“…só
se ouvia uma mesma palavra, repetida e repetida: “Ratos”. Conferiram-se os
sinais numa impressora de sinais em Morse, e a palavra foi confirmada. Depois, a
mensagem ficou mais pessoal, zombando de Marconi: “Há um jovem italiano, que
está enganando direitinho o público” – zombava alguém. Depois, algumas citações
pertinentes, mas rudes, de frases de Shakespeare.
A
mensagem calou-se momentos antes da chegada dos sinais de Marconi, de Poldhu. A
demonstração continuou, mas o dano estava feito: se alguém podia intrometer-se
na frequência do telégrafo sem fio, daquele modo, evidentemente a coisa não era,
nem de longe, tão segura como Marconi dizia. E provavelmente era também possível
ouvir mensagens supostamente privadas.”
A
reação de John Ambrose Fleming, com traços do mesmo ultraje hiperbólico usados
até hoje pelos que se opõem ao lulz, ou que apenas estão no polo receptor
do lulz, foi descrita no momento
em que acontecia:
“O
professor, furibundo, escreveu imediatamente aos jornais, denunciando os
invasores malfeitores como “hooligans científicos”, pedindo ao mundo em geral
que encontrasse os culpados e lhe entregassem os nomes, e ele, o professor, em
pessoa – faria alguma coisa horrível contra os bandidos”.
Alguns
dias depois, o próprio culpado decidiu apresentar-se – chamava-se Nevil
Maskelyne, mágico por profissão e entusiasta da tecnologia sem fio, e um amigo
seu, não identificado. E Maskelyne explicou suas ações, em termos que ainda hoje
fazem perfeito sentido:
Jornal
da época publicou: “Não explicaram como conseguiram interferir na transmissão,
mas aparentemente se tratou de mandar correntes de alta tensão para a terra, o
que rapidamente mostrou aos “malfeitores” que, se quisessem, “poderiam ter
arruinado completamente a demonstração do Prof. Fleming”, o que, ao que parece
não era seu objetivo.
O
Sr. Maskelyne argumenta que o que fez foi justa manifestação de “fairplay”.
“Todos devem lembrar”, diz o Sr. Maskelyne, “que o Prof. Fleming é consultor
especialista empregado da empresa Marconi, e que outros sistemas de telegrafia
sem fio estarão sendo severamente prejudicados pelo que nos está sendo mostrado
como grande feito e feito exclusivo da empresa Marconi. Talvez as autoridades do
governo reajam com ideias mais abertas do que os propagandistas da empresa
Marconi gostariam que todos nós víssemos.”
De
1903 até hoje. A conversa de Moran da Interpol sobre “empresas privadas de
segurança como Symantec”.
Enquanto
eu escrevia aqui, @AnonymouSabu, de AntiSec, tuitou sobre a recente publicação
do código fonte da Symantec PCAnywhere, na página The Pirate
Bay:
[Box]
De: anonumouSabu The Real Sabu / resposta para
@777productions:
Vejam
o grande quadro: uma empresa de segurança vem mentindo aos seus consumidores nos
últimos 8 anos, e foram descobertos.
Em
quase 112 anos, mudaram, de fato, os argumentos de fundo da multidão de ativistas de
“merdas-e-risadinhas” que se escondem sob a marca LulzSec de
hackers?
A
internet como “rede confiável” de Moran jamais existiu. O que temos – o que sempre tivemos – são as empresas Marconi Company e sua turma, até hoje,
todas alegando os feitos e realizações mais incríveis, as “alegações mais
extravagantes”, e, ao mesmo tempo, simultaneamente, escondendo, ou ignorando,
vulnerabilidades potencialmente incapacitantes.
E,
dito mais uma vez: para que se
explorem vulnerabilidades, é preciso que, antes, as vulnerabilidades
existam.
Ou,
como Paul Marks escreve na revista
New Scientist:
“Nos
nossos dias, muitos hackers acabam por expor tecnologias cheias de falhas e
lapsos de segurança, exatamente como Maskelyne fez. Um pouco de transgressão
sempre teve suas virtudes”.
No
pouco mais de um século, entre Maskelyne e hoje, aconteceram mudanças. Não há
menção, nas matérias de 1903, de a Polícia ter invadido a casa de Maskelyne, ou
de ter apreendido seu transmissor de telégrafo sem fio; ele não foi preso nem
impedido de usar o código Morse enquanto aguardava
julgamento.
Segundo
a linha do tempo do Washington
Post sobre o governo dos EUA e a
ciber-segurança, The U.S. Government and
Cybersecurity, a
lei pioneira da moderna legislação sobre “cybercrimes” foi proposta pelo senador
Democrata de Connecticut, Abraham A. Ribicoff, em 1977. Ele apresentou a Lei
Federal para Proteção dos Sistemas de Computadores [Federal Computer Systems
Protection Act], “que visa a definir os “crimes de computador” e recomenda
penas para esses crimes. O projeto de lei não foi
aprovado”.
Depois
disso, a legislação que tenta regular a internet e seus usuários multiplicou-se
em todo o mundo. Políticos, encorajados por lobbyistas trabalhando em causa própria,
engoliram versões da “rede confiável que está fora de controle”, de
Moran. Mas a legislação que eles propõem só fará aumentar cada vez mais a
desconfiança, exigindo que se conservem arquivos de atividade, movimento que
pressupõe que um usuário da internet, mais dia menos dia, acabará fazendo algo
de ilegal.
O
pensamento simplório de muitos que se identificam como “Chapéus brancos” [orig.
“White hats”] ou “ProSec” [pró segurança] é eco do conceito de Moran, de “uma
rede confiável”. Implica que, se a
multidão de ativistas de “merdas-e-risadinhas” que se escondem sob a marca
LulzSec de hackers parar de criar o
problema, não será preciso ampliar a legislação.
Tenho
assistido a essa tragédia grega que se viu ao longo do ano passado e,
francamente, não vejo qualquer resultado que interesse a alguém. Dá sempre nos
mesmos resultados, e nenhum, me parece, é bom resultado:
·
· AntiSec
vai ficando cada vez mais ousado, atacando cada vez mais frequentemente, à
medida em que ganha mais poder/sinergia com mais seguidores e mais gente
querendo ajudar.
·
· O
governo continua a tentar prender os jogadores. Alguns serão presos, e haverá
julgamentos.
·
· Os
julgamentos farão aumentar a indignação, e o pessoal de AntiSec atacará alvos
cada vez mais selecionados para humilhar e comprometer os argumentos da acusação
das autoridades contra os hackers.
·
· Serão
aprovadas leis que restringirão cada vez mais a internet e a privacidade que
todos temos o direito de ter.
Mas @krypt3ia, e outros, nessas análises
redutoras de “causas e efeitos”, não conseguem explicar adequadamente o aumento
exponencial desse tipo de legislação
em todo o mundo.
AntiSec
(e LulzSec, antes), até muito recentemente, foi movimento apoiado
predominantemente por, e constituído em, um número relativamente pequeno de
países. Embora sempre tenha havido grande número de participantes, a maioria das
ações eram, basicamente, contra alvos nos EUA e na Grã-Bretanha, com algumas
ações também dirigidas para o norte da Europa, Austrália, Itália, Turquia e
Espanha.
O
crescimento no número de Anonymous e
de ações de hacking nas últimas semanas, em vários países, só
aconteceu em
resposta a propostas de leis (como
a ACTA) ou a
ações policiais pelo mundo (como os ataques e as prisões de pessoas ligadas à
página MegaUpload). A
ideia de legislar cada vez mais difundiu-se por causa de uma posição ideológica
adotada, primariamente, pelos EUA, e difundida por causa da influência que os
EUA exercem sobre seus parceiros comerciais.
É
também difícil de entender como violações da liberdade de expressão nos termos
das leis ainda vigentes – como a situação, na Grã-Bretanha, de Paul Chambers,
que luta para não ser condenado à prisão por ter escrito, numa mensagem pelo Twitter, de brincadeira, que “vou
explodir esse aeroporto coberto de neve, se não reabrir logo”, porque queria
viajar para ver a namorada – possam ser atribuídas a hack-ativistas.
A
decisão de começar a usar nessa direção a Lei de Comunicações de 2003 [Communications Act] é, outra vez,
decisão ideológica e – pode-se argumentar, se se considera a quantidade de
tuites semelhantes que não levaram ninguém à cadeia na Grã-Bretanha –
completamente arbitrária. (Chambers espera o resultado da apelação que
encaminhou à Suprema Corte, contra sua condenação. Acompanhe nossas publicações.
Daremos notícias.)
Se
AntiSec tiver efeito significativo sobre a legislação, é possível que seja
efeito muito distante do que muitos “Chapéus Brancos” da pró-segurança esperam.
Molly Sauter, pesquisadora do Centro de Mídias Sociais do MIT [Center for Civic Media at the Massachusetts
Institute of Technology], é citada num artigo publicado em CBC Canadá
hoje:
Várias
pessoas nos EUA e Grã-Bretanha foram presas, acusadas de participar nos ataques
DDoS relacionados a WikiLeaks, contra a empresa PayPal e empresas de cartões de
crédito, o que pode levar à discussão sobre leis para computadores que muitos
observadores, inclusive Sauter, consideram claramente
repressivas.
Sauter
observou que manifestantes presos em protestos nos EUA, como nos movimentos
Occupy, raramente são acusados formalmente. Mas um ataque DDoS politicamente
motivado é tratado como crime grave, como se fosse crime de chantagem, para
efeitos de extorsão.
Sauter
culpa a linguagem vaga em que está redigida a Lei contra Fraudes e Abusos por
Computador [orig. Computer Fraud and Abuse Act], a qual, diz ela, levou os
acusadores a “excessos” nos casos de ataques DDoS.
“Estamos
vendo atos de ativismo digital, tratados e processados como se fossem crimes de
computador, não como atos de manifestação de discurso político. É assustador e,
na minha opinião, erro inacreditável de interpretação” – disse
ela.
A
pesquisadora disse também que a Alemanha já reconheceu, no seu sistema
judiciário, que ataques DDoS podem ser forma válida de protesto
político.
“Mas
ainda não vimos essa jurisprudência fixada nos EUA” – disse ela. “Tenho alguma
esperança de que venha a acontecer, mas pouca esperança, e nada de
imediato”.
Também
não espero nada para já, mas quando se recorda a longa história, de mais de um
século, da multidão de
ativistas hackers de “merdas-e-risadinhas”, acho que o
melhor ainda está por acontecer.
Links Citados:
Nota
dos tradutores