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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Pepe Escobar: “O nascimento do mundo des-Americanizado”

15/10/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times OnlineThe Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



É isso. A China decidiu que “basta!” Tirou as luvas (diplomáticas). É hora de construir um mundo “des-Americanizado”. É hora de “uma nova moeda internacional de reserva” substituir o dólar norte-americano.

Está tudo lá, escrito, em editorial da rede Xinhua, saído diretamente da boca do dragão. E ainda estamos em 2013. Apertem os cintos – especialmente as elites em Washington. Haverá fortes turbulências.

Longe vão os dias de Deng Xiaoping de “manter-se discreto”. O editorial de Xinhua mostra, em formato sintético, a gota d’água que fez transbordar o copo do dragão: o atual “trancamento” (shutdown) nos EUA. Depois da crise financeira provocada por Wall Street, depois da guerra do Iraque, um mundo “desentendido”, não só a China, quer mudança.

Esse parágrafo não poderia ser mais explícito:

Sobretudo, em vez de honrar seus deveres como potência liderante responsável, uma Washington interessada só em si mesma abusa de seu status de superpotência e gera caos ainda mais profundo no planeta, disseminando riscos financeiros para todo o mundo, instigando tensões regionais e disputas territoriais, e guerreando guerras ilegítimas, sob o manto de deslavadas mentiras.

A solução, para Pequim, é “des-Americanizar” a atual equação geopolítica – a começar por dar voz mais ativa no FMI e no Banco Mundial a economias emergentes e ao mundo em desenvolvimento, o que deve levar à “criação de uma nova moeda internacional de reserva, a ser criada para substituir o dólar norte-americano hoje dominante”.


Observe-se que Pequim não advoga a sumária extinção do sistema de Bretton Woods – não, pelo menos, já; quer, isso sim, mais poder para decidir. Parece razoável, se se considera que a China tem peso apenas ligeiramente superior ao da Itália, no FMI. A “reforma” do FMI – ou coisa parecida – está em andamento desde 2010, mas Washington, como seria de esperar, vetou todas as alterações substanciais, até agora.

Quanto ao movimento para afastar-se do dólar norte-americano, também já está em andamento, com graus variados de velocidade, especialmente no que diga respeito ao comércio entre os países BRICS, as potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que já está sendo feito, hoje, predominantemente, nas respectivas moedas. O dólar norte-americano está lentamente, mas firmemente, sendo substituído por uma cesta de moedas.

A “des-Americanização” também já está em curso. Considere-se, por exemplo, a ofensiva de charme dos chineses pelo Sudeste Asiático, que está acentuadamente começando a inclinar-se na direção de mais ação com principal parceiro econômico daqueles países, a China. O presidente Xi Jinping da China, fechou vários negócios com a Indonésia, a Malásia e também com a Austrália, apenas umas poucas semanas depois de ter fechado outros vários negócios com os “-stões” da Ásia Central.

As novas Rotas da Seda (Marítima em azul e Terrestres - de ferro - em laranja)
A empolgação chinesa com promover a Rota da Seda de Ferro alcançou nível de febre, com as ações das empresas chinesas de estradas de ferro subindo à estratosfera, ante o projeto de uma ferrovia de trens de alta velocidade até e através da Tailândia já virando realidade. No Vietnã, o premiê chinês Li Keqiang selou um entendimento segundo o qual querelas territoriais entre dois países no Mar do Sul da China não interferirão com mais e novos negócios. Pode-se chamar de “pivotear-se” para a Ásia.

Todos a bordo do petroyuan

Todos sabem que Pequim possui himalaias de bônus do Tesouro dos EUA – cortesia daqueles massivos superávits acumulados ao longo dos últimos 30 anos, mais uma política oficial de manter lenta, mas segura, a apreciação do Yuan.

E Pequim, simultaneamente, age. O Yuan está também lentamente, mas seguramente, se tornando mais conversível nos mercados internacionais. (Semana passada, o Banco Central Europeu e o Banco do Povo da China firmaram acordo para uma troca de moeda (orig. swap) de US$45-$57 bilhões, que aumentará a força internacional do Yuan e melhorará seu acesso ao comércio financeiro na área do euro).

A data não oficial para a total conversibilidade do Yuan cairá em algum ponde entre 2017 e 2020. A meta é clara: afastar-se de qualquer respingo da dívida dos EUA, o que implica que, no longo prazo, Pequim está-se afastando desse mercado – e, assim - tornando muito mais caro, para os EUA, tomarem empréstimos. A liderança coletiva em Pequim já fechou posição sobre isso e está agindo nessa direção.

Cesta de moedas substituirá o US Dollar
O movimento na direção da plena conversibilidade do Yuan é tão inexorável quanto o movimento dos BRICS na direção de uma cesta de moedas que, progressivamente, substituirá o dólar norte-americano como moeda de reserva. Até lá, mais adiante nessa estrada, materializa-se o evento cataclísmico real: o advento do petroyuan – destinado a ultrapassar o petrodólar, tão logo as petromonarquias do Golfo vejam de que lado ventam os ventos históricos. Então, o bate-bola geopolítico será outro, completamente diferente.

Pode ser processo longo, mas é certo que o famoso conjunto de instruções de Deng Xiaoping está sendo progressivamente descartado:

Observe com calma; proteja sua posição; lide com calma, com as questões; esconda nossas capacidades e aposte no nosso tempo; seja discreto; e jamais reclame a liderança.

Uma mistura de cautela e escamoteamento, baseada na confiança que os chineses têm na história e, levando em consideração uma - grave ambição de longo prazo – era Sun Tzu clássica. Até aqui, Pequim andou devagar; deixando que o adversário cometa erros fatais (e que coleção de erros de multi-trilhões de dólares...); e acumulando “capital”.

Agora, chegou a hora de capitalizar. Em 2009, depois da crise financeira provocada por Wall Street, ainda havia chineses que resmungavam contra “o mau funcionamento do modelo ocidental” e, em suma, contra o “mau funcionamento da cultura ocidental”.

Beijing ouviu [Bob] Dylan (legendado em mandarim?) e concluiu que, sim, the times they-are-a-changing [os tempos estão mudando]. [2] Sem que se veja nem sinal de avanço social, econômico e político – o “trancamento” [shutdown] nos EUA seria outra perfeita ilustração, se se precisasse de ilustração – de que os EUA deslizam tão inexoravelmente quanto a China, pena a pena, vai abrindo as asas para comandar a pós-modernidade do século 21.

Que ninguém se engane: as elites de Washington lutarão contra, como se estivessem ante a pior das pragas. Mesmo assim, a intuição de Antonio Gramsci precisa ser atualizada: a velha ordem morreu, e a nova ordem está um passo mais perto de nascer.

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Notas dos tradutores

[1] 16/10/2013, redecastorphoto em: “Fracasso fiscal nos EUA obriga a trabalhar para um mundo des-Americanizado, Liu Chang, Xinhuanet, China.

[2] Ouve-se a seguir (com letra mal traduzida, mas que ajuda a ler):

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os EUA não ultrapassarão os BRICS

Comentário entreouvido na Ponta do Prego (na Vila Vudu): Mostra esta tradução Dona Míriam Leitão, a Urubóloga, e óóóótimos gráficos prô Sardenberg mostrar no jornal (?) da globo [gargalhada (respira) gargalhada].


9/5/2013, Mark Adomanis, The BRICS Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ruchir Sharma
Ruchir Sharma, autor de “Broken BRICs”, que a revista Foreign Affairs não se cansa de citar e elogiar e, portanto, a imprensa-empresa no Brasil só faz repetir e papaguear até quando finge que “critica” [1], escreveu, em resumo, que:

A China só conseguiu criar uma classe média confortável e dependente demais da construção de novas estradas e fábricas, e não conseguirá crescer em ritmo de dois dígitos. A extrema dependência russa, de petróleo e gás, produziu uma classe de petromagnatas que converteu Moscou em capital da decadência, que faz lembrar os últimos dias da Roma Antiga. O Brasil tem tanto medo da volta da volatilidade econômica dos anos 1980s e 90s [anos negros dos governos da tucanaria Chicago-Sorbonne-uspeana], que se dedica quase exclusivamente a proteger as pessoas do sofrimento econômico, produzindo um dos mais fracos crescimentos dentre os mercados emergentes. A Índia, que chegou a ser propagandeada como a próxima China, já cedeu ao crescimento lento no ano passado, mas é difícil estimar as possibilidades reais, nesse caso, por causa da fragmentação em uma coleção e economias estaduais.

Mark Adomanis
Na medida em que se considere que Sharma opera a partir da extrapolação direta de tendências lineares (se a China cresceu 10% durante os anos 2000s, “então” continuará a crescer 10% eternamente) seu argumento é aproveitável.

Escrevi sobre a demografia russa, e argumentava ali, com dados, para demonstrar que a projeção linear é extremamente problemática e que os analistas têm de incorporar dados e observações novas em suas análises ou suas teorias vão-se separando da realidade. Aconteceu com as “teorias” da despopulação constante da Rússia, com consequente declínio da economia do país; e pode-se dizer que aconteceu também com algumas “teorias” da ascensão dos BRICS, como se pudesse acontecer sem problema algum.

Mas Sharma parece argumentar contra um espantalho de palha, argumento que não encontrou eco nem entre os mais empenhados catastrofistas, pregadores da falência dos BRICS. Não tenho notícia de ninguém, mesmo entre os mais furiosos “declinistas”, que tenha sugerido que a história seguiria para sempre, exatamente como andou durante os anos 2000s e que o crescimento meteórico dos BRICS naquela década seguiria eternamente. De fato, se se ouvem os pronunciamentos dos ministros dos BRICS, sobretudo os ministros de Finanças e Comércio, nenhum soa arrogante ou autossuficiente: soam, sim, contidos, modestos, focados na solução de problemas, os quais, é claro, para eles, não são poucos.

A questão da crescente importância dos BRICS é muitíssimo mais sutil que a história que Sharma opera para desqualificar. Como sempre, injetar uma boa dose de dados atualizados ajuda a discutir com clareza. Abaixo, vê-se um gráfico que mostra como se comportou a paridade do poder de compra do PIB (ajustado) dos EUA e dos BRICS desde 2000, e a parte que lhes corresponde, respectivamente, da economia mundial. Para construir esses gráficos, usei dados do Banco Mundial de 2000-2011, números consensuais de crescimento para 2012, e previsões conservadoras, baseadas, bem de perto, em projeções do FMI para 2013. 

A evidência de que os EUA já foram ultrapassados pelos países BRICS chega a ser, como se vê, espantosa:




Naquele excerto de seu livro, e em escritos mais alentados sobre mercados emergentes, Sharma escreve sobre a possibilidade de os países BRICS ultrapassarem os EUA como se fosse uma espécie de sonho irrealizável: coisa que só aconteceria em algum futuro, se algumas tendências se mantivessem e se Brasil, Rússia, Índia e China, que formam o grupo, continuassem a “ter sorte”. Mas, como entendo que esses gráficos deixam bem claro, os BRICS já suplantaram os EUA em termos do tamanho de suas economias, e todas as previsões racionais razoáveis fazem crer que assim continuará, no futuro que se pode antever. Em larga medida, Sharma combate uma batalha que os EUA já perderam. 


E, em termos futuros, é difícil ver como os EUA podem esperar recuperar a vastíssima diferença de terreno que já perderam para os países BRICS. Até a mais tímida e pessimista previsão de crescimento de médio prazo de China e Índia as põem com crescimento de cerca de 5% para a próxima década, e há previsões ainda mais otimistas. Apesar de haver evidente desaceleração, se se consideram as taxas estratosféricas de crescimento dos anos 2000, e por mais que Sharma tome essa desaceleração como sinal de calamidade próxima, vale a pena ter em mente que qualquer crescimento de 5% já é crescimento muito mais rápido do que qualquer coisa que os EUA sejam capazes de obter hoje ou possam sonhar. Só para comparar, 2000 foi o último ano em que o PIB dos EUA cresceu em torno de 4% ou mais (o segundo melhor número foi os 3,5% de 2004, mas, em retrospecto, aconteceu durante o auge da bolha imobiliária, absolutamente ensandecida e insustentável).

Observado no longo prazo (50 anos), a queda do PIB dos EUA é espantosa:


O PIB dos EUA está desacelerado há várias décadas, em meio a uma variedade de situações externas e ao longo de governos Democratas e Republicanos, sem diferença. Além disso, a recuperação depois da crise econômica de 2008-09, a qual, só ela, já gerou recessões muito mais agudas que em momentos anteriores, foi e está sendo muito mais lenta do que se viu em experiências passadas. Na medida em que se pode confiar em projeções, o crescimento do PIB dos EUA permanecerá em torno de 2% ao longo de todo o período 2011-13: é crescimento até decente, se comparado ao europeu, mas muitíssimo lento, se comparado ao crescimento dos países BRICS.

Sugiro outro modo de analisar tudo isso. No período 2000-2012, os EUA conseguiram superar o PIOR desempenho dentre os BRICS, mas só em três momentos: do Brasil, em 2003 e 2012, e da Rússia, em 2009. Em todos os demais anos, ao longo de mais de uma década, o desempenho da economia dos EUA foi pior que o de todos os BRICS.

É repetir clichês dizer que o desempenho passado é o melhor elemento para prever desempenho futuro, mas, se se considera o quadro histórico da economia dos EUA, é impossível não ver bem claramente o crescimento declinante. É possível que essa tendência inalterada ao longo de décadas, que persiste apesar das mais variadas políticas macroeconômicas e comerciais tentadas, nos mais diferentes ambientes externos, seja revertida, como Sharma sugere, repentinamente, mediante o uso do gás de xisto, mais barato. Energia barata, afinal, sempre é melhor que energia cara, e energia doméstica barata é, de todas, a melhor possibilidade.

Porém, “resolver” os problemas da economia dos EUA com energia barata só será possível se todos os problemas atuais fossem realmente provocados só pela energia cara. O consenso entre muitos é que assim se resolve uma inconveniência menor e secundária, não o grande desastre em curso. Como se vê, se se analisa qualquer gráfico dos preços do petróleo, há mínima, e talvez não haja nenhuma, relação causal entre os preços das commodities e o crescimento da economia dos EUA: houve anos de energia barata e crescimento fraco; anos de energia cara e crescimento robusto; e anos em que os dois indicadores andam de lado.

Claro que o acesso pleno a energia abundante não causará dano à economia dos EUA, e espero que o impacto geral será moderadamente estimulante. Mas as raízes do declínio econômico dos EUA, incluído aí o encolhimento da classe média, a concentração de riqueza em círculos cada vez menores, o aumento do endividamento dos universitários, a superdependência do endividamento dos consumidores, são fatores muito mais profundos que o alto preço do gás natural, e não é possível “tratá-los” com fracking, assim como um câncer agressivo não pode ser “tratado” com antibióticos. A correção dos problemas que estão limitando o crescimento dos EUA exigirá concessões, projeto claro e razoável e visão de futuro, precisamente os elementos que hoje faltam completamente no Congresso. O que se tem de prever, como quase inevitável, é que os EUA continuarão a debater-se entre uma crise autoinfligida e outra, como a que está acontecendo desde que Obama foi eleito.

Os EUA continuarão país extremamente rico e poderoso, e “declinarão” em sentido relativo, não em sentido absoluto. Mas declínio relativo também é declínio, e, por esse padrão, o declínio dos EUA já é notável e chama a atenção, porque, principalmente, os EUA já perderam grande fatia de sua parte do PIB mundial. Isso já aconteceu. Há triunfalistas dos mercados emergentes que se excedem, na promoção dos BRICS e há os que subestimam as dificuldades inerentes ao governo e à administração desses países-gigantes.

Mas, se se examinam as evidências, se se olham os dados do crescimento do PIB, é difícil manter a esperança de que os EUA consigam ser bem-sucedidos. E vê-se, bem facilmente, como os mesmos problemas que acossam os EUA ao longo dos últimos 13 anos continuam e, pelo visto, continuarão a acossá-los.


Nota dos tradutores
[1]  Elio Gaspari: “criticou”, mas com rara doçura, crítica doce que a revista (não)Veja reproduziu, porque, afinal, as besteiras do cara deram MUITA bandeira. As gentilezas pretensamente “críticas” estão no blog do Ricardo Setti, em matéria típica do jornalismo brasileiro – que é o pior do mundo – e existe, sobretudo, para jornalista do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) promover jornalista do mesmo Grupo GAFE. Ah! E nem esse blog da Veja, nem o Estadão publicam OS GRÁFICOS acima [risos, risos].