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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Soros e a CIA agora investem em Neves-neto tentando derrotar Rousseff


21/10/2014, [*] Wayne Madsen, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:  
O pré-sal na mira dos apoiadores de Aécio, 18/10/2014, GGN (trad. de Bloomberg)


Soros manipula políticos. Obama é exemplo.
Depois que manipuladores na imprensa-empresa brasileira, a CIA e empregados de George Soros tentaram inventar Marina Silva, candidata-de-Partido-Verde-convertida-em-socialista-repentina, para concorrer à presidência do Brasil, depois de um acidente aéreo clássico “de manual” da CIA, em que morreu o candidato do verdadeiro Partido Socialista, Eduardo Campos, todas essas mesmas forçar voltam a atacar, favorecendo agora o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Aécio Neves.

Embora Neves estivesse em 2º lugar, atrás só da atual presidenta brasileira Dilma Rousseff, antes do 1º turno das eleições de outubro, a comoção gerada pela morte de Campos e de vários de seus assessores, dia 13 de agosto de 2014, empurrou Neves para o 3º lugar nas pesquisas.

Depois de afastado Eduardo Campos, Marina Silva, favorita de Soros e de sua rede internacional de dinheiro para ONGs, foi então catapultada para o 2º lugar. Felizmente, graças ao trabalho de inúmeros jornalistas blogueiros investigativos, as conexões de Marina Silva com Soros e sua equipe de intervencionistas e magnatas operadores de hedge funds foram descobertas e expostas.

Com os eleitores brasileiros já cientes dos cordões de marionete que ligavam Marina Silva a Soros e a outros banqueiros brasileiros e globais, ela afinal apareceu em 3º lugar nas urnas, dia 5 de outubro de 2014, fora, portanto, do segundo turno eleitoral. Adiante, a mesma Marina “socialista” Silva, derrotada nas urnas, declarou apoio ao neoliberal Neves – segunda aposta de Soros para tentar assumir as rédeas do poder presidencial no Brasil.

O principal conselheiro econômico de Neves e o homem que seria ministro das Finanças numa eventual presidência de Neves é Armínio Fraga Neto. Amigo próximo e ex-sócio de Soros e de sua empresa Quantum, de hedge funds. Fraga conta com a presidência de Neves para abrir o Brasil às “forças de mercado”, as mesmas que declararam guerra econômica à Venezuela e estão tentando derrubar a Argentina servindo-se de amigos de Soros que comandam fundos-abutres em Wall Street. Fraga, freqüentador habitué do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, é também ex-empregado de Salomon Brothers e ex-presidente do Banco Central do Brasil. Fraga também é ligado a Goldman Sachs, através de uma corretora imobiliária em Manhattan.

Armínio Fraga e George Soros
Fraga é também membro do elitista Conselho de Relações Exteriores [orig. Council on Foreign Relations] e do Grupo dos 30 [orig. Group of 30], o que o põe no mesmo campo que outros vilões de Wall Street como Alan Greenspan, David Rockefeller, Jacob Frenkel, ex-presidente do Banco de Israel e o colunista Paul Krugman, apologista de Wall Street [e colunista da Folha de S.Paulo, onde no começo da semana em curso escreveu que “O que o mercado está dizendo, na verdade, é que o Fed está imprimindo dinheiro de menos” (sic)] e do ex-secretário da Fazenda dos EUA, Larry Summers.

A vitória fácil de Rousseff no primeiro turno das eleições de 5 de outubro de 2014 pôs em modo de propaganda frenética toda Wall Street e seus operadores-jornalistas no Brasil que fazem oposição aos planos de Rousseff de ampliar o banco de desenvolvimento  Banco dos BRICS) que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, para competir com o Banco Mundial.

Pesquisas muito questionáveis sugerem que Rousseff e Neves estariam correndo pescoço a pescoço (em “empate técnico”, como se diz no Brasil) agora que se aproxima o 2º turno das eleições, dia 26 de outubro de 2014. Mas esses resultados só são apresentados como confiáveis e rigorosos pelos sempre patéticos “estenógrafos” de Wall Street fantasiados de jornalistas, cujos textos enchem as páginas de The Wall Street Journal, Financial Times,Bloomberg News e Forbes.

Presidente Getúlio Vargas trabalhando...
O avô de Aécio Neves, Tancredo Neves [foi ministro da Justiça de Getúlio Vargas de junho de 1953 até o suicídio do presidente, tempos de extrema dificuldade; foi primeiro-ministro no final da ditadura; e] foi eleito presidente do Brasil dia 15/3/1985, em eleições ainda indiretas, depois de derrotada no Parlamento a campanha histórica pelas “Diretas Já”. Mas Tancredo foi eleito nas primeiras eleições que elegiam presidente civil, depois de já 20 anos de ditadura no Brasil. Na véspera de tomar posse, solenidade marcada para o dia 15/3/1985, Tancredo Neves caiu gravemente doente. Com a doença do presidente eleito, foi empossado o vice-presidente, bem mais conservador, José Sarney. Tancredo nunca se recuperou e morreu, ao que se sabe, de diverticulite, dia 21/4/1985. Depois se divulgou que Tancredo sofreria de um câncer não descoberto, senão depois de já se ter alastrado. Essa semana, dia 16 de outubro corrente (2014), na saída de um debate televisionado com o candidato Aécio Neves, a presidenta Dilma teve um ligeiro mal-estar, o que muito assustou muitos brasileiros, que lembraram do que acontecera a Tancredo Neves.

O que se sabe com certeza é que na CIA havia gente, além dos que sabiam preparar convenientes acidentes de avião, como os que mataram o primeiro-ministro português Francisco Sá Carneiro, o líder panamenho Omar Torrijos e o presidente do Equador Jaime Roldós, todos num período de seis meses, entre dezembro de 1980 e abril de 1981 [depois da eleição de Ronald Reagan à presidência dos EUA e da volta para dentro da CIA dos pistoleiros infames que haviam trabalhado para George H W Bush e William Casey], que servia na Divisão de Serviços Técnicos, que continuava a desenvolver armas químicas, inclusive agentes cancerígenos, para assassinar alvos políticos.

Néstor Kirchner e Hugo Chávez assassinados?
Em anos recentes, vários líderes latino-americanos foram atingidos ou por cânceres ou por ataques cardíacos. As duas vítimas mais notáveis foram os presidentes da Venezuela Hugo Chávez, e da Argentina, Nestor Kirchner. Noticiou-se que a esposa de Kirchner e atual presidenta da Argentina Cristina Fernandez de Kirchner teria um câncer na tireoide, o que adiante foi desmentido por seus porta-vozes. Mas uma “onda” de cânceres em diferentes graus atingiu vários outros líderes latino-americanos, como o ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo (que foi deposto por golpe arquitetado pela CIA); o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (depois de haver assinado um acordo de paz com o movimento guerrilheiro revolucionário das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, FARC); o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; e o recentemente re-eleito presidente da Bolívia, Evo Morales.

O presidente da Guiana, Forbes Burnham, morreu de câncer na garganta; e o presidente de Nauru, Bernard Dowiyogo, morreu de um ataque cardíaco fulminante, quando eram atendidos em hospitais em Washington. Muitas suspeitas cercaram essas duas mortes, acontecidas nos hospitais da Georgetown University e George Washington, respectivamente.

Sidney Gottlieb
O macabro cientista-chefe da CIA, o judeu húngaro Dr. Sidney Gottlieb, desenvolveu várias armas biológicas para o programa MK-ULTRA da CIA, durante os mais de 20 anos de serviços que prestou à agência. Uma delas foi uma toxina biológica metida no tubo de pasta de dentes a ser usado pelo primeiro-ministro do Congo, Patrice Lumumba; outra, um lenço contaminado com bactérias de botulismo, a ser oferecido ao líder iraquiano general Abdul Karim Kassem.

Mas o movimento de Aécio Neves distanciar-se das credenciais democráticas do avô, é manifestação de outro aspecto das operações da CIA para influenciar governos estrangeiros. Aécio Neves representa os interesses de Wall Street, o que se vê claramente pela presença de Fraga como conselheiro econômico. 

Os abutres de Wall Street, inclusive outros sócios de Soros e Fraga em New York, querem privatizar a empresa estatal de petróleo brasileira, Petrobras. Por isso, Aécio Neves foi imediatamente “encampado” pelos mesmos interesses financeiros globais que tentaram inventar Marina Silva para pô-la na presidência do Brasil. Com ela derrotada nas urnas, aquelas mesmas forças rapidamente se realinharam para tentar eleger o Neves-neto [desfrutável]. Para a CIA, o sangue não é mais espesso que a água. 

Mas tampouco parece fazer qualquer diferença, também aos olhos do Neves-neto, que haja alta probabilidade de a CIA ter tido parte ativa no assassinato de seu avô. Um filho de Omar Torrijos, Martin Torrijos, tornou-se presidente do Panamá, exclusivamente para assinar um acordo de livre-comércio pró-Wall Street entre seu país e Washington. Martin Torrijos também obedeceu festivamente as ordens dos banqueiros globais, para que aumentasse a idade mínima para aposentadorias no Panamá e reformasse toda a seguridade social. E esse Torrijos-filho também foi aliado íntimo do presidente George W. Bush, sem se incomodar com o fato de o Bush-pai, presidente George H W Bush, ter, muito provavelmente, autorizado a operação da CIA que assassinou o Torrijos-pai.

A líder asiática de oposição preferida de George Soros, Aung San Suu Kyi, tampouco parece incomodada pelo fato de amigos de Soros no Gabinete de Serviços Estratégicos/CIA terem ordenado à inteligência britânica que assassinassem o pai dela, Aung San.

Aung San Suu Kyi à frente do retrato de seu pai
Aung San, fundador do Partido Comunista da Birmânia foi escolhido para tornar-se o primeiro presidente de Burma independente, imediatamente depois da independência. Mas Aung San foi assassinado por terroristas a serviço do ex-primeiro ministro pró-Grã Bretanha, U Saw. As armas para os assassinos chegaram diretamente pelo capitão do exército britânico David Vivian, que conseguiu, com “ajuda” de alto nível dentro do governo de Burma, escapar de uma prisão local, em 1949.

O líder do Partido Liberal do Canadá Justin Trudeau, filho do ex-primeiro-ministro Pierre Elliott Trudeau, sempre agradou muito, ao contrário de seu pai, aos EUA, a Wall Street e à causa da globalização.

Justin Trudeau e Aécio Neves são claros exemplos de como águia da CIA opera tentando tomar debaixo da asa, para usar como seus instrumentos, filhos e netos de políticos populares importantes e representativos em todo o mundo, mas filhos e netos já esvaziados de qualquer conteúdo efetivamente histórico representativo de forças da maioria da população.

Dilma Rousseff vitoriosa!
As políticas da presidenta Rousseff criaram-lhe inimigos poderosos por trás das paredes da CIA em Langley, Virginia, e nas salas de reunião de Wall Street e das mais poderosas empresas do ocidente. No primeiro turno de 5 de outubro de 2014, a presidenta Rousseff conseguiu provar que pesquisas e “especialistas” erraram. Mas 26 de outubro de 2014 é outra eleição.

Dia 26 de outubro de 2014, o povo brasileiro votará pela própria vida.

Para os pobres do Brasil e para a emergente classe média, uma vitória de Neves destruirá os meios que afinal encontraram, para viver melhor, sim, mas também destruirá a própria vida que, afinal, conheceram, nos governos Lula-Dilma.
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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.

sábado, 29 de dezembro de 2012

China testa o “pivô” norte-americano


22/12/2012, Peter Lee, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao longo do ano que está acabando, a República Popular da China pela primeira vez teve contato próximo, direto, pessoa a pessoa, com o movimento de “pivô” dos EUA outra vez na direção da Ásia – o reequilibramento estratégico, que em tudo se parece com movimento de “contenção”.

China e fronteiras

A República Popular da China passou boa parte do ano em luta-livre contra vizinhos inamistosos, fortalecidos pela nova política dos EUA, como o Vietnã e as Filipinas; combatendo contra os esforços dos EUA, ativos em várias esferas de influência chinesa na península coreana e no sudeste asiático; e enfrentou um teste de força e firmeza contra o principal representante-procurador dos EUA na região, o Japão.

Tal estado de coisas foi enganosamente, embora previsivelmente, apresentado na imprensa ocidental em termos de “intransigência da China exacerba tensões regionais”, embora interpretação mais correta pareça ser: “rivais da China exacerbam tensões regionais para intimidar uma China assertiva”.

Seja qual for o contexto, 2012 foi o ano em que o mundo – especialmente o Japão – descobriu que a República Popular da China pode, sim, movimentar-se contra o “pivô”.

Bush Filho
Os anos de vacas gordas para “a China em ascensão” corresponderam aos anos do governo de George W Bush. Preocupado com desastres em cascata no Oriente Médio, déficit fiscal galopante, que exigia parceiro com apetite insaciável pelos papéis da dívida dos EUA e, depois, com o derretimento das economias norte-americana e mundial, Bush não teve estômago para mexer com a China.

A República Popular da China pegou a bola e correu com ela o quanto quis, até emergir com presença de superpotência no leste da Ásia; alcançou a África; estabeleceu-se como parceiro rico crucial para a União Europeia; e pôs abaixo os últimos bastiões da liderança ocidental no planeta pós 2ª Guerra Mundial: a grande política multinacional e suas instituições financeiras.

Obama
Alguma reviravolta era inevitável e foi cuidadosamente, aplicadamente, dedicadamente buscada, pelo governo Barack Obama.

Volta-se a ver também em cena a inefável autoestima norte-americana. Com a eleição e reeleição de um presidente negro, de origem social modesta, os EUA voltam a cobrar espaços, como se algum direito de nascimento no campo moral lhes garantisse privilégios, algo que bem se poderia supor que os EUA tivessem esquecido por mais de uma década depois do fracasso no Iraque, as trapalhadas que os EUA introduziram no sistema financeiro global e o rotundo fracasso na gestão da questão existencial da mudança climática.

Teria sido divertido, de modo meio macabro, verificar se a eleição de Mitt Romney à presidência deslancharia o mesmo discurso de êxtase neoliberal sobre as glórias da democracia norte-americana que se ouviu depois da reeleição do presidente Obama. Seja como for, o comicamente incompetente Romney não foi páreo para a popularidade, a inteligência e o incansável foco organizacional da arrogância de Obama e dos norte-americanos – ou, como Evan Olnos da revista New Yorker diria, em tom de elogio: “o carisma moral dos EUA” voltou ao palco.

Com os EUA firmemente de volta à sela da liderança, pelo menos no que tenha a ver com a gangue do comentariato dos assuntos externos, a China nada teria a mostrar ao mundo exceto as falhas e máculas de um sistema político e econômico autoritário; nada a ensinar, exceto aulas de como não fazer e do que não ser; e sem qualquer direito a participar de nenhum conselho mundial de líderes, exceto se aprovada pelo ocidente.

Essa atitude encaixa quase à perfeição com o aparente desdém que Obama sente pela República Popular da China, aquele regime sem brilho, inamistoso, sem graça, que reage exageradamente a qualquer ordem para engajar-se, gente que tem de ser forçada, pressionada e coagida a andar na direção preferencial dos objetivos preferenciais da humanidade. Sob a liderança do governo Obama, o ocidente decidiu cercar, conter, restringir a China, em vez de acomodá-la e acomodar-se a ela.

A China só será parceira bem-vinda na ordem mundial – pelo menos como o ocidente define a tal ordem – se democratizar-se, se desmantelar sua economia controlada pelo estado e se aderir aos padrões das instituições multinacionais, na busca do lugar dela na tal ordem. Estando esses objetivos absolutamente fora do radar e de qualquer consideração, no que tenha a ver com as atuais lideranças políticas chinesas, a única saída de curto prazo para o impasse, posto nesses termos, seria o colapso do regime chinês.

É aposta de alto risco. Se o regime chinês não entrar em colapso, a única coisa que cabe esperar para futuro previsível é hostilidade crescente, fervente, entre a República Popular da China e seus muitos antagonistas.

A China optou por evitar qualquer confronto direto com os EUA; e, em vez de confrontar os EUA, passou a explorar as fraquezas da cadeia de representantes e procuradores e aliados dos EUA, ao mesmo tempo em que protege os pontos fracos de seus próprios procuradores e aliados.

Ma Ying-jeou
A única vitória incontestável da República Popular da China no leste da Ásia em 2012 foi a reeleição de Ma Ying-jeou, do Kuomintang, para a presidência de Taiwan. O presidente Ma tem política de mínima fricção com a República Popular da China, bem diferente da tumultuada política pró-independência e pró-Japão do Partido Democrático Progressista. Em 2012, Ma deu um passo a mais. Em movimento que foi amplamente ignorado pela imprensa-empresa ocidental, porque complicava a narrativa segundo a qual todo o mal e todos os crimes concentram-se na República Popular da China, Ma despachou uma flotilha de navios oficiais e nada-oficiais para dar trabalho à guarda-costeira japonesa presente em torno das ilhas Senkaku/Diaoyu.

Além de Taiwan, um dos astros mais brilhantes do firmamento autoritário, hoje com tendências pró-China é a Coreia do Norte a qual, hoje, além de pró-China também é pró-reformas, sob o governo de Kim Jong-eun.

A República Popular da China continua a fazer o governo Obama pagar pelos desastrosos erros de cálculo em 2009, quando os EUA supuseram que os laços comerciais que ligavam a República Popular da China predominantemente à Coreia do Sul implicariam que Pequim abandonaria às traças a Coreia do Norte, depois do acontecido à fragata Cheonan (que foi posta a pique por forças até hoje desconhecidas, mas que muitos sempre creram que fossem norte-coreanas) e unir-se-ia aos EUA num cerco diplomático multilateral, movido a sanções, contra o regime de Piongueangue.

Nada disso. O falecido Kim Jung-il percebeu que seus prolongados esforços de ópera bufa para engajar-se com os EUA eram vãos; meteu-se pois no seu trem blindado e viajou à China, onde foi recebido nos braços hospitaleiros de Hu Jintao.

Na outra coluna do livro-caixa, Myanmar ameaçou deslizar para fora do campo chinês, com a decisão governamental de “reequilibrar” sua política exterior, afastando-se da China e aproximando-se dos EUA, e obter uma acomodação com as forças pró-democracia. As indispensáveis demonstrações de empenho pró-democracia e pró-ocidente, vindas do governo de Thein Sein, foram:

Aung San Suu Kyi 
1.      libertar da prisão domiciliar a ativista Aung San Suu Kyi e admitir que voltasse à vida pública; e
2.     adiar o projeto da hidrelétrica Myitsone.

O projeto Myitsone era domesticamente impopular, porque financiado pela República Popular da China e adotado como símbolo de que os interesses de Myanmar estavam sendo vendidos à China por generais corruptos. Adiar Myitsone virou ação de alta popularidade, porque levantava a possibilidade de bloquear o desenvolvimento do potencial hidrelétrico financiado pelos chineses e, em vez de ajudar a China, permitia que interesses ocidentais, distantes há anos da economia de Myanmar por força de sanções, reorientassem a exportação de energia hidrelétrica, afastando-se da China e aproximando-se da Tailândia.

A República Popular da China respondeu com cautela à mudança em Myanmar, consolando-se, parece, com continuar a dominar a economia, o comércio exterior e a política de segurança de Myanmar graças à longa e muito porosa fronteira que os dois países compartilham.

Ao que parece, elites políticas de Myanmar, inclusive Aung San Suu Kyi, resolveram que uma jihad econômica anti-China seria contraproducente, e a República Popular da China tem boas razões para esperar que, aumentando as apostas no seu jogo de Relações Públicas, distribuindo dinheiro entre cidadãos desonestos dentro e fora da política (e, talvez, renegociando discretamente alguns dos termos excessivamente favoráveis em acordos de pai-para-filho com a Junta de Myanmar), conseguirá navegar com sucesso pelos hoje perigosos atoleiros da política multipartidária em Myanmar (onde um sempre tradicional populismo antichinês converteu-se em ferramenta inevitável de mobilização política e popular).

Sinal de que os EUA esperavam pôr na roda também Laos e Camboja, a secretária de Estado, Hillary Clinton fez rara visita a Vientiane, capital do Laos, antes da aparição em Phnom Penh para um convescote da Associação das Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)]. Os resultados foram complexos, dado que o Camboja defendeu lealmente a República Popular da China contra a tentativa de criar uma frente unida da ASEAN contra a China no item relativo a uma iniciativa de mediação no Mar do Sul da China que estava na agenda.

Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)
Os desejos cambojanos e laosenses de distanciarem-se da grande perturbação asiática, a República Popular da China, são talvez contrabalançados pelo desejo de manter ao largo a grande perturbação do sudeste asiático, o Vietnã. Quanto ao Vietnã, já aprendeu que, no que tenha a ver com EUA, a China não é o Irã e o Vietnã não é Israel – não, pelo menos, por hora, e bem possivelmente, jamais serão.

Apesar de os EUA terem falado em apoio à liberdade de navegação no Mar do Sul da China e a uma frente unida multilateral para negócios com a República Popular da China, os EUA evitaram “assumir lado em disputas territoriais” – a única disputa que mobiliza as nações que cercam o Mar do Sul da China, uma vez que “a ameaça chinesa à liberdade de navegação na área” pouco ultrapassa o plano da pura conversa fiada e nonsense.

Mar do Sul da China
Com a baixa probabilidade de a 7ª Frota dos EUA deslizar para o Mar do Sul da China e pôr a pique todos os navios chineses, como adjuntos da Marinha Vietnamita, o Vietnã parece ter aprendido, da ferocidade chinesa contra o Japão, a lição segundo a qual os custos de disputar o papel de estado-líder na aliança anti-China podem ultrapassar, em muito, os benefícios.

A grande história no campo da segurança no leste da Ásia esse ano foi a decisão da República Popular da China de acicatar o Japão, ostensivamente por causa do fetiche tolo chamado Ilhas Senkaku/Diaoyu, mas, de fato, por causa da decisão tomada por Tóquio, de dar apoio moral e material ao tal movimento de “pivô” dos EUA – o que o Japão fez, ao reacender a questão das tais detonadíssimas ilhas (tailandesas).

Seiji Maehara
Em 2010, a China tomou a desastrosa decisão diplomática de retaliar oficialmente contra uma provocação japonesa – a insistência de Seiji Maehara em processar um comandante de pesqueiro chinês, em cortes japonesas, por uma infração em águas próximas das Senkakus. Um movimento relativamente ponderado e limitado, de enviar uma mensagem ao Japão, mediante movimento de segurar o esforço exportador no semimundo nebuloso das terras raras, converteu-se em cause celèbre anti-China, oportunidade para o Japão fazer promoção dos EUA no campo dos assuntos de segurança marítima no leste asiático; e convite a outros vizinhos da China para que se ponham a ocupar ilhas, na tentativa de provocar mais alguma super-reação contraproducente de Pequim.

Em 2012, a República Popular da China estava pronta, provavelmente ansiando ardentemente, por uma luta, avaliando as possibilidades, até quando o governo de Yoshihiko Noda canhestramente tentou explorar a questão Senkaku e saltou à frente do governador de Tóquio e ultranacionalista, Shintaro Ishihara, para comprar três das ilhas. 

Yoshihiko Noda
Dessa vez, a retaliação chinesa veio sob vestes diplomáticas e respeitáveis: cruéis ataques contra interesses econômicos do Japão dentro da China. A campanha de 2012 causou mais danos ao Japão que a campanha de 2010, que fora concebida como flechada simbólica contra o arco de Japan Inc. A economia japonesa já não ia muito bem mesmo antes de os protestos de 2012 sobre Senkaku devastarem as vendas de carros japoneses e, sobretudo, o investimento japonês na China – o que faz crescer a possibilidade de a China desfechar golpe mortal, não simples mensagem de irritação, contra o Japão.

Os vastos esforços dos EUA para refocalizar as prioridades econômicas asiáticas e para oferecer vantagens materiais a países que, como o Japão, alinhem-se contra a República Popular da China – na Parceria Trans-Pacífico-sem-China – enfrentam hoje muitas dificuldades para avançar, com as economias alinhando-se, isso sim, a favor da possibilidade de que a China, não os EUA (que já mais parece concorrente exportador, que motor da demanda, para os tigres asiáticos) venha a ser o motor do crescimento da Ásia no século 21.

Parece, isso sim, que o “pivô” dos EUA na direção da Ásia será guerra de atrito cara, dificílima, a ser combatida em vários fronts –, cabendo ao Japão arcar com os danos principais; nada sugere que possa haver triunfo rápido para qualquer dos lados.

Digamos que 2012 acabou empatado. E houve empate, também no resto do mundo.

O governo da Índia parece sentir que a cordilheira do Himalaia assegura adequada terra-de-ninguém entre a República Popular da China e a Índia; e vai abrindo uma trilha cuidadosa, entre China e EUA.

Vladimir Putin
Com a reeleição do presidente Vladimir Putin e a volta de uma declaração mais cara-a-cara das prerrogativas da Rússia no confronto com os EUA, é menos provável que a Rússia favoreça os EUA à custa da China, do que foi ao tempo de Dmitry Medvedev.

Por outro lado, a União Europeia, premiada com o Nobel da Disfunção Patético-Trôpega, digo, o Nobel da Paz, pendura-se desesperadamente aos EUA em quase todas as questões geopolíticas, inclusive na declarada aversão às políticas comerciais chinesas; e na obsessão com segurança e com abusos de direitos humanos. Resta ver se tal nobre determinação será recompensada com alguma recuperação nas economias ocidentais, ou se, adiante, a Europa precisará de um resgate chinês.

A arena mais interessante e mais reveladora da competição-cooperação EUA-China é das menos esperadas ou prováveis: o Oriente Médio. A República Popular da China, pelo que se pode ver, está tentando um movimento de “pivô” chinês, e alavanca, para ascender ao topo da lista, a sua posição de principal comprador de energia do Oriente Médio, simultaneamente, da Arábia Saudita e do Irã.

Com os EUA aproximando-se da autossuficiência nacional, ou, pelo menos, continental, graças à extração doméstica e ao consumo das areias betuminosas [orig. tar sands] do Canadá – e ostensivamente se pivoteando para a Ásia – parece prudente e sábio dar boas vindas às pretensões chinesas de liderança no Oriente Médio.

A República Popular Chinesa tem portfólio não irracional de posições no Oriente Médio: fala, pelo menos, a favor das aspirações dos palestinos; aceita o direito de Israel existir e prosperar; aceita um regime de segurança nacional baseado em desenvolvimento econômico, não em guerra total entre os blocos sunita e xiita; aceita acomodação com regimes do Levante Islâmico, para uns; ou Primavera Árabe, para outros (desde que se disponham a fazer negócios); tende a preferir muita estabilidade, à moda dos emires, a muita democracia; e exige o fim da imbecilidade em torno do Irã “nuclear”.

Quanto ao banho de sangue na Síria, a República Popular da China tem consistentemente promovido uma solução que envolva algum grau de divisão de poder entre Assad e a oposição. Os EUA, nostálgicos talvez dos 30 anos de assassinatos que patrocinaram no Oriente Médio, e perversamente dispostos a não apressar o fim do banho de sangue, recusaram-se a admitir que a China tivesse qualquer outra função nas negociações, além da de marginal impotente.

A Síria, especialmente, é símbolo da abordagem vá-tomar-no-cu, que os EUA sempre prestigiaram, no que tenha a ver com segurança do Oriente Médio.

Washington goza, desfalece de prazer, vendo a Síria ser reduzida a ruínas, desde que – com a extinção da Síria – Irã, Rússia e China percam um aliado na região.

A mensagem chinesa parece ser: os EUA que se “pivoteiem” para a Ásia, e que ameacem destruir um regime de estabilidade e segurança que gerou paz e prosperidade que a região, antes, jamais conheceu; em nenhum caso a República Popular da China se envolverá do pântano do Oriente Médio, apesar de – ou, melhor dito, porque – aquela região é crucialmente vital para a segurança energética e econômica da China.

Tio Sam
Essa dinâmica empurra a China para ganhar musculatura militar, projetar poder e reforçar suas competências, suas habilidades, para controlar o destino de sua própria segurança em todo o hemisfério.

A provável resposta chinesa não será pôr-se a ameaçar atores regionais para abalar Tio Sam, o qual tem interesse mais esportivo do que existencial em manter ocultas várias coisas na Ásia.

Até hoje, o governo Obama ainda não se manifestou sobre o jogo de gato e rato que a China está impondo ao Japão – acovardado ante a economia global. Mandar a 7ª Frota velejar pelo Pacífico ocidental à procura de náufragos de tsunamis e tufões e de piratas esfarrapados pouco ajudará o Japão.

Se o Japão decidir assumir o controle do próprio destino de segurança, dando as costas à Constituição pacifista, construindo para si uma posição de potência militar independente, e convertendo sua plena capacidade para construir armas atômicas em arsenal nuclear real – o que levará a Coreia do Sul a também se nuclearizar – nesse caso o tão afamado ‘'pivô'’ arrastará, em mortal espiral descendente, toda a influência e toda a credibilidade dos EUA na região.

Se acontecer, 2012 será lembrado como o ano em que tudo começou a fazer sentido. 

sábado, 24 de novembro de 2012

A democracia à maneira dos EUA não é solução para questões étnicas


21/11/2012, Ding Gang, Global Times, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





Ding Gang, editor-chefe, People’s Daily, de Bangkok
Recebe e-mails em dinggang@globaltimes.com.cn






Os presidentes dos EUA não sabem falar com modéstia sobre a democracia dos EUA, nem são capazes de ver que é processo específico dos EUA. O presidente Barack Obama não traz qualquer novidade a essa constatação geral.

Em sua mais recente viagem à Tailândia, Obama voltou a dizer, da democracia dos EUA, que:

Obama e o "pacote de democracia"
Funcionou para nós por mais de 200 anos, e acho que funcionará para a Tailândia e funcionará para toda essa região. E a alternativa, penso eu, é uma falsa esperança; com o tempo, entrará em erosão e colapso, sob o peso de povos cujas aspirações não estão sendo atendidas.

Mas a verdade é que não há remédios mágicos. A declaração de Obama soou como a declaração antiterrorismo do presidente George W. Bush, há uma década, para o qual seria “conosco ou contra nós”.

Apesar de a democracia dos EUA ser apresentada como único remédio possível para todos os problemas de reformas e desenvolvimento, e como linha que divide o mundo, o valor da democracia dos EUA é, de fato, muito reduzido.

Países da ASEAN - Associação dos Países do Sudeste Asiático
O que países do sudeste asiático, como Tailândia e Myanmar, mais precisam nesse momento não é, de modo algum, decidir se adotam a democracia, ou outra via. O que mais precisam é encontrar uma via que melhor sirva à atual situação nacional, e construir um “contrato social” com o qual todos os grupos étnicos e sociais concordem e que aceitem. Esse, fundamentalmente, é problema de sistema e cultura, não é problema eleitoral.

Durante o ano passado, visitei oito países do sudeste asiático, todos eles com problemas de integração étnica. A questão principal é a integração dos muçulmanos com budistas e outros grupos étnicos. Até aqui, não vi um único país da Associação dos Países do Sudeste Asiático [orig. ASEAN countries] que tenha, de modo adequado e amplo, resolvido esse problema.

Aung San Suu Kyi
Todos esses países praticam sistemas multipartidários e sistemas eleitorais de “uma pessoa, um voto”. Myanmar está atrasado nesse processo, e o Parlamento ali ainda é controlado pelos militares, mas, afinal, o partido da oposição liderado por Aung San Suu Kyi chegou ao Congresso.

Mas conseguir que os budistas aceitem com tolerância o povo Rohingya e permitam que os Rohingyas participem na vida democrática em Myanmar não é problema que possa ser resolvido em eleições.

O único resultado que advirá de imporem-se eleições democráticas em país dividido em grupos étnicos é o de sempre: um dos grupos étnicos, que tenha maior população, chegará ao poder – e isso só fará exacerbarem-se as tensões e as divisões étnicas.

E há também outras lições a aprender no sudeste asiático.

Com vistas a seduzir eleitores, alguns instigam propositadamente os conflitos entre diferentes níveis sociais e grupos étnicos e até substituem a lei civil por regras religiosas, para bloquear outros grupos étnicos.

Os EUA é país de imigrantes, com os cristãos hoje como grupo social majoritário. Seus valores básicos e seu sistema político foram estabelecidos sobre a base da civilização europeia. Como o lema impresso no brasão dos EUA diz, “E pluribus unum” – que significa, literalmente, “De todos, [faz-se] um”.

Temos de ter extremo cuidado na aplicação do modelo dos EUA ao Oriente, sobretudo no sudeste da Ásia, para onde convergem as duas maiores religiões do mundo, o Islã e o Budismo.

Há um sentido de urgência, na ênfase que Obama dá aos efeitos da democracia dos EUA. O poder de influência dos EUA já declinou tanto, que o presidente dá sinais de nervosismo.

Até as pessoas mais simples sabem ver o que se passa. A Associated Press, em matéria recente, noticiou que:

Obama, sem sapatos, andando de meias por um templo no coração de Bangkok, recebeu de um monge votos de boa-sorte, na difícil negociação para reduzir o déficit que o espera em Washington.