Mostrando postagens com marcador Ditadura Militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ditadura Militar. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O inverso da velha piada

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações redecastorphoto

Lembram-se daquela velha piada do papagaio do padre francês que a cafetina comprou para dar um ar de moralidade na porta de entrada do rendez-vous muito chic e bem frequentado, oferecendo recepcionistas importadas, sobretudo francesas que mexiam com os fetiches e imaginações da macharada da época?

Martin Almada e a
Operação Condor
O bichinho muito educado cumprimentava a cada um que entrava e saía na maior finesse:

Bon soir Monsieur! Comment allez-vous? Arrivez vous chez les Mademoiselles! Ça va bien?.

Mas no dia que viu uns generais fardados aproximando-se e em direção à casa de tolerância, berrou adentro:

Corrê putadá qu’ os homê vem chegandô!

Pois é... De tão velha ninguém mais ri dessa piadinha que se em algo divertia nos tempos da ditadura, era só pela chacota implícita aos milicanalhas da ocasião. E o francesismo incluído em algumas interpretações era só rapapé para obter maior efeito, realçando o brasileirismo final com nosso francês colegial do currículo escolar de então.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e, quem diria, a velha piada ressurge em versão inversa, como se vê aí nos agradecimentos e solicitações do prêmio Nobel Alternativo, Dr. Martin Almada, vítima da Operação Condor, ao Embaixador da França no Paraguai.

Como diz aí entre 2004 e 2008 os arquivos dos crimes da Operação Condor foram abertos e investigados pela Commission pour la Vérité et la Justice da Argentina com a cooperação da justiça paraguaia e, agora em dezembro de 2013, se dará no Senado Francês e no Palais de Luxembourg une Conférence Internacionale sur l’Opération Condor.

Chic, não é? Já deveria ter chegado nossa vez de receber tamanha honraria e interesse internacional afinal nossa ditadura militar começou 10 anos antes da dos milicanalhas da Argentina. Ainda que a do Paraguai houvesse iniciado exatamente outra década antes da do 1º de Abril de 1964, com Alfredo Stroessner que iniciou sua carreira de crimes políticos contra o povo vizinho em 1954 e só em 1989 fugiu para o Brasil onde ficou acoitado até sua morte em 2006, em total impunidade.

Olivier  Poupard
Emb. da França no Paraguai
Infelizmente todos os nossos ditadores tiveram o mesmo lamentável destino, mas ainda vagam por aí muitos de seus colaboradores e bem merecem serem igualmente lembrados lá na França. Para o que todos podem colaborar divulgando essa carta do Dr. Martin Almada como um incentivo à nossa Comissão da Verdade e da Justiça.  

Mas não façam como o papagaio da piada. Sem avisos pra putadá que, hoje muito modesta, prefere o ostracismo dos pijamas que substituem as fardas nos cabides, como trocaram os cabos elétricos e alicates de arrancar unhas pelo controle remoto de TV.

Segura o bico do papagaio porque tem de ser surpresinha para não debandarem em saída à francesa.

Mas repassem! Eles merecem.

A seguir a carta (traduzida do francês para o português-BR) do Dr. Martin Almada ao Embaixador da França em Assunção- Paraguai

____________________________

Dr. Martin Almada
Dr. Martin Almada
Av. Carlos A. Lopez, 2273
Assunção

Assunção, 28 de outubro de 2013

À atenção de Sua Excelência
Embaixador da França
Dr. Olivier Poupard

Senhor Embaixador,

Em 22 de dezembro de 1992, com apoio da justiça de meu país descobri, após 14 anos de busca, 3 toneladas de arquivos da polícia secreta da ditadura de Alfredo Stroessner, que a imprensa se apressou em batizar como”Arquivos do Terror da Operação Condor.

Logo após esta descoberta o Congresso paraguaio criou a Comissão para a Verdade e a Justiça, trabalhou sobre esses arquivos desde 2004 até 2008, trabalho esse que resultou em 8 volumes de conclusões e recomendações.

Em 2009 a UNESCO declarou esses “Arquivos do Terror”  como Patrimônio da Humanidade, garantindo assim sua preservação e o direito de meu povo a consultá-los livremente. 

Como o senhor sabe, diante da inação da justiça paraguaia que se seguiu às conclusões obtidas pela Comissão da Verdade e a Justiça, venho trazer uma queixa-crime diante da justiça da Argentina, como me permite o princípio da Justiça Universal, visando continuar meu combate aos torturadores de meu pais e, assim, fazer respeitar os Direitos Humanos no Paraguai.

Entre 13 e 14 de dezembro de 2013 será realizada no Senado Francês e no Palácio de Luxemburgo uma Conferência Internacional sobre a Operação Condor em parceria com o Coletivo Argentino pela Memória. Nesta ocasião estarei no local para proferir um discurso pelo XXIº aniversário da descoberta dos “Arquivos do Terror”.

Esta carta visa solicitar uma audiência com o Presidente da República francesa, Sr. François Hollande, quando de minha já referida viagem à França, para exprimir oficialmente minha profunda gratidão ao seu país por ter me acolhido durante meu exílio forçado entre 1979 e 1992.

Da mesma maneira desejaria exprimir meu reconhecimento por ter sido a França o primeiro país a reconhecer a importância de minha descoberta, única em seu gênero em nosso continente, me condecorando com a Ordem Nacional do Mérito em 14 de fevereiro de 1997.

Queira aceitar, Senhor Embaixador, a expressão de minha mais distinta consideração,

Dr. Martin Almada,
Prêmio Nobel Alternativo

_________________________

[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Reportagem Detalha Uso De Crianças Em Torturas Na Ditadura Militar


Enviado por Chico Villela da NovaE
Vídeo produzido pela TV Record, R7 



O repórter Luiz Carlos Azenha (R7 e titular do blog Viomundo) entrevistou vítimas do regime militar para contar uma história que ainda não foi totalmente revelada. Veja no especial As Crianças e A Tortura.



Comissão da Verdade recomenda que torturadores sejam julgados pelos crimes

domingo, 11 de novembro de 2012

A CEIA DOS CARRASCOS


11/11/2012, enviado por Raul Longo

Enquanto os criminosos da ditadura militar continuarem se banqueteando, os condenados ao atraso, a classe média brasileira, não deixarão essa ceia autofágica.

Raul Longo
Houve tempo de se dar o direito de escolher a última refeição aos condenados à execução. Mórbida tradição que talvez ainda se mantenha em países humanamente atrasados onde, até hoje, se aplicam penas de morte.

Mas há dos mais atrasados ainda, onde aos condenados não se dá direito algum e se os mata sem qualquer julgamento, apenas com a desculpa de que é matando que se mantêm a ordem.

Isso de atraso humano não é particularidade de país algum, mas de períodos da história mesmo de nações consideradas mais notáveis e evoluídas em determinados aspectos. Como o Japão, por exemplo. Difícil imaginar que aquele país hoje tecnologicamente tão desenvolvido, tenha promovido tamanhas barbáries ao invadir a China.

A Alemanha é exemplo ainda mais gritante: berço dos maiores pensadores da alma e do comportamento das sociedades humanas, foi a responsável por um dos mais bárbaros períodos da história da humanidade.

Não se justifica incriminar os povos por estes lamentáveis momentos. Foram levados à barbárie por aqueles que então detinham o poder sobre suas instituições. O resultado dessa errônea premissa de julgamento é sempre o mesmo: preconceito.

Ontem mesmo participei de um diálogo que ia se descambando por aí. Começou com a lembrança do nazismo germânico, para grande incômodo do casal de brasileiros que tanto exaltava a cultura ocidental do hemisfério norte e com pessoal orgulho e vaidade nos proferiam como sub-raça. Não estou inventando! Foi exatamente isso o que deles ouvi.

Gotham City (não confundir com São Paulo)
Com muita dificuldade eu tentava suportar a conversa e para amenizar lembrei que pessoas de índole perversa como os executores dos pais de família na guerra cotidiana de São Paulo, existem em todos os países. Antes já havia provocado certo mal estar ao lembrar que, hoje, o governador daquele estado é o mesmo de quando sequestraram a Gotham City brasileira e sem Batman. Tergiversaram e não fui atrás. Deixei pra lá, mas a incapacidade de raciocínio da classe média é insistente e quando retornaram ao assunto para nos apontar como subcultura periférica, lembrei dos estupros coletivos praticados pelos europeus da Bósnia. Quiseram escapar pela multiplicidade étnica e religiosa dos antigos iugoslavos e suas reminiscências orientais, me obrigando a reportar ao exemplo do IIIº Reich.

O mestre dos MILICANALHAS
Condenavam a eugenia nazista quando, para meu espanto, arrematam com a brilhante conclusão que tudo aquilo foi um lamentável desvio provocado pelo condicionamento do povo germânico que não é uma sub-raça como nós, os brasileiros.

Num inaudito e desusado esforço de contemporização procurei manter a tese de que os seres humanos são todos iguais, mas me desmentiram, demonstrando que a classe média brasileira é mesmo um caso a parte, ao se enveredarem em lembranças e descrições de barbáries cometidas nos conflitos entre as etnias africanas. Tentar demonstrar-lhes que a manutenção daqueles conflitos interessa aos do hemisfério norte que tanto admiram iria me dar muito trabalho e apenas somei aos exemplos uma breve citação sobre o genocídio de palestinos pelo estado sionista de Israel.

Salvadora lembrança que pôs fim a conversa antes que me fizessem perder a paciência já de per si reduzida, mas retomo aqui como exemplo de que isso de barbárie é mais coisa de condicionamento de massas por sistemas de poder, do que das índoles dos povos e muitas vezes até mesmo das instituições de poder. Portanto, só há uma forma de combater a barbárie e promover a evolução da civilização: condenando aqueles que a estimularam e praticaram em períodos que por algum meio foram alçados ou ilicitamente ocuparam esse poder, pervertendo-o.

No entanto, a questão que se me suscita ao receber por um desses acasos internéticos o desabafo do obscuro carrasco Brilhante Ustra, é sobre qual seria a função do ritual da última refeição do condenado.

Brilhante Ustra
Pergunto-me se seria provocar a reflexão do criminoso sobre tudo o que perdeu por não reconhecer a humanidade de seus semelhantes? Enquanto mastiga e saboreia os últimos bocados de um prato de sua preferência, obrigá-lo a avaliar todos os outros sabores e prazeres da vida que se lhe tornou imerecida por sua miserável existência?

Se não for para isso, esse ritual é injusto com as vítimas desses criminosos, pois aquelas não tiveram direito de pedido algum. Torturadas, violentadas, seviciadas, executadas sem qualquer rito e o mínimo de humanidade.

E o banquete descrito pelo Brilhante Ustra, o que é? O que é essa confraternização de carrascos?

Não foram condenados à morte, pois não há mesmo que se igualar à desumanidade representada em suas existências, mas o grande risco de mantê-los impunes se denota na própria displicência do coronel ao se referir sem o menor constrangimento aos adultos, mulheres e crianças que fez suas vítimas. Aquela frieza de criminoso que provoca engulhos em magistrados sérios.

Exatamente como os carrascos julgados em Nuremberg, Ustra alega ter cumprido ordens. Mas em uma coisa ele está certo, não pode nem deve ser o único a ser julgado pelos crimes cometidos naquele período de barbárie da história brasileira.

MILICANALHAS escondem seus crimes
Claro que também não se pode julgar toda a instituição que fraudaram. O Exército Brasileiro, em verdade, também foi vítima daquelas mentes doentias que então subverteram as funções e a razão da existência da instituição. E o Exército Brasileiro tem uma imagem, um histórico que não pode ser enlameado por elementos que espuriamente o comandaram escrevendo o mais execrável período de sua história.

Ponderando essa evidência, considerando quão injusto e inócuo seria tornar o Brilhante Ustra em bode expiatório, creio ter descoberto uma função para a ceia dos carrascos, descrita por um deles, inclusive citando nomes de alguns presentes. É como naquelas festas promovidas pelos chefes do tráfico, onde a polícia filma e depois sai catando um a um. Afinal, conviva de confraternizações de criminosos é o que? Tá fazendo o que ali?

A ceia dos carrascos é uma ótima oportunidade para o Exército Brasileiro resgatar a imagem da gloriosa instituição. Mas claro que tudo dentro de padrões civilizados e sem repetir a barbárie, pois seria tão arriscado quanto manter a impunidade desses comensais subversores da ordem que com tão mal exemplo ainda hoje impedem o progresso mental da classe média brasileira que gosta de parecer que pensa, mas não consegue nem reconhecer o absurdo em condenar o mito da supremacia racial germânica e ao mesmo tempo se auto-classificar como sub-raça.

Enquanto os criminosos da ditadura militar continuarem se banqueteando, os condenados ao atraso, a classe média brasileira, não deixarão essa ceia autofágica.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma escola de triste memória



Publicado em 06/11/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

Quando se fala em torturas e assassinatos ocorridos nos anos de chumbo no Brasil e em outros países do Cone Sul não se pode esquecer do local onde centenas de militares brasileiros foram treinados por oficiais estadunidenses. A referência é a Escola das Américas, que funcionava no Panamá e hoje funciona nos Estados Unidos. Em 2001, a escola, agora no Forte Benning, na Geórgia,  mudou de nome e país, passando a se chamar Instituto de Cooperação e Segurança do Hemisfério Ocidental.

Para se ter uma ideia, pela Escola das Américas passaram, entre outros, o general chileno Manoel Contreras, que chefiou a polícia política da ditadura de Augusto Pinochet e cumpriu até pena por assassinatos e torturas a presos políticos.

Na escola também conhecida como de assassinos, instrutores estadunidenses adestrados para esse fim seguem ensinando a oficiais latino-americanos a melhor forma de torturar. Só depois de 1996 o Brasil deixou de mandar militares treinarem na escola de assassinos.

Nos Estados Unidos, grupos progressistas que não aceitam como norma o ensino da tortura a opositores realizam protestos na entrada de Fort Benning (foto). Este ano está marcado para os próximos dias 16 e 18 de novembro novos protestos que deverão contar com a participação de milhares de ativistas e religiosos, como tem acontecido em outros anos.

Em alguns países, entre os quais a Argentina, onde crimes contra a humanidade foram cometidos, os responsáveis foram ou estão sendo julgados. Seria tema de pauta saber quantos dos condenados passaram pela Escola das Américas.

Não se pode esquecer também que pelo menos desde 1996 foram tornados públicos manuais utilizados na escola de assassinos que recomendavam a aplicação de torturas, chantagens, extorsão e pagamento de recompensas por inimigos dos regimes. O tempo passou e poucos anos depois se tornaram conhecidas as torturas praticadas por militares estadunidenses no Iraque. Foram aplicados os mesmos métodos que os da escola de assassinos que adestrou oficiais militares latino-americanos.

Mesmo o Brasil,  deixando para trás o regime de exceção implantado no país depois de abril de 1964, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), os cadetes continuaram a aprender nos currículos de formação as mesmas matérias do período da Guerra Fria, que moldaram a mentalidade dos militares. Em 1964, por sinal, o comandante da AMAN era nada mais nada menos que o então Coronel Garrastazu Médici, imposto posteriormente à condição de Presidente da República e responsável por um dos períodos mais duros em matéria de violência institucional.

E por incrível que pareça, os currículos praticamente não mudaram, tanto assim que Médici já foi indicado como patrono de formandos da AMAN. Hoje, quando o Brasil avança, (lentamente, mas avança) na área de direitos humanos, está na hora de mudar os currículos e aprimorar na formação dos cadetes a questão dos direitos humanos.

É recomendação inclusive da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), aceito pelo Estado brasileiro, ampliar o ensino dos direitos humanos no currículo de formação militar, conforme previsão da Estratégia Nacional de Defesa.

Nesse sentido, o Estado brasileiro se compromete a realizar estudo sobre a possibilidade de firmar convênio de cooperação com o Instituto Interamericano de Direitos Humanos, cujo objetivo é assegurar, através do curso de capacitação, que a formação dos praças e oficiais das Forças Armadas do Brasil atenda aos padrões internacionais de proteção de direitos humanos.

Marcio Lapoente
da Silveira
Todas essas questões se devem ao acordo, mediado pela OEA, entre o Estado e a família do cadete Marcio Lapoente da Silveira, morto na AMAN em 1992 quando participava de exercícios. Lapoente sofreu violências por parte de um instrutor e morreu. A família apelou para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que fez as recomendações para o Estado brasileiro.

Pelo acordo foi fixada uma placa na AMAN em homenagem ao Cadete Marcio Lapoente da Silveira e outros 22 cadetes mortos em circunstâncias semelhantes na AMAN.

Militares da reserva, os tais óleos queimados da história que a todo ano reverenciam no Clube Militar o golpe civil militar de abril de 64, chegaram a lançar até nota condenando a aceitação do acordo. As ameaças feitas contra o ato de grandeza do Estado brasileiro só foram lidas por eles mesmos.

A propósito do golpe de 64, já que neste momento se fala tanto em quadrilhas, ou punir quadrilhas, como a do mensalão, não seria o caso de se condenar de fato os remanescentes da quadrilha que tomou o poder a força há quase 50 anos e conduziu o país a uma longa noite escura? Quando se fala nisso, os defensores da impunidade lembram que os ministros do STF confirmaram a vigência da lei da Anistia. No Chile, apesar da vigência da lei da anistia da época de Pinochet, responsáveis por crimes contra a humanidade continuam sendo julgados.

Em tempo: derrotar Mitt Romney será um alívio para toda a humanidade. Não é à toa que o presidente Hugo Chávez declarou que se fosse norte-americano votaria em Barack Obama.
________________________

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

Para uma menina do Recife



Publicado em 6/11/2012 por Urariano Motta*

Penélope, a menina do Recife a quem me dirijo agora, não está só, ainda que fale em seu nome ao me procurar por email. De modo bem didático, ela me conta que, num coletivo de alunos da 8ª série do Instituto Capibaribe, prepara um trabalho para ser exibido na feira de conhecimento da escola. E que esse trabalho foi solicitado pelos professores Mauro Santos, de Português, e Júlia Vergeti, de História. Eu deveria responder logo que ainda há educadores no Recife. Mas me calo para aqui terminar a didática da história.

Penélope Andrade tem apenas 13 anos. Pois a menina mocinha me procura pra saber notícias da ditadura no Recife, e com uma maturidade que talvez eu não tivesse na sua idade. É preciso dizer que o mais ardente em curiosidade sou eu? O que viria das perguntas e entrevista da menina? Acompanhem por favor a história.

Quantos anos tinha nessa época? E o que fazia? Penélope começa. 

Ao que respondo:

– Quando houve o golpe, no dia primeiro de abril e não em 31 de março como os militares dizem, com medo, porque desejam afastar o ridículo que é um golpe no dia universal da mentira, em primeiro de abril de 1964 eu estava com 13 anos de idade.

Era estudante de escola pública, que na época era a melhor escola que havia, e de tal maneira que chamávamos as escolas privadas de PP (Pagou, passou). Eu era um adolescente angustiado – e que adolescente não é? – carregado de traumas familiares (aqueles traumas que não confessamos a ninguém), que adorava ler, que sonhava em ser ator de teatro, poeta, desenhista, pintor e galã de cinema. Se possível, na ordem inversa. Mas o espelho e a realidade me livraram de ser Rodrigo Santoro. (Embora digam que depois de maduro eu melhorei muito…). As ideias da esquerda já me chegavam, mas eu era um reacionário leitor de Seleções Reader’s Digest, uma revista infame de propaganda norte-americana. Pra minha sorte, os amigos que mais me influenciaram eram de esquerda. De um deles ouvi pela primeira vez a palavra Darwin, e a sua teoria da evolução, que batia de frente contra a criação do homem por Deus, como eu acreditava e discutia furioso. Em resumo: eu tive a sorte de as melhores pessoas que eu conheci, quando eu mais precisava, terem sido de esquerda. Isso foi, é uma riqueza sem tamanho.

– Considerando fatores econômicos e político, sabendo que nessa época estávamos sendo governados por João Goulart, como estava a situação do país?

– O Brasil era subdesenvolvido, o que quer dizer: atrasado, tanto do ponto de vista econômico quanto social. Pra você ter ideia, os trabalhadores da zona da mata de Pernambuco, os cortadores de cana, recebiam menos, muito menos que o salário mínimo. Foi no primeiro governo de Arraes, a partir de 1962, que os trabalhadores da cana tiveram a conquista do salário mínimo. Isso foi tão bom, que Paulo Cavalcanti (historiador e jornalista, comunista histórico do Recife) contou que os trabalhadores compravam 2 relógios, “um pro horário de verão, outro pro horário de mesmo”. As ligas camponesas nasciam e ameaçavam o domínio dos latifundiários, os grandes donos de terras. O Nordeste, Pernambuco em particular, fervia muito além do frevo. Estávamos com o MCP, Movimento de Cultura Popular, que reunia artistas de valor, engajados na luta pelas reformas (como chamavam as reivindicações para dar ao povo o direito de cidadão), um movimento em que Abelardo da Hora, o maior escultor do Brasil, vivo e trabalhando ainda hoje, criou tantas esculturas, lindas, como o Vendedor de Pirulito, que pode ser visto no Parque 13 de maio.

Era o tempo em que no Recife estavam Celso Furtado, Josué de Castro, Paulo Freire, intelectuais que foram reconhecidos em todo o mundo, mas perseguidos pelo regime militar que se instalou. Vale dizer, a repressão que se abateu veio com força absoluta sobre os pernambucanos, a ponto de cometerem barbaridades públicas, como o espancamento de Gregório Bezerra nas ruas, com golpes de ferro na cabeça. Queriam inclusive enforcá-lo na praça de Casa Forte. Esse era o tempo e o clima. Um país que exigia reformas urgentes, que os Estados Unidos interpretaram como um caminho aberto para o comunismo, e por isso apoiaram o golpe que os militares deram.

– Após o regime, como foi a redemocratização do país e a escolha do presidente?

– Você pulou cedo demais. Antes de “após o regime”, houve o pior, o “durante o regime”. Isto é, o tempo da ditadura. Você não pode nem imaginar o filme de terror, pior que um filme de terror, porque era real, insuportavelmente real, os anos de ditadura. Artes, música, cinema, literatura censuradas. Jornais sob censura prévia. Prisões, mortes e assassinatos sob torturas. Deixo pra você alguns artigos que escrevi sobre aquele tempo em Ivanovitch, 1964  e Raquel, a viúva que amamos, mais suave, mas igualmente verdadeiro.

A redemocratização do país não veio como sonhávamos. Ou seja, queríamos a realização, a continuação da história interrompida, com o aprofundamento da democracia pela qual o povo lutara antes do golpe. Queríamos trabalho para todos, as artes e a ciência para todo o mundo, o socialismo no poder, a punição severa dos crimes praticados pelos torturadores. Nada disso se cumpriu. Para nós, a redemocratização começou a dar uns lampejos no governo Lula e na continuação com a presidenta (atenção, a forma “presidenta” é legítima) Dilma. Começou, apenas.

– Que heranças econômicas foram deixadas após o regime? Você as considera boas ou ruins?

– É claro que a herança vinda do regime é a pior possível. Tanto do ponto de vista social, porque houve um desmantelamento da qualidade do ensino público no Brasil (e a direita, esperta, põe na conta do pós-ditadura), quanto do econômico, porque aumentou a centralização do desenvolvimento no Sudeste. Isso quer dizer, o Nordeste afundou sob os anos de ditadura. A cultura brasileira foi rompida, rasgada, e muitos de seus melhores artistas enlouqueceram (Glauber, Torquato Neto, Vandré…).

Mais: e se houve algum avanço econômico, e depois de 21 anos algum deve ter havido, paga o preço de tantas pessoas cortadas, barbarizadas? Seria o mesmo que acreditar que a herança deixada por um homem morto é melhor que a sua vida.  

– Comparando o antes e depois do regime militar o que mudou na sua vida?

– Muito mudou. Fiquei menos feio e sou escritor. Mas as perdas pessoais foram imensas, e aqui faço uma homenagem a uma pessoa em particular, que vem a ser o seu tio-avô Luiz Paulo. Ele foi uma das melhores pessoas que conheci naquele maldito ano de 1973, quando foram assassinados seis militantes socialistas no Recife, e sobre os quais escrevi Os Corações Futuristas e Soledad no Recife.

Luiz Paulo era um intelectual, um escritor de grande senso de humor, que perdemos antes do seu fim, porque ele se autoexilou em São Paulo, por conta das burrices e divisões autofágicas na esquerda do Recife. Com ele fundamos o jornal A Xepa, o primeiro jornal alternativo no Recife sob a ditadura. E escrevo “com ele” pra não dizer: A Xepa foi Luiz Paulo e o resto. Para esse jornal, dele veio o maior estímulo e dedicação, porque acreditávamos, na época, que estávamos fundando um novo Pasquim no Recife. Sonhar era bom e Luiz Paulo esteve ao nosso lado nesse sonho.

E aqui terminei a entrevista.

Terminei, não, fiz uma pausa, fizemos uma pausa, eu e Penélope, eu e os alunos como ela. Essa continuação da história que passamos adiante, essa continuidade de gênese e recriação do mundo com que nos confraternizamos, esse despertar de educadores para a realidade política da ditadura é como descobrir um mundo melhor do que imaginávamos.

Calderón de La Barca dizia que a vida é sonho, ao que a realidade nos diz que o sonho é a vida, apesar de tantos pesadelos. O que afinal guarda uma coerência interna, pois o pesadelo é gêmeo univitelino do sonho. Esse pesadelo imenso e geral tem pausas e intervalos felizes, como o da curiosidade histórica dessa mocinha Penélope. A menina do Recife a quem mando um sorriso e um abraço agora.
________________________________

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado pelo autor