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terça-feira, 5 de novembro de 2013

O futuro do Afeganistão (3/3)

12/10/2013, [*] Nikolai BOBKIN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Leia antes:


Mapa político do Afeganistão e suas fronteiras
(clique no mapa para visualizar)
Washington não exclui que a repetição do cenário da Síria, causado pela retirada da OTAN do Afeganistão, pode resultar em vantagem estratégica a favor de seus interesses. O caos controlado é método conhecido e testado. Uma possível guerra no Afeganistão permitirá aos norte-americanos controlar os uigures da Região Autônoma de Xinjiang; manter a instabilidade nas vizinhanças das fronteiras do Irã; e exacerbar as relações entre Índia e Paquistão. E os EUA terão base a partir da qual pressionar contra a Ásia Central. A partir de 2014, o Afeganistão deve converter-se em grave problema de segurança para a Rússia...

Com seus aliados – membros da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)] – a Rússia planeja, em ritmo de urgência, medidas de segurança que, de fato, já deveria ter tomado há muito tempo. No final de setembro, houve uma reunião da CSTO em Sochi, prévia à grande conferência, na qual a Rússia foi eleita para a presidência da organização, também antes do previsto. Presidentes da Rússia, Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão conversaram sobre passos práticos pelos quais enfrentar os aspectos principais do problema de segurança. Si vis pacem, para bellum (Se quer paz, prepare-se para a guerra).

Dia 1/10/2013, a Câmara Baixa do Tadjiquistão ratificou um acordo sobre o status da 201ª base militar russa. Assinado em 5/10/2012, em alto nível, o acordo da base militar russa tem vigência até 2042. Com as forças tadjiques, a base garantirá a segurança do Tajiquistão. A Rússia já começou a transferência ao país, de um pacote de $200 milhões de ajuda militar. Equipamentos para a força aérea e outros materiais de guerra serão transferidos gratuitamente para as forças armadas tadjiques.

Vladimir Putin e Emomalii Rahmon inauguram a 201ª base russa  no Tadjiquistão
Segundo os especialistas, há passos a serem empreendidos com urgência; por exemplo, o deslocamento de guardas russos de fronteira para cobrir os quase 1.500km de fronteira entre Afeganistão e Tadjiquistão, hoje protegidos por apenas 16 mil guardas tadjiques. De modo algum as autoridades tadjiques conseguirão enfrentar sozinhas o problema dos refugiados e das gangues armadas. Há oito anos, os guardas russos de fronteira deixaram a área, onde permaneceram apenas algumas poucas dúzias de fortes grupos operacionais. Desde então, a situação só piorou. Novos pontos de confronto surgiram ao longo da fronteira tadjique, os extremistas ganharam influência, o número de campos de treinamento para militantes vindos dos países membros da CSTO só fez aumentar.

Falando na reunião de Sochi da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, o presidente do Tadjiquistão, Emomalii Rahmon, pediu esforços combinados para reforçar a fronteira afegã. Muitos políticos e militares russos apóiam a ideia de enviar soldados russos de fronteira, de volta para o Tadjiquistão. Mas Nikolay Bordyuzha, secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, opôs-se à ideia. Para ele, o Tadjiquistão precisa de ajuda para treinar e dar melhor qualificação técnica às próprias forças de fronteira, incluindo combate em área de alta montanha e entrega de novos equipamentos.

O acordo da parceria EUA-Afeganistão hoje vigente deve deixar nove prédios-instalações militares no Afeganistão, mantendo a capacidade de resposta de emergência, e de socorrer as forças do governo afegão, no caso de a situação agravar-se repentinamente. As demais forças militares devem permanecer em Kabul, Mazari Sharif, Jalalabad, Gardez, na base aérea Bagram e nas províncias de Kandahar, Helmand e Herat.

Bagram é a maior base aérea dos EUA no Afeganistão e poderá permanecer.
Nessa lista falta a cidade de Kunduz, no norte, capital da província de Kunduz, junto à fronteira tadjique, apesar de ser essa a primeira área de maior população cuja segurança já foi transferida para as forças afegãs.

Da cerimônia de transferência, realizada há pouco tempo, participaram o ministro da Defesa alemão e outras autoridades. Kunduz tem lugar importante na história das forças armadas alemãs. Durante 10 anos, cerca de 20 mil soldados da Bundeswehr lutaram ali. Em nenhum outro momento ou lugar do mundo, desde os dias da 2ª Guerra Mundial, morreram mais militares alemães que ali, em Kunduz.

Os parlamentos russos e do Quirguistão ratificaram o acordo de status na base aérea russa em Kant. Os militares russos ali ficarão por, no mínimo, mais 20 anos. A Rússia reformará as instalações, para convertê-las em efetivo posto avançado da Organização do Tratado de Segurança Coletiva na Ásia Central, uma presença com a qual contar. Hoje, a base hospeda bombardeiros de combate SU-24; aviões de ataque SU-25; combatentes de elite SU-27 SM e um grupo de helicópteros. Forças de terra e ar do Quirguistão e do Tadjiquistão iniciaram exercícios militares conjuntos no dia seguinte ao encerramento da reunião dia 24/9. (...)

Base aérea russa de Kant no Quirguistão
Claro, Astana, capital do Cazaquistão, está longe do Afeganistão; mas mesmo assim há preocupação sobre a possibilidade de a desestabilização afetar a Ásia Central. O Cazaquistão apóia a assistência ao Tadjiquistão e ao Quirguistão, porque atende também seus próprios interesses de segurança nacional. Vale também como defesa coletiva do espaço aéreo da Ásia Central, fortalecimento das capacidades das Forças Coletivas, também para o combate contra o tráfico de drogas.

Não tem havido confrontos sangrentos no território da República do Cazaquistão, enquanto o Uzbequistão, que se separou da Organização do Tratado de Segurança Coletiva há algum tempo, tornou-se alvo preferencial dos terroristas. O país mantém um acordo de parceria estratégica com Astana. Mas o Cazaquistão é membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, e o Uzbequistão empenha-se em melhorar o relacionamento com os EUA.

Islam Karimov
Até a algum tempo, o relacionamento EUA-Uzbequistão parecia estar piorando. A Casa Branca condenou o governo pela repressão contra os protestos em Andijan em 2005. O rompimento parecia inevitável. Agora, Washington restaurou as relações com Islam Karimov, considerando a opção de deixar algumas unidades militares em solo uzbeque, depois de retiradas do Afeganistão. Muita conversa sobre valores democráticos, direitos humanos e a perseguição a opositores do governo no Uzbequistão nada vale, de fato, se comparada ao desejo de Washington, de preservar sua presença militar na Ásia Central.

Os EUA dependem do Uzbequistão para manter uma plataforma a partir da qual manter sua influência no Afeganistão e influir o processo da integração de Rússia e Ásia Central. Em todos os casos, Tashkent será recompensada por garantias dos EUA e suprimentos de armas ocidentais, como paga por manter-se afastada da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. O Uzbequistão está sob embargo de armas dos EUA e da Europa Ocidental, mas nem isso paralisou o governo uzbeque.

O governo uzbeque apresentou à OTAN um pedido para que o equipamento e as armas usadas no Afeganistão sejam deixados no país. Tashkent tem esperanças de que os EUA apoiarão o pedido de dar aos uzbeques posição privilegiada na parte norte do Afeganistão, onde a população é constituída, na maioria, de uzbeques étnicos.

O Uzbequistão tem experiência na posição de “aliado chave” dos EUA na Ásia Central; é difícil prever quanto tempo durará a amizade dessa vez, tanto quanto é difícil prever se os EUA realmente partirão do Afeganistão sem deixar lá qualquer “presença”.

As insinuações sobre a OTAN retirar-se antes do início da “temporada de combates” na primavera de 2014 são como um balão de ensaio para testar reações, inclusive a resposta da Rússia.

A Federação Russa prefere não esperar pela retirada da ISAF liderada pelos EUA; esperam-se para os próximos meses os primeiros raids-testes partidos do território afegão.

O Quênia, por exemplo, onde militantes perpetraram um sangrento massacre, não é incidente isolado, é uma tendência. A intervenção militar dos EUA sob o pretexto de “combater o terrorismo internacional” não levou a paz alguma. O Afeganistão é, hoje, um dos estados mais vulneráveis do mundo. Mais uma vez, e sempre e sempre, colhemos os frutos da dominação militar pelos EUA.

Nessas circunstâncias, a Rússia tem de assumir uma missão global e usar uma abordagem pelo sul, para conter o cenário que os EUA patrocinam. Cabe aos russos estimular uma “transição no Oriente Médio, do eixo da instabilidade para o eixo da liberdade”.
__________________________


[*] Nikolay Bobkin; PhD em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sábado, 20 de julho de 2013

Pepe Escobar: “Viagem no tapete voador”

19/7/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online –The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre assunto semelhante leia também:
19/7/2013, redecastorphoto em: A cosmopólis persa revisitada

Pepe Escobar
Tenho de confessar que Anna Badkhen, nessa, chegou antes de mim. Às vezes tenho a sensação de que o mundo é um tapete (ing, The world is a carpet [*]). Ela sentou num e voou e escreveu livro maravilhosamente evocativo, centrado numa vila no norte do Afeganistão, tão remota que nem Google Maps sabe onde fica.

É livro para os que amam a Rota da Seda; os que amam o Afeganistão; os que amam tapetes; e todos os anteriores. Esse Olhar Errante [orig. Roving Eye] encaixa-se em todas essas categorias; não surpreende que o delicado conto de Badkhen tenha-me lançado numa viagem de tapete voador pelos caminhos da memória, enquanto ia refazendo meus próprios passos ao longo dos anos, trecho a trecho pela Rota da Seda, de Balkh a Bukhara, de Herat a Hamadan; e todas aquelas estradas, é claro, são pavimentadas com tapetes.

O Curasão histórico – que inclui o norte do Afeganistão – é muito especial. Em torno de Balkh, os turcomenos fiam lã há 7 mil anos. As crianças nascem sobre tapetes. Todos rezam sobre tapetes. Dormem sobre tapetes. Até cobrem, com tapetes, seus túmulos.

Quando Alexandre o Grande conquistou o Curasão [**] em 327 aC, enviou um tapete à sua mãe, Olympia, como presente e recordação da vitória em Balkh.

Balkh é a legendária capital feudal, hoje em ruínas (culpa dos mongóis), localizada 36 quilômetros a sudoeste de Oqa – vila que nem a Agência Nacional de Segurança dos EUA consegue espionar, em pleno deserto salgado afegão, onde Badkhen decidiu acompanhar, durante um ano, a vida na sala do tear de Thawra, enquanto ela tece um magnífico tapete yusufi.

Mapa da região de Balkh com as referências do autor
(clique na imagem para visualizar melhor)
Sempre fui doido por Balkh; afinal, durante 1.500 anos Balkh reinou sobre toda a Ásia Central. Era a “joia de Ariana”, segundo Strabo, historiador grego do século 5. Seu contemporâneo romano Quintus Curtius Rufus escreveu sobre aquele “solo rico”, mas também sobre “vasta área do país tomado pelas areias do deserto”. Oqa é um ponto nessa “região desolada e árida”.  

Badkhen, russa de nascimento, residente nos EUA, conhece o Iraque, a Somália e a Chechênia, não viveu exatamente na vila durante um ano; morou numa sala alugada em Mazar-e-Sharif. Os locais a adotaram – embora sempre meio intrigados. Afinal, era mulher estrangeira; só tomava notas e desenhava; não fazia trabalho pesado; tinha de ser protegida; e tinha peitos “pequenos demais”. “Ela não serve para nós” – trovejou um ancião. O que ela fez foi imortalizar aquele modo evanescente de vida.

Badkhen pôde andar mais porque fala farsi – do qual os moradores da vila conseguiam fazer a conexão para o turcomeno; sorte dela. Houve diálogos encarniçados – como a discussão a respeito de onde ficam os EUA. O Turcomenistão está a “quatro dias em lombo de burro”. Mas é impossível chegar, em lombo de burro, aos EUA – e os locais não sabem o que seja “oceano”. “Nesse caso... como os soldados deles [dos EUA] chegam ao Afeganistão?” A ideia de um voo de avião de longa duração provoca surpresa. Então, um velho encontra a solução: “O mundo não é redondo. É retangular. Numa ponta, está o Paquistão. Na outra, estão o Turcomenistão e o Uzbequistão. E o Irã, logo ali. O mundo tem quatro cantos”. Com certeza, mais bem informado que muitos no Pentágono e no Departamento de Estado.

Balkh hoje
Há o ópio, é claro – entregue em discos marrom-escuros que pesam “cerca de um quinto de onça, com um cachimbo pequeno que ali custa um quarto de dólar”. A apenas 40 quilômetros para nordeste, contrabandistas passam o ópio pelo rio Amu Darya para o Uzbequistão, e ganham centenas de vezes mais dinheiro. Comércio que movimenta 4 bilhões de dólares ao ano, o ópio continua a ser a segunda maior fonte de renda para o Afeganistão da OTAN-em-retirada depois da ajuda internacional – e constitui mais ou menos a metade do orçamento dos Talibã. O ópio, por falar dele, chegou ao Afeganistão trazido pelos soldados de Alexandre.

E há os Talibã – afinal depois de toda a guerra perpétua, os Talibã ainda tecem o Curasão. Para não mencionar os B-52s que tecem os céus sem parar – como seres de outro planeta. Há o lugar onde os Talibã enforcaram um jovem. O local de luta sangrenta entre os Talibã e outros mujahideen. A cratera na qual explodiu um Talibã de bicicleta. As lembranças dos Talibã mutilando, matando a tiros e degolando 6 mil hazaras em Balkh em 1998. Mas em Oqa, nada. É distante, remota demais – e, portanto, não tem valor algum para os Talibã.

O mistério da sala do tear

A melhor frase vem de um mercador de tapetes em Mazar: “Veja isso. As mulheres que tecem são analfabetas e muito pobres. Mas fazem essa inacreditável beleza”. A frase sempre me vem à cabeça cada vez que ponho os olhos nos espetaculares tapetes que se veem na Rota da Seda. Uma vez, no escaldante verão de 2000, no Afeganistão controlado pelos Talibã, eu passara toda a tarde no superlotado bazar de tapetes de Herat, à procura de um milagre. E, de repente, aconteceu, quando eu já estava saindo: um camponês velho queria vender; o tapete, enrolado sobre o ombro. Bastou pôr os olhos nele. A tecelã, provavelmente, era a mulher dele, turcomena, como Thawra. Não surpreende que seja um dos tapetes preferidos do meu gato. Tem cheiro daqueles 7 mil anos de história.

Anna Badkhen
Badkhen diz belamente:

Estude seu tapete. Foi criado pelas mãos de três gerações de mulheres analfabetas. É curtido com cocô de galinha e manchas amareladas, onde respingaram os restos de chá que a tecelã jogou no lixo. Os nós amarram cantos nupciais e conversas de mulheres. O metrônomo de uma lâmina de seda e o zumbido das moscas do meio-dia. O sopro de uma ventania no telhado. Um suspiro de velha quando ela, afinal, senta-se no chão para descansar.

Sempre que acontece de nos apaixonarmos por um tapete, tenta-se imaginar a rota da viagem que fez. Badkhen detalha também isso. Da sala do tear em Oqa, o tapete de Thawra teria sido vendido a um mercador em Dawlatabad, cidade maior. O mercador telefonou para um dos comerciantes da Ala dos Tapetes em Mazar-e-Sharif, ao lado da Mesquita Azul. Em Mazar, o tapete foi lavado e atentamente examinado – “o diário de seus meses no tear” – e toma-se a decisão sobre para onde será mandado.

Pode ter ido de caminhão para o sul, para Cabul, e enviado dali, por avião, para Dubai, e adiante, para Londres e New York; também de caminhão para leste, pela Grande Estrada dos Caminhões, cruzar a fronteira do Paquistão até o bazaar de Peshawar; ou para oeste, para o Turcomenistão, pelo deserto de Karakum e adiante, até o Grande Bazaar de Istambul. Muito provavelmente será metido como carga em cima de um ônibus em frangalhos “com algum nome estranho, em inglês, como Bazarak Panjshir International”. E por menos de US$25. o pacote – cerca de US$5. por tapete – esse tapete, com outros, deixará Bactria e ganhará o mundo. E chegará um dia a eBay, pela ninharia de US$ 1000.

Quando estava acabando de ler o livro, tive uma conversa com um vendedor de tapetes em Hong Kong sobre como a arte está sumindo rapidamente no Afeganistão. Demora muito – até um ano – para tecer uma obra prima. O ópio é muito mais lucrativo. Há a invasão de Tapetes Chineses Baratos. Contou-me que há vendedores afegãos de tapetes que até já reimportam tapetes de volta ao Afeganistão. Apesar disso, como Badkhen nos lembra, “à beira de um mar de dunas de areia, à beira de uma zona de guerra, em sua sala crepuscular do tear, à beira do mundo” sempre haverá uma última mulher solitária mantendo a chama de 7 mil anos de beleza.



Notas de rodapé 
[*]  BADKHEN, Anna. The World is a Carpet, Riverhead Books, 2013, 271 p., $26.95.

[**] O dicionário Onomástico Etimológico de J.P. Machado registra apenas as formas Coraçone e Coração para a esta província iraniana em língua portuguesa. Alguns jornais brasileiros transliteram o original como Corasão ou Curasão (forma adotada pela redecastorphoto). O Curasão antigo envolve também parte do norte/noroeste do Afeganistão e sul do Turcomenistão, mas a parte catalogada na Wikipédia é apenas a parte iraniana. Neste artigo Pepe Escobar se refere ao Curasão antigo.  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pepe Escobar: “Bem-vindos ao Novo Grande Jogo”


25/7/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O Norte da África e a Ásia Central parecem partilhar os mesmos tormentos: ditaduras, corrupção desenfreada, miséria, alto desemprego entre os jovens, total controle sobre a mídia e limitado espaço de ação para qualquer tipo de oposição.

Não surpreende que as primeiras escaramuças da Primavera Árabe no Norte da África – lutas populares por democracia – tenham deixado apavorados a maioria dos governos ao longo da Rota da Seda. Mais que democracia, o que viram ali foi o espectro da islamização. Daí o bloqueio de Facebook e Twitter, a instalação de filtros de internet made-in-China – combinados à ausência de qualquer rede de notícias semelhante à Al Jazeera para disseminar a Palavra.

O Ocidente não está exatamente interessado em incentivar uma Primavera Árabe ao longo da Rota da Seda
Os homens-fortes centro-asiáticos têm razão de andarem temerosos, olhando atrás a cada passo – de fato, aterrorizados – com o que está acontecendo no Egito e na Síria. Islam Karimov no Uzbequistão, e Nursultan Nazarbayev no Cazaquistão estão no poder, cada um, há 21 anos. Emomalii Rakhmon permanece na presidência do Tadjiquistão desde a sangrenta guerra civil dos anos 1990s.

Islam Karimov
Sim, houve transição política no Turcomenistão em 2007, quando morreu o esfuziante Saparmurad Niyazov. Mas a serpente continuou a serpentear como sempre serpenteara também no governo do novo líder, Gurbanguly Berdymukhamedov.

O caso mais complexo é o Quirguistão, que passou pela sinistra Revolução da Tulipa em 2005 e pela Revolução anti-Tulipa em 2010. Hoje, o Quirguistão é república parlamentar pluripartidária, mas continua naufragado em miséria, com sérios antagonismos entre norte e sul e o Vale Ferghana, campo minado de disputas étnicas.

Noutros pontos, prevalecem reformas cosméticas. O Parlamento é hoje um pouco menos caricato no governo de Karimov – do que seria, em tese, sob Nazarbayev.

Nursultan
Nazarbayev
Mas esqueçam eleições livres e justas, mídia independente ou verdadeiro debate multipartidário. O Uzbequistão poderia facilmente se converter numa Síria Centro-Asiática, com guerra civil entre o sistema Karimov, o exército, os radicais, o Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU) alinhado com os Talibã e a oposição secular. Quanto à porosa fronteira tadjique-afegã, continua a ser atração extremamente atraente para o Islã radical.

Entreguem-me na minha base a tempo [1]

A Ásia Central é crucial, porque está no coração da Eurásia – e, pois, no coração do Novo Grande Jogo, no qual se confrontam essencialmente EUA versus Rússia e China, com vasto sortimento de players menores, como Irã, Turquia e Paquistão.

No que tenha a ver com o jogo hardcore de poder chamado Novo Grande Jogo, ninguém ali sequer cogita, remotamente que fosse, de democracia. Washington parece dar a impressão de que a Ásia Central é área de influência russa – e chinesa. Nada disso. Não há projeto que seduza mais o establishment de inteligência norte-americana que as bases militares dos EUA, por toda a Ásia Central.

Emomalii Rakhmon
No final de junho, as autoridades do Uzbequistão deixaram a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organisation (CSTO)]. Esse CSTO é um fórum que existe há dez anos, de questões político-militares, que reunia Rússia, Belarus, Armênia e, até a defecção do Uzbequistão, os cinco ‘-stãos’ da Ásia Central.

Tashkent disse [2] que se separava da CSTO por causa de “diferenças” relacionadas ao Afeganistão. A verdadeira razão, segundo Vadim Kozioulin, especialista em Ásia Central: uma complexa negociação com Washington para, talvez, “devolver” aos EUA a base militar de Khanabad, que passou a ser usada pela Rússia desde que Karimov expulsou de lá os EUA, em 2005.

Os uzbeques podem por a mão em uma montanha de bugigangas, se o negócio sair: armas, toneladas de equipamento não militar que, se não tiver esse destino, será deixado apodrecer no Afeganistão e, o principal prêmio, o status de “aliado estratégico dos EUA”. [3]

Gurbanguly
Berdymukhamedov
O objetivo central de Washington em tudo isso é – e o que mais seria?! – acrescentar mais um elo no progressivo cerco ao Irã. É há também o objetivo de Tashkent – torpedear o projeto que é hoje menina-dos-olhos do presidente Vladimir Putin da Rússia: uma União Eurasiana. [4]

O Tadjiquistão, por sua vez, acirra a disputa entre Moscou e Washington em torno do aeroporto militar de Aini, a apenas 15 quilômetros da capital Dushanbe. Tadjiquistão hospeda a 21ª Divisão Russa, com mais de 6 mil homens, na maior base russa fora da Rússia, de todo o mundo.

Washington já está no Quirguistão via a pequena base de Manas, próxima da capital Bishkek – crucial para a guerra do Afeganistão. Mas Bishkek quer muitos rublos pelo aluguel, a Moscou, de três outras bases.

O resumo de tudo é que essas elites centro-asiáticas imensamente corruptas já salivam, antecipando o momento em que a OTAN deixará o Afeganistão, em 2014. Mas os EUA, seja como for, permanecerão lá, com aqueles 20 mil e tantos “conselheiros”. E a todos esses regimes, Washington mantém a oferta proverbial que eles não podem recusar: apoio político.

Uma coisa é certa: Putin fará o diabo; quem tentar deter Moscou pagará caro.

Agora, sobre a “comunidade internacional” real

O Novo Grande Jogo corria solto, quando os presidentes de China, Rússia e os quatro “-stãos” (menos o Turcomenistão idiossincrático) reuniram-se em Pequim, no início de junho, para a reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [orig. Shanghai Cooperation Organisation (SCO)]. [5]

A Organização de Cooperação de Xangai (SCO) incluiu incremento de países asiáticos, mas tradicionais potências ocidentais não foram convidadas a participar [EPA]
Importantíssimo, os presidentes do Afeganistão, Irã, Paquistão, Turcomenistão e Mongólia, além do ministro de Relações Estrangeiras da Índia também participaram daquele encontro. Não poderia haver melhor cenário para que a OCX anunciasse – via Moscou e Pequim – outra visão de mundo, a deles, absolutamente diferente da visão de mundo ocidental.

Eis aqui, então, parte considerável do que a verdadeira “comunidade internacional”, a real – não aquela ficção de que falam Washington, Londres e Paris – pensa sobre episódios chaves do Novo Grande Jogo.

A OCX é absolutamente contrária ao esquema de escudo de mísseis de EUA-OTAN. Quanto aos ‘-stãos’ centro-asiáticos, melhor que se mantenham afastados da OTAN: se houver crise regional, terá de ser resolvida regionalmente. A OCX quer “um Afeganistão independente, neutro e em paz” (o Afeganistão já foi promovido ao status de observador da Organização de Cooperação de Xangai); é o mesmo que dizer, com outras palavras, que Rússia e China farão o que for preciso fazer e possam fazer para apagar a influência dos EUA sobre Kabul.

A OCX condena intervenções ditas “humanitárias” à moda do que foi feito contra a Líbia, e todo os tipos de sanções unilaterais. A OCX privilegia a lei internacional da velha escola que produziu a Carta da ONU – e trabalhará a favor de uma futura reforma do Conselho de Segurança da ONU. Sobre a Síria, a única solução é o diálogo político, no qual Moscou, sempre sensível, incluirá o Irã.

A OCX considera “inaceitável” um possível ataque contra o Irã. Ao mesmo tempo, e importantíssimo, nem Pequim nem Moscou querem ver alguma hipotética bomba nuclear iraniana.

Haverá crescente cooperação econômica entre os estados-membros da OCX. Passos futuros incluem um Banco de Desenvolvimento da OCX. Moscou continua a ser o principal parceiro comercial dos “-stãos” centro-asiáticos.

E um desenvolvimento muito intrigante: a Turquia, estado-membro da OTAN – e parte da rede chamada “escudo de mísseis” dos EUA – foi admitida como “parceira para diálogos”, na Organização de Cooperação de Xangai. Nada de admissão, pelo menos ainda não, nem para Índia nem para o Paquistão. Mas é inevitável que, em futuro próximo, esses países também se tornem membros plenos, assim como o Irã.

Ainda não se pode falar de uma OTAN oriental. A Agência de Notícias Xinhua, em movimento de despistamento, insiste que a Organização de Cooperação de Xangai é uma “parceria”, não uma “aliança”.

O que está “blowing in the wind”?

A OTAN, evidentemente, tem ideias diferentes. Convidou quatro “-stãos” (exceto, outra vez, o Turcomenistão) a participar da reunião de cúpula da aliança, em Chicago, em maio. A OTAN tem anseio ainda mais forte que o da OCX por “parcerias”. Mas, em idioma da OTAN, “parcerias” significa “bases militares”.

Dizer que a OTAN e a OCX estão em rota de colisão é dizer pouco. Já há muito tempo o foco da OCX deixou de ser o fundamentalismo islamista – como o dos Talibã no Afeganistão. De agora em diante, como o ministro Sergei Lavrov das Relações Exteriores da Rússia deixou bem claro, a OCX terá política comum para qualquer tipo de crise na região – e, por falar nisso, também para crises fora da região.

A principal e mais grave dor de cabeça que a OCX terá de enfrentar, em clave local, será o Uzbequistão. Wily Karimov está aumentando as apostas como se não houvesse amanhã.

A Rede Norte de Distribuição da OTAN [orig. NATO's Northern Distribution Network (NDN)] para o Afeganistão inclui Uzbequistão, Tadjiquistão e Turcomenistão. O que o trio realmente quer é lucrar o mais possível por ser território de passagem. Dado que a agenda real (oculta) da OTAN não é qualquer “securitização” da Ásia Central, mas criar uma barreira que impeça o avanço da influência de Rússia e China, está montado o cenário para episódios épicos de barganha e corrupção desenfreadas.

O que é e continua bem claro é que, nessa nova rodada do Novo Grande Jogo, o que menos o ocidente deseja ver operante é alguma “democracia”. Por esse motivo, o ocidente não facilitará processo algum que ameace soprar algum sopro de Primavera Árabe na direção dos países da Rota da Seda.



Notas dos tradutores:
[1] Orig. “Get me to my base on time”. Todos que trabalhamos nessa tradução lembramos de “Get me to the church on time” [“Amarrem-me, prendam-me, chamem o Exército, mandem-me pelo Correio, mas... entreguem-me na Igreja a tempo”], de My Fair Lady, cantado na Broadway em 1957 por Stanley Hollowly, já vestido a caráter, que sai para beber com os amigos feirantes, na véspera do casamento. Inesquecível. Pode ser visto e ouvido a seguir:

[2] 29/6/2012, Voz da Rússia em: Small loss of(em russo)
[3]  4/7/2012, Nezavisimaya Gazeta, Victoria Panfilov em: Uzbequistão se volta para os EUA (em russo)
[4] 3/10/2011, Reuters, Gleb Bryanski em: Russia's Putin says wants to build “Eurasian Union” (em inglês)
[5] 26/6/2011, Al-Jazeera, Pepe Escobar, na redecastorphoto em: Pequim e Moscou, depois da reunião da Organização de Cooperação de Xangai, em português.Ver também, sobre o mesmo encontro, em: 13/6/2012, Asia Times online, MK Bhadrakumar, na redecastorphoto em: OCX: para enfrentar tempos de mudanças, em português.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Paquistão está dificultando a retirada dos EUA do Afeganistão


2/3/2012, Ron Synovitz e Iskandar Aliev, Tadjiquistão
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu



Entreouvido na Vila Vudu:
Essa notícia que vos chega gratuitamente do Tadjiquistão é totalmente desjornalística e TOTALMENTE SENSACIONAL. 
As “potências ocidentais” estão láááá longe, esperneando na arapuca em que se meteram sem ser chamadas, para implantar a “democracia” e acabar com o terrorismo na galáxia, tudo a ferro e fogo e targeted killings. Só que já não conseguem nem abrir uma picada no mato, pra carregar de volta as zilhões de zilhões de toneladas de armas que levaram para lá e, agora, têm de carregar nas costas de volta prô “ocidente”, e rápido... Antes que os “nativos” passem a mão naquele tresloucado arsenal.
Ah, sim, sim, “o presidente Nursultan Nazarbayev, o ‘leopardo das neves’ do Cazaquistão, já falava de uma União Eurasiática desde 1994, como Pepe Escobar escreveu em “Jogo de Xadrez na Eurásia”, em novembro do ano passado
Ele deve estar adorando receber lá esse desfile de ministros das “grandes potências”, um depois do outro.
Quanto a Putin, que nunca foi Washington Luiz, nem jamais supôs que “governar é abrir estradas”... 
Bom... A eleição de Putin acontece no próximo domingo. Não deu na Globo, mas... a Hilária está sendo comida pela perna.

Gen. William Fraser
O principal comandante de transporte militar dos EUA disse que é necessário que o Paquistão reabra à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) as rotas de transporte pesado que cruzam território paquistanês, para que os EUA consigam completar a retirada do Afeganistão até o final de 2014. 

Em novembro de 2011, o Paquistão fechou as estradas de transporte pesado, pela qual transitavam os suprimentos para a OTAN, em momento de grave deterioração nas relações com os EUA - OTAN. 

Dia 28/2, o general William Fraser do exército dos EUA disse à Comissão das Forças Armadas do Senado [1] que a chamada “Rede Norte de Distribuição”, que cruza a Ásia Central, não basta para o transporte de todos os tipos de carga que têm de ser levados do Afeganistão, ao ritmo necessário para manter o cronograma da retirada. 

Fraser disse que há acordos vigentes com o Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão que pemitem o trânsito por esses países, do equipamento que ainda está no Afeganistão – mas os acordos não permitem que se transportem armas de nenhum tipo. 

Caminhões transportando suprimentos para tropas dos EUA-OTAN no Afeganistão retornando da fronteira AF-Pak depois do fechamento pelo Paquisão

Disse que os EUA estão explorando outras vias para deslocar suprimentos não letais e alguns tipos de blindados que podem ser transportados através daqueles países. 

Suas declarações sugerem que blindados leves como os US Humvee utilizados pelos soldados dos EUA no Afeganistão – e talvez também os veículos Bradley blindados para transporte de pessoal – podem transitar pela Ásia Central sem violar acordos existentes, desde que todas as armas sejam removidas. 

Mas é preciso encontrar outra solução para transportar os tanques pesados M1A1 Abrams que foram usados na província de Helmand no início de 2011. 

Fraser disse também que Rússia e Uzbequistão liberaram o trânsito pelas estradas em seu território, para a retirada de equipamento. 

A estrada do Tadjiquistão 

Gen. Sherali Khayrulloev, Ministro da Defesa do Tadjiquistão (D)
e seu homólogo, Gen.  Ahmad  Vahidi, do Irã (E)
No Tadjiquistão, o porta-voz do ministério da Defesa, Farhod Ibodulloev, disse ao serviço tadjique de notícias, dia 29/2, que o general Fraser visitou Dushanbe semana passada, para encontros com o ministro da Defesa Sherali Khayrulloev. 

Os analistas tadjiques lembram que, em 2007, os EUA concluíram a construção de uma ponte, estimada em $37 milhões de dólares, sobre o rio Panj, que liga o norte do Afeganistão e o Tadjiquistão. Essa ponte poderia ser usada para retirada de materiais. O porta-voz informou que o general americano e o ministro concordam que, para o trânsito de carga, são suficientes os acordos existentes, e não se exige nenhum novo acordo para a retirada de equipamento não letal e veículos blindados. 

Aquela ponte permite tirar do Afeganistão cargas da OTAN e transportá-las até a base aérea francesa em Dushanbe, dali a uma base alemã no Uzbequistão ou ao Quirguistão, onde os EUA mantêm alugada uma parte do Aeroporto Internacional Manas, onde armazenam as cargas que circulam pela Rede Norte de Distribuição. A carga da OTAN também pode ser embarcada por via férrea no Tadjiquistão, atravessando a Rússia, até portos do Báltico. 

Na audiência no Senado, dia 28 de fevereiro, Fraser disse também que todos os aviões que traziam suprimentos para o Afeganistão estão agora sendo completamente carregados com os itens não letais a serem retirados, e que chegaram como parte do surge, no final de 2011, que elevou o número de soldados no Afeganistão, de 70 mil, para 110 mil.

Contudo, disse Fraser, o fechamento das estradas para transporte de equipamento pesado por terra através de território paquistanês, que eram usadas para levar até o Afeganistão grande parte do equipamento militar usado pelos EUA, já reduziu o ritmo da retirada e passa agora a ameaçar gravemente todo o cronograma.

Planos britânicos 

Philip Hamond
Oficiais da Grã-Bretanha também tentam encontrar rotas alternativas para retirar de território afegão seus soldados e carga militar. O secretário da Defesa britânico, Philip Hammond, esteve no Uzbequistão dia 29 de fevereiro, onde assinou acordo com o governo do Cazaquistão, para trânsito aéreo em território daquele país, de equipamento militar e soldados. 

O ministério da Defesa da Grã-Bretanha informou que Hammond e o presidente cazaque Nursultan Nazarbaev também acertaram o início das conversações para construir um acordo para transporte de equipamento militar e soldados também por terra. 

Em Astana, Hammond disse que a Grã-Bretanha enfrentava “gigantesca operação logística” para retirar do Afeganistão 11 mil contêineres e cerca de 3 mil veículos blindados – e que a Grã-Bretanha começava a “trabalhar com nossos parceiros na região, para dar conta dessa operação”. 

O ministro da Defesa do Cazaquistão, Adibek Dzhaksybekov, disse, depois das reuniões com Hammond dia 28 passado, que “a cooperação militar internacional” é um dos itens cruciais para “garantir a segurança regional”.

Essa semana, também o ministro britânico das Forças Armadas, Nick Harvey, deve chegar à região, para dar prosseguimento às negociações iniciadas por Hammond, no Quirguistão, Tadjiquistão e Turcomenistão.



Nota dos tradutores
[1] Ver “Texto preparado para a audiência no Senado”, Air Force Magazine, 28/2/2012.