de novos equipamentos.

O acordo da parceria EUA-Afeganistão hoje vigente deve deixar nove prédios-instalações militares no Afeganistão, mantendo a capacidade de resposta de emergência, e de socorrer as forças do governo afegão, no caso de a situação agravar-se repentinamente. As demais forças militares devem permanecer em Kabul, Mazari Sharif, Jalalabad, Gardez, na base aérea Bagram e nas províncias de Kandahar, Helmand e Herat.

Bagram é a maior base aérea dos EUA no Afeganistão e poderá permanecer.
Nessa lista falta a cidade de Kunduz, no norte, capital da província de Kunduz, junto à fronteira tadjique, apesar de ser essa a primeira área de maior população cuja segurança já foi transferida para as forças afegãs.

Da cerimônia de transferência, realizada há pouco tempo, participaram o ministro da Defesa alemão e outras autoridades. Kunduz tem lugar importante na história das forças armadas alemãs. Durante 10 anos, cerca de 20 mil soldados da Bundeswehr lutaram ali. Em nenhum outro momento ou lugar do mundo, desde os dias da 2ª Guerra Mundial, morreram mais militares alemães que ali, em Kunduz.

Os parlamentos russos e do Quirguistão ratificaram o acordo de status na base aérea russa em Kant. Os militares russos ali ficarão por, no mínimo, mais 20 anos. A Rússia reformará as instalações, para convertê-las em efetivo posto avançado da Organização do Tratado de Segurança Coletiva na Ásia Central, uma presença com a qual contar. Hoje, a base hospeda bombardeiros de combate SU-24; aviões de ataque SU-25; combatentes de elite SU-27 SM e um grupo de helicópteros. Forças de terra e ar do Quirguistão e do Tadjiquistão iniciaram exercícios militares conjuntos no dia seguinte ao encerramento da reunião dia 24/9. (...)

Base aérea russa de Kant no Quirguistão
Claro, Astana, capital do Cazaquistão, está longe do Afeganistão; mas mesmo assim há preocupação sobre a possibilidade de a desestabilização afetar a Ásia Central. O Cazaquistão apóia a assistência ao Tadjiquistão e ao Quirguistão, porque atende também seus próprios interesses de segurança nacional. Vale também como defesa coletiva do espaço aéreo da Ásia Central, fortalecimento das capacidades das Forças Coletivas, também para o combate contra o tráfico de drogas.

Não tem havido confrontos sangrentos no território da República do Cazaquistão, enquanto o Uzbequistão, que se separou da Organização do Tratado de Segurança Coletiva há algum tempo, tornou-se alvo preferencial dos terroristas. O país mantém um acordo de parceria estratégica com Astana. Mas o Cazaquistão é membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, e o Uzbequistão empenha-se em melhorar o relacionamento com os EUA.

Islam Karimov
Até a algum tempo, o relacionamento EUA-Uzbequistão parecia estar piorando. A Casa Branca condenou o governo pela repressão contra os protestos em Andijan em 2005. O rompimento parecia inevitável. Agora, Washington restaurou as relações com Islam Karimov, considerando a opção de deixar algumas unidades militares em solo uzbeque, depois de retiradas do Afeganistão. Muita conversa sobre valores democráticos, direitos humanos e a perseguição a opositores do governo no Uzbequistão nada vale, de fato, se comparada ao desejo de Washington, de preservar sua presença militar na Ásia Central.

Os EUA dependem do Uzbequistão para manter uma plataforma a partir da qual manter sua influência no Afeganistão e influir o processo da integração de Rússia e Ásia Central. Em todos os casos, Tashkent será recompensada por garantias dos EUA e suprimentos de armas ocidentais, como paga por manter-se afastada da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. O Uzbequistão está sob embargo de armas dos EUA e da Europa Ocidental, mas nem isso paralisou o governo uzbeque.

O governo uzbeque apresentou à OTAN um pedido para que o equipamento e as armas usadas no Afeganistão sejam deixados no país. Tashkent tem esperanças de que os EUA apoiarão o pedido de dar aos uzbeques posição privilegiada na parte norte do Afeganistão, onde a população é constituída, na maioria, de uzbeques étnicos.

O Uzbequistão tem experiência na posição de “aliado chave” dos EUA na Ásia Central; é difícil prever quanto tempo durará a amizade dessa vez, tanto quanto é difícil prever se os EUA realmente partirão do Afeganistão sem deixar lá qualquer “presença”.

As insinuações sobre a OTAN retirar-se antes do início da “temporada de combates” na primavera de 2014 são como um balão de ensaio para testar reações, inclusive a resposta da Rússia.

A Federação Russa prefere não esperar pela retirada da ISAF liderada pelos EUA; esperam-se para os próximos meses os primeiros raids-testes partidos do território afegão.

O Quênia, por exemplo, onde militantes perpetraram um sangrento massacre, não é incidente isolado, é uma tendência. A intervenção militar dos EUA sob o pretexto de “combater o terrorismo internacional” não levou a paz alguma. O Afeganistão é, hoje, um dos estados mais vulneráveis do mundo. Mais uma vez, e sempre e sempre, colhemos os frutos da dominação militar pelos EUA.

Nessas circunstâncias, a Rússia tem de assumir uma missão global e usar uma abordagem pelo sul, para conter o cenário que os EUA patrocinam. Cabe aos russos estimular uma “transição no Oriente Médio, do eixo da instabilidade para o eixo da liberdade”.
__________________________


[*] Nikolay Bobkin; PhD em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pepe Escobar: “Bem-vindos ao Novo Grande Jogo”


25/7/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O Norte da África e a Ásia Central parecem partilhar os mesmos tormentos: ditaduras, corrupção desenfreada, miséria, alto desemprego entre os jovens, total controle sobre a mídia e limitado espaço de ação para qualquer tipo de oposição.

Não surpreende que as primeiras escaramuças da Primavera Árabe no Norte da África – lutas populares por democracia – tenham deixado apavorados a maioria dos governos ao longo da Rota da Seda. Mais que democracia, o que viram ali foi o espectro da islamização. Daí o bloqueio de Facebook e Twitter, a instalação de filtros de internet made-in-China – combinados à ausência de qualquer rede de notícias semelhante à Al Jazeera para disseminar a Palavra.

O Ocidente não está exatamente interessado em incentivar uma Primavera Árabe ao longo da Rota da Seda
Os homens-fortes centro-asiáticos têm razão de andarem temerosos, olhando atrás a cada passo – de fato, aterrorizados – com o que está acontecendo no Egito e na Síria. Islam Karimov no Uzbequistão, e Nursultan Nazarbayev no Cazaquistão estão no poder, cada um, há 21 anos. Emomalii Rakhmon permanece na presidência do Tadjiquistão desde a sangrenta guerra civil dos anos 1990s.

Islam Karimov
Sim, houve transição política no Turcomenistão em 2007, quando morreu o esfuziante Saparmurad Niyazov. Mas a serpente continuou a serpentear como sempre serpenteara também no governo do novo líder, Gurbanguly Berdymukhamedov.

O caso mais complexo é o Quirguistão, que passou pela sinistra Revolução da Tulipa em 2005 e pela Revolução anti-Tulipa em 2010. Hoje, o Quirguistão é república parlamentar pluripartidária, mas continua naufragado em miséria, com sérios antagonismos entre norte e sul e o Vale Ferghana, campo minado de disputas étnicas.

Noutros pontos, prevalecem reformas cosméticas. O Parlamento é hoje um pouco menos caricato no governo de Karimov – do que seria, em tese, sob Nazarbayev.

Nursultan
Nazarbayev
Mas esqueçam eleições livres e justas, mídia independente ou verdadeiro debate multipartidário. O Uzbequistão poderia facilmente se converter numa Síria Centro-Asiática, com guerra civil entre o sistema Karimov, o exército, os radicais, o Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU) alinhado com os Talibã e a oposição secular. Quanto à porosa fronteira tadjique-afegã, continua a ser atração extremamente atraente para o Islã radical.

Entreguem-me na minha base a tempo [1]

A Ásia Central é crucial, porque está no coração da Eurásia – e, pois, no coração do Novo Grande Jogo, no qual se confrontam essencialmente EUA versus Rússia e China, com vasto sortimento de players menores, como Irã, Turquia e Paquistão.

No que tenha a ver com o jogo hardcore de poder chamado Novo Grande Jogo, ninguém ali sequer cogita, remotamente que fosse, de democracia. Washington parece dar a impressão de que a Ásia Central é área de influência russa – e chinesa. Nada disso. Não há projeto que seduza mais o establishment de inteligência norte-americana que as bases militares dos EUA, por toda a Ásia Central.

Emomalii Rakhmon
No final de junho, as autoridades do Uzbequistão deixaram a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organisation (CSTO)]. Esse CSTO é um fórum que existe há dez anos, de questões político-militares, que reunia Rússia, Belarus, Armênia e, até a defecção do Uzbequistão, os cinco ‘-stãos’ da Ásia Central.

Tashkent disse [2] que se separava da CSTO por causa de “diferenças” relacionadas ao Afeganistão. A verdadeira razão, segundo Vadim Kozioulin, especialista em Ásia Central: uma complexa negociação com Washington para, talvez, “devolver” aos EUA a base militar de Khanabad, que passou a ser usada pela Rússia desde que Karimov expulsou de lá os EUA, em 2005.

Os uzbeques podem por a mão em uma montanha de bugigangas, se o negócio sair: armas, toneladas de equipamento não militar que, se não tiver esse destino, será deixado apodrecer no Afeganistão e, o principal prêmio, o status de “aliado estratégico dos EUA”. [3]

Gurbanguly
Berdymukhamedov
O objetivo central de Washington em tudo isso é – e o que mais seria?! – acrescentar mais um elo no progressivo cerco ao Irã. É há também o objetivo de Tashkent – torpedear o projeto que é hoje menina-dos-olhos do presidente Vladimir Putin da Rússia: uma União Eurasiana. [4]

O Tadjiquistão, por sua vez, acirra a disputa entre Moscou e Washington em torno do aeroporto militar de Aini, a apenas 15 quilômetros da capital Dushanbe. Tadjiquistão hospeda a 21ª Divisão Russa, com mais de 6 mil homens, na maior base russa fora da Rússia, de todo o mundo.

Washington já está no Quirguistão via a pequena base de Manas, próxima da capital Bishkek – crucial para a guerra do Afeganistão. Mas Bishkek quer muitos rublos pelo aluguel, a Moscou, de três outras bases.

O resumo de tudo é que essas elites centro-asiáticas imensamente corruptas já salivam, antecipando o momento em que a OTAN deixará o Afeganistão, em 2014. Mas os EUA, seja como for, permanecerão lá, com aqueles 20 mil e tantos “conselheiros”. E a todos esses regimes, Washington mantém a oferta proverbial que eles não podem recusar: apoio político.

Uma coisa é certa: Putin fará o diabo; quem tentar deter Moscou pagará caro.

Agora, sobre a “comunidade internacional” real

O Novo Grande Jogo corria solto, quando os presidentes de China, Rússia e os quatro “-stãos” (menos o Turcomenistão idiossincrático) reuniram-se em Pequim, no início de junho, para a reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [orig. Shanghai Cooperation Organisation (SCO)]. [5]

A Organização de Cooperação de Xangai (SCO) incluiu incremento de países asiáticos, mas tradicionais potências ocidentais não foram convidadas a participar [EPA]
Importantíssimo, os presidentes do Afeganistão, Irã, Paquistão, Turcomenistão e Mongólia, além do ministro de Relações Estrangeiras da Índia também participaram daquele encontro. Não poderia haver melhor cenário para que a OCX anunciasse – via Moscou e Pequim – outra visão de mundo, a deles, absolutamente diferente da visão de mundo ocidental.

Eis aqui, então, parte considerável do que a verdadeira “comunidade internacional”, a real – não aquela ficção de que falam Washington, Londres e Paris – pensa sobre episódios chaves do Novo Grande Jogo.

A OCX é absolutamente contrária ao esquema de escudo de mísseis de EUA-OTAN. Quanto aos ‘-stãos’ centro-asiáticos, melhor que se mantenham afastados da OTAN: se houver crise regional, terá de ser resolvida regionalmente. A OCX quer “um Afeganistão independente, neutro e em paz” (o Afeganistão já foi promovido ao status de observador da Organização de Cooperação de Xangai); é o mesmo que dizer, com outras palavras, que Rússia e China farão o que for preciso fazer e possam fazer para apagar a influência dos EUA sobre Kabul.

A OCX condena intervenções ditas “humanitárias” à moda do que foi feito contra a Líbia, e todo os tipos de sanções unilaterais. A OCX privilegia a lei internacional da velha escola que produziu a Carta da ONU – e trabalhará a favor de uma futura reforma do Conselho de Segurança da ONU. Sobre a Síria, a única solução é o diálogo político, no qual Moscou, sempre sensível, incluirá o Irã.

A OCX considera “inaceitável” um possível ataque contra o Irã. Ao mesmo tempo, e importantíssimo, nem Pequim nem Moscou querem ver alguma hipotética bomba nuclear iraniana.

Haverá crescente cooperação econômica entre os estados-membros da OCX. Passos futuros incluem um Banco de Desenvolvimento da OCX. Moscou continua a ser o principal parceiro comercial dos “-stãos” centro-asiáticos.

E um desenvolvimento muito intrigante: a Turquia, estado-membro da OTAN – e parte da rede chamada “escudo de mísseis” dos EUA – foi admitida como “parceira para diálogos”, na Organização de Cooperação de Xangai. Nada de admissão, pelo menos ainda não, nem para Índia nem para o Paquistão. Mas é inevitável que, em futuro próximo, esses países também se tornem membros plenos, assim como o Irã.

Ainda não se pode falar de uma OTAN oriental. A Agência de Notícias Xinhua, em movimento de despistamento, insiste que a Organização de Cooperação de Xangai é uma “parceria”, não uma “aliança”.

O que está “blowing in the wind”?

A OTAN, evidentemente, tem ideias diferentes. Convidou quatro “-stãos” (exceto, outra vez, o Turcomenistão) a participar da reunião de cúpula da aliança, em Chicago, em maio. A OTAN tem anseio ainda mais forte que o da OCX por “parcerias”. Mas, em idioma da OTAN, “parcerias” significa “bases militares”.

Dizer que a OTAN e a OCX estão em rota de colisão é dizer pouco. Já há muito tempo o foco da OCX deixou de ser o fundamentalismo islamista – como o dos Talibã no Afeganistão. De agora em diante, como o ministro Sergei Lavrov das Relações Exteriores da Rússia deixou bem claro, a OCX terá política comum para qualquer tipo de crise na região – e, por falar nisso, também para crises fora da região.

A principal e mais grave dor de cabeça que a OCX terá de enfrentar, em clave local, será o Uzbequistão. Wily Karimov está aumentando as apostas como se não houvesse amanhã.

A Rede Norte de Distribuição da OTAN [orig. NATO's Northern Distribution Network (NDN)] para o Afeganistão inclui Uzbequistão, Tadjiquistão e Turcomenistão. O que o trio realmente quer é lucrar o mais possível por ser território de passagem. Dado que a agenda real (oculta) da OTAN não é qualquer “securitização” da Ásia Central, mas criar uma barreira que impeça o avanço da influência de Rússia e China, está montado o cenário para episódios épicos de barganha e corrupção desenfreadas.

O que é e continua bem claro é que, nessa nova rodada do Novo Grande Jogo, o que menos o ocidente deseja ver operante é alguma “democracia”. Por esse motivo, o ocidente não facilitará processo algum que ameace soprar algum sopro de Primavera Árabe na direção dos países da Rota da Seda.



Notas dos tradutores:
[1] Orig. “Get me to my base on time”. Todos que trabalhamos nessa tradução lembramos de “Get me to the church on time” [“Amarrem-me, prendam-me, chamem o Exército, mandem-me pelo Correio, mas... entreguem-me na Igreja a tempo”], de My Fair Lady, cantado na Broadway em 1957 por Stanley Hollowly, já vestido a caráter, que sai para beber com os amigos feirantes, na véspera do casamento. Inesquecível. Pode ser visto e ouvido a seguir:

[2] 29/6/2012, Voz da Rússia em: Small loss of(em russo)
[3]  4/7/2012, Nezavisimaya Gazeta, Victoria Panfilov em: Uzbequistão se volta para os EUA (em russo)
[4] 3/10/2011, Reuters, Gleb Bryanski em: Russia's Putin says wants to build “Eurasian Union” (em inglês)
[5] 26/6/2011, Al-Jazeera, Pepe Escobar, na redecastorphoto em: Pequim e Moscou, depois da reunião da Organização de Cooperação de Xangai, em português.Ver também, sobre o mesmo encontro, em: 13/6/2012, Asia Times online, MK Bhadrakumar, na redecastorphoto em: OCX: para enfrentar tempos de mudanças, em português.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Paquistão está dificultando a retirada dos EUA do Afeganistão


2/3/2012, Ron Synovitz e Iskandar Aliev, Tadjiquistão
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu



Entreouvido na Vila Vudu:
Essa notícia que vos chega gratuitamente do Tadjiquistão é totalmente desjornalística e TOTALMENTE SENSACIONAL. 
As “potências ocidentais” estão láááá longe, esperneando na arapuca em que se meteram sem ser chamadas, para implantar a “democracia” e acabar com o terrorismo na galáxia, tudo a ferro e fogo e targeted killings. Só que já não conseguem nem abrir uma picada no mato, pra carregar de volta as zilhões de zilhões de toneladas de armas que levaram para lá e, agora, têm de carregar nas costas de volta prô “ocidente”, e rápido... Antes que os “nativos” passem a mão naquele tresloucado arsenal.
Ah, sim, sim, “o presidente Nursultan Nazarbayev, o ‘leopardo das neves’ do Cazaquistão, já falava de uma União Eurasiática desde 1994, como Pepe Escobar escreveu em “Jogo de Xadrez na Eurásia”, em novembro do ano passado
Ele deve estar adorando receber lá esse desfile de ministros das “grandes potências”, um depois do outro.
Quanto a Putin, que nunca foi Washington Luiz, nem jamais supôs que “governar é abrir estradas”... 
Bom... A eleição de Putin acontece no próximo domingo. Não deu na Globo, mas... a Hilária está sendo comida pela perna.

Gen. William Fraser
O principal comandante de transporte militar dos EUA disse que é necessário que o Paquistão reabra à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) as rotas de transporte pesado que cruzam território paquistanês, para que os EUA consigam completar a retirada do Afeganistão até o final de 2014. 

Em novembro de 2011, o Paquistão fechou as estradas de transporte pesado, pela qual transitavam os suprimentos para a OTAN, em momento de grave deterioração nas relações com os EUA - OTAN. 

Dia 28/2, o general William Fraser do exército dos EUA disse à Comissão das Forças Armadas do Senado [1] que a chamada “Rede Norte de Distribuição”, que cruza a Ásia Central, não basta para o transporte de todos os tipos de carga que têm de ser levados do Afeganistão, ao ritmo necessário para manter o cronograma da retirada. 

Fraser disse que há acordos vigentes com o Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão que pemitem o trânsito por esses países, do equipamento que ainda está no Afeganistão – mas os acordos não permitem que se transportem armas de nenhum tipo. 

Caminhões transportando suprimentos para tropas dos EUA-OTAN no Afeganistão retornando da fronteira AF-Pak depois do fechamento pelo Paquisão

Disse que os EUA estão explorando outras vias para deslocar suprimentos não letais e alguns tipos de blindados que podem ser transportados através daqueles países. 

Suas declarações sugerem que blindados leves como os US Humvee utilizados pelos soldados dos EUA no Afeganistão – e talvez também os veículos Bradley blindados para transporte de pessoal – podem transitar pela Ásia Central sem violar acordos existentes, desde que todas as armas sejam removidas. 

Mas é preciso encontrar outra solução para transportar os tanques pesados M1A1 Abrams que foram usados na província de Helmand no início de 2011. 

Fraser disse também que Rússia e Uzbequistão liberaram o trânsito pelas estradas em seu território, para a retirada de equipamento. 

A estrada do Tadjiquistão 

Gen. Sherali Khayrulloev, Ministro da Defesa do Tadjiquistão (D)
e seu homólogo, Gen.  Ahmad  Vahidi, do Irã (E)
No Tadjiquistão, o porta-voz do ministério da Defesa, Farhod Ibodulloev, disse ao serviço tadjique de notícias, dia 29/2, que o general Fraser visitou Dushanbe semana passada, para encontros com o ministro da Defesa Sherali Khayrulloev. 

Os analistas tadjiques lembram que, em 2007, os EUA concluíram a construção de uma ponte, estimada em $37 milhões de dólares, sobre o rio Panj, que liga o norte do Afeganistão e o Tadjiquistão. Essa ponte poderia ser usada para retirada de materiais. O porta-voz informou que o general americano e o ministro concordam que, para o trânsito de carga, são suficientes os acordos existentes, e não se exige nenhum novo acordo para a retirada de equipamento não letal e veículos blindados. 

Aquela ponte permite tirar do Afeganistão cargas da OTAN e transportá-las até a base aérea francesa em Dushanbe, dali a uma base alemã no Uzbequistão ou ao Quirguistão, onde os EUA mantêm alugada uma parte do Aeroporto Internacional Manas, onde armazenam as cargas que circulam pela Rede Norte de Distribuição. A carga da OTAN também pode ser embarcada por via férrea no Tadjiquistão, atravessando a Rússia, até portos do Báltico. 

Na audiência no Senado, dia 28 de fevereiro, Fraser disse também que todos os aviões que traziam suprimentos para o Afeganistão estão agora sendo completamente carregados com os itens não letais a serem retirados, e que chegaram como parte do surge, no final de 2011, que elevou o número de soldados no Afeganistão, de 70 mil, para 110 mil.

Contudo, disse Fraser, o fechamento das estradas para transporte de equipamento pesado por terra através de território paquistanês, que eram usadas para levar até o Afeganistão grande parte do equipamento militar usado pelos EUA, já reduziu o ritmo da retirada e passa agora a ameaçar gravemente todo o cronograma.

Planos britânicos 

Philip Hamond
Oficiais da Grã-Bretanha também tentam encontrar rotas alternativas para retirar de território afegão seus soldados e carga militar. O secretário da Defesa britânico, Philip Hammond, esteve no Uzbequistão dia 29 de fevereiro, onde assinou acordo com o governo do Cazaquistão, para trânsito aéreo em território daquele país, de equipamento militar e soldados. 

O ministério da Defesa da Grã-Bretanha informou que Hammond e o presidente cazaque Nursultan Nazarbaev também acertaram o início das conversações para construir um acordo para transporte de equipamento militar e soldados também por terra. 

Em Astana, Hammond disse que a Grã-Bretanha enfrentava “gigantesca operação logística” para retirar do Afeganistão 11 mil contêineres e cerca de 3 mil veículos blindados – e que a Grã-Bretanha começava a “trabalhar com nossos parceiros na região, para dar conta dessa operação”. 

O ministro da Defesa do Cazaquistão, Adibek Dzhaksybekov, disse, depois das reuniões com Hammond dia 28 passado, que “a cooperação militar internacional” é um dos itens cruciais para “garantir a segurança regional”.

Essa semana, também o ministro britânico das Forças Armadas, Nick Harvey, deve chegar à região, para dar prosseguimento às negociações iniciadas por Hammond, no Quirguistão, Tadjiquistão e Turcomenistão.



Nota dos tradutores
[1] Ver “Texto preparado para a audiência no Senado”, Air Force Magazine, 28/2/2012.   

domingo, 26 de junho de 2011

Pequim e Moscou, depois da reunião da Organização de Cooperação de Xangai

A longa marcha contra Pentágono/OTAN

Pepe Escobar
22/6/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Afinal, o que realmente resultou da reunião anual da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organisation (SCO)], semana passada, no Cazaquistão?

Comparada às expectativas ensandecidas, foi coisa bem prudente e moderada: mais um ‘mapa do caminho’, que mudança de jogo. Mesmo assim, China, Rússia e quatro ‘stãos’ da Ásia Central – Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão – foram bem além do cardápio previsível de cooperação em questões de segurança/economia.

A Organização de Cooperação de Xangai (SCO) incluiu incremento de países asiáticos, mas tradicionais potências ocidentais não foram convidados a participar [EPA]

Nursultan Nazarbayev, o “leopardo da neve” do Cazaquistão, anfitrião e presidente do encontro, disse detalhadamente que a Organização de Cooperação de Xangai continuará a combater o terrorismo e a ciber-narco-criminalidade, ao mesmo tempo em que tentará equacionar a delicada questão da distribuição da água na Ásia Central – capítulo chave das guerras globais pela água, que estão começando. 

Mas disse também que a Organização de Cooperação de Xangai é favorável a uma nova moeda global. E tem mais. Assinou-se novo memorando, segundo o qual a Organização de Cooperação de Xangai iniciará consultas com Índia, Paquistão e Irã – que se candidataram a membros plenos da SCO. 

Não significa que seja negócio fechado. O Irã é candidato a membro desde 2008. Ainda não foi aceito, porque está sob sanções impostas pelo ocidente via ONU.  

O Paquistão, por outro lado, mal pode esperar para ser incluído. É o que se vê pelos efusivos elogios disparados pelo presidente Asif Ali Zardari. Uma SCO acolhedora com certeza ganha de uma Washington invasora serial e dependente terminal de aviões-robôs-drones. 

Pequim, por sua vez, terá muito cuidado ao sopesar a admissão da Índia e do Paquistão. Segundo Wu Hongwei da Academia Chinesa de Ciências Sociais, “se se unirem à Organização de Cooperação de Xangai, há o risco de que levem para lá suas disputas não resolvidas.” 

O Afeganistão candidatou-se ao status de observador. Provavelmente será aceito. E é quando o jogo fica mais emocionante. 

Façam dinheiro, não façam guerra 

Acompanhar as mídias chinesa e russa tem sido absolutamente fascinante. Para muitas mentes críticas em Moscou, incomodadas porque a Rússia parece não saber diversificar a economia, a Organização de Cooperação de Xangai é hoje fundamentalmente chinesa. 

Faz sentido. Embora o comércio bilateral esteja bombando, o coletivo-liderança em Pequim vê Moscou como pouco mais que fornecedor-gigante de energia/commodities que alimenta o dragão. Moscou, por sua vez quer/precisa muito de investimentos da alta tecnologia chinesa em seu combalido setor industrial.

Rússia e China têm programa estratégico bilateral até 2018. Basicamente, envolve desenvolvimento/produção de petróleo, gás e minérios na Rússia – na Sibéria e no extremo oriente do país – e processamento na China.

O oleodutostão principal, o nome do jogo nessa região, é o imenso oleoduto Sibéria Oriental-Oceano Pacífico [ing. East Siberia-Pacific Ocean, ESPO. Mapa da região) – de Skovorodino, na Rússia, até Mohe, na China, mais dois gasodutos. 

ESPO pipeline
O gasoduto ESPO está sendo construído em duas fases e vai percorrer Sibéria.

O que o Oleodutostão encobre é a questão extremamente sensível de quem será o cão alfa econômico na Ásia Central. Ninguém precisa ser a Moça do Tempo, para ver de que lado sopram esses ventos de estepe. Como conseguir equilibrar o jogo estratégico da Rússia na Ásia Central e a voracidade econômica da China? 

Por exemplo: a Organização de Cooperação de Xangai quer criar um banco de desenvolvimento. Moscou quer ligá-lo ao Banco de Desenvolvimento Eurasiano – cujos maiores acionistas são a Rússia e o Cazaquistão. Pequim quer que seja instrumento absolutamente novo. 

E num plano geoestratégico, a história é completamente diferente. 

A mídia estatal em Pequim estava em êxtase, porque China e Rússia já trabalhavam para aprofundar sua parceria estratégica, logo no dia seguinte ao encontro da Organização de Colaboração de Xangai, em declaração conjunta de Hu Jintao presidente da China, e Dmitry Medvedev, da Rússia. 

Em vez dos bombardeios da OTAN, Rússia/China são pela “não interferência” e por “menos ação militar” na Coreia e, sobretudo, no Oriente Médio/Norte da África [ing. (Middle East/North Africa, MENA).

Em vez das intromissões de Washington em questões entre a China e países do sudeste da Ásia, Rússia/China são a favor dessas “parcerias estratégicas”, que veem como “fator chave para a paz e a estabilidade da região do Pacífico asiático”. 

Em vez dos planos de Washington de instalar escudos antimísseis na Europa do leste, Rússia/China privilegiam “soluções políticas e diplomáticas”.

Em vez de demonizar o Irã, Rússia/China não se cansam de repetir que o Irã tem pleno direito de desenvolver seu programa nuclear para finalidades pacíficas. 

E nem é preciso dizer que, além de opor-se ao bombardeio da OTAN contra a Líbia, Rússia/China são contra qualquer possível resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Síria. 

Tampouco é preciso dizer que nada disso desce muito bem goela abaixo da Casa Branca e do Departamento de Estado, ao mesmo tempo em que a teoria da Dominação de Pleno Espectro [ing. Full Spectrum Dominance] do Pentágono vai-se pelo ralo. A cereja do bolo foi a segunda declaração de Hu e Medvedev: China e Rússia aprofundarão a cooperação militar.

Mais um buraco na cerca 

E há também o “Rosebud” desse filme “Cidadão Eurásia” – que é o invencível labirinto das encruzilhadas afegãs. Washington está em total “surge” de operação-gigante de Relações Públicas, para tentar convencer a opinião pública mundial de que os EUA estão empenhados em “conversações” com os Talibã “porque” a OTAN está(ria) “vencendo” a guerra.

O que virá agora? O Mulá Omar convidado para um Arroz à Cabul, em jantar de recepção a chefe de Estado na Casa Branca?

A realidade é um pouco mais complexa. O astuto Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, lá estava, na reunião da Organização de Cooperação de Xangai, fazendo lobby a favor da candidatura de seu país ao status de observador. Karzai sabe que nenhuma solução realista para o Afeganistão virá de Washington. Ele tem de envolver na discussão a Organização de Cooperação de Xangai. 

Nazarbayev, o “leopardo da neve” cazaque, entregou o jogo, ao dizer que “é possível que a Organização de Cooperação de Xangai venha a assumir responsabilidades em várias questões que envolvem o Afeganistão, depois da retirada dos soldados da coalizão em 2014”.

A primeira parte do comentário está perfeita. A segunda, não. Porque a hipótese de o Pentágono deixar o Afeganistão é simplesmente impensável... nos termos da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. 

Mesmo assim, pergunte a qualquer um, por todo o arco, do sul ao centro da Ásia: ninguém quer por lá bases militares permanentes dos EUA no Afeganistão. A opinião pública, sim, mas também os membros da Organização de Cooperação de Xangai, incluídos os observadores.  

Jamais se lerá nem menção a isso em declarações da Organização de Cooperação de Xangai, é claro. Mas Pequim e Moscou estão convencidas de que, se se deixar caminho livre para os EUA no Hindu Kush, eles instalarão mísseis de defesa no Afeganistão, mirados, evidentemente, contra Rússia e China. 

Portanto, senhoras e senhores, apertem os cintos. China e Rússia se aproximarão cada dia mais, em termos geopolíticos, em toda a Eurásia – e nenhuma campanha de propaganda jornalística sobre “reset” das relações EUA-Rússia mudará isso.  

Essa é a mensagem “invisível” que a Organização de Cooperação de Xangai deixa para o futuro imediato: parafraseando Pink Floyd, não precisamos de intervenção, não precisamos de controle de ideias. Eis como Rússia/China planejam o primeiro passo da longa marcha para derrubar o muro Pentágono/OTAN.