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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ucrânia: A verdade

Está se tornando aparente

14/5/2015, [*] Gary LeuppCounterpunch
It's Becoming Apparent - Ukraine: The Truth
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


·        Manchete da Reuters, 9/4/2015: “Ucrânia decidida a associar-se à OTAN”.
·        Manchete da Radio Free Europe/Radio Liberty, 9/4/2015: “Líder da extrema direita nomeado conselheiro militar ucraniano”.


Há mais bases navais no estado da Califórnia, que em toda a Federação Russa. (...) E, com os doidos que comandam o Departamento de Estado nos EUA sempre empenhados em promover mentiras e mais mentiras sobre o que realmente aconteceu na Ucrânia ao longo dos últimos dois anos  narrativa que uma mídia-empresa imbecilizada repete sem parar  pode bem acontecer que, um dia, se encontrem soldados norte-americanos e os nazistas do Batalhão Azov, lado a lado, combatendo contra o povo das Repúblicas Populares de Lugansk e de Donetsk.



Poroshenko e Rasmussen na REUNIÃO da OTAN (4/9/2014)
A linha oficial de Moscou sobre a Ucrânia – e não se a deve descartar só porque é o que é – é que os EUA gastaram cerca de US$ 5 bilhões apoiando uma “mudança de regime” naquele país triste e falido, o que resultou num golpe de estado (ou putsch) em Kiev em fevereiro de 2014, no qual grupos neofascistas tiveram papel chave. O golpe aconteceu porque o Departamento de Estado dos EUA e o Pentágono tinham esperança de substituir o governo eleito que lá estava, por outro que empurraria a Ucrânia para dentro da OTAN, uma aliança militar desenhada, desde que foi concebida, em 1949, para desafiar a Rússia. O objetivo máximo do golpe era expulsar a Frota Russa no Mar Negro, das bases que mantém na Península da Crimeia há mais de 230 anos.

Pessoalmente, creio que é interpretação basicamente correta e qualquer ser racional logo perceberá que sim, que é verdadeira. Victoria Nuland, a bandida neoconservadora que serve como secretária-assistente de Estado para Assuntos Europeus e Eurasiáticos e é a mais alta funcionária do governo dos EUA na modelagem da política para a Ucrânia, admitiu abertamente a uma conferência internacional comercial sobre a Ucrânia, em dezembro de 2013 que:

Washington “já investiu mais de 5 bilhões de dólares para ajudar a Ucrânia a alcançar [o desenvolvimento de instituições democráticas] e outras metas”.

Ela repetiu essas palavras numa entrevista à CNN e também a ex-secretária de Estado Madeleine Albright também repetiu a mesma coisa, com orgulho em outros noticiários. O objetivo nunca enunciado era tornar a Ucrânia membro da OTAN.

Imaginem o que aconteceria se um alto oficial do Ministério de Relações Exteriores da Rússia se pusesse a vangloriar-se de a Rússia ter investido US$ 5 bilhões para acabar com o governo eleito no México ou no Canadá, com vistas a incorporar qualquer desses países numa aliança militar liderada pelo Kremlin e em expansão. John McCain e Fox News pôr-se-iam a exigir imediato ataque atômico para aniquilar Moscou.

A Rússia, como todos sabem, tem relativamente poucas bases navais, consideradas as dimensões do país. As que têm estão de frente para os mares de Barents e Báltico ao norte, em torno da Escandinávia. Em 1904, quando as forças russas foram atacadas pela marinha japonesa em Port Arthur, na Manchúria, a Rússia teve de mandar para aquela região a frota do Báltico, numa viagem de seis meses (e que terminou na desastrosa Batalha de Tsushima). A geografia russa impõe obstáculos a que o país mantenha grandes forças navais.

Há uma base naval russa em Astrakhan, no Mar Cáspio (que, de fato, é um grande lago, pelo qual se pode velejar para o Cazaquistão, Turcomenistão, Irã ou Azerbaijão, e só, nada além disso). E há várias bases em ou perto de Vladivostok na costa do Pacífico siberiano, que permanece congelado parte do ano, além das bases na Península Kamchatka, ao norte do Japão. A Rússia mantém uma modesta base naval em Tartus no litoral sírio, e uma base logística na Baía Cam Rahn, no Vietnã. Mas as únicas bases com rápido acesso ao Mediterrâneo e portanto aos oceanos Atlântico e Índico são as localizadas em e em torno de Sebastopol na Península da Crimeia no Mar Negro.

Diáspora russa nos países fronteiriços
(clique na legenda para aumentar)
Compare aos EUA, com suas mais de 30 bases navais gigantes nas costas leste e oeste e no Hawaii, e outras – algumas delas também gigantes – no Japão, na Itália, em Cuba, Bahrain, Diego Garcia e por todos os cantos! Há mais bases navais no estado da Califórnia, que em toda a Federação Russa.

Os EUA mantém pessoal militar estacionado em cerca de 130 países pelo mundo – em dois terços dos países-membros da ONU. A Rússia, por sua vez, tem forças militantes estacionadas em, pelas minhas contas, 10 países estrangeiros, oito dos quais são fronteiriços. E mesmo assim a mídia-empresa e os políticos norte-americanos apresentam a Rússia e especificamente o presidente Vladimir Putin como monstro ameaçador.

Exatamente como já fizeram com Saddam Hussein, aquela infeliz criatura manca demonizada como se fosse “um novo Hitler” – como os doidos por guerra sempre dizem, antes de atacar e bombardear qualquer um.

Qualquer aluno de universidade nos EUA, inscrito em programa interdisciplinar de “relações internacionais” (e educado, como é norma, por cientistas políticos da escola “realista”) concluirá que – deixando-se de lado a personalidade demonizada e vilanizada de Putin – qualquer líder russo sempre insistirá em defender e preservar seus ativos militares na Criméia. Qualquer um! Defender e reter aquela propriedade histórica não é nenhuma novidade. Quem delire com tirar os russos de lá (o que inclui os falcões chefes do Partido Republicano dos EUA) é irrealista, se não estiver em morte cerebral.

Como, algum dia, algum líder russo diria à truculenta Victoria Nuland “Ótimo, isso mesmo, vá em frente e ocupe a Crimeia”, entregando assim essa região da Rússia étnica – lócus da Guerra da Crimeia de 1853-56 e de algumas das mais sangrentas batalhas contra os nazistas na IIª Guerra Mundial? Que líder russo entregaria a Crimeia – lócus também do histórico encontro de Yalta, entre Stálin, Roosevelt e Churchill, em fevereiro de 1945, a forças abertamente hostis à Rússia? A forças que – para piorar tudo – estão prontas a associar-se a fascistas que, na IIª Guerra Mundial, colaboraram com os nazistas – inclusive cercando judeus para serem massacrados?


Conferência de Yalta (fev. 1945)
O artigo da Reuters acima citado confirma a intenção do regime que os EUA instalaram no poder em Kiev de apresentar seu pedido de integração formal à OTAN. Cita Oleksander Turchynov, presidente do conselho de segurança nacional do regime de Kiev, que afirmou ao Parlamento que a integração à OTAN seria “a única garantia externa confiável” para a “soberania e integridade territorial da Ucrânia”.

Como se a Rússia, que mantinha relacionamento cordial com o presidente deposto, Viktor Yanukovich, o qual – nunca será demasiado repetir – foi eleito em eleições reconhecidas como legítimas e democráticas em 2010, tivesse algum dia ameaçado a “integridade territorial” da Ucrânia ou de qualquer outro país!

Assim se comprova a validade da principal alegação dos russos, que insistem que toda a guerra dos EUA na Ucrânia tem a ver, só, com a OTAN – a mesma OTAN que, depois da promessa que George H. W. Bush fez a Mikhail Gorbachev em 1989, de que a aliança não avançaria “uma polegada” na direção das fronteiras russas, não faz outra coisa, desde 1999, que não seja avançar para cercar a Rússia europeia. OTAN que já inclui Estônia, Latvia, Lituânia, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Croácia e Albânia – países os quais, todos esses, pelas regras da associação, tem de pagar 2% dos respectivos PIBs, ao esforço de “mútua defesa”.

Se a OTAN não inclui os outros vizinhos da Rússia, Bielorrússia, Moldávia e Geórgia, não é por falta de tentar. A Dotação Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)] (“organização privada, sem finalidades de lucro” que o Departamento de Estado usa para financiar operações de ‘mudança de regime’ pelo mundo) já fez muito, tentando arrastar também esses países para dentro da OTAN. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, para todos os povos que vivem em país que têm fronteiras com a Rússia, sonhar com unir-se a uma aliança militar anti-Rússia!

Os “itens para divulgação” de Nuland, para consumo popular sobre a Ucrânia incluem a ideia segundo a qual os EUA “apoiam as aspirações europeias do povo ucraniano”. Nuland ignora o fato de que o país é fundamente dividido entre leste e oeste, e que no leste o “povo ucraniano” tem substanciais “aspirações russas”, não “europeias”, aspirações com fundas raízes históricas, que ela não compreende, nem, de fato, faz qualquer esforço para compreender. Nuland também oculta o fato de que o apoio dos EUA a “mudança de regime” na Ucrânia, que levou ao golpe de 22/2/ 2014, não se baseou, de fato, no apoio à entrada da Ucrânia na União Europeia.

A União Europeia é bloco comercial que desafia os EUA e o NAFTA. Num mundo de competição imperialista por mercados e recursos, a União Europeia e os EUA estão com muita frequência em campos opostos. Washington não está nada satisfeita com estados-membros da EU, Grã-Bretanha, França, Itália, Espanha e Luxemburgo já tenham, todos eles, se integrado ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)] liderado pela China, sobretudo porque se cria alta probabilidade de que a moeda chinesa se fortaleça e apresse o declínio do dólar como moeda internacional de reserva. O Congresso fumega de fúria, porque a UE proibiu importações dos produtos alimentícios geneticamente modificados da Monsanto. O Departamento de Estado dos EUA não está no ramo de promover a União Europeia, nem quer que países se alinhem àquele bloco econômico. Na Ucrânia absolutamente não se trata de nada disso.

H. Clinton e Yanukovich selam acordo em 4/2/12
Em 2013, o Departamento de Estado de Hillary Clinton teve de enfrentar a decisão, tomada pelo presidente (derrubado) da Ucrânia, Viktor Yanukovich, de recuar de um acordo que ele havia aceitado inicialmente, para integrar a Ucrânia à União Europeia. Os conselheiros disseram a Yanukovich que o regime de arrocho [orig. austerity] que a UE imporia à Ucrânia seria inaceitável; e que a Rússia oferecia generoso pacote de ajuda ao país, que incluía manter a oferta de gás a preços baixos.

A decisão de Yanukovich, de preferir a oferta dos russos foi baseada em lógica econômica e perfeitamente defensável em termos econômicos. Mas, imediatamente, os EUA puseram a soprar sobre as chamas de um movimento que mostraria a decisão de Yanukovich como traição à Ucrânia e aos ucranianos, e declaração de fidelidade à Rússia. Por isso Nuland tem de repetir tantas e tantas vezes a mentira sobre as “aspirações europeias”. Como se a Ucrânia algum dia tivesse deixado de ser parte da Europa! Como se “Europa” fosse alguma estrela radiosa e os horrendos atos de terror contra a República Socialista da Ucrânia, por fascistas europeus durante os anos 1940s, fossem irrelevantes. E como se a submissão a um governo de arrocho, de estilo grego e inspirado na “austeridade” europeia, fosse algum tipo de solução para os sofrimentos dos pobres ucranianos.

Verdade é que o que Nuland realmente pensa sobre “aspirações europeias” foram bem resumidos na conversa que teve, por telefone, com o embaixador dos EUA em Kiev, Geoffrey Pyatt, pouco depois do putsch no início de fevereiro de 2014. Muito provavelmente vazado pela inteligência russa, e jamais desmentido pelo Departamento de Estado, a gravação comprova que Nuland “selecionou” para o cargo o atual primeiro-ministro, Arseniy Yatsenyuk, descartando rivais dele, Oleh Tyanybok (líder do partido neonazista Svoboda, que publicamente atacara “a máfia Moscou-judeus que governa a Ucrânia”, e que sempre se refere a “moscovitas” e judeus como “escória”) e Vitali Klitschko, ex-lutador de boxe e ativista ocasional anticorrupção.

No telefonema, Pyatt diz a Nuland que “acho que estamos no jogo (tradução: o golpe está pronto). “A peça Klitschko é obviamente o elétron complicado, sobretudo o serviço de anunciá-lo como primeiro-ministro (...) Estou contente que você mais ou menos o pôs sob foco, no lugar que lhe cabe nesse cenário.” Parece que Pyatt já informara a Klitschko de que, apesar de algum apoio da UE, ele não seria candidato que os EUA aprovariam. (No telefonema, Nuland diz que [Klitschko] “precisa de mais tempo para fazer a lição de casa”).

Nuland quis marginalizar Klitschko, que, depois do golpe, como prêmio de consolação, foi nomeado prefeito de Kiev; quis ter certeza de que o ex-ministro da Economia, Yatsenyuk, que pregava severas medidas de arrocho e propusera a incorporação da Ucrânia à OTAN, sucederia Yanukovich.


telefonema acima (CC em inglês) não deixa dúvidas de que Nuland recrutara funcionários da ONU para que apoiassem a “mudança de regime”.

Já próximo ao fim da conversa, Nuland diz a Pyatt “OK” – sinalizando que os dois estavam de acordo quanto à estratégia geral. Na sequência, alude à bem-vinda cumplicidade de vários outros agentes ativos: Jeff Feltman, Robert Serry, e Ban Ki-moon.

Informa que Jeff Feltman “agora já conseguiu que os dois, Serry e Ban Ki-moon, concordassem que Serry pode vir na 2ª ou 3ª-feira” – para ajudar a por em andamento o golpe e validá-lo logo depois.

Quem é essa gente? Geoffrey Feltman, diplomata de carreira, era naquele momento subsecretário da ONU para Assuntos Políticos. Mas talvez seja mais conhecido pelos serviços que prestou como embaixador no Líbano entre 2004 e 2008, quando mandava tanto, que o Hezbollah – e vários outros partidos – referiam-se ao governo de Fouad Siniora como “o governo Feltman”.

Robert Serry é diplomata holandês; serviu na ONU como secretário-geral assistente para Gerenciamento de Crises no Exterior e Operações entre 2003 e 2005 e também fora embaixador da Holanda na Ucrânia. Empenhado advogado da participação da Holanda numa Guerra do Iraque construída sobre mentiras, sempre foi confiável aliado dos EUA.

Ban Ki-moon, claro, é o Secretário-Geral da ONU que, como Ministro de Relações Exteriores da Coreia do Sul, muito se empenhou para conseguir que a Coreia do Sul enviasse soldados para aquela mesma Guerra do Iraque baseada em mentiras. Sabemos, de Wikileaks, que, sob ordens dos EUA, Ban Ki-moon forçou o Conselho de Segurança da ONU a ignorar o relatório da Comissão de Inquérito da ONU sobre o bombardeio de Israel contra Gaza em 2008-2009, para não criar dificuldades para EUA e Israel. Não erra quem o declarar confiável fantoche dos EUA.

Já próximo ao final do telefonema interceptado, Nuland se despede: “Então, vai ser ótimo, acho, ajudar a colar a coisa toda e ter a ONU ajudando a colar também e, sacomé, foda-se a União Europeia”. Fodam-se, claro, se o que pensam sobre a Ucrânia difere do que nós pensamos.

Aí está o muito que essa gente respeita “aspirações europeias” de seja quem for.

No mesmo telefonema, Nuland observa que Yatsenyev “vai precisar de Klitschko e Tyahnybok do lado de fora, ele tem de falar com os dois quatro vezes por semana”. E eu pergunto o que é mais repugnante:

(a) o fato de o Departamento de Estado dos EUA tanto se empenhar em micromanobrar um golpe de mudança de regime contra estado soberano; ou

(b) ouvir essa neoconservadora Nuland, representando o governo dos EUA, ordenar que o fantoche do governo dos EUA mantenha ativa a rede de comunicação com um neofascista que fala de judeus como “essa escória”?!

Aí está essa mulher, deixando que o empenho na causa da OTAN derrote completamente a resistência contra o antissemitismo. Nuland deveria envergonhar-se dela mesma.

Victoria Nuland e os EUA apoiam neonazistas
Quando, em maio/2014, numa audiência na Câmara de Deputados, a Deputada Dana Rohrabacher mostrou-lhe fotos que comprovavam o envolvimento de neonazistas nos eventos da Praça Maidan, Nuland admitiu que “havia muitas cores envolvidas na Ucrânia, inclusive cores muito feias”. Não se referia às fotos em que ela própria aparece com Tyahnybok, toda sorrisos; nem às ordens que deu a “Yats” para que falasse quatro vezes por semana com os nazistas antissemitas.

O artigo da Radio Free Europe referenciado acima, começa assim:

O controverso líder do grupo paramilitar e ultranacionalista ucraniano Setor Direita foi nomeado conselheiro do exército. O porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksey Mazepa, anunciou dia 6/4/2015, que Dmytro Yarosh atuaria como “um elo entre os batalhões de voluntários e o Comando Militar”. As milícias do Setor Direita de Yarosh dizem contar com cerca de 10 mil membros, mas até agora não há qualquer registro desses milicianos como associados ao governo, como outras forças paramilitares já fizeram. A milícia do Setor Direita está combatendo ao lado de soldados do governo ucraniano contra separatistas pró-Rússia, na região leste do país.

O partido neofascista Setor Direita (Pravy Sektor) foi formado em 2013 durante os protestos de Maidan em Kiev, reunindo vários grupos alinhados com o partido. Com vários daqueles partidos tentando conquistar respeitabilidade internacional, inclusive em reuniões noticiados de seus líderes com Nuland e John McCain, dentre outros, o Setor Direita operava como o contingente ativista mais violento. Com certeza quase total, esses neofascistas estiveram envolvidos nos ataques de atiradores ocultos contra a multidão reunida na praça, que foram atribuídos ao governo e usados para justificar o golpe.

Agora, o líder daqueles neonazistas é premiado com um cargo no governo, para coordenar as ações das milícias de extrema direita (a mais conhecida das quais é o Batalhão Azov, que exibe nos uniformes insígnias dos nazistas alemães e atacou vários alvos civis no leste da Ucrânia). Não são evidências mais do que suficientes para comprovar a veracidade da acusação que os russos fizeram, de que há forte componente fascista no governo que os EUA construíram para Kiev?

A situação é complicada. As tropas neofascistas de choque usadas para desencadear o putsch são contrárias à incorporação do país à União Europeia. Não querem saber da tolerância europeia com a diversidade e nas leis para a imigração. São ativos militantes do Poder Branco, que se manifesta em seus vários símbolos, que incluem bandeiras dos confederados norte-americanos, algumas cruzes celtas e suásticas. Talvez não aprovem nem a incorporação do país à OTAN. Mas, como indica o artigo da Radio Free Europe, o apoio deles é muito valorizado e considerado muito necessários pelo regime. Assista vídeo (em inglês) a seguir sobre o apoio dos EUA aos NAZISTAS da Ucrânia:


Pouco importa que Dmytro Yarosh seja procurado pela Interpol for “incitamento público a atividades terroristas”, quando ameaçou destruir os gasodutos russos na Ucrânia. Yarosh é elemento inafastável da equipe, e Washington apoia a equipe. E a mídia-empresa que o Departamento de Estado confiscou jamais deixa transparecer nem suspeitas de que haja fascistas incorporados ao grupo “de Nuland”, ou algum esforço clandestino para cercar a Rússia. A coisa é só a “liberdade” ucraniana, apoiada pelo bom coração congênito de Nuland & seu grupo, gente que, em tempos recentes, já promoveu as inesquecíveis “libertações” do Afeganistão, Iraque e Líbia.

Há em Kiev um governo com tendências fascistas. Foi posto lá pelo Departamento de Estado dos EUA. Quer ser incorporado à OTAN e enfraquecer a Rússia – se possível restabelecendo o controle sobre a Crimeia e expulsando de lá a frota russa. A Alemanha opôs-se à admissão dos nazifascistas na aliança, e não é provável que aconteça no curto prazo.

Mas com os doidos que hoje comandam o Departamento de Estado nos EUA, sempre empenhados em promover mentiras e mais mentiras sobre o que realmente aconteceu na Ucrânia ao longo dos últimos dois anos – narrativa que uma mídia-empresa desnorteada e incompetente repete sem parar – pode bem acontecer que um dia se encontrem soldados norte-americanos e nazistas do Batalhão Azov, lado a lado, combatendo contra o povo das Repúblicas Populares de Luhansk e de Donetsk.

Nada disso terá a ver com “liberdade”, como tampouco as últimas guerras nas quais os EUA estiveram envolvidos tiveram qualquer coisa a ver com “liberdade”. Trata-se aí, sempre, de expansão imperial, a qual, por mais que possa interessar ao 0,01% que governa os EUA, absolutamente não interessa nem a você nem a mim.
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[*] Gary Leupp é professor de História na Universidade Tufts, e dá aulas também no Departamento de Religião. É autor de Servants, Shophands and Laborers in the Cities of Tokugawa JapanMale Colors: The Construction of Homosexuality in Tokugawa Japan; e Interracial Intimacy in Japan: Western Men and Japanese Women, 1543-1900É autor de um dos ensaios recolhidos em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).
Recebe e-mails em gleupp@tufts.edu

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Mas... Que culpa teria o Irã pela agitação dos xiitas em todo o Oriente Médio?!

8/4/2015, [*] Gary LeuppCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Troncos falantes das TVs
Uns poucos minutos à frente das telas de TV com os noticiários das redes a cabo nos EUA bastam para convencer o telespectador de que o Irã não faz outra coisa que não seja trabalhar para cavar um império para si, no Oriente Médio. É ideia quase tão absurda quanto a ideia de que Vladimir Putin anseie por recriar o império dos czares.

Os troncos falantes, hemicorpos formados de tronco e mesa, que se veem na telinha – e que nunca, em tempo algum, mencionam qualquer das muitas guerras de agressão feitas por Israel desde quando Israel foi concebida (e menos ainda falariam das bombas atômicas de Israel), ou do padrão da expansão da OTAN (que acompanha a expansão imperial dos EUA), estremecem de indignação cada vez que “noticiam” mais um embarque de armas iranianas destinadas a xiitas em qualquer lugar do mundo, ou algum esforço russo para conter a expansão de uma aliança militar agressiva e hostil bem junto às suas fronteiras.

Fato é que desde 1730 não se tem notícia de o Irã invadir ou tentar invadir país algum. Naqueles anos, Nader Shah fez guerra simultaneamente contra dois impérios, o Otomano e o Mughal; e estabeleceu um novo império efêmero que se estendia do Cáucaso ao Vale do rio Indo. Em tempos modernos, o Irã foi vítima de repetidos ataques e violências contra sua soberania – pelos britânicos, pela Rússia czarista, pelo Império Otomano, pela União Soviética logo depois da IIª Guerra Mundial, e pelo Iraque (com bênçãos e apoio dos EUA) de setembro de 1980 a agosto de 1988. Mas jamais atacou diretamente qualquer dos seus vizinhos.

Em 1953, os EUA planejaram e executaram um golpe contra o Primeiro-Ministro democraticamente eleito no Irã (para deter seus planos de nacionalizar a indústria do petróleo). E os EUA impuseram ao povo iraniano a ditadura tirânica, brutal do Xá, até 1979. Nesse ano, pela revolução mais genuinamente popular e de raízes populares da história do Islã, o Xá foi derrubado. Desde então, os EUA mantém o Irã em sua alça de mira, aplicando-lhe sanções econômicas, congelando depósitos nos EUA, até, nos anos 80’s, fornecendo ao Iraque a mais avançada inteligência militar e de satélites, que serviram a Saddam Hussein na guerra que fazia contra o Irã. Tudo isso, para punir o povo iraniano por ter tido a audácia de (pelo menos tentaram) livrar-se das algemas da hegemonia imperialista norte-americana.

Recentemente, como se lia na manchete de USA Today:

Liga Árabe acerta-se para usar força militar contra o Irã [orig. Arab League agrees on military force to combat Iran.

Mas por que seria necessário que essa liga (são 22 estados, todos apoiados pelos EUA) combatesse país pacífico que não agredira ninguém? Porque, como disse Nabil Elaraby, o egípcio que é hoje Secretário-Geral da Liga Árabe, durante recente conferência de imprensa, o Irã interveio “em vários países”.

Esq para Dir: Pres. do Egito, Abdel-Fattah al-Sissi; Pres. sudanês, Omar al-Bashir; Emir do Kuwait, Cheque Sabah Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah; Rei da Arábia Saudita, Salman al-Saud e o presidente que renunciou do Iêmen, Abdel Rabbo Mansour Hadi, saindo da reunião da Liga Árabe em Sharm el-Sheikh - 29/3/2015
Como teria sido a intervenção? Por que contribuiu com dinheiro e armas, para as forças libanesas que lutavam no sul do Líbano contra a agressão e a ocupação israelense? E por que a Liga Árabe veria aí alguma coisa de errado? A Liga Árabe opor-se-ia talvez ao Hezbollah, talvez o mais poderoso partido libanês, que arregimentou todo o prestígio e a importância que tem hoje porque derrotou os invasores-ocupantes israelenses e os expulsou do Líbano em 2000?

O Irã interveio na Síria, porque apoia o governo internacionalmente reconhecido do Presidente Al-Assad, que enfrenta guerra que lhe fazem uma oposição armada controlada por forças da Frente al-Nusra da al-Qaeda e o odioso Estado Islâmico? Se for assim, interveio mais que os EUA – que não se cansam de ladrar ordens para que Bashar al-Assad “saia de lá”, enquanto fornece armas à oposição, muitas das quais vão diretamente para as mãos do ISIL) e abertamente discute seus planos para criar na Jordânia um exército de mercenários para derrubar o governo sírio?

Nem faz muito tempo, os EUA ameaçavam atacar a Síria com mísseis, sob o muito duvidoso pretexto de que o governo sírio teria usado armas químicas contra o próprio povo e assim se qualificava para receber castigo exemplar, que só lhe poderia ser aplicado pela nação “excepcional” e policiais do mundo.

Obama estava a um passo de puxar o gatilho, quando a competente diplomacia russa prendeu-lhe a mão. Teria o Irã algum dia agido com tal irresponsabilidade, como os EUA – no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Líbia, no Paquistão, no Iêmen, e onde quer que metam os pés?

Foi talvez intervenção do Irã no Iraque – nação orgulhosa de seu passado, hoje miseravelmente destruída e humilhada pela invasão e ocupação sádicas, pervertidas dos EUA e que agora enfrenta o pesadelo do Estado Islâmico, obviamente criado pela destruição estúpida do estado secular baathista – a ajuda que deu ao governo que lá está (posto lá pelos EUA, não por Teerã) contra o avanço dos doidos do ISIL? E se foi, por que os EUA agradeceram tanto (secretamente) por aquela intervenção, depois que as tropas treinadas por instrutores norte-americanos mostraram-se impotentes contra degoladores de crianças?

E teria o Irã intervindo no Bahrain, país onde, durante a Primavera Árabe de 2011, houve gigantescas manifestações pacíficas, sistematicamente esmagadas pelo exército saudita? A oposição no Bahrain cresce entre os xiitas, que são 65% da população da ilha-nação, governada por um monarca sunita cujo regime oprime a religião da maioria. Mas não há nenhum sinal, ali, de envolvimento de iranianos. Nem seria necessário. O descontentamento e a oposição nasceram das circunstâncias locais.

Teria talvez o Irã intervindo no Iêmen, país cuja história moderna foi modelada pelas rivalidades entre britânicos, sauditas e soviéticos, cuja complexa configuração étnico-religiosa inclui população xiita acentuadamente minoritária (mal chegam a 35%) que, de algum modo é simpática ao Irã governado por xiitas? O Iêmen foi forçado pelos EUA, no final de 2001, a cooperar com a tal “guerra ao terror”, que era rejeitada, segundo conhecida pesquisa, por 99% da população iemenita?

Pode haver alguma substância na alegação de que Teerã está apoiando materialmente os houthis. Em 2013, o barco iraniano “Jihan 1” foi abordado na costa do Iêmen, e nove homens da tripulação a bordo foram presos acusados de contrabando. O cargueiro levava foguetes Katyusha, mísseis terra-ar sensíveis ao calor, granadas disparadas por foguetes, explosivos, munição e óculos para visão noturna fabricados no Irã. Mas oito dos nove presos foram logo libertados; soube-se que o navio viajava para a Somália; e o Irã negou qualquer responsabilidade.

É claro que os Guardas Revolucionários do Irã estão ajudando materialmente os houthis, e surpresa seria se não os ajudassem. Quantos movimentos de oposição armada os EUA já apoiaram, desde a “Frente Revolucionária Cubana Democrática” derrotada vergonhosamente na Baía dos Porcos em 1961, ao Partido Democrático Curdo peshmerg  no Iraque nos anos 1970s, aos “Contras” na Nicarágua e os Mujahedeen no Afeganistão nos anos 1980s; e ao Conselho Nacional de Transição na Líbia em 2011 e o hoje já reduzido a quase nada e em desintegração “Exército Sírio Livre” que guerreava contra o presidente Assad?

Em setembro passado, quando os houthis tomaram a capital Sanaa (praticamente sem luta e com apoio visivelmente generalizado entre a população), o governo e a imprensa iranianos exultaram. Podem ter considerado que um governo dos houhtis seria uma volta ao status quo que havia entre 1918 e 1962, quando o norte do Iêmen era governado por imãs xiitas. Nada deviam ao distante Irã e desde os anos 50s recorriam ao Egito, em busca de apoio.

Iêmen - protesto dos houthis  (2014)
Mas agora, a Arábia Saudita – a qual, em sua intolerância fanática contra a “heresia” xiita, e por causa do medo-pânico que inspira à monarquia reinante os 25% de xiitas que há no país, até já sinalizou que está disposta a cooperar com Israel para derrubar o regime de Teerã – tenta mostrar os eventos na nação vizinha como se fossem uma conspiração de iranianos, mancomunados com os heréticos locais, dentro do reino saudita.

A “coalizão” liderada pelos sauditas que se formou para combater os houthis é uma coalizão de sunitas fanáticos, obcecados com a urgência de conter o crescente poder dos xiitas na região. Essa é a questão central aqui. O Irã é, de longe, o maior estado governado por xiitas em todo o mundo, e embora a política externa iraniana não seja modelada por nenhuma estratégia pan-xiita, o país é apresentado pelos intransigentes inimigos dos xiitas como quartel-general dos avanços xiitas em todo o mundo.

De fato, o xiismo pelo qual rezam os houthis (uma das três modalidades de xiismo praticada atualmente no Iêmen) difere substancialmente da religião prevalente no Irã. Muitos xiitas iemenitas são zaidistas; a maioria dos xiitas iranianos são “seguidores dos 12 imãs” [ing.Twelvers]. São grupos que têm ideias diferentes sobre as origens da autoridade religiosa, sobre o papel das figuras históricas e sobre o conceito de “ocultação” (ghaybah) do Mahdi (figura messiânica descendente do profeta que um dia voltará para estabelecer paz e justiça no mundo).

As diferenças religiosas entre eles são tão significativas como as que há entre luteranos e batistas, duas modalidades do protestantismo (igualmente opostos aos católicos romanos), mas que nem sempre foram aliados ao longo da história. Pretender que todos os xiitas, do Afeganistão ao Iêmen estariam mancomunados para estabelecer um novo império persa é rematada estupidez.

Com certeza há operante aqui um importante fator de medo grave. Talvez 25% dos 16 milhões da população da Arábia Saudita são crentes xiitas. Estão concentrados no leste do país (a parte rica em petróleo), numa fatia de território de frente para a ilha-nação do Bahrain, cuja população é majoritariamente xiita. Como os xiitas do Bahrain, os xiitas da Arábia Saudita também abraça a versão “dos doze imãs” do xiismo que prevalece também no Irã. (As fés zaidista e ismaelita do xiismo florescem ao longo da fronteira com o Iêmen.) Os wahhabistas que governam a Arábia Saudita são opressores, historicamente, dessas minorias, a ponto de destruírem seus locais sagrados. Clérigos influentes no estado teocrático saudita repetidamente os denunciam como apóstatas, traidores do Islã.

Na 5ª-feira passada (2/4/2015), uma manchete que li dizia: “Imã da grande mesquita em Meca conclama para guerra total contra os xiitas”. Segundo essa matéria, um clérigo sunita saudita de nome Abdul Rahman al-Sudais disse, num vídeo, que:

Nossa guerra contra o Irã, proclamem em alta voz, é guerra entre sunitas e xiitas. Nossa guerra contra o Irã (...) é realmente guerra sectária. E se não é sectária, nós a converteremos em guerra sectária (...). Juro por Alá que judeus e cruzes [cristãos] estão com os dias contados. O profeta disse que Roma seria conquistada (...). Nosso desacordo com os Rafidha [“os que rejeitam Alá”, termo depreciativo para “xiitas”] não será removido, nem nosso suicídio na luta contra eles (...) enquanto houver um deles sobre a face da Terra (...).

Abdul Rahman al-Sudais
Eu diria que é mensagem que perfeitamente clara.

Alguém dirá que os EUA nada têm a ver com essa luta. E nem deveriam ter. Mas o caso é que os EUA têm tudo a ver com essa luta! CNN e MSNBC não se cansam de repetir que

(...) acredita-se que o Irã esteja apoiando os rebeldes houthis no Iêmen.

Como assim “acredita-se”? O que significa “acredita-se”? As mesmas pessoas também nunca se cansam de repetir que “acredita-se” que o Irã tem armas atômicas, embora toda a comunidade de inteligência dos EUA não se canse de repetir que ninguém que seja bem informado acredita na existência dessas armas. Esse “acredita-se” da CNN e MSNBC deve ser traduzido como “queremos que você acredite”. É simples.

Fica-se com vontade de perguntar QUEM “acredita-se” que o Irã esteja apoiando os houthis? Citei acima algumas provas não conclusivas. Mas aqui quem fala é a voz da verdadeira convicção, é o eco dos “pontos para divulgação” do press-release do Departamento de Estado. Quantos norte-americanos acreditariam em tal coisa se a coisa não fosse repetida e repetida e repetida, sem descanso e sem qualquer tipo de comprovação?

Em telegrama vazado por WikiLeaks, datado de 9/12/2009, o embaixador dos EUA no Iêmen, Stephen Seche, relatava, como tema corriqueiro:

Ao contrário do que diz o governo do Iêmen, que o Irã estaria armando os houthis, a maior parte dos analistas relatam que os houthis recebem as armas que têm do mercado negro iemenita e, até, do próprio governo do Iêmen.

ISSO, precisamente, é o que realmente se sabe. Quem ganha com fazer-crer em outras versões que discrepam dos fatos?

Minha opinião é que os que veem as coisas em termos religiosos (como os governantes sauditas), e temem a possibilidade de qualquer pluralismo religioso dentro do mundo islâmico, e o razoável empoderamento dos xiitas ao longo do litoral da Península Arábica, beneficiam-se de massiva campanha de propaganda que pintam todos os xiitas como se, todos eles, tivessem associações com o Irã.

Mais uma vez, como na Guerra Fria, trata-se de desqualificar todos os tipos de gente e de movimentos, acusando-os de receberem apoio dos soviéticos ou dos chineses. E os que nesse país querem atacar o Irã, e vivem a procurar pretextos para esse ataque, embarcam logo em qualquer acusação que os sunitas façam sobre “agressões” iranianas (xiitas), para ter o que dizer (e repetir, repetir, repetir) a favor de os EUA também se envolverem nos ataques contra a República Islâmica.

Claro que os xiitas do Irã sentem-se indignados ante a opressão de seus irmãos de fé em muitos outros países do Oriente Médio. Mas a resposta deles são ameaças tonitruantes a favor de um novo império, ou são simples gestos de solidariedade e simpatia? Não se trata de os capitalistas em Teerã e Masshad sonharem com os lucros que possam advir da ajuda que dão a aliados na Síria, no Líbano ou onde for.

O acordo anunciado dia 2/4/2015 entre as P5+1 e o Irã é obstáculo importante aos planos dos EUA de irem à guerra contra o Irã encorajados por aqueles estranhíssimos neoaliados, israelenses e sauditas. É sinal de que os neocons que dominaram toda a política externa dos EUA mesmo com a era Obama já bem adiantada, sempre em aliança com políticos que tem bases na direita cristã–sionista norte-americana, estão encontrando menos facilidade para demonizar e distribuir informação falsificada, no esforço para alcançar o objetivo que mal conseguem esconder: a total destruição do mundo muçulmano, e a rendição mais abjeta ao Império dos EUA.

Israel e Arábia Saudita aliados contra o Irã
Mesmo assim, com o odioso Netanyahu a empurrá-los, eles tentam. E isso, por estranho que seja, implica os sauditas pintarem, como se fossem revelações as mais espantosas e sensacionalistas, o que não passa de contatos regulares e simples entre o Irã e várias comunidades xiitas por toda a região.

O sionista sarcástico dá a mão ao salafista e à sua cultura de antissemitismo, e põem-se contra um país como o Irã que, por força de sua Constituição, assegura pleno direito de exercer a própria religião e dá, às minorias religiosas, espaço de representação no Parlamento.

O Irã tem de ser apresentado como país totalmente entregue ao esforço de expansão, mesmo que não haja nem uma mínima prova disso. E mesmo que os EUA desistam da histeria nuclear, superando nesse ponto os medos do Galinho [orig. Chicken Little (O fim do mundo está próximo!”)] do seu aliado (contra o Irã), mesmo assim os EUA continuam a colaborar para vilificar o Irã, apresentando-o como país com aspirações imperiais.

A juventude iraniana bem educada troca tuítos sobre o que dizem os EUA, e riem da manifesta ignorância sobre o país deles. Eles sabem que os aiatolás deles nada têm a ver com os baathistas na Síria, com o Hezbollah no Líbano, com os ativistas bahraini ou com militantes houthis no Iêmen.

Mas eles sabem como os maniqueus em Washington, cujos neurônios são atados entre si para só pensar em termos de “o Bem (eles) versus o Mal (o resto do mundo)”, estão felizes por pegar o mote dos sunitas sauditas seus amigos, que querem esmagar a presença xiita onde ela apareça com destaque. Os sauditas, em troca, confiscaram a imprensa-empresa norte-americana e a puseram a repetir sem parar que “acredita-se” que o Irã “é” fonte de todo o mal no Oriente Médio. E nunca, em tempo algum, aquela imprensa-empresa e aquele reino saudita ou os maniqueus de Washington dão sinal de terem algum conhecimento ou alguma intuição aproveitável sobre um conflito histórico significativo entre comunidades religiosas no Oriente Médio.
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[*] Gary Leupp é professor de História na Universidade Tufts, e dá aulas também no Departamento de Religião. É autor de Servants, Shophands and Laborers in in the Cities of Tokugawa JapanMale Colors: The Construction of Homosexuality in Tokugawa Japan; e Interracial Intimacy in Japan: Western Men and Japanese Women, 1543-1900É autor de um dos ensaios recolhidos em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).
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