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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Barack Obama, Estado Islâmico e guerra sem fim

3/10/2014, [*] Flynt Leverett e Hillary Mann LeverettInformation Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
O presidente Obama continua – pelo menos por enquanto – a resistir contra o envio de grande número de soldados dos EUA para combater no solo o Estado Islâmico, mas os componentes militares da estratégia anti-Estado Islâmico que ele traçou novamente estão comprometendo os EUA no modelo de guerra sem fim no Oriente Médio criado depois do 11/9. No fim, essa abordagem só pode aumentar o dano que já causou à posição estratégica dos EUA, gravemente abalada no Oriente Médio pelas malsucedidas aventuras militares em que o país meteu-se depois de 11/9/2001.

13 anos depois do fato, as elites políticas e os encastelados no governo dos EUA ainda não conseguiram perceber exatamente a lógica estratégica que motivou os ataques do 11/9 contra os EUA. Claro que a al-Qaeda também tinha interesse em atacar a economia dos EUA e em castigar o povo norte-americano. Mas Osama bin Laden sabia que os efeitos de movimentos naquela direção teriam efeitos apenas temporários e, assim, de valor estratégico limitado; nunca teve ilusões de que os ataques conseguiriam destruir o “modo de viver norte-americano”.

O real objetivo dos ataques do 11/9 foi desencadear reação excessiva dos EUA: levar Washington a lançar campanhas militares prolongadas contra terras muçulmanas. Essas campanhas galvanizariam o sentimento popular contra os EUA em todo o mundo muçulmano, mobilizariam os públicos em todo o Oriente Médio contra governos regionais (como o que reina na Arábia Saudita, terra natal de bin Laden) que cooperem politicamente e militarmente com os EUA, e mobilizariam as populações a favor de combatentes jihadistas que resistem contra a dominação pelos EUA. Com olhos no futuro, o líder da al-Qaeda soube antecipar que a reação local viria, contra a reação excessiva dos EUA a uma provocação, e que aquela reação local a uma provocação terrorista acabaria por minar realmente os fundamentos regionais da capacidade de os EUA deslocarem força militar massiva para o Oriente Médio; e que forçaria os EUA a desengajar-se da região e voltar para casa.

Vistas as coisas por essa perspectiva, os EUA caíram com espantosa pressa, nesses planos de bin Laden. As invasões norte-americanas pós-9/11 cum campanhas para mudança forçada de regimes no Afeganistão, Iraque e Líbia foram fracassos estratégicos que deixaram os EUA ainda mais fracos que antes – em termos da sua capacidade para alcançar objetivos definidos no Oriente Médio, da posição econômica e como principal superpotência mundial.

O resultado mais importante do fracasso de todas essas campanhas, foi que mataram, esquartejaram e evisceraram o que a maioria da população que vive no Oriente Médio ainda percebia como legitimidade dos objetivos dos EUA naquela região. Resultado disso, a “guerra ao terror” que os EUA autodeclararam garantiu que a ameaça que o extremismo  jihadista violento impunha aos interesses dos EUA se ampliasse, em termos de base local; se complicasse muito e se tornasse mais perigosa, hoje, do que foi há 13 anos.


Fazendo sempre a mesma coisa...

Agora, em resposta ao crescimento dramático do Estado Islâmico, o governo Obama já quer outra vez meter-se pela via já gasta e colossalmente autodestruidora das reações estratégicas excessivas. A estratégia do governo para lidar com o Estado Islâmico é perfeito caso exemplar, do que Einstein (mas é definição apócrifa) definiu como “insanidade” – “repetir sempre a mesma coisa, outra vez, outra vez, outra vez, e sempre esperando resultado diferente”. Porque absolutamente não há base racional para supor que os EUA obterão resultado diferente – e pressuposto melhor! – dessa vez.

Isso torna a campanha militar de 2014 contra o Estado Islâmico exemplo perfeito da “guerra idiota” à qual, ainda candidato em 2008, Obama prometeu aos eleitores nos EUA que se oporia.

O presidente Obama pode declarar quantas vezes quiser que o Estado Islâmico não é islâmico – mas fato é que o movimento inicia sua luta contra os EUA com extraordinário nível de apoio das populações sunitas muçulmanas. Em julho de 2014 – quer dizer, antes de os EUA começarem a atual campanha de ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico no Iraque – pesquisa distribuída pelo jornal pan-árabe Al Hayat (que pertence aos sauditas) mostrou que 92% dos sauditas entendiam que o Estado Islâmico “está conforme os valores do Islã e da lei islâmica”. Na Jordânia e no Kuwait, postados do Estado Islâmicos pela empresa Facebook receberam dezenas de milhares de “curtir” em apenas poucas horas; postados pela empresa Twitter e outras empresas de mídias sociais sugerem que há considerável reserva de apoio popular ao Estado Islâmico entre jordanianos, kuwaitianos, sauditas e outras populações árabes. Arábia Saudita e Jordânia geraram grandes contingentes de jovens adultos, que abandonaram os países natais para se alistarem ao lado do Estado Islâmico, que arrasta guerreiros para o que consideram guerra santa, em todo o mundo sunita.

Nessas condições, a ação militar dos EUA contra o Estado Islâmico só jogará, mais uma vez, a favor da grande estratégia dos jihadistas: arrastar “cruzados” (o ocidente, corporificado, para eles, nos EUA) e “infiéis” (xiitas) para a batalha pressuposta santa dos sunitas – o que fará condensar-se o apoio que o Estado Islâmico recebe em todo o mundo sunita.

Longe de conter as provocações do Estado Islâmico, os ataques aéreos dos EUA só incentivarão o grupo a mais e maiores provocações. O movimento não executou nenhum dos jornalistas norte-americanos que já tinha como reféns (por bem mais de um ano, em alguns casos), senão depois que os EUA começaram os bombardeios em agosto. Naquele mês, o Estado Islâmico degolou o jornalista James Foley para atrair atenção mundial, o que conseguiu amplamente, com a publicação de um vídeo por YouTube. O grupo dizia ao mundo que, se as forças militares dos EUA continuassem com os bombardeios, outro prisioneiro seria executado, Steven Sotloff. Claro que o bombardeio continuou; no início de setembro, como ameaçara fazer, o Estado Islâmico degolou Sotloff e, outra vez, atraiu audiência mundial com divulgação de novo vídeo.

Execuções de James Foley (E) e Steven Sotloff
As terríveis execuções dispararam muita indignação entre as elites e geraram apoio suficiente na opinião pública nos EUA para que o governo Obama pudesse ampliar a ação militar dos EUA contra o Estado Islâmico. Mas uma das consequências mais altamente previsíveis de os EUA não terem apenas ampliado a campanha de ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque, mas de a terem expandido também para a Síria (como o presidente Obama parece decidido a fazer) será mais e mais provocações como a degola de Foley e Sotloff.

De fato, o Estado Islâmico só faz dar andamento à estratégia da qual bin Laden foi pioneiro há 13 anos: provocar Washington para que escale as operações militares dos EUA no Iraque e Síria. Ação militar sustentada dos EUA contra o Estado Islâmico, ainda que fique confinada ao que Obama chama de “campanha sistemática de ataques aéreos contra aqueles terroristas” – com certeza contribuirá para dar mais prestígio ao Estado Islâmico aos olhos do povo e ampliar a resistência contra os continuados esforços dos EUA para dominar o mundo muçulmano. Não apenas fará aumentar o já considerável apoio popular ao Estado Islâmico no mundo muçulmano; também minará ainda mais a posição estratégica dos EUA no Oriente Médio, já tão enfraquecida.

…outra vez, outra vez, outra vez

Assim também a ideia de Obama de dar “apoio em solo às forças que estão combatendo aqueles terroristas” porá os EUA na posição surreal de pretender combater a ameaça dos combatentes jihadistas, pagando, armando e treinando... mais combatentes jihadistas.

A ideia é que haveria alguma oposição síria moderada com suficiente potencial militar e – mais importante – com apoio popular dentro da Síria suficiente para derrubar o governo do presidente Assad não passa de mito. Pretender, além do mais, que esses oposicionistas moderados míticos poderiam enfrentar e derrotar o Estado Islâmico, isso, já beira a mentira e a desonestidade flagrantes ou é sintoma de perigoso descolamento da realidade.

Para ter alguma mínima chance de efetivamente lidar com o Estado Islâmico, Washington precisa, antes, reconhecer que as premissas de sua política para a Síria são erradas – que Assad teria perdido o apoio da maioria dos sírios; e que poderia ser derrubado por oposicionistas apoiados por estrangeiros. Teria também de reconhecer que pôr fim à insurgência anti-Assad é essencial para minar a base do Estado Islâmico no nordeste da Síria. Grupos da oposição síria que um dia foram seculares e moderados já estão hoje quase completamente infiltrados por militantes islamistas.

A Casa Branca está, para dizer o mínimo dançando sob o fogo de notícias de que elementos de um dos grupos supostamente “moderados” e seculares da oposição síria ao qual o governo Obama quer agora entregar centenas de milhões de dólares em mais ajuda militar e financeira vendeu Steven Sotloff aos militantes do Estado Islâmico que depois o executariam. Essas notícias chamam a atenção para um grande problema da estratégia de Obama: a principal coisa que acontecerá, se se aumentar o apoio dos EUA a oposicionistas sírios “moderados”, é que se abrirão mais canais pelos quais o Estado Islâmico poderá obter do Ocidente ainda mais armas e equipamentos militares do que já tem.

Jihadistas do Estado Islâmico no deserto do Iraque

O que falta: uma verdadeira estratégia regional

Quando se veem as premissas erradas sobre as quais o governo Obama apoia sua política para a Síria, vê-se outra contradição debilitante que há no coração da estratégia declarada para deter e, na sequência, desmantelar o Estado Islâmico. Essa contradição brota da distância que separa a retórica dos EUA sobre uma estratégia regional para enfrentar o Estado Islâmico e o que a diplomacia regional dos EUA está realmente fazendo.

É claro que tem de haver uma estratégia regional para lidar com o Estado Islâmico. Obama e seus principais assessores só fazem dizer e repetir que tem de haver. Mas a noção deles do que seja uma estratégia regional só considera regimes sunitas autoritários não representativos, que dependem de Washington para a própria segurança – a saber, Arábia Saudita, os demais membros do Conselho de Cooperação do Golfo, Egito e Jordânia. Esses governos, ao prover vários tipos de apoio aos militantes sunitas no Iraque e na Síria, facilitaram, na verdade, a extraordinária ascensão do Estado Islâmico. Não há como esse tipo de “estratégia regional” vir a contribuir significativamente para deter e, na sequência, desmantelar o Estado Islâmico.

Uma verdadeira estratégia regional contra o Estado Islâmico teria necessariamente de incluir Rússia, Irã e o governo de Assad na Síria – em posições de destaque. Porque esses são atores essenciais em qualquer esforço sério para enfrentar e superar o desafio multifacetado que o Estado Islâmico está impondo. Mesmo assim, altos funcionários do governo Obama descartaram a ideia de trabalhar com os governos do Irã ou da Síria, e o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, reclama que o diálogo de Washington com Moscou sobre o Estado Islâmico – se puder ser mesmo chamado “diálogo” – é muito mais pro formaque substantivo.

A estratégia de Obama para o Estado Islâmico é calamitoso testemunho do pouco que o governo Obama fez – ou que, no segundo mandato, pretende ainda fazer – para desafiar as ortodoxias da política exterior contra as quais Obama construiu sua campanha eleitoral e motivo pelo qual foi eleito para o primeiro mandato. Mostra também o muito que vários governos norte-americanos fizeram ou deixaram fazer na direção de enfraquecer e desmoralizar a posição dos EUA, em duas décadas e meia, desde que os EUA saíram da Guerra Fria como o estado mais poderoso em toda a história.
___________________

[*] Flynt Leverett e Hillary Mann Leverett são autores de  Going to Tehran: America Must Accept the Islamic Republic of Iran  (New York: Metropolitan, 2013), que acaba de sair em brochura, com novo pósfácio. Ambos tiveram carreiras importantes no governo dos EUA, antes de abandonarem os cargos que tinham no Conselho de Segurança Nacional, em março de 2003, por não concordarem com a política para o Oriente Médio e a “guerra ao terror”. Atualmente Flynt Leverett é professor da Escola de Assuntos Internacionais da Pennsylvania State University e professor convidado da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, China. Hillary Mann Leverett é conferencista da American University em Washington e professora visitante da Universidade de Pequim, China. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sanções desgastam a influência dos EUA no mundo inteiro

6/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Flynt Leverett e Hillary Mann Leverett
Há alguns dias os Leveretts analisaram os efeitos de sanções financeiras dos EUA e vários outros modos pelos quais os EUA irritam grandes países. Para aqueles professores, o caminho atual da política exterior dos EUA consumirá a hegemonia do dólar norte-americano e levará à destruição do “privilégio extraordinário” (de Gaulle) de que os EUA gozaram com a competência para imprimir a moeda de reserva do planeta. O desgaste político do dólar será sentido nos mercados de commodities e especialmente nos negócios de energia o que, por sua vez, gerará efeitos nas relações internacionais [Cresce o Petroyuan (e a lenta erosão da hegemonia do dólar norte-americano) redecastorphoto, traduzido]:

Olhando à frente, o uso do renminbi para pagar por compras internacionais de petróleo e gás com certeza aumentará, o que fará declinar mais rapidamente a influência dos EUA em regiões chaves da produção de energia. Marginalmente, o mesmo processo irá tornando mais difícil para Washington financiar o que China e outras potências emergentes veem como políticas abertamente intervencionistas – perspectiva que a classe política nos EUA ainda sequer começou a ponderar com seriedade.

Infelizmente, poucos ouvirão o que dizem os Leveretts. Mas agora Bloomberg aparece com o mesmo tema (Russia Sanctions Accelerate Risk to Dollar Dominance)

Embora ninguém esteja sugerindo que o dólar perderá seu status de principal moeda de comercial a qualquer instante, o seu status dominante já periclita. A fatia de dólares nas reservas globais já encolheu para menos de 61%, bem abaixo dos mais de 72% em 2001. Os sinais tornaram-se mais audíveis depois da crise financeira em 2008, evento que começou quando explodiu a bolha dos empréstimos podres para hipotecas de residências, e grandes nações dentre os mercados emergentes, inclusive a Rússia, passaram a conduzir mais negócios em suas próprias moedas.

“A crise levou a repensar o mundo denominado em dólar em que vivemos” – disse Joseph Quinlan, chefe estrategista de mercado do Fundo EUA do Bank of America, que administra cerca de $380 bilhões. “Esse desagradável evento entre a Rússia e o ocidente por causa de sanções, pode ser um acelerador na direção de um mundo multi-moedas”.

Yuan e o dólar norte-americano
Há uns cinco anos, nós já observávamos esse declínio do dólar norte-americano como moeda de reserva e seus efeitos:

Por muito tempo os EUA puderam tomar emprestado barato e pagar ainda menos em valor real, que o empréstimo original. Aquele privilégio agora está acabando. Os trilhões de que os EUA atualmente têm de tomar emprestados no exterior terão de ser integralmente pagos. Essa é mudança muito grande no status de potência global dos EUA, e fará reduzir seriamente a influência dos EUA em questões políticas internacionais.

A União Europeia, que tão estupidamente acrescentou sanções suas às sanções norte-americanas contra a Rússia, também está se autoagredindo:

Interdependência financeira é poderosa oportunidade para diplomacia coerciva.
Mas a mensagem não planejada que os líderes europeus enviam é que a interdependência financeira é fonte de vulnerabilidade, que países como a Rússia, mas também China, Irã e outros, bem farão se evitarem.
...
As sanções financeiras da Europa contra a Rússia também acrescentam incentivos para que os países cuidem de criar arranjos que reduzam a interdependência financeira.

Sobretudo, aqueles incentivos só aumentarão, se as sanções forem bem-sucedidas. Ainda que a Europa encoraje o governo russo a mudar sua política para a Ucrânia, o governo russo responderá, no longo prazo, sempre procurando arranjos financeiros que o deixem menos exposto a tal coerção.

Será?
Decorrerão anos até que o dólar perca seu status de moeda de reserva, mas o declínio já é visível. Mais e mais negócios estão sendo feitos em condições de bilateralidade entre parceiros e nas respectivas moedas, e pagos por fora dos canais financeiros que os EUA tentam sancionar, bloquear, espionar ou criminalizar.

A política externa dos EUA – que só sabe depender de sanções, pressões e guerras – está serrando o galho (alto) no qual os EUA estão pousados.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de David Johansen.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Cresce o PETROYUAN (e a lenta erosão da hegemonia do dólar norte-americano)

4/8/2014, [*] Flynt Leverett e Hillary Mann Leverett, World Financial Review
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Entreouvido no Beco da Xaxará na Vila Vudu: Uma coisa é certa: as eleições no Brasil têm importância CRUCIAL em todo esse processo que aí se comenta. A prova de que as eleições no Brasil têm importância crucial nesse processo que aí se comenta é que absolutamente NINGUÉM FALA desse processo na imprensa-empresa “especializada” (só rindo!) de Economia & Finanças, no Brasil.


Por 70 anos, um dos pilares mais criticamente determinantes do poder norte-americano tem sido a posição do dólar como mais importante moeda do mundo. Nos últimos 40 anos, um dos pilares do primado do dólar tem sido o papel dominante das notas verdes nos mercados internacionais de energia. Hoje, a China está alavancando seu crescimento como potência econômica, e como o mais importante mercado em desenvolvimento para exportadores de hidrocarboneto no Golfo Persa e na ex-URSS, para circunscrever a dominação do dólar na energia global – com ramificações potencialmente profundas para a posição estratégica dos EUA.

Desde a IIª Guerra Mundial, a supremacia geopolítica dos EUA repousa não só na força militar, mas também na posição do dólar como principal moeda de negócios e de reserva do mundo. Economicamente, a primazia do dólar extrai “senhoriagem” – a diferença entre o custo de imprimir dinheiro e seu valor – de outros países e minimiza a taxa de risco cambial das empresas norte-americanas. Mas sua real importância é estratégica: a primazia do dólar permite que os EUA cubram seus déficits crônicos em conta corrente e fiscal, emitindo mais de sua própria moeda – precisamente como Washington financiou a projeção de poder militar por mais de meio século.

Desde os anos 1970s, um pilar da primazia do dólar tem sido o papel das notas verdes como moeda dominante na qual se fazem os preços de petróleo e gás, e na qual as vendas de hidrocarbonetos são faturadas e pagas. Isso ajuda a manter alta a demanda mundial do dólar. Isso também alimenta a acumulação de excedentes em dólares pelos produtores de energia, o que reforça a posição do dólar como primeiro ativo de reserva do mundo, e que pode assim ser “reciclado” na economia dos EUA para cobrir os déficits norte-americanos.

Muitos assumem que a proeminência do dólar nos mercados de energia deriva de seu estado mais amplo como principal moeda de transações e de reserva do mundo. Mas o papel do dólar nesses mercados não é natural, nem é função de sua dominância mais ampla. Na verdade, foi concebido e construído por políticos norte-americanos depois do colapso da ordem monetária de Bretton Woods no início dos anos 1970s, o que pôs fim à versão inicial da primazia do dólar (“hegemonia 1.0 do dólar”). Ligar o dólar ao mercado internacional de petróleo foi chave para criar uma nova versão da primazia do dólar (“hegemonia 2.0 do dólar”) – e, por extensão, para financiar mais 40 anos da hegemonia dos EUA.

Ouro e US dollar

Ouro e hegemonia 1.0 do dólar

A primazia do dólar foi “sacramentada” pela primeira vez na conferência de Bretton Woods de 1944, onde os aliados não comunistas dos EUA aceitaram a proposição de Washington para uma ordem monetária internacional pós-guerra. A delegação britânica – chefiada por Lord Keynes – e virtualmente todos os demais países participantes, exceto os EUA, prefeririam criam uma nova moeda multilateral através do nascente Fundo Monetário Internacional (FMI) como principal fonte de liquidez global. Mas isso poria abaixo as ambições norte-americanas, que queriam uma ordem monetária centrada no dólar. Apesar de praticamente todos os participantes preferirem a opção multilateral, o poder relativo vastamente superior dos EUA garantiu que, no final, sua preferência predominasse. Assim, sob o padrão ouro de troca de Bretton Woods, o dólar foi ligado ao ouro e as demais moedas foram ligadas ao dólar, gerando a forma principal de liquidez internacional.

Havia, contudo, uma contradição fatal na visão baseada-em-dólar, de Washington. O único modo pelo qual os EUA podiam distribuir dólares suficientes para atender à liquidez em todo o mundo era manter déficits em conta corrente sempre abertos. Com a Europa Ocidental e o Japão recuperados e reconquistando competitividade, aqueles déficits cresceram. Lançado na própria sempre crescente demanda por dólares nos EUA – para financiar o consumo crescente, a expansão do estado de bem-estar e a projeção global do próprio poder – e a oferta de dinheiro dos EUA rapidamente ultrapassou as reservas em ouro dos EUA. A partir dos anos 1950s, Washington trabalhava para persuadir ou coagir possuidores estrangeiros de dólares a não trocar as notas por ouro. Mas a insolvência só poderia ser mantida semiocultado por pouco tempo: em agosto de 1971, o presidente Nixon suspendeu a convertibilidade dólar-ouro, pondo fim ao fim ao padrão ouro de troca; em 1973, as taxas fixas também se foram.


Esses eventos levantaram questões de base sobre a firmeza, no longo prazo, de uma ordem monetária baseada no dólar. Para preservar seu papel como provedor chefe de liquidez internacional, os EUA teriam de continuar a manter déficits em conta corrente. Mas esses déficits cresciam como balões, porque o movimento de Washington de abandonar Bretton Woods entrecruzara-se com dois outros importantíssimos desenvolvimentos: os EUA tornaram-se importadores líquidos de petróleo no início dos anos 1970s; e o acesso ao controle do mercado de energia por membros chaves da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em 1973-1974 causou aumento de 500% nos preços do petróleo, o que aumentou muito o estresse sobre a balança de pagamentos dos EUA. Com o elo entre o dólar e o ouro já rompido e as taxas de câmbio já não fixas, a prospectiva de déficits cada vez maiores nos EUA agravou as preocupações sobre o valor de longo termo do dólar.

Essas preocupações tiveram especial ressonância para os principais produtores de petróleo. O petróleo que ia para mercados internacionais recebia preço em dólar, pelo menos desde os anos 1920s – mas, por décadas, a libra esterlina foi usada pelo menos tão frequentemente quanto o dólar, para pagamentos de compras internacionais de petróleo, mesmo depois de o dólar ter substituído a libra como principal moeda de comércio e de reservas do mundo. Desde que a libra andasse presa ao dólar, e o dólar fosse “bom como ouro”, era processo economicamente viável. Mas depois que Washington abandonou a convertibilidade dólar-ouro e o mundo mudou-se de taxas fixas de câmbio, para taxas flutuantes, o regime de moeda para o comércio do petróleo estava muito vulnerável. Com o fim da convertibilidade dólar-ouro, os maiores aliados dos EUA no Golfo Persa – o Xá do Irã, o Kuwait e a Arábia Saudita – passaram a apoiar uma mudança no sistema de preços da OPEP de preços denominados em dólares, para passar a denominá-los numa cesta de moedas.

Nesse ambiente, vários dos aliados europeus dos EUA reviveram a ideia (introduzida por Keynes em Bretton Woods) de prover liquidez internacional na forma de uma moeda que o FMI lançaria e que seria governada multilateralmente – os chamadosSpecial Drawing Rights [NT] (SDRs).

Special Drawing Rights
Depois que os preços do petróleo, sempre em ascensão, estrangularam suas contas correntes, Arábia Saudita e outros aliados árabes dos EUA no Golfo forçaram a OPEP para que começasse a faturar em SDRs. Também endossaram propostas europeias para reciclar os excedentes em petrodólares através do IMF, para encorajar que crescesse e emergisse como o principal provedor de liquidez internacional pós-Bretton Woods. Significaria que Washington não poderia continuar a imprimir quantos dólares bem entendesse para apoiar consumo crescente, gastos públicos sempre crescentes e projeção global constante de poder. Para impedir que isso acontecesse, políticos norte-americanos tiveram de encontrar  meios novos para incentivar estrangeiros a continuar mantendo excedentes cada vez maiores do que, então, já eram dólares impressos em ar.

Ouro e hegemonia 2.0 do dólar

Para tanto, os governos dos EUA a partir de meados da década dos 1970s, conceberam duas estratégias. Uma foi maximizar a demanda por dólares como moeda transacional. A outra foi inverter as restrições de Bretton Woods aos fluxos de capitais transnacionais; com a liberalização financeira, os EUA puderam alavancar o escopo e a profundidade de seus mercados de capital, e ele pôde cobrir seus déficits crônicos de conta corrente e fiscal, atraindo capitais estrangeiros a custo relativamente baixo. Criar laços fortes entre as vendas de hidrocarbonetos e o dólar provou-se crítico nos dois fronts.

Para criar tais laços, Washington efetivamente extorquiu seus aliados árabes do Golfo, condicionando silenciosamente as garantias dos EUA à segurança deles à disposição deles para ajudar a financiar os EUA. Traindo promessas feitas aos seus parceiros europeus e japoneses, o governo Ford empurrou clandestinamente a Arábia Saudita e outros produtores árabes do Golfo a reciclar partes substanciais de seus excedentes dos petrodólares dentro da economia dos EUA através de intermediários privados (a maioria dos quais norte-americanos), não através do FMI. O governo Ford também reforçou o apoio do Golfo às finanças apertadas de Washington, em vários acordos secretos com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, pelos quais os bancos centrais desses países compravam grandes volumes de papéis do Tesouro dos EUA fora dos processos de leilões normais.

Letra do Tesouro dos EUA... Valia OURO
Esses procedimentos ajudaram Washington a impedir que o FMI suplantasse os EUA como principal provedor de liquidez internacional; também deram impulso inicial e crucialmente importante para inflar as ambições de Washington de conseguir financiar os déficits dos EUA reciclando os excedentes de estrangeiros em dólares, via o mercado privado de capital e em vendas de papéis do governo dos EUA.

Poucos anos depois, o governo Carter concluiu mais um acordo secreto com os sauditas, pelo qual, desta vez, Riad comprometia-se a exercer sua influência para garantir que a OPEP continuaria a precificar o petróleo, em dólares. O compromisso da OPEP com o dólar como moeda de faturamento das vendas internacionais de petróleo foi chave para que o dólar se implantasse ainda mais firmemente como moeda reinante na compra e venda no mercado internacional de petróleo. Quando o sistema de preços administrados pela OPEP entrou em colapso em meados dos anos 1980s, o governo Reagan encorajou a universalização do faturamento em dólares para vendas de petróleo transfronteiras em novos negócios de petróleo em Londres e New York. A universalização quase absoluta na precificação do petróleo – e, depois, também do gás – sempre em dólares, reforçou a possibilidade de as vendas de hidrocarbonetos seriam não só denominadas em dólares, mas também pagas em dólares – gerando crescente apoio mundial à demanda por dólares.

Em resumo, essas barganhas foram instrumentais para criar a “hegemonia 2.0 do dólar”. E foram mantidas, apesar de surtos periódicos de insatisfação do Golfo Árabe contra a política dos EUA para o Oriente Médio; apesar, mais fundamentalmente, do distanciamento entre os EUA e outros grandes produtores do Golfo (o Iraque de Saddam Hussein e a República Islâmica do Irã); e de um rompante de interesse pelo “petroeuro”, no início dos anos 2000s. Os sauditas, especialmente, defenderam vigorosamente que o petróleo continuasse a ser precificado exclusivamente em dólares.

Letra do Tesouro dos EUA, hoje... Vale o papel?
Enquanto Arábia Saudita e outros grandes produtores de energia aceitam agora em outras grandes moedas o pagamento pelo petróleo que exportam, a maior fatia das vendas mundiais de petróleo continua a ser paga em dólares o que perpetua o status do dólar como principal moeda mundial de negócios. Arábia Saudita e outros produtores árabes do Golfo suplementaram o apoio que dão ao nexo petróleo-dólar, fazendo grandes compras de armamento avançado dos EUA; muitos também ancoraram suas respectivas moedas ao dólar – compromisso que altos funcionários sauditas descrevem como “estratégico”. Em momento em que o volume de dólares nas reservas globais já caiu, os árabes do Golfo a reciclar seus petrodólares ajudam a manter o mesmo dólar ainda como principal moeda de reserva.

O desafio chinês

Seja como for, história e cautela lógica ensinam que o que hoje é prática geral não é lei gravada em pedra. Com a ascensão do PETROYUAN, já se constata que, sim, há movimento na direção de um regime de moeda menos dólar-cêntrico nos mercados internacionais de energia – com implicações potencialmente muito sérias para a posição mais ampla do dólar.

A China já emergiu como ator principal no cenário da energia global, e já embarcou numa extensiva campanha para internacionalizar sua moeda. Fatia crescente do comércio exterior da China já está sendo denominado e pago em renminbi; e cresce o lançamento de instrumentos financeiros denominados em renminbi. A China está conduzindo um processo distendido de liberalização da “conta-capital” essencial para a plena internacionalização do renminbi , e está permitindo mais flexibilidade na taxa de câmbio para o yuan. O Banco do Povo da China [orig. People’s Bank of China (PBOC)] já tem acordos de swap com mais de 30 outros bancos centrais – o que significa que o renminbi já funciona efetivamente como uma moeda de reserva.

PETROYUAN
Os políticos chineses apreciam as “vantagens da liderança” [orig. “advantages of incumbency” (NTs)] de que o dólar goza; o objetivo deles não é que renminbis tomem o lugar dos dólares, mas posicionar o Yuan ao lado das verdes como moeda de negócios e de reserva. Além dos benefícios econômicos (por exemplo, reduzir os custos cambiais das empresas chinesas), Pequim quer – por razões estratégicas – reduzir ainda mais o crescimento de suas gigantescas reservas em dólar. A China está vendo a tendência crescente de os EUA excluírem países do sistema financeiro dos EUA, como ferramenta de política exterior, e não quer ver Washington tentar ganhar alavancagem por essa via; a internacionalização do renminbi pode mitigar essa vulnerabilidade. Mais amplamente, Pequim compreende a importância, para o poder dos EUA, de o dólar ser dominante; contendo a dominância do dólar, a China pode conter o excessivo unilateralismo dos EUA.

Há muito tempo a China já incorporou instrumentos financeiros aos seus esforços para ganhar acesso a petróleo estrangeiro. Agora, Pequim quer que os principais produtores de energia aceitem renminbi como moeda de negócios – inclusive no pagamento das compras chinesas de petróleo – e que incorporem o renminbi nas reservas de seus respectivos bancos centrais. Há boas razões para que os produtores sejam receptivos à ideia.

A China é e assim continuará, em todo um vasto futuro que se pode antever, o principal mercado em expansão para produtores de hidrocarbonetos no Golfo Pérsico e na ex-URSS. Expectativas muito difundidas de que o Yuan se valorizará no longo prazo tornam a ideia de acumular reservas em renminbi ideia “óbvia”, em termos de diversificação do portfólio. E com os EUA já vistos cada vez mais frequentemente como potência em declínio relativo, a China é vista como principal potência em ascensão. Até para os estados árabes do Golfo, que há tanto tempo só confiam em Washington para lhes garantir a própria segurança, os fatos já sugerem que seja imperativo, no campo estratégico, criar laços mais próximos com Pequim. Para a Rússia, a deterioração das relações com os EUA obrigam a gerar cooperação mais profunda com a China, contra EUA que ambas as capitais, Moscou e Pequim, veem potência em declínio lento, mas sempre hiperativa e dada a reações desproporcionais.

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Por muitos anos, a China pagou suas importações de petróleo iraniano com renminbi; em 2012, o Banco do Povo da China e o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos fizeram acordo de swap de moeda no valor de US$ 5,5 bilhões, preparando o cenário para que as importações chinesas de petróleo possam ser pagas a Abu Dahbi em renminbi – importante expansão do uso do petroyuan no Golfo Pérsico. O negócio de gás entre China e Rússia, de US$ 400 bilhões, concluído esse ano, incluiu cláusulas bem claras de que os russos aceitarão que os chineses paguem em renminbi pelo gás que comprarem; se o acordo for integralmente implementado, significará que o renminbi passa a ter papel muito considerável nas transações internacionais de gás.

Olhando à frente, o uso do renminbi para pagar por compras internacionais de petróleo e gás com certeza aumentará, o que fará declinar mais rapidamente a influência dos EUA em regiões chaves da produção de energia. Marginalmente, o mesmo processo irá tornando mais difícil para Washington financiar o que China e outras potências emergentes veem como políticas abertamente intervencionistas – perspectiva que a classe política nos EUA ainda sequer começou a ponderar com seriedade.


[*] Flynt Leverett e Hillary Mann Leverett são autores de Going to Tehran: America Must Accept the Islamic Republic of Iran (New York: Metropolitan, 2013), que acaba de sair em brochura, com novo pósfácio. Ambos tiveram carreiras importantes no governo dos EUA, antes de abandonarem os cargos que tinham no Conselho de Segurança Nacional, em março de 2003, por não concordarem com a política para o Oriente Médio e a “guerra ao terror”. Hoje, lecionam relações internacionais, ele na Penn State University, ela na American University.