sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Presidente Bashar al-Assad da Síria: “Israel apoia organizações terroristas na Síria” (1/3)

27/1/2015, entrevista de Bashar al-Assad à revista Foreign Affairs em 20/1/2015, reproduzida pela Agência SANA, Síria
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Bashar al-Assad em 20/1/2015
Pergunta 1: Gostaria de começar por perguntar-lhe sobre a guerra. Já são quase quatro anos, e o senhor conhece as estatísticas: mais de 200 mil mortos, um milhão de feridos e mais de 3 milhões de sírios que deixaram o país, segundo a ONU. Suas forças também sofreram muitas baixas. A guerra não pode continuar para sempre. Como o senhor vê o fim da guerra?

Presidente Assad: Todas as guerras, em todos os pontos do mundo, no passado, sempre terminaram com uma solução política, porque a guerra em si não é solução; a guerra é instrumento da política, como há outros. Implica dizer que só uma solução política porá fim à guerra. É como vemos. É o ponto principal.

Pergunta 2: O senhor não vê fim militar para a guerra?

Presidente Assad: Não. Não há fim ‘'militar'’ para guerra alguma. Todas as guerras só terminam na solução política.

Pergunta 3: [Pergunta fortemente enviesada, que tenta pôr palavras na boca do entrevistado. Revista muuuuuuuuuuuito é da vagabunda, essa Foreign Affairs, foi, é e sempre será (NTs)] Pode-se dizer que a Síria está cada vez mais dividida em três miniestados: um é controlado pelo governo, outro é controlado pelo ISIS-Frente Jabhat al-Nusra, o terceiro é controlado pelos sunitas mais seculares e pela oposição curda. Como o senhor algum dia conseguirá reunificar a Síria?

Presidente Assad: Primeiro, essa sua imagem não é acurada, porque, diferente do que você pressupõe, não se pode falar de miniestados sem falar do povo que vive no estado. O povo sírio luta pela unidade da Síria e está com o governo. As facções de que você fala controlam algumas áreas, mas elas mudam-se de um ponto a outro, não são estáveis nem há linha de demarcação entre as diferentes forças. Às vezes elas se misturam umas com outras e movimentam-se. Mas a questão principal é a população síria, que continua apoiando o governo da Síria, como representante legítimo da unidade da Síria. Assim, enquanto o povo sírio acreditar na unidade, qualquer governo consegue facilmente manter unida a Síria. Se o povo estivesse dividido em dois, três, quatro grupos, nesse caso ninguém conseguiria manter unido o país, como ele está. É como nós vemos as coisas.

Pergunta 4: O senhor acha que sunitas e curdos ainda acreditam numa Síria unida? [Quando a revista é vagabunda, e o jornalista é fascista sincero que realmente crê na imbecilidade que é adestrado para repetir e repete... o entrevistador tem de corrigir a pergunta, antes de responder (NTs)]

Presidente Assad: Se você vai a Damasco agora, você vê que tudo é bem diferente do que você pressupõe: todas as diferentes, digamos, cores, de nossa sociedade vivem juntas. As divisões na Síria não são baseadas em campos sectários ou étnicos, nem, sequer, na área curda de que você está falando. Temos mais árabes que curdos, mas essa não é questão de etnia: é questão das facções que controlam militarmente algumas áreas.

Pergunta 5: Há um ano, os dois campos, oposição e governos estrangeiros insistiam em que o senhor deixasse o governo, como precondição para conversações. Isso já não existe. Os diplomatas procuram agora um acordo intermediário, que permita que o senhor permaneça no governo. Hoje mesmo o New York Times publicou artigo que fala de crescente apoio dos EUA às iniciativas de paz de russos e ONU. O artigo faz referência à “silenciosa desistência, do ocidente, das demandas de que o presidente sírio deixe o governo imediatamente”. Dada essa mudança na atitude do ocidente, o senhor está mais disposto a buscar uma solução negociada para o conflito que leve a uma transição política?

Presidente Assad: Nós sempre estivemos abertos a solução negociada, desde o começo. Dialogamos com todos os partidos na Síria. “Partidos”, aqui, não significa exclusivamente partido político; podia ser partido, corrente, alguma personalidade, qualquer entidade política. Modificamos a Constituição e estamos abertos a tudo. Mas quando você quer fazer alguma coisa, não se cogita da posição ou do governo: essa é questão de todos os sírios; às vezes você pode ter uma maioria de todos os lados, não de um único lado. Assim, se você quer fazer uma mudança, se se fala de problema nacional, todos os sírios têm de poder manifestar-se. Diálogo não se dá só entre governo e oposição: dá-se entre todos os diferentes partidos e entidades sírios. É como entendemos o que seja diálogo. Isso, em primeiro lugar. Em segundo, seja qual for a solução que queiram, no final é imprescindível ouvir o povo em referendo, porque estamos falando da Constituição; de mudar o sistema político. É indispensável voltar ao povo sírio para ouvi-lo. Comprometer-se num diálogo é muito diferente de tomar e impor decisões.

Pergunta 6: O senhor está dizendo que não aceita nenhum tipo de transição política, a menos que haja um referendo que a apoie?

Presidente Assad: Exatamente. Essa é decisão que só o povo pode tomar, ninguém mais.

Pergunta 7: Significa que não há lugar para negociações?

Edifício do Ministério de Relações Exteriores da Rússia
Presidente Assad: Não, não significa isso. Iremos à Rússia, para essas negociações, mas a pergunta aqui é outra: com quem negociar? Como governo, temos instituições, temos exército, temos influência, positiva ou negativa, em todas as direções a qualquer momento. Com que pessoas negociaremos? Quem representam? Essa é a pergunta. Quando se fala de oposição, a palavra tem de ter algum conteúdo. Oposição em geral teria de ter representantes nas nossas instituições, no Parlamento, nas instituições sírias, teria de haver bases que a oposição representaria. Na crise atual, é preciso perguntar que influência tem essa ‘oposição’ em campo. É preciso voltar ao que os rebeldes anunciaram publicamente, quando disseram muitas vezes que a oposição não os representa. Se querem falar de diálogo que dê frutos, terá de ser entre o governo da Síria e os rebeldes.

E há outro ponto. Oposição tem de ser nacional, significa grupo que, embora com posições diferentes da situação, também trabalha pelos interesses do povo sírio. Não se pode falar de legítima “oposição”, se o que se vê são fantoches do Qatar ou da Arábia Saudita ou de países ocidentais, inclusive dos EUA, pagos por gente de fora. “Oposição” tem de ser síria. Temos oposição nacional, e não estou excluindo essa oposição. Não estou dizendo que nenhuma oposição seria jamais legítima. Mas você tem de separá-la daqueles fantoches. Não é verdade que qualquer diálogo seria automaticamente frutífero.

Pergunta 8: Isso significa que o senhor não quer encontrar-se com forças de oposição apoiadas por outros países?

Presidente Assad: Nos reuniremos com qualquer um. Sem condições.

Jornalista: Sem condições?

Presidente Assad: Sem condições.

Jornalista: O senhor aceita reunir-se com qualquer um?

Presidente Assad: Sim. Nos reuniremos com qualquer um. Mas é preciso saber exatamente: quem cada um representa. Isso foi o que eu quis dizer.

Pergunta 9: Se não me engano, o vice-representante Staffan de Mistura está agora na Síria. Estão propondo, como medida temporária, um cessar-fogo e congelamento dos confrontos em Aleppo. O senhor concordaria com isso?

Presidente Assad: Claro que sim. Já implementamos precisamente essa medida antes de de Mistura ser nomeado para essa missão. Implementamos em outra cidade, Homs, outra grande cidade. Implementamos em escala menor também em, pode-se dizer, subúrbios, vilas, com sucesso. A ideia portanto é ótima, mas depende dos detalhes. De Mistura chegou à Síria com orientações gerais. Concordamos com algumas delas e, agora, estamos esperando que nos traga um plano, uma agenda, um plano de A a Z. Estamos discutindo tudo isso com esse senhor.

Pergunta 10: No passado, o senhor insistiu, como precondição para o cessar-fogo, que os rebeldes depusessem armas primeiro – condição inaceitável, obviamente, [é preciso ser jornalista muuuuuuuito do arrogante e metido a besta, para “declarar” o que seria “obviamente inaceitável” para seja quem for, né-não?!] do ponto de vista deles. O senhor mantém sua precondição?

Presidente Assad: Não é como o senhor diz. Nós escolhemos diferentes cenários, ou diferentes reconciliações. Em algumas áreas, permitimos que eles deixassem áreas não habitadas, para evitar mortes de civis. Eles deixaram aquelas determinadas áreas com as armas deles. Em outras áreas, entregaram as armas e partiram. Tudo dependia, caso a caso, do que eles ofereçam e do que você ofereça.

Pergunta 11: Não entendi bem sua resposta. O senhor insiste que eles entregaram as armas?

Presidente Assad: Não, não foi o que eu disse. Acabo de dizer que, em algumas áreas, os rebeldes deixaram a área com as respectivas armas.

Pergunta 12: O senhor está otimista quanto às conversações de Moscou?

Presidente Assad: Ainda não há negociações em Moscou sobre alguma solução. Trata-se só de preparativos para a conferência.

Jornalista: Quer dizer, conversas sobre conversas?

Bashar al-Assad em 20/1/2015
Presidente Assad: Exatamente, como preparar-se para as conversações. Quando se começa a falar sobre conferência, é preciso que todos saibam quais são os princípios da conferência. Tenho de voltar ao mesmo ponto. Permita-me ser bem franco: alguns dos grupos não passam de fantoches, como já disse, de outros países. Têm de implementar determinada agenda e sei que vários países – a França, por exemplo – não tem interesse algum em que a conferência seja bem-sucedida. Esses países ordenarão aos respectivos fantoches que façam fracassar a conferência. Há lá também personalidades que só se autorrepresentam, não representam ninguém na Síria. Vários deles nunca sequer viveram na Síria e nada sabem sobre o país. Claro que há outras personalidades que trabalham a favor do interesse nacional. Por isso, não se pode falar de ‘'oposição'’ como entidade monolítica: quem influenciará quem? Eis a pergunta. Nada está ainda claro sobre isso. Nessas circunstâncias, falar de qualquer otimismo seria exagero, seria irrealista. Não digo que esteja pessimista. Digo que há esperanças, de fato, em qualquer tipo de ação.

Pergunta 13: Parece que nos últimos dias, os EUA têm-se mostrado mais favoráveis, manifestado mais claro apoio às conversações de Moscou. Inicialmente foi bem diferente. Ontem, o secretário de Estado Kerry disse algo que sugere que os EUA esperam que as conversações progridam e cheguem a bom termo.

Presidente Assad: Eles falam, falam, mas o que se deve observar é o que eles farão. O senhor sabe que sírios não confiam nos EUA. Assim sendo... Vamos esperar e ver o que acontece na conferência.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Vejam quem se mudou para o “próprio quintal” dos EUA

26/1/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Em 2008, Washington criou um comando especial do Pentágono, o AFRICOM, para conter as grandes iniciativas econômicas dos chineses na África, de empréstimos e crédito fácil em troca de acordos de longo prazo para fornecimento aos chineses, de óleo e outras matérias primas africanas. Os resultados foram pífios, em matéria de “conter” a busca dos chineses por matéria prima para sua crescente economia.

Agora, a China deu passo firme e amplo na direção de desafiar abertamente a chamada “Doutrina Monroe” − doutrina imperialista de facto − e trouxe grandes iniciativas para a América Latina. É o “próprio quintal” de Washington!


Xi Jinping recebe Rafael Correa em Pequim para a Reunião CELAC-China (15/1/2015)
Com as burras carregadas de dólares, empresas estatais chinesas estão fazendo uma grande entrée apoiada pelo governo chinês, em tradicionais áreas de influência de banqueiros e empresários norte-americanos: a América Latina. É movimento diabolicamente esperto, para acertar bem no calcanhar de Aquiles de Washington. A intenção da declaração original, de 1823, que fez o Presidente dos EUA, James Monroe, era dizer ao mundo que as colônias que acabavam de se tornar independentes de potências europeias ficariam fora do alcance de repetidas tentativas de recolonização – sob risco de aqueles colonizadores sofrerem intervenção dos EUA.

Foi doutrina bizarra, uma declaração, de facto , de que ao sul do Rio Grande toda a América Latina passaria a ser uma espécie de “esfera de influência” ou colônia informal. As nações da América Latina, especialmente no pós-1945, prosperaram bem pouco ou nada, sob o que sempre foi colonização, de facto, pelos EUA. A economia “de livre mercado” dos EUA, e as crises das dívidas nacionais nos anos 1980s – dívidas impingidas por banqueiros de Wall Street e pelo Tesouro dos EUA na crise do petróleo de 1980 – expuseram as nações latino-americanas a uma selvagem “austeridade” e ao roubo de seus bens nacionais mais valiosos, assaltados por empresas norte-americanas de operação multinacional e bancos, banqueiros e fundos de investimento do tipo do Fundo Quantum, de George Soros.

Como reação, ao longo da década passada ou um pouco mais, várias nações, a começar pela Venezuela governada pelo falecido Hugo Chávez, começaram a distanciar-se da dependência que as ligava aos “Yankees” do norte. As razões eram claras. No alvorecer do século XXI, a América Latina ainda era a sociedade mais desigual do globo, e muitos culpavam o neoliberalismo, por esse estado de coisas – o neoliberalismo de “livres mercados”, imposto pelo FMI norte-americano.

Fidel Castro, Tabaré Vázquez, Luiz Inacio Lula da Silva, Néstor Kirchner, Hugo Chávez e Michelle Bachelet na XXX Cúpula de Países Sócios e Associados de Mercosul em 2006
Depois do sucesso de Chávez na Venezuela, silenciosamente apoiados por Havana, os bolivianos elegeram pela primeira vez um indígena, à presidência.

Contra empenhadas tentativas dos EUA de bloqueá-lo, foi Evo Morales quem afinal bloqueou e fez gorar a Área de Livre Comércio das Américas, ALCA [orig. Free Trade Area of the Americas (FTAA)], uma extensão da NAFTA norte-americana, e denunciou-a, muito corretamente, como “projeto de neocolonização”, uma “política de genocídio econômico”.  

Ricardo Lagos no Chile (2000); Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil (2002) e sua sucessora escolhida a dedo, Dilma Rousseff; Lucio Gutiérrez no Equador (2002); Néstor Kirchner na Argentina (2003) e Tabaré Vasquez no Uruguai (2004), todos prometeram impedir que avançasse políticas promovidas pelos EUA ou pelo Fundo Monetário Internacional, FMI. Em 2005, praticamente 75% da população da América Latina era governada por nacionalistas e latino-americanistas integracionistas, antagonistas das políticas neoliberais de Washington.

Washington fez repetidas tentativas, sempre sem sucesso, para criar “revoluções coloridas” na Venezuela, na Bolívia e noutros estados independentes. Resultados miseráveis para Washington, com os EUA já focados na China e, mais recentemente, no Oriente Médio e na Rússia. A decisão do governo Obama de “normalizar” relações com o estado comunista de Cuba é indicação de que, sim, as coisas estão mudando radicalmente.


É onde entra o dragão chinês

Exatamente quando Washington tenta escalar os esforços para conter a emergência de uma América Latina economicamente e politicamente assertiva, mais especialmente as nações da América do Sul, a China decide tomar uma iniciativa econômica que Washington simplesmente não tem meios para conter.

Como se lê no website oficial China Daily, o presidente chinês Xi Jinping disse, dia 8/1/2015, que os investimentos da China na América Latina alcançarão US$ 250 bilhões nos próximos dez anos e que se estima que o comércio bilateral alcançará US$ 500 bilhões no mesmo período.

Importante, também, a ocasião em que foi feito esse impressionante comunicado: em Pequim, antes do início do encontro das 33 nações latino-americanas e do Caribe, do qual não participam EUA nem Canadá. Anglo-saxões nada bem-vindos, evidentemente. Foi o primeiro fórum ministerial da China e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe, CELAC, proposto pela China em 2014. Depois que Pequim decide fazer acontecer alguma coisa, as coisas andam rápidas. E nesse caso é movimento estratégico. A CELAC foi criada em dezembro de 2011 por Hugo Chávez em Caracas, Venezuela. Inclui todos os países sul-americanos, alguns estados do Caribe e o México.


Cúpula CELAC 2015 (28-29/1/2015)
Xi da China, figura chave nos emergentes BRICS e encarregado da sede do novo Banco de Infraestrutura e Desenvolvimento dos BRICS, disse ao conclave que:

(...) a China crê que essa reunião dará resultados produtivos, e enviará ao mundo um sinal positivo sobre a cooperação, cada dia mais aprofundada, entre China e América Latina; terá assim impacto importante e de grande alcance, na promoção da cooperação sul-sul e da prosperidade para todo o mundo.

Um plano qüinqüenal

Durante os dois dias de reuniões em Pequim, os países discutiram a adoção de um plano de cinco anos para cooperação ampla. Como disse o presidente Xi (atenção!):

(...) terá impacto importante e de grande alcance, na promoção da cooperação sul-sul e da prosperidade para todo o mundo.

Sul-sul não é EUA, nem União Europeia.

Trata-se aí da mais ampla mudança econômica global desde o surgimento da Europa há vários séculos, como coração pulsante do poder econômico global.

Os dois lados – a China e as nações CELAC – acertaram um quadro de cooperação, fundos e projetos nos campos da energia, desenvolvimento da infraestrutura, inovação e agricultura. Para a China, é acesso aberto aos recursos naturais mais valiosos da região, inclusive o crucial petróleo venezuelano, o cobre chileno e peruano, e a soja argentina e brasileira. Os países latino-americanos, por sua vez, verão chegar os bilhões de dólares em investimentos chineses e linhas de crédito de longo prazo. Eis o que os chineses chamam de “acordo ganha-ganha”.

Nas discussões colaterais, Xi também concordou em trabalhar para diminuir as dores provocadas na Venezuela pelo atual colapso no preço do petróleo. Em conversações com o Presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, Xi da China confirmou projetos conjuntos no valor de mais de US$ 20 bilhões; e o Equador, outro país produtor de petróleo e membro da OPEP, recebeu empréstimo de US $7,5 bilhões dos chineses para suavizar o impacto do choque financeiro.

Se se combina a isso o conjunto histórico de acordos econômicos com China e Rússia; a emergência dos países BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul – como substituição potencial para os FMI controlado pelos EUA e o Banco Mundial; o fortalecimento da Organização [Eurasiana] de Cooperação de Xangai; e, desde 1º de janeiro de 2015, o estabelecimento formal da União Econômica Eurasiana, que inclui Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e Armênia, os contornos desse novo espaço econômico sul-sul vão-se tornando cada vez mais claros, para substituir um mundo de dólar e euro em colapso.

2015 serão “tempos interessantes”, como dizem os chineses. 

_______________________________________

[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questões energéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

Paul Craig Roberts − A Rússia na Alça de Mira

26/1/2015, [*] Paul Craig Roberts – Institute for Political Economy
Traduzido por Mberublue


O tempo na Rússia de hoje...
Os ataques desfechados por Washington contra a Rússia já ultrapassaram os limites do absurdo e adentraram no reino da loucura.

O novo chefe do Broadcasting Board of Governors (BBG – uma agência federal independente, responsável, entre outras coisas, pela Voz da América e pela comunicação social do governo dos EUA – NT), Andrew Lack, declarou que o novo serviço de noticiário russo, Russia Today−RT, que transmite em múltiplas línguas, é uma organização terrorista equivalente ao Boko Haram ou o Estado Islâmico, e a Standard and Poor’s acaba de rebaixar a nota de crédito da Rússia para a categoria “lixo”.

Hoje, a RT me entrevistou sobre esses desenvolvimentos insanos.

Andrew Lack
Antigamente, quando os Estados Unidos ainda eram um país são, a acusação de Lack faria com que fosse expulso de seu gabinete, coberto de ridículo. Ele teria sido obrigado a renunciar e a desaparecer da vida pública. Hoje, no mundo de faz de conta que a propaganda ocidental criou, suas afirmações são levadas a sério. Assim, outra ameaça terrorista foi identificada – a RT (embora tanto o Boko Haram como o Estado Islâmico promovam o terror, estritamente falando eles são organizações políticas procurando estabelecer um Estado, e não organizações para o terror, mas esta distinção está além da capacidade de compreensão de Lack. Sim, eu sei. Há uma piada feita aqui, tentando entender o que falta a Lack. Nome apropriado, etc...) (o autor faz uma brincadeira com o nome de Andrew Lack. Ocorre que lack é a palavra inglesa para falta, escassez. Então, para Lack, falta [lack] inteligência- NT).

Contudo, seja lá o que for que falte a Lack, duvido que ele mesmo acredite nas suas declarações sem qualquer senso, sobre ser a RT uma organização terrorista. Nesse caso, o que pretende?

A resposta é que, ao se tornar a mídia comprada (no original, presstitute media – junção de prostitute [prostituta] e press [imprensa] − NT) o “Ministério da Propaganda” para Washington, criou um enorme mercado para RT, Press TV e Al Jazeera. Na medida em que mais e mais pessoas mundo afora migram para essas fontes mais confiáveis e honestas, a capacidade de Washington para fabricar explicações convenientes (e falsas – NT) diminuiu.


Imprensa-empresa (MÍDIA) ocidental
A RT, particularmente, tem uma enorme audiência. O contraste violento entre as reportagens verdadeiras da RT e as mentiras vomitadas pela mídia norte americana solapou a capacidade de auto explicação de Washington. Tal imposição não é mais possível.

Lack mandou uma mensagem nada sutil para a RT: fique esperta; pare com essas reportagens que colocam em dúvida nossas afirmações; pare de contestar os fatos da forma como colocados por Washington e pela mídia comprada; tome jeito, senão...

Em outras palavras a “liberdade de expressão” de Washington e de seus estados vassalos, União Europeia, Canadá e Austrália tem o seguinte significado: liberdade de expressão para a propaganda e as mentiras de Washington, mas não para qualquer verdade. Verdade é terrorismo, porque a verdade é a maior ameaça para Washington.

Na verdade, Washington quer evitar o embaraço de fechar a RT, como seu vassalo Reino Unido fez com a Press TV. Em vez disso, quer simplesmente calar a RT. A mensagem de Lack para a RT é: auto censura.

Em minha opinião, a RT já suaviza os fatos em suas coberturas e reportagens, assim como o faz a Al Jazeera. As duas organizações já entenderam que não podem ser muito francas, pelo menos não frequentemente ou em certas ocasiões.

Sempre me pergunto por que o governo russo permite que cerca de 20% da mídia russa funcione como uma quinta coluna de Washington dentro da Rússia. Suspeito que a razão possa ser a esperança russa de que tolerando a propaganda flagrante de Washington na Rússia, alguma informação factual possa ser exposta nos Estados Unidos, via RT ou outras organizações russas de notícias.

Tal esperança, como outras aspirações russas em relação ao ocidente, muito provavelmente se transformará em decepção no final. Caso a RT seja ou fechada ou assimilada pela mídia comprada por Washington, nada se dirá quanto a este fato, mas se a Rússia fechar qualquer dos agentes de Washington em seu próprio território, todos mentirosos contumazes, que estão presentes na mídia russa, ouviremos ad nauseam sobre os russos demoníacos que tem a audácia de não permitir a “livre expressão”. Lembrem-se, a única “liberdade de expressão” permitida é a propaganda de Washington.

Apenas o correr do tempo dirá se a RT decidirá fechar por dizer a verdade ou se acabará por aderir ao coro abjeto da propaganda de Washington.

O outro item da entrevista foi sobre o rebaixamento da nota de crédito russa para a categoria “lixo”.

Agências ocidentais de classificação de risco 
O rebaixamento da nota pela Standard and Poor’s foi, sem nenhuma dúvida, um ato político. Esta é a prova do que já sabíamos, que seja: as empresas de notação de crédito americanas são empresas políticas, que promovem operações políticas corruptas. Lembram-se do grau de investimento que essas agências de notação norte americanas deram para créditos de risco (subprime) que eram obviamente nada mais que lixo? Essas agências de notação de crédito são pagas por Wall Street e como Wall Street, elas servem ao governo dos Estados Unidos.

Basta olhar para os fatos para perceber a natureza política da decisão. Mas é inútil esperar que a imprensa financeira corrupta dos Estados Unidos esclareça os fatos. Mas nós, sim, podemos lançar um olhar honesto para os fatos.

Pois então vamos colocar os fatos em um contexto que inclua a situação do débito dos Estados Unidos.

De acordo com os índices disponíveis online, o débito nacional russo equivale a 11% (onze por cento) do PIB russo. O débito nacional dos Estados Unidos está numa porcentagem de 105% (cento e cinco por cento) do PIB norte americano, cerca de dez vezes superior, percentualmente, ao débito russo. Meus coautores Dave Kranzler, John Williams e eu mesmo, temos demonstrado que, medida corretamente, a percentagem da divida norte americana em relação ao PIB dos EUA é muito maior que o número oficial do governo.

Per capita, a dívida nacional russa é de 1.645 dólares. A dívida nacional per capita dos Estados Unidos é de 56.952 dólares.

No total, a dívida nacional da Rússia é de 235 bilhões de dólares, menos que um quarto de trilhão, O tamanho da dívida nacional dos Estados Unidos é de 18 trilhões, 76,6 vezes maior que o débito russo.

Colocando esses dados em perspectiva: de acordo com os índices de débito, o PIB dos Estados Unidos é de 17.3 trilhões de dólares e o PIB da Rússia é de 2,1 trilhões. Então, o PIB dos EUA é oito vezes maior que o PÌB russo, mas a dívida nacional dos Estados Unidos é 76,6 vezes maior que a dívida russa.

Claro como água é o fato de que a notação de crédito dos Estados Unidos é que deveria ser rebaixada à categoria lixo. Mas não é o que acontece.

Qualquer agência de notação de crédito que tivesse a coragem de dizer a verdade seria imediatamente fechada e processada, e não importaria muito sob que acusações, por absurdas que fossem. As agências de crédito seriam então incriminadas como antiamericanas, como organizações terroristas tal qual a RT, etc. e assim por diante. E elas sabem disso. Nunca espere a verdade de um cidadão de Wall Street. Eles mentem para sobreviver.

Detalhe da Catedral de São Basílio, Moscou
De acordo com o site How Stuff Works, no postado Top 10 Countries the U.S. Owes Money To,  a partir de janeiro de 2013 os Estados Unidos devem para a Rússia 162,9 bilhões de dólares. Como a dívida russa é de 235 bilhões, 69 por cento da dívida russa está garantida pelas obrigações da dívida norte americana com a Rússia.

Se esta é a crise russa, eu sou Alexandre, o Grande.

Como a Rússia tem dólares suficientes para pagar toda a dívida nacional e ainda sobram cerca de 200 bilhões de dólares, qual é afinal o problema da Rússia?

Um de seus problemas é seu Banco Central. Em sua maior parte, os economistas russos são iguais aos incompetentes neoliberais que pululam por todo o mundo ocidental. Os economistas russos estão apaixonados por seus contatos com o ocidente “superior” e com o prestígio que eles imaginam que esses contatos lhes dão. Desde que os economistas russos concordem com os economistas ocidentais, continuarão a ser convidados para conferências no exterior. Os economistas russos são na realidade agentes de Washington, compreendam ou não esse fato.

No momento, o Banco Central russo está desperdiçando o grande acervo russo de reservas em moeda estrangeira, em apoio ao ataque do ocidente ao rublo. Este é um jogo de tolos que nenhum Banco Central deveria jogar. O Banco Central da Rússia deve lembrar, ou aprender se por acaso não souber, sobre o ataque de Soros ao Banco da Inglaterra.

A reserva cambial da Rússia deve ser usada para quitar toda a dívida nacional da Rússia, tornando-a, desta forma, o único país no mundo a não ter uma dívida nacional. Os dólares remanescentes deveriam ser despejados em ações coordenadas com a China para destruir o dólar americano, base do poder imperial de Washington.

Edifício do Banco Central da Rússia
Alternativamente, o governo russo poderia simplesmente anunciar que a resposta à guerra econômica conduzida contra a Rússia pelo governo de Washington e as agências de notação de crédito de Wall Street seria o incumprimento dos empréstimos russos junto aos credores ocidentais. Afinal, a Rússia nada tem a perder, pois já foi cortada do acesso ao crédito ocidental pelas sanções impostas pelos Estados Unidos. O default russo causaria consternação e crise em todo o sistema bancário europeu, o que é exatamente o que a Rússia quer, no intento de parar com o apoio da Europa às sanções impostas por Washington.

Em minha opinião, os economistas neoliberais que controlam a economia russa são uma ameaça bem maior à soberania russa que as sanções econômicas e as bases de mísseis dos Estados Unidos. Para sobreviver a Washington, a Rússia precisa desesperadamente de pessoas que não tenham uma visão romantizada do ocidente.

Nomi Prins
Dramatizando a situação, caso o presidente Putin me concedesse a cidadania russa e permitisse que Michael Hudson e Nomi Prins fossem nomeados como meus adjuntos, eu assumiria o Banco Central russo e imediatamente colocaria o ocidente fora de suas operações.

Mas isso exigiria que a Rússia assumisse alguns riscos para vencer. Os atlanticistas integracionistas dentro do governo russo querem a vitória do ocidente, não a da Rússia. Um país infiltrado com traidores dentro de seu próprio governo tem reduzidas chances contra Washington, um jogador determinado.

Outra quinta coluna que opera nas entranhas da Rússia são as ONGs financiadas pela Alemanha e pelos Estados Unidos. Os agentes norte americanos se mascaram como “organizações de direitos humanos” ou “organizações do direito das mulheres” e ainda “organizações para a democracia” e qualquer outro título grandiloquente que caia como uma luva nestes tempos do politicamente correto e que sejam incontestáveis.

Contudo, outra ameaça para a Rússia vem da grande percentagem de jovens russos que desejam ardentemente participar da cultura depravada do ocidente. Sexo licencioso, pornografia, drogas, egoísmo. Estes são os produtos culturais oferecidos pelo ocidente. Além, é claro, da possibilidade de matar muçulmanos.

Se o que os russos querem é poder matar pessoas apenas para se divertir e solidificar a hegemonia dos Estados Unidos sobre si mesmos e o mundo inteiro, podem então apoiar a “integração atlanticista” e dar as costas ao nacionalismo russo. Por que ser russo se você pode ser um servo dos americanos?

Quer resultado melhor para os neoconservadores norte americanos que ter o apoio da Rússia para a hegemonia mundial incontestável de Washington? Pois é isto que os economistas neoliberais russos e os “Integracionistas Europeus” anelam. Os neoliberais russos estão dispostos a ser lacaios dos Estados Unidos para fazer parte do ocidente, e receber a régia recompensa por sua traição abjeta.

Mídia dos EUA

Quando fui entrevistado sobre esses desenvolvimentos pela RT, o âncora do telejornal estava tentando enfrentar as acusações de Washington apresentando fatos. É espantoso constatar que os jornalistas russos não percebem que “fatos” nada tem a ver com tudo isso. Os jornalistas russos, pelo menos aqueles independentes dos subornos e propinas americanas, imaginam que os fatos tem alguma importância nos conflitos da mídia sobre as ações da Rússia. Eles pensam, por exemplo, que os ataques contra civis, praticados pelos nazistas ucranianos apoiados por Washington é um fato. Claro que é, mas tal fato simplesmente não existe na mídia ocidental. Para esta, os russos e apenas os russos são os responsáveis por toda e qualquer violência na Ucrânia.

A história sustentada por Washington é a de que Putin, esse terrível e maldoso personagem, está tentando nada menos que a restauração do Império Soviético, e que esta é a causa do conflito. A linha seguida pela mídia americana nada tem a ver com os fatos.


A Rússia está, em minha opinião, correndo grave perigo. Os russos confiam nos fatos e Washington confia na propaganda mentirosa. Para Washington, os fatos não importam. As vozes do ocidente abafam completamente a voz da Rússia.

A falta de uma voz russa se deve apenas a ela mesma. A Rússia aceitou viver em um mundo no qual as finanças, as leis e as telecomunicações são inteiramente dominadas pelos Estados Unidos. Viver neste mundo significa que a única voz a ser ouvida é a de Washington.

O motivo pelo qual a Rússia acedeu a esta estratégia permanece um completo mistério, mas com certeza isso foi o resultado de um fatal erro estratégico, que colocou a Rússia em desvantagem.

ONGs dos EUA que atuam na Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Considerando as infiltrações que Washington tem promovido dentro do próprio governo russo, os oligarcas economicamente poderosos e os funcionários estatais com conexões com o ocidente, assim como a mídia e a juventude russa com suas centenas de ONGs financiadas pelos Estados Unidos ou pela Alemanha, que podem a qualquer momento colocar os próprios russos nas ruas para protestar contra qualquer defesa tentada pelo país, é duvidoso que a Rússia possa no futuro manter qualquer soberania, ou sequer ter um futuro.

Os neocons norte americanos são implacáveis. Seu oponente russo está enfraquecido pela propaganda que Washington, que coloca os Estados Unidos como salvador da humanidade e de seu futuro em um mundo outra vez ameaçado pela guerra fria.

A escuridão do Sauron Americano continua a ser espalhada sobre o mundo inteiro.


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.