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domingo, 19 de janeiro de 2014

Não há “ÓSCAR” sem “JSÓC”. Ou quase.

18/1/2014, China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Navio porta-contêiner MAERSK Alabama atacado por piratas somalis em Capitain Phillips
Hoje em dia parece obrigatório: pelo menos um filme construído para celebrar os feitos mortíferos das Forças Especiais dos EUA tem de ser indicado para ganhar um Óscar.

Ano passado, foi A Hora mais Escura.

Esse ano, há duas indicações na categoria “Soldado norte-americano mete bala na testa de rapaz de pele escura”.

Captain Phillips (trailer a seguir), sobre os piratas da Somália, já tem indicação para concorrer ao prêmio de Melhor Filme.



E o COEC-EUA também está representado por Dirty Wars, baseado no livro de mesmo título, de Jeremy Scahill, candidato a Melhor Documentário.

Fato é que nem um nem outro desses dois filmes tem qualquer chance.

Captain Phillips já está sendo demolido pelos “comentaristas de Óscar” de sempre, com esforços no campo da “história real”, que inclui até grande campanha de propaganda de alto nível das reclamações da tripulação do MAERSK Alabama, segundo as quais o capitão estava mais para Capitão Queeg, de A nave da revolta, que para Jack Aubrey, de Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo. Nem Paul Greengrass (diretor), nem Tom Hanks (personagem-título) foram indicados a qualquer prêmio e Captain Phillips provavelmente ficará na poeira, atrás de meia dúzia de outros indicados, quando se contarem os votos para o melhor filme.

Quando a DirtyWars [Guerras Sujas] (trailer a seguir), fizeram-se várias escolhas duvidosas, para conseguir meter as mais de 600 páginas do livro de Scahill no formato de filme-thriller-reportagem de 82 minutos, usando, ironicamente, os mesmos recursos de alta definição/câmera-na-mão/teclados frenéticos que Greengrass usou com tanta eficácia nos filmes de Jason Bourne (e empurrando Scahill um pouco demais para o centro da narrativa).


Aos 24 minutos do filme, Scahill, depois de fazer compras no Brooklyn e lamentar o tédio da “vida comum”, discute um massacre em Gardez, Afeganistão, cometido por algum uniforme dos EUA e declara que, em dez anos de trabalho como correspondente de guerra, “nunca ouvi falar de “JSÓC/COEC-EUA”.

A frase provocou-me uma risadinha involuntária, nada, com certeza, semelhante à reação que os autores do filme esperavam obter, quando se dispuseram a documentar uma operação norte-americana que envolveu:

(a) matar as pessoas erradas;
(b) numa festa de batizado de criança; operação na qual morreram (b1) duas mulheres grávidas e
(c) um comandante da polícia afegã; o qual
(d) fora treinado em vários programas de treinamento com as forças dos EUA e que
(e) sangrou durante várias horas, até morrer, depois de ser ferido à bala, porque
(f) o helicóptero de socorro não apareceu, enquanto
(g) os soldados dos EUA montavam um cenário para o relatório da operação, a qual
(h) um familiar de uma das vítimas estava gravando com o próprio celular; e
(i) gravação que mostra os soldados dos EUA que escavavam com facas os cadáveres das mulheres para recolher as balas, para que as mortes pudessem ser informadas aos correspondentes estrangeiros como “brutal crime de honra cometido pelos Talibã”.
Jeremy Scahill

O massacre de Gardez aconteceu em fevereiro de 2010. Em 2008, o Comando das Forças Especiais Conjuntas dos EUA já estava em todas as manchetes, por suas ações no Iraque, graças ao livro Plano de ataque de Bob Woodward e ao presidente Bush, que dizia que o “Comando das Forças Especiais Conjuntas dos EUA é fantástico!” Todo mundo ouviu.

Esses são contexto e situação que, tenho certeza, Jeremy Scahill, autor de Dirty Wars, o livro, conhecia bem; e ele, sim, apresenta a experiência do Iraque e também a frase de Bush, em seu livro.

Felizmente Dirty Wars, o filme, retoma o pé, quando discute o abraço apaixonado entre o presidente Obama e as forças de operações especiais, caso de amor que vai muito além de qualquer coisa que George W. Bush tenha algum dia sonhado, simbolizado tanto pela campanha de assassinatos universais realizada pelas forças de operações especiais sob o comando de Obama como pela fúria com que o presidente virou as armas delas contra um cidadão norte-americano, Anwar al-Awlaki, no Iêmen.

Dirty Wars, o livro
Ironicamente, o livro de Scahill fecha o circuito da temporada de Óscares, revelando os bastidores do romance entre o presidente Obama e o JSÓC-COEC-EUA: todos se encontram no resgate do Capitão Phillips! Como Scahill escreve:

Pop. Pop. Pop.

Três tiros, quase no mesmo exato momento, por três diferentes atiradores. Três piratas somalianos mortos. (...) Os três piratas somalianos mortos, o capitão resgatado e Obama, parece-me, muito tangivelmente, descobre que tinha esse poder, como presidente” – relembrou [jornalista Marc] Ambinder (...) Depois da vitória sobre os piratas (...) os soldados do Comando de Operações Especiais Conjuntas dos EUA, COEC-EUA, passaram a ser os ninjas preferidos de Obama. Depois da operação Alabama, “O presidente convidou pessoalmente os comandantes das Forças Especiais à Casa Branca, e pediu que passassem a exercer papel integral de polícia...”

Não surpreende que a Casa Branca de Obama esteja tão empenhada em melhorar a reputação de sua bem-amada máquina de matar global: primeiro, com A Hora mais Escura (filme que, graças à ajuda que recebeu do governo, foi convertido em cause celèbre) e, agora, com Captain Phillips (Paul Greengrass queria um navio da Marinha de verdade e... conseguiu!). Scahill, é claro, por seu lado, teve de enfrentar o efeito oposto, de apedrejamento non-stop.

OK. Lembro que ÓSCAR nunca se escreve sem JSÓC. E a Academia, talvez, sinta-se tão desconfortável com a ideia da execução extrajudicial quanto pode sentir-se, como nesses dois filmes. Se você for obrigado a assistir a um dos dois, assista Dirty Wars. E, se puder, leia o livro.  


Nota dos tradutores
[1] Orig. Joint Special Operations Command, JSOC (Comando de Operações Especiais Conjuntas dos EUA, COEC-EUA).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Guerras Sujas: Washington enche de alvos o campo de batalha


cria seus próprios inimigos para a era pós 11/9 

23/4/2013, Tom Engelhardt, Tom Dispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O livro Blowback [tiro pela culatra/revide]: The Costs and Consequences of American Empire [Os Custos e Consequências do Império Americano] de Chalmers Johnson foi publicado em março de 2000 – praticamente sem ser percebido. Até então, “tiro pela culatra” era uma expressão obscura cunhada pela CIA, que Johnson definiu como “as consequências não desejadas de políticas que foram mantidas secretas, ignoradas pelo povo norte-americano”. No prólogo, o ex-consultor da CIA e especialista em Mao Tse Tung (revolução camponesa) e em Japão moderno, apresentava-se, como personagem da Guerra Fria, como “ator coadjuvante do Império”.

Depois que desapareceu a União Soviética em 1991, Johnson surpreendeu-se ao descobrir que a estrutura global essencial do outro colosso da Guerra Fria, a superpotência norte-americana, com suas muitas bases militares, permanecia absolutamente intocada, como se o fim da URSS nada tivesse modificado. Quase uma década adiante, quando o Império do Mal já não passava de memória histórica, Johnson novamente correu os olhos pelo planeta e descobriu um “império norte-americano informal” de imenso alcance e grande poder. Convenceu-se então de que, na ambição planetária, Washington cultivava o terreno “em todo o planeta (...) para futuras novas modalidades de tiros pela culatra-revides”.

Johnson observou “sinais muito claros de uma crise do século XXI”. No primeiro capítulo de Tiro pela Culatra, o livro, o autor concentra-se na análise de “um ex-protégé dos EUA”, de nome Osama bin Laden, e na Guerra Afegã contra os soviéticos, da qual emergiram o próprio Osama e uma organização chamada al-Qaeda. Naquela guerra, Washington apoiara ao máximo possível – e a CIA forneceu dinheiro e armas – aos mais extremistas dos fundamentalistas islamistas, o que abriu caminho para que, adiante, os Talibã tomassem o Afeganistão.

Em matéria de “consequência não desejada”, difícil achar melhor exemplo! O objetivo daquela guerra fora aplicar uma sova à União Soviética, de arrasar, estilo Vietnam. O que foi feito. Mas o que ali se fez plantou as sementes do que... Em 1999, quando Johnson escreveu, ainda não se sabia o que viria. Mas ali estava uma pista, uma intuição, um palpite que, dia 12/9/2001 já convertera em “profético” o livro de Johnson. E ele falava também de outro fenômeno: os norte-americanos, ao que lhe parecia, “separamo-nos de qualquer consciência genuína de como outros povos do mundo nos veem e olham para nós”. 

Com o livro “Tiro pela Culatra” [Blowback], Johnson almejava corrigir esse vício; pintar um quadro de como aquele império informal e sua gigantesca rede de bases militares distribuídas por todo o mundo, maior que qualquer outra que o mundo jamais conhecera, viam os outros; assim, planejava explicar por que o antiamericanismo crescia; e por que os tiros pela culatra e os revides estavam, de fato, em gestação, pelo planeta. Depois do 11/9/2001, o livro de Johnson saltou imediatamente para o topo de todas as listas de livros mais vendidos nos EUA; e as expressões “tiro pela culatra”, “revide” e “consequências não desejadas” entraram para a linguagem diária. Pode-se dizer que Chalmers Johnson foi o primeiro intelectual norte-americano especialista em tiros pela culatra e revides.

Agora, mais de dez anos depois, surge outro livro. Dessa vez, o autor é o primeiro repórter norte-americano especialista em tiros pela culatra e revides. Chama-se Jeremy Scahill.

Jeremy Scahill
Em 2007, Scahill já publicara um best-seller “surpresa”: Blackwater: The Rise of the World's Most Powerful Mercenary Army [Blackwater: Ascensão do mais poderoso exército mundial de mercenários] [1]. Beneficiou-se de um momento quando o governo Bush, preparando-se para suas guerras longínquas, trabalhava como maníaco para “privatizar” a segurança nacional e os militares norte-americanos, contratando espiões-de-aluguel, pistoleiros-de-aluguel e empresas de aluguel para suas guerras que proliferavam feito praga.

Nos anos seguintes, foi como se Scahill tivesse tomado a peito, como desafio pessoal, a observação de Johnson – que os norte-americanos não sabem ver o mundo como ele é. E nem chegava a surpreender, porque grande parte do “modo norte-americano de guerrear” já mergulhara nas sombras. Dois governos em Washington  já se haviam arrogado cada vez mais poderes para fazer guerras e arrochar a (in)segurança interna; começaram então a desenvolver novos, clandestinos, ocultados métodos de guerra. No processo, transformaram uma CIA cada vez mais militarizada e uma equipe “técnica” conhecida como Comando Conjunto de Operações Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)] e uma sua “arma perfeita”, nova em folha, um objeto de desejos e delírios high-tech, o drone [veículo aéreo pilotado à distância, por joystick], no exército privado, privatizado, do próprio presidente.
 
Naqueles anos, a guerra e o caminho para produzir mais guerras já se haviam convertido em assunto privado e propriedade da Casa Branca e do estado de segurança nacional – e de mais ninguém. Praticamente nada disso, claro, era segredo para os que operavam na ponta rumo à qual o dinheiro andava. Só os norte-americanos nada sabiam e nada deveriam saber do que era feito em seu nome. Resultado disso tudo, havia ali uma história da guerra secreta produzida nos EUA para o século 21, que bradava aos céus para ser narrada.  

Agora, essa história já aí está, na forma do novo livro de Scahill: Dirty Wars: The World Is a Battlefield [Guerras Sujas: o mundo é um campo de batalha].

Scahill rastreou, com especial detalhe, a ascensão do Comando Conjunto das Forças Especiais. No Iraque, assumiu as feições de uma espécie de Assassinatos Inc., “um ramo empresarial-executivo, para assassinatos”, como disse Seymour Hersh, que operava a partir do gabinete do vice-presidente Dick Cheney. Em seguida a mesma unidade militar/empresa serviu-se dos seus métodos de caça/assassinato contra o Afeganistão e, dali, para o planeta, à medida em que as próprias forças especiais iam-se convertendo em exército secreto caro, cevado entre os militares norte-americanos. Naqueles anos, Scahill começou a seguir as pegadas de tipos das forças especiais em campo, sem deixar de acompanhar fontes dentro daquela comunidade e em outros pontos do mundo militar e da inteligência.
 
No novo livro, retraça as guerras burocráticas de inteligência em Washington, enquanto o Pentágono, a CIA e o resto da comunidade de inteligência nos EUA ia ganhando músculos e ordens secretas, diretamente da presidência, davam ao Comando Conjunto das Forças Especiais, principalmente, autoridade sem precedentes para converter o planeta em área de tiro livre.

Finalmente, como repórter, viajou a vários “cenários” perigosos – Somália, Iêmen, Paquistão – aos quais os norte-americanos absolutamente não davam qualquer atenção, e onde militares norte-americanos e a CIA (trabalhando lado a lado com empresas privadas de segurança contratadas) faziam testes e desenvolviam novos métodos para fazer avançar o alastramento das guerras secretas de Washington.

Como Scahill escreve nos “Agradecimentos”, agradecendo a colaboração de outro repórter que viajou com ele, “Estávamos juntos quando atiravam contra nós, em telhados de Mogadishu, dormimos lado a lado no chão úmido no interior do Afeganistão e atravessamos juntos terras do sul do Iêmen”. Aí se vê algo do espírito do livro, produzido por repórter dedicado, independente - nunca “incorporado” às forças militares – trabalho impressionante, inspirador, às vezes assustador.

No processo, Scahill, o qual, naqueles anos, publicou várias reportagens impressionantes, como correspondente de segurança nacional da revista The Nation, descortina para nós aqueles esquadrões norte-americanos da morte operantes no Iraque; raids noturnos, coisa de pesadelo, no Afeganistão (nos quais morriam alvos “errados”; entrega secreta de suspeitos de terrorismo a uma prisão que a CIA mantém na Somália (e já depois de o presidente Obama ter proibido a “entrega extraordinária” de prisioneiros); o uso de drones e mísseis Cruisers em ataques desastrados contra civis no Iêmen; a caçada, até o assassinato de cidadãos norte-americanos (ditos “suspeitos de atos terroristas”, embora Abdulrahman Awlaki, de 16 anos, um dos assassinados, com certeza absoluta jamais tenha praticado qualquer ato terrorista) também no Iêmen e ordenados pelo presidente; o complexo mundo das operações do Comando Conjunto das Forças Especiais/CIA/Blackwater no Paquistão – e muito mais, incluindo uma indicação de que o Comando Conjunto das Forças Especiais chegou a iniciar operações em solo, também no Uzbequistão. (Quem ouvira falar disso?!).

Ann Jones
Dirty Wars [Guerras Sujas] é também, nos termos de Johnson, uma história do futuro; uma história de tiros pela culatra/revides potenciais; uma mensagem na garrafa que nos é enviada de dentro das linhas ocultas dos campos de combate secretos globais dos EUA – e aí há uma história dos EUA, que desconhecemos.

Preparando o campo de batalha

Há poucos anos, Ann Jones, correspondente de Tom Dispatch, contou-me algo que nunca esqueci. Tendo passado algum tempo incorporada às tropas dos EUA no Afeganistão, ela assim descreveu as patrulhas que faziam pelo interior do país: sim, há perigo, principalmente as bombas nas estradas [orig. IEDs (roadside bombs)], mas no geral as áreas patrulhadas diariamente, dia após dia, eram estranhamente desertas, “vazias”. Em certo sentido, era quase como se não houvesse ninguém, como se combatessem uma guerra fantasma num – palavras dela – campo de batalha vazio.

Essas palavras têm um análogo planetário, no notável novo livro de Scahill. Como tantos lembram, imediatamente depois dos ataques de 11/9, Bush e seus assessores logo se puseram a pensar grande. Inesquecível, o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld pôs-se a exigir que seus assessores lhe apresentassem um plano contra Saddam Hussein do Iraque, apenas cinco horas depois que o avião do voo 77 da American Airlines se espatifasse contra o Pentágono. Em semanas, já altos funcionários do governo falavam com firmeza sobre a necessidade de a OTAN drenar o pântano dos terroristas e dos inimigos dos EUA em escala global. Sabe-se que houve planos para atacar entre 60 e 80 países, entre um terço e metade dos países do planeta. Em outras palavras, quando rapidamente declararam uma Guerra Global ao Terror, não estavam brincando. Tratava-se disso, bem literalmente, e, como Scahill relata, imediatamente se puseram também a construir o tipo de exército – secreto, que só obedeceria a eles – capaz de combater em qualquer canto do mundo.

Rumsfeld
Enquanto aquelas forças eram despachadas globalmente, para recolher inteligência, treinar forças estrangeiras (quase sempre ditas “especiais” e secretas), e especialmente para caçar e matar terroristas, uma nova expressão construída entrou rapidamente em circulação, expressão tão crucialmente importante para o livro de Scahill, quanto “tiro pela culatra/revide” foi importante para o livro de Johnson. Estava, como diziam, começando a “preparar o campo de batalha” (ou, como também se dizia, “o espaço de combate” ou “o ambiente de confronto”). Essa preparação não poderia ter sido mais apavorantemente enlouquecida. O Secretário de Defesa Rumsfeld assim resumiu o quadro: “Hoje, todo o mundo é o espaço de combate”.

Aqui, o mais estranho: quando aquelas forças secretas partiram para fazer seu serviço sujo, aquele espaço de combate global era, nas palavras de Jones, espantosa, estranhamente vazio. Não se via ninguém. Talvez algumas centenas, no máximo alguns milhares de jihadis espalhados pelas áreas mais remotas do planeta. Se “preparar o campo de batalha” converteu-se em palavra chave daquele momento, nunca foi expressão descritiva acurada.  Mais preciso seria dizer “criar o campo de batalha” ou, então, “povoar o campo de batalha”.

Campo do Sonhos
O padrão que Scahill traça brilhantemente, bem se pode entender no subtítulo do filme Campo dos Sonhos:se você construir, eles virão. O resultado não foi tanto uma guerra contra o terror: foi, muito mais, uma guerra de terror e pelo terror. Washington, simultaneamente, produzia uma máquina de matar e uma máquina para gerar terror. “Guerras Sujas”, Dirty Wars, de Scahill captura o modo como os altos oficiais convenceram-se de que a única superpotência restante no planeta, a última, com a melhor força de combate que o mundo jamais conheceu (como, hoje, os presidentes dos EUA nunca se cansam de repetir), podia simplesmente abrir caminho à bala e à morte, até a vitória global.

Scahill mostra também que eles são frequentemente bem-sucedidos no processo de matar as pessoas que haja em sua lista de matar [orig. kill list], de Osama bin Laden para baixo: o próprio Bin Laden no Paquistão; Abu Musab al-Zarqawi no Iraque; Aden Hashi Ayro na Somália; Anwar al-Awlaki no Iêmen, além de vários “tenentes” entre altas figuras da al-Qaeda e grupos aliados. E, enquanto vão sendo assassinados os “listados”, com os drones da CIA e os voos do Comando Conjunto das Forças Especiais, assassinam-se também quem esteja por perto. Não raras vezes, foram civis inocentes – e em grande quantidade.

Gente que de modo algum poderia ter tido a porta de casa arrombada, os filhos presos, a esposa grávida assassinada a tiros, gente que para sempre sentirá o horror daqueles momentos. E assim, antes que Washington percebesse, a lista de matar inchava, nunca diminuía; e suas guerras tornavam-se mais, nunca menos, intensas e vastas, já chegando a outras terras. O campo de combate, tão atentamente preparado, começava a encher-se de inimigos.

Uma máquina de moto perpétuo para desestabilizar o planeta

Enquanto Washington lançava suas aventuras pós 11/9, os aliados neoconservadores do governo Bush, acreditando que o vento lhes enchia as velas, punham os olhos no mundo, do Norte da África à fronteira da China na Ásia Central (o chamado “Oriente Médio Expandido”) que gostavam de chamar de “arco de instabilidade”. O serviço dos EUA, imaginavam eles, seria estabilizar o tal “arco” empregando o gigantesco poder militar dos EUA para criar uma Pax Americana na região. Eram, em outras palavras, fundamentalistas, e os militares dos EUA eram sua religião original. Acreditaram que esse tecno-poder derrotaria, forçaria à rendição, qualquer outra forma de poder no mundo.

Em tempos de retirada dos EUA do Iraque e à luz do desastre da guerra no Afeganistão, se se examina o Oriente Médio Expandido hoje – do Paquistão à Síria, do Afeganistão ao Mali – vê-se, agora sim, o que é instabilidade. 12 anos depois, grande parte da região já foi desestabilizada em maior ou menor grau, o que bem se pode tomar como definição do sucesso de Washington no curto prazo; e fragoroso fracasso, no longo prazo.

Na realidade, estiveram errados desde o início. Afinal, por trás da guerra lançada pelo governo Bush e mantida e ampliada pelo governo Obama, sempre esteve uma “remontagem”, para o século XXI, da mesma brutal estratégia com a qual Washington já falhara no Vietnã. A expressão que entrou em moda então foi “o ponto da virada”, um suposto momento crucial no que então já se pensava, declaradamente, como “guerra de atrito”.

A ideia era bem simples. O aterrador poder de fogo ao qual Washington tinha acesso imporia ao inimigo vietnamita o resultado esperado, óbvio: mais cedo ou mais tarde, chegaria o momento em que os EUA estariam matando mais inimigos do que o inimigo conseguiria recrutar no Vietnã do Sul; ou se infiltrariam reforços, vindos do norte. Naquele momento, Washington “viraria” rumo à vitória. Todos sabemos no que deu aquilo – da infame contagem de cadáveres (que o governo Bush tentou desesperadamente evitar no Iraque e no Afeganistão), à carnificina em escala jamais vista e à derrota, quando nem o prodigioso número de inimigos mortos resultou em os EUA conseguirem “virar” rumo à vitória.

E aqui está a ironia. Como seu pai, o qual, no final da primeira Guerra do Golfo, em 1991, discursou, em êxtase,  que “acabamos com a síndrome do Vietnã, de uma vez por todas”, George W. Bush, o filho, e seus principais oficiais padeciam de alergia mortal à memória do Vietnã. Mesmo assim, ainda deram jeito de lançar uma guerra global de atrito contra vários grupos que definiram como “terroristas”. Estavam bem visivelmente planejando assassiná-los, um a um se possível, ou sem nem identificá-los, em  Grupos de assinatura [orig. “signature groups”], se necessário, até alcançar algum ponto onde conseguissem “virar”, quando o inimigo esteja perdendo tantos braços que não possa repô-los, e a vitória raie no horizonte. Como no Vietnã, claro, esse ponto de ‘virada’ jamais chegou e é cada dia mais claro que jamais chegará. Quanto a isso, o livro-reportagem de Scahill é incisivo.

“Guerras Sujas” [Dirty Wars] é realmente a história secreta de como Washington lançou uma série de guerras não declaradas nos confins do planeta e abriu, a fogo e morte, o próprio caminho para algo que cada dia mais se aproxima de total guerra global: criou um oceano de inimigos, a partir de praticamente nenhum inimigo. Pode-se dizer que foi a realização de um desejo inconsciente de morte, e os resultados – sim, alcançados! – chegaram como um campo de pesadelos.

O que se criou naquele processo parece hoje uma máquina de moto perpétuo para desestabilizar do planeta. Basta acompanhar o aumento do número de bases de drones  e  dos raids dos grupos do Comando Conjunto das Forças Especiais, e logo se veem, diante dos olhos e em ação, o processo em andamento de desestabilização do planeta. Ou que se leia o livro de Scahill, para conhecer o relato, golpe a golpe, de como aconteceu. O processo está agora em andamento, já bem avançado, na África,  onde a desestabilização parece tomar rumo sul, da Líbia via Mali.

Reli “Tiro pela culatra/revide” [Blowback] 13 anos depois da primeira leitura, e é difícil acreditar que alguém tenha conseguido ver tão à frente no tempo, dada a preferência, entre os humanos, por jamais tentar ver muito adiante de coisa alguma. O mais triste de tudo que se possa dizer sobre “Guerras Sujas” [Dirty Wars] é que, pelo que já se vê hoje, dentro de outros 13 anos também o livro de Scahill voltará às manchetes, tão atual quanto o noticiário de ontem. Scahill desmascarou um modo de fazer guerras que parece destinado à perpetuidade, não importa que governo os norte-americanos elejamos para nos governar.

Ainda há muito que todos ignoramos sobre as atuais “não guerras” que os EUA estamos guerreando. Daqui a 13 anos talvez saibamos muito mais sobre o que o Comando Conjunto das Forças Especiais, a CIA e outros realmente fizeram nesses anos iniciais do processo. Mas nada disso modificará o padrão que Scahill conseguiu traçar e exibir para todos.

Assim sendo, não hesitemos: “missão cumprida!” Talvez o mundo ainda não fosse um campo de batalha quando começaram a trabalhar. Mas, sim, aquela gente preparou o espaço global de batalha, e fez bem feito: hoje já estamos bem adiantados naquele mesmo processo então iniciado.

E, quase sem que ninguém percebesse, as guerras imperiais encontraram via para também voltarem para casa.  Consideremos a reação às explosões na Maratona de Boston.

A resposta foi sem dúvida a maior, mais militarizada caçada humana de toda a história dos EUA. A seu modo, também foi exemplo de campo de batalha deserto, vazio. Uma área metropolitana de 217 km2  foi quase completamente esvaziada e cercada. Pelo menos 9 mil policiais pesadamente fardados e armados, da Polícia local, da Polícia estadual, policiais federais e centenas de soldados da Guarda Nacional, equipes da SWAT, veículos blindados, helicópteros e sabe-se lá o que mais tomaram as ruas de Boston e arredores, à caça de dois perigosos, enlouquecidos jovens, um dos quais terminou ensanguentado num barco num fundo de quintal, nas fronteiras da zona que a Polícia fechara, em Watertown. Esse espetáculo seria inimaginável nos EUA de antes do 11/9.

O custo dessa operação tem de ter sido estratosférico (sobretudo se se somam os prejuízos a todos os comerciantes da cidade, impedidos de abrir as lojas). No final, claro, um dos suspeitos foi assassinado e o outro foi capturado – e as celebrações  por mais esse sucesso de curtíssimo prazo começaram imediatamente nas ruas de Boston e nos veículos da imprensa-empresa. Mas nem assim se conseguiu provar que abrir caminho a fogo e à morte para o sucesso seria estratégia vencedora. De fato, continuamos no mundo dos tiros pela culatra/revides do livro de Scahill, no qual, não importa o número de mortos, nada sugere que estejamos mais próximo do ponto “da virada”, na guerra.

Depois que Dzhokhar Tsarnaev, o segundo suspeito de autor dos ataques em Boston, foi capturado, o senador Republicano Lindsey Graham tuitou uma nova frase, que se integrou ao discurso norte-americano: exigindo que o rapaz de 19 anos fosse considerado “inimigo não combatente” (como são os detidos sem julgamento e sem acusação formal na prisão de Guantánamo), Lindsey Graham escreveu: “A pátria é o campo de batalha”. Leitores de “Guerras Suja” [Dirty Wars] de Scahill, devem ter estremecido de pavor.

Enquanto o mundo queima e arde e derrete-seWashington se autodeterminou uma missão global crucial: despachar suas forças secretas para aquele campo de batalha global, à caça de jihadis.

Foi o pior erro imperial de avaliação, desde que Nero tomou da harpa e tocou, enquanto Roma queimava.




Nota dos tradutores

[1]  Sobre a empresa, ver 21/10/2010, redecastorphoto, Jeremy Scahill, em: Blackwater & Co. - A “negabilidade total , The Nation, em português.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A guerra de Washington no Iêmen é tiro pela culatra


14/2/2012, *Jeremy Scahill, The Nation 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldados da Brigada Mecanizada 25 próximos da linha de frente em Zinjibar, Iêmen. Crédito da imagem: Richard Rowley, Big Noise Films


O general Mohammed al-Sumali viaja do banco do passageiro em seu Toyota Land Cruiser blindado, pela estrada deserta que liga o porto iemenita de Aden à província de Abyan, onde islamistas tomaram Zinjibar, capital provincial. Sumali, musculoso, de óculos e bigodes, é o comandante da 25ª Brigada Motorizada das Forças Armadas do Iêmen, e encarregado de expulsar de Zinjibar os guerrilheiros islamistas. A missão de Sumali é considerada internacionalmente importante: retomar Zinjibar é visto por muitos como o teste final do regime agonizante de Ali Abdullah Saleh, presidente do Iêmen, muito impopular, que se serviu da certeza dos EUA de que seria aliado deles na luta contra o terrorismo, para segurar-se no poder.


O único tráfego que se vê na estrada é de refugiados que tentam escapar dos combates e rumam para Aden, e reforços militares que rumam para Zinjibar. Sumali não queria viajar naquele dia para o front, e tentara dissuadir os jornalistas em seu gabinete. “Há perigo de fogo de morteiros contra vocês”, nos disse ele. Os militantes de Zinjibar haviam tentado, por duas vezes, assassinar o general naquele mesmo carro. Há um furo de bala no para-brisa, pouco acima de onde está sua cabeça; e outro na janela do lado, as linhas do impacto das balas bem visíveis no vidro. Depois que concordamos com não responsabilizá-los, nem o general nem seus homens, pelo que nos acontecesse, ele afinal cedeu, embarcamos e partimos.

Mohammed al-Sumali
A estrada acompanha o litoral do Mar da Arábia, e nela se veem restos de cartuchos de morteiros, tanques russos T-72 meio enterrados nas dunas de areia e um ou outro camelo andarilho. E o general Sumali conta sua versão do que aconteceu dia 27/5/2011. Naquele dia, várias centenas de militantes sitiaram Zinjibar, 30 milhas nordeste da importante cidade de Aden, no sul; mataram vários soldados, expulsaram os militares locais e em dois dias controlavam a cidade. Sumali atribui o sucesso da operação guerrilheira a uma “falha de inteligência” e explica que “Fomos surpreendidos no final de maio pelo fluxo de grande número de militantes terroristas para Zinjibar”. Acrescenta que os guerrilheiros “atacaram sites de segurança. Conseguiram tomar aquelas instituições. Fomos surpreendidos quando o governador, deputados e outras autoridades locais fugiram para Aden”. O general Sumali conta que, enquanto os militares iemenitas começavam a enfrentar os guerrilheiros, os homens do Centro de Segurança do Iêmen fugiram, abandonando, durante a fuga, armamento pesado. Essas forças do Centro de Segurança do Iêmen, cuja unidade antiterrorismo é armada, treinada e financiada pelos EUA, são comandadas por um sobrinho do presidente Saleh, Yahya. (Jornal ligado aos guerrilheiros noticiou que foram confiscadas “peças de artilharia pesada, moderno armamento antiaéreo, vários tanques e veículos blindados de transporte, além de vastas quantidades de muitos tipos de munição.”)

Sumali diz que suas forças tentaram repelir o ataque a Zinjibar no início de junho, quando foram atacadas por guerrilheiros que usavam o armamento confiscado das unidades do Centro de Segurança do Iêmen. “Muitos dos meus homens foram mortos”, diz ele. Os guerrilheiros islamistas também organizaram vários ataques contra a base da 25ª Motorizada, na área sul de Zinjibar. No total, foram mortos mais de 230 soldados iemenitas em combates contra os guerrilheiros, desde maio passado. “São inacreditavelmente valentes” – diz o general, falando dos guerrilheiros. “Tivesse eu um exército de homens valentes como eles, conquistaria o mundo.”

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Segundo críticos do agonizante regime de Saleh, o relato de Sumali é até generoso sobre o papel que as forças de segurança do Iêmen, em Zinjibar. Dizem que as forças de Saleh deixaram que a cidade fosse ocupada. A luta ali começou com Saleh enfrentando protestos dentro e fora do Iêmen, que exigiam sua renúncia; vários de seus principais aliados já haviam desertado e juntaram-se ao crescente movimento de oposição. Depois de 33 anos de repressão à oposição, dizem eles, Saleh viu que o fim estava próximo. “O próprio Saleh, de fato, entregou Zinjibar àqueles guerrilheiros” – diz Abdul Ghani al Iryani, analista político muito bem relacionado. “Saleh ordenou que sua força policial evacuasse a cidade e a entregasse aos guerrilheiros, porque desejava enviar ao mundo a mensagem de que, sem ele, o Iêmen cairia em mãos de terroristas”. Essa teoria, embora não haja como comprová-la, não é desprovida de sentido. Desde a guerra dos mujahedeen contra os soviéticos no Afeganistão, nos anos 1980s, continuando depois do 11/9, Saleh dedicou-se a ampliar a ameaça que viria da Al-Qaeda e de outros grupos militantes, para arrancar dos EUA e da Arábia Saudita novos financiamentos e mais armas para a luta antiterrorismo, com o que conseguia reforçar o próprio poder dentro do país e neutralizar a oposição.

Funcionário do governo iemenita, que pediu para não ser identificado, porque não tem autorização para comentar assuntos militares, admitiu que soldados iemenitas da Guarda Republicana treinados e pagos pelos EUA, não responderam ao fogo quando os guerrilheiros entraram na cidade. Aquelas forças eram comandadas pelo filho de Saleh, Ahmed Ali. Sequer as forças leais a um dos militares mais poderosos do país, o general Ali Mohsen, comandante da 1ª Divisão Blindada, ofereceram qualquer resistência. Dois meses antes de Zinjibar ser ocupada por guerrilheiros, Mohsen havia desertado e passara a apoiar o movimento pela derrubada do governo de Saleh.

Iêmen - Mapa político com estradas e principais cidades
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Questão também controversa é quem, exatamente, seriam os guerrilheiros que tomaram Zinjibar. Segundo o governo do Iêmen, seriam agentes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), grupo que Washington identificou como a mais perigosa ameaça terrorista, como grupo, que os EUA enfrentavam. Mas os guerrilheiros que tomaram a cidade nada disseram sobre AQPA. Apresentaram-se como novo grupo, recém constituído, Ansar al Sharia, Apoiadores da Xaria. Altos funcionários do governo do Iêmen disseram-me que Ansar al Sharia é apenas mais uma fachada da Al-Qaeda; que a primeira referência pública ao grupo aparecera uma semana antes do ataque a Zinjibar, na fala de um alto clérigo da AQPA, Adil al-Abab. “O nome Ansar al Sharia é o que usamos para nos apresentar em áreas nas quais trabalhamos para explicar ao povo sobre nosso trabalho e nossos objetivos, e que estamos no caminho de Alá” – dissera o clérigo, acrescentando que o novo nome visava a destacar a mensagem do grupo, evitando que fosse contaminada pelo peso da “grife” Al-Qaeda. Seja o grupo Ansar al Sharia mais independente das origens, ou mesmo que seja resultado de simples mudança de nome da AQPA, como diz Abab, a fama do grupo logo extrapolaria as esferas historicamente limitadas de influência da Al-Qaeda no Iêmen, ao mesmo tempo em que popularizaria alguns dos objetivos centrais da AQPA.

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Seguindo viagem com o general Sumali pela estrada abandonada, passamos pelo Estádio “Unidade” 22 de maio [orig. May 22 “Unity” Stadium], meticulosamente remodelado para o 20º Campeonato de Futebol do Golfo, de novembro de 2010. Deveria ser o símbolo de que o Iêmen seria destino seguro para os turistas. De fato, o país foi visitado por milhares de torcedores – muitos vindos dos vizinhos, Arábia Saudita e África Ocidental – para torcer por suas equipes. Construíram-se hotéis de luxo para a ocasião, e dignitários estrangeiros, inclusive alguns chefes de Estado, visitaram o Iêmen para as cerimônias de abertura do Campeonato, que foram presididas por Saleh. Foi lançada, simultaneamente, uma campanha que envolveu clérigos “moderados” de outros países árabes, denominada “a Batalha de Corações e Mentes contra a Al-Qaeda”.

Seis meses depois, os novos hotéis estão desertos e o estádio tornou-se símbolo de instabilidade. Durante a batalha por Zinjibar, os guerrilheiros tomaram o estádio e os soldados de Sumali tiveram de bombardear o estádio para forçar os guerrilheiros a abandoná-lo. Os danos são visíveis nas ruínas das arquibancadas superiores.

Ultrapassamos as primeiras linhas, nos arredores de Zinjibar, “Tiger 1,” e andamos meia milha até “Tiger 2.” Sumali, com relutância, concorda com nos deixar sair do carro. “Só dois minutos”, diz ele. “Há perigo aqui.” O general é logo cercado por seus soldados. Parecem magros e cansados, vários deles com barbas por fazer e uniformes em farrapos, ou sem uniforme. Alguns pedem que Sumali autorize o pagamento de soldo adicional por ação em combate. Um dos soldados diz ao general:  “Eu estava com o senhor quando o senhor foi emboscado. Ajudei a repelir o ataque.” Sumali escreve algo numa folha de papel e entrega ao soldado. A cena continua, até que Sumali volta para o Toyota. Enquanto nos afastamos, ele fala de dentro do veículo blindado, por um alto-falante, aos soldados. “Continuem a luta. Não cedam!” 

Sumali diz-me que não pode “nem confirmar nem negar” que o grupo Ansar al Sharia seja de fato parte da AQPA. “O que me importa, como soldado, é que levantaram-se em armas contra nós. Quem quer que ataque nossas instituições e acampamentos militares e mate nossos soldados, será combatido por nós, sejam ligados à Al-Qaeda ou ao grupo Ansar al Sharia”, diz ele. “Pouco me importa o nome que se deem. Não posso confirmar que Ansar al Sharia seja ligado à Al-Qaeda, ou se é grupo independente”.

A tomada de Zinjibar aconteceu num momento em que o regime de Saleh desintegrava-se e o presidente estava absolutamente concentrado na luta contra os que queriam derrubá-lo do poder. “A crescente instabilidade no Iêmen garantiu à eles [AQPA] maior liberdade para planejar e executar suas operações”, disse o diretor da inteligência nacional, James Clapper, à Comissão de Inteligência do Senado, dia 31 de janeiro. “A AQPA explorou a agitação política para adotar estratégia mais agressiva no sul do Iêmen, e continua a ameaçar interesses diplomáticos ocidentais e dos EUA.” E Clapper concluiu: “A AQPA continua a ser o braço deles [da Al-Qaeda] que tem maior probabilidade de tentar ataque transnacional.”

Não há qualquer dúvida de que a AQPA aproveitou a oportunidade, reconhecendo, astutamente, que sua mensagem a favor de um governo baseado no sistema de lei e ordem da Xaria seria bem recebida por muitos, em Abyan, que viam o governo de Saleh como fantoche dos EUA. Os ataques dos mísseis dos EUA, as mortes entre civis, e a quase total falta de serviços públicos, além da miséria crescente, também contribuíram. “Depois que esses grupos de guerrilheiros tomaram a cidade, entrou em cena a AQPA e também tribos de áreas que haviam sido, no passado, atacadas por soldados do governo de Saleh e dos EUA” – diz Iryani, o analista político. “Vieram porque estão em luta contra o regime e contra os EUA. Há um núcleo da AQPA, mas a vasta maioria são pessoas indignadas por terem sido atacadas em seus lares; os ataques os forçaram a sair e lutar.” Segundo estatísticas publicadas pela US Agency for International Development [Agência Norte-americana para o Desenvolvimento Regional], “a insegurança criou mais de 40 mil refugiados em Zinjibar, em 2011.”

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Diferente do movimento guerrilheiro Al-Shabab in Somalia, a AQPA jamais chegou a assumir o controle sobre porções significativas de território no Iêmen. Mas o grupo Ansar al Sharia promete fazer exatamente isso, criando um Emirado Islâmico em Abyan. Tão logo o grupo Ansar al Sharia e aliados firmaram-se no controle sobre Zinjibar, passaram a implementar uma agenda para conquistar corações e mentes. “Ansar al Sharia tem sido muito mais proativo no trabalho de oferecer serviços em áreas do Iêmen de onde o Estado virtualmente desapareceu,” diz Gregory Johnsen, professor iemenita que dá aulas na Princeton University. “Dizem que seguem o modelo Talibã, de prover serviços e governo islâmico, onde o governo central do Iêmen deixou um vácuo.”

O grupo Ansar al Sharia reparou estradas, restaurou as ligações elétricas, distribuiu comida e passou a patrulhar a cidade e arredores. Também estabeleceu tribunais legais pelo sistema da Xaria, onde se resolvem as disputas entre cidadãos. “A Al-Qaeda e o pessoal do grupo Ansar al Sharia trouxe segurança à população, em regiões conhecidas pela violência, por assaltos, por bloqueios de estradas” – diz Abdul Rezzaq al Jamal, jornalista iemenita independente, que regularmente entrevista líderes da Al-Qaeda e tem passado longos períodos em Zinjibar. “As pessoas que encontro em Zinjibar são gratas à Al-Qaeda e ao grupo Ansar al Sharia por lhes garantir condições de segurança”.

Embora os guerrilheiros em Abyan ofereçam lei e ordem, ambas, às vezes, são implantadas mediante táticas terríveis, como amputação da mão de acusados por furtos, e apedrejamento público dos suspeitos de consumir drogas. Num incidente em Jaar, governada pelo grupo Ansar al Sharia, os moradores contam que assistiram a um julgamento horrendo, no qual guerrilheiros usaram uma espada para amputar a mão de dois jovens acusados de roubar cabos de eletricidade. As mãos decepadas foram depois exibidas pela cidade, como alerta a outros tentados a cometer roubos. Um dos jovens amputados, de 15 anos, morreu pouco depois, por hemorragia. Dia 12 de fevereiro, agentes do grupo Ansar al Sharia em Jaar, decapitaram em cerimônia pública dois homens acusados de fornecer informações aos EUA, usadas para orientar os ataques dos aviões-robôs, os drones. Um terceiro homem foi executado em Shebwa.

Em meados de janeiro, o grupo Ansar al Sharia ocupou áreas de outra cidade, Radaa, 100 milhas a sudoeste de Sanaa, o que gerou novos bombardeios pelas forças oficiais, e batalhas de rua entre forças do exército, e guerrilheiros do grupo Ansar al Sharia e da AQPA. “A ameaça da Al-Qaeda é agora mais concreta que nunca e não pode ser subestimada, sobretudo porque já têm apoiadores entre a população e paraíso seguro a partir do qual podem operar” – diz o general Sumali.

A tomada de Zinjibar pode ser indicação de que a AQPA está de fato explorando o crescente vácuo de poder no Iêmen. Mas, ainda mais perigoso que isso, é que o apoio local à agenda da AQPA não pára de crescer, e mistura-se à também crescente fúria, das tribos mais poderosas, contra a política de contraterrorismo dos EUA e contra os muitos anos de apoio que os EUA garantiram ao governo de Saleh.

No final de 2011, os EUA retiraram do Iêmen parte significativa do seu contingente militar, inclusive as forças de Operações Especiais, entregando a coordenação das ações no Iêmen às forças norte-americanas estacionadas no Djibuti, na África Oriental, onde os EUA mantêm uma grande base militar. A Unidade de Contraterrorismo do Iêmen (UCT) e as forças da Guarda Republicana que sempre viveram do apoio norte-americano, já não são nem operadas nem tuteladas pelos patrocinadores norte-americanos.

Comandantes da UCT disseram-me que, em janeiro, não tinham sequer munição para os rifles de assalto M4 que receberam dos EUA. Quando começaram as batalhas na primeira linha de combater em Abyan, no final de dezembro/início de janeiro, o filho de Saleh, Yahya Saleh, comandante da UCT que sempre foi patrocinado pelos EUA, não foi encontrado no Iêmen. Quando visitei uma base de treinamento da Unidade de Contraterrorismo nos arredores de Sanaa, vários de seus comandados disseram não ter qualquer ideia sobre o paradeiro do comandante; exatamente o que disseram também altos comandantes do exército do Iêmen; mas esses, pelo menos, sabiam que Yahya Saleh estava fora do país. Informaram não ter qualquer notícia sobre quando retornaria. 

Em vez de combater a AQPA, essas unidades apoiadas pelos EUA – criadas e pagas com o explícito objetivo de conduzir operações de contraterrorismo – operaram em Sanaa exclusivamente para garantir proteção a um regime que agonizava, hostilizado pelo próprio povo.

As unidades que os EUA apóiam existem “principalmente para defender o regime”, disse Iryani. “Na luta em Abyan, as unidades de contraterrorismo nada fizeram de aproveitável. Ainda estão lá, no palácio [em Sanaa], protegendo o palácio. Assim são as coisas, por aqui”. Um dos principais conselheiros para questões de contraterrorismo do presidente Obama, John Brennan, reconheceu, ao final do ano passado, que “o tumulto político” levou as unidades iemenitas treinadas pelos EUA “a se posicionarem para finalidades da política interna, e nada fizeram contra a Al-Qaeda na Península Arábica, AQPA.”

O governo Obama demorou demais para aceitar que Saleh deixasse o poder, em parte por preocupações com o contraterrorismo. Dia 28/1, Saleh chegou a New York, declaradamente para tratamento médico, o que levou seus opositores a divulgar que os EUA lhe garantiam proteção contra a fúria do povo. Durante muitos anos, Saleh permitiu que os EUA executassem operações regulares contra a AQPA em território do Iêmen, e instrutores das forças de Operações Especiais dos EUA treinaram unidades especializadas, cujo comando foi entregue a membros da família de Saleh – vistos pela população como prepostos de Washington. O governo de Saleh conspirou ativamente com agentes dos EUA para encobrir o papel dos EUA no Iêmen, e várias vezes assumiu a responsabilidade por bombardeios dos EUA que matavam civis iemenitas. Mesmo quando começaram as grandes manifestações populares contra o governo de Saleh, altos funcionários do governo dos EUA continuaram a elogiar a colaboração que Saleh lhes dava. “Posso dizer hoje que a cooperação em ações de contraterrorismo com o Iêmen é melhor hoje do que em qualquer outro momento do meu trabalho” – disse Brennan em setembro.

Mas a política de contraterrorismo dos EUA é extremamente impopular no Iêmen. Não se sabe se algum eventual novo governo no país manterá o mesmo tipo de colaboração que sempre houve entre o governo do Iêmen e os EUA, na luta contra o terrorismo. Numa série de entrevistas, Mohammed Qahtan e outros líderes do principal partido de oposição, o Partido Islah, fez duras críticas aos ataques aéreos dos EUA no Iêmen, e contra a prática de “assassinatos seletivos” de suspeitos de terrorismo, dizendo que os acusados, fossem quem fossem, teriam de ser julgados por tribunais no Iêmen. Qahtan, líder do partido Islah da Fraternidade Muçulmana, disse que, durante o governo de Saleh, “O governo do Iêmen atuou, na guerra ao terror, como empresa contratada pelos EUA”. E acrescentou que, se o Partido Islah e seus aliados conquistarem o governo do Iêmen, “não seremos empresa contratada pelos EUA, para implementar os serviços que os EUA desejem ver executados em troca do dinheiro que pagam. Nosso slogan é “Somos parceiros. Não somos empresa contratada”. 

Os últimos vários meses abriram uma janela para uma nova abordagem do contraterrorismo pelos EUA, para os novos tempos pós-Saleh. Quando a crise política começou a agravar-se no Iêmen, no ano passado, o governo Obama decidiu retirar a maior quantidade possível do pessoal militar que lá estava, inclusive os instrutores que treinavam as forças iemenitas de contraterrorismo. “Foram-se daqui por causa dos riscos de segurança” – disse-me Abu Bakr al-Qirbi, ministro de Relações Exteriores de Saleh, em seu gabinete em Sanaa. “Com certeza, não voltarão. E se as unidades de contraterrorismo não receberem nem a necessária munição, nem o armamento necessário, haverá grande impacto nas ações de contraterrorismo”. Mas agora os EUA estão apostando no poder aéreo e nos aviões-robôs, drones, foco central de todas as novas operações de contraterrorismo de Washington.

No verão passado, o governo Obama começou a construir uma base aérea secreta na Península Arábica, mais próxima do Iêmen que a base no Djibouti, que pode servir como plataforma de decolagem para mais ataques aéreos com drones, no Iêmen. O ataque de drones em setembro, que matou Anwar al-Awlaki, cidadão norte-americano, foi disparado daquela nova base, que analistas suspeitam que esteja localizada na Arábia Saudita ou em Omã, dois países que têm fronteiras com o Iêmen. Apesar de os EUA estarem ausentes do campo, no Iêmen, mantém-se a coordenação com a inteligência iemenita nas operações de contraterrorismo. No final de janeiro, houve vários ataques norte-americanos na região de Abyan, e, segundo o general Sumali, forças norte-americanas executaram pelo menos dois outros ataques aéreos na área de Zinjibar, “contra líderes da Al-Qaeda que estão na lista negra de terroristas dos EUA”. E acrescentou logo: “não coordenei diretamente nenhum desses ataques”. Seguindo o general Sumali, helicópteros dos EUA entregaram – em várias ocasiões – suprimentos para a 25ª Unidade Motorizada. Os EUA também tem oferecido inteligência em tempo real, obtida pelos aviões-robôs, às forças iemenitas em Abyan. “Tem sido uma parceria ativa; os EUA entram, principalmente, com logística e inteligência”, disse Sumali. “E nós atacamos as posições, com artilharia e fogo aéreo.”

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Há anos, a elite do Comando Conjunto das Operações Especiais e equipes da CUA mantêm equipes dentro do Iêmen, que tem apoiado o exército iemenita e atuado em operações unilaterais, quase todas de fogo de mísseis e ataques por drones. Alguns desses ataques unilaterais acertaram o alvo previsto, como o ataque da CIA para assassinar Awlaki. Mas outros mataram civis – várias vezes, grande número de civis. E muitos deles foram mortos em Abyan e na vizinha província de Shebwa – exatamente as regiões nas quais se assiste hoje ao aumento considerável da atividade da Al-Qaeda na Península Arábica. A primeira autorização conhecida dada pelo presidente Obama para ataque com mísseis no Iêmen, dia 17/12/2009, matou mais de 40 beduínos, a maioria dos quais mulheres e crianças, na remota vila de al Majala em Abyan. Outro ataque dos EUA, em maio de 2010, matou um importante líder tribal e vice-governador da província de Marib, Jabir Shabwani, assassinatos que dispararam a fúria popular contra os EUA e o governo de Saleh. “Acho que aqueles ataques basearam-se em falsa inteligência saída de dentro do governo, porque isso obedece à lógica da empresa contratada”, acusa Qahtan. “A empresa contratada quer sempre criar oportunidades para vender mais serviços, para receber mais dinheiro”.

O ataque de drones em outubro, que matou Abdulrahman, filho de 16 anos de Awlaki, e cidadão norte-americano, e um primo adolescente, chocou e enfureceu iemenitas de todos os partidos e tendências. “Não tenho dúvidas de que as operações [militares] implementadas pelos EUA prestaram inestimável serviço à Al-Qaeda, porque aquelas operações geraram simpatias locais que a Al-Qaeda jamais antes recebera” – diz Jamal, jornalista iemenita. Os ataques “tem recrutado milhares, para a Al-Qaeda”. Os iemenitas das tribos, diz Jamal, partilham um objetivo comum com a Al-Qaeda: “todos agora querem vingança contra os EUA, porque os que morreram são filhos das tribos, e as tribos nunca, em caso algum, jamais, abrem mão do direito de vingar a morte injusta dos seus”.

Até altos funcionários do regime de Saleh reconhecem o grave dano que os ataques aéreos norte-americanos regime provocaram. “As pessoas sem dúvida ressentem-se dessas intervenções [dos EUA]”, Qirbi, ministro de Relações Exteriores e aliado muito próximo de Saleh, é obrigado a concordar.

Esses ressentimentos muito facilmente se misturam com a mensagem política e religiosa da Al-Qaeda e com a crescente radicalização da paisagem religiosa, sobretudo em áreas empobrecidas, negligenciadas pelo governo do Iêmen, como Abyan. “Claro que, quando o povo vive nesse tipo de contexto, as pessoas tendem a agarrar-se a certo tipo de bandeira ideológica, e começam a falar sobre o Califato e essa conversa toda” – diz Iryani.

Nas grandes manifestações de rua organizadas por opositores de Saleh em Sanaa, destacados imãs conservadores têm falado, nos sermões, sempre denunciando os EUA e Israel. 

É possível que os EUA vejam a Al-Qaeda na Península Arábica como organização com número finito de membros, que podem ser aniquilados por fogo dos drones – ou mísseis Tomahawk – e guerra de atrito. Mas a Al-Qaeda já está conquistando diferentes níveis de apoio em amplas fatias da sociedade iemenita. Embora, sim, haja alguns estrangeiros entre os agentes da AQPA, a maioria dos chamados “militantes”, ou “guerrilheiros” são iemenitas e membros de tribos poderosas no país. “Nos últimos meses, o grupo Ansar al Sharia parece ter atraído grande número de novos membros” – diz Johnsen, o professor iemenita que dá aulas em Princeton. “O grupo decidiu acomodar-se ao Iêmen, de modo a conseguir atrair o maior número de pessoas, o que significa que estão divulgando os itens de maior apelo popular da plataforma política da AQPA, deixando na penumbra os itens mais controversos.”

Por mais que o general Sumali fale da necessidade de “limpar” Abyan dos terroristas, nada é tão simples como parece. As bombas dos EUA e o ataque militar do exército iemenita contra Zinjibar só fizeram aumentar o apoio local ao grupo Ansar al Sharia, criando condições que confirma o grupo como defensor do povo, contra o massacre apoiado pelos EUA.

Os ataques também servem como prova irrefutável de que, como diziam Awlaki e os líderes da AQPA, os EUA planejam atacar no Iêmen como atacaram no Afeganistão, Iraque e Paquistão. “Desejo enviar uma mensagem aos irmãos e ao honrado povo de Abyan”, disse Abu Hamza al Murqoshi, emir do grupo Ansar al Sharia, em vídeo intitulado “Mensagem a Abyan”, distribuído no final de janeiro passado. “Todo o mundo está unido contra nós, aliado ao governo traidor de Saleh, que demoliu nossas casas e destruiu a infraestrutura dessa região. Vocês agora estão unidos a nós, na luta contra esse estado e seus aliados, os norte-americanos”.

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A chave para conseguir algum sucesso no Iêmen é aprender a navegar pelo labirinto do sistema tribal. Ao longo de anos, uma rede de apadrinhamento tribal ajudou a manter o governo de Saleh. Muitas tribos são neutras em relação à Al-Qaeda na Península Arábica, ou a veem como problema menor; algumas combateram contra forças da Al-Qaeda; e outras tribos sempre garantiram abrigo ou santuário aos combatentes da Al-Qaeda. A posição de muitas tribos favoráveis à Al-Qaeda depende hoje de as tribos se convencerem de que a Al-Qaeda na Península Arábica tenha condições de levar avante a agenda que estão divulgando.

Mas a ação política dos EUA tem enfurecido muitos líderes tribais que poderiam manter em cheque a AQPA; mas três anos de ataques e bombardeios regulares acabaram por destruir qualquer motivação que houvesse para que os líderes tribais se decidissem naquela direção.

Vários líderes tribais no sul contaram, furiosos, histórias de como EUA e Iêmen atacaram áreas onde as tribos vivem e mataram homens e gado e destruíram ou danificaram muito grande quantidade de casas. Os ataques aéreos pelos drones dos EUA e o apoio dos EUA às unidades de contraterrorismo que os EUA entregaram ao comando de parentes de Saleh só têm feito aumentar as simpatias pela Al-Qaeda. “Por que nós combateríamos contra a Al-Qaeda? Por quê?” – pergunta o xeique Ali Abdullah Abdulsalam, xeique de tribos do sul, em Shebwa, e que adotou o codinome “Mulá Zabara”, em homenagem, diz ele, ao líder Talibã “Mulá Omar”. “Se meu governo construísse escolas, hospitais e estradas e atendesse as necessidades básicas do povo, eu seria leal a ele e o protegeria. Até hoje ainda não temos serviços básicos, como eletricidade e bombas para água. Por que deveríamos combater a Al-Qaeda?” Diz que a AQPA controla grandes porções de território em Shebwa; que o grupo “garante segurança e impede saques”. “Se seu carro é roubado, eles localizam o seu carro e o trazem de volta”. Nas áreas “controladas pelo governo, há roubos e saques. Qualquer um vê a diferença” – diz Zabara, e acrescenta: “Se não prestarmos mais atenção, a Al-Qaeda ocupará e passará a controlar mais áreas”. 

Zabara apressa-se a esclarecer que entende que a AQPA é grupo terrorista que pode atacar os EUA, mas esse não é problema que ocupe o centro das preocupações dele. “Se os EUA veem a Al-Qaeda como terrorismo, nós aqui só vemos o terrorismo dos drones”, diz ele. “Os drones voam por aí dia e noite, apavorando mulheres e crianças, perturbando o sono de todos. Isso é terrorismo”. Zabara diz que os muitos ataques norte-americanos em sua região mataram muitos e muitos civis, e que sua comunidade continua como que minada por inúmeras bombas de fragmentação que não explodiram, e que, quando detonam matam crianças. Ele e outros líderes tribais pediram ajuda dos governos do Iêmen e dos EUA para remover aquelas bombas. “Até hoje”, diz ele, “não obtivemos qualquer resposta. Então, temos de usar nossas armas, para detoná-las, antes que alguém as detone por acidente.” Diz também que o governo dos EUA deve indenizações em dinheiro às famílias dos civis mortos nos ataques dos mísseis, ao longo dos últimos três anos. “Exigimos compensação, a ser paga pelos EUA, por terem assassinado cidadãos iemenitas, exatamente como no caso de Lockerbie” – declara. “O mundo é uma aldeia. Os EUA receberam indenização da Líbia por causa da explosão na cidade de Lockerbie. Os iemenitas, até hoje, nada receberam”. 

Encontrei Mulá Zabara e seus homens no aeroporto em Aden, no sul do Iêmen, junto ao litoral onde o porta-aviões USS Cole foi bombardeado em outubro de 2000, e morreram 17 marinheiros norte-americanos. Zabara veste seus trajes tribais negros, e leva uma jambiya (adaga) à cintura. Como toque de modernidade, leva também uma pistola Beretta enfiada no cinto. Zabara é figura impressionante, a pele curtida de sol e uma grande cicatriz em forma de lua crescente abaixo do olho direito. “Não conheço esse americano”, diz aos jornalistas iemenitas que me acompanham. “Se algo me acontecer por causa dessa entrevista, se eu for sequestrado, vocês serão responsabilizados e executados”. Os jornalistas respondem com risinhos nervosos. Conversamos um pouco num ponto da praia, antes de que ele nos leve de carro para uma volta em torno da cidade. Com cerca de trinta minutos de viagem, ele estaciona num acostamento e compra um pacote de seis latas de [cerveja] Heineken, numa venda; joga uma das latas para mim, faz estalar a tampa de outra e a esvazia em dois tragos. São 11h da manhã.

“Uma vez, fui parado pelos rapazes da Al-Qaeda na Península Arábica num dos postos de controle deles, e eles viram que eu tinha uma garrafa de [uísque] Johnnie Walker” – ele relembra, secando a segunda lata de Heineken em 10 minutos e acendendo um cigarro. “Perguntaram: por que o senhor carrega isso? Respondi: para beber.” E ri uma gargalhada ampla. “Disse a eles que se metessem com outro, e fui embora”. A mensagem é bem clara: os “rapazes da Al-Qaeda” não querem confusão com os líderes de tribos. “Não tenho medo da Al-Qaeda; ando pelos territórios deles e faço reuniões com eles. Temos autoridade nas nossas tribos e eles têm de recorrer a nós para resolver as disputas que surjam entre eles.” Adiante, acrescenta: “Tenho 30 mil combatentes armados na minha tribo. A Al-Qaeda não pode me atacar.”

Zabara serviu como intermediário nos contatos com a AQPA a serviço do governo do Iêmen e muito contribuiu para obter a liberdade, em novembro, das três enfermeiras francesas que o grupo mantinha como reféns há seis meses. Disse que entrou na negociação depois de um telefonema que recebeu de um agente da AQPA. “Alguém telefonou e disse que matariam as francesas, para vingar a morte de al-Awlaki”, Zabara relembra. “Viajei até onde estavam e disse a eles: se matarem as francesas, nós matamos vocês com nossas adagas”. Adiante, Zabara – e quantia de dinheiro nunca revelada – conseguiram convencer a AQPA a libertar as reféns. Apanha o telefone celular e exibe várias fotos das reféns sendo libertadas.

Zabara também atendeu várias vezes a pedidos do ministro de Defesa do Iêmen, para que mediasse contatos com guerrilheiros em Zinjibar, inclusive para recuperar os corpos de soldados mortos em áreas controladas pelo grupo Ansar al Sharia. “Nada tenho contra nem a Al-Qaeda nem o governo”, diz ele. “Comecei a ajudar nos contatos exclusivamente para tentar pôr fim à carnificina e fazer a paz”. Mas em Zinjibar, seus esforços não tiveram resultado. Conta que, enquanto trabalhava naquela mediação, teve encontros com agentes da Al-Qaeda na Península Arábica dos EUA, França, Paquistão e Afeganistão.

Pergunto se alguma vez teve contato com os altos dirigentes da AQPA. “Fahd al Quso é da minha tribo”, ele responde com um sorriso, referindo-se a um dos suspeitos mais procurados, envolvido no ataque ao Cole. Diz que se encontrou com Umar Farouk Abdulmutallab, conhecido como o homem dos “explosivos na cueca”, acusado de planejar a explosão de um avião sobre Detroit em dezembro de 2009. “Vi [Said] al-Shihri e [Nasir] al-Wuhayshi há cinco dias, em Shebwa” – acrescenta, falando dos dois mais altos comandantes da Al-Qaeda na Península Arábica, ambos terroristas caçados pelos EUA. “Nos cruzamos na rua. Eles disseram “Que a Paz Esteja com Você”. Respondi “Que a Paz Esteja com Vocês também”. Não temos nada contra eles. No passado, ninguém jamais cruzaria com eles na rua. Viviam escondidos em cavernas, nas montanhas. Agora andam pela cidade e comem em restaurantes”. E por que as coisas mudaram tanto?, pergunto. “O regime, os ministros e funcionários desperdiçam o dinheiro destinado a combater a Al-Qaeda, e enquanto isso a Al-Qaeda cresce”, ele responde. “Os EUA financiam as forças de Segurança Política e Segurança Nacional, e eles gastam dinheiro viajando de um lado para outro, em Sanaa ou nos EUA, com as famílias. Para as tribos, sobram os ataques aéreos”. Ele diz também que as unidades financiadas e apoiadas pelos EUA tratam o contraterrorismo “como um investimento”. “Se derrotarem o terrorismo, o dinheiro pára. Eles prolongaram o conflito com a Al-Qaeda, para receberem mais dinheiro” dos EUA.

* * *

Em síntese, eis como muitos iemenitas vêem o papel dos EUA no país deles. Os EUA “jamais deveriam ter feito do contraterrorismo uma fonte de lucros para o regime, porque isso só fez disseminar o terrorismo”, afirma Iryani. “A agenda deles sempre foi manter vivo o terrorismo, porque ali está a galinha dos ovos de ouro”. Os bombardeios norte-americanos foram “erro grave”. Muitas vezes as ações militares convertem-se em “tiro que sai pela culatra, porque morrem muitos civis, porque são violações da soberania. Muitos iemenitas sentem-se ofendidos”. Para os EUA, a pergunta mais séria que permanece sem resposta sobre o Iêmen depois de Ali Abdullah Saleh é: a política de contraterrorismo dos EUA contribuiu para aumentar a ameaça que ela visava a eliminar? “Jamais houve fiasco maior” – diz Iryani sobre a política de contraterrorismo dos EUA na última década, no Iêmen. “Sempre penso que, se tivéssemos ficado sozinhos, haveria hoje menos terroristas no Iêmen”. 

*Jeremy Scahill é um autor ligado à Puffin Foundation (The Nation) e autor de um “best-seller” sobre a Blackwater