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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Síria: Por que o ocidente encolheu-se?

30/8/2013, [*] Dmitry Babich, The BRICS Post, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
Obama encolheu-se. Quando disse na 4ª-feira que “não tomei uma decisão” e falou de “resposta limitada” à crise Síria, não agia nem falava como os presidentes dos EUA sempre agiram e falaram desde a primeira guerra contra o Iraque, em 1991. (Nem Clinton, nem os Bushs, pai e filho, jamais falaram de “limitações”, em circunstâncias semelhantes). 

Os parceiros menores de Obama na Grã-Bretanha e França rapidamente passaram a copiar o chefe, imitando-o nas vacilações, exatamente como, na véspera, haviam-no imitado na “firmeza”. O Primeiro-Ministro britânico David Cameron também alterou repentinamente o tom de voz, ao repetir pela infinitésima vez a mesma mentira sobre a Grã-Bretanha ‘não tomar partido’ no conflito sírio. 

David Cameron
por DonkeyHotey
A verdade, sobre tomar lados, ou, de fato, tomar um lado, é que Grã-Bretanha, EUA e outros países ocidentais já escolheram lado há tempos, em 2011 ou possivelmente antes.

Pior que isso: Cameron encontrou oposição decidida aos seus planos de intervenção, em 285 deputados do Parlamento Britânico – momento excepcional para um parlamento que sequer foi consultado sobre o ataque à Iugoslávia em 1999 ou sobre a ocupação do Iraque em 2003.

O presidente da França, François Hollande, que havia dito há apenas um dia que a França estava pronta para “castigar os que matam a gás gente inocente”, também repentinamente toma o caminho de uma reunião com o líder da oposição síria, em vez de gritar a ordem de ataque à força aérea francesa. Mudança nada francesa. Até, de certo modo, um pouco... “vegetariana”?! 

François Hollande
por DonkeyHotey
É claro que não faltaria ocasião para conversas com líderes da oposição síria, DEPOIS de a França ter “castigado” Damasco! (Líderes de “conselhos” e “coalizões” da oposição síria existem às dúzias e foram trocados como quem troca de lenço por EUA e União Europeia ao longo dos dois últimos anos. Que um deles tivesse de esperar um dia ou dois pelo encontro com Hollande absolutamente não seria problema).

Os membros da União Europeia também exibiram graus variados de tremedeira, frio na barriga e encolhimento – outro evento raríssimo, num corpo que “carimbou” tantas intervenções passadas.

Em reunião dos ministros de Relações Exteriores da União Europeia, só a Dinamarca manifestou desejo ativo de ir à guerra, com as devidas desculpas aos “entusiastas da guerra” (desculpem: aos entusiastas do “ataque limitado”). Itália, Polônia e Países Baixos foram acometidos de repentina síndrome de abstinência de mandado da ONU (nunca precisaram de mandado da ONU antes, nem quando atacaram a Iugoslávia, nem quando ocuparam o Iraque).

Reunião dos Ministros das Relações Exteriores da União Europeia em Vilna, Lituânia 
Em reunião de embaixadores da OTAN, sequer citaram a palavra Síria. A OTAN, nesse alto nível, declarou que preferia afastar-se da situação na Síria. Estranha atitude da organização que prometera ação “em todos os azimutes”. Ao que parece, a Organização do Tratado do Atlântico Norte decidiu imitar a atitude do proverbial sábio sábio oriental, que se senta à beira do rio e espera que passe por ali, trazido por aquelas puras águas, o cadáver de seu inimigo. É possível que o inimigo por cujo cadáver a OTAN espera seja o presidente Bashar al-Assad da Síria, mas talvez espere algum outro cadáver, porque todos os líderes da OTAN também já se puseram a dizer que “não planejam forçar mudança de regime” em Damasco.

Os cálculos fracassados dos “estrategistas de guerra”

Em momentos como os que estamos vivendo, a hipocrisia começa a trabalhar contra os hipócritas. É claro que os países ocidentais têm feito o diabo para que haja “mudança de regime” em Damasco, e desde o começo das hostilidades em 2011! Por que outro motivo derramariam ali tanto sangue e tanta tinta (e bits) e tanto dinheiro? E é claro que os mesmos países continuam a buscar hoje a mesma “mudança de regime” em Damasco.

Bashar al-Assad
Mas os cálculos fracassados, os erros de cálculo dos estrategistas ocidentais, esses, sim, já estão aí à vista de todos: o governo do presidente Assad comprovou ser muito mais estável e resistente do que esperado (a previsão é que seria derrubado há dois anos, em 2011). Essa resistência explica-se em parte pela crueldade, pela violência e pelo extremismo da oposição islamista síria – algo que a imprensa-empresa ocidental e seus “especialistas” jamais noticiaram ou comentaram satisfatoriamente. 

Execuções públicas e interpretações extremistas da lei da Xaria afastaram o povo sírio, da “oposição” – mudança que, mais uma, também foi mantida absolutamente ocultada da opinião pública, pela mesma imprensa-empresa ocidental. (O famoso colunista do New York Times, Thomas Friedman, disse que, havendo eleições livres e limpas na Síria, Assad seria eleito; mas só o disse em reunião com jornalistas russos, nunca em sua coluna).

A situação de Assad permanecer no poder é terrivelmente embaraçosa para o establishment nos EUA, e essa é uma das razões da atual escalada. A tentação de corrigir os erros dos especialistas mediante bombardeio cerrado (bombardear Assad até obrigá-lo a deixar o poder e assim “provar” que os especialistas acertaram as previsões, embora com pequeno atraso) – é tentação forte demais. E o tempo voa: vai-se tornando cada vez mais difícil para a imprensa-empresa e para a comunidade de “especialistas” encobrir os erros e crimes da oposição síria. (Casos de mercenários da oposição que torturaram forças leais a Assad e ataques até contra jornalistas ocidentais já apareceram recentemente, no New York Times). Por tudo isso, de um ponto de vista de Propaganda & Relações Públicas, chegou a hora de os EUA “agirem”.

Thomas Friedman
Mas por que, afinal, Obama e seus aliados europeus encolheram-se? Não é muito difícil descobrir a linha de pensamento de Obama: se meus especialistas erraram uma vez, e avaliaram mal a força militar de Assad e sua popularidade entre os sírios, o que garante que não errem outra vez?

Obama conhece o real valor dos “conselheiros” que o cercam, saídos de think-tanks nos quais foram treinados, no tempo de Reagan, para sempre oferecer previsões otimistas - do tipo que os governantes gostam de ouvir – sobre o Iraque e a Líbia, a Ucrânia e a Geórgia.

Fato é que os últimos dez anos viram fracassar inúmeros prognósticos construídos por “especialistas” da Casa Branca – e não só no Iraque e no Afeganistão. Na Ucrânia e na Geórgia, repúblicas da ex-União Soviética, que os conselheiros norte-americanos tentaram converter simultaneamente em repúblicas afluentes e anti-Rússia, as forças pró-EUA sofreram derrotas eleitorais humilhantes, que a inteligência dos EUA, mais uma vez, não soube prever. Mas em vez de responsabilizar os “especialistas” incompetentes (demitindo-os, por exemplo), o establishment dos EUA usa a ação militar para “corrigir” os erros deles.

O maior medo de Obama é: e se a sorte abandonar o presidente dos EUA, outra vez? É quando Obama fraqueja e vacila. Mais uma vez, Obama deixa ver o seu principal traço de personalidade – a indecisão, a incapacidade para resolver. Mas sorte do mundo (embora seja caso raríssimo), em que a indecisão e a incapacidade para resolver talvez poupem o mundo de mais um desastre.

Anthony Zinni
Obama é, hoje, um homem dividido entre dois impulsos conflitivos – o desejo de mostrar-se “durão” frente ao Congresso e parte do público norte-americano, e o medo das consequências não previstas e não desejadas de sua guerra “limitada”. O Marine aposentado, general Anthony Zinni, lembrou ao presidente que Não existe gravidez “limitada”, triste verdade, que o Washington Post publicou. Quem vai à guerra tem de estar preparado para lutar até o fim.

Tudo isso pode levar a uma perigosa repetição do início da 1ª Guerra Mundial – todos os chefes de estado que iniciaram hostilidades naquele momento queriam uma guerra “limitada”. Todos eles contavam com que o seu próprio país escaparia impune. Todos só queriam “mandar um recado” que lançaria aos pés de cada um o espólio geopolítico com que cada um sonhava. O “recado” que a realidade mandou-lhe de “resposta”, foi terrível: 17 milhões de mortos e três impérios destroçados.

Obama deveria ouvir esse “recado”, antes de cogitar de mandar “recados” ao presidente Assad da Síria.




[*] Dmitry Babich é jornalista russo, com base em Moscou, onde trabalhou para vários jornais (Komsomolskaya Pravda, Moscow News e Ria Novosti dentre outros). Atualmente é analista político do jornal Voice of Russia. Eventualmente produz matérias para o The BRICS Post.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

“BRICS é uma união de diferentes”

25/3/2013, The BRICS Post (TBP) 
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu: O jornalismozinho das empresas-imprensa brasileiras PROMOVE A IGNORÂNCIA. “Liberdade de expressão”, pra essas empresas, empresários e empregados, é liberdade para que continuem a promover a ignorância. Quem precisa disso?!

Opinião da redecastorphoto: O “jornalismo” brasileiro das empresas de imprensa (em papel ou mídia eletrônica de massa) é tão vagabundo, mas tão vagabundo que qualquer pessoa, empresário, executivo ou mesmo classe social que se baseie nesses meios para tomar decisões de vida, investimentos, negócios, análises e mesmo em quem votar, terá a probabibilidade de quase 100% de estar cometendo um erro, certamente grave, por mera DESINFORMAÇÃO. Sugerimos que nossos leitores NÃO leiam e/ou assistam “jornais” ou “revistas”. Informe-se nos BLOGS. A probabilidade de terem alguma INFORMAÇÃO é, também, muito próxima de 100%.




Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa dos BRICS, conversa com The BRICS Post sobre o Banco dos BRICS e sobre por que “os BRICS não devem ser uma aliança de estilo ocidental”. Toloraya é também presidente do Departamento de Projetos Regionais para Ásia e África da Fundação “Russkiy Mir”.



TBP: O Banco dos BRICS deve ser uma alternativa às instituições financeiras ocidentais como o FMI e o Banco Mundial, agora que os clamores por reformas nessas instituições internacionais deram em nada?

Toloraya: Não posso dizer que o Banco dos BRICS, quando for constituído, será uma alternativa, mas será um concorrente das instituições à moda ocidental. O Banco dos BRICS deve começar como centro político para coordenar políticas macroeconômicas e estratégias de investimento. Assim sendo, não acho que o projeto possa receber financiamento do Banco Mundial ou de bancos regionais de desenvolvimento, nem que essa possibilidade seja cogitada, pelo menos no primeiro estágio. Mas o banco proposto terá, é claro, de manter cooperação próxima com instituições financeiras internacionais.

TBP: Onde será a sede do Banco dos BRICS?

Toloraya: Esse é problema filosófico. Pode-se dizer que deve ter sede num dos países BRICS. Minha opinião é que Moscou é a localização ideal. Como você sabe, estamos tentando construir aqui um centro financeiro internacional. Embora Moscou não esteja exatamente no centro das rotas financeiras internacionais, é a capital mais próxima de todas as demais capitais dos BRICS, mais próxima de todas, que qualquer outra. Outra possibilidade é localizar a sede em algum dos tradicionais centros financeiros mundiais, como Londres ou Genebra.

TBP: O senhor acha que o tema do Banco dos BRICS será item prioritário na agenda da reunião de Durban?

Toloraya: É uma das importantes questões que os BRICS definiram para a pauta, ano passado, num parágrafo relevante da Declaração de Delhi. Esse ano, a reunião tomará conhecimento do que foi feito. Entendo que esse processo de criar o Banco de Desenvolvimento dos BRICS prosseguirá, porque todos os países precisam desse banco. Mais importante que isso, ele é também um centro de análise e pesquisa, muito necessário e urgente para aproximar as economias dos cinco países membros.

TBP: Os EUA ou a União Europeia terão ações do Banco dos BRICS?

Toloraya: Houve boatos sobre isso. Mas não me parece que, pelo menos inicialmente, os EUA ou qualquer outro país fora do grupo dos BRICS terá ações do Banco de Desenvolvimento dos BRICS.

Não vejo nada de mal em o Banco de Desenvolvimento dos BRICS tomar empréstimos ou financiamento, ou que negocie com o sistema financeiro internacional, o qual, como se sabe, é dominado pelos tradicionais centros financeiros mundiais na Europa e nos EUA.

TBP: Como o senhor vê a Rússia fortalecendo os BRICS, agora que estará na presidência do G20, como anunciaram o presidente Putin e o ministro Lavrov (das Relações Exteriores)?

Toloraya: Bem, você sabe que o G20 é o mais próximo que temos hoje de uma governança global. E a estratégia dos BRICS é melhorar, ou modernizar, a governança global. Assim sendo, há, sim, uma sinergia. Acho que os BRICS estão-se entendendo bem dentro do G20.

TBP: O ministro de Relações Exteriores da África do Sul disse recentemente que:

A emergência dos BRICS não está sendo bem recebida por nós todos. Há os que não veem com bons olhos os BRICS, porque entendem que a existência do grupo ameaça o status quo e altera o atual equilíbrio internacional de forças.

O que lhe parece?

Toloraya: Para começar, o equilíbrio internacional de forças não é estável nem eterno, está sempre mudando. Vimos, em anos recentes, que esse processo de mudança foi acelerado. Já não é possível falar em mundo unipolar. E a mais recente crise financeira expôs, bem claramente, a impotência de um antigo status de poder, para resolver os problemas.

Assim sendo, e agora que o mundo já é policêntrico, precisamos de novos mecanismos de coordenação. O mundo precisa de algum tipo de novo sistema para fixar as novas regras, as quais, se supõe que serão mais justas que as atuais, que sempre foram baseadas, até agora, em ações unilaterais. Os BRICS, portanto, são instrumento muito útil no processo de construir um sistema novo ou de modernizar o sistema existente. Esse novo sistema não será violento e não levará a conflitos.

Os países BRICS, pelo empenho em pautar-se pela lei internacional, considerar o mecanismo da ONU, os métodos políticos e diplomáticos para resolver problemas – são a base sobre a qual se deve basear esse sistema novo, ou modernizado. Não me parece que os BRICS ameacem o atual sistema ou agravem tensões. Ao contrário: os BRICS possibilitam a transição lisa, pacífica e suave, para um novo estado de coisas.

TBP: Um especialista russo em governança global e análise de problemas disse recentemente que o principal problema dos BRICS é que não há nação líder. Será que os BRICS precisam disso? E quem pode liderá-los?


Toloraya: Essa é a principal diferença entre o velho sistema unipolar e o que estamos fazendo: não estamos tentando criar um novo sistema unipolar de relações internacionais. Os BRICS por definição não têm, nem devem ter nação líder. A força do grupo está na unidade entre diferentes. A unidade brota, precisamente, do fato de que os países do grupo são muito diferentes uns dos outros e assim devem continuar. Por isso, os BRICS jamais se converterão em alguma espécie de aliança à antiga moda ocidental, na qual um único líder governa o mundo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os EUA não ultrapassarão os BRICS

Comentário entreouvido na Ponta do Prego (na Vila Vudu): Mostra esta tradução Dona Míriam Leitão, a Urubóloga, e óóóótimos gráficos prô Sardenberg mostrar no jornal (?) da globo [gargalhada (respira) gargalhada].


9/5/2013, Mark Adomanis, The BRICS Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ruchir Sharma
Ruchir Sharma, autor de “Broken BRICs”, que a revista Foreign Affairs não se cansa de citar e elogiar e, portanto, a imprensa-empresa no Brasil só faz repetir e papaguear até quando finge que “critica” [1], escreveu, em resumo, que:

A China só conseguiu criar uma classe média confortável e dependente demais da construção de novas estradas e fábricas, e não conseguirá crescer em ritmo de dois dígitos. A extrema dependência russa, de petróleo e gás, produziu uma classe de petromagnatas que converteu Moscou em capital da decadência, que faz lembrar os últimos dias da Roma Antiga. O Brasil tem tanto medo da volta da volatilidade econômica dos anos 1980s e 90s [anos negros dos governos da tucanaria Chicago-Sorbonne-uspeana], que se dedica quase exclusivamente a proteger as pessoas do sofrimento econômico, produzindo um dos mais fracos crescimentos dentre os mercados emergentes. A Índia, que chegou a ser propagandeada como a próxima China, já cedeu ao crescimento lento no ano passado, mas é difícil estimar as possibilidades reais, nesse caso, por causa da fragmentação em uma coleção e economias estaduais.

Mark Adomanis
Na medida em que se considere que Sharma opera a partir da extrapolação direta de tendências lineares (se a China cresceu 10% durante os anos 2000s, “então” continuará a crescer 10% eternamente) seu argumento é aproveitável.

Escrevi sobre a demografia russa, e argumentava ali, com dados, para demonstrar que a projeção linear é extremamente problemática e que os analistas têm de incorporar dados e observações novas em suas análises ou suas teorias vão-se separando da realidade. Aconteceu com as “teorias” da despopulação constante da Rússia, com consequente declínio da economia do país; e pode-se dizer que aconteceu também com algumas “teorias” da ascensão dos BRICS, como se pudesse acontecer sem problema algum.

Mas Sharma parece argumentar contra um espantalho de palha, argumento que não encontrou eco nem entre os mais empenhados catastrofistas, pregadores da falência dos BRICS. Não tenho notícia de ninguém, mesmo entre os mais furiosos “declinistas”, que tenha sugerido que a história seguiria para sempre, exatamente como andou durante os anos 2000s e que o crescimento meteórico dos BRICS naquela década seguiria eternamente. De fato, se se ouvem os pronunciamentos dos ministros dos BRICS, sobretudo os ministros de Finanças e Comércio, nenhum soa arrogante ou autossuficiente: soam, sim, contidos, modestos, focados na solução de problemas, os quais, é claro, para eles, não são poucos.

A questão da crescente importância dos BRICS é muitíssimo mais sutil que a história que Sharma opera para desqualificar. Como sempre, injetar uma boa dose de dados atualizados ajuda a discutir com clareza. Abaixo, vê-se um gráfico que mostra como se comportou a paridade do poder de compra do PIB (ajustado) dos EUA e dos BRICS desde 2000, e a parte que lhes corresponde, respectivamente, da economia mundial. Para construir esses gráficos, usei dados do Banco Mundial de 2000-2011, números consensuais de crescimento para 2012, e previsões conservadoras, baseadas, bem de perto, em projeções do FMI para 2013. 

A evidência de que os EUA já foram ultrapassados pelos países BRICS chega a ser, como se vê, espantosa:




Naquele excerto de seu livro, e em escritos mais alentados sobre mercados emergentes, Sharma escreve sobre a possibilidade de os países BRICS ultrapassarem os EUA como se fosse uma espécie de sonho irrealizável: coisa que só aconteceria em algum futuro, se algumas tendências se mantivessem e se Brasil, Rússia, Índia e China, que formam o grupo, continuassem a “ter sorte”. Mas, como entendo que esses gráficos deixam bem claro, os BRICS já suplantaram os EUA em termos do tamanho de suas economias, e todas as previsões racionais razoáveis fazem crer que assim continuará, no futuro que se pode antever. Em larga medida, Sharma combate uma batalha que os EUA já perderam. 


E, em termos futuros, é difícil ver como os EUA podem esperar recuperar a vastíssima diferença de terreno que já perderam para os países BRICS. Até a mais tímida e pessimista previsão de crescimento de médio prazo de China e Índia as põem com crescimento de cerca de 5% para a próxima década, e há previsões ainda mais otimistas. Apesar de haver evidente desaceleração, se se consideram as taxas estratosféricas de crescimento dos anos 2000, e por mais que Sharma tome essa desaceleração como sinal de calamidade próxima, vale a pena ter em mente que qualquer crescimento de 5% já é crescimento muito mais rápido do que qualquer coisa que os EUA sejam capazes de obter hoje ou possam sonhar. Só para comparar, 2000 foi o último ano em que o PIB dos EUA cresceu em torno de 4% ou mais (o segundo melhor número foi os 3,5% de 2004, mas, em retrospecto, aconteceu durante o auge da bolha imobiliária, absolutamente ensandecida e insustentável).

Observado no longo prazo (50 anos), a queda do PIB dos EUA é espantosa:


O PIB dos EUA está desacelerado há várias décadas, em meio a uma variedade de situações externas e ao longo de governos Democratas e Republicanos, sem diferença. Além disso, a recuperação depois da crise econômica de 2008-09, a qual, só ela, já gerou recessões muito mais agudas que em momentos anteriores, foi e está sendo muito mais lenta do que se viu em experiências passadas. Na medida em que se pode confiar em projeções, o crescimento do PIB dos EUA permanecerá em torno de 2% ao longo de todo o período 2011-13: é crescimento até decente, se comparado ao europeu, mas muitíssimo lento, se comparado ao crescimento dos países BRICS.

Sugiro outro modo de analisar tudo isso. No período 2000-2012, os EUA conseguiram superar o PIOR desempenho dentre os BRICS, mas só em três momentos: do Brasil, em 2003 e 2012, e da Rússia, em 2009. Em todos os demais anos, ao longo de mais de uma década, o desempenho da economia dos EUA foi pior que o de todos os BRICS.

É repetir clichês dizer que o desempenho passado é o melhor elemento para prever desempenho futuro, mas, se se considera o quadro histórico da economia dos EUA, é impossível não ver bem claramente o crescimento declinante. É possível que essa tendência inalterada ao longo de décadas, que persiste apesar das mais variadas políticas macroeconômicas e comerciais tentadas, nos mais diferentes ambientes externos, seja revertida, como Sharma sugere, repentinamente, mediante o uso do gás de xisto, mais barato. Energia barata, afinal, sempre é melhor que energia cara, e energia doméstica barata é, de todas, a melhor possibilidade.

Porém, “resolver” os problemas da economia dos EUA com energia barata só será possível se todos os problemas atuais fossem realmente provocados só pela energia cara. O consenso entre muitos é que assim se resolve uma inconveniência menor e secundária, não o grande desastre em curso. Como se vê, se se analisa qualquer gráfico dos preços do petróleo, há mínima, e talvez não haja nenhuma, relação causal entre os preços das commodities e o crescimento da economia dos EUA: houve anos de energia barata e crescimento fraco; anos de energia cara e crescimento robusto; e anos em que os dois indicadores andam de lado.

Claro que o acesso pleno a energia abundante não causará dano à economia dos EUA, e espero que o impacto geral será moderadamente estimulante. Mas as raízes do declínio econômico dos EUA, incluído aí o encolhimento da classe média, a concentração de riqueza em círculos cada vez menores, o aumento do endividamento dos universitários, a superdependência do endividamento dos consumidores, são fatores muito mais profundos que o alto preço do gás natural, e não é possível “tratá-los” com fracking, assim como um câncer agressivo não pode ser “tratado” com antibióticos. A correção dos problemas que estão limitando o crescimento dos EUA exigirá concessões, projeto claro e razoável e visão de futuro, precisamente os elementos que hoje faltam completamente no Congresso. O que se tem de prever, como quase inevitável, é que os EUA continuarão a debater-se entre uma crise autoinfligida e outra, como a que está acontecendo desde que Obama foi eleito.

Os EUA continuarão país extremamente rico e poderoso, e “declinarão” em sentido relativo, não em sentido absoluto. Mas declínio relativo também é declínio, e, por esse padrão, o declínio dos EUA já é notável e chama a atenção, porque, principalmente, os EUA já perderam grande fatia de sua parte do PIB mundial. Isso já aconteceu. Há triunfalistas dos mercados emergentes que se excedem, na promoção dos BRICS e há os que subestimam as dificuldades inerentes ao governo e à administração desses países-gigantes.

Mas, se se examinam as evidências, se se olham os dados do crescimento do PIB, é difícil manter a esperança de que os EUA consigam ser bem-sucedidos. E vê-se, bem facilmente, como os mesmos problemas que acossam os EUA ao longo dos últimos 13 anos continuam e, pelo visto, continuarão a acossá-los.


Nota dos tradutores
[1]  Elio Gaspari: “criticou”, mas com rara doçura, crítica doce que a revista (não)Veja reproduziu, porque, afinal, as besteiras do cara deram MUITA bandeira. As gentilezas pretensamente “críticas” estão no blog do Ricardo Setti, em matéria típica do jornalismo brasileiro – que é o pior do mundo – e existe, sobretudo, para jornalista do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) promover jornalista do mesmo Grupo GAFE. Ah! E nem esse blog da Veja, nem o Estadão publicam OS GRÁFICOS acima [risos, risos].

terça-feira, 26 de março de 2013

Brasil e China firmam acordo para comerciar em suas próprias moedas


26/3/2013, The BRICS Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu: O artiguinho adiante traduzido serve como amostra de como se noticiam as coisas fora do Brasil e de como o jornal O GLOBO (des) noticia, para o público brasileiro, os mesmos fatos.
A versão de O GLOBO está em Países emergentes terão fundo de US$ 100 bi contra turbulências (25/03/2013 - 22h00, reproduzida no Blog do Nassif e em zilhões de outros blogs jornalísticos) – matéria de uma jornalista enviada especial a Durban (Tatiana Farah, a qual, afinal, nem precisaria ter saído do Brasil, porque escreve, de Durban o mesmo que escreveria aqui mesmo).
Valha o que valer, qualquer blog do universo que leve o título de The Brics Post [1], oferece, com TOTAL CERTEZA, jornalismo muuuito melhor que o de O GLOBO!
Por que, em vez de reproduzir matéria de O GLOBO, nossos jornalistas blogueiros não buscam material de fonte mais confiável?
Por que, diabos, todos vivem a reproduzir matéria de O GLOBO?!



Em movimento que dá importante impulso nas relações comerciais entre os dois países, China e Brasil firmaram novo acordo bilateral para usarem as respectivas moedas nacionais no comércio bilateral, acordo que cobrirá o equivalente de mais de 30 bilhões de dólares em trocas comerciais por ano, por três anos.

O anúncio precede a reunião crucial dos chefes de Estado dos cinco países BRICS, que acontece em Durban amanhã.

O acordo foi assinado pelos presidentes dos bancos centrais chinês e brasileiro e pelos Ministros das Finanças dos dois países, ontem [3ª feira em Durban].

A Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff reunir-se-á com os presidentes dos países BRICS em Durban. O Brasil reconhece a China como parceiro-chave para a economia latino-americana.

Fernando Pimentel
Brasil e China trabalham para ampliar o comércio entre os dois países. Para tanto, assinaram acordo mediante o qual o comércio entre os dois países passará a ser feito nas moedas locais, para proteger-se das flutuações do dólar” – disse Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil. “A China é o maior parceiro comercial do Brasil e desejamos ampliar nosso portfólio de exportações para a China”.

Ontem, o Ministro Pimentel conclamou o Fundo Monetário Internacional a modernizar sua estrutura de governança. Para o ministro brasileiro, “os países em desenvolvimento devem ter papel mais permanente no sistema de comando daquela organização”.

Os BRICS são bloco econômico e diplomático que se foi consolidando cada vez mais a cada nova reunião. O Brasil acreditamos que já constituímos um bloco econômico permanente na arena internacional” – disse o ministro brasileiro. 



Nota dos tradutores
[1] The Brics Post é publicado por BRICS Media Network Ltd., organização não comercial, sem finalidades de lucro, registrada na Inglaterra e Wales, em julho de 2012.