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sexta-feira, 11 de março de 2011

A “Operação Líbia” e a batalha pelo petróleo: Redesenhar o mapa da África (2)

por Michel Chossudovsky


As implicações geopolíticas e econômicas de uma intervenção militar EUA-OTAN contra a Líbia são de grande alcance. 

A Líbia está entre as maiores economia petrolíferas do mundo, com aproximadamente 3,5% das reservas globais de petróleo, mais do dobro daquelas dos EUA. 

A “Operação Líbia” faz parte de uma agenda militar mais vasta no Médio Oriente e na Ásia Central, a qual consiste e ganhar controle e propriedade corporativa sobre mais de 60 por cento da reservas mundiais de petróleo e gás natural, incluindo as rotas de oleodutos e gasodutos. 

“Países muçulmanos incluindo a Arábia Saudita, Iraque, Irão, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Iêmen, Líbia, Egito, Nigéria, Argélia, Cazaquistão, Azerbaijão, Malásia, Indonésia, Brunei possuem de 66,2 a 75,9 por cento do total das reservas de petróleo, conforme a fonte a metodologia da estimativa”. (Ver Michel Chossudovsky, The "Demonization" of Muslims and the Battle for Oil, Global Research, January 4, 2007) . 

Com 46,5 mil milhões de barris de reservas provadas (10 vezes as do Egito), a Líbia é a maior economia petrolífera do continente africano seguida pela Nigéria, Argélia (Oil and Gas Journal). Em contraste, as reservas provadas dos EUA são da ordem dos 20,6 bilhões de barris (Dezembro 2008) segundo a Energy Information Administration. U.S. Crude Oil, Natural Gas, and Natural Gas Liquids Reserves) 


Nota
As estimativas mais recentes situam as reservas de petróleo da Líbia nos 60 bilhões de barris. As suas reservas de gás em 1.500 bilhões de m3. A sua produção tem estado entre 1,3 e 1,7 milhões de barris/dia e a produção de gás de 2.600 milhões de pés cúbicos por dia, segundo números da National Oil Corporation (NOC). 
A BP Statistical Energy Survey de 2008 (em alternativa) colocava as reservas provadas da Líbia nos 41.464 bilhões de barris no fim de 2007, os quais representam 3,34% das reservas provadas do mundo. (Mbendi Oil and Gas in Libya - Overview ).

O petróleo é o “troféu” das guerras conduzidas pelos EUA-NATO 

Uma invasão da Líbia sob um pretexto humanitário serviria os mesmos interesses corporativos da invasão de 2003 e subsequente ocupação do Iraque. O objetivo subjacente é tomar posse das reservas de petróleo da Líbia, desestabilizar a National Oil Corporation (NOC) e finalmente privatizar a indústria petrolífera do país, nomeadamente transferir o controle e propriedade da riqueza petrolífera Líbia para mãos estrangeiras. 

A National Oil Corporation (NOC) está classificada entre as 25 maiores 100 companhias de petróleo do mundo. (The Energy Intelligence ranks NOC 25 among the world's Top 100 companies. - Libyaonline.com) 

A planejada invasão da Líbia, a qual já está em curso, é parte da “Batalha pelo petróleo” mais vasta. Aproximadamente 80 por cento das reservas de petróleo da Líbia estão localizadas na bacia do Golfo de Sirte da Líbia Oriental. (Ver mapa abaixo).

A Líbia é uma economia valiosa. “A guerra é bom para os negócios”. O petróleo é o troféu das guerras efetuadas pelos EUA-OTAN. 

A Wall Street, os gigantes anglo-americanos do petróleo, os produtores de armas dos EUA e UE seriam os beneficiários tácitos de uma campanha militar dos EUA-OTAN contra a Líbia. 

O petróleo líbio é uma mina de ouro para os gigantes petrolíferos anglo-americanos. Embora o valor de mercado do petróleo bruto esteja atualmente pouco acima dos 100 dólares por barril, o custo do petróleo líbio é extremamente baixo, tão baixo como US$1,00 por barril (segundo uma estimativa). Como comentou um perito do mercado algo criticamente:

“A US$110 no mercado mundial, a simples matemática à Líbia uma margem de lucro de US$109”. (Libya Oil , Libya Oil One Country's $109 Profit on $110 Oil, EnergyandCapital.com March 12, 2008)

Interesses petrolíferos estrangeiros na Líbia 



Dentre as companhias petrolíferas estrangeiras que operavam antes da insurreição na Líbia incluem-se a Total da França, a ENI da Itália, a China National Petroleum Corp (CNPC), British Petroleum, o consórcio espanhol REPSOL, ExxonMobil, Chevron, Occidental Petroleum, Hess, Conoco Phillips. 

Muito significativamente, a China desempenha um papel central na indústria petrolífera líbia. A China National Petroleum Corp (CNPC) tinha, até o seu repatriamento, uma força de trabalho de 30 mil chineses na Líbia. A British Petroleum (BP), em contraste, tinha uma força de trabalho de 40 a qual foi repatriada. 



Onze por cento (11%) das exportações de petróleo líbias são canalizadas para a China. Se bem que não haja números sobre a dimensão e importância da produção e atividades de exploração da CNPC, há indicações que são apreciáveis. 

Mais geralmente, a presença da China na África do Norte é considerada por Washington como uma intrusão. De um ponto de vista geopolítico, a China é uma intrusa. A campanha militar dirigida contra a Líbia pretende excluir a China da África do Norte. 

O papel da Itália também tem importância. A ENI, o consórcio italiano, extrai 244 mil barris de gás e petróleo [por dia], os quais representam quase 25 por cento do total das exportações da Líbia. (Sky News: Foreign oil firms halt Libyan operations, February 23, 2011). 

Dentre as companhias estadunidenses na Líbia, a Chevron e a Occidental Petroleum (Oxy) decidiram há cerca de seis meses (Outubro 2010) não renovar as suas licenças de exploração de petróleo e gás na Líbia. (Why are Chevron and Oxy leaving Libya?: Voice of Russia, October 6, 2010). Em contraste, em Novembro de 2010 a companhia alemã R.W. DIA E assinou um acordo de grande alcance com a National Oil Corporation (NOC) da Líbia que envolve a exploração e partilha de produção. AfricaNews - Libya: German oil firm signs prospecting deal - The AfricaNews, 

As apostas financeiras bem como “os despojos de guerra” são extremamente elevados. A operação militar pretende desmantelar instituições financeiras da Líbia bem como confiscar milhares de milhões de dólares de ativos financeiros líbios depositados em bancos ocidentais. 

Deveria ser enfatizado que as capacidades militares da Líbia, incluindo o seu sistema de defesa aérea, são fracas. 

Redesenhar o mapa da África 

A Líbia tem as maiores reservas de petróleo da África. O objetivo da interferência dos EUA-OTAN é estratégico: consiste no roubo sem rodeios, em roubar a riqueza petrolífera do país sob o disfarce de uma intervenção humanitária. 

Esta operação militar pretende estabelecer a hegemonia dos EUA na África do Norte, uma região historicamente dominada pela França e em menor extensão pela Itália e Espanha. 



Em relação à Tunísia, Marrocos e Argélia, o desígnio de Washington é enfraquecer os laços políticos destes países com a França e pressionar pela instalação de novos regimes políticos que tenham um estreito relacionamento com os EUA. Este enfraquecimento da França, como aspecto do desígnio imperial dos EUA, faz parte de um processo histórico que remonta às guerras na Indochina. 

A intervenção dos EUA-OTAN que conduza à futura formação de um regime fantoche dos EUA pretende também excluir a China da região e por para fora a National Petroleum Corp (CNPC) da China. Os gigantes anglo-americanos, incluindo a British Petroleum que em 2007 assinou um contrato de exploração com o governo Kadafi, estão entre os potenciais “beneficiários” da proposta operação militar EUA-OTAN. 

Mais na generalidade, o que está em causa é o redesenho do mapa da África, um processo de redivisão neocolonial, o descarte das demarcações da Conferência de Berlim de 1884, a conquista da África pelos Estados Unidos em aliança com a Grã-Bretanha, numa operação conduzida pelos EUA-OTAN. 

Líbia: Portão saariano estratégico para a África Central 

A Líbia tem fronteiras com vários países que estão na esfera de influência da França, incluindo a Argélia, Tunísia, Níger e Chad. 

O Chad é potencialmente uma economia rica em petróleo. A ExxonMobil e a Chevron têm interesses no Chad do Sul incluindo um projeto de oleoduto. O Chad do Sul é um portão de entrada para a região do Darfur, do Sudão, a qual também é estratégica em vista da sua riqueza petrolífera. 

A China tem interesses petrolíferos tanto no Chad como no Sudão. A China National Petroleum Corp (CNPC) assinou em 2007 um acordo de grande alcance com o governo do Chad. 

O Níger é estratégico para os Estados Unidos devido às suas vastas reservas de urânio. No presente, a França domina a indústria de urânio no Níger através do conglomerado nuclear francês Areva, anteriormente conhecido como Cogema. A China também tem interesse na indústria de urânio do Níger. 

Mais geralmente, a fronteira Sul da Líbia é estratégica para os Estados Unidos na sua busca pela extensão da sua esfera de influência na África francófona, um vasto território que se estende desde a África do Norte até à África Central e Ocidental. Historicamente esta região fazia parte dos impérios coloniais da França e da Bélgica, cujas fronteiras foram estabelecidas na Conferência de Berlim de 1884. 

Os EUA desempenharam um papel passivo na Conferência de Berlim de 1884. Esta nova redivisão no século XXI do continente africano, baseada no controle sobre o petróleo, gás natural e minerais estratégicos (cobalto, urânio, cromo, manganês e platina) apoia amplamente os interesses corporativos anglo-americanos. 

A interferência dos EUA na África do Norte redefine a geopolítica de toda uma região. Mina a China e ensombra a influência da União Europeia. 



Esta nova redivisão da África não enfraquece apenas o papel das antigas potências coloniais (incluindo a França e a Itália) na África do Norte. Ela também faz parte de um processo mais vasto de deslocamento e enfraquecimento da França (e da Bélgica) sobre uma grande parte do continente africano.

Regimes fantoches dos EUA foram instalados em vários países africanos que historicamente estavam na esfera de influência da França (e Bélgica), incluindo a República do Congo e o Ruanda. Vários países na África Ocidental dentro da esfera da França (incluindo a Costa do Marfim) estão destinados a tornarem-se estados proxy dos EUA. 

A União Europeia está fortemente dependente do fluxo de petróleo líbio. Oitenta e cinco por cento do seu petróleo é vendido para países europeus. No caso de uma guerra com a Líbia, a oferta de petróleo à Europa Ocidental poderia ser interrompida, afectando grandemente a Itália, França e Alemanha, as quais estão fortemente dependentes do petróleo líbio. As implicações destas interrupções são de extremo alcance. Elas também têm relação direta sobre o relacionamento entre os EUA e a União Europeia. 

Observações conclusivas 

Os media de referência, através da desinformação maciça, são cúmplices na justificação de uma agenda militar a qual, se executada, teria consequências devastadoras não apenas para o povo líbio: os impactos sociais e econômicos seriam sentidos à escala mundial. 

Há atualmente três diferentes teatros de guerra na região do Médio Oriente e Ásia Central: Palestina, Afeganistão, Iraque. No caso de um ataque à Líbia, um quarto teatro de guerra seria aberto na África do Norte, com o risco de escalada militar. 

A opinião pública deve tomar conhecimento da agenda oculto por trás deste empreendimento alegadamente humanitário, apregoado por chefes de estado e chefes de governo de países da OTAN como uma “Guerra Justa”. A teoria da Guerra Justa, tanto nas suas versões clássica como contemporânea, defende a guerra como uma “operação humanitária”. Ela apela à intervenção militar sobre bases éticas e morais contra “estados vilões” e “terroristas islâmicos”. A teoria da Guerra Justa demoniza o regime Kadafi na sua fase de preparação. 

Os chefes de estado e de governo dos países da NATO são arquitetos da guerra e destruição no Iraque e no Afeganistão. Numa lógica absolutamente enviesada, eles são apregoados como as vozes da razão, como os representantes da “comunidade internacional”. 

As realidades são invertidas. Uma intervenção humanitária é lançada por criminosos de guerra em altos cargos, os quais são os guardiões da teoria da Guerra Justa. 

Abu Ghraib, Guantánamo... Baixas civis no Paquistão resultantes de ataques dos EUA com aviões sem piloto a cidades e aldeias, ordenados pelo presidente Obama, não estão nas primeiras páginas dos noticiários, nem tampouco os 2 milhões de mortes civis no Iraque. Não existe isso de “Guerra Justa”. 

A história do imperialismo dos EUA deveria ser entendida. O Relatório 200 do Project of the New American Century (PNAC) intitulado “Rebuilding Americas’s Defenses” apela à implementação de uma longa guerra, uma guerra de conquista. Um dos principais componentes desta agenda militar é: “Combater e vencer decisivamente em múltiplos teatros de guerra simultâneos”. 

A operação Líbia faz parte desse processo. É um outro teatro na lógica do Pentágono de “teatros de guerra simultâneos”. 

O documento PNAC reflete fielmente a evolução da doutrina militar dos EUA desde 2001. Os planos dos EUA para se envolver simultaneamente em vários teatros de guerra em diferentes regiões do mundo. 

Embora a proteção da América, nomeadamente a “Segurança Nacional” dos EUA, seja mantido como objetivo, o relatório do PNAC explica claramente porque estes teatros de guerra múltiplos são requeridos. A justificação humanitária não é mencionada. 

Qual é o objetivo do roteiro militar da América? 

A Líbia é alvejada porque é um dentre os vários países que permanecem fora da esfera de influência da América, por não se acomodar às exigências dos EUA. A Líbia é um país que foi selecionado como parte de um “roteiro” militar que consiste de “múltiplos teatros de guerra simultâneos”. Nas palavras do antigo comandante-chefe da OTAN, general Wesley Clark

“No Pentágono em Novembro de 2001, um dos oficiais superiores do staff teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos a caminho de ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isso estava sendo discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, começando com o Iraque e a seguir a Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão...” (Wesley Clark, Winning Modern Wars, p. 130).
09/Março/2011


Parte III: "War is Good for Business": The Libya Insurrection has Triggered a Surge in Oil Prices. Speculators Applaud... (a publicar) 
Este artigo encontra-se em: Resistir

segunda-feira, 7 de março de 2011

Despachem os tuaregues, por avião, urgente!

Pepe Escobar

8/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No empate – não é guerra civil, é empate – entre o poder do Estado em Trípoli e um governo paralelo, de tribos plus“milícias irregulares, é cada vez mais difícil identificar atores chaves na Líbia. A estrada é longa (1.000 km), venta muito. É preciso cruzar o deserto, de Benghazi até Trípoli, ou do levante até a vitória, com parada crucial no meio do caminho em Sirte – a Tikrit (cidade natal de Saddam Hussein) de Muammar Gaddafi – antes de que algo aflore da batalha final, numa Trípoli cercada por um anel de aço. Não há qualquer sinal de que Gaddafi esteja próximo de abraçar a ousada, nova em folha, recém inventada estratégia do governo de Barack Obama para o Oriente Médio, de “alterar” regimes. 

Tentemos examinar o campo de batalha. No que tenha a ver com as tribos em Cyrenaica – leste da Líbia – que sempre foram o pesadelo estratégico número um de Gaddafi, sua notória capacidade para cooptar líderes tribais é história.  

Gaddafi ainda conta com algumas tribos no oeste e no sul, entre elas sua própria tribo e a tribo Magariha, do homem que fez explodir o avião em Lockerbie, Abdelbeset Ali Mohmed al Megrahi. Mas muitas – embora não todas – estão contra o bunker (ver “As tribos contra o bunker, 25/2/2011, traduzido ), inclusive a principal, Warfallah (com influência sobre o exército), além da Zawiya (no leste rico em petróleo), Bani Walid (deixaram de colaborar com os serviços de segurança) e a tribo Zintan (ex-aliada da tribo de Gaddafi). 

Se – ou quando – Gaddafi cair, o governo provisório da Líbia será, com certeza quase absoluta, uma mistura de líderes tribais, com, mais uma vez, a Tripolitania mais desenvolvida em conflito com a sempre negligenciada Cyrenaica (ninguém esqueça que Saif al-Islan, o filho “modernizador” de Gaddafi, atribuiu a culpa pelo levante a facções tribais). 

As tribos líbias combatem umas contra outras, de fato, há séculos – mais ou menos como no Afeganistão; mas a diferença, agora, é que muitas já se uniram contra o inimigo rei dos reis. 

A batalha de Argel [1] 

Na Argélia, os militares estão desesperadamente necessitados de que os pacificadores acompanhem os eventos na Líbia. Claro. Se Gaddafi cair, a Argélia será a seguinte na fila (está em 9º lugar na lista dos jogadores de sapatos de The Economist – que visa a prever em que direção andará o perfume do jamim – abaixo da Tunísia, que já caiu). Líbia e Argélia são potências de gás natural e petróleo – riquezas que nunca descem na direção de beneficiar as respectivas populações cada vez mais desesperadas. 

Correm rumores de que a Argélia seria o único governo no mundo que ainda estaria objetivamente apoiando Gaddafi (a Sérvia é outro caso: está em silêncio por causa de vários muito suculentos contratos militares e de construção). Até agora, o mais parecido com ajuda direta de Argel a Trípoli foi ação do grupo de defesa de exilados, Algeria Watch, que insiste que Argel facilitou o transporte aéreo de mercenários do Niger e do Chad até a Líbia  (ver em: Le DRS algérien use de tous lês moyens pour faire avorter lês révolutions tunisienne et libyenne -  em francês)  .A Argélia já fez o mesmo antes – transportar tropas para a Somália, para ajudar o governo fantoche-dos-EUA a combater “terroristas” de tribos somalianas rebeldes. 

Muito mais assustador que isso, mas ainda sem confirmação, é a notícia de que aquele tal coronel Djamel Bouzghaia – principal assessor cabeça-de-“guerra-ao-terror” do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika – pode ser o indicado para substituir o presidente deposto da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali, ao qual serviu como comandante das forças de segurança e da Guarda Republicana, onde mais seria, na Líbia. Entre esses tipos sinistros estão os atiradores que mataram manifestantes na Tunísia, em três diferentes cidades e, hoje, podem estar matando civis líbios. 

E chega a cavalaria tuaregue [2]

Se Gaddafi pode contar com atiradores tunisianos para o serviço sujo, o que dizer dos nômades tuaregues do Sahel?

Historicamente, Gaddafi sempre armou confusões terríveis entre seus vizinhos – e os tuaregues são sempre instrumentalizados em sua estratégia megalomaníaca de construir um Grande Sahara em volta da Líbia. Gaddafi certamente saberá aproveitar-se dos sonhos secessionistas dos tuaregues. 

Há dez anos, na estrada, em Timbuktu no Mali, os amigos tuaregues ofereceram-me curso intensivo sobre rebeliões tuaregues e movimentos de secessão. No início dos anos 1970s, muitos tuaregues alistaram-se na Legião Islâmica de Gaddafi, a qual, em tese, combateria para criar um estado islâmico unificado no norte da África. Naquele momento absolutamente não havia para onde ir, num Sahel-Sahara assolado pela grande seca. A Legião existiu até o final dos anos 1980s e foi dissolvida. 

Gaddafi também estimulou rebeliões dos tuaregues, sobretudo no Mali e Niger. Pagou instalações em Timbuktu, Gao e Kidal no Mali, abriu um consulado em Kidal, e acionou a varinha de condão dos petrodólares. Os tuaregues do norte do Mali simplesmente abominam o governo central em Bamako, capital do Mali. Nômades, os tuaregues obviamente não confiam em qualquer modalidade de governo central; querem sempre, e essencialmente, autonomia; ou, no mínimo, mais investimentos em saúde pública, saneamento, assistência médica e educação nas cidades e vilas do desrto onde vivem. 

O governo de Bamako e a rebelião tuaregue finalmente, em julho de 2006, assinaram um acordo, com mediação da Argélia, que, em teoria levaria paz e desenvolvimento à região de Kidal. Os rebeldes depuseram armas oficialmente em fevereiro de 2009. Só um, dos líderes rebeldes, Ibrahim Ag Bahanga, não concordou com o negócio. Vive hoje exilado na Líbia.

Há tuaregues que vivem no deserto do sudoeste da Líbia. Mas Bamako está espalhando que pelo menos 800 tuaregues do Mali, de Burkina Faso, de Niger e da Argélia já teriam aderido às forças de Gaddafi. Como resistir à oferta de 10 mil dólares em dinheiro para alistar-se, mais mil dólares por dia de combate... se você for um tuaregue jovem e desempregado?

A diferença é que, agora, Gaddafi parece estar criando não só divisões entre os tuaregues e os países onde vivem, mas também dentro das próprias comunidades tuaregues – sobretudo no Mali, no Niger e no Chad. Muitos tuaregues já trabalharam para Gaddafi na Líbia, durante anos; alguns foram membros das Forças Armadas da Líbia e têm nacionalidade líbia. Como os mais jovens, também estão sendo recrutados à força de petrodólares – para desespero de muitas comunidades tuaregues.

Isso, exatamente, foi o que disse Abdou Sallam Ag Assalat, presidente da assembleia regional em Kidal, à agência France-Presse: “Esses jovens estão indo em massa para a Líbia (...). As autoridades regionais tentam dissuadi-los, sobretudo os ex-rebeldes, mas não é fácil, porque lá estão os dólares e as armas a serem recapturadas (...). Um dia, todos voltarão, com aquelas mesmas armas, para desestabilizar o Sahel” em Kadhafi recruiting hundreds of Tuareg fighters: Mali


File:Tuareg area.png

Os tuaregues saem pelo Mali, cruzam o sul da Argélia e chegam ao sul da Líbia. É viagem terrível, de 48 horas, em geral feita em comboios. Claro que aquelas “fronteiras” no deserto são miragem. A operação, segundo a mídia argelina, é organizada por um ex-líder rebelde tuaregue do Mali, que está na Líbia. Bem pode ser Ibrahim Ag Bahanga. E se houver trecho aéreo na viagem – parta da Argélia ou do Chad – nesse trecho os tuaregues encontram os facilitadores da segurança argelina. 

Uma das enfermeiras ucranianas, Oksana, anda dizendo que Gaddafi é “grande psicólogo”. Também é grande sociólogo, porque percebeu – e lucrou muito com isso – que não há estados-nação no Sahel-Sahara, nem em termos sociais, nem políticos, nem jurídicos. Nem a Argélia nem a Líbia jamais deram um passo, que fosse, para reparar as feridas do colonialismo – que espalhou os nômades tuaregues por quatro países. A Argélia sempre se beneficiou – tanto quanto reprimiu – a fragmentação dos grupos tuaregues. Quanto ao rei dos reis africano, ele sabe que pode contar sempre com um exército nômade de reserva.



Notas de tradução
[1] Pelo sim, pelo não, a lembrança é inescapável: “A batalha de Argel” é título de filme famosíssimo, de 1965, de Gillo Pontecorvo  (1919-2006). Foi proibido durante muitos anos em vários países, inclusive na França e no Brasil durante a ditadura militar. Narra lutas pela independência da Argélia, dominada pela França desde 1830, entre os anos de 1954 e 1957.
[2] Ver, para ilustrar, por exemplo, “O segredo do Sahara”, Eugene Wright, Revista dos Escoteiros [Boy’s Life], agosto de 1939, vol. 29, n. 8, em  [NTs].