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domingo, 7 de abril de 2013

Crise na Coreia: “Acúmulo de equívocos”


Enviado por [*] Arnaldo Carrilho

Edward Bernays
Fosse ainda vivo, o teórico da propaganda política e da publicidade comercial, Edward Bernays, franziria o cenho diante das invectivas bélico-nucleares do governo norte-coreano contra o norte-americano.

Por outro lado, as reações de Washington à mobilização gigante e à declaração de guerra do país fundado por Kim Il-sung e dirigido por seu neto Kim Jong-un revelam inegável preocupação com uma das nove nações nuclearizadas do planeta.

Jamais se chegou a um consenso sobre a origem da divisão da península coreana durante a Conferência de Potsdam (1945): partira de Stalin ou de Truman? Curiosa proposta essa, de criarem-se duas áreas de ocupação num país não beligerante.

Kim Il-sung
Na prática, a divisão territorial de um povo muito antigo acoplada às explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki e às invasões soviéticas da Manchúria e do Japão marcaram o início da Guerra Fria. Na prática, convém repetir, porque a tomada de Berlim e a mentalidade antianarquista e anticomunista reinante nos EUA não devem ser esquecidas nessa ontologia guerreira de disputas ideológicas em aparência, conquanto intrinsecamente estratégicas.
 Kim
Os EUA se empenharam desastradamente em “não perder a China”, conceito vezeiro no Departamento de Estado, de modo que os ocupantes designados teriam de ser implacáveis. Até 1948, data oficial da desocupação, registraram-se massacres de mais de 200 mil pessoas. Os massacres de esquerdistas e sociais-democratas, já empregando “mão de obra” nacional, estão inscritos como ultrajes históricos dos coreanos. Já da ocupação soviética ao norte comenta-se pouco, salvo quanto ao treinamento de tropas e entrega de equipamento militar.

Kim Jong-un
Os norte-coreanos, e também multidões no mundo inteiro, forçoso reconhecê-lo, acham justo que, no processo de desenvolvimento nuclear, suas forças armadas contem com armas e explosivos originados em tais pesquisas.

Em outras palavras, como os cinco do Conselho de Segurança das Nações Unidas não puseram cobro ao aperfeiçoamento de seus artefatos nucleares, outros países asiáticos - Índia, Paquistão, Israel e RPDC (República Popular Democrática da Coreia) - decidiram adotá-los. Com a saída da última do TNP (Tratado de Não Proliferação) em 2006, nenhum deles se vê obrigado a proibir os engenhos, mas só um é sancionado, a Coreia do Norte.

Fronteira N-S no Paralelo 38
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O problema central da questão coreana é o da sua reunificação: duas ocupações depois de 1945, uma guerra em que pereceram 2,5 milhões de civis, um armistício com o sul que acaba de ser denunciado e uma fronteira tida como “desigual” pelo norte, na verdade, tornaram-se empecilhos menores que o causado pela falta de negociações de Pionguiangue (Pyongyang, em grafia prosódica inglesa) com Washington. Não que inexistam contatos.

Há, porém, equívocos, que se acumulam nas incursões diplomáticas que houveram. A militarista RPDC tem opositores em Washington, e não apenas nas hostes mais acirradamente anticomunistas dos republicanos: o Pentágono, eis aí. 

Mapa do conflito coreano de 1950 a 1953
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Se a China é crescentemente visada e a Rússia passou a dispor de prioridades nas pranchetas de planejamento militar dos EUA, não é difícil inferir-se que o regime sem par da RPDC, verificando que é, mais que abandonado, acuado com severíssimas sanções das Nações Unidas, reage conforme suas prementes necessidades de fazer-se valer perante o mundo.

A questão coreana é um tema que merece mediações, envolvendo Washington principalmente, Moscou, Pequim, Seul e Tóquio. 

Por que não encarregar do assunto emissários especiais de países não nuclearizados e fora dos esquemas de alianças defensivas? Por que não um membro do mecanismo BRICS?

Afinal, o vienense Edward Bernays precisa do seu merecido descanso, após 104 anos de existência.

[*] Arnaldo Carrilho, é consultor de negócios com o Oriente Médio e Ásia. Foi o primeiro embaixador do Brasil (2009-12) na Coreia do Norte

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Península Coreana não é, toda ela, problema da China


25/1/2013, Global Times, China, Editorial
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Não é ma-ra-vi-lho-so haver jornal e jornalistas que AJUDAM governo eleito e seus eleitores a entender o que realmente se passa? Não é lindo ler isso que aí vai, e NÃO LER O BESTEIROL PATÉTICO que se acumula nos editoriais de TOODOS os veículos do Grupo GAFE - Globo, Abril, Folha de SP, Estadão?!

Em resposta à Resolução n. 2.087 do Conselho de Segurança da ONU aprovada na 4ª-feira, a Coreia do Norte declarou que fará teste nuclear “de alto nível”. É possível que aí haja mais que palavras de indignação pela intromissão em seus assuntos, porque a Coreia do Sul diz que um novo teste nuclear estaria já em preparação na Coreia do Norte.

A Resolução da 4ª-feira condenou o lançamento pela Coreia do Norte, em dezembro, de um foguete nuclear; e expandiu as sanções. Depois de empreender amplos esforços para introduzir emendas no texto da Resolução, a China também votou a favor.

Parece que a Coreia do Norte não valoriza os esforços chineses. Criticou a China, sem citar-lhe o nome, na declaração distribuída ontem:

Esses grandes países, que são forçados a defender suas posições de liderança na construção de uma ordem mundial mais justa, já deixaram de lado sem hesitar até os princípios mais elementares, sob influência das práticas autoritárias e arbitrárias dos EUA. E tudo faz crer que ainda não caíram em si.

A China vive um dilema: estamos muito afastados do objetivo de desnuclearizar a Península Coreana, e não há o que possamos fazer para buscar um equilíbrio diplomático entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, Japão e os EUA.

A China deve relaxar e baixar as nossas próprias expectativas quanto ao efeito de nossas estratégias para a península. Temos de manter uma atitude pragmática para lidar com os problemas e buscar a proporção ótima entre nosso investimento de recursos e os ganhos estratégicos.

A China não pode nem assumir a defesa de um dos lados no conflito na Península, como fazem EUA e Japão; nem pode sonhar com ignorar tudo completamente. Temos de aceitar prontamente que a China está envolvida; e há risco de a China ofender um dos lados, ou ambos.

O papel e a posição da China são claros, na discussão da questão da Coreia do Norte no Conselho de Segurança da ONU. Se a Coreia do Norte insistir em fazer novos testes nucleares, a China reduzirá a assistência que dá ao país. Se os EUA, Japão e Coreia do Sul aplicarem sanções extremas à Coreia do Norte, a China os conterá com firmeza e os forçará a reformar aquelas resoluções.

Deixem que a Coreia do Norte dê sinais de “zanga”. Não podemos sentar de lado e nada fazer, só porque tememos que o caso tenha impacto na relação sino-norte-coreana. EUA, Japão e Coreia do Sul que resmunguem o quanto queiram sobre a China. Não temos nenhuma obrigação de aliviar as emoções tristes daqueles países.

Dada a força da China, e desde que mantenhamos atitude firme, a situação será, gradualmente, influenciada por nossos princípios e nossa firmeza.

A China é uma potência, muito próxima da Península Coreana. Implica que nossos interesses estratégicos são complexos e diversificados. A China deve perseverar para proteger e manter nosso interesse nacional em sua totalidade, não qualquer dos interesses de outros países.

A China aspira a ver uma península estável, mas não é o fim do mundo que haja tumultos ali. Essa deve ser a linha básica da posição da China.

A China é condenada a estar localizada no leste da Ásia, onde a situação hoje é muito caótica. Mas, felizmente, a China é o país mais poderoso dentre todos da região. Evidentemente, será influenciada, no mínimo, pela situação. A China deve manter a calma.

sábado, 29 de dezembro de 2012

China testa o “pivô” norte-americano


22/12/2012, Peter Lee, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao longo do ano que está acabando, a República Popular da China pela primeira vez teve contato próximo, direto, pessoa a pessoa, com o movimento de “pivô” dos EUA outra vez na direção da Ásia – o reequilibramento estratégico, que em tudo se parece com movimento de “contenção”.

China e fronteiras

A República Popular da China passou boa parte do ano em luta-livre contra vizinhos inamistosos, fortalecidos pela nova política dos EUA, como o Vietnã e as Filipinas; combatendo contra os esforços dos EUA, ativos em várias esferas de influência chinesa na península coreana e no sudeste asiático; e enfrentou um teste de força e firmeza contra o principal representante-procurador dos EUA na região, o Japão.

Tal estado de coisas foi enganosamente, embora previsivelmente, apresentado na imprensa ocidental em termos de “intransigência da China exacerba tensões regionais”, embora interpretação mais correta pareça ser: “rivais da China exacerbam tensões regionais para intimidar uma China assertiva”.

Seja qual for o contexto, 2012 foi o ano em que o mundo – especialmente o Japão – descobriu que a República Popular da China pode, sim, movimentar-se contra o “pivô”.

Bush Filho
Os anos de vacas gordas para “a China em ascensão” corresponderam aos anos do governo de George W Bush. Preocupado com desastres em cascata no Oriente Médio, déficit fiscal galopante, que exigia parceiro com apetite insaciável pelos papéis da dívida dos EUA e, depois, com o derretimento das economias norte-americana e mundial, Bush não teve estômago para mexer com a China.

A República Popular da China pegou a bola e correu com ela o quanto quis, até emergir com presença de superpotência no leste da Ásia; alcançou a África; estabeleceu-se como parceiro rico crucial para a União Europeia; e pôs abaixo os últimos bastiões da liderança ocidental no planeta pós 2ª Guerra Mundial: a grande política multinacional e suas instituições financeiras.

Obama
Alguma reviravolta era inevitável e foi cuidadosamente, aplicadamente, dedicadamente buscada, pelo governo Barack Obama.

Volta-se a ver também em cena a inefável autoestima norte-americana. Com a eleição e reeleição de um presidente negro, de origem social modesta, os EUA voltam a cobrar espaços, como se algum direito de nascimento no campo moral lhes garantisse privilégios, algo que bem se poderia supor que os EUA tivessem esquecido por mais de uma década depois do fracasso no Iraque, as trapalhadas que os EUA introduziram no sistema financeiro global e o rotundo fracasso na gestão da questão existencial da mudança climática.

Teria sido divertido, de modo meio macabro, verificar se a eleição de Mitt Romney à presidência deslancharia o mesmo discurso de êxtase neoliberal sobre as glórias da democracia norte-americana que se ouviu depois da reeleição do presidente Obama. Seja como for, o comicamente incompetente Romney não foi páreo para a popularidade, a inteligência e o incansável foco organizacional da arrogância de Obama e dos norte-americanos – ou, como Evan Olnos da revista New Yorker diria, em tom de elogio: “o carisma moral dos EUA” voltou ao palco.

Com os EUA firmemente de volta à sela da liderança, pelo menos no que tenha a ver com a gangue do comentariato dos assuntos externos, a China nada teria a mostrar ao mundo exceto as falhas e máculas de um sistema político e econômico autoritário; nada a ensinar, exceto aulas de como não fazer e do que não ser; e sem qualquer direito a participar de nenhum conselho mundial de líderes, exceto se aprovada pelo ocidente.

Essa atitude encaixa quase à perfeição com o aparente desdém que Obama sente pela República Popular da China, aquele regime sem brilho, inamistoso, sem graça, que reage exageradamente a qualquer ordem para engajar-se, gente que tem de ser forçada, pressionada e coagida a andar na direção preferencial dos objetivos preferenciais da humanidade. Sob a liderança do governo Obama, o ocidente decidiu cercar, conter, restringir a China, em vez de acomodá-la e acomodar-se a ela.

A China só será parceira bem-vinda na ordem mundial – pelo menos como o ocidente define a tal ordem – se democratizar-se, se desmantelar sua economia controlada pelo estado e se aderir aos padrões das instituições multinacionais, na busca do lugar dela na tal ordem. Estando esses objetivos absolutamente fora do radar e de qualquer consideração, no que tenha a ver com as atuais lideranças políticas chinesas, a única saída de curto prazo para o impasse, posto nesses termos, seria o colapso do regime chinês.

É aposta de alto risco. Se o regime chinês não entrar em colapso, a única coisa que cabe esperar para futuro previsível é hostilidade crescente, fervente, entre a República Popular da China e seus muitos antagonistas.

A China optou por evitar qualquer confronto direto com os EUA; e, em vez de confrontar os EUA, passou a explorar as fraquezas da cadeia de representantes e procuradores e aliados dos EUA, ao mesmo tempo em que protege os pontos fracos de seus próprios procuradores e aliados.

Ma Ying-jeou
A única vitória incontestável da República Popular da China no leste da Ásia em 2012 foi a reeleição de Ma Ying-jeou, do Kuomintang, para a presidência de Taiwan. O presidente Ma tem política de mínima fricção com a República Popular da China, bem diferente da tumultuada política pró-independência e pró-Japão do Partido Democrático Progressista. Em 2012, Ma deu um passo a mais. Em movimento que foi amplamente ignorado pela imprensa-empresa ocidental, porque complicava a narrativa segundo a qual todo o mal e todos os crimes concentram-se na República Popular da China, Ma despachou uma flotilha de navios oficiais e nada-oficiais para dar trabalho à guarda-costeira japonesa presente em torno das ilhas Senkaku/Diaoyu.

Além de Taiwan, um dos astros mais brilhantes do firmamento autoritário, hoje com tendências pró-China é a Coreia do Norte a qual, hoje, além de pró-China também é pró-reformas, sob o governo de Kim Jong-eun.

A República Popular da China continua a fazer o governo Obama pagar pelos desastrosos erros de cálculo em 2009, quando os EUA supuseram que os laços comerciais que ligavam a República Popular da China predominantemente à Coreia do Sul implicariam que Pequim abandonaria às traças a Coreia do Norte, depois do acontecido à fragata Cheonan (que foi posta a pique por forças até hoje desconhecidas, mas que muitos sempre creram que fossem norte-coreanas) e unir-se-ia aos EUA num cerco diplomático multilateral, movido a sanções, contra o regime de Piongueangue.

Nada disso. O falecido Kim Jung-il percebeu que seus prolongados esforços de ópera bufa para engajar-se com os EUA eram vãos; meteu-se pois no seu trem blindado e viajou à China, onde foi recebido nos braços hospitaleiros de Hu Jintao.

Na outra coluna do livro-caixa, Myanmar ameaçou deslizar para fora do campo chinês, com a decisão governamental de “reequilibrar” sua política exterior, afastando-se da China e aproximando-se dos EUA, e obter uma acomodação com as forças pró-democracia. As indispensáveis demonstrações de empenho pró-democracia e pró-ocidente, vindas do governo de Thein Sein, foram:

Aung San Suu Kyi 
1.      libertar da prisão domiciliar a ativista Aung San Suu Kyi e admitir que voltasse à vida pública; e
2.     adiar o projeto da hidrelétrica Myitsone.

O projeto Myitsone era domesticamente impopular, porque financiado pela República Popular da China e adotado como símbolo de que os interesses de Myanmar estavam sendo vendidos à China por generais corruptos. Adiar Myitsone virou ação de alta popularidade, porque levantava a possibilidade de bloquear o desenvolvimento do potencial hidrelétrico financiado pelos chineses e, em vez de ajudar a China, permitia que interesses ocidentais, distantes há anos da economia de Myanmar por força de sanções, reorientassem a exportação de energia hidrelétrica, afastando-se da China e aproximando-se da Tailândia.

A República Popular da China respondeu com cautela à mudança em Myanmar, consolando-se, parece, com continuar a dominar a economia, o comércio exterior e a política de segurança de Myanmar graças à longa e muito porosa fronteira que os dois países compartilham.

Ao que parece, elites políticas de Myanmar, inclusive Aung San Suu Kyi, resolveram que uma jihad econômica anti-China seria contraproducente, e a República Popular da China tem boas razões para esperar que, aumentando as apostas no seu jogo de Relações Públicas, distribuindo dinheiro entre cidadãos desonestos dentro e fora da política (e, talvez, renegociando discretamente alguns dos termos excessivamente favoráveis em acordos de pai-para-filho com a Junta de Myanmar), conseguirá navegar com sucesso pelos hoje perigosos atoleiros da política multipartidária em Myanmar (onde um sempre tradicional populismo antichinês converteu-se em ferramenta inevitável de mobilização política e popular).

Sinal de que os EUA esperavam pôr na roda também Laos e Camboja, a secretária de Estado, Hillary Clinton fez rara visita a Vientiane, capital do Laos, antes da aparição em Phnom Penh para um convescote da Associação das Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)]. Os resultados foram complexos, dado que o Camboja defendeu lealmente a República Popular da China contra a tentativa de criar uma frente unida da ASEAN contra a China no item relativo a uma iniciativa de mediação no Mar do Sul da China que estava na agenda.

Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)
Os desejos cambojanos e laosenses de distanciarem-se da grande perturbação asiática, a República Popular da China, são talvez contrabalançados pelo desejo de manter ao largo a grande perturbação do sudeste asiático, o Vietnã. Quanto ao Vietnã, já aprendeu que, no que tenha a ver com EUA, a China não é o Irã e o Vietnã não é Israel – não, pelo menos, por hora, e bem possivelmente, jamais serão.

Apesar de os EUA terem falado em apoio à liberdade de navegação no Mar do Sul da China e a uma frente unida multilateral para negócios com a República Popular da China, os EUA evitaram “assumir lado em disputas territoriais” – a única disputa que mobiliza as nações que cercam o Mar do Sul da China, uma vez que “a ameaça chinesa à liberdade de navegação na área” pouco ultrapassa o plano da pura conversa fiada e nonsense.

Mar do Sul da China
Com a baixa probabilidade de a 7ª Frota dos EUA deslizar para o Mar do Sul da China e pôr a pique todos os navios chineses, como adjuntos da Marinha Vietnamita, o Vietnã parece ter aprendido, da ferocidade chinesa contra o Japão, a lição segundo a qual os custos de disputar o papel de estado-líder na aliança anti-China podem ultrapassar, em muito, os benefícios.

A grande história no campo da segurança no leste da Ásia esse ano foi a decisão da República Popular da China de acicatar o Japão, ostensivamente por causa do fetiche tolo chamado Ilhas Senkaku/Diaoyu, mas, de fato, por causa da decisão tomada por Tóquio, de dar apoio moral e material ao tal movimento de “pivô” dos EUA – o que o Japão fez, ao reacender a questão das tais detonadíssimas ilhas (tailandesas).

Seiji Maehara
Em 2010, a China tomou a desastrosa decisão diplomática de retaliar oficialmente contra uma provocação japonesa – a insistência de Seiji Maehara em processar um comandante de pesqueiro chinês, em cortes japonesas, por uma infração em águas próximas das Senkakus. Um movimento relativamente ponderado e limitado, de enviar uma mensagem ao Japão, mediante movimento de segurar o esforço exportador no semimundo nebuloso das terras raras, converteu-se em cause celèbre anti-China, oportunidade para o Japão fazer promoção dos EUA no campo dos assuntos de segurança marítima no leste asiático; e convite a outros vizinhos da China para que se ponham a ocupar ilhas, na tentativa de provocar mais alguma super-reação contraproducente de Pequim.

Em 2012, a República Popular da China estava pronta, provavelmente ansiando ardentemente, por uma luta, avaliando as possibilidades, até quando o governo de Yoshihiko Noda canhestramente tentou explorar a questão Senkaku e saltou à frente do governador de Tóquio e ultranacionalista, Shintaro Ishihara, para comprar três das ilhas. 

Yoshihiko Noda
Dessa vez, a retaliação chinesa veio sob vestes diplomáticas e respeitáveis: cruéis ataques contra interesses econômicos do Japão dentro da China. A campanha de 2012 causou mais danos ao Japão que a campanha de 2010, que fora concebida como flechada simbólica contra o arco de Japan Inc. A economia japonesa já não ia muito bem mesmo antes de os protestos de 2012 sobre Senkaku devastarem as vendas de carros japoneses e, sobretudo, o investimento japonês na China – o que faz crescer a possibilidade de a China desfechar golpe mortal, não simples mensagem de irritação, contra o Japão.

Os vastos esforços dos EUA para refocalizar as prioridades econômicas asiáticas e para oferecer vantagens materiais a países que, como o Japão, alinhem-se contra a República Popular da China – na Parceria Trans-Pacífico-sem-China – enfrentam hoje muitas dificuldades para avançar, com as economias alinhando-se, isso sim, a favor da possibilidade de que a China, não os EUA (que já mais parece concorrente exportador, que motor da demanda, para os tigres asiáticos) venha a ser o motor do crescimento da Ásia no século 21.

Parece, isso sim, que o “pivô” dos EUA na direção da Ásia será guerra de atrito cara, dificílima, a ser combatida em vários fronts –, cabendo ao Japão arcar com os danos principais; nada sugere que possa haver triunfo rápido para qualquer dos lados.

Digamos que 2012 acabou empatado. E houve empate, também no resto do mundo.

O governo da Índia parece sentir que a cordilheira do Himalaia assegura adequada terra-de-ninguém entre a República Popular da China e a Índia; e vai abrindo uma trilha cuidadosa, entre China e EUA.

Vladimir Putin
Com a reeleição do presidente Vladimir Putin e a volta de uma declaração mais cara-a-cara das prerrogativas da Rússia no confronto com os EUA, é menos provável que a Rússia favoreça os EUA à custa da China, do que foi ao tempo de Dmitry Medvedev.

Por outro lado, a União Europeia, premiada com o Nobel da Disfunção Patético-Trôpega, digo, o Nobel da Paz, pendura-se desesperadamente aos EUA em quase todas as questões geopolíticas, inclusive na declarada aversão às políticas comerciais chinesas; e na obsessão com segurança e com abusos de direitos humanos. Resta ver se tal nobre determinação será recompensada com alguma recuperação nas economias ocidentais, ou se, adiante, a Europa precisará de um resgate chinês.

A arena mais interessante e mais reveladora da competição-cooperação EUA-China é das menos esperadas ou prováveis: o Oriente Médio. A República Popular da China, pelo que se pode ver, está tentando um movimento de “pivô” chinês, e alavanca, para ascender ao topo da lista, a sua posição de principal comprador de energia do Oriente Médio, simultaneamente, da Arábia Saudita e do Irã.

Com os EUA aproximando-se da autossuficiência nacional, ou, pelo menos, continental, graças à extração doméstica e ao consumo das areias betuminosas [orig. tar sands] do Canadá – e ostensivamente se pivoteando para a Ásia – parece prudente e sábio dar boas vindas às pretensões chinesas de liderança no Oriente Médio.

A República Popular Chinesa tem portfólio não irracional de posições no Oriente Médio: fala, pelo menos, a favor das aspirações dos palestinos; aceita o direito de Israel existir e prosperar; aceita um regime de segurança nacional baseado em desenvolvimento econômico, não em guerra total entre os blocos sunita e xiita; aceita acomodação com regimes do Levante Islâmico, para uns; ou Primavera Árabe, para outros (desde que se disponham a fazer negócios); tende a preferir muita estabilidade, à moda dos emires, a muita democracia; e exige o fim da imbecilidade em torno do Irã “nuclear”.

Quanto ao banho de sangue na Síria, a República Popular da China tem consistentemente promovido uma solução que envolva algum grau de divisão de poder entre Assad e a oposição. Os EUA, nostálgicos talvez dos 30 anos de assassinatos que patrocinaram no Oriente Médio, e perversamente dispostos a não apressar o fim do banho de sangue, recusaram-se a admitir que a China tivesse qualquer outra função nas negociações, além da de marginal impotente.

A Síria, especialmente, é símbolo da abordagem vá-tomar-no-cu, que os EUA sempre prestigiaram, no que tenha a ver com segurança do Oriente Médio.

Washington goza, desfalece de prazer, vendo a Síria ser reduzida a ruínas, desde que – com a extinção da Síria – Irã, Rússia e China percam um aliado na região.

A mensagem chinesa parece ser: os EUA que se “pivoteiem” para a Ásia, e que ameacem destruir um regime de estabilidade e segurança que gerou paz e prosperidade que a região, antes, jamais conheceu; em nenhum caso a República Popular da China se envolverá do pântano do Oriente Médio, apesar de – ou, melhor dito, porque – aquela região é crucialmente vital para a segurança energética e econômica da China.

Tio Sam
Essa dinâmica empurra a China para ganhar musculatura militar, projetar poder e reforçar suas competências, suas habilidades, para controlar o destino de sua própria segurança em todo o hemisfério.

A provável resposta chinesa não será pôr-se a ameaçar atores regionais para abalar Tio Sam, o qual tem interesse mais esportivo do que existencial em manter ocultas várias coisas na Ásia.

Até hoje, o governo Obama ainda não se manifestou sobre o jogo de gato e rato que a China está impondo ao Japão – acovardado ante a economia global. Mandar a 7ª Frota velejar pelo Pacífico ocidental à procura de náufragos de tsunamis e tufões e de piratas esfarrapados pouco ajudará o Japão.

Se o Japão decidir assumir o controle do próprio destino de segurança, dando as costas à Constituição pacifista, construindo para si uma posição de potência militar independente, e convertendo sua plena capacidade para construir armas atômicas em arsenal nuclear real – o que levará a Coreia do Sul a também se nuclearizar – nesse caso o tão afamado ‘'pivô'’ arrastará, em mortal espiral descendente, toda a influência e toda a credibilidade dos EUA na região.

Se acontecer, 2012 será lembrado como o ano em que tudo começou a fazer sentido. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"EUA não entendem a Coreia do Norte"


8/1/2011, Yong KwonAsia Times Online
Yong Kwon é analista de assuntos internacionais. 
Vive em Washington.
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O quê, de fato, sabemos sobre a Coreia do Norte [República Popular Democrática da Coreia, RPDC; ing. Democratic People's Republic of Korea, Coreia do Norte]? Se se consideram as declarações e as políticas que brotam em Washington, vê-se que os estrategistas norte-americanos nada fazem além de reagir, sem qualquer objetivo claro de longo prazo para a Península Coreana.

As aberturas diplomáticas e militares, sempre confusas e perplexas, na direção de Piongueangue e Pequim são sinais de que Washington está apenas começando a interessar-se mais seriamente pelo país com o qual vive em confronto há mais de 50 anos. Com ataques norte-coreanos cada vez mais agressivos contra a Coreia do Sul [República da Coreia, RC; ing. Republic of Korea, RK), o preocupante nível de ignorância quanto aos objetivos e à psique de Piongueangue abre espaço para erros letais de avaliação e julgamento.

Seja como for, pode-se ainda reunir informação sobre o que a Coreia do Norte não é; e podem-se eliminar as políticas mais mal pensadas, antes que sejam postas em prática. Atualmente, muitas das políticas pensadas nos EUA para a Coreia do Norte são concebidas a partir de pressupostos e analogias absoluta e fundamentalmente inconsistentes com o pouco que sabemos sobre as percepções e os objetivos do governo norte-coreano. Para resumir: Washington pode ter certeza de que a Coreia do Norte não é ‘estado-fantoche’ nem da China, nem do império japonês, nem da al-Qaeda.

Baseada no papel central que a China desempenhou na Guerra da Coreia, “confirmado” pela excepcional proximidade entre as lideranças chinesa e norte-coreana, Washington investiu fé profunda na ideia de que a China alavancaria Piongueangue. É pressuposto muito evidente na postura do presidente Barack Obama desde o naufrágio da corveta sul-coreana “Cheonan”, no início do ano. Apesar de evidente, é pressuposto profundamente errado, que gerará respostas cada vez mais negativas, de um país que preza muito profundamente sua soberania.

Esse ponto já foi afirmado e reafirmado inúmeras vezes no Projeto de Documentação Internacional da Coreia do Norte (norte-americano), PDICN-EUA [ing. North Korea International Documentation Project (NKIDP-US)]. Dia 8/9/2010, em conferência no Woodrow Wilson Center em Washington, o coordenador do PDICN-EUA James Person voltou a afirmar esse ponto, comentando a evolução política da Coreia do Norte e a interpretação coreana da própria história.

A atmosfera política em Piongueangue mudou drasticamente desde o final da Guerra da Coreia. A começar pelo expurgo das facções pró-chineses e soviéticas nos anos 1950s, Kim Il-sung consolidou o culto à personalidade e reduziu todas as influências estrangeiras que pudessem afetar Piongueangue. Essa linha estritamente ultranacionalista é mantida pelo atual governo e não dá qualquer espaço, sequer para os chineses, para qualquer tipo de ação política. A evidência de que os chineses não têm qualquer grande influência sobre Piongueangue apareceu bem clara, quando Pequim só foi avisada com antecedência de vinte minutos, de que Piongueangue testaria sua primeira arma nuclear. Não é coisa que se faça com irmão “ligado por laços de sangue”.

Telegramas recém publicados por WikiLeaks evidenciam a influência praticamente nenhuma dos chineses sobre Piongueangue; mas os estrategistas políticos norte-americanos já deveriam saber disso há muito tempo. Em artigo para a History News Network dia 6/12/2010, o professor Mitch Lerner escreveu que a Coreia do Norte, historicamente, usa a política exterior para “manipular o povo e perpetuar o regime”, sem qualquer preocupação com os objetivos da política exterior de Pequim. Esse absoluto distanciamento entre aliados que deveriam ser unidos como “lábios e dentes” foi observado repetidas vezes pelos aliados comunistas da Coreia do Norte, ao longo da Guerra Fria. [1]

O isolamento autoimposto é consequência do modo como Kim Il-sung interpretou os acontecimentos da virada do século 19. Viu a relação de convergência entre a Dinastia Joseon (1392-1910) e a China Ming/Qing como principal causa da fragilidade da Coreia e da eventual anexação pelo Japão. A política exterior subsequente da Coreia do Norte, de manter alguma distância até dos seus principais aliados como China e União Soviética, é consistente com essa visão de mundo.

Fronteira entre as Coreias
Na mesma linha, o grau de assistência militar e diplomática dos EUA à Coreia do Sul, deslegitima a soberania da Coreia do Sul aos olhos de Piongueangue. Por isso precisamente a Coreia do Norte considera a Coreia do Sul um fantoche dos EUA e prefere manter contato bilateral com Washington, acima de qualquer diálogo intercoreano. Pela mesma razão, a Coreia do Norte não deseja que a China “represente” seu governo, como os EUA representam o governo da Coreia do Sul. Ignorar esses desejos só ajuda a criar impasses cada vez mais complicados.

Assim sendo, a estratégia de Washington, de usar a China como mediadora para alcançar resoluções políticas com a Coreia do Norte, é precisamente o que Piongueangue detesta, e estratégia contra a qual sempre reagirá. Em resumo, a política dos EUA hoje, de tratar a Coreia do Norte como estado-cliente ou como estado-fantoche dos chineses é essencialmente truncada, porque não considera os sentimentos nacionalistas em Piongueangue.

Império japonês pré IIa. Guerra Mundial
Outra das lentes pelas quais Washington interpreta Piongueangue é o pensamento estratégico do império japonês durante a Guerra do Pacífico. Ideologicamente, a Coreia do Norte é uma espécie de broto do império japonês. B R Myers introduziu esse argumento e destacou a autoimagem dos dois estados autocráticos, de defesa ingênua, quase infantil da própria “raça” e de uma “pureza” sempre ameaçada por forças estrangeiras. [2]

Mais pertinente, Victor Cha serviu-se de uma analogia com o império japonês às vésperas do ataque a Pearl Harbor, articulando-a à ameaça de ataque sempre iminente, que a Coreia do Norte impõe ao mundo com seu arsenal nuclear. [3]

Segundo Cha, assim como os japoneses escolheram atacar a frota norte-americana no Pacífico, quando se convenceram de que adiar a guerra seria desvantajoso para o Japão, são semelhantes as razões pelas quais a Coreia do Norte pode decidir atacar agora, ou a qualquer momento no futuro próximo, porque sabe que os padrões decadentes de seu equipamento militar, das competências da população e do potencial de sua economia estão sendo rapidamente superados.

Historiadores como Adam Tooze e Niall Ferguson popularizaram a metodologia de avaliar risco de guerra mediante análise econômica de custos-benefícios. Tooze, Ferguson e Cha concordam que nenhum Estado busca ativamente cometer suicídio, atacando irracionalmente inimigo superior; mas pode acontecer de um Estado ser arrastado a agir desse modo, por racionalidade econômica.

É análise lógica e razoável de como estados militantes agem se forçados a atacar o inimigo – e com certeza é análise mais racional do que crer que os chineses teriam forte influência sobre a Coreia do Norte.

Por outro lado, há vários elementos que enfraquecem essa analogia, no que tenha a ver com a Coreia do Norte. As realizações econômicas e militares da Coreia do Norte perderam importância se comparadas às da Coreia do Sul, e, isso, em tal proporção que torna implausível qualquer iniciativa militar de larga escala.

A Radio Free Asia noticiou que o bombardeio da ilha Yeonpyeong provocou pânico na Coreia do Norte, porque se temeu que os EUA retaliassem militarmente. Segundo o mesmo noticiário, o pânico causou uma corrida em busca de moeda estrangeira, que forçou para cima o preço dos alimentos, iniciando crise semelhante à que foi criada pela revalorização da moeda em dezembro de 2009. [4]

Se os norte-coreanos temessem perder sua vantagem relativa, teriam iniciado invasão em larga escala nos anos 1960s ou 1970s, antes de a economia sul-coreana ter sido revitalizada no governo de Park Chung-hee. Com o custo cada vez maior da barganha coercitiva, os norte-coreanos não jogam hoje um jogo estratégico de soma zero, semelhante ao que o império japonês jogou em 1941, mas jogo de sobrevivência, pós-crise de fome, de soma negativa.

A Coreia do Norte conta hoje com dois ativos militares importantes: a capacidade de neutralizar Seul, com a artilharia avançada; e o arsenal nuclear. Ataque semelhante ao feito contra Pearl Harbor, pelos norte-coreanos, envolverá um ou ambos desses ativos. Contudo, há dúvidas sobre se a Coreia do Norte teria seja o know-how seja o desejo de realmente utilizar essas vantagens militares.

Há dúvidas sobre se os dois sensacionais testes nucleares foram de fato bem-sucedidos. Observadores russos e norte-americanos da crise nuclear da Coreia do Norte comentaram a possibilidade de os dois testes terem sido simplesmente “encenados” [orig. fizzled]. Além disso, Piongueangue está muito longe de produzir efetivamente mísseis balísticos intercontinentais que possam transportar o necessário equipamento de detonação nuclear.

Mísseis da Coreia do Norte
Fica-se então só com o ataque direto de artilharia contra Seul como ativo militar estrategicamente relevante a favor da Coreia do Norte. Mas esse ataque seria uso inapropriado da força, se se consideram os objetivos da política exterior de Piongueangue. A Coreia do Norte em vários sentidos desistiu do objetivo inicial de unificar a península nos anos 1970s, quando a liderança da Coreia do Norte reconheceu o atraso econômico relativo do país, se comparado à Coreia do Sul. [5]

Desde então, as políticas de Piongueangue têm andado na direção de barganhas coercitivas que acrescentem legitimação ou a muito necessária assistência econômica ao governo. Atacar Seul criaria novos riscos contra o frágil equilíbrio que há hoje entre a urgente necessidade de subsídios e a guerra.

Em termos de confrontos recentes, o naufrágio da corveta “Cheonan” e o bombardeio contra a ilha Yeonpyeong revelaram fraquezas fatais nas defesas sul-coreanas; mas disso não se conclui que tenha aumentado a força contra a Coreia do Sul, porque o frágil estado norte-coreano não  suportará qualquer golpe físico.

Wada Haruki
Wada Haruki, especialista respeitado em questões da Coreia do Norte, descreveu a Coreia do Norte como “estado guerrilheiro”, considerando não só as origens do regime, mas o estado de ser de todo o país. A forma mental do que se entende por “guerrilha” transparece em todas as atitudes do regime, tanto nas atitudes que visam ao exterior quanto nas relacionadas à autoimagem. Esse traço do regime parece reforçar a imagem popular da Coreia do Norte como “estado bandido” [orig. “rogue state”], que não daria qualquer atenção às normas internacionais.

Além disso, a Coreia do Norte tem história de ter-se servido do terrorismo para alcançar objetivos de política exterior. Dentre os episódios mais conhecidos, cita-se o atentado contra o presidente sul-coreano Chun Doo-hwan e membros do seu Gabinete, em 1987, quando o voo 858 da Korean Airlines foi bombardeado.

Hoje, com a situação em Piongueangue mais desesperadora do que nunca, não seria plausível que a Coreia do Norte utilizasse ataques terroristas para forçar concessões da Coreia do Sul ou dos EUA? Ou, mesmo, que se aliasse a organizações terroristas como al-Qaeda e trabalhasse na direção de proliferar a tecnologia nuclear? [6]. O naufrágio da corveta “Cheonan” e o bombardeio contra a ilha Yeonpyeong serão indicadores de nova onda de terrorismo norte-coreano?

Nicolai Ceaucescu
Nada menos plausível que isso, hoje. Verdade é que vários estados, durante a Guerra Fria, serviram-se do terrorismo de Estado, e de organizações terroristas, para alcançar objetivos de política externa. Por exemplo, Nicolae Ceausescu da Romênia contratou Carlos, O Chacal, para explodir a rádio Free Europe; e a Stasi da Alemanha Oriental usou a seu serviço a facção Exército Vermelho.

Mas essas ações só foram possíveis no contexto da Guerra Fria, quando o impasse nuclear entre soviéticos e norte-americanos ameaçava com a guerra atômica, no caso de algum estado-cliente de qualquer das superpotências ser militarmente agredido. O ambiente pós-Guerra Fria já não favorece a aproximação ostensiva entre estados e terroristas.

A vantagem relativa que pesa definitivamente a favor das organizações terroristas é a mobilidade. Caso exemplar, o governo Talibã foi destituído no Afeganistão, mas seus militantes, e a al-Qaeda, permanecem até hoje sem conhecer derrota. O regime de Kim Jong-il não se pode converter em al-Qaeda, porque seu estado centralizado opera sob critérios de controle total no território e não se arriscará a provocar qualquer incidente que leve a retaliação militar.

Assim sendo, apesar da capacidade para executar ataques terroristas contra a Coreia do Sul, Piongueangue nada fez, nessa direção, desde o colapso do bloco comunista.

Até o comportamento coercitivo da Coreia do Norte é calculado e legitima-se na esfera das normas do estado e serve-se da retórica da soberania do estado. O regime nega qualquer responsabilidade no naufrágio da corveta “Cheonan” e alega que as bombas contra a ilha de Yeonpyeong foram resposta a provocações pela Coreia do Sul.

Além disso, Piongueangue já não aborda a tensa situação na península exclusivamente com os recursos da retórica ideológica da unificação sob bandeira socialista, mas fala da legitimidade da Linha Limite Norte [ing. Northern Limit Line (NLL)] e das atividades militares da Coreia do Sul no Mar Amarelo. O regime entende claramente o que a comunidade internacional considera aceitável ou não aceitável.

A probabilidade de a Coreia do Norte partilhar materiais nucleares com a al-Qaeda is também é mínima, porque a al-Qaeda tem praticamente nada a oferecer ao empobrecido último bastião de neo-stalinismo. Apesar da retórica dos “cem ataques de retaliação, por cada ataque sofrido” contra os EUA, Piongueangue precisa do ocidente desenvolvido (inclusive dos EUA e da Coreia do Sul, vizinhos primeiro-mundistas mais próximos) para substituir a União Soviética como fonte de auxílio financeiro e material.

al Qaeda
Atores que sejam estados párias, como a al-Qaeda, não têm meios para apoiar financeiramente a economia da Coreia do Norte. Além disso, matar quatro milhões de civis norte-americanos, como a al-Qaeda deseja fazer, seria devastador para a estratégia geral da Coreia do Norte, da barganha coercitiva para obter os necessários subsídios, sobretudo se Piongueangue for denunciada como apoiadora de terrorismo nuclear.

Por outro lado, a proliferação de material e tecnologia nucleares para Irã e Síria é perigo real, mas são perigos gerados, em parte considerável, pelas estratégias construídas por governos anteriores dos EUA, de simplificar demasiadamente e reunir estados profundamente diferentes em categorias arbitrárias.

É importante lembrar que as exportações de armas são questão de vida ou morte para a Coreia do Norte. São, hoje, uma das únicas fontes de divisas com que o regime conta. Se os EUA incentivarem a Coreia do Norte na direção de encontrar outras fontes de divisas, estarão agindo com muito mais eficácia na direção de impedir que Piongueangue considere a via da proliferação de armas nucleares.

Isso tudo posto, o que se aprende dessas analogias tão problemáticas? Em primeiro lugar, que a Coreia do Norte é estado sui generis. Ainda que essas analogias esclareçam alguns aspectos importantes do regime, mesmo assim são por demais incompletas e inadequadas, para oferecer fundamento confiável a qualquer efetiva avaliação de riscos.

Niall Ferguson
Como Niall Ferguson recomenda, as políticas devem partir de informação histórica e devem considerar os riscos que cada país enfrenta em termos de segurança nacional. Os pressupostos que regem a política exterior dos EUA para a Coreia do Norte são, quase sempre, distorcidos, do ponto de vista histórico; e superestimam – ou interpretam erradamente – o que Piongueangue representaria como ameaça. O governo Obama poderia começar por reconhecer essa insuficiência, e passar a tratar a Coreia do Norte como ela de fato é: caso único no mundo; e problema, portanto, a ser enfrentado com soluções específicas.

NOTAS

2. Myers, BR. The Cleanest Race.

3. Cha, Victor D and Kang, David C. Nuclear North Korea: A Debate on Engagement Strategies. New York: Columbia University Press, 2003.


5. Schaefer, Bernd. "Overconfidence Shattered: North Korean Reunification Policy, 1971-1975." NKIDP Working Paper #2 (2010).

6. Essa preocupação aparece explicitamente no documentário "Countdown to Zero" dirigido por Lucy Walker in 2010.