quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CIA, via Washington Post, tenta “salvar” seu programa de drones

30/10/2013, TRNN. [*] Gareth Porter entrevistado por Jaisal Noor
Vídeo - entrevista (8’33”)traduzida da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Jaisal Noor, produtor de TRNN: Bem-vindos à The Real News Network e a mais uma edição de The Porter Report. Sou Jaisal Noor e falo de Baltimore.

Nessa 3ª-feira, pela primeira vez, uma família de paquistaneses que sobreviveram a um ataque por drones compareceu a uma audiência do Congresso, no Capitólio, para depor e testemunhar contra os efeitos devastadores que o programa dos drones dos EUA teve em sua vida. Presidida pelo Deputado Alan Grayson da Florida, a audiência acontece num momento em que o caríssimo programa dos drones do governo Obama enfrenta críticas de grupos de defensores de direitos humanos e na ONU. O Gabinete de Jornalismo Investigativo [orig. Bureau of Investigative Journalism] estima que os ataque de drones já mataram mais de 3.600 paquistaneses.

Em visita a Washington semana passada, o Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif conclamou os EUA a pôr fim aos ataques no Paquistão.

Então, de repente, aconteceu “algo”: o jornal Washington Post noticiou que, segundo memorandos secretos da CIA que o jornal teria obtido, o governo do Paquistão, embora critique publicamente o programa de drones dos EUA e a matança de civis, estaria, de fato, mancomunado com o governo dos EUA e, secretamente, apoiaria o programa de drones.

Nosso entrevistado de hoje diz que, porque os militares paquistaneses já estavam na mídia contra os drones, “o vazamento de documentos secretos pela CIA, para o Washington Post, parece evidenciar um esforço, dos funcionários da CIA para opor-se à decisão do governo Obama de reduzir ao mínimo a guerra às drogas no Paquistão, ou de abandonar completamente esse programa...”

Hoje, temos conosco Gareth Porter, historiador e jornalista investigativo especialista em questões militares e de política externa. Obrigado por nos receber, Gareth.

PORTER: Obrigado pelo convite, Jaisal.

NOOR: Você publicou um artigo respondendo a essa matéria muito comentada do Washington Post que surgiu em ocasião muito conveniente, em que cresce a oposição, internacionalmente, e conduzida por grupos de direitos humanos, na ONU e também pelo Primeiro-Ministro do Paquistão que esteve nos EUA. Todos esses exigem o fim dos ataques dos drones dos EUA. Você sabe, esse ano os ataques por drones no Paquistão foram muito reduzidos. Fale-nos um pouco sobre o timing dessa notícia do Washington Post, ou, de fato, sobre o timing desse vazamento da Agência de Inteligência Central (CIA) dos EUA, para o Washington Post.

PORTER: Bem, aí há dois aspectos. Um é o timing de curto prazo. Quanto a isso, é claro que tudo foi feito para coincidir com a visita de Nawaz Sharif, porque já se sabia que Sharif diria publicamente que dissera ao presidente Obama que o governo do Paquistão exige o fim dos ataques de drones.

E, ao mesmo tempo, me parece, há aí outro timing mais geral, de mais longo prazo, que, como você já disse, tem a ver com o fato de que o governo Obama está sob forte pressão na questão da guerra de drones no Paquistão. E tem havido sinais claros, nos últimos meses, de que o governo Obama está reconsiderando toda a política da guerra dos drones no Paquistão. Ambos, o presidente Obama e o secretário de Estado, John Kerry, fizeram já declarações oficiais nessa direção. E, de fato, John Kerry disse mais recentemente, em agosto, que acreditava que o presidente tinha planos para pôr fim a tudo isso e que esperava que acontecesse logo.

Portanto, é claro para mim que o pessoal da CIA que trabalha na guerra dos drones no Paquistão sentiu-se acuado. Eles temem que o programa seja extinto. E acho que resolveram resistir. O que vimos nessa história do Washington Post é um esforço para “virar” a discussão, para pôr a opinião pública contra alguma decisão do governo para pôr fim ao programa de drones. Para tanto, estão declarando que o governo paquistanês não mereceria confiança, nem respeito, porque seria “hipócrita” ao dizer que o programa tem de acabar.

Tudo isso, é claro, representa erradamente a verdade da situação, que já conhecemos há bom tempo. Sabemos há vários anos que, sim, houve um entendimento durante o governo de Musharraf, pelo qual a CIA dos EUA tinha autorização para usar drones contra a al-Qaeda, e que os militares aceitavam integralmente essa situação, assim como o governo civil, nos anos iniciais do programa. E é compreensível, porque, no início, os alvos eram – ou se supunha que fossem – da al-Qaeda. De fato, é preciso dizer, há inúmeras provas de erros nos ataques; muitos civis morreram; a inteligência que norteava os drones era de baixa qualidade ou insuficiente e houve muitas vítimas civis e inocentes, mortas nos primeiros dois ou três anos daquele programa.

Mas o verdadeiro problema surgiu em 2008, quando a CIA convenceu a Casa Branca a expandir a lista de alvos para incluir, além de membros da al-Qaeda, também “alvos de alto valor”, predefinidos, no que a CIA chamou de “ataques assinados”, significando que os ataques seriam dirigidos contra gente considerada do “alto comando” de organizações terroristas. Esses alvos passaram a ser “selecionados” por simples suposição de que um ou outro suspeito tivesse algum (no sentido de “qualquer”) envolvimento não só com a al-Qaeda mas, também, com os Talibã afegãos. Nesse momento, em que o número de “alvos” foi muito ampliado, aumentou muito, também, o número de civis mortos nos ataques por drones. Nesse momento, sim, os militares paquistaneses passaram a opor-se fortemente ao programa dos drones.

Aí está a explicação de por que as fontes na CIA conseguiram enganar ninguém menos que Bob Woodward, jornalista longamente associado ao jornalismo investigativo e que ainda tem reputação de ser jornalista sério. Temo que, nesse caso, Woodward foi usado.

NOOR: Mas... Não se vê aí um sinal de desespero na CIA? Será sinal de que a oposição internacional pode, afinal, estar tendo algum efeito? Ou o caso é que, sim, o programa é inefetivo e, por isso, o governo Obama começou a mudar de direção e a afastar-se dos drones?

PORTER: O quadro é mais complicado. Não há dúvidas de que a pressão da comunidade internacional, pelo menos pela publicidade que se deu ao número de civis mortos, teve seu papel. Somou-se à pressão sobre o governo para que considerasse com mais atenção se o programa é realmente necessário.

Mas, nessa discussão, aconteceu também que os ataques de drones estavam visando, como já disse, os Talibã afegãos que estavam ou têm base no Paquistão. E, porque os EUA estão saindo do Afeganistão, não há dúvidas de que o governo Obama está reconsiderando o programa, se é ou não necessário dar prosseguimento à guerra combatida no Afeganistão. Aí está boa parte da razão pela qual acho que o governo está pronto, agora, para dizer que, ora... já não precisamos, realmente, desse programa.

O ponto final é que já mataram muitos alvos “de alto valor”, da al-Qaeda. Mataram grande número de altos quadros da al-Qaeda ou, pelo menos, um número significativo, e já não estão encontrando muitos outros, da al-Qaeda, para matar. Assim sendo, a justificativa original para o programa, de fato, já não existe há muito tempo.

Por tudo isso, me parece que a principal razão pela qual a CIA insiste em manter o programa dos drones é porque é “bom negócio” e ajuda a pagar as contas da CIA. A CIA não quer perder um grande programa, que foi fonte de muito dinheiro, ou, em outras palavras, de muito investimento na CIA, já há vários anos.

====== DESPEDIDAS E FIM DA ENTREVISTA ======


[*] Gareth Porter (nascido em 18 junho de 1942) é um historiador americano, jornalista investigativo, autor e analista político especializado na política de segurança nacional dos EUA. Especialista em Vietnã e ativista anti-guerra durante a Guerra do Vietnã, servindo em Saigon como chefe do departamento de expedição do News Service International nos anos 1970-1971 e, mais tarde, como co-diretor do Centro de Recursos da Indochina. Foi muito criticado por seu entusiasmo pelo Khmer Rouge, partido do governo do Camboja, na época. Escreveu vários livros sobre os conflitos no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o mais recente dos quais é Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam; uma análise de como e por quê os Estados Unidos foram à guerra no Vietnã. Porter também tem escrito para Al Jazeera –em inglês, The Nation, Inter Press Service, The Huffington Post e Truthout. Foi vencedor em 2012 do Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo, que é atribuído anualmente pelo Club Frontline em Londres. Porter é formado na Universidade de Illinois. Recebeu seu mestrado em Política Internacional na Universidade de Chicago e seu Ph.D. em Estudos sobre o Sudeste Asiático na Universidade de Cornell. Ministrou cursos sobre Estudos sobre Política Internacional no City College of New York e na American University. Atualmente atua como jornalista free-lancer para inúmeras publicações internacionais.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Começou a desamericanização do mundo - 2015: emergem soluções para um mundo multipolar

16/10/2013, Global Europe Anticipation Bulletin, GEAB, n. 78  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Há momentos em que a história acelera. Sejam quais forem os resultados da negociação sobre o “fechamento” do governo dos EUA e sobre o teto da dívida pública dos EUA, o mês de outubro de 2013 é um desses momentos. O impasse no Congresso, prorrogado por tempo demais, abriu os olhos de muitos dos que ainda apoiam os EUA. Segue-se líder no qual se creia; não se segue líder ridicularizado.

“Construir um mundo des-americanizado” é palavra de ordem que, há poucos anos, seria risível. No máximo, teria soado como provocação ao estilo de Hugo Chávez. Mas, se se assiste em tempo real à bancarrota dos EUA, e se quem fala em “mundo des-americanizado” é o jornal oficial do Partido Comunista Chinês, [1] o impacto é de outra natureza. De fato, o que se vê é um processo que já está em andamento e bem adiantado; apenas que, antes, ninguém se atrevia a falar dele publicamente. O ‘trancamento’ do governo dos EUA teve a serventia de, pelo menos, liberar as manifestações. [2] E, para que ninguém se engane: a palavra de ordem para a construção de mundo des-americanizado não surgiu por acaso na mídia oficial chinesa; e, sim, é indício de que Pequim está endurecendo o tom.

De fato, se o mundo inteiro prende a respiração à espera do desfecho do “trancamento” do governo dos EUA, esse jogo patético da elite norte-americana, não é por compaixão, mas, sim, para evitar de ser arrastado para dentro do mesmo sumidouro, na queda da primeira potência mundial. Todos tentam livrar-se da influência dos EUA e distanciar-se dos EUA já desacreditados para sempre, depois dos eventos na Síria, as das gravações clandestinas, da vigilância sem qualquer controle, do “trancamento” do governo e, agora, do problema do teto do endividamento. O legendário poder dos EUA já não passa de grave incômodo para o mundo; e o mundo começa a compreender que é hora de se des-americanizar.

Essa perspectiva e a possibilidade de dizer o “indizível” [3] e de discutir o “indiscutível” estão finalmente abrindo caminho para uma série de soluções que, até agora, estiveram absolutamente reprimidas e cujos mais simples sinais, em alguns casos, permaneciam silenciados e proibidos. Essas soluções aceleram já a construção do mundo futuro e a abertura para um mundo multipolar organizado em torno de grandes blocos regionais.

Depois de fazer uma sinopse-revisão dos vários revezes que os EUA sofreram recentemente, nossa equipe de analistas propõe, nesta edição de GEAB, algumas análises das forças que vão modelando esse mundo em mutação. (...)

“Não. Não podemos”

Como os tempos mudam! O mundo já esqueceu as palavras “liberdade”, “esperança” e o afamado slogan “Yes we can” [Sim, podemos] que representou a sociedade norte-americana aos olhos de gerações passadas; hoje, só se ouve falar de “arapongas”, “grampos”, “escutas ilegais”, espionagem comercial, “trancamento” ou “fechamento” ou “teto da dívida”. Não é exatamente a mesma dinâmica e a imagem, antes positiva, tornou-se muitíssimo negativa.

Chama a atenção o quanto a atual situação dos EUA confirma o velho dito segundo o qual a desgraça nunca chega sozinha. Num período de seis semanas, que começou pela humilhação que a Rússia impôs aos EUA, no caso da Síria; depois o banco central dos EUA, a admitir que não é possível reduzir a injeção de mais dinheiro público na economia (o chamado “alívio financeiro quantitativo”, ing. quantitative easing) [4]; a dificuldade extrema, a incapacidade de o Congresso aprovar um Orçamento, que levou ao ‘trancamento’ do governo federal norte-americano, que perdurou por bem mais tempo que o razoável. [5] As negociações em torno do teto da dívida ainda emperradas, a dois dias da data limite [na data do artigo]; o G20 a ordenar aos EUA que ratifique a reforma proposta pelo FMI, ratificação bloqueada há já três anos; e pelo Banco Mundial e o FMI, para que ponham ordem nas finanças norte-americanas. [6] E agora, o tiro de alerta dos chineses, à frente da proa, para conter o desastre em marcha.

Sucessão de crises

Essa sucessão de crises é altamente preocupante para o país e indica aceleração sem precedentes, e choque à vista. Há algo de fatalidade nessas crises. Mas há também uma dose de “recuperação estratégica”. [7] O “trancamento” do governo explorado por Obama, para pressionar os Republicanos a favor do aumento do teto da dívida – esse, sim, um prazo muito mais importante para os EUA. É obviamente sucesso apenas parcial, mas ainda se pode esperar aumento pelo menos temporário no endividamento, o que adiará os problemas por algumas semanas; [8] mas ainda é possível que o Congresso opte pela via da tragédia, porque já não opera no domínio de decisões racionais e já nada se pode prever.

Custo de securitizar US$ 10 mi da dívida pública dos EUA, contra calote. Fonte: Markit. 
De fato, muitos observadores têm-se focado no movimento Tea Party o qual, como acionistas minoritários que podem controlar uma empresa mediante participação em empresa maior, conseguiu sequestrar o Partido Republicano e a sociedade norte-americana; mas também é possível interpretar o mesmo quadro, pela via oposta. Muitos norte-americanos já veem a realidade exposta ante seus olhos: os EUA estão falidos. Assim sendo, será mais razoável adiar o confronto com a realidade, sob o risco de ver os problemas crescerem? Ou o melhor é resolver os problemas já? Para a maioria da população, o calote da dívida dos EUA não é o pior dos males. [9] Além do mais, que outra solução haverá? Os Republicanos não querem precipitar a crise? É a situação ideal, porque podem culpar o Tea Party, que disse, com todas as letras, que “melhor nenhum acordo, que um mau acordo”. [10]

O que queremos dizer é que, dessa vez, ou numa próxima ocasião no futuro próximo, os Republicanos podem, sim, ser tentados a cortar o nó górdio.

Do mesmo modo, parece haver aí alguma recuperação estratégica, quando o Fed voltou atrás, depois de reduzir o “alívio quantitativo” [orig. quantitative easing]. Por que o Fed deixou que todos acreditassem que não haveria o terceiro “alívio quantitativo”... apenas pouco antes de começar... o terceiro “alívio quantitativo”, que, afinal, começou?

Não há notícia de ação semelhante, pela qual os investidores são deixados no escuro, depois são desencaminhados e, na sequência, são completamente colhidos de surpresa, com 100% deles convencidos pelas “orientações” que lhe dava o governo, até descobrirem que não, que aconteceria o contrário! É possível não haver qualquer conexão entre uma vasta negociata e essas idas-e-vindas até o anúncio oficial final, pelo Fed, [11] e que renderia bilhões de dólares aos envolvidos?

Todas essas pistas e evidências confirmam nossa hipótese de instituições financeiras norte-americanas desesperadas, que têm de ser resgatadas discretamente mediante essas operações, para que a credibilidade do Fed não seja mortalmente ferida. Mais uma vez, são soluções de curto prazo que só pioram a situação geral, mas empurram um pouco para adiante o prazo fatal.

Não somos os únicos a tocar o sino de alarme e de máxima atenção contra esses bancos norte-americanos: o Banco da Inglaterra também já espera a quebra de grandes bancos que, para os ingleses, já perderam o status de “grandes demais para falir”. [12] De fato, estamos repetindo um alerta que já publicamos.

Como no caso de luta de boxe, todos esses golpes contra o mesmo boxeador acumulam-se, e o país já está grogue; mais um golpe, e estará na lona. Acontecerá, se os EUA derem “calote” na dívida externa em outubro [já se sabe que, dessa vez, não deram (NTs)], ou adiante, no prazo limite posterior que já tenha sido adiado e não pode ser adiado eternamente.

O “trancamento”: risadas (mas forçadas) em todo o mundo

Quando escrevemos, em GEAB n. 77, sobre a votação do orçamento: “não há dúvida de que algum acordo surgirá, no último momento ou, mais provavelmente, algumas horas ou dias depois de esgotado o prazo”, é inevitável que se perceba que continuamos a não dar grande importância às diferenças políticas em Washington, sobretudo depois que os “vários dias” em que se pensava no início já viraram semanas de “trancamento”. O diário francês Le Monde, oferecia a seguinte manchete em sua página na Internet: “Washington: triste espetáculo”. [13] Mas, afinal, esse “trancamento” não teve impacto fortíssimo sobre os mercados financeiros, [14] o que indica que muitos Republicanos parecem supor que todos se estão adaptando bem a uma paralisia no governo federal e aos cortes de gasto público que se seguirão.

Mas essa não é a opinião de países que detêm grande volume de bônus do Tesouro dos EUA, que se sentem como reféns sequestrados pelos EUA. [15] Esses se mostram boquiabertos ante a indefensável leviandade dos EUA e pela atitude irresponsável de quem, até recentemente, era “o patrão”. Se os EUA derem calote em suas dívidas, as ondas de choque sem dúvida serão terríveis. Mas não será o fim do mundo, porque o calote pode assumir a forma de simples atrasos de alguns dias nos pagamentos; além disso, e sobretudo, diferentes partes do mundo serão afetados de modos diferentes, conforme a extensão da separação em relação à economia dos EUA. Não há qualquer dúvida de que o país que mais sofrerá com o calote das dívidas norte-americanas (e, de fato, também se se adotar qualquer outra solução) serão os próprios EUA. Afinal de contas, os EUA são proprietários de 2/3 do total de papéis de sua própria dívida pública.

Detentores da dívida pública dos EUA - Fonte: npr.org.
Vermelho: detentores estrangeiros
Marrom: detentores domésticos
Azul: governo federal

Essa é a razão pela qual os países mais bem administrados já começaram a separar suas respectivas economias da economia dos EUA, com a China à frente. A China sabe, aprendido de Sun Tzu, que “quando se ouve a trovoada, já é tarde demais para cobrir as orelhas”. [16]



Notas de rodapé
[1] 16/10/2013, “Fracasso fiscal nos EUA obriga a trabalhar para um mundo des-Americanizado”, Liu Chang, Xinhuanet (traduzido).
[2] Até o Financial Times manifestou-se (2/10/2013): “O sistema baseado no dólar é inerentemente instável”, afirmação absolutamente sem precedentes e quase inacreditável em jornal financeiro em língua inglesa.
[3] A reação mundial ao artigo de Xinhuanet aqui citado mostra o interesse que despertou a manifestação da segunda maior potência mundial, e confirma que aquele artigo quebrou um tabu “de silêncio” e ajudará a implementar soluções que a maioria dos países aguardam há muito tempo. Ver, por exemplo, a excelente análise de Pepe Escobar, no Asia Times, 15/10/2013 em: “O nascimento do mundo des-Americanizado”, (traduzido)
[4] Fonte: Bloomberg, 18/09/2013.
[5] Fonte: CNN, 14/10/2013. 
[6] Fonte: por exemplo, dentre outras, PressAfrik, 12/10/2013.
[7] Recuperação estratégica (def.) – Metodologia que uma organização usa para devolver operações e sistemas criticamente importantes ao estado normal de operação, depois de um desastre.
[8] Fonte: New York Times, 15/10/2013. 
[9] “58% dos norte-americanos votariam contra a elevação do teto da dívida”. Fonte: Fox News, 8/10/2013. 
[10] Fonte: Le Monde, 15/10/2013. 
[11] Fonte: USA Today, 24/9/2013. 
[12] Fonte: The Telegraph, 12/10/2013. 
[13] Le Monde, 14/10/2013.
[14] Obviamente, dado que o Fed continua a insistir em seu desembestado “alívio quantitativo” (ing. quantitative easing) = emissão de moeda sem lastro.
[15] Seja como for, são reféns “por decisão própria”, porque massiva e voluntariamente financiaram o país...

[16] SUN TZU, The Art of War, 6th century BC [A arte da guerra (traduzido)].

O inverso da velha piada

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações redecastorphoto

Lembram-se daquela velha piada do papagaio do padre francês que a cafetina comprou para dar um ar de moralidade na porta de entrada do rendez-vous muito chic e bem frequentado, oferecendo recepcionistas importadas, sobretudo francesas que mexiam com os fetiches e imaginações da macharada da época?

Martin Almada e a
Operação Condor
O bichinho muito educado cumprimentava a cada um que entrava e saía na maior finesse:

Bon soir Monsieur! Comment allez-vous? Arrivez vous chez les Mademoiselles! Ça va bien?.

Mas no dia que viu uns generais fardados aproximando-se e em direção à casa de tolerância, berrou adentro:

Corrê putadá qu’ os homê vem chegandô!

Pois é... De tão velha ninguém mais ri dessa piadinha que se em algo divertia nos tempos da ditadura, era só pela chacota implícita aos milicanalhas da ocasião. E o francesismo incluído em algumas interpretações era só rapapé para obter maior efeito, realçando o brasileirismo final com nosso francês colegial do currículo escolar de então.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e, quem diria, a velha piada ressurge em versão inversa, como se vê aí nos agradecimentos e solicitações do prêmio Nobel Alternativo, Dr. Martin Almada, vítima da Operação Condor, ao Embaixador da França no Paraguai.

Como diz aí entre 2004 e 2008 os arquivos dos crimes da Operação Condor foram abertos e investigados pela Commission pour la Vérité et la Justice da Argentina com a cooperação da justiça paraguaia e, agora em dezembro de 2013, se dará no Senado Francês e no Palais de Luxembourg une Conférence Internacionale sur l’Opération Condor.

Chic, não é? Já deveria ter chegado nossa vez de receber tamanha honraria e interesse internacional afinal nossa ditadura militar começou 10 anos antes da dos milicanalhas da Argentina. Ainda que a do Paraguai houvesse iniciado exatamente outra década antes da do 1º de Abril de 1964, com Alfredo Stroessner que iniciou sua carreira de crimes políticos contra o povo vizinho em 1954 e só em 1989 fugiu para o Brasil onde ficou acoitado até sua morte em 2006, em total impunidade.

Olivier  Poupard
Emb. da França no Paraguai
Infelizmente todos os nossos ditadores tiveram o mesmo lamentável destino, mas ainda vagam por aí muitos de seus colaboradores e bem merecem serem igualmente lembrados lá na França. Para o que todos podem colaborar divulgando essa carta do Dr. Martin Almada como um incentivo à nossa Comissão da Verdade e da Justiça.  

Mas não façam como o papagaio da piada. Sem avisos pra putadá que, hoje muito modesta, prefere o ostracismo dos pijamas que substituem as fardas nos cabides, como trocaram os cabos elétricos e alicates de arrancar unhas pelo controle remoto de TV.

Segura o bico do papagaio porque tem de ser surpresinha para não debandarem em saída à francesa.

Mas repassem! Eles merecem.

A seguir a carta (traduzida do francês para o português-BR) do Dr. Martin Almada ao Embaixador da França em Assunção- Paraguai

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Dr. Martin Almada
Dr. Martin Almada
Av. Carlos A. Lopez, 2273
Assunção

Assunção, 28 de outubro de 2013

À atenção de Sua Excelência
Embaixador da França
Dr. Olivier Poupard

Senhor Embaixador,

Em 22 de dezembro de 1992, com apoio da justiça de meu país descobri, após 14 anos de busca, 3 toneladas de arquivos da polícia secreta da ditadura de Alfredo Stroessner, que a imprensa se apressou em batizar como”Arquivos do Terror da Operação Condor.

Logo após esta descoberta o Congresso paraguaio criou a Comissão para a Verdade e a Justiça, trabalhou sobre esses arquivos desde 2004 até 2008, trabalho esse que resultou em 8 volumes de conclusões e recomendações.

Em 2009 a UNESCO declarou esses “Arquivos do Terror”  como Patrimônio da Humanidade, garantindo assim sua preservação e o direito de meu povo a consultá-los livremente. 

Como o senhor sabe, diante da inação da justiça paraguaia que se seguiu às conclusões obtidas pela Comissão da Verdade e a Justiça, venho trazer uma queixa-crime diante da justiça da Argentina, como me permite o princípio da Justiça Universal, visando continuar meu combate aos torturadores de meu pais e, assim, fazer respeitar os Direitos Humanos no Paraguai.

Entre 13 e 14 de dezembro de 2013 será realizada no Senado Francês e no Palácio de Luxemburgo uma Conferência Internacional sobre a Operação Condor em parceria com o Coletivo Argentino pela Memória. Nesta ocasião estarei no local para proferir um discurso pelo XXIº aniversário da descoberta dos “Arquivos do Terror”.

Esta carta visa solicitar uma audiência com o Presidente da República francesa, Sr. François Hollande, quando de minha já referida viagem à França, para exprimir oficialmente minha profunda gratidão ao seu país por ter me acolhido durante meu exílio forçado entre 1979 e 1992.

Da mesma maneira desejaria exprimir meu reconhecimento por ter sido a França o primeiro país a reconhecer a importância de minha descoberta, única em seu gênero em nosso continente, me condecorando com a Ordem Nacional do Mérito em 14 de fevereiro de 1997.

Queira aceitar, Senhor Embaixador, a expressão de minha mais distinta consideração,

Dr. Martin Almada,
Prêmio Nobel Alternativo

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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Partido Comunista Chinês se reunirá em “Pleno” de 9 a 12/11/2013

29/10/2013, [*] Zhu Ningzhu (Editorial) Xinhuanet, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vista frontal do Grande Salão do Povo em Pequim onde se realizará o "Pleno"
Pequim (Xinhua) – A 3ª Reunião Plenária do 18º Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC) acontecerá de 9 a 12 de novembro próximo em Pequim, segundo informe do Gabinete Político do Comitê Central do PCC distribuído hoje.

O anúncio foi feito depois de reunião dos membros do Gabinete Político com Xi Jinping, secretário-geral do Comitê Central do PCC, para estudar como “aprofundar amplamente as reformas”.

Durante a reunião desta 3ª-feira, todos ouviram um relatório das opiniões recolhidas dentro e fora do Partido, para uma primeira versão das decisões do Comitê Central do PCC sobre as principais questões relacionadas ao amplo aprofundamento das reformas.

Essa primeira versão será apresentada à 3ª reunião plenária, para revisão.

Reforma e abertura são uma “grande revolução” para o povo chinês sobre a liderança do PCC na nova era. Aprofundar as reformas exige melhorar e desenvolver o socialismo com características chinesas, como diz o informe.

Desde a 3ª sessão plenária do 11º Comitê Central do PCC, há 35 anos, o Partido promoveu reformas nos sistemas econômico, político, cultural e social, além das relacionadas ao progresso ecológico e à construção institucional do PCC. Desde então, diz o informe, a abertura foi continuamente ampliada.

A realização do sonho chinês de rejuvenescimento nacional exige aprofundamento amplo das reformas e reforço da confiança, teoria e sistema do socialismo com características chinesas; e “várias erros em sistemas e mecanismos têm de ser corrigidos” – nos termos do informe.

Plenário do Grande Salão do Povo
A sessão plenária verá o PCC trabalhar para apressar o desenvolvimento da economia socialista de mercado, da democracia socialista, do desenvolvimento cultural socialista, da harmonia social e da proteção ao meio ambiente.

Devemos deixar que o trabalho, o conhecimento, a tecnologia, a administração e o capital desenlacem o próprio dinamismo, que se soltem e espalhem-se todas as fontes de riqueza, e que o povo usufrua em justo equilíbrio mais frutos do desenvolvimento – diz o informe.

O documento acrescenta que a liderança do PCC deve ser reforçada e aprimorada, dando pleno desempenho à função central do Partido, que exerce liderança plena e coordena todos os esforços para assegurar o sucesso das reformas.

Todos os órgãos do Partido, em todos os níveis, são convocados para cumprir seu dever na liderança das reformas, aprimorar os mecanismos de tomada de decisões e aumentar a capacidade dos funcionários encarregados de impulsionar as reformas. Todos estão sendo convocados, também, a encorajar todos os membros do PCC a contribuir para as reformas.

Na mesma reunião, o comando do PCC aprovou regulação para combater o desperdício e a extravagância nos departamentos do Partido e do governo, conclamando a que se reforce a supervisão e imponham-se punições mais duras aos violadores.

Em anos recentes, departamentos do Partido e do governo puseram-se ocasionalmente a competir por ostentação e extravagância, o que levou a enormes gastos e desperdício, além de fortes reações do povo – diz o informe.

O Gabinete político aprovou e autorizou a divulgação da Regulação para Implantar a Frugalidade e Combater o Desperdício nos Departamentos do Governo e do Partido.

Membros do Comitê Central do PCC -Partido Comunista Chinês
Linha superior: Xi Jinping, Li Keqiang, Zhang Dejiang, Yu Zhengsheng;
Linha inferior: Liu Yunshan, Wang Qishan, Zhang Gaoli

Segundo o documento, a Regulação visa a limitar estritamente, supervisionar e punir várias violações relacionadas ao gasto de dinheiro público.

A Regulação oferece normas de amplo alcance, que cobrem a gestão de dinheiro público, viagens domésticas e ao exterior, recepções de negócios, encontros e outras atividades oficiais, o uso de veículos e de escritórios não privados, além da poupança de recursos.

O informe conclama o Partido e o governo a seguir resolutamente o que a Regulação determina, com os principais funcionários a liderar e supervisionar a campanha.

Conclama também os departamentos de todos os níveis a mapear medidas detalhadas, nos termos da Regulação, adequados à realidade do próprio trabalho, assegurando estrita supervisão e punições mais duras aos que violem as normas implantadas, considerados os eventos caso a caso.

A Regulação é parte da campanha “em linha de massa” que está em curso e visa a estreitar os laços entre os funcionários e membros do PCC e o público, ao mesmo tempo em que se erradicam estilos não desejáveis de trabalho, como o formalismo, a burocracia, o hedonismo e a extravagância.
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[*] Zhu Ningzhu é Editor-chefe do jornal Xinhua e da versão eletrônica Xinhua.net.