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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Paul Craig Roberts − A Rússia na Alça de Mira

26/1/2015, [*] Paul Craig Roberts – Institute for Political Economy
Traduzido por Mberublue


O tempo na Rússia de hoje...
Os ataques desfechados por Washington contra a Rússia já ultrapassaram os limites do absurdo e adentraram no reino da loucura.

O novo chefe do Broadcasting Board of Governors (BBG – uma agência federal independente, responsável, entre outras coisas, pela Voz da América e pela comunicação social do governo dos EUA – NT), Andrew Lack, declarou que o novo serviço de noticiário russo, Russia Today−RT, que transmite em múltiplas línguas, é uma organização terrorista equivalente ao Boko Haram ou o Estado Islâmico, e a Standard and Poor’s acaba de rebaixar a nota de crédito da Rússia para a categoria “lixo”.

Hoje, a RT me entrevistou sobre esses desenvolvimentos insanos.

Andrew Lack
Antigamente, quando os Estados Unidos ainda eram um país são, a acusação de Lack faria com que fosse expulso de seu gabinete, coberto de ridículo. Ele teria sido obrigado a renunciar e a desaparecer da vida pública. Hoje, no mundo de faz de conta que a propaganda ocidental criou, suas afirmações são levadas a sério. Assim, outra ameaça terrorista foi identificada – a RT (embora tanto o Boko Haram como o Estado Islâmico promovam o terror, estritamente falando eles são organizações políticas procurando estabelecer um Estado, e não organizações para o terror, mas esta distinção está além da capacidade de compreensão de Lack. Sim, eu sei. Há uma piada feita aqui, tentando entender o que falta a Lack. Nome apropriado, etc...) (o autor faz uma brincadeira com o nome de Andrew Lack. Ocorre que lack é a palavra inglesa para falta, escassez. Então, para Lack, falta [lack] inteligência- NT).

Contudo, seja lá o que for que falte a Lack, duvido que ele mesmo acredite nas suas declarações sem qualquer senso, sobre ser a RT uma organização terrorista. Nesse caso, o que pretende?

A resposta é que, ao se tornar a mídia comprada (no original, presstitute media – junção de prostitute [prostituta] e press [imprensa] − NT) o “Ministério da Propaganda” para Washington, criou um enorme mercado para RT, Press TV e Al Jazeera. Na medida em que mais e mais pessoas mundo afora migram para essas fontes mais confiáveis e honestas, a capacidade de Washington para fabricar explicações convenientes (e falsas – NT) diminuiu.


Imprensa-empresa (MÍDIA) ocidental
A RT, particularmente, tem uma enorme audiência. O contraste violento entre as reportagens verdadeiras da RT e as mentiras vomitadas pela mídia norte americana solapou a capacidade de auto explicação de Washington. Tal imposição não é mais possível.

Lack mandou uma mensagem nada sutil para a RT: fique esperta; pare com essas reportagens que colocam em dúvida nossas afirmações; pare de contestar os fatos da forma como colocados por Washington e pela mídia comprada; tome jeito, senão...

Em outras palavras a “liberdade de expressão” de Washington e de seus estados vassalos, União Europeia, Canadá e Austrália tem o seguinte significado: liberdade de expressão para a propaganda e as mentiras de Washington, mas não para qualquer verdade. Verdade é terrorismo, porque a verdade é a maior ameaça para Washington.

Na verdade, Washington quer evitar o embaraço de fechar a RT, como seu vassalo Reino Unido fez com a Press TV. Em vez disso, quer simplesmente calar a RT. A mensagem de Lack para a RT é: auto censura.

Em minha opinião, a RT já suaviza os fatos em suas coberturas e reportagens, assim como o faz a Al Jazeera. As duas organizações já entenderam que não podem ser muito francas, pelo menos não frequentemente ou em certas ocasiões.

Sempre me pergunto por que o governo russo permite que cerca de 20% da mídia russa funcione como uma quinta coluna de Washington dentro da Rússia. Suspeito que a razão possa ser a esperança russa de que tolerando a propaganda flagrante de Washington na Rússia, alguma informação factual possa ser exposta nos Estados Unidos, via RT ou outras organizações russas de notícias.

Tal esperança, como outras aspirações russas em relação ao ocidente, muito provavelmente se transformará em decepção no final. Caso a RT seja ou fechada ou assimilada pela mídia comprada por Washington, nada se dirá quanto a este fato, mas se a Rússia fechar qualquer dos agentes de Washington em seu próprio território, todos mentirosos contumazes, que estão presentes na mídia russa, ouviremos ad nauseam sobre os russos demoníacos que tem a audácia de não permitir a “livre expressão”. Lembrem-se, a única “liberdade de expressão” permitida é a propaganda de Washington.

Apenas o correr do tempo dirá se a RT decidirá fechar por dizer a verdade ou se acabará por aderir ao coro abjeto da propaganda de Washington.

O outro item da entrevista foi sobre o rebaixamento da nota de crédito russa para a categoria “lixo”.

Agências ocidentais de classificação de risco 
O rebaixamento da nota pela Standard and Poor’s foi, sem nenhuma dúvida, um ato político. Esta é a prova do que já sabíamos, que seja: as empresas de notação de crédito americanas são empresas políticas, que promovem operações políticas corruptas. Lembram-se do grau de investimento que essas agências de notação norte americanas deram para créditos de risco (subprime) que eram obviamente nada mais que lixo? Essas agências de notação de crédito são pagas por Wall Street e como Wall Street, elas servem ao governo dos Estados Unidos.

Basta olhar para os fatos para perceber a natureza política da decisão. Mas é inútil esperar que a imprensa financeira corrupta dos Estados Unidos esclareça os fatos. Mas nós, sim, podemos lançar um olhar honesto para os fatos.

Pois então vamos colocar os fatos em um contexto que inclua a situação do débito dos Estados Unidos.

De acordo com os índices disponíveis online, o débito nacional russo equivale a 11% (onze por cento) do PIB russo. O débito nacional dos Estados Unidos está numa porcentagem de 105% (cento e cinco por cento) do PIB norte americano, cerca de dez vezes superior, percentualmente, ao débito russo. Meus coautores Dave Kranzler, John Williams e eu mesmo, temos demonstrado que, medida corretamente, a percentagem da divida norte americana em relação ao PIB dos EUA é muito maior que o número oficial do governo.

Per capita, a dívida nacional russa é de 1.645 dólares. A dívida nacional per capita dos Estados Unidos é de 56.952 dólares.

No total, a dívida nacional da Rússia é de 235 bilhões de dólares, menos que um quarto de trilhão, O tamanho da dívida nacional dos Estados Unidos é de 18 trilhões, 76,6 vezes maior que o débito russo.

Colocando esses dados em perspectiva: de acordo com os índices de débito, o PIB dos Estados Unidos é de 17.3 trilhões de dólares e o PIB da Rússia é de 2,1 trilhões. Então, o PIB dos EUA é oito vezes maior que o PÌB russo, mas a dívida nacional dos Estados Unidos é 76,6 vezes maior que a dívida russa.

Claro como água é o fato de que a notação de crédito dos Estados Unidos é que deveria ser rebaixada à categoria lixo. Mas não é o que acontece.

Qualquer agência de notação de crédito que tivesse a coragem de dizer a verdade seria imediatamente fechada e processada, e não importaria muito sob que acusações, por absurdas que fossem. As agências de crédito seriam então incriminadas como antiamericanas, como organizações terroristas tal qual a RT, etc. e assim por diante. E elas sabem disso. Nunca espere a verdade de um cidadão de Wall Street. Eles mentem para sobreviver.

Detalhe da Catedral de São Basílio, Moscou
De acordo com o site How Stuff Works, no postado Top 10 Countries the U.S. Owes Money To,  a partir de janeiro de 2013 os Estados Unidos devem para a Rússia 162,9 bilhões de dólares. Como a dívida russa é de 235 bilhões, 69 por cento da dívida russa está garantida pelas obrigações da dívida norte americana com a Rússia.

Se esta é a crise russa, eu sou Alexandre, o Grande.

Como a Rússia tem dólares suficientes para pagar toda a dívida nacional e ainda sobram cerca de 200 bilhões de dólares, qual é afinal o problema da Rússia?

Um de seus problemas é seu Banco Central. Em sua maior parte, os economistas russos são iguais aos incompetentes neoliberais que pululam por todo o mundo ocidental. Os economistas russos estão apaixonados por seus contatos com o ocidente “superior” e com o prestígio que eles imaginam que esses contatos lhes dão. Desde que os economistas russos concordem com os economistas ocidentais, continuarão a ser convidados para conferências no exterior. Os economistas russos são na realidade agentes de Washington, compreendam ou não esse fato.

No momento, o Banco Central russo está desperdiçando o grande acervo russo de reservas em moeda estrangeira, em apoio ao ataque do ocidente ao rublo. Este é um jogo de tolos que nenhum Banco Central deveria jogar. O Banco Central da Rússia deve lembrar, ou aprender se por acaso não souber, sobre o ataque de Soros ao Banco da Inglaterra.

A reserva cambial da Rússia deve ser usada para quitar toda a dívida nacional da Rússia, tornando-a, desta forma, o único país no mundo a não ter uma dívida nacional. Os dólares remanescentes deveriam ser despejados em ações coordenadas com a China para destruir o dólar americano, base do poder imperial de Washington.

Edifício do Banco Central da Rússia
Alternativamente, o governo russo poderia simplesmente anunciar que a resposta à guerra econômica conduzida contra a Rússia pelo governo de Washington e as agências de notação de crédito de Wall Street seria o incumprimento dos empréstimos russos junto aos credores ocidentais. Afinal, a Rússia nada tem a perder, pois já foi cortada do acesso ao crédito ocidental pelas sanções impostas pelos Estados Unidos. O default russo causaria consternação e crise em todo o sistema bancário europeu, o que é exatamente o que a Rússia quer, no intento de parar com o apoio da Europa às sanções impostas por Washington.

Em minha opinião, os economistas neoliberais que controlam a economia russa são uma ameaça bem maior à soberania russa que as sanções econômicas e as bases de mísseis dos Estados Unidos. Para sobreviver a Washington, a Rússia precisa desesperadamente de pessoas que não tenham uma visão romantizada do ocidente.

Nomi Prins
Dramatizando a situação, caso o presidente Putin me concedesse a cidadania russa e permitisse que Michael Hudson e Nomi Prins fossem nomeados como meus adjuntos, eu assumiria o Banco Central russo e imediatamente colocaria o ocidente fora de suas operações.

Mas isso exigiria que a Rússia assumisse alguns riscos para vencer. Os atlanticistas integracionistas dentro do governo russo querem a vitória do ocidente, não a da Rússia. Um país infiltrado com traidores dentro de seu próprio governo tem reduzidas chances contra Washington, um jogador determinado.

Outra quinta coluna que opera nas entranhas da Rússia são as ONGs financiadas pela Alemanha e pelos Estados Unidos. Os agentes norte americanos se mascaram como “organizações de direitos humanos” ou “organizações do direito das mulheres” e ainda “organizações para a democracia” e qualquer outro título grandiloquente que caia como uma luva nestes tempos do politicamente correto e que sejam incontestáveis.

Contudo, outra ameaça para a Rússia vem da grande percentagem de jovens russos que desejam ardentemente participar da cultura depravada do ocidente. Sexo licencioso, pornografia, drogas, egoísmo. Estes são os produtos culturais oferecidos pelo ocidente. Além, é claro, da possibilidade de matar muçulmanos.

Se o que os russos querem é poder matar pessoas apenas para se divertir e solidificar a hegemonia dos Estados Unidos sobre si mesmos e o mundo inteiro, podem então apoiar a “integração atlanticista” e dar as costas ao nacionalismo russo. Por que ser russo se você pode ser um servo dos americanos?

Quer resultado melhor para os neoconservadores norte americanos que ter o apoio da Rússia para a hegemonia mundial incontestável de Washington? Pois é isto que os economistas neoliberais russos e os “Integracionistas Europeus” anelam. Os neoliberais russos estão dispostos a ser lacaios dos Estados Unidos para fazer parte do ocidente, e receber a régia recompensa por sua traição abjeta.

Mídia dos EUA

Quando fui entrevistado sobre esses desenvolvimentos pela RT, o âncora do telejornal estava tentando enfrentar as acusações de Washington apresentando fatos. É espantoso constatar que os jornalistas russos não percebem que “fatos” nada tem a ver com tudo isso. Os jornalistas russos, pelo menos aqueles independentes dos subornos e propinas americanas, imaginam que os fatos tem alguma importância nos conflitos da mídia sobre as ações da Rússia. Eles pensam, por exemplo, que os ataques contra civis, praticados pelos nazistas ucranianos apoiados por Washington é um fato. Claro que é, mas tal fato simplesmente não existe na mídia ocidental. Para esta, os russos e apenas os russos são os responsáveis por toda e qualquer violência na Ucrânia.

A história sustentada por Washington é a de que Putin, esse terrível e maldoso personagem, está tentando nada menos que a restauração do Império Soviético, e que esta é a causa do conflito. A linha seguida pela mídia americana nada tem a ver com os fatos.


A Rússia está, em minha opinião, correndo grave perigo. Os russos confiam nos fatos e Washington confia na propaganda mentirosa. Para Washington, os fatos não importam. As vozes do ocidente abafam completamente a voz da Rússia.

A falta de uma voz russa se deve apenas a ela mesma. A Rússia aceitou viver em um mundo no qual as finanças, as leis e as telecomunicações são inteiramente dominadas pelos Estados Unidos. Viver neste mundo significa que a única voz a ser ouvida é a de Washington.

O motivo pelo qual a Rússia acedeu a esta estratégia permanece um completo mistério, mas com certeza isso foi o resultado de um fatal erro estratégico, que colocou a Rússia em desvantagem.

ONGs dos EUA que atuam na Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Considerando as infiltrações que Washington tem promovido dentro do próprio governo russo, os oligarcas economicamente poderosos e os funcionários estatais com conexões com o ocidente, assim como a mídia e a juventude russa com suas centenas de ONGs financiadas pelos Estados Unidos ou pela Alemanha, que podem a qualquer momento colocar os próprios russos nas ruas para protestar contra qualquer defesa tentada pelo país, é duvidoso que a Rússia possa no futuro manter qualquer soberania, ou sequer ter um futuro.

Os neocons norte americanos são implacáveis. Seu oponente russo está enfraquecido pela propaganda que Washington, que coloca os Estados Unidos como salvador da humanidade e de seu futuro em um mundo outra vez ameaçado pela guerra fria.

A escuridão do Sauron Americano continua a ser espalhada sobre o mundo inteiro.


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Rússia e China: “Saiam da frente, Moody’s, que aqui vamos nós!”

22/1/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ao longo de praticamente um quarto de século da chamada “globalização econômica”, a habilidade de Wall Street para ser o lar das únicas agências “globais” de risco para distribuir “graus” ao valor dos créditos pelo mundo tem sido uma das armas mais efetivas para guerra financeira, no arsenal de Wall Street. Eles “qualificam” nações e empresas privadas. Agora vem aí uma resposta ao monopólio dos “graus” que sempre esteve em mãos das norte-americanas Moody’s, Standard & Poors, Fitch. Mas não vem da União Europeia, o que seria mais do que esperável e útil. Vem de Rússia e China − como tantas das mais importantes e desafiadoras iniciativas nos últimos tempos.



Hoje, apesar das repetidas crises financeiras nas quais as Três Grandes de New York [agências de avaliação de crédito] ou falharam ou obraram por claro viés político na “classificação”, pode-se dizer que Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch Ratings têm um virtual monopólio global. As “Três Grandes”, como são chamadas, distribuem 98% das avaliações de crédito nos EUA e cerca de 95% em todo o mundo. Chama-se “INFLUÊNCIA”, brother.

O sistema que os mais importantes bancos de Wall Street desenvolveram depois de 1944 para fazer de New York o centro financeiro do mundo e do dólar sua moeda de reserva tem várias facetas bem planejadas. Depois de 1945, foi o fato de que o Federal Reserve dos EUA detinha cerca de 70% do ouro monetário do mundo, de tal modo que o dólar então “valia ouro”. As nações da Europa derrotada disputavam cada dólar possível para comprar máquinas e bens norte-americanos para a reconstrução do pós-guerra. O Plano Marshall foi explicitamente desenhado para usar dólares dos contribuintes dos EUA para estender empréstimos às economias europeias em recuperação, quase US$ 12 bilhões no período 1948-1951 que foram usados para comprar bens essenciais, como trigo dos EUA e petróleo norte-americano dos Rockefeller, e para comprar máquinas norte-americanas, de quando os EUA eram líderes mundiais em ferramentas, para reconstruir fábricas e moradias.

O Sistema-Dólar que descrevo em detalhes no meu livro Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (Der Untergang des Dollar-Imperiums), esteve no centro do poder do Wall Street Money Trust (como se chamava antes, corretamente) e dos oligarcas norte-americanos, desde que criaram o Tratado de Bretton Woods em 1944.


Agora, o mesmo sistema do dólar enfrenta uma crise existencial; e o poder daqueles mesmos oligarcas para aumentar o próprio poder mediante guerras por todo o mundo – guerras financiadas pelas poupanças de outras nações como Alemanha ou Japão ou China ou Rússia – está mais ameaçado do que jamais esteve antes. Para sobreviver, estão distribuindo guerras−sanções financeiras globais contra países como Síria, Irã, Rússia; guerras de moedas e, agora, uma guerra de facto, de riscos “avaliados”.

Depois da derrota da Alemanha e das potências do Eixo em 1945, as famílias que controlavam os bancos de Wall Street e da “Baixa Manhattan” – Chase Bank, Citibank, ou Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch – construíram um império de facto, o qual, segundo as regras que impuseram a um mundo derrotado, incluída aí uma Grã-Bretanha falida, basear-se-ia na supremacia no mundo, do dólar dos EUA.

Em 1945, foi fácil fazer uma Europa derrotada aceitar o Padrão-Ouro de Câmbio de Bretton Woods, pelo qual todas as moedas seriam ancoradas no dólar dos EUA e só o dólar ligado ao ouro, a US$ 35.00/onça, onde o dólar ficou até o colapso do sistema em agosto de 1971 e o fim, decretado por Nixon, da convertibilidade ouro−dólar. Mas então a Europa vivia umboom com a indústria moderna reconstruída, e os EUA iam-se convertendo em “cinturão da ferrugem”. França e Alemanha exigiam ouro dos EUA, em lugar de dólares inflacionados, e as reservas de ouro dos EUA estavam evanescendo.

Depois de 1971, o dólar inundou o mundo, sem qualquer atenção às regras que protegiam a reserva em ouro, e o poder militar dos EUA durante a Guerra Fria forçaram o Japão, a Europa Ocidental e outros países inclusive a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, a aceitar dólar-papel cada vez mais inflacionado.

De 1970 até 2000, o volume de dólares no mundo subiu 2.900%. Porque o dólar era a “moeda de reserva” mundial, da qual precisavam todos para comprar petróleo, bens, grãos, o mundo foi obrigado a engolir uma inflação-mamute, de facto, depois de 1971.

O monopólio corrompido da “avaliação de riscos”

As agências de avaliação de riscos para investimentos estabelecidas em New York teriam papel estratégico nesse sistema−dólar pós−1971.

US Government’s Securities & Exchange Commission
Durante os anos 1970’s, a Comissão de Seguros e Câmbio do Governo dos EUA [orig. US Government’s Securities & Exchange Commission], encarregada de supervisionar os mercados de ações e de papéis, [1] lançou uma norma que dava às então dominantes agências de avaliação de riscos de New York – Moody’s e Standard & Poor’s (e mais adiante também Fitch Ratings) – um monopólio de facto protegido, em mercado não regulado, quando decidiram que só “Organizações de Classificação Estatística de Riscos Reconhecidas Nacionalmente” [orig. “Nationally Recognized Statistical Rating Organizations”] seriam qualificadas para determinar quadros apropriados de riscos, quer dizer: só as empresas Moody’s e S&P. Foi quando a corrupção foi distribuída em ritmo endêmico por todo o jogo de “avaliações de risco” nos EUA. E Washington (leia-se governos dos EUA) foi parte nesse negócio sujo.

Ao final dos anos 1970’s, usando a enorme quantidade de “petrodólares” da OPEP dos dois choques do preço do petróleo, em 1973 e 1979, os bancos internacionais de New York, usando Londres, começaram a emprestar para o resto do mundo para financiar importações de petróleo e outros produtos essenciais. As agências de avaliação de crédito de New York, que antes só avaliavam ações (de empresas), expandiram para novos mercados das dívidas externas, como as maiores e as únicas agências “oficiais” de avaliação de crédito na nova fase da dolarização e globalização dos mercados de capital. Instalaram filiais na Alemanha, França, Japão, México, Argentina e outros mercados emergentes, como fizeram também as “Cinco Grandes” empresas de contabilidade dos EUA. [2]

Durante os anos 1980’s, as agências de avaliação de riscos tiveram papel chave na operação de desqualificar a dívida de países devedores na América Latina como o México e a Argentina. As avaliações que distribuíram determinavam se os países devedores podiam ou não tomar mais empréstimos. Os insiders do mercado financeiro em Londres e New York falavam abertamente de as agências servirem-se da situação de monopólio, para fazer avaliações “políticas” e, com elas, promover a agenda de Wall Street e do Sistema Dólar.

Então, nos anos 1990’s, as agências de avaliação de riscos para investimentos de New York desempenharam papel decisivo na operação de disseminar a “crise asiática” de 1997-98. Com o preciso timing de seus “rebaixamentos”, podiam fazer aumentar o pânico, porque haviam permanecido suspeitamente silenciosas até o primeiro sinal da crise.

O resultado foi que as economias dos até então “tigres asiáticos”, Tailândia, Coreia do Sul e Indonésia, foram pela primeira vez forçadas a submeter-se a condicionalidades destrutivas do FMI, processo cujo resultado final foi exportação massiva de capitais, da Ásia para bônus em dólares norte-americanos, que geraram o que se conheceu como “prosperidade dos anos Clinton”.


Antes da crise asiática de 1997-98, os dólares estavam fluindo para investimentos nas economias dos Tigres. Depois, cerca de US$ 200 bilhões por ano, segundo estimativa do Banco Internacional de Compensações [orig. Bank for International Settlements], passaram a fluir na direção contrária, para papeis do Tesouro dos EUA, empurrando para baixo as taxas de juros nos EUA, e fazendo inflar a bolha das ações das empresas dot.com.

Curiosamente, quando a coisa chegou ao quintal deles mesmos, como no caso da gigante texana de energia Enron, em 2001, a maior falência empresarial nos EUA do pós-guerra, as agências de avaliação de risco nada viram, nada ouviram, nada haviam dito. Haviam dado à Enron a melhor “avaliação” possível até o último momento. Moody’s & amigos fizeram exatamente o mesmo com as “avaliações” que distribuíram para as empresas imobiliárias norte-americanas carregadas de contratos “subprime” – os empréstimos segurados por hipoteca de casas nos primeiros sete anos do novo século. Distribuíram a mancheias “avaliações” do mais alto nível AAA, até o momento em que eclodiu o pânico, em março de 2007. Fizeram-no, apesar de haver sinais de crise por todos os lados, no que não passava de violento conflito de interesses: os próprios emissores de hipotecas podres de Wall Street, sob as bizarras regras do jogo da “avaliação de riscos” dos EUA, pagavam aos avaliadores para que avaliassem os emprestadores de empréstimos garantidos por hipotecas podres. As agências de “avaliação de riscos” estavam ganhando uma catarata de dinheiro, só por avaliar os novos papeis podres, e não tinham nenhum interesse em “retirar da sala o saco-de-pancadas, bem quando a festa começava a ficar quente de verdade”. Muito menos, de fato, Alan Greenspan, do Fed.

Muito notavelmente, as Três Grandes norte-americanas da “avaliação de riscos” sempre foram virtualmente não reguladas. Não precisam temer qualquer ação legal por suas “avaliações”, por mais enviesadas politicamente que sejam, porque a Suprema Corte dos EUA já decidiu que as “avaliações” são simplesmente expressão da opinião informada da agências e, como tal, são protegidas pela Primeira Emenda.

Só em 2006 foi aprovada no Congresso uma “falsa lei”, denominada enganadoramente de “Lei de Reforma das Agências de Avaliação de Crédito” [orig. Credit Rating Agencies Reform Act], que não teve nenhum efeito visível para o disciplinamento das agências de “avaliação”. Foi reforma puramente cosmética, para convencer os eleitores de que o Congresso (integralmente−na−gaveta−de−Wall Street) estaria fazendo alguma coisa para evitar que a crise se repetisse.

Na crise da dívida soberana da Grécia, quando os governos da União Europeia estavam perto de finalizar um acordo para estabilizar a dívida pública grega, em abril de 2010 Standard & Poor’s (S&P), repentinamente rebaixou três graus a classificação da dívida do estado grego, instantaneamente convertida em “lixo”; o rebaixamento forçou muitos fundos de pensão em todo o mundo a liquidar os correspondentes papéis. Esse movimento de “avaliação” gerou toda a crise do euro. E, simultaneamente, salvou o despencante dólar norte-americano, coração do sistema-dólar de Wall Street−Tesouro dos EUA.

Fracasso da agência de “avaliação” da União Europeia (UE)

O timing escandaloso daquele “rebaixamento” da Grécia pela S&P, em abril de 2010, convenceu muitos governos na UE da urgente necessidade de uma Agência de Avaliação Europeia verdadeiramente independente. Mas é espantosa a inabilidade da UE para agir nessa direção, mesmo já decorridos sete anos do estouro da crise financeira de 2007-8. AUnião Europeia nada fez para defender os seus próprios interesses soberanos, e criar uma autoridade independente para avaliar créditos. Em abril de 2012, faleceu a tentativa para implantar uma entidade europeia de avaliação de créditos que, diferente do modelo dos EUA, não seria financiada pelos governos ou empresas que recebem o “grau”. Morreu por falta de apoio e, segundo fontes bem informadas, por ação de sutil pressão de Washington. Washington e Wall Street não cedem facilmente esses seus monopólios estratégicos.

“Avaliadores” ameaçam a Rússia

Agora, os EUA estão tentando usar suas agências de “avaliação” para tentar empurrar a Rússia de Putin para o precipício do calote.

Na véspera do Natal, 23/12/2014, quando quase todo o mundo decorava as árvores de Natal ou comprava presentes, a Standard & Poors, mesma empresa de “avaliação” que disparou a crise grega em abril de 2010, anunciou que “com no mínimo 50% de chances”, a Rússia será rebaixada à categoria de crédito-lixo no período de 90 dias. Diziam que no final de janeiro, a S&P distribuiria sua “avaliação”. Dia 12/1/2015, a Fitch, a menor das Três Grandes avaliadoras norte-americanas fez eco à S&P e também falou em “crédito-lixo”.

A Moody’s classificou a Rússia um degrau acima do que disseram S&P e Fitch. Em abril, quando a guerra financeira de Washington e do Tesouro dos EUA contra a Rússia começou, S&P rebaixou um degrau a avaliação da dívida soberana da Rússia, para BBB-. Em resumo: o cartel da “avaliação de riscos” em New York mantém uma espada de Dâmocles sobre a Rússia.

O grau “lixo” forçará muitos fundos internacionais de pensões e institutos internacionais de investimento a vender papéis do estado russo, exatamente como na crise do calote do rublo em 1998, crise na qual o bilionário e proprietário de fundo de investimentos George Soros teve papel, além de chave, também imundo, e matador.

Durante a IIa. Grande Guerra trabalhou para o Partido Nazista da Hungria coletando VALORES dos judeus que eram enviados aso campos de extermínio
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Em entrevista à rede CBS declarou que seu tabalho com os NAZIS foi o melhor tempo de sua vida
Chama especialmente a atenção que o mesmo Soros esteja hoje aos berros, de cima de todos os telhados e também nas páginas da grande imprensa−empresa financeira, “exigindo” que a UE e os EUA e outros governos tratem de “resgatar” a Ucrânia e não permitam um calote que feriria gravemente os fundos e entidades privadas que têm cofres cheios de papéis da Ucrânia. Soros também bate tambor a favor de guerra contra a Rússia de Putin.

Rumores de mercado dizem que Soros, oportunista, comprou quantidade enorme de papéis ucranianos baratos, confiando que a UE “resgataria” a Ucrânia. Nenhuma UE resgatou Ucrânia alguma e, agora, a velha raposa dá sinais de pânico. Dia 13/1/2015, Soros foi a Kiev reunir-se com o bilionário presidente ucraniano, Petro Poroshenko. Em Kiev, Soros “declarou” que:

(...) a Ucrânia luta para se autoproteger, mas também para proteger a Europa (sic!). Portanto, a Europa tem o dever de ajudar a Ucrânia a fazer as reformas necessárias para o país.

Juncker, presidente da Comissão da UE disparou os piores medos de Soros, quando, dia 17/12/2014, anunciou que não haveria dinheiro da UE para “resgatar” a Ucrânia, não, com certeza, pelos próximos dois anos. A UE tem outros peixes na frigideira. É o triste saldo das róseas promessas de fevereiro de 2014, quando a UE prometeu bilhões em apoio financeiro para o golpe que levou ao poder os neonazistas que a própria UE e Washington instalaram ilegalmente em Kiev, com a promessa oca de que a Ucrânia teria status de membro-associado na UE.

Rússia e China em ação

Porém, diferente da politicamente impotente União Europeia, a Rússia hoje já não é a Rússia do corrupto Yeltsin de finais dos anos 1990. Vladimir Putin e Xi, da China, decidiram conjuntamente criar sua própria agência internacional de avaliação de crédito e planejam já pô-la em operação no corrente ano.


O Grupo de Avaliação de Crédito Universal, GACU [orig. Universal Credit Rating Group, UCRG] planeja começar em 2015 a publicar avaliações de risco independentes, para esvaziar o monopólio de que se beneficiam hoje as agências Moody’s, S&P e Fitch – segundo o diretor de RusRating, Aleksandr Ovchinnikov.

A nova agência terá sede em Hong Kong. E há um terceiro membro em condições de igualdade com Rússia e China no novo GACU. Além da chinesa Dagon Credit Rating Agencye da russa RusRating, lá está também a empresa independente, com base nos EUA, Egan-Jones Ratings. Cada membro tem quota igual no negócio, com um investimento inicial de US$ 9 milhões. Com efeito, o GACU é constituído de três agências nacionais independentes e muito bem implantadas de avaliação de risco para investimento. É realmente confronto direto e importante contra o monopólio das Três Grandes de New York.

A empresa Egan-Jones Ratings Company, também conhecida pela sigla EJR, foi fundada em 1995 e é interessante parceira para os avaliadores russos e chineses de riscos para investimentos. É a única, de todas as organizações para divulgação de riscos estatísticos reconhecidas nos EUA que é totalmente mantida por investidores, não é financiada só por clientes – o que elimina o conflito de interesses que tira toda a credibilidade das “avaliações” montadas pelas Três Grandes. Dia 5/4/2012, Egan-Jones foi a primeira agência que rebaixou a avaliação do crédito dos EUA. E Egan-Jones foi também a primeira agência que degradou o crédito de WorldCom e da Enron.

O GACU, grupo de avaliação de risco para investimentos constituído por russos e chineses em Hong-Kong, foi oficialmente criado em junho de 2013 e desde então trabalha na finalização de sua estrutura de negócios. Ovchinnikov acrescentou que:

Quando surgiu a questão de criarmos uma agência alternativa, que livrasse o mundo das “Três Grandes”, nós logo apresentamos um projeto que já estava pronto para ser executado, e era apoiado pelos governos de Rússia e China.

Denunciou explicitamente o viés deformante dos avaliadores norte-americanos, sempre muito “generosos” com clientes dos EUA e da União Europeia, e muito adversários dos países emergentes e em desenvolvimento, como os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Agora, com uma agência independente para avaliação de crédito; com um Banco para Desenvolvimento da Infraestrutura dos BRICS com capital inicial de US$ 100 bilhões; e já vigentes vários acordos estratégicos para o comércio em moedas locais, Rússia e China, e os países BRICS trabalhando a favor deles mesmos, estão dando os retoques finais numa arquitetura genuinamente alternativa aos neocolonialistas e destrutivos FMI e Banco Mundial, que pode, afinal, se opor à tirania do sistema-dólar de Wall Street. O ano de 2015 será realmente muito interessante. O Sr. Soros, coitado, talvez precise recomeçar a procurar trabalho.



Notas dos tradutores

[1] Orig. Stocks and bonds: são as duas principais classes de valores que os investidores usam em seus portfólios. “Ações” [orig. “stocks”] correspondem a fatias da propriedade de uma empresa; “papeis” [orig. “bonds”] são como empréstimos feitos a uma empresa (corporate bond) ou outras organizações (como o Tesouro dos EUA). Em geral os “papeis” são considerados mais arriscados e mais voláteis que “ações”. Mas há muitos diferentes tipos de ações e papeis, com graus variados de volatilidade, risco e retorno.

[2] “Até 2002, as “4 Grandes” eram as “5 Grandes” empresas de contabilidade. A empresa Arthur Andersen foi excluída da lista depois do Enron scandal. Arthur Andersen era encarregada da auditoria contábil da Enron e foi considerada envolvida na falsificação de registros financeiros.


[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questões energéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.