quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ouvir o outro lado: “Entrevista de Bashar al-Assad à televisão alemã”


5/7/2012, Jürgen Todenhöfer, ARD (Alemanha), prog. Weltspiegel , 18’52
8/7/2012,  publicada por Voltaire Net – (em inglês)
Entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Jürgen Todenhöfer: Sr. Presidente, membros da oposição e políticos ocidentais têm dito que o senhor é o principal obstáculo à paz na Síria. O senhor estaria disposto a renunciar à presidência, sendo essa condição para a paz e para pôr fim ao banho de sangue?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso fugir ao desafio que a Síria enfrenta hoje.Hoje a Síria enfrenta um desafio à própria nação. O presidente não pode fugir. Por outro lado, ninguém pode permanecer na presidência sem apoio popular. A resposta à sua pergunta não pode vir de mim. Tem de vir do povo sírio, essa resposta tem de ser resposta pública, que venha em eleições. Eu posso decidir concorrer ou não concorrer a eleições, mas não posso decidir ficar na presidência ou deixá-la. Essa é decisão que cabe ao povo sírio, em eleições.

Jürgen Todenhöfer: O senhor ainda tem maioria de apoio popular na Síria?

Presidente Bashar al-Assad: Se eu não tivesse apoio popular, não poderia permanecer na posição onde estou. EUA estão contra mim, o ocidente está contra mim, muitos poderes e países regionais estão contra mim. Se o povo estivesse contra mim, já não estaria na posição em que estou. A resposta é sim, claro que tenho apoio popular. Porcentagens não sei, nem interessam. Mas não há dúvida de que, para permanecer na presidência da Síria, na situação que a Síria enfrenta hoje, sim, é claro que tenho apoio popular.

Jürgen Todenhöfer: Assisti a algumas demonstrações pacíficas, mesmo em Homs. Não é legítimo que as pessoas exijam mais liberdade, mais democracia, menos poder nas mãos de uma família que governa o país, menos poder para os serviços secretos?

Presidente Bashar al-Assad: Para responder corretamente, temos de corrigir essa pergunta. Na Síria não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria, temos instituições, talvez não instituições ideais, mas temos Estado e não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria. Isso, quanto à pergunta. Agora, posso responder à primeira parte de sua pergunta: é claro que aqueles manifestantes têm direito legítimo de se manifestar. Mas não é verdade que os manifestantes só peçam ‘liberdade’. A maioria dos manifestantes legítimos pedem reformas, maior participação no poder e no governo. Essas reivindicações são legítimas, evidentemente, em qualquer lugar do mundo. Mas a maioria do povo sírio não está nas manifestações. Mas, sim, claro, as manifestações são legítimas.

Jürgen Todenhöfer: A pergunta que todos estão fazendo no ocidente e em seu país é quem matou os milhares de vítimas civis inocentes que morreram nesse conflito? A oposição culpa o senhor.

Presidente Bashar al-Assad: Para saber quem matou, é preciso saber antes quem foi morto. Não há como descobrir o criminoso sem saber quem é a vítima. A vasta maioria dos mortos são apoiadores do governo. Como seria possível ser assassino e vítima, ao mesmo tempo? A maioria das vítimas eram apoiadores do governo; e outra grande parte das demais vítimas é gente inocente que estão sendo assassinados por vários diferentes grupos na Síria.

Jürgen Todenhöfer: O senhor concorda que muitos, ou, pelo menos, uma certa porcentagem desses civis vítimas, foram mortos pelos serviços de segurança do seu governo? O senhor teria essa porcentagem?

Presidente Bashar al-Assad: Não, claro que não. O que temos é um Comitê que está investigando essas mortes. Até aqui, sobre os crimes investigados, os nomes que já temos, as vítimas foram assassinadas por gangues, diferentes tipos de gangues, da al-Qaeda, grupos extremistas, criminosos e grupos de criminosos procurados pela polícia há anos.

Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que os rebeldes, que o senhor chama de terroristas, mataram mais civis que as forças de segurança? 

Presidente Bashar al-Assad: Não. Estou dizendo que mataram mais agentes das forças de segurança e soldados, que civis que apoiam o governo.

Jürgen Todenhöfer: Mas falando exclusivamente de civis. Os rebeldes mataram mais civis que as forças de segurança, ou as forças de segurança mataram mais civis?

Presidente Bashar al-Assad: Como eu disse, as vítimas que há nas forças de segurança e no exército são em número muito maior que o número de vítimas que há entre civis.

Jürgen Todenhöfer: O senhor diz que há investigações sobre membros das forças de segurança que podem ter matado civis inocentes. E desses, alguém foi punido?

Presidente Bashar al-Assad: Sim. Vários estão presos e vários estão sendo julgados por outros crimes.

Jürgen Todenhöfer: Quem cometeu o massacre de Houla, onde mais de 100 pessoas foram brutalmente assassinadas, entre elas muitas crianças?

Presidente Bashar al-Assad: Gangues de criminosos de fora da cidade, não da cidade, que atacaram a cidade e as forças da lei daquela cidade. E mataram muitas famílias, como você diz, e muitas crianças e mulheres, e, de fato, as duas famílias que foram assassinadas eram apoiadoras do governo. Não eram da oposição.

Jürgen Todenhöfer: Ouvi, de moradores de Houla, sobreviventes das famílias que foram atacadas e mortas, que os atacantes usavam uniformes militares do exército sírio. Por que usavam uniformes militares?

Presidente Bashar al-Assad: É prática que já se observou muitas vezes. O Comitê de investigação sabe que isso acontece: eles produzem vídeos e distribuem vídeos, vídeos falsos, onde aparecem homens fardados com nosso uniforme militar. Esses, ao que se sabe, assassinaram aquelas famílias.

Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que é estratégia dos rebeldes?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, é. Fazem isso sempre, desde o início. E não só em Houla, mas em vários pontos.

Jürgen Todenhöfer: Quem são esses rebeldes, que o senhor chama de terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: São uma mistura, um amálgama de al-Qaeda, outros extremistas, não necessariamente ligados à al-Qaeda, além de criminosos que a Polícia procura há muito tempo (traficantes e contrabandistas de drogas vindas da Europa e que transitam pela Síria, além de outros, muitos dos quais condenados e foragidos da Polícia. É uma mistura de coisas diferentes.

Jürgen Todenhöfer: Quantos seriam esses que lutam contra o governo?

Presidente Bashar al-Assad: Não sei lhe dizer. Calculam-se em milhares.

Jürgen Todenhöfer: Quantos? 20, 30?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso lhe dar números, porque não há números precisos.

Jürgen Todenhöfer: O senhor diria que todos esses rebeldes são terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: Depende do ato que pratiquem. Se atacam e queimam e destroem, sim, fazem terrorismo em termos definidos na lei. Mas há muita gente implicada nos atos e que não são criminosos, por diferentes razões. Às vezes, a razão é o dinheiro (porque são pagos); às vezes, porque são ameaçados; às vezes movidos por algumas ideias ou ilusões delirantes. Nem todos são terroristas. Essa é a razão pela qual muitos foram absolvidos, quando aceitaram entregar as armas.

Jürgen Todenhöfer: O governo sírio encontrou homens da al-Qaeda, entre esses já foram presos?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, sim. Dezenas deles. [JT: De que países?] Acho que quase todos vinham da Líbia e da Tunísia.

Jürgen Todenhöfer: O senhor chegou a ter contato com esses prisioneiros? Com algum deles?

Presidente Bashar al-Assad: Sim. 

Jürgen Todenhöfer: Com intérprete? 

Presidente Bashar al-Assad: É claro.

Jürgen Todenhöfer: Qual é o papel dos EUA, nesse conflito?

Presidente Bashar al-Assad: São parte do conflito. Oferecem o guarda-chuva e o apoio político àquelas gangues, para romper a ordem, desestabilizar Síria. 

Jürgen Todenhöfer: O que o senhor está dizendo é que os EUA garantem o apoio político aos rebeldes, que o senhor chama de terroristas matam civis. É isso? [BA: Exatamente isso.] Nesse caso, o senhor está acusando o governo dos EUA de ser, pelo menos, parcialmente responsável também pelo assassinato de civis na Síria. É isso?

Presidente Bashar al-Assad: É exatamente isso. Se você assegura qualquer tipo de apoio a terroristas, você é cúmplice. Se você garante aos terroristas armamento, dinheiro e apoio político (apoio na ONU, qualquer tipo de apoio), a implicação é que você é cúmplice dos terroristas, 

Jürgen Todenhöfer: O senhor sabe que os políticos ocidentais veem a mesma situação de modo diferente do seu [BA: Sei.] e que estão discutindo hoje uma intervenção militar na Síria. Como seu governo reagiria? O senhor retaliaria, contra países ocidentais?

Presidente Bashar al-Assad: Não se trata de retaliação. Trata-se de defender nosso país. É nosso dever e é nosso objetivo. Em nenhum caso se cogita de retaliar contra alguém, seja quem for.  

Jürgen Todenhöfer: E a Síria está preparada para um ataque desse tipo?

Presidente Bashar al-Assad: Bem... [semisorriso] Preparados ou não preparados, teremos de defender nosso país. Mas, sim, estaremos preparados.

Jürgen Todenhöfer: Se, para o senhor, os EUA são parte do problema, por que não negocia com eles? Por que não convida Mrs. Hillary Clinton para que venha a Damasco? Por que o senhor não dá o primeiro passo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria nunca fechou suas portas a país algum, nem a nenhum funcionário de nenhum governo que deseje ajudar a resolver o problema pelo qual estamos passando na Síria, desde, é claro, que sejam sérios e honestos. Mas [os EUA] fecharam todas as portas. Seja como for, não há problema conosco: no instante em que decidirem negociar, estamos preparados para ajudar.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria preparado para dialogar com Mrs. Hillary Clinton? Para andar com ela pelas ruas de Damasco, para mostrar-lhe a hospitalidade síria e atual situação nas ruas da cidade?

Presidente Bashar al-Assad: Já lhe disse que não fechamos portas, nunca fechamos porta alguma, nem aos EUA nem a qualquer outro país. Não falo especificamente de Mrs. Clinton ou de qualquer outro funcionário do governo dos EUA. Sempre negociamos. E já andamos pelas ruas de Damasco com outros funcionários, como você lembrou. E, sim, claro, podemos fazer novamente, claro.

Jürgen Todenhöfer: Passemos, por favor para a situação interna na Síria. As negociações com grupos da oposição é opção realista? Ou o senhor entende que esse conflito terá de ser objeto de disputa armada até o final, por amarga que seja a luta?

Presidente Bashar al-Assad: Verdade é que em qualquer caso, o diálogo é necessariamente a primeira opção estratégica. O diálogo é indispensável. No mínimo, para confirmar que nada será possível fazer pela via pacífica. Mas, mesmo com diálogo, se o diálogo não funciona ou se você é atacado por terroristas, você é obrigado a combater o terrorismo. Você não decidir que só vai dialogar, que não vai responder nem vai defender-se, enquanto terroristas continuam matando seu povo e armando exércitos inimigos.

Jürgen Todenhöfer: E o senhor não poderia dialogar com os que não são terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: Dialogamos no verão passado. E repetimos nosso convite, alguns deles aceitaram, conversamos e a oposição apresentou candidatos às eleições, concorreram e hoje têm representantes eleitos no Parlamento. Semana passada apresentaram portfólios ao governo.

Jürgen Todenhöfer: Mas só tiveram 2% dos votos nas eleições...

Presidente Bashar al-Assad: Isso, perdoe, não é nossa culpa [risos]. Não poderíamos ter dado a eles também os votos. Não criamos o governo.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a conversar também com a oposição em [Hexa?]?

Presidente Bashar al-Assad: Dissemos que conversaríamos com qualquer um.

Jürgen Todenhöfer: O senhor aceitaria negociar com os rebeldes, se depuserem armas?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, e já conversamos. Os que depuseram armas foram julgados, vários foram absolvidos e, hoje, vivem vidas normais, sem problema algum.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a negociar com qualquer um, desde que deponham armas.

Presidente Bashar al-Assad: Claro. As conversas começaram antes de eles terem deposto armas. Fizemos todo o possível, até alcançar um bom resultado.

Jürgen Todenhöfer: E quanto ao plano de Kofi Annan? Fracassou?

Presidente Bashar al-Assad: Não. Kofi Annan continua fazendo, até aqui, um trabalho difícil, sim, mas bom trabalho. Está encontrando muitos obstáculos, mas não deve falhar. É excelente plano. 

Jürgen Todenhöfer: Qual é o principal obstáculo?

Presidente Bashar al-Assad: O principal obstáculo é que muitos países não desejam que o plano de Kofi Annan dê certo e funcione. Por isso dão apoio político e continuam a fornecer armas e dinheiro aos terroristas que operam dentro da Síria. Querem que o plano fracasse.

Jürgen Todenhöfer: Quem envia armas para seu país? Qual é o país que envia armas?

Presidente Bashar al-Assad: Ainda não encontramos provas concretas, mas há muitas indicações, indícios, que apontam, posso dizer-lhe, principalmente, para Arábia Saudita e Qatar, quanto ao fornecimento de armas contrabandeadas para a Síria. Quanto ao apoio logístico, os indícios apontam para a Turquia [Jürgen Todenhöfer: E os EUA?] Pelo que sabemos até aqui, eles têm garantido apoio político. [Jürgen Todenhöfer: Equipamento de comunicação?] Há alguma informação sobre isso, exatamente. Mas não comentei esse aspecto, porque ainda não temos informação concreta, completa, que confirme isso e que eu pudesse mostrar-lhe.

Jürgen Todenhöfer: E sobre a ideia de Kofi Annan, de um governo de unidade, constituído por grupos de oposição, inclusive o Partido Baath.

Presidente Bashar al-Assad: Você está falando do plano da Conferência de Genebra. Sim. Já temos esse governo na Síria. Já há membros do partido Baath no Parlamento e participando do atual governo. Mas é preciso critérios: como se define “oposição”? Podem ser dezenas de milhares, centenas de milhares ou milhões de partidos de ‘oposição’. Todos terão de participar necessariamente do governo? Conforme o número... e se não se define o que seja ‘oposição’, que ‘oposição’ seria essa, criada por força de lei? Não há democracia que opere assim. A democracia exige critérios e exige mecanismos. Para mim, o mecanismo tem de ser as eleições. Você representa uma posição, concorre em eleições, obtém votos, ganha lugar no Parlamento, pode participar legitimamente do governo. Mas, se você ‘se chama’ ‘oposição’, mas não tem votos, não consegue representação no Parlamento, você representa o quê? Você mesmo? Que sentido há nisso? Tivemos eleições parlamentares na Síria, há dois meses.

Jürgen Todenhöfer: Por exemplo, a oposição [ininteligível] que participou das eleições... O senhor aceitaria que participasse de um governo de transição, interim, digamos, temporário...

Presidente Bashar al-Assad: Se aceitarem nossas leis, nossas regras, se não cometerem atos criminosos, se não facilitarem as vias para que a OTAN ou qualquer outra potência externa ataque a Síria, sim, por que não? Eles também têm direito de participar de eleições, se atenderem às condições que os demais partidos também atendem. Não vejo por que a oposição teria de ser banida do país.

Jürgen Todenhöfer: Um homem como Ghalioun, o presidente do Conselho Nacional Sírio... 

Presidente Bashar al-Assad: Não é questão que se possa resolver em geral, para todos. Não é questão de nomes. É questão de princípios para todos. Os dossiês policiais terão de ser examinados. Se não se encontrar indício de que tenham cometido crime, nada os obriga a viver fora da Síria, nada os impedirá de concorrer às eleições. Aplica-se a todos.

Jürgen Todenhöfer: Senhor presidente, quando o senhor pensa no que aconteceu aos líderes de Egito e Líbia. Quando o senhor pensa nas imagens que todos viram pela televisão... O senhor não teme por sua família? 

Presidente Bashar al-Assad: Estamos falando de coisas diferentes, de situações diferentes. O que aconteceu a al-Gaddafi foi selvageria. Não importa o que tenha feito, não importa quem tenha sido. Com Mubarak a situação foi diferente. Mubarak foi julgado. Qualquer cidadão que tenha assistido ao julgamento pela televisão pode ter pensado: queria eu, estar naquela posição, vivendo como ele está vivendo. Para entender o que há a temer, é preciso diferençar essas duas histórias. É tudo completamente diferente. Não há qualquer semelhança entre o que houve no Egito e o que está havendo na Síria. O contexto histórico é completamente diferente, o tecido social é diferente, e nossa política sempre foi diferente. Se não se podem comparar esses destinos, não há o que temer. Talvez, no máximo, alguma emoção de piedade, ou de lástima por algum destino pessoal mais trágico.

Jürgen Todenhöfer: O senhor enfrenta uma oposição dura, seu país enfrenta uma luta dura, há rebeldes e o senhor sabe o que esses rebeldes fazem e são capazes de fazer. Repito, então minha pergunta: o senhor não teme pela sua família?

Presidente Bashar al-Assad: Nada importa mais, na vida de um homem, que viver conforme suas convicções. Claro que pode haver discordâncias, pode haver quem discorde de você, opiniões diferem. Mas se você trabalha para proteger o povo, por que temer? Há centenas de vítimas. Imagine se houver milhares, dezenas de milhares de vítimas? Esse, sim, é o problema a resolver.

Jürgen Todenhöfer: Para terminar, qual é sua proposta para o final desse conflito? Volto à pergunta inicial: o senhor entende que tenha de lutar essa luta até o fim?

Presidente Bashar al-Assad: Temos de chegar a uma solução, que tem dois eixos. Em primeiro lugar, não podemos aceitar o terrorismo. Esse é um eixo. Temos de combater o terrorismo. Quanto a isso não há discussão. A realidade na Síria é que há alguém matando civis, matando inocentes, matando mulheres, matando crianças, matando seus soldados, matando policiais, matando todos. Temos de combater os terroristas, se não aceitam dialogar. O outro eixo é construir um diálogo político com componentes diferentes, para, simultaneamente, poder promover reformas. Em todo esse processo, o povo resolverá quem serão seus representantes

Jürgen Todenhöfer: Não há meio para que as reformas venham um pouco mais depressa.

Presidente Bashar al-Assad: Esse é um critério muito subjetivo. Parecerão mais lentas para uns, rápidas demais para outros. Você acha que a reforma é rápida, eu acho que é lenta... É critério muito subjetivo. Reformas são coisas que se faz o mais depressa possível, sem pagar preço caro demais em cada etapa, porque sempre há efeitos colaterais, que não podem ser tão severos a ponto de inutilizar a reforma. Isso não depende de mim, nem do governo, nem do Estado e é processo que tem de ser encaminhado conforme o ditem as circunstâncias objetivas na Síria.

Jürgen Todenhöfer: E como, senhor presidente, o senhor espera ver seu país dentro de dois anos?

Presidente Bashar al-Assad: Tenho de ver a Síria, em dois anos, mais próspera. Mais prosperidade implica melhores condições econômicas e melhores condições em geral, em todos os campos. Para tudo isso, é indispensável construir, imediatamente, o que a Síria menos tem hoje e do que mais precisa: segurança. Sem segurança, não há como sonhar com prosperidade. 

Jürgen Todenhöfer: Muito obrigado, senhor presidente, por essa entrevista.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Resposta ao Blog Democracia & Política


Pela propaganda política democrática de democratização (contra o jornalismo-que-há)


Vila, 
Alguns de seus conceitos fazem sentido. Contudo, este blog não tem como objetivo a propaganda política, nem competência para isso. Relatamos os fatos acima como fatos, e não como propaganda. Para aprender propaganda política, um bom caminho é ler as linhas e entrelinhas da “grande” [sic] mídia brasileira. Ela é PhD nessa área psicossocial.
Maria Tereza 
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Dado que, ao responder pelo blog, obtivemos, de resposta da empresa Blogger, um “noreply" e, no Blog Democracia & Política , só o espaço de umas poucas palavrinhas, a resposta terá de ir por aqui, contando com que chegue ao destino, empurrada nos braços da multidão. A conversa até aqui aparece no final dessa mensagem e no blog. Então, lá vai:

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Resposta da Vila Vudu corroborada pela redecastorphoto:

Companheiro do Blog Democracia & Política:

NÃO. NÃO. NÃO. Perdoe a ênfase, por favor, mas o que você escreveu está ABSOLUTAMENTE ERRADO.

A ideia de que algum “jornalismo” seria o contrário de “propaganda”, e de que “propaganda” seria algo indesejável, algo que se deve evitar, é o coração do asneirol de que vivem as ilusões liberais dos “sem política” -- e como sempre completa um dos nossos – “e também sem-noção”.

A mídia brasileira como qualquer jornalismo-empresa é EMPRESA. Como empresa, o jornalismo/mídia visa ao lucro, não a algum ideal de bem informar ou de formar opiniões democráticas. A ideia de que haveria fato além do fato narrado também é viciada pelo mesmo ideário “jornalístico”. Explico com um exemplo: 

-- o fato "mensalão" nunca existiu no mundo real. Mas o fato "mensalão" foi criado no e pelo jornalismo-empresa, pq interessava ao jornalismo-empresa no específico caso do jornalismo-empresa no Brasil, a partir da eleição do presidente Lula. Então, o fato foi noticiado por quem o construiu, quero dizer: foi posto em formato de notícia e implantado na discussão social.

Esse foi o antisserviço antissocial de que são autores diretos a jornalista Renata LoPrete e a empresa FSP para a qual aquela jornalista presta serviços, e o deputado Roberto Jefferson, que fez o que fez pq precisava de uma bomba atômica para escapar da acusação de ladrão, por ter dado sumiço a uma mala cheia de dinheiro que não se sabe (ainda) quem entregou a ele, com dinheiro a ser entregue ao partido dele. E tão bem foi inventado o fato "mensalão" e tão firmemente foi implantado no  mundo, como se existisse, que já, embora JAMAIS TENHA ACONTECIDO, é hoje, até, objeto de um processo judicial, com réus pré-condenados e pré-executados e tudo! O impossível aconteceu.

O jornalismo SEMPRE CRIA o fato que lhe interessa e, em seguida, SEMPRE o implanta na discussão social, mediante, dentre outros recursos, a REPETIÇÃO INCANSÁVEL, sempre da mesma narrativa, à qual sempre se vão acrescentando "novos detalhes" para manter ligada a atenção geral.

Cabe, é claro, a quem se oponha e deseje resistir aos FATOS que o jornalismo-empresa cria e implanta, construir também os OUTROS FATOS que lhe interesse construir, e implantá-los na discussão social.

Não é preciso ser comunista para saber disso há muito tempo: a imprensa liberal TAMBÉM sabe disso.

Por isso, a imprensa liberal sobrevive há tanto tempo em todo o mundo: porque, embora venda ar engarrafado -- porque TODA A IMPRENSA-empresa vive de vender ar engarrafado, com a única diferença de que o ar engarrafado que a imprensa progressista vende é ar engarrafado que pode ser um pouco mais democrático e pode ser também ar engarrafado de ativa DEMOCRATIZAÇÃO -- a imprensa liberal dá alguma voz às vozes minoritárias.

Assim se faz a boa imprensa que há ainda em alguns países, mas que NUNCA houve no Brasil, nem por uma semana. 

Que TODOS OS FATOS que se implantam (que são “pautados”, no jargão de jornais e jornalistas) na discussão social são CONSTRUÍDOS com o material da realidade circundante momentânea, é evidentemente o único fato que sobrevive ao jornal de ontem: comunistas e liberais JÁ SABEM que todos os fatos são construídos.

Vê-se hoje, por exemplo, que a Rede Globo já está, até, pré-construindo o fato “julgamento do mensalão”, com chamadas antecipadas para o fato que só será fato daqui a alguns dias!

Então, assim como o jornalismo de esgoto que se vende no Brasil a consumidores (que, no Brasil, são necessariamente ELEITORES) constrói os fatos que mais lhe interesse construir, É OBRIGAÇÃO dos que se oponham à visão de mundo dos jornais-empresa que há no Brasil e desejem resistir contra aquela visão de mundo, CONSTRUIR TAMBÉM OS FATOS QUE NOS INTERESSEM. A isso a gente aqui chama de PROPAGANDA POLÍTICA DEMOCRÁTICA DE DEMOCRATIZAÇÃO.

Na sua preocupação de fugir da pautação da mídia-lixo, golpista, conservadora, reacionária e BURRA que há no Brasil, você esquece que, enquanto você se limita a responder a (e mesmo que se dedique a criticar!) o que aquela mídia escreve, VOCÊ AINDA ESTÁ PRESA NA PAUTAÇÃO QUE AQUELA MÍDIA ESTÁ IMPONDO.

Por isso nós dizemos que criticar o grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) é perda de tempo e é contraproducente: o grupo GAFE sabe que, enquanto a blogosfera só fizer esculhambar o que eles noticiam, a blogosfera CONTINUARÁ pautada por eles... e nenhuma mudança acontecerá.

Novidade começará a haver, isso sim, quando a blogosfera aprender a SAIR DA PAUTAÇÃO do grupo GAFE e se dispuser a começar a aprender a fazer propaganda política democrática de democratização (que é o que o Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e a redecastorphoto tentam COMEÇAR A APRENDER, fazendo o que lhe dá na telha e analisando os resultados. Colhemos a dica-slogan de um grupo aí que milita na internet e que ensina: “Você não gosta da mídia? Seja a mídia!” -- o que se tornou possível, para os muitos, com a internet).

Por incrível que pareça, cada vez que escrevemos o que aqui estamos escrevendo para vocês, o blogueiro responde “Não fazemos propaganda!”. Como se fazer propaganda fosse alguma espécie de coisa-feia, não ética ou não democrática.

Fazer propaganda democrática de democratização é suuuuuuper limpo, ético, belo, bom e justo e moral (além de ser suuuuuuper democrático e além de ser DEVER dos democratas e DIREITO dos que não têm voz e contam conosco, como alto-falantes solidários).

O difícil, nessa discussão, é que, para que a discussão avance, é indispensável DETONAR a ideologia (falsa, engambelativa) dos discursos de legitimação do jornalismo-que-há. E isso é MUITO difícil.

Detonar a ideologia dos discursos de legitimação do jornalismo-que-há é difícil, pra começar, porque esse papim de legitimação do jornalismo-que-há é ideologia; quer dizer, é uma verdade que só vale(ria) (precariamente!) num pequeno campo da realidade, mas que é apresentada como se fosse verdade universal sempre.

E é difícil, também, porque o discurso de legitimação engambelativa, que legitima o jornalismo-que-há, está plantado bem fundo na ideologia liberal sem luta política, sem-política (“e sem-noção”) que é um dos pilares do neoliberalismo.

Prá complicar o resto, o jornalismo é também profissão, quer dizer, é ganha-pão dos jornalistas, que, no modelo empresarial do jornalismo-que-há só têm emprego nas empresas jornalísticas. Então, os jornalistas são treinados para acrescentar conteúdo pessoal existencial humano àquela ideologia completamente desumana e engambelativa. E acrescentam.

De fato, a única saída progressista que há, para os jornalistas profissionais é eles entenderem que o único jornalismo possível, em sociedade radicalmente democrática e democratizada será, precisamente, o que nós chamamos de propaganda política democrática de democratização.

Justamente porque é a única saída de revitalização democrática do jornalismo-morto, essa única saída que há é quase automaticamente FECHADA quase sempre, com o recurso ao argumento ideológico engambelativo segundo o qual haveria um jornalismo-do-bem, em luta contra a propaganda-do-mal (e em luta, também, contra um jornalismo-do-mal, sempre apresentado como uma parte do jornalismo, quando é, por definição e história, não uma parte, mas TODO o jornalismo liberal que alimenta os lucros do jornalismo-empresa).

Se você examinar sua resposta, verá que foi exatamente o que você tentou fazer -- sem nem perceber o que estava fechando: fechar a saída para a propaganda democrática de democratização, reproduzindo o discurso e a ideologia do jornalismo-que-há.

Essa discussão é longa e difícil. Mas nosso coletivo assumiu o compromisso de JAMAIS deixar sem resposta alguma resposta que REPRODUZA o discurso falso, fajuto, engambelativo de legitimação do jornalismo-que-há. Então, respondemos sempre, o mais dedicadamente que se consiga.

Contamos sempre com a possibilidade de que o nosso empenho consiga, pelo menos, arranhar a superfície da carapaça ideológica em geral. Somos, aqui, comunistas leninistas, maoístas e outros -istas do campo comunista e políticos e democráticos e de democratização. E trabalhamos contra o jornalismo e a favor da propaganda política democrática e de democratização. Somos muitos e trabalhamos pácas. Só a luta ensina.

[assina] Coletivo Vila Vudu de Tradutores 

Ééééé, minha gente! Anonymous é!


1/8/2012, Anonymous, Pastebin
Traduzido (com pequenas intervenções pelo pessoal da Vila Vudu


Éééééé, Anonymous é gay. Anonymous é viado novo, viado velho e viado que ainda não mostrou a própria viadagem.

Anonymous é inevitavelmente os que se ofendem demais e reagem como moralistas histéricos toscos, porque não sabem fazer melhor nem rir da violência do aparelho de repressão e vigilância. Anonymous é Occupador em Oakland, New York e Melbourne.

Anonymous é palestino em Israel, dono de barraca em mercadinho na Tunísia, revolucionário no Egito e feminista em performance artística em igreja russa.

Anonymous é anarquista na Grécia, uma corrente de estudantes de braços dados contra canhões de spray de pimenta em UC Davis.

Anonymous é militante de cabelo branco em luta para fazer ouvir a verdade.

Anonymous é jornalista que arrisca a vida no Mexico.

Anonymous é mãe solteira twitando a revolução e o urro da internet que rolou no monitor dia 10/12/2010.

Anonymous é o enxame que fez ouvir a palavra-de-ordem:

“A infowar já começou! Wikileaks é o campo de batalha. Você é o guerrilheiro”

Anonymous é o troll que dorme dentro de cada um de nós, o revolucionário reprimido que YouTube libertou, carregado de tons apocalípticos.

Anonymous é “o fim está próximo”.

Anonymous é simultaneamente o usuário de OTR e o escravo que ainda não se libertou da empresa Facebook.

Anonymous é um refugiado num campo de concentração de prisioneiros na Austrália, é um pacifista em Washington, é a única mulher numa conferência tech.

Anonymous é um marxista-leninista na China, um soldado de gangue na favela, uma professora sem-teto dormindo na chuva numa calçada nos EUA, e o próximo desempregado aluno da Escola de Artes, que nem em 200 anos conseguirá pagar a dívida da “bolsa de estudos”. 

Anonymous é todas as minorias exploradas, marginalizadas, oprimidas que resistem e dizem “Basta”. Somos todas as minorias que começam a aprender a falar e todas as maiorias que começam a aprende a calar o bico e ouvir.

Somos todos os nunca-aceitos hoje afinal à procura de um jeito de falar, para falar.

Somos todos os que tornam inabitável o poder e insuportável a boa consciência – isso é Anonymous.

O custo da desnacionalização


Adriano Benayon* – 29.07.2012
1. Venho mostrando que a desnacionalização está na raiz das travas ao desenvolvimento econômico e social do País, que se traduzem em suplícios diariamente vivenciados pela imensa maioria dos brasileiros.
2. Entre os aspectos da vida em que nossa população é mais sacrificada está o transporte para ir ao trabalho e de lá voltar, em que se perde, em muitos casos, seis horas diárias, ademais de passá-las em extremo desconforto.
3. Isso atinge mais duramente os que dependem totalmente dos meios de transporte públicos, mas não poupa os que têm veículo próprio, emperrados no trânsito urbano e nas estradas deficientes e congestionadas, ou exploradas por concessionárias vorazes na extorsão dos pedágios exorbitantes.
4. Esses prejuízos e os decorrentes dos preços dos veículos mais altos do mundo - que, por vezes, passam do dobro do que pagam os consumidores de outros países - são os mais visíveis, mas não são os únicos nem os maiores.
5. As colossais transferências de recursos financeiros que as subsidiárias das transnacionais efetuam em favor de suas matrizes são a causa principal dos déficits das contas externas e o fator básico do endividamento.
6. Este, por seu turno, deu lugar aos abusos que fizeram exponenciar a dívida pública, através da composição de juros extorsivos e de numerosas e injustificáveis taxas, sem falar na estatização de dívidas privadas.
7.Assim, nos últimos 30 anos o “serviço da dívida” come a parte do leão das receitas públicas, fazendo minguar os investimentos na infra-estrutura, na saúde e na educação. Para cúmulo, a insuficiência quantitativa é grandemente agravada pela escolha “errada” em onde investir e como investir.
8. Quanto ao onde, priorizou-se, entre os transportes, o rodoviário. Mas quem induziu ao erro? Há erros tão grosseiros, que não podem ocorrer só por ignorância: alguém exerceu poder para que eles fossem cometidos. Esse é o fulcro da maior – e menos comentada – corrupção existente no País.
9. Os juristas da Roma Antiga recomendavam procurar a quem o crime aproveita. A quem, senão à indústria automotiva e ao cartel do petróleo, cujos interesses, em âmbito mundial, são, em grande parte, os mesmos?
10. Quanto ao como, os investimentos são feitos antes para propiciar ganhos às grandes empresas mundiais que em proveito do País. Omitindo as verdadeiras causas do “custo Brasil”, os que reclamam dos impostos altos, energia e transportes caros não sabem do falam, ou fingem não saber.
11. De fato, não fosse a dívida inflada por obra do modelo dependente, não teríamos, como hoje, de usar quase metade da receita de impostos e contribuições no serviço dessa dívida. Além disso, as alíquotas poderiam ser reduzidas para a metade das atuais, gerando o dobro da receita, se tivessem ficado no País e fossem investidos sensatamente os recursos apropriados e transferidos ao exterior pelas transnacionais.
12. Quanto à energia o Brasil tem todas as condições naturais para que seja barata, e assim seria se não se importassem, com enormes sobrepreços, as turbinas e outros equipamentos dos cartéis mundiais, sob o esquema da dependência financeira e tecnológica. Depois, a dívida resultante subiu para estratosfera.
13. Aenergia seria muitíssimo mais barata se se tivesse desenvolvido corretamente a da biomassa, com óleos vegetais substituindo o diesel de petróleo e o álcool combinado com a agropecuária. Mesmo sem isso, seria muito mais módica, se FHC não tivesse favorecido as estrangeiras British Gas, Shell e Enron com os contratos para importar gás da Bolívia, destinado a antieconômicas termelétricas. Seria ainda mais competitiva sem as corruptas privatizações e concessões.
14. O Brasil é superdotado em recursos aquaviários, base da modalidade mais econômica dos transportes: extensíssima costa marítima e abundância de rios navegáveis, ou transformáveis em tal, e interligáveis por canais. Há 70 anos, o Prof. Affonso Várzea elaborou o projeto “Ilha do Brasil”, que incluía a ligação entre as bacias do Prata e do Amazonas. E, até hoje, nada!
15. Se tivesse investido em ferrovias e material rodante, prosseguido com as estatais e estimulado o desenvolvimento de tecnologia, não se teria aprofundado a desvantagem em que o País se encontrava há 56 anos, quando a política passou a exacerbar as falhas da malha ferroviária, ao invés de corrigi-las.
16. Veículos automotores em excesso atravancam as vias urbanas, pois faltam densas linhas de metrô nas metrópoles, enormemente infladas em suas periferias pela migração decorrente da estrutura fundiária e da baixíssima renda das massas, gerada pelo modelo. Nos transportes interurbanos e interestaduais dá-se problema semelhante.
17. Conforme estudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), as transnacionais montadoras servem-se da pesquisa tecnológica, feita aqui, para remeterem, como despesa, seu lucro real às matrizes, muitíssimo mais que introduzir inovações em processos produtivos.
18. O IPT observa:"O Brasil tem no mundo o maior número de marcas produzidas internamente, mais até que os Estados Unidos”. Aduz o pesquisador do IPT, Mário Sérgio Salerno: “Isso não é bom para o produto, porque cria uma pulverização, e essa indústria depende de escala para ser competitiva”.
19. O engenheiro Carlos Ferreira comenta: “4º maior mercado de veículos e 6º maior montador. Nenhuma marca nacional. Entretanto, fartura de subsídios às transnacionais, que aqui produzem veículos de baixa tecnologia, e remessas de bilhões para suas matrizes no exterior. Algumas delas já teriam desaparecido sem este “eldorado dos trópicos”.
20. Como aponta Salerno, as montadoras realizam, em geral, testes, e não, pesquisa e desenvolvimento (P&D), já que a parte substantiva dos modelos é projetada nas matrizes. Assim, o País paga elevados royalties em favor delas, que contabilizam, como investimento em P&D, numerosas horas de engenharia aplicadas nos testes.
21. Essa é, portanto, uma das rubricas usadas pelas transnacionais para remeter ganhos ao exterior, obtidos com os elevados preços do mercado brasileiro, acrescidos dos subsídios que o “poder público” brasileiro presenteia as montadoras, ademais das isenções e reduções fiscais.
22. Os insumos importados a preços superfaturados são outro grande conduto de recursos para o exterior, resultando, ao mesmo tempo, no preço final elevadíssimo no mercado brasileiro.
23. Os mais importantes deles são os motores, que não são desenvolvidos no Brasil. Fabricam-se aqui, mas sempre por transnacionais, como ocorre com a maior parte das autopeças, indústria que, até os anos 70, era controlada em cerca de 80% por empresas de capital nacional.
24. Esses são dados da realidade demonstrativos de que, embora tenha crescido quantitativamente, a produção no Brasil decaiu qualitativamente. O atraso é espantoso não só em relação aos países asiáticos - que se industrializaram muito depois do Brasil - mas também em relação aos progressos havidos, enquanto teve governo passavelmente autônomo, i.e., na Era Vargas.
25. AFábrica Nacional de Motores (FNM), fundada em 1942, produziu motores aeronáuticos, tendo o primeiro avião com motor FNM saído em 1946. Embora a tecnologia fosse norte-americana, Curtiss-Wright, a produção sob controle nacional viabilizaria o desenvolvimento de tecnologia brasileira.
26. Com a deposição de Vargas em 1945, deu-se o primeiro retrocesso, convertendo-se a produção para motores de eletrodomésticos. Em 1949, a FNM iniciou a fabricação de caminhões, retomada em 1951, em associação com a estatal italiana Alfa-Romeo, com Vargas de volta.
27. Depois, a fábrica de Xerém, RJ, produziu novo modelo do exitoso caminhão FNM e depois o automóvel de passeio Alfa-Romeo JK, mas, em 1968, o governo do novo golpe militar fez alienar a FNM para a empresa italiana, mais tarde privatizada em favor da Fiat.
28. A política econômica do modelo dependente promoveu a crescente apropriação do mercado interno brasileiro pelas transnacionais, inclusive através das barreiras à importação. A partir da abertura radical à globalização, iniciada por Collor, os veículos produzidos no Brasil foram tendo conteúdo decrescente de insumos locais, e cresceram as importações de veículos.
29. O resultado disso espelha-se na balança comercial do 1º quadrimestre de 2012: as exportações de automóveis somaram US$ 1,2 bilhão, enquanto as importações atingiram US$ 3,3 bilhões.
30. Segundo o estudo do IPT, Volkswagen, General Motors e Fiat desenvolveriam alguma tecnologia local, em produtos aqui concebidos, como o Fox, da Volks, e a Meriva, da GM.
32. Mas não são desenvolvimentos significativos. Pior: em qualquer caso, pode-se ter certeza que eles se tornam propriedade das transnacionais, protegida por patentes.
33. Na realidade é para isto que a Volkswagen ganhará mais um subsídio: o financiamento pelo BNDES (BancoNacional de Desenvolvimento Econômico e Social), no montante de nada menos que R$ 342 milhões para “desenvolver” um subcompacto e um sedã, e “modernizar” modelos existentes.
34. Como assinala o economista Paulo Kliass, em artigo publicado em 13.07.2011, “Prioridades do governo, BNDES e indústria do automóvel”, trata-se de modelos já vendidos em outras praças, como o supercompacto “Up”. O crédito, da linha “Proengenharia” do BNDES, serve para gerar valor agregado no exterior.
35. Aduz Kliass: “Os projetos chegam aqui prontos e acabados”. Lembra, ainda, que o BNDES já havia favorecido a Renault, em projeto semelhante, com R$ 374 milhões para “adaptação de veículos ao clima e às condições de ruas e estradas do País. Uma loucura!”
36. Poder-se-ia concluir que o BNDES – com “N” de “Nacional” – dissipa recursos fazendo de conta que as transnacionais sejam brasileiras, por ocuparem os mercados do País e exercerem poder sobre o “governo”.
37. Leonardo Sakamoto, em 03/07/2012, no seu blog, apud Folha SP informa que as montadoras planejam demitir, apesar do aumento de vendas trazido pela redução de IPI. GM e Volkswagen abriram programas de demissão voluntária, e a GM estuda fechar a linha de montagem em São José dos Campos e extinguir 1.500 vagas, segundo o sindicato de metalúrgicos local.
38. Cita, ademais, matéria do Estado de São Paulo, conforme a qual, desde a crise internacional, o governo brasileiro abriu mão de R$ 28 bilhões em impostos para a indústria automobilística, e esta enviou, ao exterior, no período, US$ 14,6 bilhões. Saliento que essa cifra não inclui o grosso da transferência real dos lucros.
39. Sakamoto assinala que, na lógica que as transnacionais impingem ao “governo”, o Estado ajuda as empresas, mas estas não devem sofrer intervenção alguma: “um liberalismo de brincadeirinha, com o Estado atuante, mas subserviente ao poder econômico, em que o (nosso) dinheiro deve entrar calado ...”
40. Recorda Gabriel Barros, do Instituto Brasileiro de Economia da FVG: “A indústria automotiva do Brasil tem 60 anos e a da Coreia do Sul, 35, e eles são tão mais competitivos, que o consumidor consegue perceber isso simplesmente entrando no carro”. Ele não explica, porém, que na Coréia do Sul a indústria é de capital nacional.
41. Nos âmbitos estadual e municipal, os subsídios não são menos escandalosos que na esfera federal. Ancelmo Gois, em O Globo, de 20.06.2012, informa que Andrea Calabi, secretário de Fazenda de São Paulo ficou “escandalizado” com o incentivo fiscal dado a duas montadoras por Sérgio Cabral, “governador” do Rio de Janeiro: “O governo fluminense vai financiar 80% do ICMS em 50 anos, com 30 de carência, para Nissan e PSA (Peugeot/Citroen). Juntos, os benefícios chegam a R$ 10 bilhões. A medida é insana. Outras empresas e setores vão querer as mesmas condições...”

*Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento, editora Escrituras SP.