Mostrando postagens com marcador G8. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador G8. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de julho de 2014

Acusação−insinuação — Como opera a propaganda dos EUA

22/7/2013, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama: "Você mente"
Por que os EUA não se uniram ao presidente Putin da Rússia, que exigiu investigação internacional objetiva, não politizada, feita por especialistas, do caso do avião da Malaysia Airlines?

O governo russo continua a distribuir fatos, inclusive fotos de satélite que mostram que havia Buks antiaéreos ucranianos em pontos dos quais o avião de passageiros pode ter sido abatido por aquele tipo de veículo armado, e documentos de que um jato de combate ucraniano SU-25 aproximou-se rapidamente do avião malaio antes de o avião ser abatido.

O chefe do Diretorado de Operações dos militares russos disse em conferência de imprensa em Moscou ontem [21/7/2014], que a presença do jato militar ucraniano foi confirmada pelo centro de monitoramento de Rostov.

O Ministério de Defesa da Rússia observou que, no momento em que o MH-17 foi abatido, um satélite dos EUA sobrevoava a área. O governo russo exige que os EUA disponibilizem as fotos e dados capturados por aquele satélite.

O presidente Putin já repetiu várias vezes que a investigação do voo MH-17 requer “um grupo representativo de especialistas trabalhando juntos sob orientação da ICAO (International Civil Aviation Organization)”. Putin, ao exigir investigação independente pelos especialistas da ICAO não age como quem tenha algo a esconder.

Vladimir Putin
Falando diretamente a Washington, Putin disse:

Até que se conheçam os resultados dessa investigação, ninguém [nem a “nação excepcional”] tem o direito de usar essa tragédia para fazer avançar seus objetivos políticos egoístas estreitos.

Putin relembrou aos EUA:

Nós várias vezes pedimos que os dois lados suspendessem imediatamente o banho de sangue e sentassem à mesa de negociações. O que se pode dizer com certeza é que, se as operações militares não tivessem sido reiniciadas [por Kiev] no dia 28/6/2014 no leste da Ucrânia, essa tragédia não teria acontecido.

E o que respondem os EUA? 

Só mentiras e insinuações.

Anteontem [20/7/2014], o Secretário de Estado dos EUA, confirmou que federalistas pró-Rússia estavam envolvidos na derrubada do avião malaio, e disse que seria “bem claro” que a Rússia esta[ria] envolvida. Eis as palavras de Kerry:

É bem claro que há um sistema que foi transferido da Rússia para as mãos de separatistas. Sabemos com certeza, com certeza, que os ucranianos não têm tal sistema em ponto algum nos arredores daquele local naquela hora, portanto é óbvio que há um dedo muito claro dos separatistas.

A declaração de Kerry é mais uma da infindáveis mentiras que secretários de Estado dos EUA mentiram ao longo do século XXI.

John Kerry: "O maior MENTIROSO de todos"
Quem poderia esquecer o pacote de mentiras que Colin Powell mentiu descaradamente na ONU sobre as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein? Ou a mentira que Kerry repetiu incontáveis vezes, de que Assad “usou armas químicas contra seu próprio povo”? Ou as infindáveis mentiras sobre “bombas atômicas do Irã”?

Recordem que Kerry, várias vezes, disse que os EUA teriam provas de que Assad “cruzara” a “linha vermelha” e usara armas químicas. Mas Kerry jamais conseguiu comprovar o que dizia, nunca apresentou uma única prova, que fosse. Os EUA não tinham prova alguma a entregar ao primeiro-ministro britânico, nem mesmo para ajudá-lo a conseguir que o Parlamento aprovasse a participação britânica ao lado dos EUA, num ataque militar contra a Síria! O Parlamento então disse ao primeiro-ministro inglês: “sem provas, nada de guerra”.

Agora, aí está Kerry outra vez a declarar que tem “certeza”, em “declarações” que já foram desmentidas por fotos do satélite russo e incontáveis provas de testemunhas no solo.

Por que Washington não distribui as fotos do satélite norte-americano?

A resposta é: pela mesma razão pela qual Washington não distribuirá os vídeos que confiscou e que, dizem os EUA, “comprovam” que um avião de passageiros sequestrado atingiu o Pentágono dia 11/9/2001. Nenhum vídeo comprova o que os EUA mentem sobre o 11/9/2001; assim como nenhuma foto de satélite comprova as mentiras de Kerry sobre o avião malaio.

Inspetores de armas da ONU em campo, no Iraque, relataram que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Mas esse fato comprovado, porque desmascararia a propaganda dos EUA, foi simplesmente ignorado. Os EUA iniciaram guerra terrivelmente destrutiva, baseados numa mentira intencional mantida em Washington.

Inspetores da Comissão Internacional de Energia Atômica em campo, no Irã, e todas as 16 agências de inteligência dos EUA relataram que o Irã não tinha (como não tem) programa de armas nucleares. Mas esse fato comprovado era inconsistente com a agenda de guerra de Washington e foi ignorado: pelo governo dos EUA e pela imprensa-empresa press-tituta.

Agora estamos testemunhando a mesma coisa, ante a ausência de qualquer evidência que comprovasse que a Rússia teria algo a ver com a derrubada do avião malaio.

Nem todos, no governo dos EUA, são tão irresponsáveis e imorais quanto Kerry e John McCain. Esses mentem. A maioria dos agentes do governo dos EUA vivem de insinuações.

Dianne Feinstein
por Honkey Donkey
A senadora Dianne Feinstein é exemplo perfeito. Entrevistada pelo canal CNN da imprensa-empresa press-tituta, Feinstein disse:

A questão é: onde está Putin? Eu diria: “Putin, seja homem. Você tem de falar ao mundo. Tem de dizer. Se foi um erro, como espero que tenha sido, diga!”.

Putin não faz outra coisa que não seja falar ao mundo, sem parar, exigindo que se faça investigação por especialistas, não politizada. E Feinstein a perguntar por que Putin se esconde em silêncio! Feinstein lá estava para insinuar que “sabemos que você é culpado. Só não sabemos se foi crime deliberado ou acidental”.

O modo como todo o ciclo ocidental de noticiário foi orquestrado para instantaneamente culpar a Rússia, desde muito antes de que surja qualquer informação real confiável, sugere que a derrubada do avião malaio foi operação dos EUA.

É possível, é claro, que a bem adestrada imprensa-empresa press-tituta não precise de orquestração alguma vinda de Washington, para imediatamente culpar a Rússia. Por outro lado, alguns dos desempenhos “televisivos” parecem tão bem ensaiados, que simplesmente têm de ter sido preparados com antecedência.

Também foi preparado com antecedência o vídeo de YouTube montado para “mostrar” um general russo e federalistas ucranianos discutindo que teriam acabado de, por engano, derrubar um avião de passageiros.

Como já comentei, esse vídeo tem dois vícios insanáveis: já estava gravado desde antes do acidente; e, ao apresentar o que seria a fala de um militar russo, esqueceu que qualquer militar saberia ver as diferenças entre um avião de passageiros e um avião militar de combate. A própria existência daquele vídeo já implica que houve um complô para derrubar o avião e culpar a Rússia.

Já vi relatórios que dizem que o sistema russo de mísseis antiaéreos, como um de seus dispositivos de segurança, faz contato com os transponders das aeronaves, para verificar o tipo de aeronave que aparece em seu alvo. Se esses relatórios estão corretos e se os transponders do MH-17 forem encontrados, é possível que lá esteja gravado o contato.

Já vi notícias que dizem que o controle aéreo ucraniano mudou a rota do MH-17 e o mandou sobrevoar diretamente a área de conflito. Os transponders também indicarão se isso é verdade. Se for, há claramente uma prova, pelo menos circunstancial, de que foi ato intencional de Kiev – e ato que teria de ter sido aprovado pelos EUA.

Há notícias ainda de que haveria uma divergência entre os militares ucranianos e milícias não oficializadas formadas por extremistas ucranianos de direita, que aparentemente foram os primeiros a atacar os federalistas. É possível que Washington tenha usado aqueles extremistas para derrubar o avião malaio, para inculpar os russos e usar as acusações para pressionar a União Europeia a acompanhar as sanções unilaterais dos EUA contra a Rússia.

Todos a favor de chutar a Russia do clube...
por Kevin Sears
Sabe-se que os EUA estão desesperados para conseguir quebrar os crescentes laços econômicos e políticos entre Rússia e Europa.

Se havia um complô para derrubar um avião de passageiros, todos os dispositivos de segurança do sistema de mísseis teriam sido desligados, para que não abortassem o ataque e para que não houvesse registro de ataque, não acidental, mas deliberado. Essa pode ser a razão pela qual os ucranianos mandaram um jato para “inspecionar” de perto o avião malaio. É possível que o alvo fosse o avião presidencial de Putin, e a incompetência dos criminosos os tenha levado a destruir um avião de passageiros.

Há inúmeras explicações possíveis. É importante, agora, manter a mente aberta e resistir contra a propaganda dos EUA, até que apareçam os fatos e as provas. No mínimo, os EUA são culpados por usar o incidente para inculpar os russos “antecipadamente”, antes de qualquer prova.

Até agora, Washington só distribuiu acusações gratuitas e insinuações. E se Washington continuar a só distribuir acusações e insinuações sem provas... logo se saberá com certeza de quem é a culpa.

Enquanto isso, lembrem do menino que gritou “lobo!”, sem haver lobo algum, muitas vezes. Tantas vezes mentiu que, quando o lobo afinal realmente apareceu, ninguém acreditou nos gritos do menino. Será esse o destino final de Washington?

Nas guerras que declarou ao Iraque, ao Afeganistão, à Líbia, à Somália e à Síria, os EUA sempre se esconderam atrás de mentiras. Por quê? Se Washington quer guerra contra o Irã, a Rússia e a China, por que não declara guerra?

Constituição dos EUA, vilipendiada pelos  neocons  
A razão é que a Constituição dos EUA exige que, para que haja guerra, o Congresso emita uma Declaração de Guerra. Com esse dispositivo, se esperava que o Congresso conseguisse impedir que o Executivo fizesse as guerras que quisesse, para promover as agendas ocultas que bem entendesse. Agora, quando já abdicou dessa responsabilidade constitucional, o Congresso dos EUA já é cúmplice nos crimes de guerra do Executivo.

E ao aprovar o assassinato premeditado de palestinos por Israel, o governo dos EUA já é cúmplice também nos crimes de guerra de Israel.

Agora, se pergunte você mesmo, e responda: o mundo não seria mais seguro, lugar de menos morte, menos destruição e menos refugiados sem teto, e não seria lugar de mais verdade e mais justiça, se os EUA e Israel não existissem?



[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton,  Oxford University.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Hipótese muito interessante sobre eventos na Síria (Comentários são bem-vindos)

11/1/2014, The Saker - The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
JohnM acaba de postar comentário interessante sobre eventos em curso na Síria, o qual, me parece, merece ser reproduzido na íntegra. Aí vai:

Estou pensando é que, como parte de um acordo Assad/Rússia com os “rebeldes não islamistas” (rótulo arbitrário e em vasta medida errado), há a atual batalha, em geral (a linha divisória, aí, é MUITO fluida e indefinida), dos combatentes estrangeiros versus os combatentes locais. Esse acordo (se existe) é muito nebuloso, envolve muitos “ses” e o resultado almejado é um grande Goat Rodeo [1]. O tipo de caso que vivem nessa área (tanto geográfica como no nível de política externa).

Como parte de estarem voltando do frio, os combatentes com bases locais recebem instruções para limpar a casa (livrar-se dos extremistas doidos) e, então, será possível algum acordo. Anistias, mudanças na Constituição (mas não faço nem ideia do que diga alguma Constituição por lá, nem se há lá alguma Constituição), talvez algum tipo de estrutura política semelhante à do Líbano, de partilha do poder (provavelmente limitada e local, considerando que os curdos seriam parte disso), e a serem completadas com eleições para todas e as mais variadas posições, estarão sobre a mesa. Isso tudo seria supervisionado, digamos, por Rússia, China e o Ocidente, sob a forma de, digamos, Alemanha, e/ou, mesmo, os EUA.

Obama consegue arremate decente para sua presidência (já em frangalhos; ele precisa de alguma coisa). Rússia consegue prestígio e algum retrocesso dos extremistas no seu flanco sul. China consegue negócios. Europa consegue negócios e oleogasodutos. Assad consegue alguma paz e alguma reabilitação, se quiser ou precisar disso, no campo das Relações Públicas, dependendo de como ele jogue o jogo. Os Sauditas conseguem ferro no traseiro.

Para observar, nos próximos dois, três meses: Turquia, Jordânia, Iraque e Arábia Saudita. A Turquia terá de entrar visivelmente na linha, nessa questão, porque antevejo algum tipo de federação síria com vasta autonomia para os curdos (problema muito espinhoso). A Turquia também tem de lidar com os combatentes estrangeiros em seu território, agora que estão voltando da Síria, e com a importância que lhes foi dada quando os turcos mudaram sua política externa há dois, três anos. A Jordânia manteve-se em papel relativamente discreto, mas enfrenta problema semelhante. O Iraque terá de lidar com os extremistas (chame-os como quiser, são eles!) que também estão voltando para casa e fazendo já o diabo. Alguns desses já começam a manifestar-se (já visíveis, pelo menos, nos veículos da imprensa-empresa ocidental) em Fallujah, com as tribos visivelmente divididas em torno da Al-Qaeda no Iraque (AQI). Os sauditas (e Israel) vão berrar, blasfemar e ameaçar. Resta verificar até que ponto conseguirão impedir que aconteça.

Quanto a mim... minhas inclinações naturalmente pessimistas sempre me fazem duvidar de hipótese pela qual um dos lados da discussão, que antes era absolutamente irracional, converte-se repentinamente à racionalidade e põe-se a agir racionalmente. No caso presente, esse lado previamente irracional seriam dois: o Exército Sírio Livre e os EUA.

Participantes da reunião do G8 (grandes potências) em Lough Erne
Mas meu ceticismo é contrabalançado pelo fato de o acordo do G8 firmado em Lough Erne dizer coisa bem semelhante, exposto bem claramente. Citei parte do texto daquele acordo nesse blog, em junho de 2013 (palavras-chave em vermelho e meus comentários em verde):

Muito nos preocupa a crescente ameaça de terrorismo e extremismo na Síria, e também a natureza crescentemente sectária do conflito. A Síria deve pertencer a todos os sírios, incluindo suas minorias e todos os grupos religiosos.

Conclamamos as autoridades sírias e da oposição na Conferência de Genebra para que, conjuntamente, se comprometam a destruir e expulsar da Síria todas as organizações e indivíduos afiliados à Al-Qaeda e quaisquer outros atores não estatais ligados ao terrorismo.

(Frase espantosa! A insurgência e o governo da Síria são conclamados para CONJUNTAMENTE *destruir* as mesmas forças que os EUA querem armar?! Que o governo gostaria MUITO de destruir ou expulsar a al-Nusra é bem claro. Mas o Exército Sírio Livre? Estará o G8 realmente “convocando” para uma guerra civil dentro da insurgência?!).

Em junho, ninguém deu atenção àquelas palavras, mas o fato é que esse texto foi assinado pelo G8 e parecia sugerir exatamente o que se está vendo acontecer hoje.

Claro, o que está tendo lugar hoje pode absolutamente não ser resultado do acordo do G8, mas simplesmente resultado inevitável de um conflito cujas dinâmicas são em grande medida pré-ordenadas.

Se se assume que nem todas as forças anti-Assad são compostas de répteis takfiri; e se se assume que Assad está disposto a trabalhar com qualquer um, desde que não seja louco-furioso (e entendo que essas duas condições são razoáveis), nesse caso a coisa lógica é que todas as forças não takfiri unam esforços contra os doidos.

O que é indiscutível é que a infecção takfiri chegou agora a Fallujah no Iraque, o que, por sua vez, está acionando algum tipo de reação de EUA-Iraque-Irã, dado que ninguém pode correr o risco de perder alguma cidade estratégica para uma horda de wahhabistas ensandecidos. Objetivamente, EUA, Irã e Síria deveriam estar trabalhando juntos contra os malucos takfiri em toda a região.

O grande “SE” é se haverá alguém com os miolos e os colhões necessários na Casa Branca para compreender isso e trabalhar para isso.

Seja como for, a noção é tentadora, para dizer o mínimo. Penso em quantas vezes os russos dizem “cada wahhabista que Assad mate é um a menos, que não teremos de matar no Cáucaso”. E penso se alguém em Washington DC é capaz de aceitar a noção de que “cada wahhabista que Assad mate é um a menos, que não teremos de matar no Iraque/Afeganistão/Somália/Iêmen etc.”.

Entendo que JohnM está totalmente certo, quando diz que o impacto dessa mudança na dinâmica (assumindo que continue) sobre os países vizinhos será crucial.

Francamente, acho que os turcos agiram de modo descomunalmente estúpido; agora, têm de engolir que haverá um preço a pagar por sua arrogância. As opções que restam à Turquia são ruins: ou negociar com os curdos, ou negociar com os takfiri estripadores comedores de fígados humanos.

Entendo que a melhor escolha é óbvia: negociar com os curdos. Primeiro, os curdos são *racionais* e há ali, inclusive, um inimigo comum (os wahhabistas malucos). Segundo, é mais que hora de os turcos, afinal, começarem a buscar um acordo de longo prazo com os curdos, ou correm o risco de perder tudo. Se os turcos realmente crêem que possam “controlar” os curdos exclusivamente pela força, estão-se autoenganando; e é, do ponto de vista de uma negociação, muito melhor se negociarem com os curdos agora, quando também os curdos estão em situação difícil, que adiante, quando pode acontecer de os curdos alcançarem posição mais forte tanto no Iraque como na Síria (e esses dois governos já indicaram que estão dispostos a construir um acordo com os curdos).

Seja como for, quero registrar aqui, para discussão, essa hipótese:

– é possível que o que estamos vendo na Síria seja uma mudança estratégica nas alianças, e que a próxima fase da guerra será contra o Reino da Arábia Saudita; com monarquias do Golfo e vários franqueados da al-Qaeda em luta contra EUA, Síria, Irã, Hezbollah e os curdos?

Se não for isso... o que lhes parece que esteja acontecendo?

Saudações!
[assina] The Saker
_______________________________

Nota dos tradutores
[1] Lit. “rodeio de bodes”. Do Urban Dictionnary: Goat Rodeo. Situação caótica, quase sempre envolvendo várias pessoas, cada uma com agenda /visão /compreensão diferente sobre o que esteja acontecendo; situação muito difícil, que resiste a qualquer tentativa de injetar ordem ou bom senso, por mais empenhados que sejam os esforços.


sexta-feira, 12 de julho de 2013

Pepe Escobar: A “Fraternidade” China-EUA

11/7/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A quinta rodada do Diálogo Econômico e Estratégico EUA-China começa nessa 5ª-feira em Washington. Essa “Fraternidade” China-EUA envolve, sim, muita conversa – sem ação perceptível. A Think-tank-lândia tenta passar a impressão de que Pequim está(ria) agora em posição mais fraca em relação a Washington, comparada ao ambiente pós-crise financeira em 2009. Bobagem.

É como se o escândalo (global) em curso, da Agência de Segurança Nacional dos EUA, jamais tivesse acontecido; Edward Snowden expôs o modo como o governo dos EUA virou-se contra os próprios cidadãos, sem parar de espionar virtualmente o planeta inteiro. E há o meme de que a economia chinesa está(ria) “com problemas”, quando Pequim, de fato, está lançando estratégia de longo prazo, complexa, para calibrar os efeitos de um relativo desaquecimento da economia.

E, por fim, o suposto “comportamento agressivo dos chineses”, em termos de segurança da Ásia, não passa de conversa de “especialistas” de jornal e TV. 

Preparação do palco para o Diálogo Estratégico EUA - China 
 Pequim está construindo sua Marinha, claro – ao mesmo tempo em que a China e um grupo seleto de membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático estão cuidando da sintonia fina de suas táticas, antes de conversações multilaterais sobre um código de conduta no caso de problemas sérios no Mar do Sul da China. Pequim seria doida, se partisse para a diplomacia dos barcos armados – que certamente atrairia um contragolpe norte-americano.

Completamente atolados

É claro que Pequim interpretou, corretamente, que a “libertação” da Líbia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – agora já revertida em conversão da Líbia em estado falhado; o apoio dos EUA à destruição da Síria; e o “pivoteamento” para a Ásia como ações interligadas, cujo alvo é a ascensão da China e concebidas para fazer gorar a complexa estratégia chinesa de um corredor eurasiano de energia.

Pois nada parece estar dando certo. Como Asia Times Online noticiou, o oleogasoduto Irã-Paquistão (IP) pode bem converter-se em IPC, onde o “C”, de China, será uma extensão até Xinjiang, no oeste da China. Pequim também sabe muito bem como o proposto gasoduto Irã-Iraque-Síria foi questão chave para o enfático ataque contra a Síria, orquestrado por atores como Qatar, Arábia Saudita e Turquia. Pequim calcula que, se Bashar al-Assad ficar e o gasoduto de US$10 bilhões chegar a ser completado (claro que com ajuda financeira de chineses e russos), o principal cliente será a própria Pequim, não a Europa Ocidental.

Oleogasoduto IP (Irã - Paquistão) já estendido até a Índia tornando-se IPI
Considerando sua relação estratégica com Islamabad, Pequim está também muito consciente de todos os movimentos dos EUA para gerar dificuldades no Baloquistão paquistanês, crucialmente importante do ponto de vista geoestratégico – com possível transbordamento para a vizinha província Sistão-Baloquistão no Irã. Paralelamente, Pequim interpreta a intransigência e a obsessão dos EUA quanto ao programa nuclear iraniano como história-máscara, para atrapalhar a sólida parceria de segurança energética entre Teerã e Pequim.

Quanto ao Afeganistão, os corredores em Zhongnanhai em Pequim devem reverberar, de gargalhadas, vendo que Washington já regrediu nada menos que 16 anos, de volta ao segundo governo de Bill Clinton – em política, é uma eternidade! – às conversas com os Talibã em Doha, nas quais se disputa, essencialmente, um dos mais velhos gambitos de todo o Oleogasodutostão. “Queremos um oleogasoduto” (o TAPI, Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia), diz Washington. “Queremos nossa parte”, respondem os Talibã. Isso é política de Feitiço do Tempo [orig. Groundhog Day, filme de 1993].

O problema é que Washington nada tem, absolutamente nada, a oferecer aos Talibã. Os Talibã, por sua vez, manterão a agenda da ofensiva de verão, sabendo muito bem que estarão livres para fazer o que quiserem, depois que o presidente Hamid Karzai sair de cena, para o esquecimento. Quanto à noção, de Washington, de que Islamabad conseguirá manter os Talibã afegãos sob controle... até as cabras no Hindu Kush riem dessa.

Trata-se, sempre, da Síria

A Síria, essa sim, continua a ser a história chave – como pivô de um câncer que se alastra, sob a forma de guerra sectária sunitas/xiitas, largamente encorajada pela Casa de Saud e outros atores do Conselho de Cooperação do Golfo, que o governo Obama engoliu, anzol, isca e vara.

Foi preciso que aparecesse um diplomata de coragem para vazar, mais as traduções do russo ao árabe e daí ao inglês, para que o mundo tivesse uma ideia do que os políticos discutem nessas “cúpulas” em vasta medida ocas, boas, só, para fotógrafos.

O que o presidente russo Vladimir Putin disse a Obama, ao britânico David Cameron e ao presidente francês François Hollande, cara a cara, é impressionantemente fascinante.
Exemplos: [1]

Da esquerda para a direita: Merkel, Putin, Cameron, Obama e Hollande (G8)
Putin falando à mesa:

Vocês querem que o presidente Bashar al-Assad saia? Olhem só os líderes que vocês inventaram no Oriente Médio, ao longo do que chamam de “Primavera Árabe”.

Putin falando a Obama, Cameron e Hollande:

Vocês querem que a Rússia abandone Assad e seu regime e que se alinhe a oposição cujos líderes vocês sabem que não sabem coisa alguma além de lançar fatwas declarando os outros heréticos, e cujos membros – que vêm de um punhado de países diferentes e têm múltiplas orientações – não sabem fazer coisa alguma além de degolar gente e comer carne humana?

Putin falando diretamente a Obama:

O seu país enviou seus exércitos para o Afeganistão em 2001, com a desculpa de que estariam combatendo os Talibã, a organização al-Qaeda e outros terroristas fundamentalistas que o governo de vocês acusou de serem responsáveis pelos ataques de 11/9 contra New York e Washington. E aí estão vocês hoje, fazendo uma aliança com eles, na Síria. E vocês e seus aliados já declararam que querem enviar armas para eles. E aí você tem o Qatar, onde você [os EUA] tem sua maior base na região. E no território desse mesmo país, os Talibã estão abrindo um escritório de representação.

A melhor parte é que a chanceler alemã Angela Merkel, na sequência, apoiou cada palavra de Putin. E o presidente da China, Xi Jinping, só pode ter feito o mesmo.

Continue a tecer a tal rede, meu irmão

Bashar al-Assad
Ainda que a brilhante ideia do governo Obama de selecionar rebeldes “do bem” para presentear com armas leves por acaso funcionasse (e não funcionará: em qualquer teatro de guerra, as forças combatentes mais realmente hardcore – como as gangues estilo Jabhat al-Nusra – são quem fica com as melhores armas), nem assim alguma coisa garantiria que as forças de Bashar al-Assad viessem a ser derrotadas.

É o contrário. Haverá avançada para reconquistar toda a cidade de Aleppo – já em progresso. E outra avançada rumo ao sul, na direção de Daraa, para proteger a fronteira com a Jordânia; armas entregues a “rebeldes” no sul da Síria pelas petromonarquias-movidas-a-petróleo entram pela Jordânia. Rumores sobre “superdispersão” são enormemente exagerados: a coisa pode ser feita em etapas.

A Rússia, enquanto isso, jogará jogo muito esperto; garantindo armamento essencial ao governo sírio e preparada para entregar material mais letal, no caso de Washington decidir mandar para lá armas menos leves.

E há então a confusão toda com a Fraternidade Muçulmana. O jornal Al-Akhbar oferece detalhes deliciosos de como a Casa de Saud virtualmente destruiu o Qatar no Egito – bem como na Síria. Nunca é demais lembrar que a Casa de Saud apoia os retrógrados partidos salafistas no Egito e arma os retrógrados combatentes salafistas na Síria.

No Egito, apresento-lhes o novo chefão – sauditas e emiradistas – iguais ao velho chefão – qataris. Antes de decidir recentemente se autodepor, Emir al-Thani gastou nada menos que $17 bilhões num punhado variados de “primaveristas árabes”, quase todo o dinheiro, para Mursi no Egito. Agora, a Casa de Saud já ofereceu $5 bilhões e os Emirados, $3 bilhões. Nenhum deles, pelo visto, lê nesse Asia Times Online o que Spengler escreve – e que já provou que o Egito, para grande lástima daquele povo maravilhoso, continuará a ser uma república de bananas, sem bananas (ver Islam’s civil war moves to Egypt, Asia Times Online, 8/7/2013).  
Para resumir: Pequim está apostando que vencerá no Paquistão, no Irã, na Síria (já está vencendo no Iraque), no Oleogasodutostão, para nem falar do Mar do Sul da China, enquanto Washington enreda-se cada vez mais na sua Fraternidade-rede. “Fraca”? Só porque vocês querem.



Nota dos tradutores
[1] Do jornal libanês As-Safir, n. 12.522, 6/7/2013 em: تقرير ديبلوماسي توقع سقوط «الإخوان» في مصر.. وفي غيرها  traduzido ao inglês por Eric Mueller, conforme publicado em 10/7/2013: Putin Dresses Down The Group of Eight