sábado, 29 de dezembro de 2012

China testa o “pivô” norte-americano


22/12/2012, Peter Lee, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao longo do ano que está acabando, a República Popular da China pela primeira vez teve contato próximo, direto, pessoa a pessoa, com o movimento de “pivô” dos EUA outra vez na direção da Ásia – o reequilibramento estratégico, que em tudo se parece com movimento de “contenção”.

China e fronteiras

A República Popular da China passou boa parte do ano em luta-livre contra vizinhos inamistosos, fortalecidos pela nova política dos EUA, como o Vietnã e as Filipinas; combatendo contra os esforços dos EUA, ativos em várias esferas de influência chinesa na península coreana e no sudeste asiático; e enfrentou um teste de força e firmeza contra o principal representante-procurador dos EUA na região, o Japão.

Tal estado de coisas foi enganosamente, embora previsivelmente, apresentado na imprensa ocidental em termos de “intransigência da China exacerba tensões regionais”, embora interpretação mais correta pareça ser: “rivais da China exacerbam tensões regionais para intimidar uma China assertiva”.

Seja qual for o contexto, 2012 foi o ano em que o mundo – especialmente o Japão – descobriu que a República Popular da China pode, sim, movimentar-se contra o “pivô”.

Bush Filho
Os anos de vacas gordas para “a China em ascensão” corresponderam aos anos do governo de George W Bush. Preocupado com desastres em cascata no Oriente Médio, déficit fiscal galopante, que exigia parceiro com apetite insaciável pelos papéis da dívida dos EUA e, depois, com o derretimento das economias norte-americana e mundial, Bush não teve estômago para mexer com a China.

A República Popular da China pegou a bola e correu com ela o quanto quis, até emergir com presença de superpotência no leste da Ásia; alcançou a África; estabeleceu-se como parceiro rico crucial para a União Europeia; e pôs abaixo os últimos bastiões da liderança ocidental no planeta pós 2ª Guerra Mundial: a grande política multinacional e suas instituições financeiras.

Obama
Alguma reviravolta era inevitável e foi cuidadosamente, aplicadamente, dedicadamente buscada, pelo governo Barack Obama.

Volta-se a ver também em cena a inefável autoestima norte-americana. Com a eleição e reeleição de um presidente negro, de origem social modesta, os EUA voltam a cobrar espaços, como se algum direito de nascimento no campo moral lhes garantisse privilégios, algo que bem se poderia supor que os EUA tivessem esquecido por mais de uma década depois do fracasso no Iraque, as trapalhadas que os EUA introduziram no sistema financeiro global e o rotundo fracasso na gestão da questão existencial da mudança climática.

Teria sido divertido, de modo meio macabro, verificar se a eleição de Mitt Romney à presidência deslancharia o mesmo discurso de êxtase neoliberal sobre as glórias da democracia norte-americana que se ouviu depois da reeleição do presidente Obama. Seja como for, o comicamente incompetente Romney não foi páreo para a popularidade, a inteligência e o incansável foco organizacional da arrogância de Obama e dos norte-americanos – ou, como Evan Olnos da revista New Yorker diria, em tom de elogio: “o carisma moral dos EUA” voltou ao palco.

Com os EUA firmemente de volta à sela da liderança, pelo menos no que tenha a ver com a gangue do comentariato dos assuntos externos, a China nada teria a mostrar ao mundo exceto as falhas e máculas de um sistema político e econômico autoritário; nada a ensinar, exceto aulas de como não fazer e do que não ser; e sem qualquer direito a participar de nenhum conselho mundial de líderes, exceto se aprovada pelo ocidente.

Essa atitude encaixa quase à perfeição com o aparente desdém que Obama sente pela República Popular da China, aquele regime sem brilho, inamistoso, sem graça, que reage exageradamente a qualquer ordem para engajar-se, gente que tem de ser forçada, pressionada e coagida a andar na direção preferencial dos objetivos preferenciais da humanidade. Sob a liderança do governo Obama, o ocidente decidiu cercar, conter, restringir a China, em vez de acomodá-la e acomodar-se a ela.

A China só será parceira bem-vinda na ordem mundial – pelo menos como o ocidente define a tal ordem – se democratizar-se, se desmantelar sua economia controlada pelo estado e se aderir aos padrões das instituições multinacionais, na busca do lugar dela na tal ordem. Estando esses objetivos absolutamente fora do radar e de qualquer consideração, no que tenha a ver com as atuais lideranças políticas chinesas, a única saída de curto prazo para o impasse, posto nesses termos, seria o colapso do regime chinês.

É aposta de alto risco. Se o regime chinês não entrar em colapso, a única coisa que cabe esperar para futuro previsível é hostilidade crescente, fervente, entre a República Popular da China e seus muitos antagonistas.

A China optou por evitar qualquer confronto direto com os EUA; e, em vez de confrontar os EUA, passou a explorar as fraquezas da cadeia de representantes e procuradores e aliados dos EUA, ao mesmo tempo em que protege os pontos fracos de seus próprios procuradores e aliados.

Ma Ying-jeou
A única vitória incontestável da República Popular da China no leste da Ásia em 2012 foi a reeleição de Ma Ying-jeou, do Kuomintang, para a presidência de Taiwan. O presidente Ma tem política de mínima fricção com a República Popular da China, bem diferente da tumultuada política pró-independência e pró-Japão do Partido Democrático Progressista. Em 2012, Ma deu um passo a mais. Em movimento que foi amplamente ignorado pela imprensa-empresa ocidental, porque complicava a narrativa segundo a qual todo o mal e todos os crimes concentram-se na República Popular da China, Ma despachou uma flotilha de navios oficiais e nada-oficiais para dar trabalho à guarda-costeira japonesa presente em torno das ilhas Senkaku/Diaoyu.

Além de Taiwan, um dos astros mais brilhantes do firmamento autoritário, hoje com tendências pró-China é a Coreia do Norte a qual, hoje, além de pró-China também é pró-reformas, sob o governo de Kim Jong-eun.

A República Popular da China continua a fazer o governo Obama pagar pelos desastrosos erros de cálculo em 2009, quando os EUA supuseram que os laços comerciais que ligavam a República Popular da China predominantemente à Coreia do Sul implicariam que Pequim abandonaria às traças a Coreia do Norte, depois do acontecido à fragata Cheonan (que foi posta a pique por forças até hoje desconhecidas, mas que muitos sempre creram que fossem norte-coreanas) e unir-se-ia aos EUA num cerco diplomático multilateral, movido a sanções, contra o regime de Piongueangue.

Nada disso. O falecido Kim Jung-il percebeu que seus prolongados esforços de ópera bufa para engajar-se com os EUA eram vãos; meteu-se pois no seu trem blindado e viajou à China, onde foi recebido nos braços hospitaleiros de Hu Jintao.

Na outra coluna do livro-caixa, Myanmar ameaçou deslizar para fora do campo chinês, com a decisão governamental de “reequilibrar” sua política exterior, afastando-se da China e aproximando-se dos EUA, e obter uma acomodação com as forças pró-democracia. As indispensáveis demonstrações de empenho pró-democracia e pró-ocidente, vindas do governo de Thein Sein, foram:

Aung San Suu Kyi 
1.      libertar da prisão domiciliar a ativista Aung San Suu Kyi e admitir que voltasse à vida pública; e
2.     adiar o projeto da hidrelétrica Myitsone.

O projeto Myitsone era domesticamente impopular, porque financiado pela República Popular da China e adotado como símbolo de que os interesses de Myanmar estavam sendo vendidos à China por generais corruptos. Adiar Myitsone virou ação de alta popularidade, porque levantava a possibilidade de bloquear o desenvolvimento do potencial hidrelétrico financiado pelos chineses e, em vez de ajudar a China, permitia que interesses ocidentais, distantes há anos da economia de Myanmar por força de sanções, reorientassem a exportação de energia hidrelétrica, afastando-se da China e aproximando-se da Tailândia.

A República Popular da China respondeu com cautela à mudança em Myanmar, consolando-se, parece, com continuar a dominar a economia, o comércio exterior e a política de segurança de Myanmar graças à longa e muito porosa fronteira que os dois países compartilham.

Ao que parece, elites políticas de Myanmar, inclusive Aung San Suu Kyi, resolveram que uma jihad econômica anti-China seria contraproducente, e a República Popular da China tem boas razões para esperar que, aumentando as apostas no seu jogo de Relações Públicas, distribuindo dinheiro entre cidadãos desonestos dentro e fora da política (e, talvez, renegociando discretamente alguns dos termos excessivamente favoráveis em acordos de pai-para-filho com a Junta de Myanmar), conseguirá navegar com sucesso pelos hoje perigosos atoleiros da política multipartidária em Myanmar (onde um sempre tradicional populismo antichinês converteu-se em ferramenta inevitável de mobilização política e popular).

Sinal de que os EUA esperavam pôr na roda também Laos e Camboja, a secretária de Estado, Hillary Clinton fez rara visita a Vientiane, capital do Laos, antes da aparição em Phnom Penh para um convescote da Associação das Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)]. Os resultados foram complexos, dado que o Camboja defendeu lealmente a República Popular da China contra a tentativa de criar uma frente unida da ASEAN contra a China no item relativo a uma iniciativa de mediação no Mar do Sul da China que estava na agenda.

Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)
Os desejos cambojanos e laosenses de distanciarem-se da grande perturbação asiática, a República Popular da China, são talvez contrabalançados pelo desejo de manter ao largo a grande perturbação do sudeste asiático, o Vietnã. Quanto ao Vietnã, já aprendeu que, no que tenha a ver com EUA, a China não é o Irã e o Vietnã não é Israel – não, pelo menos, por hora, e bem possivelmente, jamais serão.

Apesar de os EUA terem falado em apoio à liberdade de navegação no Mar do Sul da China e a uma frente unida multilateral para negócios com a República Popular da China, os EUA evitaram “assumir lado em disputas territoriais” – a única disputa que mobiliza as nações que cercam o Mar do Sul da China, uma vez que “a ameaça chinesa à liberdade de navegação na área” pouco ultrapassa o plano da pura conversa fiada e nonsense.

Mar do Sul da China
Com a baixa probabilidade de a 7ª Frota dos EUA deslizar para o Mar do Sul da China e pôr a pique todos os navios chineses, como adjuntos da Marinha Vietnamita, o Vietnã parece ter aprendido, da ferocidade chinesa contra o Japão, a lição segundo a qual os custos de disputar o papel de estado-líder na aliança anti-China podem ultrapassar, em muito, os benefícios.

A grande história no campo da segurança no leste da Ásia esse ano foi a decisão da República Popular da China de acicatar o Japão, ostensivamente por causa do fetiche tolo chamado Ilhas Senkaku/Diaoyu, mas, de fato, por causa da decisão tomada por Tóquio, de dar apoio moral e material ao tal movimento de “pivô” dos EUA – o que o Japão fez, ao reacender a questão das tais detonadíssimas ilhas (tailandesas).

Seiji Maehara
Em 2010, a China tomou a desastrosa decisão diplomática de retaliar oficialmente contra uma provocação japonesa – a insistência de Seiji Maehara em processar um comandante de pesqueiro chinês, em cortes japonesas, por uma infração em águas próximas das Senkakus. Um movimento relativamente ponderado e limitado, de enviar uma mensagem ao Japão, mediante movimento de segurar o esforço exportador no semimundo nebuloso das terras raras, converteu-se em cause celèbre anti-China, oportunidade para o Japão fazer promoção dos EUA no campo dos assuntos de segurança marítima no leste asiático; e convite a outros vizinhos da China para que se ponham a ocupar ilhas, na tentativa de provocar mais alguma super-reação contraproducente de Pequim.

Em 2012, a República Popular da China estava pronta, provavelmente ansiando ardentemente, por uma luta, avaliando as possibilidades, até quando o governo de Yoshihiko Noda canhestramente tentou explorar a questão Senkaku e saltou à frente do governador de Tóquio e ultranacionalista, Shintaro Ishihara, para comprar três das ilhas. 

Yoshihiko Noda
Dessa vez, a retaliação chinesa veio sob vestes diplomáticas e respeitáveis: cruéis ataques contra interesses econômicos do Japão dentro da China. A campanha de 2012 causou mais danos ao Japão que a campanha de 2010, que fora concebida como flechada simbólica contra o arco de Japan Inc. A economia japonesa já não ia muito bem mesmo antes de os protestos de 2012 sobre Senkaku devastarem as vendas de carros japoneses e, sobretudo, o investimento japonês na China – o que faz crescer a possibilidade de a China desfechar golpe mortal, não simples mensagem de irritação, contra o Japão.

Os vastos esforços dos EUA para refocalizar as prioridades econômicas asiáticas e para oferecer vantagens materiais a países que, como o Japão, alinhem-se contra a República Popular da China – na Parceria Trans-Pacífico-sem-China – enfrentam hoje muitas dificuldades para avançar, com as economias alinhando-se, isso sim, a favor da possibilidade de que a China, não os EUA (que já mais parece concorrente exportador, que motor da demanda, para os tigres asiáticos) venha a ser o motor do crescimento da Ásia no século 21.

Parece, isso sim, que o “pivô” dos EUA na direção da Ásia será guerra de atrito cara, dificílima, a ser combatida em vários fronts –, cabendo ao Japão arcar com os danos principais; nada sugere que possa haver triunfo rápido para qualquer dos lados.

Digamos que 2012 acabou empatado. E houve empate, também no resto do mundo.

O governo da Índia parece sentir que a cordilheira do Himalaia assegura adequada terra-de-ninguém entre a República Popular da China e a Índia; e vai abrindo uma trilha cuidadosa, entre China e EUA.

Vladimir Putin
Com a reeleição do presidente Vladimir Putin e a volta de uma declaração mais cara-a-cara das prerrogativas da Rússia no confronto com os EUA, é menos provável que a Rússia favoreça os EUA à custa da China, do que foi ao tempo de Dmitry Medvedev.

Por outro lado, a União Europeia, premiada com o Nobel da Disfunção Patético-Trôpega, digo, o Nobel da Paz, pendura-se desesperadamente aos EUA em quase todas as questões geopolíticas, inclusive na declarada aversão às políticas comerciais chinesas; e na obsessão com segurança e com abusos de direitos humanos. Resta ver se tal nobre determinação será recompensada com alguma recuperação nas economias ocidentais, ou se, adiante, a Europa precisará de um resgate chinês.

A arena mais interessante e mais reveladora da competição-cooperação EUA-China é das menos esperadas ou prováveis: o Oriente Médio. A República Popular da China, pelo que se pode ver, está tentando um movimento de “pivô” chinês, e alavanca, para ascender ao topo da lista, a sua posição de principal comprador de energia do Oriente Médio, simultaneamente, da Arábia Saudita e do Irã.

Com os EUA aproximando-se da autossuficiência nacional, ou, pelo menos, continental, graças à extração doméstica e ao consumo das areias betuminosas [orig. tar sands] do Canadá – e ostensivamente se pivoteando para a Ásia – parece prudente e sábio dar boas vindas às pretensões chinesas de liderança no Oriente Médio.

A República Popular Chinesa tem portfólio não irracional de posições no Oriente Médio: fala, pelo menos, a favor das aspirações dos palestinos; aceita o direito de Israel existir e prosperar; aceita um regime de segurança nacional baseado em desenvolvimento econômico, não em guerra total entre os blocos sunita e xiita; aceita acomodação com regimes do Levante Islâmico, para uns; ou Primavera Árabe, para outros (desde que se disponham a fazer negócios); tende a preferir muita estabilidade, à moda dos emires, a muita democracia; e exige o fim da imbecilidade em torno do Irã “nuclear”.

Quanto ao banho de sangue na Síria, a República Popular da China tem consistentemente promovido uma solução que envolva algum grau de divisão de poder entre Assad e a oposição. Os EUA, nostálgicos talvez dos 30 anos de assassinatos que patrocinaram no Oriente Médio, e perversamente dispostos a não apressar o fim do banho de sangue, recusaram-se a admitir que a China tivesse qualquer outra função nas negociações, além da de marginal impotente.

A Síria, especialmente, é símbolo da abordagem vá-tomar-no-cu, que os EUA sempre prestigiaram, no que tenha a ver com segurança do Oriente Médio.

Washington goza, desfalece de prazer, vendo a Síria ser reduzida a ruínas, desde que – com a extinção da Síria – Irã, Rússia e China percam um aliado na região.

A mensagem chinesa parece ser: os EUA que se “pivoteiem” para a Ásia, e que ameacem destruir um regime de estabilidade e segurança que gerou paz e prosperidade que a região, antes, jamais conheceu; em nenhum caso a República Popular da China se envolverá do pântano do Oriente Médio, apesar de – ou, melhor dito, porque – aquela região é crucialmente vital para a segurança energética e econômica da China.

Tio Sam
Essa dinâmica empurra a China para ganhar musculatura militar, projetar poder e reforçar suas competências, suas habilidades, para controlar o destino de sua própria segurança em todo o hemisfério.

A provável resposta chinesa não será pôr-se a ameaçar atores regionais para abalar Tio Sam, o qual tem interesse mais esportivo do que existencial em manter ocultas várias coisas na Ásia.

Até hoje, o governo Obama ainda não se manifestou sobre o jogo de gato e rato que a China está impondo ao Japão – acovardado ante a economia global. Mandar a 7ª Frota velejar pelo Pacífico ocidental à procura de náufragos de tsunamis e tufões e de piratas esfarrapados pouco ajudará o Japão.

Se o Japão decidir assumir o controle do próprio destino de segurança, dando as costas à Constituição pacifista, construindo para si uma posição de potência militar independente, e convertendo sua plena capacidade para construir armas atômicas em arsenal nuclear real – o que levará a Coreia do Sul a também se nuclearizar – nesse caso o tão afamado ‘'pivô'’ arrastará, em mortal espiral descendente, toda a influência e toda a credibilidade dos EUA na região.

Se acontecer, 2012 será lembrado como o ano em que tudo começou a fazer sentido. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Premiados com o Prêmio Des-Pulitzer de 2012


(Alguns dos mais imundos momentos da imprensa-empresa dos EUA, durante o ano)

27/12/2012 - FAIR, Fairness & Accuracy in Reporting
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


(Aconteceu nos EUA. Mas no DESJORNALISMO BRASILEIRO, o negócio é MUUITO PIOR)

A organização FAIR, Fairness & Accuracy in Reporting [Correção e Investigação Acurada na Reportagem] distribuiu sua lista de Prêmios Des-Pulitzer [P.U.-litzer Prizes] de 2012: “Os momentos mais sórdidos da imprensa-empresa no ano que se encerra (nos EUA)”.

A lista é interessantíssima, porque, mudando os nomes dos jornalistas, não é difícil encontrar no Brasil não um, mas DÚZIAS de jornalistas que fazem, no Brasil-2012, o mesmo monumentalmente péssimo jornalismo; e não o fazem só uma vez, mas vááárias vezes por dia, em matérias desavergonhadamente REPETIDAS incontáveis vezes, pelas redes comerciais de televisão aberta e também pelas redes a cabo.

Muitas dessas práticas que a FAIR des-premiou como casos excepcionais, com pequenas variações, fazem o dia-a-dia do “jornalismo” brasileiro.

Não há dúvidas de que as televisões comerciais no Brasil – sobretudo as redes que mantêm noticiários e programas de entrevista nos canais a cabo, que são PAGOS por telespectadores consumidores – vendem, aqui, O PIOR JORNALISMO DO MUNDO.

Se a imprensa-empresa brasileira (o chamado GRUPO GAFE – Globo-Abril-Folha de S.Paulo-Estadão; as mesmíssimas empresas comerciais reunidas no PiG – Partido da imprensa Golpista) absolutamente não reconhece os direitos democráticos dos partidos e dos eleitores que elegeram os seus representantes que governam o Brasil... temos de ter meios, pelo menos, para EXIGIR que a imprensa-empresa, no Brasil-2012, respeite, pelo menos, os CONSUMIDORES PAGANTES, né-não?!

Se não temos STF que nos salve dos jornalistas, dos jornais e das televisões da imprensa-empresa no Brasil... talvez tenhamos algum delegado de delegacia do Consumidor? O Instituto de Defesa do Consumidor, IDEC? Quem?

Vejam aí a lista dos des-prêmios e dos jornalistas e veículos des-premiados da FAIR e pensem bem: coisas semelhantes e outras, muito piores, acontecem DIARIAMENTE nas redes da imprensa-empresa comercial no Brasil. Isso é fato!

Lista dos premiados do DESJORNALISMO-2012!


Mais uma vez houve muito mais indicados do que seria possível premiar. Todos mereceriam os prêmios. Assim sendo, considerem essa lista como simples amostra da informação falseada, da distorção na notícia, de que todos fomos vítimas durante o ano [nos EUA]. 

– Prêmio “Obscura Arte da Distorção Sutil”: Alex Altman, revista Time

Quando a revista Time pôs-se a comparar mentiras de Obama e Romney, logo encontrou um terrível problema: a campanha de Romney produziu mentiras imensamente maiores, mais graves, mais substanciais. Como manifestar “isenção” e “equilíbrio” ante tal fato? Altman explicou (3/10/12) que “não raras vezes, a mentira mais efetiva esconde-se na que parece mais próxima da verdade; o time de Obama superou Romney várias vezes na obscura arte da distorção sutil”.

– Prêmio “Só empresários e presidentes-de-banco entendem de tudo”: Noticiário “CBS Evening News”
Com a mídia-empresa em Washington em pânico total à beira do “despenhadeiro fiscal”, o noticiário CBS Evening News pôs-se a entrevistar um estranhíssimo grupo de “especialistas” : só presidentes-de-bancos e de grandes empresas. Dia 19/11, os entrevistados foram Lloyd Blankfein, do Bank of Goldman Sachs, como se fosse especialista em orçamento público. Noite seguinte, David Cole, presidente da Honeywell. Na terceira noite... Outra vez Blankfein! A dupla é parte ativa da campanha “Acertem o déficit a qualquer custo”, paga pelos maiores bancos e empresas do país, que prega cortes cada vez mais fundos nos investimentos públicos, além de cortes de impostos para eles mesmos.

– Prêmio “Investigar amigo, sóssifô muito superficialmente”: David Gergen, CNN

Quando eclodiu a discussão sobre Obama estar exagerando no que dizia sobre Mitt Romney e sua empresa, Bain Capital, o âncora da CNN decidiu interferir. Publicou uma coluna na página  CNN.com, “Não há provas do que Obama diz contra Romney” (16/7/2012). Mas Gergen admitiu que tivera “relacionamento passado com os principais sócios da empresa Bain Capital, pessoal e financeiro” – e que várias vezes fora contratado para palestras pagas pela Bain. Para investigar a empresa, portanto, bastou telefonar para velhos amigos: “Falei por telefone com dois altos dirigentes da empresa, meus conhecidos”. É. Há muitos “jornalistas” que ivestigam assim. Claro. É. É bom meio para encontrar a verdade do fato.

– Prêmio “Foi buscar lenha e voltou queimado”: George Will, ABC

“Como explicar o calor? Fácil: é verão. Fui criado no centro de Illinois, em casa sem ar condicionado (...) É esperar. Vem o inverno, esfria, vem a neve; e o mesmo pessoal que hoje só fala do calor, só falará do frio. Para nos ensinar que clima é uma coisa, calorão e frio é outra coisa. Concordo. Faz calor. Está quente. OK. Podemos mudar de assunto?” (This Week, 8/7/2012)

– Prêmio “Assassinar os filhos deles, para salvar nosso butim”: Joe Klein, Time

O programa “Morning Joe” da rede MSNBC, ofereceu uma rara discussão sem diálogos decorados (23/10/12) sobre os ataques dos drones dos EUA. Quando o entrevistador Joe Scarborough falou sobre “meninas de quatro anos destroçadas em pedaços”, Joe Klein da revista Time respondeu:

“O xis da questão é: as meninas mortas eram filhas de quem? O que estamos fazendo é reduzir a probabilidade de que mais meninas de quatro anos sejam mortas em atos indiscriminados de terror”.

– Prêmio “Se nosso candidato não presta, damos um jeitinho”: Michael Crowley, Time

Repórteres e especialistas passaram anos elogiando o Republicano Paul Ryan; o fato de ter sido escolhido como vice na chama de Mitt Romney em nada moderou o entusiasmo deles. Dan Balz, do Washington Post (14/8/12) escreveu que Ryan “é homem dos números, que gosta de quebrar os problemas e resolvê-los, depois de mastigar uma montanha de dados”. Mas Michael Scherer da revista Time  o superou: “Ryan está para a matemática do orçamento, como Carl Sagan, para a ciência do cosmos”.

– Prêmio “Servir-se de fonte anônima para distribuir calúnias”: Scott Shane, New York Times

Quando o Gabinete de Jornalismo Investigativo [orig. Bureau of Investigative Journalism] com sede na Grã-Bretanha, distribuiu relatório sobre vítimas civis dos ataques dos drones dos EUA, o New York Times (6/2/12) sentiu-se no direito de citar, em resposta, um “alto funcionário do contraterrorismo norte-americano”, que teria dito: “É preciso pensar por que o esforço dos drones, tão cuidadosamente pensado para caçar terroristas que matam civis, está sendo apresentado, de repente, sob imagem tão negativa. Não podemos nos iludir: há muitos elementos que operam exclusivamente para fazer gorar nossos esforços e ajuda a Al-Qaeda”.

Oficialmente, o NYTimes proíbe citar fontes não identificadas “como cobertura para ataques pessoais ou partidários”. Mas o Manual nada diz sobre apresentar como simpatizantes de terroristas quem critique as políticas de guerra dos EUA.

– Prêmio “Jogo Virado”: PBS

No primeiro episódio (11/4/12) de um seriado de quatro programas intitulado “América Revelada”, a rede PBS disse que o agrobusiness precisava “virar o jogo” contra as pragas; e que esse fator “virador do jogo” seria o milho geneticamente modificado. Não por acaso, nem surpreendentemente, a empresa que patrocina o seriado, Dow Chemical, está em campo, no lobby para obter aprovação oficial para sua própria marca de novo milho geneticamente modificado.

– Prêmio “Problemas esquisitos em terras longínquas”: New York Times

Matéria publicada no New York Times “informava” que “a revolução na televisão trouxe, em vários sentidos, más notícias para o Paquistão:

“Vários programas passaram a servir como plataforma liberada para terroristas e extremistas (...). Clérigos conservadores usam as ondas de televisão para reforçar preconceitos e até pregam a violência contra minorias. A independência editorial não raras vezes é obscurecida, quando empresários proprietários das redes comerciais as usam desavergonhadamente para promover interesses privados.

Há controvérsia também quanto aos âncoras e apresentadores, alguns dos quais veem-se como atores no cenário político nacional, muito mais do que como observadores imparciais dos desmandos do poder”.

Extremistas que falam pela televisão? O dono da empresa fiscalizando a pauta? Âncoras que falam como se fossem mais importantes e mais confiáveis que políticos eleitos pela maioria dos eleitores? Não sei, mas... No Paquistão? Estranho... Parece que havia coisa parecida aqui mais perto, ontem mesmo...

– Prêmio “Notícia inventada”: New York Post

“Occupy Wall Street ligado a assassinato” – lia-se na primeira página do New York Post (11/7/12); a matéria dizia que DNA recolhido na cena de um assassinato em 2004 bateria com o DNA recolhido de uma corrente usada para manter aberta um portão do metrô, numa das manifestações do OWS. O jornal de Rupert Murdoch publicou 37 parágrafos sobre essa história, além de três imensas fotografias. A história logo evaporou – descobriu-se que se tratava do DNA de um policial. O Post então dedicou quatro parágrafos num canto de página ao follow-up da notícia de capa da véspera, sob o título: “Amostra 04 do DNA assassino foi ‘contaminada’”.

Vê-se que, para o NYPost trabalho policial mal feito não merece primeira página. Mas lançar lama contra movimento progressista, sim, sempre.

– Prêmio “Des-Apocalypse Now”: Gloria Borger, CNN

Em 1968, no auge da Guerra do Vietnã, Mitt Romney era estudante pró-guerra, dispensado do serviço militar. O conflito matou 16 mil soldados dos EUA, só naquele ano. Mas isso não implica que Romney não corresse grande risco pessoal. Segundo Gloria Borger, da CNN (26/8/12), a vida era arriscadíssima e cheia de perigos para um missionário mórmon na França:

“Em 1968, a França era lugar perigoso para viver, se você fosse um norte-americano de 21 anos. Mas Mitt Romney lá estava, no centro dos acontecimentos (...) As ruas francesas eram o caos”.

É. Mitt Romney sobreviveu.

– Prêmio “Perguntado e Respondido”: David Gregory, NBC

No domingo depois que o furacão Sandy devastou New York e New Jersey, David Gregory, da rede NBC, perguntou na abertura do programa Meet the Press (4/11/12): “Devemos dar mais atenção ao impacto da mudança climática sobre a violência dessas tempestades?”. A resposta provavelmente foi “não” – porque, depois dessa abertura, nunca mais se ouviu, até o final do programa, qualquer outra referência à mudança climática.

Marwan Barghouti: “Quando eu for presidente da Palestina...”


28/12/2012, Palestine News Network
Vídeo; legendas da entrevista traduzidas pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu: Taí! Barghouti é palestino, está preso há dez anos numa prisão em Israel, foi condenado a prisão perpétua, e SEMPRE que tem chance de falar, ele diz: “Quando eu for presidente da Palestina” [farei assim e assado].

Por que o ministro José Dirceu – que foi cassado quando era deputado federal eleito por mais de 500 mil votos; que só foi condenado por um reles tribunal udenista brasiliense de ralo saber jurídico e politicamente partidarizado e indecentemente golpista; que só será preso de quiser – porque eu, se fosse ele, já teria SUMIDO no mundo e nenhum tribunal udenista me acharia no mundo, pra me prender em prisão udenista golpista e condenado por sentença udenista golpista) não aprende a lição e passa a iniciar TODAS as declarações e postados no Blog sempre com a mesma frase: “Quando eu for presidente do Brasil [farei assim e assado]”? Resistência é resistir seeeempre, ora bolas!
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O jornal Jerusalem Post publicou ontem que o líder do Fatah, Marwan Barghouti disse, em entrevista ao canal 10, da prisão onde cumpre, há dez anos, pena de prisão perpétua em Israel, que, “se estivesse na presidência da Autoridade Palestina, não prometeria que não haverá uma 3ª Intifada, como fez o atual presidente da AP, Mahmoud Abbas”.

O canal 10 levou ao ar a entrevista – realizada em conjunto com o jornal Haaretz – na 4ª-feira à noite. É a primeira vez que a imprensa israelense divulga entrevista com o reverenciado prisioneiro palestino.

Barghouti alertou que, se a ocupação continuar, haverá uma 3ª Intifada, mas que será levante popular não violento.

Mahmoud Abbas
Segundo o mesmo jornal, Barghouti disse que o conflito fortalecerá o Hamás; que os foguetes do Hamás “foram boa coisa” e muito ajudaram o movimento antiocupação. Bargouthi disse que não diria que os foguetes seriam solução a ser usada sempre, como disse o Hamás. Mas que compreende a posição do Hamás, porque os israelenses “só entendem a linguagem da força”.

Disse que Abbas é o parceiro com que Israel sempre sonhou; que Abbas não teve escapatória e foi obrigado a ir à Assembleia Geral da ONU defender o Estado palestino: “ou ia, ou seria despachado de volta para casa”.

Barghouti lembrou que Abbas disse que não imporia qualquer exigência sobre a vila de Safed, onde viveu na infância. Abbas, naquela ocasião, disse que “a Palestina para mim são as fronteiras de 67; Jerusalém Leste como capital; a Cisjordânia e Gaza são Palestina; as outras partes são Israel”.

Essas declarações de Abbas foram ao ar em entrevista ao canal 2 em março, quando foi perguntado se gostaria de voltar a Safed, cidade onde nasceu.

Barghouti repetiu que de nenhum modo desistiria do direito de retorno, “direito sagrado dos palestinos” – disse ele.

Braghouti disse também que Israel já comprovou que não deseja paz. E concluiu: “Quando eu for presidente da Palestina, com Israel já submetida às regras dos Dois Estados, nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Leste como capital palestina, então negociaremos com o Hamás para que suspendam os ataques”.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Robert Fisk - Palavrinha de aviso, aos que escrevem sobre o Oriente Médio


O saco está TOTALMENTE CHEIO, em matéria de clichês

24/12/2012, Robert Fisk, The Independent, UK –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Rebeldes da OTAN"... Na Síria
Mohamed Mursi
Lembram quando pensamos que a trilha do Egito rumo à democracia estava totalmente aberta e desimpedida? Mohamed Mursi, que estudou no ocidente convidara o povo a entrar e conversar com ele no ex-palácio de governo de Hosni Mubarak, os militares velhos e velhacos do “Conselho Supremo das Forças Armadas” haviam sido despachados e o Fundo Monetário Internacional mal podia esperar para impor algumas das suas privações mais cruéis, a um Egito prontinho para receber as dádivas de nossa benevolência financeira. Quão felizes estavam os otimistas sobre o Oriente Médio, em meados de 2012!

Mahmoud Jibril
Na sala ao lado, a Líbia era cenário da vitória do bom Mahmoud Jibril, secularista, pró-ocidente, a prometer liberdade, estabilidade, um novo lar hospitaleiro para o ocidente, num dos solos mais fecundos em petróleo de todo o mundo árabe. E até diplomatas norte-americanos podiam dormir ali, descuidosos, praticamente sem qualquer proteção.

Na Tunísia, sim, havia um partido islamista no poder, mas do tipo “moderado” – em outras palavras, nos convencemos de que, na Tunísia, o ocidente faríamos o nos desse na telha –, enquanto os sauditas e a autocracia bahraini, com a bolsa adequadamente forrada pelos senhores Obama e Cameron, iam arrasando, discretamente, alguma última alma que por acaso tivesse sobrevivido, do levante dos xiitas, que ameaçavam impedir que esquecêssemos que aquela democracia toda não era bem vista entre os mais ricos dos ricos estados árabes. Democracia é coisa para pobre.

Fechando o cerco

Laurent Fabius
Assim também, na Síria. À altura da primavera do ano passado, o comentariato ocidental já descartara Bashar al-Assad. Bashar não merece “viver nesse planeta” – segundo o ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius. Bashar tem de “descer”, “sair’, cair fora. O regime não duraria mais uma semana, talvez nem dias. Foi quando o saco encheu até a borda. Chegou ao ponto de transbordamento.

Mas então, à altura do verão, o ponto de transbordamento, como veio, se foi. E começou a conversa de que Assad usaria gás “contra seu próprio povo”. Ou, se não usasse, que seus arsenais de armas químicas poderiam “cair em mãos erradas” (de onde facilmente se conclui que, se permanecessem nas mãos de Assad, estariam em “mãos certas”).

William Hague
Os rebeldes na Síria estavam sempre “fechando o cerco” – em Homs, depois em Damasco, depois em Aleppo, outra vez em Damasco. O ocidente apoiou os rebeldes. Dinheiro (muito) e armas (arsenais completos) chegavam sem parar, do Qatar e da Arábia Saudita; o apoio moral vinha de Obama, de La Clinton, do patético Hague, de Hollande, toda, completa, uma fábrica de bondades. – Até que, inevitavelmente, se descobriu que os rebeldes eram gangues de salafistas, assassinos, matadores sectários, com pelo menos um caso documentado de adolescente degolador, no mínimo tão degolador, e talvez mais degolador, que o regime contra o qual lutava. A fábrica de bondades foi obrigada a reverter os motores, dar marcha a ré. Os EUA continuaram a apoiar os bons rebeldes, seculares; mas os tais horríveis rebeldes salafistas (aliados) foram designados “organização terrorista”.

E o pobre velho Líbano, desnecessário dizer, estava sempre à beira da guerra civil, dessa vez pela segunda vez em menos de 40 anos e dessa vez porque a violência na Síria estava “respingando” no território vizinho.

Bashar al-Assad
Os sectários libaneses não usavam as mesmas roupas que os sectários sírios? O Hezbollah libanês não era aliado de Assad? Os sunitas do Líbano não apoiavam os rebeldes sírios? Verdade. Mas os libaneses não vivem de repetir o que digam os tediosos e super remunerados think tanks e jornalistas e “especialistas” de televisão, porque, assaltados como tantas vezes foram por assassinos do serviço secreto sírio, os libaneses são bem-educados demais, bem-informados demais e inteligentes demais para acreditar na mesma conversa fiada que já ouviram, sem tirar nem pôr, em 1975-1990.

O Irã, claro, a um dia de ser bombardeado, porque estaria fabricando – ou porque já estaria fabricando, naquele momento – armas atômicas; ou porque logo-logo começará a fabricar, dentro de um ano ou uma década, a contar de hoje.

Terror

Obama talvez não bombardeie o Irã; Obama nem quer bombardear o Irã, mas – calma, nem tudo está perdido: – “todas as opções” estavam “sobre a mesa”. Como é o caso, claro, com Israel, que quer bombardear o Irã, porque o Irã pode (talvez até deva!) fabricar armas atômicas, ou porque está no processo para iniciar a produção, ou porque terá bombas dentro de seis meses, ou um ano, ou muitos anos, ou algum dia, mas – como sempre – “todas as opções” estavam “sobre a mesa”.

Netanyahu
Nos contaram que a “janela de oportunidade” de Netanyahu permaneceria aberta, e repetiram, até as eleições presidenciais nos EUA. E assim foi, o besteirol infindável, até... Ora! Até as eleições presidenciais nos EUA, quando então fomos alertados novamente, dessa vez com certeza, de que o Irã já estava produzindo, ou poderia vir a produzir, talvez, algum dia, uma arma atômica.

Israel também ameaçou o Líbano, porque o Hezbollah tem milhares de mísseis; e ameaçou Gaza, porque os palestinos têm milhares de mísseis. E muitos foram os jornalistas israelenses – seguidos pelos seus clones norte-americanos – que preparam seus leitores para essas duas guerras contra o “terror”. Como adiante se verificou, o Líbano não foi bombardeado, ao tempo em que conflito altamente desagradável (do ponto de vista de Israel) irrompeu entre Israel e o Hamás, o qual só teve fim quando Mursi – aliado avuncular do ocidente – persuadiu os palestinos a aceitar um cessar-fogo, que Netanyahu, em tom sepulcral, logo aceitou. Assim Mursi inflou muito o prestígio de Khaled Meshal, o qual, dia seguinte, anunciou que, do Rio Jordão ao mar, tudo deve ser Palestina. Em outras palavras, Khaled Meshal anunciou que adeus Israel.

Khaled Meshal
E, isso, quando o ainda-não-demitido (renunciou) ministro dos Negócios Externos de Israel , Avigbor Lieberman e sua gangue acabavam de repetir, pela milésima vez, como sempre repetiram, que Israel, não a Palestina, deve existir ali, do mar ao Rio Jordão. Em outras palavras, para Lieberman (antes de ser demitido), adeus Palestina.

Coube ao valente, corajoso, idoso militante da esquerda de Israel, Uri Avnery, lembrar que, se se se realizarem simultaneamente os dois desejos, só restará, entre o mar e o Rio Jordão ou entre o Jordão e o mar, uma única cova rasa, gigante. [1]

Linguajar defunto

Assim sendo... hoje, ao final do ano, o esperto Mohamed Mursi faz-se de Mubarak e passa a mão em qualquer velho poder ditatorial que encontre por lá, ao mesmo tempo em que empurra goela abaixo da população secular uma estranha Constituição, depois de haver prometido servir democraticamente aos cristãos e aos muçulmanos.

Na Líbia, claro, os EUA acabaram por criar mais inimigos do que seria recomendável: o embaixador foi assassinado por milícias de tipo al-Qaeda (Clinton já cuidou para que nenhum juiz ou jurado aproxime-se da verdade).

Al-Qaeda (logo)
De fato, a própria al-Qaeda – politicamente falida quando Osama bin Laden foi assassinado por um esquadrão da morte (militar) dos EUA em 2011 – já era coisa descartada, pela Casa Branca, antes da reeleição de Obama. Mas os alucinados do wahabismo desenvolveram um talento muito apreciado pelos aficcionados de filmes de terror: eles agora se recriam, eles mesmos, sob várias formas, em locais diferentes. O Mali substituiu o Afeganistão, exatamente como a Líbia substituiu o Iêmen, e a Síria substituiu o Iraque.

Palavrinha de aviso, portanto, a todos os potentados no Oriente Médio, ditadores, todos os ocidentais que se sintam ilustradíssimos e importantíssimos, apresentadores e âncoras de televisão e jornalistas. Cuidado, doravante, para absolutamente não usar as seguintes palavras ou expressões, em 2013:

moderado, democracia, governo que cai, governo que desce, governo que sai de banda, ponto de não retorno, ponto de transbordamento, ponto de virada sem volta, cair em mãos erradas, fechar cercos, respingar (violência, sobre países vizinhos), opções sobre mesas, ou terror, terror, terror, terror.

É querer demais? Esperar demais? Claro que é. Logo aparecerá outra fornada de clichês, produzido pela fábrica de bondades, para substituir os clichês que já tenham servido aos objetivos para os quais foram inventados.



Nota dos tradutores
[1] Uri Avnery faz outra observação importante, no mesmo ensaio: “São desejos quase iguais, mas Lieberman diz “do mar até o Jordão” e Meshall diz “do Jordão até o mar". Há aí diferença maior do que se vê à primeira vista: Lieberman vê-se chegando do ocidente; Meshall vê-se chegando do oriente” [Uri Avnery, 15/12/2012, “The Sea and the River, Gush Shalom].