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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Kim Dotcom: “A Internet é mais poderosa que o governo Obama”

10/6/2013, Ian Steadman, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido no Bar do Kudum na Vila Vudu: Pelo menos, já se começa a poder ver, bem claramente, que a ESPIONARIA é filha da PRIVATARIA!


Kim Dotcom
Kim Dotcom  teve uma ideia – fazer a União Europeia criar uma alternativa para o Google para uso de europeus e outros hoje enfurecidos, depois que se descobriu que a Agência Nacional de Segurança dos EUA, com o programa PRISM, espiona também cidadãos norte-americanos.

Muito ativo no Twitter durante todo o fim de semana, imediatamente depois das revelações de Edward Snowden, e sempre criticando o presidente Barack Obama dos EUA e a espionagem norte-americana em geral, o fundador do Megaupload sugere que se crie “um programa de incentivo/financiamento para criar uma ferramenta de busca, que dispute o mercado (principalmente o mercado europeu) com a empresa Google”.

“Dear @BarackObama, this is a fight you cannot win. The Internet is more powerful than your government. We want #InternetFreedom”.
[(traduzido) “Caro @Barack Obama, essa é luta que você não pode vencer. A Internet é mais poderosa que seu governo; Queremos #LiberdadenaInternet”].

Tim Berners-Lee
Dotcom cita uma entrevista publicada no Telegraph, com Tim Berners-Lee , que dizia que:

(...) “as empresas que mantém a Internet rodando” devem ser conectadas, mas “devem manter distância preventiva” de todos os governos; e que é vital que as plataformas da rede permaneçam abertas, de tal modo que, se surgirem monopólios (como aconteceu nos anos 90s, com o browser da Netscape) ainda possa haver concorrência entre vários fornecedores desse serviço.

Mikko Hipponem
O mesmo desafio – de que a União Europeia crie concorrentes para as gigantes norte-americanas de tecnologia – foi lançado também por Mikko Hypponem de F-Secure, em entrevista para a Reuters. Para Hypponem, essa seria “a solução de longo prazo”, que nos tornaria realmente independentes, contra “a vigilância produzida em ritmo de atacado pelas agências norte-americanas de segurança”.

Além disso, depois que o homem que vazou as informações e os documentos – Edward Snowden, 29 anos, empregado da empresa Booz-Allen Hamilton, contratada da Agência Nacional de Segurança dos EUA – identificou-se, em matéria publicada pelo Guardian dia 9/6, Kim Dotcom conclamou o governo de Hong Kong (onde Snowden está hoje, escondido) a dar-lhe total proteção. Tuitou:

Edward Snowden
“Hong Kong! É a oportunidade para vocês se fazerem lembrados com local onde se pratica o bem. Deem asilo e proteção a Edward Snowden!”

Kim Dotcom também escreveu que:

“Tentem expulsar Ed Snowden & conhecerão a Primavera Árabe de vocês. É fim de festa para o seu partido da espionaria. NÓS PROTEGEREMOS NOSSO HERÓI DA INTERNET”.

As revelações sobre NSA-Prism aparecem pouco depois que o país de adoção de Dotcom, a Nova Zelândia, enfrentou sua própria crise de espionagem afinal descoberta, quando se divulgou que o Gabinete Oficial de Segurança das Comunicações [orig. Government Communications Security Bureau (GCSB)], equivalente neozelandês da Agência Nacional de Segurança dos EUA – espionara ilegalmente o próprio Dotcom, durante as investigações feita em sua empresa, a Megaupload.

Como a Agência Nacional de Segurança dos EUA, o GCSB também não poderia espionar cidadãos neozelandeses – mas o primeiro-ministro John Key quer modificar a legislação, introduzindo exceções. Dotcom está em empenhada campanha contra as mudanças na legislação, e tem insistido que os neozelandeses reajam e se manifestem, pressionando os deputados. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Antissegurança - AntiSec: Mais que “Merdas & Risadinhas”


8/2/2012, Anonymous, AnonNep
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para ler mais artigos sobre os Anonymous na redecastorphoto basta inserir o termo Anonymous na barra  Pesquisar este blog e clicar Enter. Todos os artigos com esta etiqueta aparecerão na tela.


@OxbloodRuffin, autodescrito “hackerativista, escritor, flaneur, membro do grupo pioneiro de ativistas de internet “Cult Of The Dead Cow” [Culto da Vaca Morta], não é muito grande fã do movimento Anonymous, mas volta e meia oferece conteúdo (ou comentário) interessante sobre eles pelo Twitter.

Um link recente para artigo da revista Forbes article foi tipicamente negativo, mas incluía citação intrigante de Michael Moran, diretor assistente para segurança cibernética da Interpol:

“… a multidão de ativistas de “merdas-e-risadinhas” que se escondem sob a marca LulzSec de hackers, de fato vivem provocando a lei. São difíceis de rastrear. Não é fácil localizar sua presença física. E as unidades policiais, de Moscou a São Paulo e a Mountain View, Califórnia, não têm recursos suficientes para derrotá-los.”

E continua:

“Não conheço uma única unidade policial que não esteja dedicando 110% de sua capacidade a esse caso (...). Estão sobrecarregadas. Não sei de uma que tenha os recursos necessários. E é coisa muito complexa. É preciso recorrer a empresas de segurança privada, como a Symantec. Não é fácil para a lei, pôr a mão nesses pirados cabeludos. A segurança online é a coisa mais importante. Lutamos por isso. A internet foi criada como rede confiável. Estamos tentando preservar essa confiabilidade, remendar o que, afinal de contas, é uma rede confiável que está fora de controle”.

Moran de fato deveria dizer que Lulzsec, AntiSec e grupos relacionados não poderiam operar, se a internet, a “rede confiável”, já não tivesse sido destroçada pelas empresas privadas de “segurança” como Symantec, à qual Moran recorre em busca de socorro.

Primeiro, porque não há como evitar vulnerabilidades a serem exploradas. Qualquer rápida gugleada de “AntiSec” mostrará exemplos e mais exemplos de informações que jamais teriam sido obtidas, se as ‘empresas privadas de segurança’ fizessem o trabalho que são pagas para fazer. Moran parece sugerir, isso sim, é que estão “tentando preservar” que “empresas privadas de segurança como Symantec” continuem a falhar; e que os consumidores, sejam indivíduos ou empresas, continuem a ser otários. E isso por acaso seria uma internet “como rede confiável”?

Além disso, como o velho papo conservador dos anos 1950s idealizados, que só existiram em anúncios de publicidade, Moran dizer que a internet “está fora de controle” implica que, em algum ponto indefinido do tempo, ela esteve sob controle. Ou, pelo menos, sob controle de um ponto de vista policial.


Dia 27/12/2011, a revista New Scientist publicou Dot-dash-diss: The gentleman hacker’s 1903 lulz. Como o título já diz, a primeira “multidão de ativistas de “merdas-e-risadinhas” que se esconde sob a marca LulzSec de hackers” já estava ativamente distribuindo o lulz  [1], há mais de um século. 


Aconteceu durante uma demonstração pública encenada pelo inventor Guglielmo Marconi, do telégrafo sem fio. Marconi, na Cornualha, devia enviar mensagens em código Morse para o médico John Ambrose Fleming, posto ante um público ansioso na sala de conferências do Royal Institute em Londres. A demonstração foi montada para divulgar a tecnologia e provar que podia ser usada para enviar mensagens a longas distâncias, sem fios (nesse exemplo, uns 400 km). Mas antes de o evento começar oficialmente, um hacker enviou suas próprias mensagens:

“…só se ouvia uma mesma palavra, repetida e repetida: “Ratos”. Conferiram-se os sinais numa impressora de sinais em Morse, e a palavra foi confirmada. Depois, a mensagem ficou mais pessoal, zombando de Marconi: “Há um jovem italiano, que está enganando direitinho o público” – zombava alguém. Depois, algumas citações pertinentes, mas rudes, de frases de Shakespeare.

A mensagem calou-se momentos antes da chegada dos sinais de Marconi, de Poldhu. A demonstração continuou, mas o dano estava feito: se alguém podia intrometer-se na frequência do telégrafo sem fio, daquele modo, evidentemente a coisa não era, nem de longe, tão segura como Marconi dizia. E provavelmente era também possível ouvir mensagens supostamente privadas.”

A reação de John Ambrose Fleming, com traços do mesmo ultraje hiperbólico usados até hoje pelos que se opõem ao lulz, ou que apenas estão no polo receptor do lulz, foi descrita no momento em que acontecia:

“O professor, furibundo, escreveu imediatamente aos jornais, denunciando os invasores malfeitores como “hooligans científicos”, pedindo ao mundo em geral que encontrasse os culpados e lhe entregassem os nomes, e ele, o professor, em pessoa – faria alguma coisa horrível contra os bandidos”.

Alguns dias depois, o próprio culpado decidiu apresentar-se – chamava-se Nevil Maskelyne, mágico por profissão e entusiasta da tecnologia sem fio, e um amigo seu, não identificado. E Maskelyne explicou suas ações, em termos que ainda hoje fazem perfeito sentido:


Jornal da época publicou: “Não explicaram como conseguiram interferir na transmissão, mas aparentemente se tratou de mandar correntes de alta tensão para a terra, o que rapidamente mostrou aos “malfeitores” que, se quisessem, “poderiam ter arruinado completamente a demonstração do Prof. Fleming”, o que, ao que parece não era seu objetivo.

O Sr. Maskelyne argumenta que o que fez foi justa manifestação de “fairplay”. “Todos devem lembrar”, diz o Sr. Maskelyne, “que o Prof. Fleming é consultor especialista empregado da empresa Marconi, e que outros sistemas de telegrafia sem fio estarão sendo severamente prejudicados pelo que nos está sendo mostrado como grande feito e feito exclusivo da empresa Marconi. Talvez as autoridades do governo reajam com ideias mais abertas do que os propagandistas da empresa Marconi gostariam que todos nós víssemos.”

De 1903 até hoje. A conversa de Moran da Interpol sobre “empresas privadas de segurança como Symantec”. 

Enquanto eu escrevia aqui, @AnonymouSabu, de AntiSec, tuitou sobre a recente publicação do código fonte da Symantec PCAnywhere, na página The Pirate Bay:

[Box] De: anonumouSabu The Real Sabu / resposta para @777productions:

Vejam o grande quadro: uma empresa de segurança vem mentindo aos seus consumidores nos últimos 8 anos, e foram descobertos.

Em quase 112 anos, mudaram, de fato, os argumentos de fundo da multidão de ativistas de “merdas-e-risadinhas” que se escondem sob a marca LulzSec de hackers? 

A internet como “rede confiável” de Moran jamais existiu. O que temos – o que sempre tivemos – são as empresas Marconi Company e sua turma, até hoje, todas alegando os feitos e realizações mais incríveis, as “alegações mais extravagantes”, e, ao mesmo tempo, simultaneamente, escondendo, ou ignorando, vulnerabilidades potencialmente incapacitantes.
E, dito mais uma vez: para que se explorem vulnerabilidades, é preciso que, antes, as vulnerabilidades existam.

Ou, como Paul Marks escreve na revista New Scientist:

“Nos nossos dias, muitos hackers acabam por expor tecnologias cheias de falhas e lapsos de segurança, exatamente como Maskelyne fez. Um pouco de transgressão sempre teve suas virtudes”.

No pouco mais de um século, entre Maskelyne e hoje, aconteceram mudanças. Não há menção, nas matérias de 1903, de a Polícia ter invadido a casa de Maskelyne, ou de ter apreendido seu transmissor de telégrafo sem fio; ele não foi preso nem impedido de usar o código Morse enquanto aguardava julgamento.

Segundo a linha do tempo do Washington Post sobre o governo dos EUA e a ciber-segurança, The U.S. Government and Cybersecurity, a lei pioneira da moderna legislação sobre “cybercrimes” foi proposta pelo senador Democrata de Connecticut, Abraham A. Ribicoff, em 1977. Ele apresentou a Lei Federal para Proteção dos Sistemas de Computadores [Federal Computer Systems Protection Act], “que visa a definir os “crimes de computador” e recomenda penas para esses crimes. O projeto de lei não foi aprovado”.

Depois disso, a legislação que tenta regular a internet e seus usuários multiplicou-se em todo o mundo. Políticos, encorajados por lobbyistas trabalhando em causa própria, engoliram versões da “rede confiável que está fora de controle”, de Moran. Mas a legislação que eles propõem só fará aumentar cada vez mais a desconfiança, exigindo que se conservem arquivos de atividade, movimento que pressupõe que um usuário da internet, mais dia menos dia, acabará fazendo algo de ilegal.

O pensamento simplório de muitos que se identificam como “Chapéus brancos” [orig. “White hats”] ou “ProSec” [pró segurança] é eco do conceito de Moran, de “uma rede confiável”. Implica que, se a multidão de ativistas de “merdas-e-risadinhas” que se escondem sob a marca LulzSec de hackers parar de criar o problema, não será preciso ampliar a legislação.

Postado recente de @krypt3ia - Game Theory, Anonymous Causality, and 2012 [Teoria dos jogos, Anonymous e 2012] – ilustra o risco desse tipo de mentalidade:

Tenho assistido a essa tragédia grega que se viu ao longo do ano passado e, francamente, não vejo qualquer resultado que interesse a alguém. Dá sempre nos mesmos resultados, e nenhum, me parece, é bom resultado:
·        
·        AntiSec vai ficando cada vez mais ousado, atacando cada vez mais frequentemente, à medida em que ganha mais poder/sinergia com mais seguidores e mais gente querendo ajudar.
·        
·        O governo continua a tentar prender os jogadores. Alguns serão presos, e haverá julgamentos.
·        
·        Os julgamentos farão aumentar a indignação, e o pessoal de AntiSec atacará alvos cada vez mais selecionados para humilhar e comprometer os argumentos da acusação das autoridades contra os hackers.
·        
·        Serão aprovadas leis que restringirão cada vez mais a internet e a privacidade que todos temos o direito de ter.

Mas @krypt3ia, e outros, nessas análises redutoras de “causas e efeitos”, não conseguem explicar adequadamente o aumento exponencial desse tipo de legislação em todo o mundo.  

AntiSec (e LulzSec, antes), até muito recentemente, foi movimento apoiado predominantemente por, e constituído em, um número relativamente pequeno de países. Embora sempre tenha havido grande número de participantes, a maioria das ações eram, basicamente, contra alvos nos EUA e na Grã-Bretanha, com algumas ações também dirigidas para o norte da Europa, Austrália, Itália, Turquia e Espanha. 

O crescimento no número de Anonymous e de ações de hacking nas últimas semanas, em vários países, só aconteceu em resposta a propostas de leis (como a ACTA) ou a ações policiais pelo mundo (como os ataques e as prisões de pessoas ligadas à página MegaUpload). A ideia de legislar cada vez mais difundiu-se por causa de uma posição ideológica adotada, primariamente, pelos EUA, e difundida por causa da influência que os EUA exercem sobre seus parceiros comerciais.

É também difícil de entender como violações da liberdade de expressão nos termos das leis ainda vigentes – como a situação, na Grã-Bretanha, de Paul Chambers, que luta para não ser condenado à prisão por ter escrito, numa mensagem pelo Twitter, de brincadeira, que “vou explodir esse aeroporto coberto de neve, se não reabrir logo”, porque queria viajar para ver a namorada – possam ser atribuídas a hack-ativistas. 

A decisão de começar a usar nessa direção a Lei de Comunicações de 2003 [Communications Act] é, outra vez, decisão ideológica e – pode-se argumentar, se se considera a quantidade de tuites semelhantes que não levaram ninguém à cadeia na Grã-Bretanha – completamente arbitrária. (Chambers espera o resultado da apelação que encaminhou à Suprema Corte, contra sua condenação. Acompanhe nossas publicações. Daremos notícias.) 

Se AntiSec tiver efeito significativo sobre a legislação, é possível que seja efeito muito distante do que muitos “Chapéus Brancos” da pró-segurança esperam. Molly Sauter, pesquisadora do Centro de Mídias Sociais do MIT [Center for Civic Media at the Massachusetts Institute of Technology], é citada num artigo publicado em CBC Canadá hoje:

Várias pessoas nos EUA e Grã-Bretanha foram presas, acusadas de participar nos ataques DDoS relacionados a WikiLeaks, contra a empresa PayPal e empresas de cartões de crédito, o que pode levar à discussão sobre leis para computadores que muitos observadores, inclusive Sauter, consideram claramente repressivas.

Sauter observou que manifestantes presos em protestos nos EUA, como nos movimentos Occupy, raramente são acusados formalmente. Mas um ataque DDoS politicamente motivado é tratado como crime grave, como se fosse crime de chantagem, para efeitos de extorsão.

Sauter culpa a linguagem vaga em que está redigida a Lei contra Fraudes e Abusos por Computador [orig. Computer Fraud and Abuse Act], a qual, diz ela, levou os acusadores a “excessos” nos casos de ataques DDoS.

“Estamos vendo atos de ativismo digital, tratados e processados como se fossem crimes de computador, não como atos de manifestação de discurso político. É assustador e, na minha opinião, erro inacreditável de interpretação” – disse ela.

A pesquisadora disse também que a Alemanha já reconheceu, no seu sistema judiciário, que ataques DDoS podem ser forma válida de protesto político.

“Mas ainda não vimos essa jurisprudência fixada nos EUA” – disse ela. “Tenho alguma esperança de que venha a acontecer, mas pouca esperança, e nada de imediato”.

Também não espero nada para já, mas quando se recorda a longa história, de mais de um século, da multidão de ativistas hackers de “merdas-e-risadinhas”, acho que o melhor ainda está por acontecer.

Links Citados:





Nota dos tradutores
[1] Sobre “lulz”, ver 2/1/2012, “Anonymous 101: Introdução ao “Lulz, Quinn Norton, Wired (em português) 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Questão ética divide os “Anonymous”


Muitos participaram, sem saber, do ataque ao Departamento de Justiça 

Quinn Norton


20/1/2011, Quinn Norton, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Depois do monumental ataque unificado online de ontem, 5ª-feira, contra as leisSOPAe PIPA”, sabe-se hoje que o dia marcou outra data para a história do movimento: pela primeira vez os Anonymous enganaram direta e publicamente a boa fé pública.

Uma versão do software voluntary botnet conhecido como LOIC (Canhão de Íons de Baixa Órbita) criação dos Anonymous foi modificada, e o uso do software deixou de ser completamente voluntário, de modo que passantes, visitantes, jornalistas e até Anons que não apoiavam as táticas dos ataques DDoS contra o Departamento de Justiça dos EUA acabaram também participando daqueles ataques. Nada sugere que o “golpe” tenha sido decisivo para o sucesso da ação que derrubou páginas como justice.gov, RIAA.com e MPAA.com, mas nem todos os Anons estão satisfeitos com a ideia de manipular passantes para forçá-los a uma ação potencialmente ilegal.

Máscara de Guy Fawkes - Símbolo do Anonymous
O “truque” consistia em ligar na mesma rede todos que clicassem num link reduzido dos serviços de mídia social, em busca de informação sobre o andamento da #opmegaupload, de retaliação contra o Departamento de Justiça dos EUA, que fechara um grande site, muito popular, de partilhamento de arquivos, Megaupload. Em vez de informação de atualização, os que clicassem ali recebiam uma versão Javascript do LOIC que já estava disparando pacotes na direção das páginas visadas no momento em que a página aparecia carregada.

Vários Anons, que falaram à revista Wired sob a condição de não serem identificados, manifestaram-se frustrados ao saber que uma tática que, para eles, seria o equivalente moderno de uma manifestação de rua, em que as pessoas sentam-se na rua e impedem o acesso a algum lugar (os ataques DDoS não causam nenhum dano posterior às páginas sobrecarregadas) tenha sido eticamente corrompida na nova versão.

“Enganar usuários que de nada suspeitam é horrível” – disse um dos Anons, em conversa com Wired, num chat online. “Temos de lutar a favor do usuário, não enganá-lo e criar, para ele, o risco de acabar preso”. 

Como parte da reação irada dos Anonymous à prisão dos administradores da página Megaupload, milhares de pessoas decidiram voluntariamente dirigir seus LOIC para páginas como FBI.gov, DOJ.gov, MPAA.org, BMI.org, RIAA.org e copyright.gov, parte de um esforço que derrubou essas páginas e as manteve fora do ar por longos períodos do dia. A ferramenta bombardeia uma página-alvo com muito tráfego, para sobrecarregar os servidores, de modo que ninguém consiga entrar na página-alvo.

Aviso do Depto. de Justiça sobre o MegaUpload
Se um número suficientemente grande de Anons miram a ferramenta para o alvo proposto, os Anonymous rapidamente encontram caminho que os leva rapidamente à mídia, sem causar qualquer dano permanente à página-alvo. Mas a ferramenta não encobre os rastros dos usuários, e a página-alvo pode facilmente descobrir de onde está vindo o ataque.

A versão “envenenada” da ferramenta apareceu durante a operação, e nem todos os que clicaram no link desejavam participar do ataque. Entre esses, por exemplo, está Adrien Chen, de Gawker, que protestou contra o truque dos Anons [1]

O LOIC começou como um software baixável, mas uma versão in-browser Javascript do LOIC já circulava em 2010, na Operation Payback [Operação Dar o Troco].

A nova versão de “disparo automático” parece ter sido desenvolvida como parte do esforço do movimento Occupy BMV (“Ocupemos La Bolsa Mexicana de Valores”) contra o Secretário do Tesouro do México [2], vários dias antes da prisão dos administradores de MegaUpload. A adaptação não parece ser muito sofisticada, e usa um servidor proxy da era dos 1990s chamado anonymouse.org que não esconde o rastro das solicitações do Javascript, razão pela qual não ajuda os usuários a apagar os próprios rastros. (Várias pessoas estão sendo processadas acusadas de usar o LOIC para participar do ataque DDoS de 2010 contra Paypal, parte de uma campanha de retaliação contra o processador de pagamentos que cortou o recebimento de doações para WikiLeaks.)

No início do protesto contra SOPA/PIPA [3] e as prisões em MegaUpload [4] , o LOIC já “envenenado” foi novamente modificado para disparar automaticamente na direção da página do Departamente de Defesa dos EUA e postado numa página Paste.html. Um link  reduzido, semiescondido, foi postado várias vezes no Twitter, principalmente em contas em língua espanhola, e um número desconhecido de pessoas clicaram nele. Sem saber, passaram a disparar tráfego automaticamente, para sobrecarregar, com um ataque DDoS, a página do DoJ. 

Por mais que a nova tática tenha perturbado muita gente, nada sugere que tenha feito grande diferença no nível total do aumento de tráfego dirigido contra a página do Departamento de Justiça. O JS LOIC não é ferramenta poderosa para sobrecarregar servidores, e a página anonymouse.org nunca chegou a cair, embora fosse atingida cada vez que alguém usou o LOIC “envenenado” contra a página do Depto. de Justiça ou contra qualquer outra página-alvo.

Apesar dos rastros que deixa e de ser questionável do ponto de vista ético, essa versão ‘'envenenada'’ pode tornar mais difícil, para o Estado, provar, nos tribunais, que alguém que tenha usado o JS LOIC usou-o intencional e deliberadamente.



Notas dos tradutores

[1] The Evil New Tactic Behind Anonymous’ Massive Megaupload Revenge Attack




A vingança dos “hackers” do “Anonymous”


Entenda a investigação que levou ao fechamento do MegaUpload - FBI fechou serviço de compartilhamento de arquivos ontem (19/01). Em represália, hackers do Anonymous derrubaram diversos sites




O governo dos Estados Unidos fechou ontem (19/01) o site de compartilhamento de arquivos MegaUpload, acusando o serviço de facilitar a troca de conteúdo protegido por direitos autorais e prendendo seus fundadores e funcionários por incentivar a pirataria.


Apesar do serviço usar servidores nos Estados Unidos, os indiciados pelo FBI não são residentes dos EUA. Em um release disponibilizado pela agência norte-americana, são citados os nomes de Kim Schmitz, o fundador do serviço, que é morador de Hong Kong e Nova Zelândia; Finn Batato, gerente de marketing que mora na Alemanha; Julius Bencko, designer que mora na Eslováquia; Sven Echternach, gerente de negócios residente na Alemanha; Andrus Nomm, programador da Estônia; e Bram van der Kolk, responsável pela rede do MegaUpload que mora também na Nova Zelândia.

Os três que moram na Nova Zelândia foram presos ontem mesmo pela polícia neozelandeza. O site está sendo acusado de dever mais de US$ 500 milhões para detentores de direitos autorais. Os fundadores se defendem afirmando que sempre retiram material ilegal quando é feito um pedido por parte das empresas detentoras do conteúdo.

Investigação

Segundo o GigaOM, o MegaUpload era hospedado principalmente na Virginia, nos Estados Unidos, em um local com mais de 1000 servidores que tinham mais de 25 petabytes de conteúdo enviado pelos usuários do serviço. A Holanda sediava outros mais de 700 servidores que hospedavam os arquivos do site.

Além de enviar arquivos, os usuários do MegaUpload também pagaram mais de US$ 110 milhões para os fundadores via PayPal. O FBI e autoridades internacionais encontraram mais de 60 contas bancárias espalhadas pelo mundo e vários cadastros no PayPal em nome do serviço. Em nome dos fundadores do MegaUpload também existem cerca de 30 carros e motocicletas, incluindo modelos da Mercedes-Benz com placas como GUILTY (culpado, em inglês), MAFIA, HACKER, GOOD (bom) e EVIL (mal).

Segundo arquivos do FBI, os próprios funcionários do MegaUpload se aproveitavam do conteúdo enviado pelos usuários para baixar arquivos ilegalmente. E-mails trocados entre executivos do serviço mostram discussões sobre cópias de diversos álbuns e episódios de séries como The Sopranos baixados a partir de links colocados por membros do site. Em conversas, eles chegaram a afirmar que possuem "um negócio divertido... somos piratas dos tempos modernos."

Anonymous

Em represália ao fechamento do serviço, e também como forma de protesto ao SOPA e ao PIPA, o grupo hacker Anonymous fez a sua maior ação. Em poucas horas, eles derrubaram os sites da RIAA (Record Industry Association of America), da MPAA (Motion Picture Association of America), da Universal Music (responsável pela acusação de pirataria do Megaupload), do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, do US Copyright Office, da Warner Music Group e até mesmo o do FBI. Hoje (20/01), 2 alvos já caíram: a loja da MGM e do Ministério da Justiça da Nova Zelândia.

Durante os ataques do grupo, o tráfego na internet chegou a ficar 24% superior ao normal para o horário.

Para saber mais:


Enviado pelo sítio Olhar Digital