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sexta-feira, 1 de março de 2013

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A arte da guerra: “A reocupação da África”


1/2/2013, Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido para o francês e outros idiomas por Fausto Giudice
Traduzido do italiano para o português pelo pessoal da Vila Vudu

Manlio Dinucci
No momento exato em que o presidente democrata Obama reafirmava, em seu discurso de coroação que os EUA, “fonte de esperança para os pobres, apoiam a democracia na África”, enormes aviões C-17 US transportavam soldados franceses para o Mali, onde Washington instalara no poder, ano passado, o capitão Sanogo, adestrado nos EUA por Pentágono e CIA – o que tornou muito mais agudos os conflitos internos locais.

A rapidez com que foi lançada a operação, oficialmente para proteger o Mali contra o avanço dos rebeldes islamistas, deixa bem claro que foi operação longamente planejada pelo socialista Hollande.

A colaboração imediata dos EUA e da União Europeia, que decidiu enviar ao Mali seus especialistas de guerra com a missão de treinar e comandar, mostra também que a operação foi planejada em conjunto em Washington, Paris, Londres e outras capitais. As potências ocidentais, cujos grupos multinacionais rivalizam nas operações de se assenhorear de mercados e fontes de matérias primas, sempre formam grupo compacto, quando seus interesses comuns estão em jogo. Como os interesses que são ameaçados hoje na África pelos levantes populares e pela concorrência chinesa.

Mapa da guerra no Mali
O Mali, um dos países mais pobres do mundo (com renda média per capita 60 vezes inferior à dos italianos, e onde mais da metade da população vive abaixo da linha da miséria), é imensamente rico em matérias primas: exporta ouro e coltan (mistura de minérios de nióbio e tântalo - colombita e tantalita), mas a riqueza vai parar nos bolsos das multinacionais e da elite local.

A mesma coisa, no vizinho Níger, ainda mais pobre (com renda per capita 100 vezes menor que a dos italianos) embora seja uma dos países mais ricos do mundo em urânio, cuja extração e exportação são entregues à multinacional francesa Areva.

Montagem da ilustração: Tiago Hoisel, Brasil
Não é acaso que Paris, em operação simultânea à do Mali, tenha enviado suas Forças Especiais também ao Niger. Situação análoga no Chade, cujas ricas reservas de petróleo são exploradas pela Exxon Mobil (EUA) e outras multinacionais (e já começam a chegar também empresas chinesas): as migalhas que restam dos lucros vão diretamente para os bolsos das elites locais. Por criticar esse mecanismo, o bispo comboniano*, Michele Russo foi expulso do Chade, em outubro passado.

O Níger e o Chade fornecem soldados aos milhares, também enviados ao Mali para abrir uma segunda frente sob comando francês. A operação lançada no Mali, com soldados franceses como ponta de lança, é operação de vastíssima envergadura, que vai do Sahel até a África Ocidental e Oriental.

É operação que se articula com a que teve início no Norte da África, com a destruição do estado líbio e manobras para sufocar, no Egito e em outros pontos, as rebeliões populares.

É operação de longo prazo, que faz parte de um plano estratégico que visa a pôr todo o continente africano sob controle militar das “grandes democracias”, que retornam à África, com o casquete colonial mal disfarçado sob as cores da fantasia de paz.



Nota dos tradutores
* Missionários Combonianos do Coração de Jesus [MCCJ]: congregação religiosa missionária fundada pelo italiano Daniel Comboni, morto em Khartoum em 1881 e beatificado em 2003, para evangelização e promoção humana na África [NTs italiano-francês]. Pode-se ler sobre Combonianos no Brasil. [NTsBr]

sexta-feira, 23 de março de 2012

Mali: o sangue invisível da “Primavera Árabe”


23/3/2012, Derek Henry Flood, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Derek Henry Flood é jornalista independente, especializado em questões do Oriente Médio, Sul e Centro da Ásia. Desde 11/9, cobre no front, os conflitos nessas regiões. Seu blog (“A guerra é o único modo que se conhece de ensinar geografia aos norte-americanos”) é: The War Diaries e twitter @DerekHenryFlood 


“O honrado Muammar Al-Gaddafi sempre pensou a África unida. Viva Gaddafi!”
(abm_ww3, comentário de internauta, na página de ATol, 23/3/2012) 

“É negro! É africano!” – disse um exultante miliciano armado, na Líbia, ao jornal Asia Times Online, ao descrever um suposto cidadão do Chade, de um grupo de combatentes pró-Gaddafi capturados depois da vitória dos “rebeldes”, logo depois da primeira batalha de Brega, dia 2/2/2011.

Brega, onde há grande terminal de embarque de petróleo, a oeste de Benghazi, foi importante, não só por ter sido a primeira vitória militar bem clara dos “rebeldes”, que avançavam na direção leste, rumo a Benghazi, mas, também, porque foi onde os “rebeldes” começaram a distribuir declarações aos jornalistas sobre o papel dos africanos subsaarianos naquela guerra; declarações que, vez ou outra, aproximavam-se da histeria. 

Por mais que o conflito líbio em 2011 possa ser considerado semelhante às revoluções na Tunísia, Egito, Bahrain e em outros pontos do mundo árabe, como mais um front de uma sempre crescente “Primavera Árabe”, logo ficou bem claro que a Líbia – pela realidade geográfica e pela história política – jamais foi conflito só árabe: sempre foi conflito também africano.

O muito que se disse sobre o papel de africanos subsaarianos na guerra líbia pareceu mais propaganda que fato, em vários pontos, porque praticamente sempre era impossível verificar, de fonte independente e fidedigna, a veracidade das declarações dos “rebeldes”. Sem dúvida, sempre houve muitos negros africanos no teatro líbio, mas a maioria deles eram trabalhadores migrantes encorajados a buscar trabalho na Líbia, pelas políticas de Gaddafi, políticas que sempre proclamaram a “irmandade” entre os líbios e os vizinhos do sul; ou eram atraídos para a Líbia simplesmente pela relativamente grande riqueza da Líbia, derivada do petróleo e de laços econômicos que Gaddafi sempre cuidou de renovar com um ocidente sempre oportunista. 

Empresas e governos ocidentais, seguidos pelos autocratas russos e chineses, não se cansavam de procurar negócios com a Líbia de Gaddafi pós-sanções. A imagem de Gaddafi foi então habilmente reabilitada, até convertê-lo em alguma espécie de liberal secular – depois de a desastrada invasão do Iraque ter criado o “Cachorro Louco do Oriente Médio”, pelo prisma de uma visão de mundo ferozmente neoconservadora que então dominava os negócios internacionais. 

Houve também os que simplesmente esperavam atravessar a Líbia a caminho das costas italianas e da então aparentemente riquíssima União Europeia, do outro lado do Mediterrâneo. Dado o longo alcance da artilharia e dos atiradores hiper treinados de Gaddafi, raramente os jornalistas conseguiram aproximar-se suficientemente do exército líbio, para conhecer-lhe a composição étnica. Com isso, noticiaram-se em todo o mundo, como verdade, as conjecturas dos “rebeldes”, além de grande quantidade de mentiras, todas da mesma fonte, sobre quantos, no exército de Gaddafi, seriam “mercenários” africanos negros. 

Em meio a esse caos generalizado, africanos negros inocentes foram presos, torturados, muitos foram mortos, depois de facilmente estigmatizados como “mercenários” que estariam a serviço de Gaddafi. Tornaram-se alvos do ódio dos “rebeldes”, de ataques xenófobos e racistas, e de cega ignorância sobre quem fosse “o outro”. Também foram vítimas de uma supersimplificação da dimensão étnica, no conflito líbio.

Asia Times Online viu muitos oficiais, soldados e comandantes, negros originários das regiões subsaarianas, lutando e, em vários casos, comandando ataques, contra o exército de Gaddafi, alistados ao lado dos “rebeldes” do Conselho Nacional de Transição da Líbia (CNT) [orig. The National Transitional Council of Libya (NTC)], nos combates por Brega, Ras Lanuf e na região de Jebel Nafusa. O CNT criou uma campanha de propaganda esquizofrênica, em que sua luta era apresentada como “superior às diferenças raciais” – por mais que se visse que a campanha, de fato, só fazia difundir critérios pesadamente racistas, sempre que denunciava que “o inimigo” explorava soldados africanos negros. 

Nos conflitos que dilaceram esse início do século 21, nenhuma guerra se trava no vácuo. Armas, materiais e homens circulam através de fronteiras sempre porosas, cenários sempre precários de “mudança de regime” impostos de fora e, por todo o mundo em desenvolvimento, rolam cabeças de ditadores. Virtualmente todos os atores, estatais e não estatais, trocam farpas sobre os respectivos oponentes servirem-se dos chamados “combatentes estrangeiros”, sempre com o objetivo de apresentarem-se, cada um e todos, como vítimas de “mercenários”; e, ao mesmo tempo, para esvaziarem  objetivos supostamente locais ou nacionais dos respectivos inimigos, em cada guerra.

O coronel Gaddafi sempre manteve cidadãos de outras nacionalidades alistados e incorporados ao exército líbio. Mas o papel desses africanos no exército líbio está longe de ser conhecido (e ainda mais longe de ser entendido) no ocidente. Gaddafi sempre se manteve integrado e atento a vários conflitos em todo o continente africano. Com isso, tornou-se interlocutor indispensável na conciliação de diferenças por todo o continente. Até ser arrancado, ferido, de uma entrada de esgoto, nos arredores de Sirte, para ser sumariamente assassinado por “rebeldes” do CNT, jubilosos, dia 20/10/2011. 

Gaddafi sempre soube posicionar-se habilmente como conciliador de conflitos em muitas regiões instáveis na África, muitas vezes armando grupos e, em todos os casos, armado de sua retórica incendiária sobre uma revolução permanente no Terceiro Mundo. 

Hoje, cinco meses depois de uma guerra sanguinária para derrubar Gaddafi, golpes comandados pela OTAN e pelo Conselho de Cooperação do Golfo já ameaçam destruir ou, pelo menos, cindir, também a frágil e vacilante República do Mali [1], cujo presidente foi derrubado, ao que tudo leva a crer, por golpe militar, na capital, Bamako, ontem, 5ª-feira, pela manhã [2]. 

Quando a nave de Gaddafi já dava sinais de naufrágio iminente, combatentes de etnia tuaregue, cidadãos do Mali e da Nigéria, começaram a retornar aos seus respectivos territórios no Saara, já então armados até os dentes com armas que receberam ou saquearam, na Líbia. O estado do Mali, que, de 1992 até o início dessa semana, era governado pelo presidente Amadou Toumani Toure, enfrenta hoje ameaça de segurança praticamente insuperável, brotada no norte (ao qual o governo praticamente não chega), de ataque vindo pela fronteira, do sul da Argélia, em golpe reivindicado por grupo insurgente autodenominado Movimento Nacional para a Libertação do Azawad, MNLA). 

Imagens já distribuídas mostram o MNLA em estradas que cortam o norte saariano do Mali, em veículos idênticos aos do exército líbio, marca Toyota Hi-Lux blindados, e armados com armas de origem soviética. O MNLA luta para dividir a República do Mali e criar nova nação, Azawad; o grupo já atacou cidades e acampamentos militares ao longo das fronteiras com o Niger, a Argélia e a Mauritânia, criando milhares de refugiados e de desertores (soldados do Mali que buscam refúgio na Argélia).

A crise atual começou dia 17 de janeiro, quando o MNLA atacou a cidade de Menaka, no leste do Mali. Efeito da guerra do ocidente contra a Líbia, o conflito naquela região do Mali tem potencial para desestabilizar vastas regiões do Saara e do Sahel, além do caos que já está criado no Mali. Pode-se dizer, em termos gerais, que aí rola o sangue invisível da “Primavera Árabe”, que já escorre para o centro da África. E Gaddafi, egocêntrico, intratável, instável que fosse, já não é encontrável, para mediar essas disputas africanas mortais, como sempre fez.


Amadou Toumani Touré.
Como reação à impotência do presidente Toure, em seus últimos dias no governo, um grupo de militares rebelou-se, liderados por um capitão do exército, Amadou Sango, e autodenominado Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado (CNRDRE) [fr. Comité National pour la Restauration de la Democratie et la Restauration de l'Etat,]. O CNRDRE anunciou que suspendeu a vigência da Constituição do Mali e diz ter prendido vários ministros do governo em Bamako, numa das ações revolucionárias iniciais. 

Nada disso augura bom futuro para o Niger, vizinho do Mali e da Líbia, que padeceu seu próprio golpe em 2010 e enfrentou rebelião dos tuaregues no norte, entre 2007-2009. Com Gaddafi, podia-se pensar em conciliação. Sem Gaddafi, esses estados fragilizados terão de recorrer a corpos supranacionais, como a União Africana e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental [ing. Economic Community Of West African States (ECOWAS)], para tentar acertar seu contencioso. 

No Niger, foi preso um conhecido líder tuaregue rebelde, Aghali Alambo, que liderou rebelião armada contra o governo central em Niamey, de 2007-2009. Alambo foi um dos principais comandantes do Movimento dos Nigerianos pela Justiça (MNJ) [fr. Mouvement des Nigériens pour la Justice], que muito trabalho deu ao consórcio Areva, liderado por empresas francesas, que explora minas de urânio no Niger. 

Os tuaregues, os tubus e outros grupos minoritários de pastores tradicionalmente nômades que circulam pelo norte montanhoso do Niger dizem não saber de nenhum benefício que lhes tenha chegado, ou às suas comunidades ou criações, nem mesmo depois que o preço do urânio alcançou cotação altíssima nos mercados internacionais.

Depois que Gaddafi interveio nos confrontos dos tuaregues no Niger, Alambo foi exilado para Trípoli, bastante convenientemente, porque se sabe que se tornou confidente e consultor militar de Gaddafi. A polícia nigeriana não tem dúvidas de que Alambo coordenou o contrabando de quantidade substancial de explosivos, da Líbia para o Niger, pouco antes de ser preso. 

Gaddafi, embora nunca tenha estimulado (e sempre reprimiu) as aspirações de independência da minoria amazight na Líbia (conhecidos como berberes), sempre apoiou as lutas de libertação de minorias, por toda a África. Por isso, os tuaregues do Niger preservam a lealdade que os aproximava do falecido líder líbio – lealdade que se manifesta hoje no dilema sobre o destino de Saadi Gaddafi e de três altos comandantes militares líbios que se refugiaram no Niger depois da queda de Trípoli, no final de agosto passado. Oficialmente, Niamey diz que não extraditará Saadi para uma Líbia governada pelo CNT, sobretudo depois do tratamento sacrílego e desrespeitoso que milicianos do CNT deram ao cadáver de Gaddafi. 

O Niger, um dos países mais pobres do mundo em números absolutos, incapaz de prover alimento sequer aos seus cidadãos, converteu-se assim em campeão da defesa de direitos humanos para prisioneiros de guerra. Mas, sob a superfície, o Niger também enfrenta graves problemas de instabilidade e insegurança.

O Niger não se pode arriscar a quebrar o acordo tácito de paz que Gaddafi negociou com os tuaregues e outros grupos de oposição ao regime, e que permanece vigente desde 2009. O país não quer incitar os tuaregues a novas rebeliões. Mas esse é risco bem real, caso o affair Saadi Gaddafi não seja adequadamente encaminhado pelas vias que os tuaregues exigem. Além disso, também os militares do Niger estão muito justamente indignados pelo modo como as milícias armadas do CNT têm tratado cidadãos do Niger; e não lhes agradam nem a onda de emigrados obrigados a voltar ao país de origem nem a evidência de que muitos funcionários do regime Gaddafi continuam como prisioneiros do sistema ‘judiciário’, clandestino e ilegal, do Conselho Nacional de Transição Líbio.

Vários estados independentes na África Ocidental nos quais vivem tuaregues já há muito tempo enfrentam o problema da rebelião desses grupos nômades. Muammar Gaddafi sempre foi exímio na arte de fazer render a seu favor as históricas reivindicações dos tuaregues, ao mesmo tempo em que também acumulava trunfos positivos, como pacificador, entre os líderes da África negra, sempre que conseguia conter, por acordos, as insurreições dos tuaregues.

Agora, o presidente Toure do Mali (que declarou que se mantém no poder, com um grupo de soldados leais; e o qual, de um modo ou de outro, será substituído nas próximas eleições presidenciais que devem começar no final do mês de abril) – e o co-presidente do Niger no governo do presidente Mahamadou Issoufou, hoje na oposição – terão de tratar com os líderes insurgentes, agora sem a mediação de Gaddafi.

Para complicar ainda mais todas essas questões, há o espectro do grupo Al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM [Al-Qaeda no Maghreb Islâmico]). O grupo AQIM é descrito dos mais diferentes modos; para alguns, seria uma franquia norte-africana da al-Qaeda; para outros, uma elaborada cobertura para grupo criminoso transnacional que opera com sequestros e resgates e tráfico massivo de drogas; para ainda outros, dentre os quais jornalistas e acadêmicos de mentalidade mais conspiratória, seria operação de fachada, sob a qual se ocultaria o Departement du Renseignement et de la Securité, DRS (que coordena os serviços secretos argelinos).

No conflito no Mali, os dois lados têm lançado as acusações mais furiosas e mais sem fundamento, uns contra os outros, em tudo quanto tenha a ver com o papel da AQIM na Região.

O MNLA declarou que parte da causa de lutarem para criar o estado de Azawad, como estado independente, é livrarem-se, o mais possível, da AQIM. Simultaneamente, Bamako “declara” que o MNLA está associado à AQIM, para impor um ramo violento de islamismo no norte do Mali.

A agenda do MNLA não deve ser confundida com o que diz um grupo de fundamento mais religioso e menor, chamado Ancar Dine ou Ancar Din (“Defensores do Islã”/”Defensores da religião”, em árabe), grupo islâmico comandado por Iyad ag Ghali, um dos comandantes mais destacados de uma rebelião tuaregue nos anos 1990s, que se proclamou em luta para implantar a lei da Xaria nas conturbadas regiões do norte do Mali. Iyad é salafista, já se aproxima dos 90 anos, e foi, toda a vida, militante tuaregue rebelde; Iyad declarou recentemente que seus homens atualmente não lutam para a libertação do estado imaginário de Azawad, mas pelo estabelecimento da República Islâmica do Mali.

Contra esse discurso pró-Xaria, o MNLA lançou um comunicado oficial, do porta-voz do grupo, que vive em Paris, Mossa ag Attaher; nos termos desse comunicado, o objetivo dos rebeldes é exclusivamente dividir o Mali e criar o estado independente de Azawad; e garantiu que nenhum compromisso de caráter religioso seria incluído na plataforma do movimento, que tem caráter secular. A agenda religiosa do grupo Ancar Dine para o Mali tampouco se confunde com a agenda da AQIM de Ayman al-Zawahiri, que tem base na Argélia.

Até anteontem, 5ª-feira, talvez ainda fosse possível pintar a situação no Mali como específica desse país, no máximo com algum respingo de refugiados para os estados vizinhos. Mas ontem, soldados do Mali egressos da Líbia, que sofreram nos ataques da OTAN e nas prisões do CNT em Trípoli, levantaram-se contra o governo local, no acampamento militar de Kati, a apenas 20 km da capital do Mali, Bamako. 

A tensão naquele acampamento escapou de qualquer controle, depois de uma visita do ministro da Defesa, Sadio Gassama, planejada para discutir com os soldados rebelados a questão de o exército não contar com armamento apropriado para enfrentar as armas líbias, muito mais pesadas, com que conta o MNLA. O carro do ministro foi apedrejado por soldados amotinados, e o ministro teve de fugir do local. Depois disso, os amotinados tomaram a rádio e a estação de televisão estatais no centro de Bamako. Os relatos ainda são conflitantes; para alguns analistas, tudo não teria passado de motim concentrado num determinado contingente militar; para outros, tratou-se de tentativa, que pode ter sido bem-sucedida, de assumir o controle do palácio do governo.

Pelo Twitter, em declaração dita oficial, o presidente Toure declarou enfaticamente que não se tratou de tentativa de golpe; mas a agência Reuters, citando funcionário não identificado do Ministério da Defesa, confirmou que, sim, houve tentativa de invadir o palácio e assumir o controle militar do país. Na 5ª-feira pela manhã, o CNRDRE anunciou, pela rede estatal de televisão, que assumira o controle do país; e que o presidente teria sido deposto. Até o momento de redigir essa matéria, o presidente Toure continuava a repetir que permanecia em local seguro, e no comando do país. 

Seja como for, ainda que se confirmem as notícias de que o CNRDRE assumiu o controle da capital do Mali, nada significará em relação a regiões do norte, leste e noroeste do país, que continuam controladas pelos rebeldes do MNLA.

O que é certo, em todos os casos, é que a “Primavera Árabe” já derrubou seu primeiro líder africano. Mas, diferente dos clássicos “Grandes Homens” africanos, quase sempre autocráticos, o presidente Toure foi democraticamente eleito, estava nos últimos dias do mandato e tudo fazia crer que o Mali conheceria uma transição pacífica de governo.

No Mali, Toure é chamado “soldado da democracia”, em referência ao golpe que comandou, em 1991, para transformar o Mali, de ditadura militar, em governo razoavelmente representativo e democrático. Diferente do governante do Niger, presidente Mamadou Tandja, que foi derrubado em fevereiro de 2010, ao tentar emendar a constituição e criar para si um mandato prolongado, o presidente Toure do Mali parecia estar fazendo bom trabalho, na preparação das eleições marcadas para começar dia 29 de abril.

O Mali enfrentará problemas cada dia mais graves – dentre os quais, os legiões de emigrados que não param de voltar da Líbia, de onde trazem armamento pesado; e um exército local desorganizado, de soldados amotinados e com a moral muito baixa, depois de algumas derrotas estratégicas, como a perda da base e do aeroporto militar da cidade de Tessalit, no norte.

Agora, depois da captura do chefe da inteligência de Gaddafi, Abdullah Senussi, na Mauritânia, quando desembarcava de um voo que chegava de Casablanca, Marrocos, portando passaporte falsificado do Mali, já não há como não ver que a ‘mudança de regime’ na Líbia começa a reverberar por toda a África, com efeitos, no mínimo, sobre o futuro próximo.

Depois dos eventos tectônicos da 4ª e 5ª-feiras na capital do Mali, já não cabem dúvidas de que os efitos da campanha da Líbia, apoiada e comandada pelo ocidente, já começam a estender-se, do Norte da África, para a região que, bem claramente, é o oeste do continente africano.

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Notas dos tradutores
[1] Sobre o Mali, ver: “Malí, de la pobreza al golpe de estado”
[2] 23/3/2012. - No Brasil, onde os jornais e “correspondentes” só fazem repetir noticiário requentado das agências ocidentais, o que se lê no “Portal Terra”, é mais do mesmo: Sarkozy, Obama, Hillary Clinton, União Europeia, ONU e demais suspeitos-de-sempre condenaram vigorosamente o atentado à democracia no Mali em: “Golpe no Mali: ao menos 4 morrem; presidente está na capital”.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Em organização no Sahel: “Frente de Libertação da Líbia”


Franklin Lamb

6/11/2011, Franklin Lamb, Countercurrents
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Do Niger, no Sahel – Em árabe, sahel significa “borda”, “litoral”. Nome muito estranho para o que vejo aqui. Mas a região foi batizada há 5.000 anos, quando, segundo os antropólogos, havia aqui os primeiros campos plantados de onde se recolheram as primeiras colheitas que a humanidade conheceu. Hoje, só se vê o deserto, as temperaturas passam de 60º C e só camelos e alguns pequenos animais farejam água escondida sob a areia. São 900 quilômetros de areia ardente, do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho.

Mesmo assim, se se olha em volta, o Sahel parece mesmo uma espécie de litoral entre as areias sem fim do Saara e o verde da savana, ao sul. Partes do Mali, da Argélia, do Niger, do Chade e do Sudão, ao longo das fronteiras com a Líbia, incluem-se na área dessa suposta terra de ninguém.

Hoje, o Sahel garante proteção, locais para armazenar armas e provisões, campos de treinamento e esconderijos e é, de fato, gigantesca base para os grupos que se organizam na já grande e sempre crescente Frente de Libertação da Líbia [ing. Libyan Liberation Front, LLF). O objetivo da LLF é expulsar da Líbia o governo colonial ali imposto pela OTAN. A região do Sahel é uma das várias áreas em que se organiza hoje a contrarrevolução líbia, comandada pelas tribos Gaddafa e Wafalla e que se prepara para a próxima fase da resistência.

Libia e fronteiras
Quando cheguei à sala de reunião, no Niger, para entrevistar alguns dos recentemente evacuados da Líbia os quais, diziam-me minhas fontes, “preparavam-se para iniciar movimento de resistência popular”, que usará a “tática maoísta dos 1000 cortes, contra o grupo que hoje se apresenta como representante da Líbia”, dois fatos me surpreenderam.

Primeiro, que eram muitos e não pareciam nem obcecados, nem desesperados, nem ansiosos demais. Todos naquela sala estavam visivelmente limpos, bem alimentados, calmos, organizados, como se aquela reunião fosse rotina metodicamente cumprida.

Meu acompanhante, da tribo Gaddafa de Sirte, explicou que “só ao Niger, já chegaram da Líbia mais de 800 coordenadores de grupos, e chegam mais, todos os dias”. Um oficial uniformizado acrescentou:

“Nada parecido com o que sua imprensa ocidental tem mostrado, bandos de gaddafistas carregando caminhões de ouro para fora daqui, tentando comprar a própria segurança e subornando os esquadrões da morte da OTAN que não arredam pé do norte de nosso país. Nossos irmãos controlam as rotas dessas regiões há milênios e sabem o que fazer para não ser vistos nem pelos satélites nem pelos aviões-robôs, os drones, de EUA-OTAN.”

Segundo: vi ali, no primeiro encontro, a enorme diferença que trinta anos podem fazer. Relembrei outra visita, com o jovem ex-comandante do Fatah Salah Tamari, que trabalhara no campo israelense de prisioneiros em Ansar, sul do Líbano, durante o ataque de Israel ao Líbano em 1982, como negociador eleito pelos demais prisioneiros.

Tamari insistiu que eu o acompanhasse numa visita a uma nova base da OLP em Tabessa, Argélia. E fui com ele.

Foi pouco depois de a liderança da OLP, erradamente, em minha opinião, ter concordado com deixar o Líbano, em agosto de 1982, desistindo de tentar uma resistência à Stalingrado (sem, tenho de reconhecer, qualquer esperança de que algum Exército Vermelho aparecesse para salvá-los). A OLP aparentemente acreditou nas promessas de Reagan de que “em um ano, teremos um estado palestino apoiado pelos EUA. É cheque assinado por mim”, nas palavras do enviado dos EUA, Philip Habib [1].

Aparentemente sempre disposto a confiar em Ronald Reagan, por alguma razão, Arafat, da OLP, sempre levava no bolso a promessa escrita, de Habib, para mostrar a quem duvidasse, como mostrou a seu deputado Khalil al Wazir (Abu Jihad) e a outras pessoas, inclusive a muitas das mulheres no campo de Shatila, preocupadas com familiares presos, que temiam que os norte-americanos os traíssem.

Naquela visita a Tabessa, no vasto deserto da Argélia, os antes orgulhosos militantes da OLP estavam visivelmente ociosos; apesar das horas de treinamento físico e tático, tinham muito tempo livre, que gastavam bebendo café ou chá e fumando e preocupando-se com os familiares no Líbano. Em setembro de 1982, chegavam notícias do massacre em Sabra-Shatila, que caíram em Tabessa como uma bomba. No momento em que visitamos aquela base da OLP, vários combatentes desobedeceram as instruções que Tamari levava, e partiram para o Campo de Shatila.

Nada disso se via ali, naquele campo da resistência líbia no Niger. Tinham todos, à mão, moderníssimos telefones por satélite, computadores, Internet e toda a parafernália eletrônica que, nos últimos nove meses, encontrei à disposição nos hotéis de luxo em Trípoli.

À minha pergunta “Como chegaram ao Niger e como, tão depressa, reuniram todo esse equipamento?”, uma jovem coberta com o véu piscou o olho e riu. Eu já a conhecia. Via-a pela última vez em agosto, distribuindo press-releases de comunicados do porta-voz líbio, Dr. Musa, no hotel onde estava a imprensa. Naquele dia de agosto, Musa dissera à imprensa, ao lado do vice-ministro de Relações Exteriores da Líbia, Khalid Kaim, amigo de muitos ativistas norte-americanos de direitos humanos, que a Líbia não se renderia aos rebeldes da OTAN: “Temos 6.500 soldados bem treinados à espera deles.” Como adiante se descobriu, o comandante daqueles 6.500 soldados deixou-se subornar pela OTAN, a resistência em Trípoli não apareceu, Trípoli caiu no dia seguinte e, mais um dia, Khalid Kaim foi preso. Ainda continua preso numa das dúzias de cárceres que os “rebeldes da OTAN” mantêm em Trípoli. Uma equipe de advogados internacionais, dos EUA, já várias vezes requereu sua libertação e, hoje, espera receber autorização para visitá-lo na prisão. 

Região (aproximada) do Sahel africano
A Frente de Libertação da Líbia já tem em andamento vários projetos políticos e militares. Dentre os projetos políticos, a FLL prepara-se para apresentar candidatos em todas as eleições, em todos os níveis, prometidas para o próximo verão. Um dos homens que encontrei no Niger trabalhava com especialistas, examinando as eleições na Tunísia e no Egito, dentre outras na região, buscando experiências aproveitáveis para a Líbia.

Outra comissão da FLL trabalha na construção de campanhas eleitorais, nas plataformas dos candidatos nacionalistas, e organiza listas de candidatos para eleições específicas. Nada está definitivamente decidido, mas um professor líbio com quem conversei disse que:

“Não há dúvidas de que os direitos da mulher terão muito destaque na plataforma política dos candidatos da resistência líbia. As mulheres líbias estão aterrorizadas com o que disse Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição, tentando ganhar a solidariedade dos representantes da Al-Qaeda que já comandam militarmente Trípoli. As questões principais são a questão da poligamia, inexistente na Líbia de Gaddafi, e o fim da lei que, sob Gaddafi, garantia à mulher a propriedade da casa do casal, em caso de divórcio. A Líbia de Gaddafi foi excepcionalmente progressista, tanto nos direitos garantidos às mulheres, quanto nos direitos dos palestinos.”

Aisha Gaddafi, a única filha de Muammar – que vive na Argélia, com outros familiares e seu bebê de dois meses – foi a principal força ativa na aprovação, em 2010, nos Congressos Populares da Jamairya Líbia, de inúmeras leis que garantiram mais direitos para as mulheres. Aisha já trabalha na redação de um documento de defesa dos direitos que a lei assegura às mulheres líbias, e que será importante peça de campanha eleitoral, na hipótese de que as eleições de 2012 realmente aconteçam.

Enquanto a Líbia mal sobrevive, reduzida a ruínas pelos bombardeios da OTAN, a Frente de Libertação da Líbia prospera, organizando as muitas forças e energias já alinhadas contra a OTAN e o governo do Conselho Nacional de Transição. Umas das tribos que, no verão passado, estava organizada para levantar-se contra a OTAN, e cujo movimento foi interrompido quando Trípoli caiu, já trabalhava, naquele momento, no projeto de redigir uma nova constituição líbia. A Frente de Libertação da Líbia entende que as tribos serão crucialmente importantes para levar eleitores às urnas e fazer diferença nos números eleitorais.

A arma mais poderosa, contudo, com que conta a Frente de Libertação da Líbia é, provavelmente, a experiência política que os hoje insurgentes acumularam ao longo de 35 anos de participação em centenas de Congressos Populares, que sempre existiram em todas as vilas e cidades, pequenas e grandes e nas tribos, na Líbia, e que compunham uma só estrutura de organização social com os Secretariados da Conferências Populares. Esses Secretariados, Conferências e Congressos Populares – que a OTAN declarou ilegais e estão hoje inativos – são estruturas latentes de reorganização popular, já se estão reagrupando e há pouca dúvida de que serão extremamente importantes para organizar (e vencer) eleições (se houver eleições), mesmo que permaneçam na ilegalidade formal.

Os Congressos Populares líbios foram várias vezes ridicularizados por “especialistas” em Líbia, ou mal informados ou mal intencionados (“os Congressos Populares, baseados no Livro Verde escrito por “Baba” Muammar”). Verdade é que sempre foram estruturas muito satisfatoriamente democráticas. Quem se dedique a examiná-los com atenção, verá que cada vez mais, ao longo do tempo, operaram, não como estruturas de repetir ideias ou de receber ideias prontas, mas, democraticamente, como usinas populares de ideias que, sim, encontravam caminho direto, da base da sociedade até os gabinetes e tendas de Bab al Azziza.

O secretário-geral de um desses Congressos locais, que hoje trabalha com a resistência, no Niger, repetiu para mim o que foi dito e mostrado a uma delegação ocidental, numa fascinante sessão de trabalho, em junho, quando, por três horas, especialistas ocidentais em visita de estudos à Líbia, perguntaram o que queriam saber e receberam todas as respostas que quisessem, em Trípoli, na sede do Secretariado Nacional dos Congressos Populares Líbios. Tiveram acesso (e receberam cópias) de atas e quadros de presença nas reuniões, das pautas e das conclusões das reuniões, dia a dia, reunião a reunião, dados de mais de dez anos de história de participação popular. 

Toda essa documentação mostra – conclusão daqueles especialistas – que há inúmeras semelhanças entre os Congressos Populares e a instituição das “Town Meeting” da Nova Inglaterra, no que tenha a ver com grupos sociais mobilizados na população local para construir agendas próprias de reivindicações, nas quais ideias produzidas localmente podem ser propostas e debatidas. Há inúmeros casos em que propostas de líderes políticos líbios, várias apresentadas pelo próprio Muammar Gaddafi, não foram aceitas nos Congressos Populares que, ou modificaram as propostas originais ou, simplesmente, as rejeitaram.

Em anos mais recentes, o próprio Gaddafi deixou de manifestar-se publicamente sobre questões ainda não examinadas e votadas nos Congressos Populares, para, por um lado, não influenciar as decisões, e, por outro lado, não ser publicamente derrotado pelo que Gaddafi sempre chamou de “a decisão das massas”. 

Pessoalmente, tive experiência direta com esse tipo de organização popular, durante 4 anos, representando a Sessão 2A de Brookline [2], Massachusetts, no “Town Meeting” de Boston, quando estudava lá. Muitas vezes, nas reuniões, sentava-me ao lado de nossos vizinhos de casa, Kitty e Michael Dukakis [3] que, me contaram, ainda moram na Perry Street. Quando fomos eleitos, eu recebi 42 votos a mais que Mike, na região em que morávamos, predominantemente de irlandeses e judeus. (Confesso que não foi difícil. Levei minha amiga Rachel Cohen e batemos, juntos, em todas as portas de famílias de judeus, pedindo votos; depois, com Mary O’Malley, fiz o mesmo em todas as casas dos irlandeses). Michael partiu dali para uma carreira política de sucessos e eu, pode-se dizer, naufraguei, primeiro, na organização Students for a Democratic Society (SDS); depois, por um semestre, filiado aos Panteras Negras, enquanto ainda estudava na Boston University. Minha rápida transformação política aconteceu durante um encontro com os professores Noam Chomsky e Howard Zinn, na sala de Chomski, no MIT. Sujeito simplório, nascido no interior do Oregon, aqueles 90 minutos de conversa encheram minha cabeça de epifanias políticas e mudaram minha vida para sempre.

Os debates nos “Town Meetings” em Brookline eram interessantes e produtivos. “Mustafa”, Secretário Nacional do Congresso Popular Líbio, que estudou na George Washington University em Washington, e escreveu, como tese de graduação, sobre os “Town Meetings” da Nova Inglaterra, disse-me, há algum tempo, que os Congressos Populares Líbios seguem o modelo da organização social das cidades da Nova Inglaterra, nos EUA. Infelizmente, hoje, “Mustafa” também está preso numa das prisões do Conselho Nacional de Transição, como me informaram, quando perguntei por ele a amigos comuns.

Que candidatos a Frente de Libertação da Líbia apresentará às eleições ainda não está definido, mas há quem fale do Dr. Abu Zeid Dorda (que atualmente se recupera, segundo um porta-voz do Conselho Nacional de Transição, “de tresloucada tentativa de suicídio, provocada pelo peso de suas muitas culpas”). O Dr. Abu Zeid Dorda, que foi embaixador da Líbia na ONU, foi empurrado por uma janela de segundo andar, durante interrogatório por agentes da OTAN, no mês passado, mas sobreviveu à queda, à frente de testemunhas, na rua. Por isso, está hoje em prisão hospitalar, mas recebendo tratamento médico, e passa bem, felizmente. Mais um duro golpe na credibilidade do serviço de imprensa do Conselho Nacional de Transição.

Diferente do que os jornais e televisões ocidentais informam, Saif al Islam não considera a possibilidade de entregar-se à Corte Internacional de Haia. E, como Musa Ibrahim, está bem. Os dois foram forçados a recolher-se, com ordens médicas para repousar e recompor-se, tanto das dificuldades dos últimos meses, quanto do trauma pelo assassinato dos Gaddafis, de vários parentes e de vários amigos próximos.

Alguns analistas políticos e advogados entendem que o Conselho Nacional de Transição não conduzirá julgamentos sobre eventos na Líbia, porque o próprio Conselho Nacional de Transição cometeu inúmeros crimes fartamente documentados e, também, porque não há nenhuma garantia de que os “acusados” pelo Conselho Nacional de Transição sejam condenados em tribunais legais. Aconteça o que acontecer nesse terreno, e se algum processo for iniciado contra alguém, já há vários especialistas trabalhando para inundar a Corte Internacional com farta documentação de crimes cometidos pela OTAN durante os 9 meses da invasão, 23 mil ataques aéreos e 10 mil ataques à bomba contra áreas urbanas habitadas, em país de 5 milhões de habitantes.

Alguns especialistas, no modo como opera o Tribunal Internacional da ONU, viram sinais promissores nas declarações do Gabinete do Procurador Geral daquele tribunal, que, essa semana, recomendou que “todos os crimes cometidos na Líbia sejam investigados, tanto crimes cometidos pelos rebeldes quanto crimes cometidos pelas forças leais a Gaddafi, e também crimes que tenham sido cometidos pela OTAN”. [4]

Vítima de crimes cometidos pela OTAN, que, dia 20/6/2011 perdeu quatro membros da família, inclusive três filhos pequenos, quando sua casa foi atacada por cinco bombas MK-83 (500 kg cada uma) dos EUA-OTAN – além das bombas, o atentado incluiu dois mísseis disparados contra a casa da família, num subúrbio de Trípoli, em tentativa frustrada de targeted assassination [assassinato pré-definido] contra seu pai, ex-colaborador próximo de Gaddafi – escreveu-me ontem, de onde está abrigado: “É boa notícia, se for verdade.” 

Com a OTAN mudando o foco e recalibrando os aviões-robôs comandados à distância, os drones, para atacarem o Sahel, é possível que, depois de 300 dias de carnificina contra esse lindo país e seu povo, acabe sem conseguir o que veio buscar. O povo líbio ainda pode derrotar o projeto neocolonial de OTAN-EUA, seja pela resistência armada, seja nas urnas. 

Um rejuvenescido movimento nacional de resistência já começou, na fronteira sul da Líbia.



Notas dos tradutores
[1] Sobre o “Plano Reagan” de 1982, ver 1/9/1982, The Reagan Plan, em inglês. 
[2] É a cidade em que nasceu John F. Kennedy.
[3]  Michael Dukakis, do Partido Democrata, foi duas vezes governador de Massachusetts (1975-1979 e 1983-1991) e foi indicado à candidatura à presidência, em 1988.