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domingo, 28 de abril de 2013

Iraque suspende rede Al Jazeera, por “promover a violência”


Imprensa-empresa indefensáveis

28/4/2013, Russia Today (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os tradutores excluíram o trecho em que a imprensa-empresa Russia Today defende a imprensa-empresa Al-Jazeera

O Iraque suspendeu a rede de televisão Al-Jazeera, que tem sede no Qatar, e outras nove redes de televisão por satélite, de operar no Iraque. O Iraque acusa a rede de praticar “jornalismo antiprofissional”, que está levando à luta interétnica no país, já destroçado pela guerra contra os EUA-OTAN.

Tomamos a decisão de suspender a licença de alguns canais de televisão por satélite que adotaram linguagem que estimula a violência e o sectarismo. Significa que essas empresas terão de suspender suas atividades no Iraque. As equipes dessas empresas ficam proibidas de movimentar-se pelo país e não poderão cobrir eventos no Iraque, disse à Associated France Press, Mujahid Abu al-Hail, da Comissão de Comunicações e Mídia.

Al Jazeera e Al Sharqiya, canal de televisão por satélite muito popular no Iraque, estão entre os dez canais proibidos de operar no país. A rede Al Jazeera disse, em sua página Internet que não fora formalmente avisada, antes da suspensão.

A suspensão acontece depois de confrontos entre forças de segurança do Iraque e manifestantes muçulmanos sunitas, que aconteceram na 3ª-feira passada, deixando 169 mortos, em três dias, e cerca de 300 feridos. Manifestantes sunitas tomaram uma base militar e incendiaram uma mesquita xiita em Sulaiman Pek, antes de o exército usar helicópteros para por fim aos tumultos.

Nuri al-Maliki
Em fala pela televisão estatal, o Primeiro-Ministro do Iraque, Nuri al-Maliki conclamou os iraquianos

(...) a tomar a iniciativa e não se calar, contra empresas de mídia que operam para arrastar o país de volta a uma guerra civil sectária.

[comentário de internauta, na mesma página e data].

A rede Al Jazeera passou a ser controlada por sionistas e pela OTAN, há pelo menos um ano, desde o início da revolução no Egito.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

EUA fora do Iraque: “Como Maliki e o Irã passaram a perna nos EUA”


Gareth Porter

16/12/2011, Gareth Porter, InterPress Services (de Washington)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O secretário de Defesa Leon Panetta, para quem a saída dos soldados dos EUA do Iraque seria item de uma história de sucesso militar dos EUA, deixa de lado o fato de que o governo George W. Bush e o Pentágono haviam planejado manter presença militar semipermanente no Iraque.

A verdadeira história por trás da retirada dos norte-americanos é outra. Sucesso, sim, mas de uma inteligente estratégia de simulação e diplomacia, posta em prática pelo primeiro-ministro Nuri al-Maliki em cooperação com o Irã. Esses, sim, passaram a perna em Bush e no Pentágono e conseguiram que os EUA assinassem o tratado EUA-Iraque, de retirada das tropas. 

Ex-presidente George W. Bush e o Primeiro-Ministro Nuri AL-Maliki em Bagdá, dezembro de 2008
Elemento central da estratégia Maliki-Irã foi o interesse que Maliki, o Irã e o clérigo furiosamente antiamericano Moqtada al-Sadr partilhavam, de pôr fim à ocupação norte-americana no Iraque, apesar das muitas diferenças que há entre esses três, em outros assuntos. Para governar, Maliki precisava do apoio de Sadr; e Sadr condicionou seu apoio, desde o início, ao cumprimento da promessa que Maliki lhe fez, de que arrancaria dos EUA um cronograma para completa retirada dos norte-americanos do Iraque. 

No início de junho de 2006, um primeiro esboço de plano de reconciliação nacional que circulava entre grupos políticos iraquianos incluía, como um dos itens “um cronograma para tirar os norte-americanos do Iraque”, e a recriação das forças militares. Depois de rápida visita a Bagdá, Bush rejeitou o item sobre o cronograma para a retirada. 

Mowaffak Al-Rubaei, conselheiro de segurança nacional de Maliki revelou, em coluna publicada no Washington Post, que Maliki queria redução de mais de 30 mil soldados, para menos de 100 mil, já no final de 2006; e “retirada completa de todas as tropas remanescentes” ao final de 2007. 

Quando, contudo, o texto integral do plano de reconciliação nacional no Iraque foi publicado, em 25/6/2006, o item sobre o cronograma para retirada completa não aparecia no documento. 

Em junho de 2007, altos funcionários do governo Bush começaram a “vazar” comentários para jornalistas, sobre projetos para manter no Iraque o que o New York Times batizou de “presença quase-permanente”, incluindo pleno controle sobre quatro grandes bases militares. 

Maliki imediatamente despachou para Washington seu ministro de Relações Exteriores, Hoshyar Zebari, para lançar a isca de um acordo sobre tropas ao então vice-presidente Dick Cheney. 

Como Linda Robinson contou em Tell Me How This Ends [1], Zebari sugeriu que Cheney começasse a negociar a presença militar dos EUA, para reduzir os riscos de uma retirada abrupta, que poderia vir a ser, para o Irã, como presente caído do céu. 

Em reunião com a então secretária de Estado Condoleezza Rice em setembro de 2007, Rubaie, Conselheiro Nacional de Segurança do Iraque, disse que Maliki desejava um “Acordo do Estado das Tropas” [ing. Status of Forces Agreement, SOFA] que admitisse a permanência das tropas dos EUA, mas “eliminasse os fatores de atrito que parecem ser violações da soberania iraquiana” (segundo Bob Woodward, em Plano de ataque [Rio de Janeiro: Globo, trad. Cid Knipel, s/d. Orig. The War Within: A Secret White House History 2006-2008, 2008]). 

O Conselheiro de Segurança Nacional de Maliki também trabalhava para proteger o Exército Mahdi contra os EUA, cujos militares já falavam de ataques massivos contra as milícias de Sadr. Em encontro com o coordenador de Bush para a Guerra do Iraque, Douglas Lute, Rubaie disse que seria melhor para as forças de segurança iraquianas encarregarem-se elas mesmas de atacar as milícias do clérigo Sadr, do que para as Forças Especiais dos EUA. 

Explicou à Comissão Baker-Hamilton que o fato de Sadr comandar forças militares não era problema para Maliki, porque o clérigo e seus sadristas já faziam parte do governo. 

Publicamente, o governo de Maliki continuou a garantir ao governo Bush que, sim, os EUA podiam continuar contando com presença militar de longo prazo no Iraque. Perguntado por Richard Engel da rede NBC dia 24/1/2008, se o acordo asseguraria que as bases militares dos EUA fossem mantidas no Iraque, Zebari respondeu: “Esse é acordo para assegurar apoio militar duradouro. Os soldados têm de ficar em algum lugar. Não podem morar na rua.” 

Certo de que arrancaria dos iraquianos um acordo SOFA à moda da Coreia do Sul, o governo Bush entregou ao governo do Iraque, dia 7/3/2008, um esboço de acordo no qual não havia nenhuma limitação ao número de soldados dos EUA no Iraque nem ao tempo de permanência deles no país. E o Iraque tampouco teria qualquer tipo de controle sobre as operações militares dos EUA. 

Mas Maliki tinha uma surpresa reservada para Washington. 

Uma série de movimentos dramáticos executados por Maliki e Irã ao longo dos meses seguintes mostrou que havia acordo já construído entre os dois governos para impedir que os militares dos EUA atacassem o Exército Mahdi e para concluir um acordo com Sadr, que aceitara extinguir seu Exército Mahdi, em troca da garantia de que Maliki obteria a completa retirada, do Iraque, de todas as forças dos EUA. 

Em meados de março de 2007, Maliki ignorou a pressão de uma visita pessoal do vice-presidente Cheney, que exigia que o Iraque participasse de ação contra o Exército Mahdi; e, não satisfeito, vetou inesperadamente os planos dos EUA para aquela grande ação militar contra o mesmo Exército Mahdi, em Basra. Maliki ordenou então que o exército do Iraque atacasse os sadristas. 

Como se poderia prever que aconteceria e aconteceu, a operação em Basra não foi bem-sucedida. E os militares iraquianos pediram a intervenção do general Suleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica: queriam que o Irã interviesse e negociasse um cessar-fogo com o Exército Mahdi, de Sadr. Assim aconteceu. Sadr aceitou o cessar-fogo, embora suas milícias estivessem longe de ser derrotadas.

Mais algumas semanas, e Maliki pela segunda vez impediu que os EUA lançassem ataque ainda maior contra o Exército Mahdi, dessa vez contra a cidade de Sadr. E outra vez Suleimani foi chamado para negociar um acordo com Sadr, que permitiu que tropas do governo do Iraque patrulhassem a área do ex-quartel-general do ExércitoMahdi.

Havia um subtexto nas intervenções de Suleimani. Enquanto Suleimani negociava o cessar-fogo com Sadr em Basra, um website controlado por Mohsen Rezai, ex-comandante do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica, publicava comentário em que se lia que “o Irã opõe-se a iniciativas dos clãs linha-dura”, iniciativas que “só enfraquecem o governo e o povo do Iraque e oferecem pretexto para as forças de ocupação”.

Nos dias imediatamente posteriores àquele acordo, a mídia estatal iraniana apresentou o ataque dos soldados iraquianos em Basra como ataque a milícias ilegais e “criminosas”.

O timing de cada um desses movimentos políticos e diplomáticos executados por Maliki parece ter sido determinado em reuniões entre Maliki e altos funcionários do governo do Irã.

Apenas dois dias depois de voltar de uma visita a Teerã, em junho de 2008, Maliki reclamou publicamente das exigências dos EUA que continuavam a insistir, querendo obter acesso ilimitado a bases militares, controle do espaço aéreo iraquiano e imunidade para soldados e mercenários que atuavam no Iraque associados aos EUA. 

Em julho, Maliki revelou que o governo do Iraque exigira completa retirada de todos os soldados norte-americanos do Iraque, conforme cronograma. O governo Bush entrou em estado de choque.

De julho a outubro, o governo Bush fingiu que poderia simplesmente se recusar a retirar-se do Iraque. Simultaneamente, tentava freneticamente forçar Maliki a voltar atrás. 

Até que, afinal, o governo Bush deu-se conta de que o candidato Democrata à presidência, Barack Obama, que disparava nas pesquisas à frente do candidato Republicano John McCain, assinaria qualquer acordo para que os EUA saíssem do Iraque, e quanto mais rapidamente, melhor. Em outubro, Bush decidiu assinar a primeira versão do acordo de retirada, pelo qual os EUA estariam fora do Iraque até o final de 2011. 

Os ambiciosos planos dos militares dos EUA, de usar o Iraque para dominar o Oriente Médio militarmente e politicamente, foram derrotados pelo governo que os próprios EUA implantaram a ferro e fogo no Iraque; e ninguém, nem entre os estrategistas nem na inteligência nem entre os políticos ou na imprensa nos EUA sequer suspeitou do que estava em andamento. Até que já fosse tarde demais.



Nota dos tradutores
[1] ROBINSON, Linda, 2008, Tell Me How This Ends General David Petraeus and the Search for a Way Out of Iraq [Diga-me como isso acaba. Gen. Petraeus e a busca por um modo de sair do Iraque]. NY: Public Affairs.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Pepe Escobar: “Sangue nas trilhas iraquiano-sírias”


Pepe Escobar

17/8/2011, Pepe Escobar, AToL
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Foi segunda-feira sangrenta em todo o Iraque; dois suicidas-bomba, 11 carros-bomba e 19 VBIEDs (língua do Pentágono para dizer “vehicle-borne improvised explosive devices”, dispositivos explosivos improvisados instalados em veículos) –, com cerca de 70 mortos e mais de 300 feridos. 

Carros-bomba em Najaf, outro dentro do principal mercado em Kut, uma bomba detonada ao lado do comboio que acompanhava o prefeito de Baquba, dois suicidas-bomba contra uma unidade iraquiana de contraterrorismo em Tikrit, uma bomba detonada em área próxima de um comboio do governo no subúrbio de Mansur em Bagdá. – O fato de a segunda-feira sangrenta ter acontecido menos de duas semanas depois que o governo de Nuri al-Maliki anunciou negociações para que Washington mantenha no Iraque pelo menos parte dos atuais 48 mil soldados, depois de esgotado o prazo final de 2011 para completa retirada dos EUA do Iraque, inevitavelmente obriga a perguntar: quem ganha alguma coisa, de todo esse sangue? 

A al-Qaeda no Iraque tem o que ganhar, talvez, se sua estratégia for impedir que os EUA consigam escapar do pântano iraquiano –, dado que a principal acusação que atravessou o Potomac e domina a narrativa tem a ver com a “capacidade” das forças iraquianas, em cenário em que estariam “sobrecarregadas na luta contra os insurgentes”. Mais sangue no Iraque também interessa aos neoconservadores norte-americanos, aos falcões de gabinete, sobretudo no Pentágono, e praticamente a todos os Republicanos e pelas mesmas razões, também se beneficiam, em contexto de mais sangue. 

Mohamed al-Adnani, porta-voz da al-Qaeda no Iraque, parece ter fortalecido essa hipótese, dizendo, semana passada, por um website islâmico: “Não se preocupem, os dias de Zarqawi logo voltarão.” 

Se é mensagem autêntica da al-Qaeda no Iraque, está destinada ao fracasso, exatamente como Abu Musab al-Zarqawi, líder da al-Qaeda no Iraque, fracassou miseravelmente – foi assassinado em 2006 – e seus métodos sanguinolentos usados contra os próprios iraquianos sunitas. Não faz sentido algum – além de ser profundamente não islâmico que a al-Qaeda no Iraque bombardeie indiscriminadamente áreas de maioria sunita e de maioria xiita, com muitas mortes de civis, e durante o mês do jejum de Ramadan, sagrado para todos os muçulmanos. 

Estabilidade é sempre relativa 

A segunda-feira sangrenta no Iraque vem depois da sexta-feira sangrenta na Síria – e muitos perdem o sono em Bagdá, preocupados com o que acontece na Síria. 

Mas, por mais que a violência viciosa do aparelho de segurança do presidente Bashar al-Assad incomode Maliki, seu governo nada fez até agora para pressionar Damasco (ao contrário dos curdos e do Partido Iraqiya de maioria sunita, que já criticaram com veemência o governo de Assad). 

Há muitas razões para essa omissão. Quando ainda vivia exilado, nos tempos de Saddam Hussein, Maliki foi sempre muito bem acolhido pelo regime dinástico dos Assad. Maliki – como a maioria dos xiitas iraquianos – teme a volta dos sunitas salafitas, no caso (até agora altamente improvável) de o regime sírio, controlado pela seita xiita dos alawitas, cair. 

Teerã, que é xiita, por sua vez, também teme aquele mesmo cenário. Mas isso não significa necessariamente – como os EUA repetem sem parar – que o Irã, que, sim, de fato, negociou a formação da maioria parlamentar a favor de Maliki em Bagdá, esteja manobrando todos os cordões, das sombras. 

Maliki – pessoalmente encarregado do Ministério da Defesa e do aparelho de segurança em Bagdá – é homem muito próximo de Teerã. Mas, sobretudo, é nacionalista iraquiano. Sua posição é muito mais nuançada – quer reformas, mas ao mesmo tempo adverte que o governo de Assad não deve ser desestabilizado, porque na Síria é “ou Assad ou o caos”. 

A sede de sangue do regime de Assad pode ser confundida com alguma espécie de patologia. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan da Turquia não é nenhum Maliki – e sua paciência está chegando ao fim. Aparentemente, o regime Assad ganhou algum tempo depois da visita do ministro turco de Relações Exteriores Ahmet Davutoglu a Damasco, semana passada (ver “Síria: Assad não cairá”, 12/8/2011).

A gota d’água para Davutoglu pode ter acontecido no fim de semana, quando as forças do regime sírio intensificaram o sítio de Latakia. Muito significativamente, Davutoglu anunciou, nessa 2ª-feira: “É nossa última palavra às autoridades sírias: Esperamos absolutamente que todas essas operações sejam imediata e incondicionalmente suspensas. Se as operações não forem suspensas, nada mais haverá a discutir sobre medidas a serem tomadas.” 

Mas... e agora? A Turquia invade a Síria, com a ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)? 

A possibilidade de que o regime de Assad como um todo esteja numa viagem suicida é quase impensável. Mas o regime luta pela vida; reformas realmente democráticas implicam o fim do regime. As manifestações não param, e podem já estar chegando a Aleppo, a segunda maior cidade do país; e a linha oficial não muda: é rebelião armada por sunitas islâmicos financiada de fora (quer dizer, pela Arábia Saudita e por milionários “pessoais” do Golfo Persa). 

Pode ser parcialmente verdade – no que tenha a ver com ramos mais radicais da Fraternidade Muçulmana, aquela “nuvem” sem contornos precisos de salafitas. Mas não explica o que a romancista síria Samar Yazbek define como “revolução de Spartacus - escravos contra os senhores”, que começou no interior, entre os mais pobres e oprimidos, e espalhou-se globalmente para a juventude e os intelectuais urbanos plugados. 

Agora, quando uma Bagdá “estável” olha para uma Síria “instável”, tenta avaliar o nível de popularidade do levante – e até que ponto a repressão furiosa poderá provocar, dentre outros resultados, uma crise reversa de refugiados, imagem especular da guerra sectária no Iraque, que gerou uma onda de refugiados iraquianos que atravessaram a fronteira em direção à Síria em 2006/2007. 

Bagdá também tenta avaliar o jogo que a Casa de Saud está jogando – a paranóia cósmica dos sauditas, que só vê o “crescente xiita”, levando a Casa de Saud à guerra contra todos os regimes sunitas. Dizer que Riad é hostil a Bagdá é dizer o mínimo. 

E há também, mais uma vez, o Kuwait, que nos tempos otomanos não passava de anexo do que, depois, viria a ser o Iraque. Membros do parlamento em Bagdá já acusam abertamente o Kuwait de roubar petróleo iraquiano, em perfurações clandestinas dentro do território iraquiano. Pode-se dizer que a história se repete outra vez como tragédia – não como farsa – porque essa, precisamente, era a amarga reclamação de Saddam contra o Kuwait em 1990; e foi a razão-chave para que o Iraque invadisse o Kuwait, o que levou à primeira guerra do Golfo. 

Quero dizer que, sim, Bagdá sabe por experiência própria que vive cercada de vizinhos muito perigosos. Portanto, precisa de forças armadas poderosas. A história volta como farsa trágica, se, para conseguir as forças armadas poderosas de que precisa, Bagdá tem de pedir ajuda a Washington – exatamente a mesma superpotência que destruiu o Iraque. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

A grande revolta árabe reinventa-se de mil modos!

Pepe Escobar

12/4/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ele voltooooooou! Cada vez que o clérigo/político nacionalista xiita iraquiano Muqtada al-Sadr [1] ressurge como gênio saído de uma garrafa numa nuvem de fumaça, o establishment dos EUA treme como vara verde, e a mídia-empresa corporativa corre a requentar a retórica de sempre “radical, anti-americano, amigo-do-Irã, clérigo-do-inferno”.
Muqtada al-Sadr
O regime de Saddam Hussein acabou há oito anos, completados sábado passado. Os xiitas Sadristas e muitos sunitas consideram 9 de abril o “Dia da Desgraça”, não pelo fim de Saddam, mas porque nesse dia Washington anexou o Iraque. 

O Iraque é aquele país árabe que vive sob “no-fly zone” há uma década – e nesse tempo toda a infraestrutura e toda a vida social do país foram arrasadas pelo Pentágono (os neoconservadores de Washington sonharam reconstruir tudo, mas ainda não acertaram o preço).

Pois aconteceu que os Sadristas, semana passada, mandaram um cartão para os “libertadores”: ou vocês saem da nossa terra, como combinado, no final do ano, e saem por bem, ou recomeçará o pesadelo dos pesadelos para o Pentágono: estaremos em um, dois, três, mil lugares ao mesmo tempo, nosso Exército Mahdi, e sua guerrilha incansável.

O cartão de Muqtada – ele próprio continua a estudar teologia na cidade santa de Qom, no Irã – foi entregue por seu porta-voz, Salah al-Obaidi, acompanhado por uma multidão de um milhão de pessoas em Bagdá. Veio gente de todo o sul do Iraque e da província de Diyala no leste (menos gente do que haveria, se a segurança não tivesse bloqueado ruas e pontes que levam ao local da concentração, próximo de uma base militar dos EUA.)

A mensagem chegou exatamente no momento planejado, um dia depois de o chefe do Pentágono Robert Gates ter visitado o norte do Iraque, para convencer o governo de Nuri al-Maliki a, bem, ora... a deixar que os EUA continuem a ocupar o país por tempo indeterminado. O Departamento de Estado dos EUA já anunciara que quer manter lá um exército de mercenários, talvez milhares de burocratas, na maior embaixada dos EUA do planeta. Os mercenários protegerão os burocratas. É o excepcionalismo norte-americano.

Nas palavras de Muqtada, “Nossa primeira tarefa será promover a escalada da atividade militar de resistência e reativar o Exército Mahdi, o que será feito em próxima declaração a ser divulgada em breve (...) Em seguida, promoveremos a escalada da resistência pacífica, com manifestações de rua e mobilização de massas”. 

Quer dizer: se os EUA não saírem do Iraque até o final do ano, Muqtada converterá Bagdá numa praça Tahrir gigante – e sem falar dos comandos que tingirão de vermelho a Zona Verde e farão os “mercenários” parecer assaltantes de estrada. A Grande Revolta Árabe de 2011 reinventa-se de mil modos!

Carreira da pura, alguém se interessa?

Quem, há anos, apostou que os EUA não conseguiriam prorrogar a validade do Acordo sobre o Estado das Forças [ing. Status of Forces Agreement (SOFA) [2]] que os EUA assinaram com o Iraque, já deve ser, hoje, dono de banco de investimentos em Wall Street.

O SOFA para o Iraque foi assinado pelo ex-presidente George W Bush em novembro de 2008. Segundo o texto, todos os militares dos EUA, mais o pessoal civil, devem estar fora do Iraque dia 31/12/ 2011, à meia noite. Se os EUA não honrarem o acordo, estarão tecnicamente em guerra contra o Iraque – com soldados postos ilegalmente em território estrangeiro sem consentimento do Congresso dos EUA.

Não há absolutamente qualquer sinal de que esse acordo SOFA será prorrogado antes de vencer, embora o governo de Maliki, sob pressão total, sempre possa pedir que o governo de Obama prorrogue a ocupação do Iraque. Mas, para fazer isso, Maliki precisa do voto dos Sadristas – que são parte do governo. Por isso, a mensagem de Muqtada é, de fato, recado duríssimo, e aviso, a Maliki. 

Aliás, falando nisso, não se trata só dos 47 mil soldados dos EUA que permanecem ainda no Iraque. Trata-se também do fim do capítulo iraquiano do império de bases militares dos EUA (no mesmo sábado, houve manifestações gigantes próximas das bases dos EUA em Kirkuk, Dhi Qar e da base al-Asad, na província de Anbar).

Não surpreende que o alerta vermelho tenha disparado no governo Obama e no Pentágono. O vice-presidente Joe Biden telefonou imediatamente para Maliki, logo que Gates deixou o Iraque, para manter a pressão. Os deputados iraquianos, por sua vez, não se cansam de repetir que, seja o que for, terá de ser aprovado pelo parlamento. E Muhammad Salman, do partido sunita Iraqiya (muitos sunitas são nacionalistas que também querem ver os EUA pelas costas) já falam até de referendum popular contra a prorrogação do SOFA.

O próprio acordo SOFA deveria ter sido aprovado (ou não) por referendum, o que jamais aconteceu. Em resumo, os únicos atores que querem que os EUA permaneçam como força militar no Iraque, são os militares do Curdistão iraquiano – porque temem ser vencidos pelo poder superior dos árabes iraquianos.

Na essência, Washington está sem saber o que fazer, depois de a Casa de Saud ter jogado sozinha, em manifestação de força no Bahrain – favorecendo uma contrarrevolução violentíssima, impondo o pior ramo sunita intolerante/ repressivo/militarista contra os xiitas de todo o Golfo. Os xiitas do Golfo estão furiosos, como, também, os xiitas iraquianos. Mas ninguém pode inferir disso que aumentará a influência do Irã sobre todos esses xiitas. O governo Maliki é amigo do Irã – mas isso não implica que, sem os coturnos norte-americanos em terra iraquiana, Bagdá se converterá em protetorado do Irã.

Os xiitas iraquianos também acusam rotineiramente os ricos Wahhabis da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos de ter financiado a guerrilha sunita mais violenta durante a guerra civil no Iraque entre 2005 e 2007 (acusações que ouvi, ao vivo, naquela época, em Bagdá).

Mas o que mais preocupa Washington é o futuro da 5ª Frota dos EUA, no Bahrain. A julgar pela jogada de poder dos sauditas, nada sugere que a base vá mudar de ancoradouro. E mesmo que mude, ganha quem apostar que se mude para o Qatar ou para os Emirados Árabes, onde seria muito bem recebida.

Fato é que, apesar de todas as diferenças e confusões, a maioria dos iraquianos, sunitas e xiitas querem que os EUA façam as malas e partam, e que o último soldado esteja fora do Iraque dia 31/12/2011 à meia noite. No caso muito pouco provável de que Bagdá solicite segurança aérea (mas... contra quem? A Casa de Saud?), os EUA ainda poderão arranjar alguma coisa a partir da base de al-Udeid, no Qatar. 

O governo Maliki não pensa em suicídio. Esqueçam, pois qualquer prorrogação do acordo SOFA. É praticamente certo que dia 31/12/2011, o trágico capítulo iraquiano da construção de um império mundial de bases militares dos EUA estará, afinal, acabado.


Notas de tradução
[1] Para saber quem é, ver, por exemplo “Perfil”, da BBC, em ; e Hassan Nasrallah and Muqtada al-Sadr”, Patrick Vibert, Foreign Policy, Líbano.
[2] Os acordos sobre estado das forças [ing. Status Of Forces Agreement (SOFA)] são acordos entre país hospedeiro e país estrangeiro que tenha forças militares no país hospedeiro. Os acordos SOFA são em geral incluídos no conjunto de acordos de segurança que se assinam entre países, no caso de haver forças militares de um, em território do outro. Os acordos SOFA definem os direitos e privilégios do pessoal estrangeiro que trabalha em programas de segurança.