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quinta-feira, 21 de março de 2013

E a crise econômica não larga o nosso pé


19/3/2013, cmaukonen, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

cmaukonen
Quer dizer... Como é possível que uma pequena ilha como Chipre e seus bancos estejam provocando tanta consternação e pressão alta em toda a Europa e por que todos se preocupam tanto? Richard Wolff oferece uma boa explicação. A entrevista foi ao ar pela rádio KPFA [1], da qual gravei um clip de áudio que subi para a minha página para quem quiser ouvir todo o programa [em inglês].

Ofereço aqui um resumão da entrevista.

A Eurozona é um desenvolvimento do Mercado Comum Europeu (MCE), também chamado Comunidade Econômica Europeia [Na Wikipedia há entradas que explicam o que são, em português. Procure e leia lá, se quiser saber mais (NTs)].

A Comunidade Econômica Europeia (CEE) foi organização internacional criada pelo Tratado de Roma em 1957. Tinha o objetivo de fazer a integração econômica, incluindo um mercado comum, entre os seis países fundadores: Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos e Alemanha Ocidental. A CEE ficou também conhecida como Mercado Comum, no mundo de língua inglesa; às vezes também chamada de Comunidade Europeia, mesmo antes de receber esse segundo nome oficialmente, em 1993.

A CEE herdou um conjunto de instituições já existentes: a Comunidade Europeia de Carvão e Aço [orig. European Coal and Steel Community (ECSC)] e a Comunidade Europeia de Energia Atômica [orig. European Atomic Energy Community (EURATOM)] as duas primeiras comunidades europeias criadas, nos termos do Tratado de Bruxelas, de 1965.

Quando se aprovou e passou a viger o Tratado de Maastricht, em 1993, a Comunidade Econômica Europeia recebeu o novo nome de Comunidade Europeia, para evidenciar que cobria campo mais amplo de países e políticas. Foi quando as três comunidades europeias (as duas acima e a Comunidade Europeia) passaram a constituir o primeiro dos três pilares da União Europeia – fundada pelo Tratado de Maastricht. A Comunidade Europeia existiu nesse formato até ser abolida em 2009 pelo Tratado de Lisboa, que misturou os três pilares anteriormente existentes e declarou que a União Europeia “sucedia e substituía a Comunidade Europeia”.

O Monstro da Lagoa Negra da Eurozona
É. A coisa começou assim. Para permitir o livre comércio entre os vários países reunidos em comunidade, houve algumas novidades, entre as quais uma moeda comum. Em teoria, parecia tudo muito bem, mas havia várias falhas. Por exemplo, criou-se um banco central, mas não se criou governo central. A CE só tem poder, de fato, para imprimir dinheiro. Não tem meios para interferir na política dos estados membros. Sequer pode influir nos bancos dos estados membros. Os estados permaneceram autônomos. Quando a nova moeda entrou em circulação, tinha o objetivo – mais ou menos – de substituir as moedas nacionais, à base de 1:1, apesar de o câmbio, em vários momentos não seguir essa “ordem”.

Estavam reunidos todos os ingredientes de um inevitável desastre. Como hoje se sabe, o frenesi em que entraram os bancos, e os riscos que assumiram nos EUA e na Europa, geraram dívidas monstruosas. As dívidas venceram, como se deveria prever que venceriam, mas ninguém previu, e os devedores não tinham como pagar.

O que tudo isso tem a ver com os bancos de Chipre? Afinal, não podem ser bancos assim tão gigantescos a ponto de que, se eles quebrarem, quebram as finanças planetárias... Não poderiam ser, mas... como Richard Wolff explica na entrevista, eles são. Os bancos de Chipre são muito maiores que esse minúsculo país que vive de turismo e de uns poucos barcos os quais, é claro, jamais poderiam gerar tais bancos, nem tais dívidas.

Durante os anos de fantasia e delírio econômico dos anos 1990s, aqueles bancos trataram de atrair a maior quantidade de negócios e de dinheiro que pudessem. Queriam participar também daquela orgia. Para isso, atraíram grandes depositantes da Rússia e da Europa e também dos EUA. E passaram também a emprestar dinheiro a gente e a governos que, adiante, já não tiveram como pagar os empréstimos. Evidentemente, aqueles bancos também especularam contra os empréstimos que eles mesmos faziam – exatamente como fizeram também nos EUA.

Assim, lá, como nos EUA e na Europa, banqueiros e especuladores fizeram apostas tresloucadas, assumiram riscos grandes demais e, agora, estão à beira de quebrarem. E, dessa vez, ninguém – nenhum outro banco, nenhum outro governo, nenhum outro especulador – dá qualquer sinal de interesse em “resgatá-los”. Ao contrário, parecem interessados em fazer os bancos de Chipre pagarem por todos os pecados e falhas do capitalismo.

De fato, todos eles se autoencurralaram. Trancaram-se num contêiner furado, no qual está entrando água. Porque, se deixarem que os bancos quebrem, fatias cada vez maiores da economia ir-se-ão também por água abaixo, o que causará mais desemprego, mais agitação social e depositantes e acionistas carregados de ações e papeis desses bancos e desses países verão todos os seus papéis derreterem como papéis podres. E se continuarem a jogar mais e mais dinheiro nesse poço sem fundo devorador de moedas, o movimento pode facilmente levar a inflação massiva e desvalorização do euro, o que acabará por matar o comércio (livre, mas morto). O que, por sua vez, ferirá fundamente a Alemanha, cuja economia depende de exportações.

Mas se os banqueiros insistirem em apertar os devedores, o consumo continuará a cair, o que também não interessa ao comércio (livre, mas inexistente). Assim, como Richard Wolff explica, temos uma crise que está fugindo a qualquer controle e ninguém sabe o que fazer.

Agora, resolveram tentar uma “solução” recém inventada, e Chipre é a cobaia. Os bancos vão confiscar diretamente o dinheiro dos depositantes – cidadãos dos países e os grandes depositantes que têm dinheiro depositado naqueles bancos de Chipre – para tentar conter a maré. O risco, nesse caso, é gerar uma corrida aos bancos, com todos tentando arrancar dali o próprio dinheiro e transferi-lo para outro lugar onde esteja mais seguro. Nesse caso, os bancos quebram, não aos poucos, mas muito, muito, muito rapidamente.

Como isso nos afetará aqui nos EUA? Ora... Não estão percebendo?

Richard Wolff
Já cortaram os serviços públicos de assistência social, Medicare, Medicaid, Segurança Social. O que sobrou? E se os bancos de Chipre falirem, o que vocês acham que acontecerá aos bancos norte-americanos que ainda têm dinheiro depositado lá? Dinheiro da Grécia, da Itália, da Espanha, de Portugal, de... E têm dinheiro investido nas bolsas e têm dinheiro aplicado em papéis desses países?

É típica situação de Catch 22 (“se você se declarar louco, para escapar de ser mandado para a guerra, o Exército conclui que, nesse caso, você está perfeitamente lúcido... e o manda para a guerra”).

Ainda que consigam controlar a situação em Chipre, quem será o próximo? [2] Como Richard Wolff explica, o problema é o sistema capitalista. Não um ou outro “estado-membro”.



Notas dos tradutores

[1] KPFA (94.1 FM) é uma emissora de rádio mantida pelos ouvintes, de orientação progressista, operada de Berkeley, California, que transmite para a Área da Baía de San Francisco.

[2] “Deus é nosso pastor e nada nos faltará... mas, por via das dúvidas, os EUA temos a bomba atômica”; Vídeo de Tom Lehrer a seguir:

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Os muito ricos e o mito de que seriam “criadores de empregos”


31/5/2012, *Paul Buchheit, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Em 1889, em seu artigo O Evangelho da Riqueza [Gospel of Wealth], Andrew Carnegie ensinava que os norte-americanos deveriam considerar bem vinda a concentração da riqueza nas mãos de poucos, porque “a superior sabedoria, experiência e habilidade” dos ricos garantiria benefícios para todos.

Mais recentemente, Edward Conard, autor de Unintended Consequences: Why Everything You've Been Told About the Economy Is Wrong [Consequências indesejadas: por que tudo que lhe contaram sobre a economia está errado], disse: “Como sociedade, não estamos oferecendo aos nossos raros talentos recompensa suficiente. Estamos pagando pouco aos que correm riscos.  [1]

Será verdade? Será que, se dermos todo o dinheiro aos norte-americanos mais ricos, estará garantido que o empregarão sabiamente e que criarão empregos e estimularão os investimentos em pequenos negócios e, assim, beneficiarão toda a sociedade? Isso parece ser o que pensam os 18 altos executivos de grandes empresas que escreveram, em carta ao Secretário do Tesouro Timothy Geithner, que qualquer aumento nos impostos sobre ganhos de capital reduzirá o investimento, “quando precisamos formar capitais nos EUA para criar empregos e expandir nossa economia.”

Os 18 empresários e executivos que assinam a carta não listam qualquer prova a favor de suas ideias, porque não há o que prove esse tipo de delírio. Os fatos são outros:

Os muito ricos não gostam de investimentos de risco

Analistas de mercado de Marketwatch estimam que mais de 90% do patrimônio acumulado pelos milionários está aplicado numa combinação de investimentos de baixo risco (bonds e dinheiro), no mercado de ações e em propriedade imobiliária. Segundo o economista Richard Wolff cerca de metade do patrimônio do 1% mais rico está aplicado em fundos não incorporados (contas comerciais pessoais). O  Wall Street Journal  anota que cerca de mais de ¾ do patrimônio dos que valem individualmente mais de $20 milhões está investido em fundos hedge.

A parte do investimento aplicada em negócios iniciantes  em 2011 não chegou a 1% dos investimentos dos ricos nos EUA.

A pesquisa de Mendelsohn Affluent Survey confirmou que os muito ricos gastam menos de 2% do próprio dinheiro para estimular negócios iniciantes. A última coisa que querem, pelo que se pode ver, é investir no arriscadíssimo negócio de contratar gente para inovar.

Os muitos ricos não gostam de arriscar em empregos

Os profissionais da alta gerência e da administração financeira representavam, em 2005, cerca de 60% do 1% de norte-americanos mais ricos. Os empresários empreendedores não chegavam a 3%.  Estudo recente constatou que menos de 1% de todos os empresários empreendedores vinham de ambientes muito ricos ou muito pobres.

A grande massa dos investimentos dos norte-americanos mais ricos toma o rumo do exterior – para fora dos EUA, onde os mais ricos aplicam 57% do próprio dinheiro e enchem suas fábricas com trabalhadores mal remunerados e superexplorados. Números do Departamento de Comércio mostram que as empresas norte-americanas cortaram cerca de 2,9 milhões de empregos nos EUA entre 2000 e 2009. Ao mesmo tempo, criaram 2,4 milhões de subempregos fora dos EUA.


O mais provável é que os muito ricos absolutamente nunca pensem em criar empregos, sejam quais forem, nos EUA. Pesquisas mostram que 60% dos investidores com patrimônio de $25 milhões ou mais estão investindo no exterior até 1/3 de tudo que têm. Nos EUA, a riqueza extra que teria sido criada pelos cortes de impostos da era Bush evaram aos “piores números do trabalho, de toda a história”. O grande criador de empregos nos EUA, como diria Nick Hanauer, [2] é o consumidor de classe média.

As empresas norte-americanas muito ricas não gostam de investir nos EUA

Como as empresas gastam o próprio dinheiro? Em larga medida, não gastam. Segundo a agência Moody's, o caixa de empresas não financeiras norte-americanas subiu 3% entre 1980 e 2011 e chega hoje a $1,24 trilhões. A razão patrimônio/dinheiro  das empresas quase triplicou entre 1980 e 2010. Estima-se que o dinheiro paralisado  como reserva de caixa nas empresas norte-americanas bastaria para manter empregados 3,5 milhões de pessoas a mais, durante cinco anos, com salário anual de $40 mil dólares.

As empresas que mais preservam suas reservas de caixa, entre as quais Apple, Google, Intel, Coca Cola e Chevron, gastam seu dinheiro na recompra de ações (o que faz subir o preço das ações preferenciais), em dividendos para investidores e na compra de empresas subsidiárias. Segundo Bloomberg, a recompra de ações alcança hoje um dos mais altos picos dos últimos 25 anos.

A empresa Apple alega ter criado 500 mil empregos para a economia dos EUA, mas aí estão contados entusiastas da construção de aplicativos e os motoristas da Fedex que entregam iPhones a domicílio. A Apple emprega hoje nos EUA 47 mil pessoas: é 1/10 da força de trabalho da General Motors nos anos 1990s.

Os riquíssimos investem, isso sim, no exterior. Também investem mais em “drenar cérebrospara o exterior – empresários, cientistas, médicos – do que em apoiar a melhoria da educação nos EUA.

Há um campo no qual as grandes empresas gostam de gastar dinheiro: em bônus aos altos executivos. Bancos, sobretudo, cujos gastos extras são muitas vezes cobertos por empréstimos de juro zero que lhes garante o FED - Federal Reserve.

Os mais ricos – indivíduos e empresas – são muito bons em acumular fortunas. E são melhores ainda na arte de cultivar o mito de que seriam “criadores de empregos”.



Notas de rodapé
[1] New York Times, 1/5/2012, “The Purpose of Spectacular Wealth, According to a Spectacularly Wealthy Guy” [O objetivo da riqueza espetacular, segundo alguém espetacularmente rico], assinado por Adam Davidson, onde se lê:

“(...) recentemente, encontrei Edward Conard na 5ª. Avenida, entre a Av. Madison e a Rua 57, bem em frente de seu escritório [na empresa] Bain Capital, o Fundo de Investimento em Participações que ele ajudou a converter em negócio multibilionário, à custa de comprar empresas em frangalhos, consertá-las e revendê-las com gordos lucros. Conard, que se aposentou há três anos, quando completou 51 anos, não é membro só do 1%: é membro também do 0,1%. Sua fortuna está na casa das centenas de milhões: vive em uma casa no Upper East Side, perto da 5ª. Avenida; e é um dos principais doadores de campanha de seu antigo patrão, depois sócio, e amigo, Mitt Romney”.

Conard pode ser ouvido, em entrevista a Fareed Zakaria, da CNN, a seguir:

[2] Para saber quem é, ver em: “Raise Taxes on Rich to Reward True Job Creators: Nick Hanauer” (em inglês) E também em: “TED rejeita palestra de um capitalista contra o papel dos capitalistas(em português)

 
*Paul Buchheit é professor universitário, membro ativo dos US Uncut Chicago, fundador e desenvolvedor de sites educacionais e promotores de justiça social (UsAgainstGreed.org, PayUpNow.org, RappingHistory.org); e autor e editor principal do “American Wars: Illusions and Realities” (Clarity Press). e-mail: paul@UsAgainstGreed.org .

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A política da linguagem e a linguagem da regressão política


por James Petras

O capitalismo e os seus defensores mantêm a dominação através dos “recursos materiais” sob o seu comando, especialmente o aparelho de estado, e suas empresas produtivas, financeiras e comerciais, bem como através da manipulação da consciência popular via ideólogos, jornalistas, acadêmicos e publicitários que fabricam os argumentos e a linguagem para enquadrar as questões do dia. 

Hoje as condições materiais para a vasta maioria dos trabalhadores deterioram-se drasticamente, pois a classe capitalista descarrega todo o fardo da crise e da recuperação dos seus lucros sobre as costas das classes assalariadas.

Um dos aspectos gritantes deste contínuo rebaixamento de padrões de vida é a ausência até agora de um grande levantamento social. A Grécia e a Espanha, com mais de 50% de desemprego na faixa etária dos 16-24 anos e aproximadamente 25% de desemprego geral, experimentaram uma dúzia de greves gerais e numerosos protestos nacionais com muitos milhões de pessoas; mais não provocou qualquer mudança real de regime ou de política.

As demissões em massa, os salários achatados, os cortes em pensões e serviços sociais continuam.

Protestos na Itália
Em outros países, como a Itália, França e Inglaterra, protestos e descontentamento manifestam-se na arena eleitoral, com governantes afastados e substituídos pela oposição tradicional. Mas no decorrer da agitação social e da profunda erosão socioeconômica, das condições financeiras e de padrão de vida, a ideologia dominante que informa os movimentos, sindicatos e oposição política é reformista: Apelos para defender benefícios sociais existentes, aumentar despesas públicas e investimentos, pela expansão do papel do estado onde a atividade do setor privado deixou de investir ou empregar. Em outras palavras, a esquerda propõe conservar um passado em que o capitalismo estava arreado com o estado previdência. 

O problema é que este “capitalismo do passado” foi-se e um novo capitalismo mais virulento e intransigente emergiu forjando uma nova estrutura mundial e um poderoso aparelho de estado obstinado e imune a todos os apelos por “reforma” e reorientação.

A confusão, frustração e má direção da oposição popular de massa é, em parte, devido à adoção por escritores, jornalistas e acadêmicos de esquerda dos conceitos e linguagem adotados pelos seus adversários capitalistas; linguagem concebida para obscurecer as verdadeiras relações sociais de exploração brutal, o papel central das classes dominantes na reversão de ganhos sociais e as ligações profundas entre a classe capitalista e o estado.

Publicitários, acadêmicos e jornalistas elaboraram toda uma litania de conceitos e termos que perpetuam o domínio capitalista e desviam seus críticos e suas vítimas dos que perpetram o seu drástico deslizamento rumo ao empobrecimento em massa.  

Mesmo quando formulam suas críticas e denúncias, os críticos do capitalismo utilizam a linguagem e os conceitos dos seus apologistas.

Na medida em que a linguagem do capitalismo entrou no linguajar geral da esquerda, a classe capitalista estabeleceu a hegemonia ou dominação sobre os seus antigos adversários. Pior, a esquerda, ao combinar alguns dos conceitos básicos do capitalismo com a crítica aguda, cria ilusões acerca da possibilidade de reformar “o mercado” para servir objetivos populares. Isto faz com que falhe a identificação das ideias mestras das forças sociais que devem ser expulsas dos comandos da economia e do imperativo de desmantelar o estado dominado pela classe. 


Enquanto a esquerda denuncia a crise capitalista e os salvamentos do estado, a sua própria pobreza de pensamento mina o desenvolvimento da ação política de massa.

Neste contexto a “linguagem” da ocultação torna-se uma “força material” – um veículo do poder capitalista, cuja utilização primária é desorientar e desarmar seus críticos intelectuais através do uso de termos, estruturas conceptuais e linguagem que dominam a discussão da crise capitalista.  

Eufemismos-chave à serviço da ofensiva capitalista  

Os eufemismos têm um duplo significado: O que os termos implicam (connote) e o que eles realmente significam. Concepções eufemísticas sob o capitalismo implicam uma realidade favorável ou comportamento aceitável e atividade totalmente dissociada do engrandecimento da riqueza da elite e da concentração de poder e privilégio.

Os eufemismos disfarçam o impulso das elites do poder para impor medidas específicas de classe e para reprimir sem serem adequadamente identificados, responsabilizados e opostos pela ação popular de massa. 

Protestos na Espanha
O eufemismo mais comum é a palavra “mercado”, a qual é dotada de características e poderes humanos. Como tal, dizem-nos que “o mercado exige cortar salários” desligado da classe capitalista.

Mercados, intercâmbio de mercadorias ou compra e venda de bens, têm existido há milhares de anos em diferentes sistemas sociais em contextos altamente diferenciados. Eles têm sido globais, nacionais, regionais e local. Envolvem diferentes atores socioeconômicos e compreendem unidades econômicas muito diferentes, as quais vão desde casas comerciais gigantes promovidas pelo Estado até ao nível de aldeias camponesas de semi-subsistência e praças de cidades.

Existiram “mercados” em todas as sociedades complexas: escravocratas, feudais, mercantis e em primitivas ou tardias sociedades capitalistas competitivas, monopolistas industriais e financeiras. 

Ao discutir e analisar “mercados” e compreender as transações (quem beneficia e quem perde), deve-se claramente identificar as classes sociais que dominam as transações econômicas.

Escrever na generalidade acerca de “mercados” é enganoso porque os mercados não existem independentemente das relações sociais que definem o que é produzido e vendido, como é produzido e que configurações de classe modelam o comportamento dos produtores, vendedores e do trabalho.

A realidade do mercado de hoje é definida por corporações e bancos multinacionais gigantescos, os quais dominam o trabalho e os mercados de commodities. Escrever de “mercados” como se operassem numa esfera acima e para além das brutais desigualdades de classe é esconder a essência das relações de classe contemporâneas. 

Fundamental para qualquer entendimento, mas ignorado pela discussão contemporânea, é o poder incontestado dos proprietários capitalistas dos meios de produção e de distribuição, a propriedade capitalista da publicidade, os banqueiros capitalistas que concedem ou negam crédito e os responsáveis do estado nomeados pelos capitalistas que “regulamentam” ou desregulamentam relações de troca.

Os resultados das suas políticas são atribuídos às eufemísticas exigências do “mercado” as quais parecem estar divorciadas da realidade brutal. Portanto, como insinuam os propagandistas, ir contra “o mercado” é opor-se ao intercâmbio de bens.

Isto é claramente absurdo.

Em contraste, identificar exigências capitalistas sobre o trabalho, incluindo reduções em salários, bem-estar e segurança, é confrontar uma forma exploradora específica de comportamento de mercado onde capitalistas procuram ganhar lucros mais altos contra os interesses e o bem-estar da maioria dos trabalhadores assalariados. 

Ao confundirem relações de mercado exploradoras sob o capitalismo com mercados em geral, os ideólogos alcançam vários resultados. Eles disfarçam o papel principal dos capitalistas quando evocam uma instituição com conotações positivas, isto é, um “mercado” onde pessoas compram bens de consumo e “socializam-se” com amigos e conhecidos. Por outras palavras, quando “o mercado”, o qual é retratado como um amigo e benfeitor da sociedade, impõe políticas presumivelmente penosas é para o bem-estar da comunidade. Os propagandistas dos negócios fazem com que o público acredite que ao mercadejarem sua virtuosa imagem do “mercado” eles mascaram o comportamento predatório do capital na caça por maiores lucros.

Protestos na Grécia
Um dos eufemismos mais comuns lançado em meio a esta crise econômica é “austeridade”, um termo utilizado para encobrir as duras realidades de cortes draconianos em salários, pensões e bem-estar público e o aumento drástico de impostos regressivos (IVA).

Medidas de “austeridade” significam políticas para proteger e mesmo aumentar subsídios do estado a negócios, criar lucros mais altos para o capital e maiores desigualdades entre os 10% do topo e os 90% da base. "Austeridade" implica auto-disciplina, simplicidade, parcimônia, poupança, responsabilidade, limites em luxos e gastos supérfluos, evitar a satisfação imediata em benefício da segurança futura – uma espécie de calvinismo coletivo. A conotação da palavra é o sacrifício compartilhado hoje para bem-estar futuro de todos.

Contudo, na prática “austeridade” descreve políticas que são concebidas pela elite financeira para implementar reduções no padrão de vida de uma classe específica e em serviços sociais (tais como saúde e educação) disponíveis para trabalhadores e empregados assalariados. Significa que fundos públicos podem ser desviados numa extensão ainda maior para pagar altos juros a possuidores de títulos ricos enquanto sujeitam a política pública aos ditames dos senhores do capital financeiro. 

Ao invés de falar de “austeridade”, com sua conotação de severa auto-disciplina, os críticos de esquerda deveriam descrever claramente as políticas da classe dominante contra o trabalho e as classes assalariadas, as quais aumentam desigualdades e concentram no topo ainda mais riqueza e poder. Políticas de “austeridade” são, portanto, uma expressão de como as classes dominantes utilizam o estado para comutar o fardo do custo da sua crise econômica para cima do trabalho.

Os ideólogos das classes dominantes apropriaram-se de conceitos e termos, os quais a esquerda originalmente utilizou para o avanço de melhorias em padrões de vida e que se voltaram contra si.

Dois destes eufemismos, tomados da esquerda, são “reforma” e “ajustamento estrutural”.

"Reforma”, durante muitos séculos, referia-se a mudanças, as quais diminuíam desigualdades e aumentavam a representação popular. "Reformas" eram mudanças positivas que promoviam o bem-estar público e a restrição do abuso de poder por regimes oligárquicos ou plutocráticos.

Ao longo das últimas três décadas, contudo, importantes acadêmicos, economistas, jornalistas e responsáveis pelo sistema financeiro internacional subverteram o significado de “reforma” transformando-o no seu oposto: agora refere-se à eliminação de direitos do trabalho, ao fim da regulamentação pública do capital e à redução de subsídios públicos que tornavam a alimentação e o combustível acessíveis aos pobres.

No vocabulário capitalista de hoje “reforma” significa reverter mudanças progressistas e restaurar os privilégios de monopólios privados.

“Reforma” significa acabar com a segurança de emprego e facilitar demissões maciças de trabalhadores pela minimização ou mesmo a eliminação da indenização por demissão.

“Reforma” já não significa mudanças sociais positivas; agora significa reverter aquelas mudanças arduamente conquistas e restaurar o poder irrestrito do capital. Significa um retorno à fase primitiva e mais brutal do capital, antes de existirem organizações de trabalhadores e quando a luta de classe era suprimida. Portanto “reforma” agora significa restaurar privilégios, poder e lucro para os ricos. 

De um modo semelhante, os cortesãos linguísticos da profissão econômica puseram o termo “estrutural”, como em “ajustamento estrutural”, ao serviço do poder desenfreado do capital.

Ainda na década de 1970 a mudança “estrutural” referia-se à redistribuição da terra dos grandes latifundiários para os destituídos de terra; uma mudança de poder dos plutocratas para as classes populares.

“Estruturas” referia-se à organização do poder privado concentrado no estado e na economia.

Hoje, contudo, “estrutura” refere-se às instituições e políticas públicas, as quais tiveram origem nas lutas do trabalho e da cidadania para proporcionar segurança social, para proteger o bem-estar, saúde e aposentadoria de trabalhadores.

“Mudanças estruturais” são, agora, o eufemismo para esmagar aquelas instituições públicas, acabar com os constrangimentos ao comportamento predatório do capital e destruir a capacidade do trabalho para negociar, lutar ou preservar seus avanços sociais.

O termo “ajustamento”, como em “ajustamento estrutural” (AS), é em si próprio um eufemismo suave que implica sintonia fina, a modulação cuidadosa de instituições e políticas públicas que apoiam a saúde e o equilíbrio. Mas, na realidade, “ajustamento estrutural” representa um ataque frontal ao setor público e um desmantelamento geral de legislação protetora e de agências públicas organizadas para proteger o trabalho, o ambiente e os consumidores.

“Ajustamento estrutural” mascara um assalto sistemático aos padrões de vida do povo em benefício da classe capitalista.

A classe capitalista tem cultivado uma safra de economistas e jornalistas que apregoam políticas brutais em linguagem suave, evasiva e enganosa a fim de neutralizar a oposição popular. Infelizmente, muito dos seus críticos “de esquerda” tendem a apoiar-se na mesma terminologia.

Dada a corrupção generalizada da linguagem, tão difusa nas discussões contemporâneas acerca da crise do capitalismo, a esquerda deveria cessar de se apoiar neste conjunto enganoso de eufemismos apropriados pela classe dominante.

É frustrante ver quão facilmente as expressões seguintes entram no nosso discurso:

“Disciplina de mercado” – O eufemismo “disciplina” denota uma fortaleza de caráter séria e consciente em face de desafios em contraposição a comportamento irresponsável, escapista. Na realidade, quando vai a par com “mercado”, refere-se a capitalistas a aproveitarem-se de trabalhadores desempregados e utilizarem sua influência política e o poder de despedirem massas de trabalhadores e intimidar os empregados remanescentes para maior exploração e excesso de trabalho, produzindo portanto mais lucro com pagamento menor. Ela também cobre a capacidade de grandes senhores capitalistas elevarem sua taxa de lucro cortando os custos sociais de produção, tais como proteção ambiental e do trabalhador, cobertura de saúde e pensões.

“Choque de mercado” – Refere-se a capitalistas ocupados com maciças abruptas e brutais demissões, cortes em salários e eliminação de planos de saúde e pensões a fim de melhorar cotações de ações em Bolsa, aumentar lucros e assegurar maiores bônus para gerentes,diretores e patrões. Ao ligar o termo suave e neutro de “mercado” com “choque”, os apologistas do capital disfarçam a identidade dos responsáveis por tais medidas, suas consequências brutais e os imensos benefícios desfrutados pela elite.  

“Exigências do mercado” – Esta frase eufemística é destinada a antropomorfizar uma categoria econômica, afastar a crítica de proprietários reais de carne e osso, dos seus interesses de classe e do seu despótico estrangulamento do trabalho. Ao invés de “exigências de mercado”, a frase deveria ser lida: “a classe capitalista ordena aos trabalhadores que sacrifiquem seus próprios salários e saúde para assegurar mais lucro para as corporações multinacionais” – um conceito claro que provavelmente despertará a ira daqueles adversamente atingidos.

“Livre empresa” – Um eufemismo que é a combinação de dois conceitos reais: empresa privada para lucro privado e competição livre. Ao eliminar a imagem subjacente do ganho privado para os poucos contra o interesse dos muitos, os apologistas do capital inventaram um conceito que enfatiza as virtudes individuais de “empresa” e “liberdade” em oposição aos vícios econômicos reais da cobiça e da exploração.

“Mercado livre” – Um eufemismo que implica competição livre, justa e igual em mercados não regulados encobrindo a realidade da dominação de mercado por monopólios e oligopólios dependentes de maciços salvamentos do estado em tempos de crise capitalista. “Livre” refere-se especificamente à ausência de regulamentações públicas e intervenção do estado para defender a segurança dos trabalhadores bem como a do consumidor e a proteção ambiental. Em outras palavras, “liberdade” mascara a destruição desumana da ordem cívica por capitalistas privados através do seu exercício desenfreado do poder econômico e político. “Mercado livre” é o eufemismo para o domínio absoluto de capitalistas sobre os direitos e meios de vida de milhões de cidadãos, na essência uma verdadeira negação da liberdade.

“Recuperação econômica” – Esta frase eufemística significa a recuperação de lucros pelas grandes corporações. Ela disfarça a ausência total de recuperação de padrões de vida para as classes trabalhadora e média, a reversão de benefícios sociais e as perdas econômicas de detentores de hipotecas, devedores, os desempregados a longo prazo e proprietários de pequenos negócios em bancarrota. O que é encoberto na expressão “recuperação econômica” é como o empobrecimento em massa se torna uma condição chave para a recuperação de lucros corporativos.

“Privatização” – O termo descreve a transferência de empresas públicas, habitualmente aquelas lucrativas, para capitalistas de grande escala privados, bem conectados, a preços bem abaixo do seu valor real, levando à perda de serviços públicos, emprego público estável e custos mais elevados para os consumidores pois os novos proprietários privados elevam preços e despedem trabalhadores – tudo em nome de outro eufemismo: “eficiência”.

“Eficiência” – Eficiência aqui refere-se apenas ao balanço de uma empresa; não reflete os custos pesados da “privatização” arcados por setores relacionados da economia. Exemplo: “privatizações” dos transportes aumentam custos de negócios a montante a jusante tornando-os menos competitivos em comparação com competidores em outros países; “privatização” elimina serviços em regiões que são menos lucrativas, levando ao colapso econômico local e ao isolamento dos mercados nacionais.
Frequentemente, responsáveis públicos, que estão alinhados com capitalistas privados, desinvestem deliberadamente em empresas públicas e nomeiam compadres políticos incompetentes como parte da política clientelista, a fim de degradar serviços e fomentar descontentamento público. Isto cria uma opinião pública favorável a “privatização” da empresa. Por outras palavras, a “privatização” não é um resultado das ineficiências inerentes das empresas públicas, como os ideólogos do capital gostam de argumentar, mas um ato político deliberado destinado o ganho do capital privado à custa do bem-estar público.

Conclusão  

Linguagem, conceitos e eufemismos são armas importantes na luta de classes “dos de cima” concebidos por jornalistas e economistas capitalistas para maximizar a riqueza e o poder do capital.

Na medida em que críticos progressistas e de esquerda adotam estes eufemismos e seu quadro de referência, as críticas e alternativas que propõem são limitadas pela retórica do capital.

Colocar “aspas” em torno dos eufemismos pode ser um sinal de desaprovação mas isto não promove o quadro analítico diferente que é necessário para o êxito da luta de classes dos “de baixo”.

Igualmente importante, deixa de lado a necessidade de uma ruptura fundamental com o sistema capitalista incluindo sua linguagem corrompida e seus conceitos enganosos.

Os capitalistas subverteram em grande medida ganhos fundamentais da classe trabalhadora e estamos caindo outra vez em direção ao domínio absoluto do capital.

Isto deve relançar a questão de uma transformação socialista do estado, da economia e da estrutura de classe. Uma parte integral desse processo deve a rejeição total dos eufemismos utilizados pelos ideólogos capitalistas e a sua substituição sistemática por termos e conceitos que verdadeiramente reflitam a implacável realidade, que claramente identifiquem os perpetradores deste declínio e que definam as agências sociais para a transformação política 

18/Maio/2012

O artigo original, em inglês, encontra-se em: “The Politics of Language and the Language of Political Regression
Esta tradução foi extraída de Resistir 
Imagens colhidas na internet pela redecastorphoto

sábado, 19 de novembro de 2011

Occupy Wall Street! (Ou Cherchez a imprensa-empresa!)


Em que momento PERDEMOS esse bom senso HISTÓRICO, MONUMENTAL?!


Thomas Jefferson (Escultura)





Carta de Thomas Jefferson a Albert Gallatin, 13/12/1803, 
“Memorial Edition” (20 Vols., 1903-04) Vol. 10, pg. 437.  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



“Penso sobre a ideia de estabelecer-se uma filial do Banco dos EUA em New Orleans. Esse banco é dos que mais claramente hostiliza mortalmente os princípios e a forma de nossa Constituição. Hoje, o país está forte e unido em torno da Constituição. Hoje, a nação dificilmente seria abalada por aquele banco. 

Mas suponha que eventos ocorram, capazes de pôr em dúvida a competência de um governo republicano para enfrentar crise muito grave ou grave perigo, algo capaz de abalar a confiança do povo em seus funcionários públicos governantes. Para mim, nenhum governo estará jamais seguro, se se deixar prender em posição de vassalagem, submetido a autoridades privadas autoconstituídas, como são os bancos. 

E que portentoso inimigo da nação e de nossa democracia seria esse Banco dos EUA, em tempos de guerra! 

Por que, portanto, deveríamos admitir que uma instituição tão poderosa, tão hostil, continue a crescer e estenda seus tentáculos também sobre New Orleans?” 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pepe Escobar – “O ocidente e o resto, em modelo tamanho único: Declínio e Queda da Turma Toda”

Pepe Escobar

25/9/2011, Tom Dispatch - Tomgram: Pepe Escobar, Will Asia Save Global Capitalism?
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Um sistema despido da própria essência

Número sempre crescente de especialistas concordam que a Ásia lidera o mundo, embora ainda só sirva para preencher vazios na narrativa ocidental da civilização. Mesmo assim, falar do “declínio do ocidente” é ideia perigosa. Referência histórica chave aí é o ensaio de Oswald Spengler, de 1918, com esse título [1]. Spengler, homem de seu tempo, pensava que a humanidade funcionasse mediante sistemas culturais únicos e que ideias ocidentais não seriam pertinentes a, ou transferíveis para, outras regiões do planeta. (Contem essa aos jovens egípcios na Praça Tahrir.)

Spengler, é claro, capturou o zeitgeist [al. no orig. “espírito do tempo”] de outro século, dominado pelo ocidente. Via as culturas como organismos que vivem e morrem, cada uma com alma única. O leste, o oriente, seria “mágico”, e o ocidente, “faustiano”. Misantropo reacionário, estava convencido de que o ocidente já alcançara o estágio supremo possível para civilização democrática – e, portanto, estaria destinado a conhecer o “declínio”.

Se lhe ocorreu que a coisa soa parecida com “choque de civilizações” “huntingtonesco” avant-la-lettre, não é pecado, porque se trata disso, exatamente.

Por falar em choques civilizacionais, será que alguém percebeu um tom de “pode até ser”, em recente matéria de capa da revista TIME, que retoma temas spenglerianos, sob a manchete “Declínio e Queda da Europa (e talvez do ocidente)” [2]? Nesse nosso momento pós-Spengleriano, o “ocidente” é com certeza os EUA, e como aquela revista poderia ter suposto que não seria? Talvez? Uma Europa hoje sob profunda crise financeira estará com certeza “declinante”, enquanto permanecer inextricavelmente entrelaçada com, e sempre curvada para, “o oeste” – quer dizer, Washington –, apesar de testemunhar a simultânea ascensão econômica do que, às vezes pejorativamente, é chamado “o sul”.

Pensem no atual momento capitalista global, não como “clash” [choque], mas como “cash” [venda a dinheiro] de civilizações.

Se Washington está zonza, operando no piloto automático, acontece em parte porque, historicamente falando, seu momento como “única superpotência” do globo, ou, mesmo como “hiperpotência”, mal durou os notórios 15 minutos de fama de Andy Warhol – da queda do muro de Berlin e colapso da União Soviética, até o 11/9 e a doutrina Bush. O novo século americano consumiu-se em três atos carregados de húbris: 11/9 (o contragolpe); invasão do Iraque (guerra preventiva); e quebradeira de Wall Street em 2008 (capitalismo de cassino).

Simultaneamente, se pode argumentar que a Europa ainda preserva suas oportunidades não-ocidentais, que, de fato, a periferia sonha cada vez mais com subtítulos europeus – não norte-americanos. A Primavera Árabe, por exemplo, focou-se em democracias parlamentares ao estilo europeu, não no sistema presidencial americano. Além disso, por mais financeiramente ansiosa que esteja, a Europa ainda é o maior mercado do mundo. Em vários campos tecnológicos, rivaliza hoje, ou ultrapassa, os EUA, enquanto monarquias regressivas do Golfo Persa recorrem ao euro (e compram propriedades imobiliárias de luxo em Paris e Londres) para diversificar os portfólios.

Com ‘líderes’ como o neonapoleônico Nicolas Sarkozy, David (das Arábias) Cameron, Silvio (“bunga bunga”) Berlusconi e Angela (Dear Prudence [3]) Merkel, que ou não têm imaginação ou têm competência, a Europa, com certeza, não precisa de inimigos. Mas, declinante ou não, a Europa ainda pode encontrar outro amor na vida, se puser de lado o atlanticismo e apostar pesadamente em seu destino euroasiático. Pode abrir as sociedades, economias e culturas à China, Índia e Rússia, e pode empurrar o sul da Europa para que se conecte mais profundamente com a ascendente Turquia, o resto do Oriente Médio, a América Latina e a África (e, para isso, não precisa convocar mais bombardeios ‘humanitários’ da OTAN).

Verdade é que os fatos em campo falam de algo que vai bem além do declínio do ocidente: falam do declínio de um sistema ocidental que, nos últimos anos, foi despido de sua essência. O historiador Eric Hobsbawm captou o espírito do momento, quando escreveu em How to Change the World [4] [Como mudar o mundo] que “o mundo transformado pelo capitalismo”, que Karl Marx descreveu em 1848, “em passagem de eloquência lacônica, sombria, é reconhecidamente o mundo do início do século 21”.

Numa paisagem na qual a política está sendo reduzida a espelho (quebrado) que reflete as finanças, e no qual produzir e poupar foram superados por consumir, pode-se já ver alguma coisa sistêmica. Como no verso famoso de William Butler Yeats, “o centro já não se mantém” [orig. the center cannot hold [5]] – e não se manterá [como centro coeso].

Se o ocidente deixa de ser o centro, o que, precisamente, deu errado?

Você está comigo, ou contra mim?

Vale a pena lembrar que o capitalismo foi “civilizado” graças à incansável pressão de incansáveis, resolutos movimentos da classe trabalhadora e a sempre presente ameaça de greves e, até, de revoluções. A existência do bloco soviético, modelo alternativo de desenvolvimento econômico (embora distorcido), também ajudou. Para apresentar-se como contraponto à URSS, os grupos dominantes em Washington e na Europa tiveram de comprar o apoio de suas massas, defendendo o que ninguém jamais se envergonhou de chamar de “o modo de vida ocidental”. Forjou-se complexo contrato social, que implicou o capital fazer concessões.

Agora, acabou. Já nada é assim em Washington, o que é óbvio. E cada vez menos é assim tampouco na Europa. Aquele sistema começou a fazer água – isso, sim, é total triunfo de uma ideologia! –quando o neoliberalismo tornou-se único sucesso da cidade. Abriu-se uma supervia expressa que partia diretamente dali, e levou todas as tendências mais frágeis da classe média diretamente para a situação de novo proletariado pós-industrial, ou, simplesmente, para o status de inempregáveis.

Se o neoliberalismo parece ainda vitorioso, é porque não há modelo realista, alternativo, de desenvolvimento. E, mesmo assim, o que o neoliberalismo possa ter ganho é muito discutível. Simultaneamente, os progressistas do mundo estão paralisados, como que esperando que a velha ordem derreta, ela mesma. Infelizmente, a história ensina que, como em encruzilhadas semelhantes no passado, o mais provável é que, à frente, se encontrem as vinhas da ira, ao estilo populista de direita, como tudo – ou, ainda pior, declarado fascismo.

“O ocidente contra o resto” é fórmula simplista que não basta nem para começar a descrever esse mundo. Imagine-se, em vez disso, um planeta no qual “o resto” tente ultrapassar o ocidente por várias vias, mas já absorveu o ocidente de vários modos ainda não descritos porque profundos demais. Aí está a ironia: sim, o ocidente “declinará”, Washington inclusive, e, mesmo assim, deixará ocidente por todos os cantos.

Sorry, esse modelo já era

Suponha que você seja país em desenvolvimento, comprando no supermercado desenvolvimental. Você olha para a China e pensa que vê algo novo – um modelo consensual que acende todas a luzes em todos os lugares – ou você mesmo as acende? Afinal, a versão chinesa de boom econômico sem liberdade política pode não ser modelo a ser escolhido por outros países. Em vários sentidos, pode ser mais como artefato letal não aplicável, bomba de ação retardada feita de restos do conceito ocidental de modernidade, que se casou com fórmula de base leninista, e um único partido controla as pessoas, a propaganda e – crucialmente importante – também o Exército de Libertação do Povo.

Ao mesmo tempo, esse sistema está evidentemente tentando provar que, apesar de o ocidente ter unificado o mundo – do neocolonialismo à globalização – isso não implica que tenha de governar o mundo para sempre, material e intelectualmente.

Por seu lado, a Europa comanda um modelo de integração supranacional, como meio para resolver problemas e conflitos, do Oriente Médio à África. Mas qualquer lojista já consegue ver evidências de que a União Europeia está à beira do esfacelamento, europeus bicam-se sem parar, inclusive com revoltas nacionais contra o euro, ira contra o papel da OTAN-Robocop global, e tanta arrogância cultural que a Europa já não tem capacidade, sequer, para entender – só para dar um exemplo – por que o modelo chinês faz tanto sucesso na África.

Ou digamos que nosso lojista olhe para os EUA, que, afinal, ainda é a economia n. 1 do mundo, seu dólar ainda é moeda mundial de reserva, e seu exército ainda é No.1 em poder de destruição e ainda mantém o globo sob cerco militar. Seria visão impressionante, não fosse o fato de que Washington está em visível declínio, oscilando furiosamente entre um populismo manco e uma ortodoxia rançosa, e fazendo divulgação de um capitalismo de cassino, como ‘bico’, num beco, no tempo livre. É poder gigante, tomado de paralisia política e econômica à vista de todo o planeta, e não menos visivelmente incapaz de oferecer qualquer estratégia de saída.

Francamente, você compraria o modelo de qualquer desses? Onde, afinal, em mundo cada dia mais em desarranjo, alguém deveria procurar modelos, hoje em dia?

Uma das principais razões da Primavera Árabe foi o completo descontrole dos preços dos alimentos, carestia gerada, significativamente por especulação. Os protestos na Grécia, Itália, Espanha, França, Alemanha, Áustria e Turquia foram consequência direta da recessão global. Na Espanha, cerca de metade da população que tem hoje 16-29 anos – uma “geração perdida” hiper educada – está hoje desempregada, recorde europeu.

É o pior da Europa, mas na Grã-Bretanha 20% dos que têm 16-24 anos estão desempregados, mais que a média do resto da União Europeia. Em Londres, quase 25% da população em idade de trabalhar está desempregada. Na França, 13,5% da população é hoje oficialmente pobre – os que vivem com menos que 1.300 dólares/mês.

Como muitos em toda a Europa Ocidental estão vendo, o estado já rompeu o contrato social. Os indignados de Madrid colheram perfeitamente o espírito do momento: “Não somos contra o sistema. O sistema é que é contra nós.”

Vê-se aí a essência do abjeto fracasso do capitalismo liberal, como David Harvey explicou em seu livro mais recente O Enigma do Capital  [6]. Mostra claramente que uma economia política “de empobrecimento em massa, de práticas predatórias que chegam ao assalto à luz do dia, sobretudo contra os mais pobres e vulneráveis que a lei não protege, tornou-se ordem do dia.”

A Ásia salvará o capitalismo global?

Pequim por sua vez está ocupadíssima remixando o próprio destino como Império do Meio global – arregimentando engenheiros, arquitetos e trabalhadores de infraestrutura do tipo que não bombardeia, do Canadá ao Brasil, de Cuba a Angola – para deixar-se distrair muito pelos trabalhos atlanticistas no Oriente Médio e Norte da África [ing. Middle East and Northern Africa, MENA).

Se o ocidente tem problemas, o capitalismo global vive momento de retomada – não se sabe por quanto tempo –, com a emergência de uma classe média asiática, não só na China e Índia, mas também na Indonésia (240 milhões de pessoas, em modo boom) e no Vietnã (85 milhões). Nunca canso de deslumbrar-me quando comparo as maravilhas instantâneas e a bolha imobiliárias que se veem hoje na Ásia e o que havia quando vivi lá, em 1994, e aqueles países ainda viviam tempos de “tigre asiático”, antes da crise financeira pré-1997.

Só na China, 300 milhões de pessoas – “apenas” 23% da população chinesa total – vivem hoje em áreas urbanas de médio a grande porte e recebem o que sempre se chamou “rendas das quais podem dispor”. Constituem, de fato, uma nação “só deles”, uma economia já equivalente a 2/3 da economia alemã.

O McKinsey Global Institute [7] observa que a classe média chinesa compreende hoje 29% dos 190 milhões de lares do Império do Meio, e em 2025 alcançará espantosos 75% de 372 milhões de lares (se, claro, o experimento capitalista chinês não tiver, até lá, despencado de algum precipício, e a bolha imobiliária/financeira não explodir e afogar, na enxurrada, a sociedade).

Na Índia, com população de 1,2 bilhões, já há, segundo o Instituto McKinsey [7], 15 milhões de lares com renda anual superior a 10 mil dólares; em cinco anos, as projeções indicam que serão 40 milhões de lares, ou 200 milhões de pessoas, naquele patamar de renda. E na Índia em 2011, como na China em 2001, a única saída é para cima (outra vez: enquanto durar essa retomada).

Aos norte-americanos, esses números talvez pareçam surreais (ou talvez comecem a preparar as malas de migrantes), mas renda anual de menos de 10 mil dólares/ano significa viver confortavelmente na China ou na Indonésia, enquanto, nos EUA, com renda familiar média de cerca de 50 mil dólares/ano, vive-se, praticamente, como pobre.

Nomura Securities [8] prevê que  em apenas três anos, as vendas no varejo serão maiores na China que nos EUA e que, assim, a classe média asiática pode, sim, “salvar” o capitalismo global por algum tempo – mas a preço tão alto, que a Mãe Natureza já deve estar conspirando, arquitetando vingança catastrófica, no que se chamava antigamente de “mudança climática” e já se chama hoje, expressivamente, de “tempo esquisito”.

De volta aos EUA

Enquanto isso, nos EUA, o laureado presidente Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, continua a insistir em que todos vivemos num planeta EUA, excepcionalismo e tudo. Se essa cantilena tem eco doméstico, nem por isso é fácil de vender em mundo real no qual o primeiro jato de combate stealth [invisíveis nos radares] chinês será testado publicamente durante a visita do secretário de Defesa dos EUA à China. Ou quando a agência de notícias Xinhua, fazendo coro ao mestre Pequim, esbraveja contra os políticos “irresponsáveis” em Washington que participaram do recente circo do aumento do teto de endividamento; e aponta para a fragilidade de um sistema “salvo” da queda livre por promessa do Fed de fazer chover dinheiro gratuito sobre os bancos por, no mínimo, dois anos.

Washington não está sendo exatamente inteligente, ao confrontar a liderança de seu principal credor, dono de 3,2 trilhões de reservas em moeda norte-americana, 40% do total global, sempre intrigado pela continuada exportação letal de “democracia para idiotas”, das praias dos EUA para as zonas de guerra no Af-Pak, Iraque, Líbia e outros pontos quentes no Grande Oriente Médio. Pequim sabe bem que qualquer nova turbulência que os EUA provoquem no capitalismo global pode afetar as exportações chinesas, levar a colapso a bolha imobiliária-proprietária chinesa, e lançar as classes trabalhadoras chinesas em clima emocional de revolução linha (muito) dura. O que significa – apesar do que digam vozes estridentes à maneira de Rick Perry/Michele Bachmann nos EUA – que não há qualquer conspiração chinesa “do mal” contra Washington ou o ocidente. 

De fato, por trás da reverência que a China prestou à Alemanha (“principal exportador do ocidente” e “fábrica do mundo”) há significativa quantidade de produção controlada, mesmo, por empresas dos EUA, europeias e japonesas. 

Mais uma vez, o declínio do ocidente, sim – mas o ocidente já está tão profundamente presente na China, que não desaparecerá assim tão simplesmente nem tão rapidamente. Ascenda ou decline seja quem for, ainda permanece no mundo, como se vê hoje, um único sistema de desenvolvimento de comprar e comprar, que já está praticamente frito no Atlântico, e em pleno boom no Pacífico.

Se todas as esperanças de Washington sobre “mudar” a China são miragem, no que tenha a ver com o monopólio global do capitalismo, quem sabe que tipo de realidade nos espera?

Terra Desolada Redux

Os proverbiais bichos papões de nosso mundo – Osama, Saddam, Gaddafi, Ahmadinejad (curioso: são todos muçulmanos!) – foram criados para funcionar como miniburacos negros, atraindo para eles todos os nossos medos. Mas não salvarão o Ocidente, do declínio, nem salvarão a ex-única superpotência, de pagar por seus erros.

Paul Kennedy, de Yale, aquele historiador do declínio, nos lembra que a história varrerá a hegemonia dos EUA, certo como depois do verão vem o outono (certo como o colonialismo europeu foi varrido, apesar das guerras ‘humanitárias’ da OTAN).  Em 2002, ainda na onda da invasão do Iraque, Immanuel Wallerstein, especialista em sistema-mundo, pôs o debate em termos claros, em seu livro O Declínio do Poder Americano [9]: a questão não é se os EUA estão em declínio ou não, mas se encontrarão modo de desabar com graça, sem causar excessivo dano a eles mesmos ou ao mundo. A resposta, nos anos que transcorreram de lá até hoje é bem clara: não.

Quem tem dúvidas de que, dez anos depois dos ataques do 11/9, a grande história global de 2011 foi a Primavera Árabe, ela mesma, sim, um subenredo do declínio do ocidente? Com o ocidente sucumbido num pântano de medo, islamofobia, crises financeira e econômica e até, na Grã-Bretanha, levantes de rua e saques, do Norte da África ao Oriente Médio as pessoas arriscam a vida para obter uma pitada de democracia à moda ocidental.

Claro, aquele sonho foi pelo menos parcialmente destroçado pela medieval Casa de Saud e seus asseclas do Golfo Persa, que impuseram feroz estratégia de contrarrevolução, com a ajuda prestimosa da OTAN, para alterar a narrativa, com sua campanha de bombardeios ‘humanitário’, e reafirmar a grandeza do ocidente. Como disse o secretário-geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen, sem meias palavras, “Quem não consiga manter tropas além das próprias fronteiras não terá influência internacional, e o vácuo será ocupado por potências emergentes que não necessariamente partilham nosso pensamento e nossos valores.” [10]

Assim chegamos a 2011, o ano andando para o inverno. No que tenha a ver com Oriente Médio e Norte da África, o negócio da OTAN é manter EUA e Europa no jogo, os países BRICS fora dele, e os ‘nativos’, cada um no seu canto. Enquanto isso, no mundo atlântico, as classes médias mal se seguram em silencioso desespero; no Pacífico, a China segue em boom; e globalmente o mundo espera, sem respirar, pelo momento em que o próximo sapato econômico seja jogado contra o ocidente (e pelo seguinte, depois do próximo).

Pena não haver um neo-T.S. Eliot que faça a crônica dessa terra desolada [11], em farrapos, neomedievalista, em que se vai convertendo o eixo atlanticista. Quando o capitalismo chega à unidade de terapia intensiva, quem paga a conta do hospital são os mais vulneráveis – e a conta é invariavelmente paga em sangue.




Notas dos tradutores

[1] Der Untergang des Abendlandes, 2 vol. (1918-22), O Declínio do Ocidente. Jorge Luis Borges escreveu sobre o livro: “ideia confusa, mas estilo magnífico”, “páginas viris” (...) “nunca contaminadas pelo ódio peculiar àqueles anos” (BORGES, Jorge Luis, “Biografia sintetica”, en Textos Cautivos. Ensayos y reseñas en “El Hogar”, Edición de Enrique Sacerio-Garí y Emir Rodríguez Monegal, Barcelona, Tusquets Editores, 1986, col. Marginales, núm. 92.
[2] 22/8/2011, The Decline and Fall of Europe (and Maybe the West)
[3] Dos Beatles, 1968:Querida Prudence, saia daí e venha brincar...” 
[4] HOBSBAWM, Eric, How to Change the World, Tales Of Marx And Marxism, UK: Little Brown, 2011.
[5] “The Second Coming” [A Segunda vinda], 1921. O verso aparece na primeira estrofe: Turning and turning in the widening gyre / The falcon cannot hear the falconer; / Things fall apart; the centre cannot hold; / Mere anarchy is loosed upon the world (...) / The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere / The ceremony of innocence is drowned; / The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity. Há várias traduções. Aqui uma delas, que sequer é a melhor, apenas para ajudar a ler: Girando e girando em círculos que se ampliam, / O falcão não pode ouvir os comandos do falcoeiro; / As coisas se despedaçam; o centro se desloca; / A anarquia está à solta no mundo, / A maré tinta de sangue está à solta e por toda parte / A cerimônia da inocência está sendo afogada; / Aos melhores falta qualquer convicção / Enquanto os piores estão plenos de ardor 
(Paulo Azevedo Soares, A Segunda Vinda, de 26/9/2011).
[6] HARVEY, David, O Enigma do Capital, Lisboa: Bizancio, 2011, 1ª edição.
 [9] WALLERSTEIN, Immanuel Maurice, O Declínio do Poder Americano, SP: Contraponto, 1ª. ed. 2004.
[10] Wall Street Journal, 24/8/2011.
[11] Leem-se fragmentos do poema “The Wasteland” [Terra Desolada], de T.S.Eliot, em boa tradução para o português, em Obra Completa – Volume I – Poesia. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira, SP: Art Editora, 2004