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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Eu sou meu voto

Sintetizou o que penso sobre o voto, ser uma escolha baseada no coletivo acima de tudo. Eu sou #Dilma13 


Enviado por Chico Villela

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Reportagem Detalha Uso De Crianças Em Torturas Na Ditadura Militar


Enviado por Chico Villela da NovaE
Vídeo produzido pela TV Record, R7 



O repórter Luiz Carlos Azenha (R7 e titular do blog Viomundo) entrevistou vítimas do regime militar para contar uma história que ainda não foi totalmente revelada. Veja no especial As Crianças e A Tortura.



Comissão da Verdade recomenda que torturadores sejam julgados pelos crimes

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A volta do cipó de aroeira

O anunciado colapso do mercado de títulos do Tesouro dos EUA, previsto para ocorrer no segundo semestre, lança mais que sombras, lança rolos de cinzas sobre as perspectivas de futuro imediato para todo o mundo.

A hoje superada solidez econômico-financeira dos EUA, que lhes permitiu tornarem-se a maior economia do planeta, foi alicerçada, entre outros, sobre três pilares: a liderança da produção e da inovação industrial, o dólar como divisa mundial de reserva necessária a operações externas como a compra de petróleo, e os títulos do Tesouro, entesourados pelos bancos centrais e comerciais e por investidores de porte. Papel para comprar bens e serviços: o melhor negócio do mundo desde que um papa passou a vender indulgências plenárias aos aspirantes ao céu católico.

Mas, de uma posição de detentor de 52% da economia mundial após a Segunda Guerra, hoje os EUA respondem por cerca de 20% do PIB mundial, sua produção industrial chega apenas a pouco mais de 10% do seu PIB, e vêem alguns de seus grandes parceiros, quase todos da Europa (Reino Unido, Itália, etc.), naufragar em crises sistêmicas que ameaçam até mesmo construções políticas fundamentais como a União Européia, e o Japão imergir em catástrofes e problemas que o imobilizam. As três crises, do dólar, dos títulos do Tesouro e dos déficits, somadas à ausência de leis do território de ninguém em que operam bancos que mais parecem grupos de crime, asfixiam a economia dos EUA progressivamente.

Além disso, a época assiste à emergência de novos poderes globais em acelerado desenvolvimento, como os nucleares China e Índia, que contam com territórios e vastas populações essenciais para alavancar sua projeção internacional; e de atores menores, mas pródigos em território, fontes de energia e ambientes especiais ricos e diversos, como a nuclear Rússia, e em território, fontes variadas de energia, terras agricultáveis, sol, biodiversidade, recursos minerais, paraísos tropicais de serviços e turismo, muita água e florestas, etc., como o Brasil. Outros países, como África do Sul, México, Coréia do Sul, Turquia, etc., aportam também com expressão no cenário internacional. Prevê-se que a China torne-se a maior economia do planeta entre 2025 e 2030.

As diferenças entre a América Latina das décadas de 1960-70 e a de hoje revela o vasto grau de mudanças em ebulição no mundo contemporâneo. Após ter sido tomada por um colar de ditaduras militares assassinas e repressoras, no contexto da Guerra Fria, apoiadas e/ou instaladas pelos EUA, a emergência e consolidação de novas forças sociais e o enfraquecimento da ação do império possibilitaram o panorama atual, em que as populações de países como Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai, Peru e outros elegem governos voltados à promoção da ascensão social e econômica das camadas mais pobres e ao exercício dos direitos civis.

A solução militar

A recomposição geopolítica derivada desses macrofenômenos tem levado o império – que vive hoje a braços com a maior recessão desde mais de um século, desemprego crônico (há 40 anos não há aumento real para os salários), concentração de renda e aumento da desigualdade social, além da perda de vitalidade econômica –, cada vez mais, a uma posição em que sua única arma são exatamente as armas e seu poderio militar montado sobre o chamado “império de bases”, mais de 1,5 mil instalações (contadas as de Iraque e Afeganistão) em mais de 70 países.

Com orçamento militar maior que a soma de todos os dos outros países reunidos (levados em conta os gastos militares paralelos de vários órgãos associados); indústria de armamentos imbricada com entidades e interesses financeiros, políticos e militares; a conhecida “porta giratória” de lideranças que transitam entre universidades, think tanks, corporações e as estruturas militar e civil de governo; e a constituição de vastíssimas redes de paramilitares, de mercenários, de vigilância e repressão, de controle interno e de assassinatos extrajudiciais; só restou ao império o lucrativo empreendimento das guerras ininterruptas. A rede de assassinatos extrajudiciais, ampliada por BHObama, emprega hoje mais de 60 mil das chamadas “forças especiais”, que operam em cerca de 75 países.

O poder imperial

Mas mesmo esse ambiente de destruição, rapina e conquista, que hoje se espraia por Iraque, Afeganistão, Paquistão, Yemen, Líbia, Somália, Sudão, Colômbia, Costa do Marfim e outros, e desborda para intervenções em regiões como o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a Ásia Central, além de desvendar os reais interesses geopolíticos do império, tem contribuído, não para o sucesso, mas para a progressiva ruína imperial. Antes arautos da “democracia” e da “liberdade”, os EUA são o maior poder repressor, torturador e assassino da história contemporânea. Em realidade, o poder real nos EUA acha-se longe de políticos e outros agentes secundários, mas é exercido pelo chamado “Estado Profundo” (Deep State). E conta com agentes de primeira linha, acima dos mecanismos políticos, como o polêmico Bilderberg Group.

É atribuído aos mentores de Osama Bin Laden o pensamento de a melhor estratégia para derrotar o império ser o fomento de muitas guerras assimétricas, em que terroristas, guerrilheiros e forças esparsas atuam contra exércitos pesados e estabelecidos. O objetivo desses mentores vem se realizando com precisão matemática: o império acha-se afundado em déficits crônicos e gigantescos, que tornam as finanças dos EUA caso centenas de vezes mais grave que, por exemplo, o das da Grécia. Repete-se o ocaso do último império desaparecido, o soviético, que encontrou seu fim no Afeganistão, e dissolveu-se logo após a retirada das tropas invasoras derrotadas.

Uma rede de imprensa corporativa concentrada em poucas mãos, dócil e parcial, dedica-se à compra de “corações e mentes” para apoio a essa avalanche de conquista. A dependência do país das fontes de energia do Oriente Médio favoreceu suas alianças com as mais odiosas e longevas ditaduras do planeta, outro campo em que o despertar dos povos árabes coloca sob ameaça as práticas imperiais.

Mas os resultados concretos, se geram lucros fáceis a corporações industriais e de segurança e bancos e rendem empregos régios à elite política e militar, também mostram, no médio prazo, a falência de uma orientação que termina sempre por voltar-se contra seus autores. A vergonhosa retirada do Sudeste asiático e do Vietnã foi apenas um dos véus que se levantaram e vêm sendo levantados, e que expõem, numa palavra sintética, a derrota do império em seu campo de excelência, a guerra.

Derrotas no Irã

Após depor em 1953 o nacionalista iraniano Mohammad Mossadegh,que havia retirado o petróleo&gás das mãos dos britânicos e orientado a aplicação de suas riquezas ao país, os EUA e aliados empossaram e armaram o xá (rei) Reza Pahlevi, para opor-se aos soviéticos em plano internacional e aos insurgentes internos comunistas, anarquistas, republicanos e de muitas outras correntes. A revolução islâmica do aiatolá Ruhollah Khomeini em 1979 herdou o Irã armado e projetou um radical inimigo dos EUA-OTAN com apoio da população, exausta de ser oprimida e assassinada pela polícia política do xá, a sem limites de crueldade Savak. Khomeini comandou a queda do xá de Paris, do exílio, o que mostra o alcance de sua liderança e também da insatisfação geral no país.

De 1980 em diante, armado com armas convencionais e químicas por soviéticos (em reação ao assassinato de partidários comunistas por Khomeini), estadunidenses e britânicos, esses incondicionais e eternos aliados do império (as posições das potências foram fluidas e cambiantes), o ditador do Iraque Saddam Hussein empreendeu guerra contra o Irã dos aiatolás, que durou até 1988 e deixou mais de 1 milhão de mortos.

Batata quente, o Iraque de Saddam tornou-se alvo do império três anos depois, com a primeira guerra de Bush pai contra o país após a invasão do Kuwait, anteriormente ‘posse’ iraquiana numa região em que os territórios e as fronteiras de países e divisas de dezenas de etnias são estabelecidos nos mapas ao sabor das decisões dos poderosos do momento. O amigo de antes havia se transformado na grande ameaça ao equilíbrio precário do conflagrado Oriente Médio. Em 2003, o filhote de Bush “terminou o serviço” e, logo após, enforcou Saddam, antes que a batata pudesse falar e queimar a boca. Com isso, os EUA herdaram mais uma gigantesca derrota, na qual ainda se acham mergulhados com mais de 50 mil tropas, sem poderem sair e com perdas maiores se ficarem.

Derrotas no Afeganistão

Com base em interesses nunca confessados, já que todas as 16 agências de Inteligência do país declararam-se “surpreendidas”, Bush filhote acusou, 1 hora após a segunda explosão, Osama Bin Laden e a Al Qaeda pelos atentados false flag de setembro de 2001 e, logo após, invadiu o Afeganistão, em nome de terminar com o “apoio” do Taleban ao agora ‘inimigo número 1. Ao mesmo tempo, fez o Congresso, em estado de choque, aprovar a legislação mais fascista da história do país, o Patriot Act, que estabeleceu o controle total sobre os cidadãos, rasgou a Constituição, criou o aparato nazista da Homeland Security (orçamento de 65 bilhões de dólares) e acelerou a militarização das polícias e de outros organismos, como a FEMA, antes dedicada a ações de emergência em catástrofes e, a partir daí, também a ações contra “multidões e emergências sociais”.

Dez anos depois, acham-se atolados de novo, e perdem a guerra assimétrica com 100 mil tropas próprias mais 50 mil tropas da subserviente OTAN mais cerca de 100 mil tropas paramilitares e mercenárias, cujos agentes ganham cerca de dez vezes mais que os soldados regulares e são pagos pelos Departamentos de Defesa e de Estado e pelos contratistas, que ganham dezenas de vezes mais que todos juntos. As guerras do império são hoje um conjunto de atividades terceirizadas; sem dúvida, o maior negócio do século.

As estratégias obedecem, não a análises de Inteligência ou a critérios de planejamento de especialistas, mas, antes, a caminhos que podem render mais e mais dinheiros e lucros com juros. O hoje chefe do Departamento de Defesa e do Pentágono, Leon Panetta, saiu da direção da CIA, e o hoje chefe da CIA, general Petraeus, saiu do comando do Centcom, um dos seis braços militares do Pentágono que gere as guerras no Oriente Médio e Ásia Central. Apregoa “sucesso” com suas estratégias de aumento de tropas, assinadas sem chance de mudança pelo refém-presidente BHObama. Os números clamam pela verdade: ataques do inimigo aumentaram mais de 50%, e nunca morreram tantos soldados loiros de toda forma e feição e procedência. O Afeganistão confirma sua milenar marca histórica como “túmulo de impérios”. Mais uma derrota à vista para o acervo imperial.

As operações no Afeganistão contra os invasores soviéticos desde as origens foram realizadas com apoio do Paquistão e de seu serviço de Inteligência, ISI – Inter-Services Intelligence, sob batuta do MI6 e da CIA, cada vez mais uma subsidiária do Pentágono. Um dos primeiros combatentes, milionário e chefe de grupos treinados e armados para luta contra os soviéticos, era o saudita Osama Bin Laden, da mesma nacionalidade da maioria dos acusados pelos atentados de 2001. Osama Bin Laden organizou mais tarde uma rede de combate aos interesses dos aliados e de todos os “infiéis”, configurando mais uma derrota para o império.

Chalmers Johnson

O recém-falecido analista militar e ex-oficial da Marinha Chalmers Johnson cunhou algumas expressões para esses eventos. A mais conhecida é “império de bases”, traço fundador do atual império em definhamento. Outra é “blowback”, algo como ‘choque pra trás’, ou tiro pela culatra, que foca os resultados indesejáveis das ações guerreiras do império. O persistente e contínuo crescimento dos movimentos terroristas e de grupos armados em oposição às ações imperiais é claramente uma demonstração dos equívocos das políticas de guerra e de extermínio levadas à frente pelos sucessivos governos, sempre iguais entre si, que se alternam no poder nos EUA.

O ex-chefe do Centro de Contraterrorismo da CIA em 2005-2006, Robert Grenier, esclarece a questão do blowback de forma clara ao afirmar: “... não é só a questão dos números de militantes que estão operando naquela área [Af-Pak], também pesa a motivação daqueles militantes... Eles se vêem agora como parte de uma ‘guerra santa’ (jihad) global. Eles não estão apenas focados em ajudar muçulmanos oprimidos na Cachemira ou tentando ajudar a combater a OTAN e os estadunidenses no Afeganistão, eles se vêem como parte de uma guerra global, e assim são uma ameaça muito maior do que eram antes. Assim, de certa forma, nós colaboramos para criar a situação que mais temíamos”.

Paquistão, amigo inimigo

Dois exemplos recentes fecham a questão de modo definitivo. Os aliados transformaram o Paquistão em país nuclear e basearam sua guerra afegã na colaboração paquistanesa. A questão é que o atual inimigo Taleban é oriundo dos mais de 20 milhões da etnia pashtun, que vivem há milênios em terras próprias que os britânicos separaram em 1893 com a Linha Durand, consagrada com a separação entre Índia e Paquistão em 1947. A linha separa hoje Afeganistão e Paquistão. Perante o crescimento do Taleban e de forças menores que o apóiam, fez-se necessário ampliar a guerra aos territórios pashtun do Paquistão. Na novilíngua pentagonal, a guerra passou a ser referenciada como Af-Pak. O Paquistão deixou de ser aliado e passou a ser parte do problema.

Diariamente aviões sem pilotos, os “drones”, bombardeiam aldeias e vilas nos dois lados da linha. Os drones são comandados a partir de uma base militar nos EUA, e representam a tendência mais forte da guerra hoje. O problema é que as informações de orientação nem sempre são fidedignas. Assim, as vítimas dos bombardeios são sempre na maioria civis, famílias inteiras muitas vezes. Mais de 80% da população do Paquistão quer que os EUA saiam de vez do país.

No Afeganistão, sem pesquisas, talvez os números sejam maiores. Os EUA tentam adquirir a colaboração do Pak com dólares: já foram entregues mais de 7 bi aos militares ao longo de anos para garantir seu empenho na “guerra ao terror”. Mas, blowbackianamente, a maior parte do armamento do país é de origem chinesa, e isso inclui até mesmo aviões e tanques.

A China opera uma instalação portuária no Pak, na cidade de Gwadar, próxima ao Golfo Pérsico. Imediatamente após o “assassinato” de Osama Bin Laden em Abbotabad (não houve até agora evidências conclusivas do ocorrido), numa invasão do território do país por “forças especiais” dos EUA, o primeiro-ministro pak Raza Gilani visitou Pequim. Foi recebido por quatro dias, por todos os altos dirigentes, e saudado como grande parceiro, amigo de todas as horas, unidos para sempre. Uma sinalização clara: podemos independer de sua ajuda, mr. BHObama! Nada mau para o império, cuja política assassina entrega seu colaborador essencial nos braços do arquiinimigo principal, a China.

Líbia, equívoco imperial

O outro exemplo é a Líbia. Invadida pela Itália nos anos 1910, na guerra entre a Itália e o império otomano, e bombardeada por aviões pela primeira vez na história humana, a Líbia perdeu quase um terço de sua população na resistência aos fascistas herdeiros do império romano. A Itália arrebatou do império otomano as regiões de Fezzan, Tripolitânia e Cirenaica, que hoje formam a Líbia, e dominou até os anos 1930, com grande resistência dos locais.

Num golpe militar em 1969, o coronel Muammar Gaddafi, admirador do egípcio Gamal Abdel Nasser, e que havia estudado em Londres, expulsou um reizinho de curto reinado, Idris, inventado pelos britânicos, e reorientou lentamente o país numa direção socialista, apoiado nas rendas de petróleo&gás abundantes no desértico território. A partir de 2002, o governo Gaddafi abandonou sua posição de “inimigo do império e aliado de terroristas” e abriu as portas da indústria de petróleo&gás às corporações ocidentais.

Gaddafi vem reinando como ditador por 42 anos, e ninguém consegue essa proeza no mundo capitalista sem eliminar adversários e cometer atrocidades. Mas, ao mesmo tempo, com sua vertente social, o longo governo Gaddafi redimiu a população líbia e transformou o país, da posição de um dos países mais miseráveis do mundo, para a invejável posição de mais desenvolvido do continente africano. O IDH da Líbia é o maior da África, e superior, por exemplo, ao do Brasil. A assistência médica gratuita em todo o país apresenta níveis de excelência de países europeus desenvolvidos. O ensino gratuito das origens até a universidade promoveu a população a níveis de formação e informação incomuns no continente. Outras políticas sociais, como a mais cara operação de irrigação do mundo, de 42 bi de dólares, levaram a população líbia, à exceção dos ligados a perseguidos e assassinados, ao apoio incondicional a Gaddafi.

Mas essa situação é intolerável aos olhos dos novos colonialistas: seus ditadores apoiados, como os do Bahrain e do Yemen, e o anterior Mubarak, do Egito, ocupam-se em vender suas riquezas aos invasores e manter contas em paraísos suiçamente próprios, e não em promover seus povos a condições de alta dignidade, aliás apregoadas pelos arautos da democracia e da liberdade, o que, se ocorressem, fatalmente levariam esses povos a expulsar os invasores e estabelecer governos como o de Gaddafi.

Valendo-se do despertar de povos árabes, a máquina de guerra dos EUA-OTAN vislumbrou oportunidade de expulsar Gaddafi do poder pela fabricação de “revolta popular” contra a tirania, o que poderia lhe valer acesso livre às riquezas do país. Para tanto, o império valeu-se de adversários alojados na cidade de Benghazi, na região da Cirenaica, rica em petróleo&gás, que havia sido capital sob o reizinho fugaz e reduzida em importância por Gaddafi, originário de tribo da Tripolitânia, região mais pobre. Recrutaram-se, entre outros “revoltosos, inimigos políticos do ditador, traficantes de drogas, armas e pessoas, desocupados e vigaristas de variados matizes, jovens desempregados; enfim, um exército Brancaleone, armado, treinado e financiado pela CIA e o MI6 britânico. A imprensa dócil e a serviço propagou imagens ridículas do ditador e enalteceu os “combatentes da liberdade”.

Mas algo não funcionou bem. As “tropas” de “revoltosos” demonstraram-se sem a mínima condição de combate, e passaram a ser conduzidas por “assessores” aliados. Além disso, as forças leais a Gaddafi deram mostras de força e união. Gaddafi sempre privilegiou armar a população em detrimento de grandes forças armadas. Perante esse impasse, os aliados arrancaram da desmoralizada ONU uma “resolução” que, na prática, abria a possibilidade de “intervenção humanitária”, que foi estendida, sob o silêncio conivente de Ban Ki-moon, para bombardeios. Mas de novo algo não funcionou bem. Após destruir as defesas antiaéreas do país, a OTAN passou a bombardear covardemente instalações militares, de infra-estrutura, de comunicações; enfim, até mesmo hospitais e universidades foram atingidos. Neste momento em que escrevo, a OTAN desistiu de sua campanha de assassinato de civis e, afinal, rendeu-se à realidade do inevitável “diálogo”.

Os eternos inimigos

Por detrás de todos esses movimentos, enxerga-se um velho teórico britânico que fundamentou a ciência da geopolítica, mas cujo pensamento talvez tenha sido tensionado demais sem consideração às dinâmicas de um mundo em revolução, com ampla circulação de informações e despertares precoces de povos e etnias. Para Halford MacKinder, o objetivo central do império ocidental (no início do século XX, o inglês, e, após a Segunda Guerra, o estadunidense) devia ser o controle militar e político, o Great Game, da imensa massa de terra que une a Europa aos extremos da Ásia, hoje em mãos basicamente de Rússia, China e aliados, com a Índia e vizinhos na posição de fiel da balança.

O império enfrenta hoje três grandes inimigos: China, Rússia e Irã. Rússia e Irã são ricos em fontes de energia, e a China usa seu poderio financeiro e diplomático, pacífico e de cooperação, para investir em países fornecedores e garantir os insumos necessários ao mais vertiginoso crescimento da história recente. O objetivo central do império passa então a definir-se em torno de dois eixos: cerco militar, redução do poder e aniquilamento dos grandes inimigos, e ocupação de territórios e aliança com governos da hinterlândia eurasiática.

Outra vertente, derivada por discípulo, do pensamento de MacKinder seguido pela sinistra figura do conselheiro de ação internacional de BHObama Zbigniew Brzezinski, seria a “ampliação do arco de crises” e a “divisão de países e territórios entre forças em choque”, o que renderia ao império eventuais aliados para lutar contra os seus adversários. O Iraque, por exemplo, foi seccionado em três, com o norte curdo, o sul xiita e o restante, ou sunita, ou sem dono, numa situação de divisão que só tende a se agravar. O povo baluche, que ocupa metade do território do Pak e o sul do Irã, vem sendo armado e estimulado à secessão, para a futura criação do país Baluchistão. O Sudão acaba de ver sua porção sul tornar-se um “país independente”, o Sudão do Sul, que nasce com o título de “o mais pobre do mundo”, imediatamente reconhecido pelos aliados e festejado pela imprensa grande: afinal, aloja quatro quintos das suas reservas de petróleo.

Limites imperiais

Mas a realização dessas tarefas geopolíticas de grande envergadura esbarra hoje em muitos obstáculos. A lista é extensa e de fortes cores básicas: a decadência do dólar como moeda de reserva; o fim do poder dos títulos do Tesouro dos EUA como aplicação garantida (os déficits astronômicos dos EUA desautorizam sua capacidade de pagar); a impossibilidade de manter várias guerras em andamento sem recursos e sem os apoios generalizados de antes; a situação gravíssima interna de insolvência que atinge o governo federal, os estaduais e praticamente todos os municípios do país e sua coorte de serviços em redução, como seguridade social, escolas, infra-estrutura, etc.; o aumento da pobreza e a conseqüente queda do poder do mercado numa economia em que 71% do PIB acham-se vinculados ao consumo; a presença de 45 milhões de pessoas, 1 em cada 7 cidadãos, dependentes de vales-alimentação; a deterioração dos problemas ambientais; a opção por agricultura e produção de alimentos industriais que produzem resultados como um terço de população obesa até mesmo entre crianças.

Politicamente, anotam-se a ascensão de forças de extrema-direita, características dessas épocas de crise, que lembram com suas doutrinas fascistas casos anteriores como o do nazismo; a tendência tanto de democratas quanto de republicanos pelo corte nas rendas e serviços sociais; a impunidade e a crescente desfaçatez das grandes e poucas forças financeiras; a vigência do mais gigantesco aparato de repressão e assassinato da história; a definitiva orientação do país como dependente de guerras e de sua economia como parte de uma permanente guerra.

Mais que falência do grande Estado democrático do século XVIII, que antecedeu a Europa na transição às adaptações dos Estados ao novo mundo capitalista que se afirmava, o naufrágio do império desenha-se na perspectiva de tragédia. A conjugação de enfraquecimento econômico e político com a permanência da mais poderosa força de destruição da história humana não vem gerando e não deve gerar bons frutos. Sombrios horizontes do futuro imperial.

Como diz a música popular, é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

Em tempo: os bombardeios de todos os territórios que sofrem agressões dos EUA-OTAN são feitos com bombas que portam DU – urânio empobrecido. As conseqüências a longo prazo serão trágicas para os povos agredidos e todos os habitantes do planeta.

Por Chico Villela2011-07-15 10:41:00

domingo, 31 de julho de 2011

Muçulmanos são “terroristas”; ocidentais são “homens maus”


A imprensa grande ocidental acha-se a braços com uma dificuldade de oceânica dimensão. Primeiro, as “barrigas” de imprensa ao redor do mundo, ao dar voz a autoridades dos EUA e Europa que apontaram dedos para “muçulmanos” como autores dos atentados terroristas de Oslo e ilha de Utoya. A “barriga” mais célebre foi a do Wall Street Journal, da rede News do gângster de extrema-direita Rupert Murdoch, que reapontou a autoria de muçulmanos em editorial, mesmo após a polícia ter identificado o autor norueguês.

Após as barrigas iniciais, acham-se agora em andamento os malabarismos para apresentar o autor como “homem mau”, “louco”, etc. A imprensa não sabe o que fazer com a realidade, e tenta escamotear as verdades que vêm à tona com os atentados.

O autor de 32 anos, Anders Breivik, filho de ex-diplomata norueguês e fazendeiro, é velho participante de grupos de extrema-direita islamófobos de seu país; foi, por exemplo, membro do neofascista Partido do Progresso norueguês. Suas extensas ligações vêm sendo levantadas pelos inquéritos, mas omitidas pela imprensa, que insiste em apresentá-lo como agente que operou “sozinho”, em atendimento a suas convicções. Antes, Breivik havia postado na rede um calhamaço de 1.500 páginas, em que desenvolveu suas teorias sobre a necessidade de salvar o Ocidente e seus valores ameaçados pela maré muçulmana, com alertas contra o “marxismo cultural” e o “multiculturalismo”.

O discurso é o mesmo da neofascista italiana Liga Norte, que oferece apoio a outro gângster gordo, o indigno e putanheiro Silvio Berlusconi, e da mais fascista ainda Frente Nacional francesa, em que avulta a filha do antigo líder, Marine Le Pen, com 25% das intenções de voto para presidente. Dezenas de movimentos neofascistas (afinal, neo apenas porque são mais recentes, mas a matriz permanece a mesma) espalham-se pela Europa, sob o influxo de duas forças básicas: o agravamento da situação econômico-financeira e social e a presença maciça de imigrantes muçulmanos em muitos países, alvo fácil para acusações de toda ordem. Não por acaso, esses movimentos são alinhados com Israel e com as políticas israelenses para seus “inimigos” muçulmanos, como palestinos e iranianos. Breivik escreve isso com letras fortes.

Os governos de direita estabelecidos, por exemplo, na Itália e na França vêm aplicando medidas de contenção contra muçulmanos, como a proibição do uso público de véus e de práticas religiosas e a imposição de barreiras à imigração. Os dois países estão na linha de frente dos derrotados por Gaddafi na invasão líbia, e agora se vêem na incômoda posição de ter de negociar com o demônio. A imprensa grande, ao magnificar o caráter “isolado” dos atos terroristas de Breivik, omite suas relações com diversos grupos europeus e até mesmo a existência de uma rede de apoios tão vasta quanto as oficiais como a da OTAN.

Mas aos poucos as faces reais vão aflorando. Dois destacados membros da direção da Frente Nacional francesa, Jacques Coutela e Lauren Ozon, defenderam Breivik e justificaram os atentados em blogs. Para Coutela, Breivik é um “combatente resistente”, o “primeiro defensor do Ocidente” e o “Carlos Martelo II” (rei franco que conteve a invasão muçulmana via Espanha em 732, na batalha de Poitiers). Disse mais: que Breivik “não é um ícone, mas simplesmente um visionário contra a crescente islamização da Europa, com cumplicidade dos governantes e [autoridades da União Européia] em Bruxelas”. Pregou a expulsão dos “que querem impor o alimento hallal, mesquitas, pedofilia e ocupação de nossas ruas”.

Ozon também deu suporte ao terrorista Breivik, e afirmou que a explicação do ocorrido em Oslo deve levar em conta “a explosão da imigração”, que cresceu seis vezes do patamar de 1970 até hoje. Na Itália, o líder fascista Francesco Speroni registrou que “as idéias de Breivik vão na direção da defesa da civilização ocidental”. A Frente Nacional, dirigida por parâmetros de marketing político em face das futuras eleições, “afastou” Coutela (Ozon, não) e afirmou que a Frente nada tem a ver com o atentado, “trabalho de uma pessoa desequilibrada solitária”.

A ascensão de forças fascistas são fenômeno que costuma fortalecer-se em crises e momentos em que as regras do jogo sociopolítico entram em tensão. Nos EUA, o pusilânime BHObama vem sendo anulado pelos republicanos, e, para não soçobrar, acabou cedendo, não a contragosto, sem dúvida, a suas plataformas anti-povo de manutenção de cortes de impostos para ricos e aumento de cortes de recursos de programas sociais essenciais. Isso, num cenário de progressivo empobrecimento dos trabalhadores e das camadas de baixo da sociedade. As políticas de “austeridade”, tanto na Europa quanto nos EUA, são orquestradas para que o povo pague a conta e os governos possam permitir aos bancos “manter suas posições”.

A imprensa grande enfrenta ainda ondas altas no oceano de contorcionismos em que se enreda. O “solitário” Breivik abrigava seis pessoas em seu apartamento por ocasião dos atentados. A polícia, logo após os deter, liberou todos sob alegação de que eram inocentes. Como se chegou a essa conclusão em tão pouco tempo, na mesma manhã dos atentados, isso a polícia não explicou. Breivik mantinha estoques de explosivos em sua fazenda, mas a imprensa (a polícia?) não divulga sua dimensão ou quantidade. A Scotland Yard descobriu ligações entre Breivik e a extrema-direita britânica, mas as operações vêm sendo feitas “sob sigilo”, conforme se divulga.

Após as explosões no centro, Breivik chegou rapidamente à ilha em que matou mais de 70 jovens do partido do governo. A polícia, avisada por aflitos telefonemas de celulares, levou 60 minutos para chegar. Também não há explicações, além de uma vaga afirmação de “helicóptero quebrado”. As políticas dos EUA de “guerra ao terror” implicam a militarização das polícias, que se armam e se reorientam para enfrentar os “terroristas”.

Ou o governo norueguês, membro da OTAN com tropas presentes no Afeganistão, não segue as recomendações de Washington, ou sua polícia abriga membros suspeitos de colaboração com seus alvos. Ou os dois, já que a fictícia “guerra ao terror” não merece mais crédito.

Resta o que se vê: bombardeios de civis no Afeganistão, Paquistão, Yêmen e Somália; destruição da infra-estrutura civil de vida na Líbia; apoio aos sucessores de ditaduras no Egito e adjacências; alinhamento suicida com a genocida Israel; atentados terroristas, que só prometem aumentar, dentro do coração da Europa.

Não há dúvida entre os círculos de analistas de que os atentados terroristas partidos de forças internas estarão inscritos no futuro da Europa. Até que mesmo governos tergiversantes, como o do patético Sarkozy, sejam jogados em terra, sucedidos por novos pequenos ditadores que cortarão mais impostos dos ricos, agravarão as precárias condições de vida das camadas que trabalham e mantêm o Estado.

Em suma, uma Europa cada vez mais igual aos EUA. Futuros comuns. Com certeza, indesejáveis.


Publicado em 29/07/2011  por Chico Villela
Extraído do sítio NovaEra

sábado, 2 de abril de 2011

Gaddafi e o toque da trombeta da cavalaria dos EUA

Raul Longo

Comentário de Raul Longo

Enviada pela poeta Maura Soares, segue uma análise do artigo do Chico Villela – logo abaixo - para melhor compreensão das razões do ataque a Kadafi ou Gaddafi, antecedida por lembranças de exemplos históricos a serem consideradas para a resposta de uma questão: quando os EUA promoveram alguma ofensiva de real interesse humanitário ou por causa justa e justificável? Quando realmente se preocuparam em salvar vidas de civis?

Pearl Harbor é o primeiro exemplo que surge quando se ignora que o serviço nazista de espionagem não apenas deteve informações de possível rompimento da omissão estadunidense às invasões alemãs na Europa, alguns efetivados por artefatos da indústria bélica norte americana e com investimento de instituições financeiras daquele país; como também sabiam que o conflito europeu seria usado como justificativa para a destruição das maiores cidades japonesas a partir da base militar de Pearl Harbor.

Alguns analistas da época, inclusive pela imprensa exortavam a esse ataque como estratégia de domínio do extremo asiático para, pelo flanco oriental, auxiliar Hitler contra o então considerado verdadeiro inimigo dos Estados Unidos: a U.R.S.S., com a qual o governo japonês mantinha acordo de neutralidade.

O ataque japonês à Pearl Harbor não foi uma precipitação, mas defesa prévia. De toda forma improfícua, pois o plano de ataque às maiores cidades japonesas foi consumado em 1945. Por seis meses os Estados Unidos destruíram 67 cidades. Só no bombardeio à Tóquio em março de 45 o saldo foi mais de 100 mil mortos. Ao longo de três anos e meio desde Pearl Harbor, incluindo os combates em Europa, os Estados Unidos perderam durante todo o conflito 200 mil vidas.

Em Julho de 45, frente ao pedido de rendição do Japão, Henry Trumann fez redigir a Declaração de Potsdam que dobrava o inimigo à total subserviência. O governo japonês negociava termos mais honrosos quando em 6 de agosto o Enola Gay (nome da mãe do piloto do avião) despejou a “Little Boy” sobre Hiroshima, matando 80 mil pessoas instantaneamente. Eram as primeiras horas da manhã e muitos pequenos garotos e garotas deixavam suas casas para ir à escola. Sobreviventes deste primeiro momento vieram a morrer ao longo dos anos futuros por contaminação nuclear e os de melhor sorte procriaram gerações de aleijões e doentes incuráveis.

A debilidade do Japão incentivou Stálin à quebra do acordo de neutralidade e a meia noite do dia 9 de agosto as forças russas invadiram a Manchúria, região ao norte da China ocupada pelo japoneses. Menos de 12 horas depois 80 mil vidas foram exterminadas em Nagasaki como advertência ao líder soviético sobre o poder destrutivo dos Estados Unidos.

Entre Hiroshima e Nagasaki foram extintos diversos militares aliados ali mantidos como prisioneiros de guerra, por cuja liberdade o imperador japonês apostava no abrandamento dos termos de rendição impostos por Trumann. Esses oficiais também vitimados pelo bombardeio atômico em maioria eram estadunidenses, mas também havia aliados britânicos, holandeses e australianos.

Para o Primeiro Ministro Britânico, Winston Churchill: “Seria errado supor que o destino do Japão tenha sido determinado pela bomba atômica”.

Para o General MacArthur, comandante das Tropas Aliadas no Pacífico: “Não havia nenhuma necessidade militar de empregar a bomba atômica em 1945.”

Para Leo Szilard, um dos cientistas responsáveis pela criação da Bomba Atômica: “Se tivessem sido os alemães a lançar bombas atômicas sobre cidades ao invés de nós, teríamos considerado esse lançamento como um crime de guerra e sentenciado à morte e enforcado os alemães considerados culpados desse crime”.

Para o relatório das investigações sobre o bombardeio atômico United States Strategic Bombing Survey: “... o Japão ter-se-ia rendido mesmo se as bombas atômicas não tivessem sido lançadas, mesmo se a Rússia não tivesse entrado na guerra e mesmo se a invasão não tivesse sido planejada”.

Resgatando estas memórias e lembrando das “armas químicas” e de “destruição em massa” de Saddam Hussein, fica mais fácil compreender a matéria a seguir:

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Os “heróis” de Benghazi e as mentiras e omissões da mídia grande

Por Chico Villela em 23/03/2011

Thomas C. Mountain é ativista pela paz e editor. Em 1987 foi membro da I Delegação de Paz enviada pelos EUA à Líbia. Boa parte de sua vida foi passada na região, em missões na Eritréia, Somália etc. Há cerca de 25 anos acompanha os acontecimentos líbios e da região. Assim, Mountain coloca na mesa questões que aclaram muito além da falsificação da mídia grande que, agora, clama ser Gaddafi um ditador sanguinário e os resistentes, heróis no combate pela liberdade. Nem Gaddafi sempre foi execrável, nem os resistentes são anjos do bem.

Um ano antes, em abril de 1986, os EUA haviam bombardeado o complexo residencial de Gaddafi em Trípoli, ferido familiares e matado sua filha adotiva de 15 anos. Haviam bombardeado também um complexo residencial civil afastado de qualquer base militar, matando muitos moradores, a maioria crianças. Mountain cita que domingo dia 20 de março passado assistiu na TV a uma família líbia enterrando sua filha de três anos, morta pelos ataques dos EUA iniciados no sábado.

O coronel Muammar al-Gaddafi subiu ao poder na liderança partilhada com outros de um golpe que depôs o rei Idris, único da história líbia, que reinou de 1951 a 1969. Idris pouco antes havia passado o poder ao filho, por razão de doença. Aliado do Ocidente na Segunda Guerra, colocou os poços de petróleo à disposição do Reino Unido e dos EUA, país que também mantinha uma base aérea próximo a Trípoli, sem compensações vantajosas ao país, o que acirrava os ânimos dos nacionalistas. Sua capital era Benghazi, maior cidade da Cirenaica, região em que reinava; a Líbia atual abrange mais duas regiões.

O golpe de Gaddafi expulsou as petroleiras britânicas e outras do país e nacionalizou o petróleo. De família tradicional, Gaddafi à época posava como um entre os vários nacionalistas  que haviam se espelhado no coronel egípcio Gamal Abdel Nasser, criador e inspirador do pan-arabismo. Apoiou movimentos e grupos contrários a monarquias e à presença ocidental. Radical islâmico, implantou medidas como fechamento de bordéis e proibição de jogos e bebidas alcoólicas.

Gaddafi, a par de seu apoio a grupos extremistas nacionais e do exterior, como os Black Panthers dos EUA, e de seu ódio a Israel, foi responsável por muitos avanços sociais no país. Em nome do ‘socialismo árabe’, posteriormente transformado em doutrina própria, colocou as rendas do petróleo a serviço da população, promoveu as mulheres, expandiu o sistema educacional e implantou sistema de saúde considerado dos melhores entre os países árabes. Isso explica o grande apoio que ainda tem no país.

Hoje a Líbia é um dos países em desenvolvimento mais bem classificados. No ranking do IDH, situa-se na posição 53, o que a coloca na primeira posição entre os países africanos e acima de Rússia (65), Brasil (73) e Tunísia (81). A expectativa de vida cresceu incríveis 20 anos durante o longo regime de Gaddafi.

Por ocasião da invasão do Iraque, Gaddafi guinou para o lado do Ocidente e reaproximou-se dos EUA, e abandonou seu apoio a terroristas e suas pretensões nucleares. Passou, assim, a ser tolerado, mas nunca foi considerado verdadeiro aliado dos EUA e seus parceiros, embora tenha aberto as portas do país para dezenas de corporações estrangeiras. E, como é natural em quem exerce o poder por longo tempo, aos poucos aprofundou suas arbitrariedades de ditador e exerceu forte repressão contra seus próprios dissidentes, tendo sofrido golpes e sido ferido numa tentativa de assassinato.

Mas, para Mountain, apenas isso não é suficiente para explicar a resistência dos atuais dissidentes, principalmente os mais celebrados, de Benghazi, onde se iniciou a revolta. Mountain anota que nenhuma mídia grande do mundo toca num espinhoso assunto: Benghazi , por ser um ponto do continente africano próximo da Europa, tornou-se de uns quinze anos para cá o “epicentro da migração africana para a Europa”, da ordem de cerca de 1 mil por dia.

Mountain: “A indústria de tráfico humano, um dos mais selvagens e desumanos negócios do planeta, cresceu para cerca de 1 bilhão de dólares anuais em Benghazi. Uma grande, viscosa máfia do submundo deitou fundas raízes em Benghazi, emprega milhares em várias atividades e corrompe a polícia líbia e funcionários do governo. Foi apenas no ano passado que o governo líbio, com apoio da Itália [destino de boa parte dos migrantes], finalmente adquiriu controle desse câncer.

“Com seu meio de vida destruído e muitos dos seus líderes na prisão, a máfia do tráfico humano tem estado à frente em financiar e apoiar a rebelião líbia. Muitas das gangues de tráfico e outros elementos lumpen de Benghazi são conhecidos por pogroms racistas contra trabalhadores africanos de fora, enquanto na década passada eles regularmente roubavam e assassinavam africanos em Benghazi e seus arredores. Desde que a rebelião estourou em Benghazi, algumas centenas de trabalhadores sudaneses, somalis, etíopes e eritreus têm sido roubados e assassinados pelas milícias racistas rebeldes, fato bem omitido pela mídia internacional.
“Benghazi tem sido também um bem conhecido centro de extremismo religioso. Fanáticos líbios que passaram algum tempo no Afeganistão concentram-se lá e um certo número de células terroristas tem realizado bombardeios e assassinatos de funcionários governamentais nas últimas duas décadas. Uma célula, auto-intitulada Grupo Islâmico Guerreiro, declarou-se afiliado à Al Qaeda em 2007. Essas células foram as primeiras a empunhar armas contra o governo líbio”.

Outro problema apontado por Mountain é que os jovens educados nas escolas líbias recusam trabalhos considerados ‘sujos’, exatamente como os cidadãos dos EUA, que empregam nesses gêneros de trabalho os ‘chicanos’ latino-americanos. Assim, o desemprego é mais grave ainda entre a juventude líbia, e os trabalhadores desqualificados de outros países africanos enfrentam oposição. Exatamente como os imigrantes latino-americanos são vistos por grupos de direita dos EUA como o Tea Party. O ócio forçado leva muitos jovens líbios para álcool e drogas.
A primeira medida dos rebeldes de Benghazi foi invadir as prisões de segurança máxima e libertar seus chefes, e assim passou-se a atacar contingentes e órgãos do governo. À parte Mountain, deve-se ter em  mente que no Kosovo os EUA e a OTAN colocaram no poder os chefes da máfia e do tráfico regional, e que Hashin Thaçi, o homem no poder, é hoje acusado por corte da União Européia até mesmo de assassinar prisioneiros e adversários para traficar órgãos humanos.

O apoio de grande parte da população líbia ao ditador Gaddafi levou os EUA e alguns membros sempre fiéis da OTAN a atacar Gaddafi para evitar a derrota dos opositores baseados em Benghazi. À mídia grande coube o eterno papel de justificar as ações do império e ridicularizar o governante líbio de todas as formas. Inda mais que Gaddafi manda em boa parte do petróleo consumido pela Europa, o que o torna insuportável, pela sua independência, aos olhos dos governantes e das corporações de negócios.

As alegações são sempre as mesmas falsidades. Na hora líbia, o pretexto é “evitar a morte de civis nas mãos de Gaddafi”. Para tanto, acionam-se mísseis e aviões com bombas superpoderosas, que matam civis sem conta, omitidos convenientemente pela mídia grande. Assim, a única intervenção armada das forças ocidentais dá-se contra um governo que, entre as mais de dez odiosas ditaduras árabes, sempre foi o único que se opôs aos desígnios do império. Com o coro subserviente da mídia grande. É de dar asco, por mais repelente que seja Muammar al-Gaddafi.

Mountain, como muitos outros analistas, pergunta-se sobre os desdobramentos da questão. As revoltas legítimas que ocorrem nas ditaduras apoiadas pelos EUA e aliados ainda estão em seu início. O massacre da Líbia pode incendiar ainda mais os ânimos dos revoltosos em todos os países, que se opõem às elites que, como no Egito e na Tunísia, tentam perpetuar-se com outros agentes, inclusive militares. É uma aposta arriscada, esta do malabarista BHObama. Pode ir contra as intenções do império.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

EUA: Veteranos iniciam campanha histórica

08/10/2010
(Chico Villela) Hoje, 7 de outubro, veteranos dos EUA das guerras do Iraque & Afeganistão iniciam campanha nacional com tema que é também gravíssima denúncia.

(Veja abaixo vídeo de manifestação anterior da organização IVAW – Veteranos do Iraque contra a Guerra; mais vídeos são indicados na coluna à direita).



A data de hoje é significativa: há nove anos exatos iniciava-se a guerra de agressão e genocídio contra os povos afegãos: pashtuns (muitas tribos), hazaras, tadjiques, uzbeques, turcmenos, quizilbaches e mais de uma dezena de outros menores. São quase vinte povos no território do país.

Doze anos antes, Bush pai havia invadido o Iraque e dado início ao tema da campanha, com centenas de milhares de tropas em retorno ao país portadoras do conjunto de sintomas clínicos conhecido como Síndrome da Guerra do Golfo. Em 2003, foi a vez de Bush filho dar continuidade ao crime de guerra do pai, com a invasão e ocupação do Iraque, que se eterniza.

[Antes, em 2001, havia invadido o Afeganistão a pretexto de punir seu governo por dar abrigo a Osama bin Laden. A mídia grande não noticiou que o Taleban, então no poder, anunciou que entregaria Osama Bin Laden mediante a apresentação de provas concretas (ainda inexistentes) de sua ação nos atos terroristas de 2001. Até hoje a CIA e outras agências, como o Mossad israelense e o MI6 britânico, falsificam “comunicados” e “pronunciamentos” de bin Laden. O último, risível, surgiu há cerca de um mês, e trata das enchentes do Paquistão. Apresenta a voz de um Bin Laden líder ambiental. Todos os fatos e depoimentos apontam para que Osama Bin Laden morreu em dezembro de 2001, próximo às montanhas de Bora Bora, e foi incinerado numa cerimônia singela, na presença de alguns parentes e amigos de luta. Mas é mantido “vivo” pelo império, que necessita disso e da “ameaça” da ficção “Al Qaeda”tanto quanto o império do clássico romance 1984, de George Orwell, necessitava do falso inimigo permanente. Caso contrário, como justificar a guerra afegã e sua extensão invasiva pelo Paquistão?]

Da mesma forma que o governo dos EUA e o Pentágono precisam do fantasma de Bin Laden e da permanente mentira sobre seus pretensos atos e os dos seus “seguidores”, precisam também desesperadamente de seus soldados e das mentiras sobre seu estado de saúda física e mental. O foco da campanha da IVAW é a exigência da interrupção do envio à guerra de veteranos ainda não recuperados: Operação Recovery: Parem o Envio de Tropas Traumatizadas. Recovery tem sentido de retorno, mas também de restabelecimento, recuperação.  Como faltam tropas, o Pentágono exaure as energias de saudáveis e de doentes, e reenvia muitos deles ainda em tratamento aos teatros de guerra, mesmo contra aconselhamento de médicos militares. Parte da campanha será a revelação dos nomes dos oficiais responsáveis pela prática.

O panorama é trágico: são centenas de milhares em tratamento clínico de PTSD (desordem de estresse pós-traumático), TBI (ferimento traumático no cérebro) e MST (trauma sexual militar), e de ferimentos generalizados, além de doenças causadas por intoxicação por urânio empobrecido (depleted uranium, DU) e outras armas tóxicas. A sigla PTSD abriga dezenas de manifestações de doenças psicológicas, e pode incluir mesmo tendências suicidas. O índice de suicídios entre veteranos militares é o maior do país entre grupos de profissionais. Não raro, o suicídio é antecedido da eliminação da família.

O DU, de uso indiscriminado em projéteis de todo tipo, de mísseis a balas de fuzil, é radiativo e produz dezenas de doenças graves, e sempre termina por levar o doente à morte. Por afetar o DNA, provoca nascimentos de bebês com graves deformações. Já são mais de 15 mil os casos de filhos de militares dos EUA com lesões de toda ordem. Suas conseqüências, junto às de outras armas tóxicas, para iraquianos são ilustradas pelo horror vivido hoje em dia pela população da cidade de Fallujah, onde 25% dos bebês nascem com deformações irreversíveis.

Na semana passada ocorreram quatro suicídios na base militar de Fort Hudson, a mesma em que, recentemente, um psiquiatra militar matou 13 colegas antes de ser morto. A recente revelação de “assassinatos por esporte” no Afeganistão chocou o mundo apenas porque a imprensa grande é absolutamente omissa sobre temas similares. O pai do jovem militar revelador dos crimes, e que entrou na luta junto à Justiça, conta que, pelos comentários do filho em várias ocasiões, todos os militares da base sabiam e que ninguém dá atenção ao fato, e que este é um comportamento disseminado entre todas as tropas. Matar “seres inferiores” é “natural”, em especial pessoas que podem vir a ser o inimigo em breve.  Fatos como esse explicam os traumas de reintegração à vida social e familiar após a volta da frente de batalha.

Os interessados em apoiar a Operação Recovery podem assinar a petição no fim da página da organização Democracia em Ação.

Extraído da NovaE