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sábado, 1 de março de 2014

Ucrânia: Corda e nó no pescoço da diplomacia dos EUA

28/2/2014, [*] Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Casa Branca por Matteo Bertelli
A Casa Branca resolveu que a Ucrânia entrará num período de transição, embora não se saiba para onde, exatamente, caminha o país. O presidente Obama prometeu cooperar com todos os partidos, sem ter sequer ideia do que, exatamente, estava dizendo.

Não se sabe, sequer, quem ganhou e quem perdeu, por efeito da intervenção norte-americana, mas o massacre pelo qual está passando a Ucrânia permite dizer que já é estado não existente. Os EUA não podem se mostrar distantes dos eventos na Ucrânia, mas tampouco têm meios para agir sozinhos.

Os EUA sabem como desestabilizar outros países, mas, como agora, gostariam muito de contar com a ajuda de Moscou para acertar as coisas na Ucrânia...

Washington nunca pensou na Ucrânia, quando o país vivia em calma, pelo menos jamais manifestou qualquer interesse em desenvolver laços bilaterais. Os EUA estão no décimo lugar, na lista dos maiores investidores na economia da Ucrânia, com estoque de apenas 1 bilhão de dólares. Nunca se dedicaram a conhecer os interesses do parceiro. 

Centenas de pessoas em  New Brunswick protestaram entre 26/10 e 5/1/2013 contra a
extração de gás de xisto (shale gas) a mesma coisa que os EUA pretendem fazer na Ucrânia
Os EUA promovem a produção não tradicional de gás, nos depósitos ocidentais pouco lucrativos, onde a população não está inclinada a apoiar a “amizade do xisto” com os EUA [1]. Nenhum projeto de investimento em outro setor de energia existe e nada há que vise a aumentar as trocas comerciais. As trocas, aliás, são mínimas: as exportações dos EUA para a Ucrânia não passam dos 200 milhões de dólares, e as exportações ucranianas para os EUA mal chegam a $60-70 milhões.

Diferente disso, os laços entre Ucrânia e Rússia são muito mais próximos; de fato, não há comparação possível. O comércio entre Rússia e Ucrânia ultrapassa 40 bilhões de dólares; a Rússia é o principal mercado para a Ucrânia (aproximadamente 10 bilhões de dólares).

Quando Yanukovich chegou ao poder em 2010, os EUA concentraram seus esforços em desenvolver alguma cooperação no campo da não proliferação nuclear; as partes concordaram que a Ucrânia não teria urânio altamente enriquecido. Os EUA prometeram ajuda na descontaminação do território afetado pelo desastre nuclear de Chernobyl. Essa ajuda jamais chegou. Já faz muito tempo que os EUA vêm substituindo dinheiro por promessas, em ouvidos sempre prontos a acreditar em palavras ocas.

Os cérebros da política exterior de EUA e Grã-Bretanha, John Kerry e William Hague, jamais discutiram qualquer ajuda urgente à Ucrânia, em nada que se parecesse a alguma reunião especial. No máximo, trocaram ideias sobre o tema, quando se cruzaram nos corredores da Conferência sobre Abusos Sexuais e Conflitos Armados que se realizou em Washington (?).

William Hague (E) e John Kerry (D)
O Secretário do Exterior da Grã-Bretanha disse que os novos líderes políticos em Kiev ainda teriam de comprovar que seriam capazes de implementar reformas e combater a corrupção. Hague acredita que, assim, melhorarão as chances de o país obter ajuda financeira da comunidade internacional. Quer dizer, portanto, que é outra vez, como sempre, chantagem e queda-de-braço, dessa vez aplicadas contra gente que depositou suas esperanças na ajuda ocidental. A única coisa sobre a qual não há dúvida alguma é que não haverá dinheiro dos EUA para a Ucrânia.

Do ponto de vista dos EUA, Yanukovich nunca foi o pior presidente da Ucrânia. Foi derrubado por golpe, movimento que anda ao arrepio dos princípios norte-americanos de respeito à lei e à democracia.

Os norte-americanos perguntam-se o que Obama faria se seus adversários se armassem e se pusessem a lançar coquetéis molotov contra o Capitólio, invadissem a Casa Branca e quebrassem as vidraças do Salão Oval? O presidente dos EUA aceitaria calmamente que o Congresso, de repente, lhe tirasse todos os seus poderes e o demitisse, sem aviso prévio e sem nenhum dos procedimentos que a lei exige para demitir o presidente, e em momento em que agitações e o caos tomassem conta do país?

Barack Obama
Norte-americanos sérios e respeitadores da lei absolutamente não entendem como é possível que Obama tenha dito a Yanukovich que tirasse as forças de segurança das ruas, quando havia combate nas ruas de Kiev e já havia mortos. Como é possível?

Para muitos, nos EUA, a reação de Obama foi, de fato, de incitamento ao golpe e à violência. Na verdade, o governo dos EUA emitiu uma licença para matar, e é responsável por dúzias de vidas humanas perdidas em Kiev. Vergonha, para os EUA.

O fato de que Obama tentou esconder-se por trás de funcionários nomeados por ele e que trabalham para ele e fugiu de qualquer encontro direto com Yanukovich, não é desculpa para suas ações. A política dos EUA para a Ucrânia foi entregue nas mãos do vice-presidente Joe Biden naqueles dias críticos. Foi Biden quem falou NOVE VEZES com Yanukovich pelo telefone... Agora, é o secretário de Estado John Kerry que se põe a falar sobre a Ucrânia do modo mais absurdo e confuso, tentando encobrir o estúpido fracasso da diplomacia dos EUA.

Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia
Falando sobre os eventos, Kerry diz que não é “jogo de soma zero”. Ora essa! Em jogo de soma zero, o vencedor ganha tudo que o perdedor perca. O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, observou que Kerry tinha dificuldades com números, quando falou sobre a Ucrânia na Conferência de Munique. O secretário de Estado disse que Kiev teria de escolher entre o mundo todo e um único país. Agora, o mesmo secretário de Estado já começou a falar de “trabalhar em conjunto com a Rússia”.

A Casa Branca expôs seu apoio à integridade territorial da Ucrânia. Já começou a enfatizar, até, a importância da participação da Rússia no gerenciamento da crise. O Secretário do Exterior da Grã-Bretanha William Hague admitiu que seria importante que a Ucrânia cooperasse com ambos: com a Rússia e com a União Europeia.

Sim, mas... A questão importante não é o que eles pensem. A questão importante é se a Rússia quer cooperar com o novo regime em Kiev. 

Moscou condena resoluta e veementemente o crescimento de sentimentos neonazistas e neofascistas na parte ocidental da Ucrânia, as ideias de proibir o idioma russo, de converter os falantes de russo em “não cidadãos”, de limitar a liberdade de expressão e de extinguir todos os partidos políticos não prestigiados pelo novo regime. Washington precisa entender também que os líderes da Praça Maidan, que juraram fidelidade a valores europeus, lá estavam em flagrante violação de normas fundamentais da Constituição da União Europeia, relacionadas ao modo de tratar nacionalidades minoritárias, inclusive minorias que falem seus próprios idiomas.

Zbigniew Brzezinski
Nesse contexto, as predições de Zbigniew Brzezinski, essa semana, no Financial Times, de que a maioria dos ucranianos converter-se-ão em inimigos da Rússia soam, só, como piada macabra de russófobo decrépito. Essa semana, Zbigniew Brzezinski recomendou explicitamente a finlandização da Ucrânia. [2] Implica respeito mútuo, amplos laços econômicos com Rússia e com a União Europeia, não alinhamento com nenhuma das alianças militares que a Rússia vê como hostis. Assim, a cooperação entre Rússia e Europa faria progressos. Em resumo a finlandização está sendo oferecida como padrão de relações entre Ucrânia, União Europeia e Rússia. Ok, mas... Que conversa é essa?!

Não foi a Rússia, mas a União Europeia, quem disse que a Ucrânia teria de escolher entre a Europa e a Rússia. Foi o ultimatum lançado pela União Europeia, que Yanukovich teve de enfrentar. O presidente Putin da Rússia só fez perguntar por que, afinal, a Ucrânia teria de escolher, fosse o que fosse. Segundo ele, Moscou estava pronta para ajudar e a impedir o colapso da Ucrânia, unindo esforços com o ocidente. A ajuda poderia vir na forma de um pacote de ajuda tripartite. Washington e Bruxelas recusaram.

A eles, portanto, não à Rússia, é que Brzezinski deve dar suas lições de finlandização. Moscou jamais esqueceu que os ucranianos são nação-irmã – a Rússia e a Ucrânia são duas partes de uma mesma civilização.

Por isso, exatamente, o ocidente jamais inclui a Ucrânia na lista de seus aliados incondicionais.


Notas dos tradutores

[1] P. ex.; 5/12/2013, NB MEDIA CO-OP, Najat Abdou-McFarland em: View from the Longhouse: hundreds unite in peace and friendship against shale gas

[2] 24/2/2014, Zbigniew Brzezinski, em: Russia needs a “Finland option” for Ukraine [A Rússia precisa de uma “opção Finlândia” para a Ucrânia], Financial Times (só para assinantes) . Excertos:

Os EUA podem e devem fazer saber claramente ao Sr. Putin que os EUA estão preparados para usar sua influência para garantir que uma Ucrânia verdadeiramente independente e territorialmente íntegra trabalhará a favor de políticas para a Rússia semelhantes às efetivamente praticadas pela Finlândia: relações respeitosas de vizinhança, com amplas relações econômicas com a Rússia e com a União Europeia; nenhuma participação em qualquer aliança que Moscou considere como dirigida contra ela, mas expandindo sua conectividade europeia.

[Essa finlandização da Ucrânia seria necessária, para Brzezinski, porque]

A Rússia ainda pode lançar a Ucrânia numa destrutiva e internacionalmente perigosa guerra civil. Pode induzir e depois apoiar a secessão na Crimeia e em algumas partes industrializadas do leste do país

O artigo de onde foi tirada a frase acima: The Finlandization of Ukraine? não nos interessou, porque, se Brzezinski escreve como perfeito doido russófobo senil, o autor do artigo escreve como doido-de-repetição, ainda mais atrasado-atrasante.
__________________


[*] Nikolay Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

China dá o primeiro passo para reciclar os petrodólares


19/1/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
19/1/2012, Pepe Escobar, “EUA-CCG: atração fatal
20/1/2012, Adam Hanieh, “Classe e Capitalismo no Golfo

Visita de Wen Jiabao aos Emirados Árabes Unidos
O acordo de troca de moedas assinado entre China e Emirados Árabes Unidos (EAU) durante a viagem do premiê Wen Jiabao pela região do Golfo Persa, que termina hoje, provocará incômodo nas capitais ocidentais, especialmente em Londres e Washington. A lista de países com os quais a China já tem esse tipo de acordo vai aumentando lenta e continuadamente, e esse é o primeiro desses acordos assinado com estado do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

O acordo com os EAU cobre $5,5 bilhões – o comércio bilateral no ano passado, com as exportações chinesas responsáveis por 2/3, alcançou $36 bilhões – e visa a “fortalecer a cooperação financeira bilateral, promovendo o comércio e os investimentos e, simultaneamente, salvaguarda a estabilidade financeira regional” – segundo o Banco Central da China. A China está, essencialmente, fornecendo “seed money” [lit. “dinheiro semente”], para que os comerciantes não precisem converter ao dólar todas as transações, o que reduz os custos de câmbio. 

À primeira vista, o critério é da conveniência, mas evidentemente lança sombras sobre vários outros campos. Bem visivelmente, a China está tratando de “sensibilizar” o Oriente Médio, em relação à função do renminbi [1]. Estar guardado como moeda de reserva nos cofres dos Emirados Árabes Unidos aumenta o prestígio do renminbi. Quanto aos Emirados Árabes Unidos, ter o poderoso Yuan em suas reservas é a medida mais segura que jamais tomaram no mundo da alta finança, dado que a valorização da moeda chinesa é evento praticamente garantido para o futuro. 

EAU - Emirados Árabes Unidos, o "outro lado" do Estreito de Ormuz
(clique no mapa para aumentar)
Além disso, a troca de moedas chama a atenção para o rápido crescimento dos laços econômicos da China com a região do CCG. É uma declaração política de que a China trabalha para ampliar seus laços com os Emirados Árabes Unidos que, até agora, historicamente, sempre viveram como “bolsão” dos britânicos no Oriente Médio. Dos dhows [2], ouvem-se os gritos “Yo, ho, os chineses estão chegando!”

Mas estão chegando também com propósito bem claro. Abu Dhabi controla 7% das reservas comprovadas de petróleo do mundo, o preço do barril já está ultrapassando os $100, os EAU estarão renovando suas concessões de petróleo em 2014, e, então, as empresas chinesas com certeza estarão posicionadas para dar trabalho, na disputa pelas concessões, à Royal Dutch Shell, à ExxonMobil e à Total francesa. Claro, os EAU são mercado difícil, no qual a cultura de negócios ocidental está profundamente enraizada, mas... Nunca subestimem os chineses. 

Acima de tudo, a China dá seus primeiros passos no mundo embriagador da reciclagem de petrodólares, e é difícil imaginar que Pequim não saiba o que está fazendo agora, nessa troca de moedas com os Emirados Árabes Unidos. A China é país milenar e sabe muito bem que qualquer longa marcha começa num pequeno primeiro passo. 

O xis da questão é que as moedas dos países do Conselho de Cooperação do Golfo são aderidas ao papel verde, e seus massivos lucros são em grande parte encaminhados para os cofres dos bancos de Londres ou New York, ou são usadas para comprar ações e bônus do Tesouro dos EUA – e, isso, quando não são usadas para comprar armas ou noutros gastos extravagantes. 

O negócio agora assinado entre China e Emirados Árabes Unidos meteu um pensamento muito excitante na cabeça dos estados do CCG: a possibilidade de faturar em renminbis – que muito preocupará o ocidente. Atualmente, ninguém precisará perder o sono, porque Pequim restringe rigidamente os fluxos de sua moeda fora das fronteiras chinesas, mas não há dúvidas de que a China já está implantando toda a infraestrutura indispensável para uma era, não muito distante, quando poderá dar adeus às estritas restrições hoje vigentes para o fluxo de moedas, se se interessar por usar o renminbi no comércio internacional.

É possível que em 2025 a China esteja importando três vezes mais petróleo dos países do CCG, do que Tio Sam.



Notas dos tradutores
[1] Renminbi [lit. “moeda do povo”] é o nome oficial da moeda oficial da China, introduzida pelo Partido Comunista da República Popular da China, na fundação, em 1949. Também chamado “Yuan” (abr. RMB; símbolo ¥; código CNY, CN¥, e CN).
[2] Dhow - Embarcação mercante tradicional na região. 

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Alemanha divulga nova política de aproximação com América Latina

O país reformulou a política elaborada há 15 anos: neste ínterim, a América Latina cresceu em importância internacional e ficou mais atraente economicamente. A Alemanha também quer se beneficiar desse bom momento.


Alemanha investe em relações com a região

A Alemanha vai adotar novas diretrizes para estreitar a relação com a América Latina. O assunto merece tanta atenção que Guido Westerwelle, ministro de Relações Exteriores e chanceler federal interino, convocou nesta quarta-feira (04/08) uma coletiva de imprensa para apresentar a nova estratégia.

O governo quer reforçar a cooperação econômica com os 33 países da região. O crescimento e a necessidade de infraestrutura das nações da América Latina são os principais fatores que motivam a nova política alemã, "considerando o peso econômico e político cada vez maior de Brasil e México".

As diretrizes adotadas até então eram baseadas num conceito político elaborado em 1995. E, nesses últimos 15 anos, os países latino-americanos ganharam mais importância internacional – e também passaram a ser mais prestigiados por outras potências.

Segundo revelou Guido Westerwelle, o documento de 64 páginas apresentado instrui o país a se "engajar ativamente" para construir parcerias mais fortes e, desta maneira, fazer frente a outras potências industriais – inclusive a China – na disputa por oportunidades econômicas na América Latina.

Sob o Salar de Uyuni, na Bolivia, está a maior reserva de lítio do mundo
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Efeito esperado

Para a economia alemã, a América Latina não é apenas uma base de produção importante, mas também um "mercado em crescimento estável", destacou Westerwelle. Para o ministro, que visitou a região em março, o desenvolvimento da América do Sul "é uma história de êxitos". "Temos que ser inteligentes o bastante e participar disso, isso é do interesse de ambos os lados."

As oportunidades de negócio que surgirão no Brasil, principalmente, devido à Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, já levam a Alemanha a se empenhar mais na relação com o país.

As empresas alemãs veem grande potencial em áreas como construção de rodovias, linhas férreas, portos, aeroportos, e centros de logística, conforme destaca o novo conceito. Haveria, também, espaço a ser explorado nos setores de energia renovável, mineração, técnicas ambientais e saúde, salienta o documento apresentado pelo chefe da diplomacia alemã.

Exploração de aço no Rio de Janeiro: área de interesse alemão
Exploração de aço no Rio de Janeiro: área de interesse alemão

Interesses nos recursos

Outro ponto de interesse para os alemães é o patrimônio natural da América Latina: a região tem reservas de matérias-prima como ferro, cobre, estanho e lítio. No que diz respeito ao abastecimento de petróleo e gás natural, os países latino-americanos também devem ocupar futuramente postos de maior destaque no mercado internacional.

Para não enfatizar somente o campo econômico, as novas diretrizes alemãs para a América Latina também preveem um estreitamento das trocas culturais, científicas e profissionais. De fato, Brasil e Alemanha celebram até meados de 2011 o Ano Internacional da Ciência Inovação e reforçam os trabalhos de cooperação.

No entanto, Westerwelle também pontuou o problema mais preocupante da região, segundo a visão alemã: a criminalidade como consequência do tráfico de drogas.

NP/dpa/rts
Revisão: Roselaine Wandscheer

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

O crescimento do Brasil - Parte I



Após ter lido o artigo de Sergio Barone, docente de Relações Internacionais em Bolonha, uma coisa fica clara: o Autor gosta do Brasil e de Lula também.

Todavia não é possível (e ninguém quer...) negar a evidência: o Brasil cresceu, e cresceu muito nos últimos anos.
Um sucesso da atual classe política do País? Ou o natural desfecho após anos de "preparação"?
Estes são assuntos mais ligados à política interna do País e, como o Leitor sabe, Informação Incorrecta não toma partido.

O que Informação Incorrecta faz é dividir o seguinte artigo em duas partes, sendo bastante comprido.
E mais: lembramos que de Sergio Barone já publicámos um excelente artigo, Desaparecidos, que podem encontrar neste link.

E agora: boa leitura da primeira parte do artigo.

O Brasil qual novo ator geopolítico mundial
O Brasil no novo século, surge como uma potência em ascensão capaz de desempenhar um papel não apenas no seu próprio contexto regional, mas também fora do continente americano, como evidenciado pela recente mediação entre a Turquia e o Irão para chegar a um acordo sobre o desenvolvimento nuclear iraniano.

Na América Índio-Latina aparece como o principal motor dos processos de integração regional, como o Mercosul ou as organizações de defesa e cooperação militar, como a UNASUL, enquanto no exterior, graças à ação coordenada com outras potências em ascensão (ver BRIC, Brasil, Rússia, Índia e China) fez ouvir a sua voz nas reuniões do G20 e de outras instâncias internacionais, defende os próprios interesses primários ao investir na África e estipula acordos comerciais e diplomáticos com muitos Países no Médio Oriente.

Lula estabeleceu como diretrizes do próprio governo a guerra contra a pobreza e o analfabetismo, a reforma agrária e a eliminação do latifúndio, a estabilização da América Latina (tanto do ponto de vista político quanto econômico) e a recuperação da economia brasileira no capitalismo globalizado.



Papel no mercado global

Como economia emergente global, o Brasil tem encontrado frequentemente na própria rota as políticas aduaneiras dos Estados Unidos, que, apesar das suas proclamações neoliberais que vêem a livre concorrência e o livre mercado como panaceia para todos os males, desde sempre costumam impor taxas pesadas para proteger as próprias indústrias nacionais da concorrência global, contrariando também as regras do livre comércio promovido por instituições como o WTO, do qual são os principais promotores.

Em retaliação, o Brasil elaborou uma lista detalhada de cerca 100 produtos dos EUA que preve atingir com taxas devido à recusa de Washington de dar cumprimento à decisão da Organização Mundial do Comércio contra os subsídios norte-americanos para o setor do algodão.

A Organização Mundial do Comércio (WTO) deu o sinal verde para o Brasil preparar uma quantidade de sanções anuais no montante de 829 milhões de Dólares. Uma decisão que tende a atingir a atitude errada dos EUA nos últimos anos, período ao longo do qual, graças aos subsídios, obteve uma importante vantagem competitiva para os próprios produtores de algodão.

Lula da Silva destacou que a decisão de Brasília não é de começar uma "guerra comercial", mas que o objetivo desta medida é apenas para garantir o cumprimento das regras, exigindo ao presidente Obama de iniciar "o mais rapidamente possível" as negociações sobre esta questão. No entanto, para a Administração dos EUA não será fácil, porque os Americanos olham sempre, com as próprias forças e orçamentos, manter uma vantagem sobre os concorrentes, mesmo correndo o risco de sanções.

Mesmo durante os acordos comerciais celebrados em Junho com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, Lula destacou mais uma vez, a dupla moralidade dos Países ricos, condenando as políticas dos subsídios para a agricultura aplicados pelo Ocidente enquanto as políticas do governo brasileiro promovem o comércio internacional, com alusão aos 1,7 bilhões de Dólares investidos pelo governo Obama em subsídios agrícolas.

A "conquista" da África

O Brasil mostra a vontade de mudar o velho equilíbrio de poder que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, pois tenta não só a reforma das Nações Unidas, mas também de instituições como o FMI e o Banco Mundial, a respeito do qual transformou-se de devedor em credor para mudar do interior as relações de poder e as regras do jogo, no sentido de dar mais voz aos Países emergentes na escolha de modelos econômicos a serem promovidos no globo.

O Brasil está começando a estabelecer progressivamente a própria presença na África, onde segue uma estratégia de penetração muito semelhante à da China, promovendo soluções que são mais horizontais e menos assistenciais nestes Países, em comparação com o padrão de empréstimo "cilada" implementado pelo Ocidente até agora. "Nós não viemos para a África para pedir desculpas do nosso passado colonial, nós queremos ser verdadeiros parceiros para a cooperação e o desenvolvimento comum. Juntos podemos fazer grandes coisas para o desenvolvimento das nossas economias e a cooperação Sul-Sul é muito importante para combater as injustiças da atual ordem mundial ", disse Lula numa recente viagem à África.

A prova de que as suas não são apenas palavras, é a oferta para estabelecer programas conjuntos com a Libéria para o desenvolvimento de bio-combustíveis (assunto no qual o Brasil tem uma experiência de mais de trinta anos), além da colaboração para combater o flagelo do AIDS, que atualmente afeta 10% dos liberianos.

Mesmo com Angola tem realizado programas de cooperação econômica, desenvolvimento de técnicas para a execução do projeto-piloto para combater as doenças causadas pela falta de cálcio, formação profissional e projetos rurais para aumentar as superfícies cultiváveis.

Os dois Países também assinaram acordos de cooperação bilateral no domínio da defesa, da educação não superior e da formação de quadros superiores, bem como investimentos mútuos, alianças entre as entidades do sector público e privado dos dois Países e o intercâmbio de conhecimentos e tecnologias, ultrapassando assim a abordagem paternalista e assimétrica de estilo ocidental.

Desdolarização do comércio internacional

Na América Latina, a tentativa é de ser cada vez menos dependentes do Dólar no comércio, para evitar ser atingidos por crises externas, como ocorreu nas décadas passadas. Além das iniciativas do projeto venezuelano ALBA, que envolve a adoção do Sucre como nova unidade de troca entre os Países membros, o Brasil tem promovido diversos acordos para superar o Dólar no comércio com os Países vizinhos.

Em Setembro de 2008, Brasil e Argentina aprovaram definitivamente o Peso argentino e o Real brasileiro como moedas para o comércio bilateral, eliminando o uso do Dólar. Ao sistema de pagamento em moeda local estão prestes a juntar-se outros Países, como México, Paraguai e Uruguai.

Em Outubro de 2009, os bancos centrais do Brasil e do Uruguai estabeleceram um acordo semelhante ao que existe entre Brasil e Argentina para eliminar o Dólar moeda para o comércio bilateral, porque tanto o Real quanto o Peso estão sobrevalorizados em relação ao Dólar, o que é tornam a moeda norte-americana não conveniente no comércio.

A segunda parte do artigo será publicada muito em breve.
Acerca de assuntos quais Mercosul, Alba e Sucre podem ler o artigo Mercosul e Alba que encontram neste link.

Ipse dixit.

Fonte:
Eurasia
Tradução, Pesquisa, Comentário, Edição: Informação Incorrecta