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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sauditas não escaparão de um “reset” com o Irã


15/1/2015, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Posto de fronteira saudita atacado pelo ISIS/ISIL/EI
O ataque terrorista semana passada contra posto saudita de fronteira na entrada da província iraquiana de Anbar – primeiro ataque que o Estado Islâmico executa contra o reino saudita – pode ter sido a proverbial gota d’água que fez transbordar o copo, forçando Riad a repensar muito profundamente todas as suas estratégias regionais sempre contaminadas pelas rivalidades contra o Irã.

Teerã realmente conseguiu neutralizar os golpes sauditas na Síria e no Iraque e, no momento, parece estar jogando com as melhores cartas. O último golpe atentado pelos sauditas para ferir a economia iraniana, forçando violenta queda nos preços do petróleo, não apenas não está tendo o resultado desejado, mas também, como o presidente Hassan Rouhani alertou explicitamente ontem, Riad pode já estar atirando contra o próprio pé (assim como os irmãos do Kuwait).

Mas, mesmo com tudo isso, o momento que determinou a mudança do lado dos sauditas foi o ataque do Estado Islâmico contra soldados sauditas (que matou dois guardas de fronteira e o comandante). O fato de que havia três cidadãos sauditas entre os atacantes aliados ao Estado Islâmico deve ter servido como terrível despertar. Na verdade, o revide já começou. Os sauditas esperam erigir uma “grande muralha” e assim isolar-se completamente, tornando-se à prova de Estado Islâmico, os bárbaros seus vizinhos. Mas a “grande muralha” não é mais que os sauditas fazendo-se de valentes e poderosíssimos.

Soldados sauditas defendem posto de fronteira atacado pelos terroristas do ISIL/ISIL/EI
A situação de segurança na província Anbar, comandada pelo Estado Islâmico, é gravíssima. A desunião tribal e as limitações das forças iraquianas deram ao Estado Islâmico o controle efetivo, o que implica dizer que lá reina o terror mais alucinado, cujo objetivo é eliminar sistematicamente qualquer resistência. É preciso muito trabalho de campo para criar alguma resistência organizada das tribos contra o Estado Islâmico (na linha do famoso “Despertar” da década passada, nas regiões sunitas controladas pelos EUA). Isso pode explicar em parte a decisão dos sauditas de reabrirem a embaixada em Bagdá, depois de um lapso de um quarto de século.

Mas em última análise, só se se empenharem num esforço conjunto ao lado do Irã os sauditas conseguirão virar a maré da ameaça que o Estado Islâmico já é, hoje, contra a segurança da Casa de Saud. Riad e Teerã estão como desconhecidos que se descobrem em plena noite e põem-se a trocar olhares.

O influente jornal Iran Daily comentou em editorial que as “diferenças Irã-sauditas não são tão substanciais que não possam ser resolvidas”. O jornal alertava que o Estado Islâmico “pode gerar ameaça grave ao sistema de governo na Arábia Saudita”, porque seus slogans “podem mobilizar a população” a levantar-se contra o regime. O editorial observa também que a cooperação Irã-sauditas “trará segurança e estabilidade a todo o Oriente Médio”.

Irã e Arábia Saudita - Confrontação ou Cooperação?
Claro, os termos do engajamento terão de incluir a questão do preço do petróleo. Iran Daily admitia que a decisão saudita de aumentar a produção de cru para fazer cair o preço do petróleo equivale a “usar o petróleo como arma para atacar a concorrência – a saber, o Irã” e que “a ação criou problemas econômicos para Teerã”.

Isso posto, o editorial não deixa esquecer que os sauditas, hoje, absolutamente não estão em posição para ditar normas:

Circulam rumores de que a saúde do rei Abdullah piora dia a dia, e há notícias de que já há luta declarada pelo poder entre os príncipes sauditas. Considerar um novo sistema de governo pode ser boa saída para os sauditas. 

No cenário que se vai desenvolvendo, já é praticamente inegável que os sauditas estão tendo de reconsiderar suas estratégias regionais.

Turki al-Faisal
Em coluna assinada publicada hoje no jornal oficial da Casa de Saud, Asharq Al-Awsat, o príncipe Turki, ex-comandante da inteligência saudita, foi excepcionalmente violento contra o Estado Islâmico, ao ponto de “rebatizar” o Daesh como Fahesh (palavra que significa “obsceno”) e de comparar o EI aos Kharijites, conhecidos na história dos árabes muçulmanos do século VII  pelo barbarismo.

Esse tipo de condenação pública e violenta de quem até ontem era “família” só mostra que os sauditas podem estar percebendo que o golpe de jogar a carta sectária contra o Irã na projeção de poder na região foi golpe que já se revelou caro demais, além de contraproducente, e que veio carregado de consequências negativas contra interesses centrais dos próprios sauditas. A melhor coisa para a Arábia Saudita será permanecer no jogo em curso, reajustando suas políticas em relação ao Irã. O acordo nuclear EUA-Irã só faz dar mais um empurrão a favor do Irã, no equilíbrio regional.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

domingo, 29 de setembro de 2013

A Arábia Saudita, em pânico, está surtando

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Turki bin Faisal Al Saud
Dia 12/9/2013, o príncipe Turki da Arábia Saudita falou na reunião do Defence and Security Forum em Londres. O príncipe Turki é conhecido pelas análises frias e objetivas, e embora sempre empenhado defensor da Arábia Saudita, e sunita, é diplomata experiente.

Pois, apesar de toda sua experiência, o que ele disse em Londres, em resumo, foi:

A Arábia Saudita é potência econômica dominante no Oriente Médio e, também “líder ilustre do mundo muçulmano mais amplo”; e o Irã, disse ele, por sua vez, é o país líder dos muçulmanos que estão contra os EUA. Além dos modos sempre beligerantes da liderança iraniana, disse o príncipe Turki, a Arábia Saudita tem dois graves problemas com o Irã: primeiro, o programa nuclear, que continua, disse ele, e que nenhuma sanção conseguirá jamais deter; e contra o qual, disse o príncipe Turki, devem-se usar meios militares, se necessário. E, em segundo lugar, há a questão da “intromissão” dos iranianos: a “intromissão” dos iranianos nos países de maioria xiita e também em estados de minoria xiita “tem de acabar”. O príncipe Turki alertou que a Arábia Saudita intervirá diretamente naqueles estados para opor-se a “todas e quaisquer ações” iranianas. A influência e as ações iranianas no Iraque foram “inaceitáveis”, disse o príncipe saudita. A Arábia Saudita tem “profundas e firmes” reservas contra o governo de Maliki. A Arábia Saudita fará tudo que estiver ao seu alcance para pôr fim a ações de militares iranianos e do Irã em geral que visem a apoiar Maliki: “Trabalharemos para garantir que o Iraque se torne membro independente do mundo árabe”.

No Líbano, disse o príncipe Turki, o Hezbollah ameaça a própria existência do país, por seu “temerário” [orig. reckless] envolvimento na Síria. Exigiu que o Hezbollah seja desarmado e seus líderes julgados pelo assassinato de Rafic Hariri.

Quanto à Síria: “o apoio da liderança iraniana a Assad, desde o início, é ato criminoso e deve ser julgado na Corte Criminal Internacional de Haia. A farsa do controle internacional sobre as armas químicas de Bashar seria cômica se não fosse tão flagrantemente pérfida, concebida com o único objetivo de dar a Obama uma linha de fuga, além de ajudar Assad a massacrar o próprio povo”.

COMENTÁRIO: O que se vê aí é a Arábia Saudita em estado de total desequilíbrio, e enunciado por um experiente diplomata saudita. A Arábia Saudita perdeu o próprio centro de gravidade: já não cabe em si; de fato, está preocupantemente fora de si, frustrada além de todos os limites da racionalidade.

Não se trata apenas de a Arábia Saudita declaradamente opor-se a qualquer entendimento com o Irã; trata-se sobretudo de os sauditas insistirem em que qualquer “entendimento” que envolva os sauditas só ser pensável depois de o presidente Assad ter sido deposto, e as “minorias” terem sido removidas completamente do poder na Síria (o que significa: só depois de o Islã sunita e a influência saudita terem sido restaurados na Síria). Para os sauditas, o Irã tem de ser marginalizado e humilhado politicamente no Oriente Médio, antes que se cogite de iniciar qualquer “entendimento” entre Washington e Teerã.

O destampatório que o príncipe Turki não conteve contra Obama parece indicar que a Arábia Saudita sente-se extremamente, quase paranoicamente vulnerável, ante a possibilidade de a posição iraniana – em vez de estar sendo esvaziada e enfraquecida – estar sendo, isso sim, reforçada. Em nosso Comentário da semana passada, já sugeríamos que esse deve ser o resultado, se a doutrina Carter-Bush para o Oriente Médio já tiver ultrapassado seu “prazo de validade” política e já não ser politicamente exequível, na política dos EUA.

Síria (clique na imagem para visualizar)
Se a Síria (para nem falar do Irã) já se mostra politicamente “difícil demais” (com a opinião pública e os parlamentos já desiludidos quanto à eficácia dos “meios” norte-americanos), toda a política exterior ocidental para o Oriente Médio terá de ser fundamentalmente repensada. Tudo isso, é claro, ainda são hipóteses a serem exploradas (ver continuação do comentário).

Mas o que o príncipe Turki está dizendo é impressionante: exatamente quando os EUA parecem esgotados (exauridos, depois de uma sucessão de guerras falhadas) e a ponto de tirar de sobre os próprios ombros a carga de assegurar que nenhuma potência hostil (leia-se: o Irã) assuma influência significativa, mediante qualquer tentativa para controlar e administrar e controlar a política de toda a região...

Exatamente nesse momento, o príncipe Turki declara, com todas as letras, que a Arábia Saudita, simplesmente, assumirá a implantação da Doutrina Carter: oposição absoluta a “toda e qualquer” ação de iranianos/Hezbollah em todo o Oriente Médio, do Bahrain ao Egito.

Na prática, a Arábia Saudita disse, semana passada, em Londres, que, se os EUA não estão preparados para “re-fazer” o Oriente Médio, a Arábia Saudita assumirá a tarefa.

Sim, os sauditas têm o dinheiro, mas absolutamente não têm os meios para serem operacionalmente efetivos. É como um exército que tem comandantes de brigada e generais (a família real, em outras palavras), mas não têm os tenentes, os sargentos os soldados rasos, nem nenhum dos grupos especializados que, de fato, são os que convertem “ordens de comando” em ação tangível.

Os sauditas absolutamente não têm o sistema necessário para gerir a mobilização sectária que eles mesmos incendiaram, nem para dirigir o fogo na direção de algum resultado político real, precisamente porque só a família real tem poder e autoridade para fazer as coisas acontecerem. Todo o poder operacional dos sauditas resume-se a assinar os cheques – e não têm estrutura para administrar os “detalhes”. Foi o que já se viu, exatamente, com os grupos orientados pela al-Qaeda na Síria. Diferentes dos EUA, os príncipes sauditas jamais se dedicam a “nutrir” os movimentos na direção de torná-los efetivos e eficazes: eles compram movimentos. Resultado dessa ação, os grupos Takfiri é que se provaram mais efetivos no campo de combate. Daí em diante, só eles encontraram via fácil para receber financiamento.

Takfiris desfilam com armas fornecidas pela Arábia Saudita e bandeiras da al-Qaeda
O impulso saudita para mobilizar o Islã sunita e fazer dele uma força política de transformação (contrarrevolucionária) – principalmente mediante fartos desembolsos de dinheiro e recorrendo sempre ao discurso sectário – deu em nada e está hoje em frangalhos.

Basta olhar em volta – hoje as principais tensões concentram-se em sunitas contra sunitas, porque as pressões criadas pelos movimentos dos sauditas (em locais como Egito, Líbia e Síria) contribuíram para minar e enfraquecer a identidade sunita. A Arábia Saudita – guiada pelo príncipe Bandar – pôs-se em posição mais difícil do que a que poderia sustentar. Mas, se a fala do príncipe Turki reflete acuradamente o pensamento saudita “oficial”, a expressão “mais difícil do que poderia sustentar” é fraca, para descrever a atual posição dos sauditas.
Tudo isso significa, isso sim, instabilidade volátil.

Michael Oren
A Arábia Saudita, de fato, trabalhou na direção oposta do que o príncipe Turki diz que eram seus objetivos – pelo menos na Síria: em vez de desmantelar a al-Qaeda, como o príncipe Turki diz que é o objetivo saudita, o embaixador israelense que está deixando Washington, em comentário-desabafo, entregou tudo: “A mensagem inicial sobre a questão síria foi que nós sempre quisemos que [o presidente] Assad saísse de lá. Nós sempre preferimos os bandidos não apoiados pelo Irã aos bandidos apoiados pelo Irã” – disse ele. E era assim, disse ele, mesmo se “os bandidos” fossem afiliados da al-Qaeda. “Entendemos que são muito bandidos” – continuou ele, acrescentando que por “bandidos” não se referia a toda a oposição síria. “Mesmo assim, o maior perigo para Israel é o arco estratégico que se estende de Teerã, a Damasco e a Beirute. E já víamos o regime de Assad como pedra basilar desse arco. Essa já era nossa posição desde bem antes do início das hostilidades na Síria. Com o início das hostilidades, nós continuamos a desejar a saída de Assad”. Não há dúvidas de que o príncipe Turki partilha idênticos sentimentos sobre o “arco”.

O embaixador Oren, na sequência, reforça ainda mais a conexão entre Israel e a política do Golfo: “nos últimos 64 anos provavelmente não existiu maior confluência de interesse entre Israel e os Estados do Golfo. Estamos de acordo com os Estados do Golfo sobre a Síria, o Egito e a questão palestina. Não há dúvidas de que também estamos de acordo com os Estados do Golfo, sobre o Irã. É mais uma das oportunidades criadas pela Primavera Árabe”.

A Arábia Saudita pode ter-se aproximado de Israel no que tenha a ver com Síria e Egito, mas, ao fazê-lo rompeu com a política dos EUA e europeia. Como disse recentemente o “número 2” da CIA recentemente aposentado, Mike Morell: “Quando se vê o potencial de uma presença tão dominante da al-Qaeda como na Síria, no final desse conflito... Será que consumimos tantas vidas humanas e tantos dólares, não para negar qualquer tipo de santuário, mas, simplesmente, para mudar o endereço da base terrorista?”.

Mike Morell
E Mike Morell continua: “Não há dúvida alguma de que aquela ideologia espalhou-se para o Norte da África e outras partes do Oriente Médio. E que todas essas áreas podem vir a ser, eventualmente, o tipo de santuário para terroristas que, sim, são ameaça significativa à segurança dos EUA. Por hora, ainda não são. Por enquanto são só uma ameaça regional. Mas... o local que me preocupa, porque pode vir a ser paraíso seguro para a al-Qaeda e converter-se na ameaça que a al-Qaeda já era, para nós, antes do 11/9, é a Síria, em primeiro lugar; em segundo lugar, o Afeganistão...”.

O tom de pânico que se vê na fala do príncipe Turki, contudo, é compreensível. A situação dos Estados do Golfo é muito vulnerável: eles apostaram tudo em que o Irã seria superado e “contido” de um modo ou de outro, e não economizaram. Agora, o apoio externo com o qual tanto contaram (e para cuja obtenção investiram tantos bilhões em compra de armas) parece hoje existencialmente abalado e instável. Os sauditas temem que haja um preço a pagar. Além de tudo mais, os Estados do Golfo abriram guerra contra islamistas – e inexoravelmente o torvelinho continua a consumir credibilidade e legitimidade de todos os lados.

Mas a Arábia Saudita não é a única a manifestar sintomas de ansiedade psicológica. Outro tipo de histeria parece tomar conta também do Ocidente: o aparente “refugo” de Obama, que ainda não saltou o “obstáculo Síria” levou a um surto sem precedentes de “Putin-fobia”.

Charles Crawford, o ex-
embaixador deprimido
Um ex-embaixador britânico, em estado terminal de depressão, disse, dia 9/9/2013, que aquele teria sido “o pior dia para a diplomacia dos EUA e toda a diplomacia ocidental, desde o início dos registros históricos”. E quando se leu a carta aberta assinada pelo presidente Putin e publicada no New York Times, comentaristas entraram também em surto psicótico de alta rotação, porque Putin “dinamitara” o excepcionalismo norte-americano. 

Um importante senador Democrata disse à rede CNN que “quase vomitei” ao ler a coluna de Putin no New York Times, na qual o presidente russo explicou sua proposta de paz para a Síria. O Republicano John McCain também foi excepcionalmente agressivo nos comentários sobre a coluna de Putin: disse que seria “orwelliana” e que Putin teria “ego mamute”. E colunista de uma revista russa liberal assegurou aos seus leitores que Putin, de fato, pouco liga para o que aconteça na Síria, que só pensa em se autopromover e que, além do mais, só “velhotas murchas de mais de 50” apoiam Putin. 

Tudo isso cheira a “Suez”. Naquele momento, a Grã-Bretanha e a França, ante as provas que se avolumavam do enfraquecimento de suas respectivas economias e influência, pouco antes da 2ª Guerra Mundial, e obcecadas por fazer crer – contra todas as evidências de enfraquecimento – de que continuavam tão fortes e poderosas como antes, decidiram fazer uma exibição de força (em local bem distante, é claro). Pouco depois do fracasso da tentativa, Nasser nacionalizou Suez. Vivemos outra vez tempos instáveis.



segunda-feira, 20 de junho de 2011

EUA pró-Israel: favoritismo fracassado

Turki al-Faisal

10/6/2011, Turki al-Faisal, Washington Post, EUA
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O príncipe Turki al-Faisal é diretor do Centro de Pesquisas e Estudos Islâmicos de Riad. Foi chefe da inteligência saudita de 1977 a 2001 e embaixador nos EUA de 2004 a 2006.

O presidente Obama fez importante chamamento à ação no controverso discurso, mês passado, em que chamou a atenção de governos árabes para que abraçassem a democracia e garantissem a liberdade de suas respectivas populações. Nós, na Arábia Saudita, levamos a sério aquele chamamento. Mas observamos que o presidente, nada disse na direção de exigir os mesmos direitos de autodeterminação para os palestinos – apesar de o território palestino estar ocupado pela mais forte potência militar da região.

Pouco adiante, Obama outra vez pôs-se no papel de farol dos direitos humanos, quando permitiu que o primeiro-ministro de Israel definisse os termos da agenda do processo de paz entre Israel e os palestinos. E ainda mais deprimente que ver o Congresso dos EUA aplaudir a atitude de negar aos palestinos os direitos humanos mais básicos, foi ver os EUA darem as costas a todos os ideais e valores de que tanto falam.

Apesar das críticas de Israel à ideia do presidente Obama, de que se usem as fronteiras de 1967 como base para futuros acordos, a ideia nada trouxe de mudança substantiva na política dos EUA. A única meta que os EUA têm a propor ainda é a Solução de Dois Estados, na direção da qual os EUA decidiram que se façam as negociações, partindo da divisão do território entre Israel e os palestinos pelas fronteiras que havia antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Obama tem razão no que disse, porque as linhas de 1967 são o único ponto de partida possível para quaisquer conversações e, portanto, para que se chegue a alguma paz. A ideia de que os palestinos aceitariam quaisquer outros termos para as negociações simplesmente não é realista. Apesar de Netanyahu ter rejeitado as sugestões (“Não podemos voltar àquelas fronteiras indefensáveis e teremos presença militares de longo prazo ao longo do [rio] Jordão”), os dois lados, há muito tempo, já aceitaram as fronteiras de 1967 como ponto de partida. 

Em 2008, Ehud Olmert, então primeiro-ministro, disse ao Parlamento israelense: “Temos de desistir dos bairros árabes em Jerusalém e voltar ao núcleo do território do Estado de Israel de antes de 1967, com pequenas trocas ditadas pela realidade criada desde então.”

Em novembro passado, a secretária de Estado Hillary Clinton e Netanyahu declararam, em documento que assinaram em conjunto, que “os EUA creem que mediante negociações de boa fé, as partes podem chegar a um acordo que ponha fim aos conflitos e reconcilie o objetivo dos palestinos, de terem estado independente e viável, baseado nas fronteiras de 1967, com trocas negociadas, e o objetivo de Israel, de ter um estado judeu com fronteiras seguras e reconhecidas que reflitam desenvolvimentos posteriores e satisfação as necessidades de segurança de Israel.”

Pode-se extrair uma conclusão dos eventos recentes: que os planos de paz inventados por EUA e Israel revelaram-se inviáveis e que o conflito Israel-Palestinos continua perfeitamente sem solução à vista, enquanto as políticas dos EUA continuarem a dar injustificável prioridade aos interesses de Israel. Mais do que pelas diferenças com Netanyahu, Obama está paralisado também por outras forças, na tentativa de desempenhar papel construtivo. 

Às vésperas de ano eleitoral, o governo Obama sem dúvida se curvará às pressões de interesses e de um Congresso dominado por Republicanos, e não insistirá em forçar Israel a aceitar os termos concretos que poderiam levar os palestinos à mesa de negociação.

Mas não se pode aceitar que a política doméstica dos EUA e a intransigência de Israel impeçam que os palestinos tenham direito a um futuro, com qualidade decente de vida e oportunidades semelhantes às de que gozam todos os que vivem em país livre de soldados estrangeiros de ocupação. Por isso, na falência de quaisquer negociações produtivas, é chegada a hora de os palestinos deixarem de lado EUA e Israel e buscarem reconhecimento internacional do estado palestino diretamente na ONU. 

A Arábia Saudita, outros países árabes e a vasta maioria da comunidade internacional – todos nós que desejamos solução equilibrada para a tragédia dos palestinos e um Oriente Médio estável – apoiaremos integralmente os palestinos nessa luta.

Obama criticou esse plano que, para ele, seriam “esforços para deslegitimar Israel”. E sugeriu que essas “ações simbólicas para isolar Israel” acabariam em fracasso. Mas por que os palestinos não fariam jus aos mesmos direitos que a mesma ONU assegurou ao estado de Israel ao criá-lo em 1947? 

O presidente Obama deve dar-se conta de que o mundo árabe não mais permitirá que os palestinos sejam deslegitimados por atos dos israelenses que os impedem de se movimentar; que estão destruindo a economia dos palestinos; e que já destruíram até casas dos palestinos.

A Arábia Saudita não se manterá calada e inativa enquanto Washington e Telavive nada fazem além de repetir intenções que não se realizam, nada fazem para por em execução seus muitos planos e então, à falta de planos propostos por eles próprios, trabalham para impedir que se construa e para minar o que já se construiu na direção de impor a legítima presença dos palestinos no cenário internacional.

Como principal apoiador político e financiador da luta dos palestinos em busca do direito de autodeterminação, a Arábia Saudita não abrirá mão da posição que tem, excepcionalmente forte. A riqueza do reino, o crescimento sustentado e a estabilidade da Arábia Saudita são fundamentais para todo o Oriente Médio. Berço do Islã, a Arábia Saudita saberá unir simbolicamente todos os muçulmanos do mundo. Em setembro, o reino mobilizará seu considerável poder diplomático para apoiar os palestinos na luta por reconhecimento internacional.

Os políticos norte-americanos não se cansam de repetir que Israel é seu “aliado indispensável”. Logo aprenderão que há outros atores na região – além da rua árabe – que podem ser aliados, se não muito mais, pelo menos igualmente “indispensáveis”. 

O jogo de sempre favorecer Israel ainda não trouxe qualquer vantagem aos EUA. Em breve se verá que foi movimento ainda mais insano do que parece.

Muitos comentaristas previram que a Arábia Saudita estaria deixando de ser a “usina” regional. Desapontaram-se amargamente. A história também mostrará o quanto se enganam todos os que crêem que o futuro da Palestina será decidido por EUA e Israel. 

Haverá consequências desastrosas para as relações EUA-sauditas, se os EUA vetarem na ONU o reconhecimento de um estado palestino. Teremos chegado ao ponto mais baixo de relações que existem há décadas; estará para sempre comprometido qualquer processo de paz entre Israel e palestinos; e a reputação dos EUA entre os países árabes será muito gravemente atingida. Aumentará a distância que separa o mundo muçulmano e o Ocidente em geral – e sumirão boas oportunidades de amizade, negócios e cooperação entre todos.

Nós árabes muitas vezes dissemos não à paz. E em 1967 pagamos o preço pelas muitas vezes que erramos. Em 2002, o rei Abdullah ofereceu o que viria a ser chamado de Iniciativa da Paz Árabe. Baseado na resolução n. 242 do Conselho de Segurança da ONU, a Iniciativa da Paz Árabe pede o fim dos conflitos das trocas de terra por paz: os israelenses retiram-se de todas as terras ilegalmente ocupadas, inclusive de Jerusalém Leste; encontram solução que todos aprovem para o problema dos refugiados palestinos; e reconhecem o estado palestino. Em troca, Israel será reconhecida por todo o mundo árabe e pelos estados muçulmanos; por-se-á fim às hostilidades; e se construirão relações normais com Israel. Mas, dessa vez, são os israelenses, que dizem não à paz. 

Espero não estar por perto, quando os israelenses tiverem de pagar o preço pelo erro que estão cometendo.