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terça-feira, 19 de março de 2013

Hamid Karzai, a realidade e o que lhe passa pela cabeça


18/3/2013, MK Bhadrakumar*, Russia & Indian Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O fluxo e refluxo de tensões entre Cabul-Washington quase tinham perdido sua originalidade nos três últimos anos, mas as tensões de repente recomeçaram aos borbotões.

Hamid Karzai: O “déficit de confiança” entre Cabul e Washington está no limite

O que pensam de um lado o Presidente afegão, Hamid Karzai e de outro, os norte-americanos, são realidades que nunca, de fato, acomodaram-se muito amistosamente durante os últimos três anos a partir de 2009, quando houve eleições presidenciais no Afeganistão. Os EUA queriam uma “mudança de regime” em Kabul em 2009; Karzai não apenas não via com simpatia o projeto de deixar-se jogar sob o trem como, também, estava decidido a permanecer na presidência por mais quatro anos – direito que a Constituição afegã lhe assegurava. Confiança traída e quebrada nesse nível – e relacionada a questão existencialmente importante – dificilmente se deixa reconquistar.

Há um “déficit” de confiança entre Kabul e Washington. Essa é uma explicação caridosa que se pode dar à recente “avançada” [orig. surge] na rixa de Karzai com os EUA. Fator que em vários sentidos complica as coisas hoje é que o interlocutor chave que finalmente conseguiu apaziguar as sensibilidades de Karzai no inverno de 2008 e chegou a um acordo que resultou na sua subsequente “vitória” eleitoral foi John Kerry, hoje Secretário de Estado dos EUA.

John Kerry
Não se conhecem os exatos termos daquele acordo, mas segundo o que Kerry revelou nas sabatinas no Senado dos EUA antes de confirmado no posto de Secretário de Estado, Karzai teria prometido solenemente a Kerry que não tentaria um terceiro mandato como presidente. Mas Kerry, no seu depoimento, insistiu em tom de promessa, que os EUA estão determinados a trabalhar pela substituição de Karzai em Kabul; e que não se cogita de aliviar, nesse esforço. O que não se entende é por que Kerry optaria por fazer essa declaração-promessa veemente sob a luz dos maiores holofotes do mundo, se fosse totalmente desnecessária (Karzai diz sempre, onde e quando perguntado, que não tem planos de concorrer às próximas eleições presidenciais, em 2014).

Assim também Kerry não incluiu Kabul no primeiro tour internacional como Secretário de Estado, embora o Afeganistão seja, e como tal permanecerá, uma das principais questões de política externa do segundo mandato do Presidente Barack Obama.

O vai e vem da maré das tensões entre Kabul e Washington já quase nem parecia novidade durante os três últimos anos, mas as tensões começaram a acumular-se. Está começando uma nova estação de observação-de-Karzai, entre observadores ocidentais, que tentam adivinhar e interpretar o modo como sua cabeça estaria operando e quais seriam suas intenções, quando deu alguns passos bem duros, recentemente, bem visivelmente orientados para fazer-ver a Washington onde plantar suas batatas, porque ele, Karzai, seria o manda-chuva no Hindu Kush.

Karzai não compareceu à cerimônia formal, em Kabul, mês passado, quando o novo comandante norte-americano, o general Joseph Dunford, foi empossado. E não ficou nisso. Seu primeiro “contato” oficial com Dunford foi convocá-lo, dias depois, ao palácio presidencial e aplicar ao general quatro-estrelas condecorado um, digamos, sabão, à vista de todos, sobre a sensível questão das mortes de civis afegãos provocadas por forças norte-americanas. Desde então, os militares dos EUA vêm agindo de modo estranho.

Soldados não gostam de ser mandados sair. Karzai mandou que as Forças Especiais dos EUA saíssem da província de Wardak até 10 de março. Mas Dunford (até agora) ainda não saiu – e já se passaram dez dias. Outra vez, Karzai anunciou a retomada formal da prisão da base aérea de Bagram e das centenas de prisioneiros políticos afegãos que permaneceram anos sob custódia dos EUA, enquanto Dunford inventa precondições de último minuto, insistindo que os militares norte-americanos mantenham o privilégio de decidir se os prisioneiros poderiam ser libertados.

Joseph Dunford no Afeganistão
Não há dúvida que, tenha sido essa a intenção de Dunford, ou não, Karzai fez triste figura no bazaar político afegão. Mas Karzai não se deixaria abater. Na véspera da chegada a Kabul do novo Secretário da Defesa dos EUA, Chuck Hagel para seu “tour de familiarização”, recentemente, Karzai insinuou que os americanos ter-se-iam aliado aos Talibã para prolongar a presença militar estrangeira no Afeganistão. Hagel encaixou o míssil de Karzai, mas Dunford respondeu ao golpe: pôs as forças militares dos EUA em estado de prontidão, porque, como disse, os “comentários incendiários” de Karzai criavam riscos adicionais e ameaçavam a segurança dos soldados norte-americanos no Afeganistão.

A rixa respingou inevitavelmente para as ruas nesse fim de semana, com grande manifestação pública em Kabul que exigia o fim da ocupação ocidental e a retirada imediata, do Afeganistão, de todos os soldados norte-americanos. Mais significativamente, o Conselho Nacional Afegão Ulema, corpo de intelectuais religiosos (que aparecem na folha de pagamento do Estado) criado pelo governo e que representam todos os clérigos islâmicos do país, distribuiu declaração ácida, alertando que “os infiéis” norte-americanos seriam tratados como invasores, a menos que o governo Obama cumprisse as exigências de Karzai sobre a prisão em Bagram e as Forças Especiais em Wardak.

Que ninguém se engane: aqueles clérigos, que vivem sob patrocínio governamental, seguem a política de Karzai. Portanto, a única parte realmente surpreendente é o tom da declaração. Falaram de “infiéis” (kafirs) em referência aos EUA e aliados, o que é sinal claro que a relação entre Karzai e os norte-americanos atingiu o fundo do poço. Os clérigos disseram, com todas as letras, que:

Alá jamais permitiu que muçulmanos se submetessem a governo e soberania de infiéis.

A declaração diz também que as exigências de Karzai (sobre a prisão em Bagran, a retirada da província de Wardak etc.) “são a voz da nação afegã muçulmana”, falando pelos interesses da “soberania e da independência de nosso país”. Alertava que a desconsideração, pelos EUA, das exigências de Karzai, seria vista como “ocupação do Afeganistão, e os norte-americanos serão responsabilizados pelas consequências”.

Claro que as “consequências” ameaçadoras obrigarão Dunford a tentar adivinhar qual será o próximo movimento de Karzai. Não há meio pelo qual Karzai possa convocar o povo a pegar em armas contra os EUA e seus aliados. Mas uma alternativa, de fato mais danosa para os interesses dos EUA, pode ser algum tipo de “não cooperação” à maneira de Gandhi – que provocaria grave tropeço nos planos de retirada das tropas da OTAN. Karzai também é mestre na arte de manobrar situação de perigo, até os limites mais extremos da tolerância ou da segurança, para garantir-se vantagens máximas.

A grande pergunta é o que acontece agora com a agenda norte-americana de estabelecer bases militares no Afeganistão. Os oficiais afegãos enviam sinais confusos aos norte-americanos, no sentido de que Karzai estaria apenas se vangloriando, na esperança de surfar uma onda de nacionalismo, a qual, de volta, lhe daria o peso necessário para atravessar a formalização do controverso Acordo SOFA [orig. Status Of Forces Agreement] para o estabelecimento das bases militares norte-americanas. Vai-se tornando contudo cada vez mais difícil acolher essas explicações muito elaboradas. Isso, quase exatamente, foi o que disse Nouri al-Maliki do Iraque, pouco antes de as forças dos EUA serem, afinal, expulsas do Iraque.

Nouri al-Maliki obrigou os soldados dos EUA/OTAN a deixarem o Iraque
Considerada a experiência do Iraque, Washington, por seu lado, já começa a sugerir sutilmente que não há almoço de graça; e que, não havendo um pacto de segurança sobre as bases militares, os EUA podem rapidamente revisar o compromisso de apoiar o governo de Karzai. E há também um mal disfarçado ataque de “guerra psicológica”, com comentaristas e “especialistas” já “concluindo” que governo de Karzai desmoronaria como castelo de cartas, caso os EUA lhe puxassem o tapete.

Curiosamente porém Karzai não dá qualquer sinal de perturbação ante as ameaças ocidentais. Não se vê sinal de vacilação em sua confiança de que os afegãos saberão gerir muito bem os próprios negócios sem a presença dos soldados ocidentais.

Desenvolvimentos do fim de semana sugerem que Karzai pode, até, estar apertando ainda mais o parafuso.

Não há dúvidas de que os EUA não desistirão facilmente do Afeganistão. As bases planejadas para o Afeganistão são vitais para toda a estratégia regional dos EUA. Além do mais, se deve esperar que os EUA explorem a via dos detratores e opositores (não Talibãs) de Karzai, sobretudo os grupos da antiga Aliança do Norte, para assim isolar Karzai politicamente e quebrar a coalizão que, até aqui, lhe garantiu uma base político-militar afegã. Esse processo pode até já ter sido iniciado – como Kerry parece ter sugerido em seu depoimento no Senado dos EUA.

Talibãs podem atrapalhar os planos dos EUA
Karzai também sabe que Washington fará tudo que possa, não importa o custo, para garantir que o próximo governo em Kabul siga rigorosamente a agenda regional dos EUA; e que, no plano de jogo dos EUA, não há lugar para ele na liderança do Afeganistão. Mas o próprio Karzai, muito provavelmente, não vê o próprio futuro político exatamente como os EUA o veem, para o cenário pós-2014. A verdade é que há ainda pela frente, na política interna afegã, um período extremamente fluido e complexo, enquanto o país vai-se aproximando das eleições presidenciais marcadas para 5/4/2014.

Perscrutando um pouco adiante e com alguma bola de cristal, pode-se prever que venha aí, pela frente, algum tipo de impasse entre Washington e Kabul? A probabilidade mais alta é que seja ainda mais feio que isso. Mas, sim, o impasse pode diminuir, se os EUA respeitarem algumas regras de campo.

Em primeiro lugar, os EUA têm de parar de interferir na política afegã, agora que se aproximam as eleições de abril do ano que vem. É evidente que Karzai espera permanecer politicamente “ativo”.

Em segundo lugar, Washington tem de deixar espaço para que Karzai pareça estar no comando. Isso envolve duas coisas – não o desqualificar, nem ignorar suas ordens ou demandas relacionadas à condução das operações militares; e, além disso, dar mão livre a Karzai para que ele costure o próprio futuro político (o que Karzai é perfeitamente capacitado para fazer e tem pleno direito de fazer).

Em terceiro lugar e muito importante, Washington não pode nem deve – de um ponto de vista político, militar ou moral – conectar (a) seus futuros compromissos e futuros compromissos de seus aliados, de contribuírem para a segurança e a estabilidade do Afeganistão, com (b) a negociação de um Acordo SOFA sobre as bases militares pensado em termos exclusivamente de Washington. Os afegãos obviamente militarão contra qualquer pacto que garanta imunidade a soldados dos EUA em relação à lei local, o que seria o mesmo que “liberá-los” para cometer crimes.

O paradoxo está, como se vê, em que, ao enfraquecer ou ofender Karzai e empurrá-lo para as cordas, Washington simultaneamente decreta a extinção do pacto de segurança. Ao mesmo tempo em que as manifestações do fim de semana e a declaração da Ulemá já lançam dúvidas também sobre a eficácia de estabelecerem-se bases militares dos EUA em solo afegão.
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais: Rússia & Indian Report, The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“Zero coturnos” dos EUA em solo afegão?!


11/1/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Vivemos mesmo tempos extraordinários, de “todas as opções” sempre “sobre a mesa” – para Irã, Coreia do Norte, talvez Síria. Pois agora o Afeganistão foi acrescentado à lista. As declarações do Vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Ben Rhodes, na 3ª-feira, segundo as quais o governo Obama também considera uma “opção zero soldados” no Afeganistão pós-2014 surpreendeu e desestabilizou muita gente.

Ben Rhodes
Será verdade? Rhodes declarou realmente o que se diz que teria declarado? Fará exata ideia do significado do que disse? Obama estaria realmente considerando a tal opção? Vai-se ver nesse caso, a verdade interessa pouco. Em termos políticos, permanece no ar, em todos os casos, uma complexa mensagem política para vários públicos.

Lembremos que o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai acaba de pousar em solo norte-americano para confabular com Obama sobre o papel dos EUA no período pós-2014.

Karzai leva com ele uma lista de desejos. Quer 100% de certeza de que o compromisso dos EUA com a estabilização do Afeganistão continuará, mesmo depois da retirada de parte dos soldados prevista para acontecer ao longo desse ano e do próximo.

Por mais que Karzai não perca chance de repetir que é ele quem manda em sua casa, sabe com certeza que, sem o apoio continuado dos EUA, a casa ruirá como castelo de cartas. Nada além de realismo pedestre combinado a agudo instinto de sobrevivência em país difícil.

Não esqueçamos que, das três dúzias de brigadas do exército afegão que a OTAN treinou em todos esses anos, só uma tem competência para não se deixar exterminar, no calor de um confronto com os guerrilheiros Talibã. Vamos e venhamos: é grave.

Mas, dirão os americanos, não há almoço gratuito. Se mesmo assim os soldados dos EUA são necessários no Afeganistão, então... nesse caso... Só se o Pentágono mantiver pleno controle sobre eles e se receberem plena imunidade legal, de forma a que absolutamente não possam ser acusados ou julgados ou condenados por leis afegãs (mesmo no caso de cometerem “transgressões” – por exemplo: estupro coletivo de mulher afegã; urinar sobre o Corão; invadir casas afegãs em missão de busca e destruição de bens e moradores etc., etc.).

Mais importante: Washington quer garantias, preto no branco, escritas e assinadas, documento solene – o que tecnicamente se chama “Acordo sobre a Situação das Tropas” [ing. Status of Forces Agreement, SOFA].

Hamid Karzai
Ora, Karzai sabe que essa é a questão que pode matar todo o negócio. Foi mediante um SOFA, por exemplo, que o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki conseguiu livrar-se dos soldados dos EUA, ao mesmo tempo em que dava a impressão de que queria mantê-los no Iraque no médio e longo prazo. Mas Karzai não é Maliki, e o Afeganistão não é o Iraque.

Karzai trabalhou muito para conseguir um “consenso” afegão a favor de atender ao que exigem os norte-americanos. Mas essa não é precisamente uma daquelas situações em que um Lawrence da Arábia podia pegar um pedaço de papel e escrever promissória a ser paga por Sua Majestade em Londres, a qual valia aos olhos do chefe beduíno no Golfo de Aqaba como propina paga em moeda de ouro, para “incentivizá-lo” [orig. ‘incentivise’] a envolver-se na “revolta árabe” contra os Otomanos Turcos.

Dito de forma simples, Karzai não tem a necessária capacidade para entregar o seu tal consenso nacional afegão, em bandeja de prata, no Salão Oval. E Rhodes enviou a bola de volta para o campo de Karzai, ao fazê-lo lembrar gentilmente que “Caro presidente Karzai, é tudo ou nada...”.

Ao enunciá-lo a plenos pulmões, Rhodes também espera que suas palavras ecoem no bazaar afegão e ajudem a arregimentar alguma opinião pública naquele país tão gravemente fragmentado, a favor de um acordo Estado das Forças com as feições que o Pentágono exige.

A jogada funcionará? Matéria distribuída pela Radio Free Europe/Radio Liberty  (RFERL, mantida pelos EUA) insiste que sim, que a jogada está dando certo, que Rhodes abalou os nervos afegãos, que os afegãos estão mortos de medo de que os EUA os abandonem lá, atirados aos lobos, adotando sua “opção zero”.

Falando francamente, a farsa é muito flagrante. Os Talibã devem estar rindo às gargalhadas deles todos: de Karzai, de Rhodes e da Radio Free Europe/Radio Liberty.

Do ponto de vista dos Talibã, “opção zero” significa que os EUA estão reduzidos hoje a zero opções no Afeganistão, exceto pôr fim àquela guerra fútil.

Nem qualquer potência regional levará a sério ameaças de Rhodes. Das capitais regionais, só se ouve o mais ensurdecedor silêncio. Rhodes não explicou por que, se realmente há a tal “opção zero” sobre a mesa no Salão Oval, o Pentágono consumiu centenas de milhões de dólares, ano passado, para reformar e remobiliar as bases militares em Bagram, Herat, Kandahar, Jalalabad etc. – que já lá estão, perfeito lar-doce-lar longe de casa para os soldados norte-americanos.



*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Guerra do Iraque maquiada


Ramzy Baroud

23-25/12/2011, Ramzy Baroud, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Alguém deveria informar aos produtores e distribuidores de noticiário, que os cerca de 4.500 soldados norte-americanos mortos na guerra do Iraque não são as únicas vítimas a lamentar. Morreram também centenas de milhares de iraquianos, resultado da tresloucada invasão norte-americana, e muitos mais foram feridos e/ou mutilados para sempre.

Não fosse a ação alucinada do ex-presidente George W Bush e seu bando de neoconservadores, é alta a probabilidade de que essas vítimas da guerra do Iraque ainda estivessem vivas hoje. O Iraque foi destruído várias, várias vezes, por uma mistura bizarra de ambição evangélica, mania de fazer-se ver como ‘mocinho’ de filme de caubói e desejo patológico de “garantir a segurança de Israel”.

Matéria curta, exibida pela rede WTKR, afiliada da rede CBS de televisão em Vírgina, citada em matéria do Los Angeles Times Online dia 16 de dezembro, mostrava uma bandeira dos EUA sendo hasteada numa pequena base militar em Bagdá. Na cerimônia, o secretário de Defesa Leon E. Panetta reiterou os sacrifícios dos EUA e tentou apresentar sob a luz de alguma racionalidade uma das guerras mais destrutivas, na memória recente do mundo. Vários outros noticiários também declararam terminada a guerra do Iraque, embora alguns manifestassem dúvidas sobre se os iraquianos – apresentados como historicamente, se não geneticamente, violentos – conseguirão administrar a própria vida, agora que os EUA davam por encerrada sua intervenção “humanitária”.

Numa revisão rápida dos fatos: Estimativa publicada em The Lancet informou que, entre março de 2003 e junho de 2006, 601.027 iraquianos sofreram morte violenta. Levantamento feito por Opinion Research Business, fixou em 1,03 milhão o número de mortos na guerra do Iraque, de março de 2003 a agosto de 2007. WikiLeaks publicou declaração em que se lia que “dentre os quase 400 mil documentos secretos dos EUA sobre a guerra do Iraque que divulgamos, vários documentos comprovam que os EUA sabem que morreram pelo menos 15 mil iraquianos a mais do que antes supunham”. Isso, além das centenas de milhares de iraquianos mortos ao longo da década de sítio que os EUA impuseram ao Iraque, e as centenas de milhares que foram mortos durante a primeira guerra do Iraque, entre 1990-91.

À parte os números, a imprensa-empresa em todo o mundo está hoje dedicada a reescrever os parâmetros da discussão, numa operação de omissão, apagamento e o mais escancarado racismo. 

Tome-se, por exemplo, o artigo de Loren Thompson na revista Forbes. Thompson entende que a guerra foi erro – não por causa das mentiras, da imoralidade ou da ilegalidade – mas, exclusivamente, pelos muitos erros cometidos envolvendo recursos, indecisão, falta de objetividade, ou por causa do sectarismo dos iraquianos, ou por causa da inconsistência das decisões militares e outras causas desse tipo. Apesar desses erros “nossas intenções eram boas” – garante Thompson [1]. 

Para evitar que alguém o tomasse por “esquerdista imbecil antiguerra” – que é como a imprensa-empresa de direita apresenta qualquer um que se oponha por qualquer motivo às guerras dos EUA – Thomson faz um comentário interessante:

“O que os políticos e a maioria dos eleitores nos EUA já sabem hoje é que o Iraque, em primeiro lugar, nem deveria ser país; tentar fazer a democracia funcionar lá sempre foi, mesmo, missão sem futuro”.

Esse tipo de intransigência, de falta de decência democrática (destruir um país soberano e, para justificar a destruição, negar-lhe o direito de algum dia ter existido) – eco perfeito do que Israel diz sobre o que faz na Palestina – é traço sempre presente em todos os veículos da grande imprensa-empresa nos EUA, dessa vez nas representações que oferecem da Guerra do Iraque.

Em artigo no Los Angeles Times de 15/12, David S. Cloud e David Zucchino reconhecem, embora atrasados, que iraquianos foram mortos. Mas citam o menor número de mortos que encontraram (do website Iraqi Body Count), e recorreram a generalizações tão vagas, que acabam por culpar os iraquianos por todas as violências: “Sem os EUA, caberá aos iraquianos controlar a violência endêmica naquele país”. [2] 

Sim, “endêmica” – uma endemia de violência: violência que seria “natural ou característica de povo ou local específicos”, como diz o dicionário. Se os iraquianos são naturalmente violentos, violentos por causa de sua cultura, de sua religião, ou mesmo que fossem geneticamente violentos... por que o número de mortos cresceu tanto, no Iraque, a partir de março de 2003, data da invasão norte-americana? Quem tomou a decisão de ir à guerra, tornando a violência “endêmica” no Iraque? Com certeza, não foram os iraquianos.

Tampouco foram os iraquianos os culpados por ressemear sementes dos conflitos sectários. Estimular a violência sectária também foi estratégia para redefinir o papel dos militares no Iraque: pararam de ter de encontrar armas de destruição em massa (que jamais existiram) e puseram-se a combater o terrorismo e, simultaneamente, jogavam gasolina no fogo da violência sectária.

Em termos militares crus, é possível que a guerra do Iraque esteja acabada, mas no que tenha a ver com o povo do Iraque, a guerra continua. O “experimento”, iniciado há nove anos com bombardeio para gerar “choque e pavor”, reaparecerá nas futuras políticas dos EUA. Toda a região foi convertida em espinha dorsal de um Império norte-americano que enfrenta a decadência.

Em seu influente livro A Doutrina do Choque - a Ascensão do Capitalismo de Desastre,  Naomi Klein mostrou como a guerra do Iraque foi concebida como modelo para todo o Oriente Médio. Foi um teste, cujo sucesso influenciaria a geopolítica de toda a região. No capítulo intitulado “Apagar o Iraque: À procura de um modelo para o Oriente Médio”, Klein expõe a tentativa de destruir e em seguida ressuscitar o país, de modo a que passasse a caber melhor na forma que mais interessava aos que provocaram a destruição. A autora conclui assim a Parte 5 do livro: “De fato, no final, a guerra do Iraque criou um modelo econômico: o modelo da guerra e da reconstrução privatizadas – modelo que rapidamente se tornou produto de exportação.”

Em artigo para FoxNews Online, sob o título “Iraque: vitória ou derrota?”, Oliver North não perde tempo com tentar mostrar-se isento, nem com manifestar qualquer simpatia aos iraquianos. “Quem venceu a guerra?” – pergunta ele. “Essa é fácil: os soldados, marinheiros, pilotos, policiais e Marines dos EUA e o povo dos EUA, cujos filhos e filhas serviram no Iraque”.  [3]

Foi esse tipo de patriotismo irracionalista, esse fanatismo de torcedor de futebol, que tornou a guerra possível. E continuará a facilitar guerras futuras, que serão apresentadas ao “público interno” e, daí, ao mundo, como mais vitórias falsas.

Quanto aos milhões de norte-americanos (e muitas outras pessoas, nos EUA e em todo o mundo), gente que valentemente, corajosamente, se opôs à guerra, continua a opor-se.

Se os EUA contam com reconquistar um átomo de credibilidade em todo o mundo, que parem de pensar a guerra como mera oportunidade estratégica. A guerra é brutal e desumana. É caríssima, em vários planos de valor e em vários sentidos. E suas consequências terríveis persistem ao longo de várias gerações – como o futuro do Iraque comprovará, sem dúvida e muito infelizmente.



Notas dos tradutores
[1]  15/12/2011, “Iraq: The Biggest Mistake In American Military History”, Forbes  (em inglês). 
[2] 15/12/2011, Los Angeles Times, “Final U.S. troops roll out of Iraq” (em inglês). 
[3] 16/12/2011, Oliver North, “Iraq: Victory or Defeat? (em inglês).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

EUA fora do Iraque: “Como Maliki e o Irã passaram a perna nos EUA”


Gareth Porter

16/12/2011, Gareth Porter, InterPress Services (de Washington)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O secretário de Defesa Leon Panetta, para quem a saída dos soldados dos EUA do Iraque seria item de uma história de sucesso militar dos EUA, deixa de lado o fato de que o governo George W. Bush e o Pentágono haviam planejado manter presença militar semipermanente no Iraque.

A verdadeira história por trás da retirada dos norte-americanos é outra. Sucesso, sim, mas de uma inteligente estratégia de simulação e diplomacia, posta em prática pelo primeiro-ministro Nuri al-Maliki em cooperação com o Irã. Esses, sim, passaram a perna em Bush e no Pentágono e conseguiram que os EUA assinassem o tratado EUA-Iraque, de retirada das tropas. 

Ex-presidente George W. Bush e o Primeiro-Ministro Nuri AL-Maliki em Bagdá, dezembro de 2008
Elemento central da estratégia Maliki-Irã foi o interesse que Maliki, o Irã e o clérigo furiosamente antiamericano Moqtada al-Sadr partilhavam, de pôr fim à ocupação norte-americana no Iraque, apesar das muitas diferenças que há entre esses três, em outros assuntos. Para governar, Maliki precisava do apoio de Sadr; e Sadr condicionou seu apoio, desde o início, ao cumprimento da promessa que Maliki lhe fez, de que arrancaria dos EUA um cronograma para completa retirada dos norte-americanos do Iraque. 

No início de junho de 2006, um primeiro esboço de plano de reconciliação nacional que circulava entre grupos políticos iraquianos incluía, como um dos itens “um cronograma para tirar os norte-americanos do Iraque”, e a recriação das forças militares. Depois de rápida visita a Bagdá, Bush rejeitou o item sobre o cronograma para a retirada. 

Mowaffak Al-Rubaei, conselheiro de segurança nacional de Maliki revelou, em coluna publicada no Washington Post, que Maliki queria redução de mais de 30 mil soldados, para menos de 100 mil, já no final de 2006; e “retirada completa de todas as tropas remanescentes” ao final de 2007. 

Quando, contudo, o texto integral do plano de reconciliação nacional no Iraque foi publicado, em 25/6/2006, o item sobre o cronograma para retirada completa não aparecia no documento. 

Em junho de 2007, altos funcionários do governo Bush começaram a “vazar” comentários para jornalistas, sobre projetos para manter no Iraque o que o New York Times batizou de “presença quase-permanente”, incluindo pleno controle sobre quatro grandes bases militares. 

Maliki imediatamente despachou para Washington seu ministro de Relações Exteriores, Hoshyar Zebari, para lançar a isca de um acordo sobre tropas ao então vice-presidente Dick Cheney. 

Como Linda Robinson contou em Tell Me How This Ends [1], Zebari sugeriu que Cheney começasse a negociar a presença militar dos EUA, para reduzir os riscos de uma retirada abrupta, que poderia vir a ser, para o Irã, como presente caído do céu. 

Em reunião com a então secretária de Estado Condoleezza Rice em setembro de 2007, Rubaie, Conselheiro Nacional de Segurança do Iraque, disse que Maliki desejava um “Acordo do Estado das Tropas” [ing. Status of Forces Agreement, SOFA] que admitisse a permanência das tropas dos EUA, mas “eliminasse os fatores de atrito que parecem ser violações da soberania iraquiana” (segundo Bob Woodward, em Plano de ataque [Rio de Janeiro: Globo, trad. Cid Knipel, s/d. Orig. The War Within: A Secret White House History 2006-2008, 2008]). 

O Conselheiro de Segurança Nacional de Maliki também trabalhava para proteger o Exército Mahdi contra os EUA, cujos militares já falavam de ataques massivos contra as milícias de Sadr. Em encontro com o coordenador de Bush para a Guerra do Iraque, Douglas Lute, Rubaie disse que seria melhor para as forças de segurança iraquianas encarregarem-se elas mesmas de atacar as milícias do clérigo Sadr, do que para as Forças Especiais dos EUA. 

Explicou à Comissão Baker-Hamilton que o fato de Sadr comandar forças militares não era problema para Maliki, porque o clérigo e seus sadristas já faziam parte do governo. 

Publicamente, o governo de Maliki continuou a garantir ao governo Bush que, sim, os EUA podiam continuar contando com presença militar de longo prazo no Iraque. Perguntado por Richard Engel da rede NBC dia 24/1/2008, se o acordo asseguraria que as bases militares dos EUA fossem mantidas no Iraque, Zebari respondeu: “Esse é acordo para assegurar apoio militar duradouro. Os soldados têm de ficar em algum lugar. Não podem morar na rua.” 

Certo de que arrancaria dos iraquianos um acordo SOFA à moda da Coreia do Sul, o governo Bush entregou ao governo do Iraque, dia 7/3/2008, um esboço de acordo no qual não havia nenhuma limitação ao número de soldados dos EUA no Iraque nem ao tempo de permanência deles no país. E o Iraque tampouco teria qualquer tipo de controle sobre as operações militares dos EUA. 

Mas Maliki tinha uma surpresa reservada para Washington. 

Uma série de movimentos dramáticos executados por Maliki e Irã ao longo dos meses seguintes mostrou que havia acordo já construído entre os dois governos para impedir que os militares dos EUA atacassem o Exército Mahdi e para concluir um acordo com Sadr, que aceitara extinguir seu Exército Mahdi, em troca da garantia de que Maliki obteria a completa retirada, do Iraque, de todas as forças dos EUA. 

Em meados de março de 2007, Maliki ignorou a pressão de uma visita pessoal do vice-presidente Cheney, que exigia que o Iraque participasse de ação contra o Exército Mahdi; e, não satisfeito, vetou inesperadamente os planos dos EUA para aquela grande ação militar contra o mesmo Exército Mahdi, em Basra. Maliki ordenou então que o exército do Iraque atacasse os sadristas. 

Como se poderia prever que aconteceria e aconteceu, a operação em Basra não foi bem-sucedida. E os militares iraquianos pediram a intervenção do general Suleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica: queriam que o Irã interviesse e negociasse um cessar-fogo com o Exército Mahdi, de Sadr. Assim aconteceu. Sadr aceitou o cessar-fogo, embora suas milícias estivessem longe de ser derrotadas.

Mais algumas semanas, e Maliki pela segunda vez impediu que os EUA lançassem ataque ainda maior contra o Exército Mahdi, dessa vez contra a cidade de Sadr. E outra vez Suleimani foi chamado para negociar um acordo com Sadr, que permitiu que tropas do governo do Iraque patrulhassem a área do ex-quartel-general do ExércitoMahdi.

Havia um subtexto nas intervenções de Suleimani. Enquanto Suleimani negociava o cessar-fogo com Sadr em Basra, um website controlado por Mohsen Rezai, ex-comandante do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica, publicava comentário em que se lia que “o Irã opõe-se a iniciativas dos clãs linha-dura”, iniciativas que “só enfraquecem o governo e o povo do Iraque e oferecem pretexto para as forças de ocupação”.

Nos dias imediatamente posteriores àquele acordo, a mídia estatal iraniana apresentou o ataque dos soldados iraquianos em Basra como ataque a milícias ilegais e “criminosas”.

O timing de cada um desses movimentos políticos e diplomáticos executados por Maliki parece ter sido determinado em reuniões entre Maliki e altos funcionários do governo do Irã.

Apenas dois dias depois de voltar de uma visita a Teerã, em junho de 2008, Maliki reclamou publicamente das exigências dos EUA que continuavam a insistir, querendo obter acesso ilimitado a bases militares, controle do espaço aéreo iraquiano e imunidade para soldados e mercenários que atuavam no Iraque associados aos EUA. 

Em julho, Maliki revelou que o governo do Iraque exigira completa retirada de todos os soldados norte-americanos do Iraque, conforme cronograma. O governo Bush entrou em estado de choque.

De julho a outubro, o governo Bush fingiu que poderia simplesmente se recusar a retirar-se do Iraque. Simultaneamente, tentava freneticamente forçar Maliki a voltar atrás. 

Até que, afinal, o governo Bush deu-se conta de que o candidato Democrata à presidência, Barack Obama, que disparava nas pesquisas à frente do candidato Republicano John McCain, assinaria qualquer acordo para que os EUA saíssem do Iraque, e quanto mais rapidamente, melhor. Em outubro, Bush decidiu assinar a primeira versão do acordo de retirada, pelo qual os EUA estariam fora do Iraque até o final de 2011. 

Os ambiciosos planos dos militares dos EUA, de usar o Iraque para dominar o Oriente Médio militarmente e politicamente, foram derrotados pelo governo que os próprios EUA implantaram a ferro e fogo no Iraque; e ninguém, nem entre os estrategistas nem na inteligência nem entre os políticos ou na imprensa nos EUA sequer suspeitou do que estava em andamento. Até que já fosse tarde demais.



Nota dos tradutores
[1] ROBINSON, Linda, 2008, Tell Me How This Ends General David Petraeus and the Search for a Way Out of Iraq [Diga-me como isso acaba. Gen. Petraeus e a busca por um modo de sair do Iraque]. NY: Public Affairs.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Iraque: “Valeu a pena?”


Sami Moubayed

17/12/2011, Sami Moubayed, Asia Times Online [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Do ponto de vista do Iraque, a resposta à pergunta “Valeram a pena [os nove anos de guerra e ocupação pelos EUA]?” é obviamente “não”. Houve mortes demais durante os tempos de Saddam, mas ainda mais mortes nos tempos dos EUA. Os atuais governantes do Iraque são mini ditadores, talvez não tão brutais quanto Saddam, pelo menos até agora, mas sem dúvida igualmente arrogantes e autocráticos.

Iraquianos pró-Saddam argumentam que, ainda pior do que nos tempos de Saddam, hoje os assassinatos são cometidos por exércitos de ocupação. Mas assassinato é assassinato e pouca diferença há, de fato, se o assassinato é cometido por ordem de Saddam, Bush, Maliki ou Obama.

Os últimos nove anos marcam capítulo muito interessante da história do Iraque. Viver sob aquela ditadura foi um pesadelo, mas livrar-se dela, mediante invasão e ocupação por exército estrangeiro, do modo como foi feito, foi pesadelo ainda pior.

Os iraquianos pagaram preço alto demais; muitos anos terão de passar, e provavelmente toda uma geração, antes de que as lembranças das atrocidades cometidas no país pelos exércitos dos EUA comecem a ser esquecidas.

Mas os iraquianos, hoje, têm muito do que se orgulharem: derrotaram Saddam e derrotaram também os EUA. Mais dia menos dia, derrotarão também o governo de Maliki. Então, sim, e de pleno direito, os iraquianos poderão declarar ao mundo: “Missão cumprida”.