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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

John Cleese: “Níveis de alerta na Europa – 2013”

2/6/2013, [*] John Cleese, 21st century wire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Cleese
Os ingleses estão sentindo que os recentes eventos de guerra no mundo podem respingar neles e, portanto, elevaram o nível do alerta de perigo, de “Petulantemente Irritante” para “Petulantemente Entediante”. Mas, sendo necessário, o nível de segurança pode ser elevado para “Não Pertubem” ou, mesmo, para “Você Sabe com Quem Está Falando?” Não se ouve alerta de “Você Sabe com Quem Está Falando?” na Inglaterra desde a blitz, em 1940. Os terroristas foram reclassificados, de “Entediantes” para “Entediantes Sanguinários, Malditos Sejam”. A última vez que os britânicos lançaram alarme de “Entediantes Sanguinários, Malditos Sejam” foi em 1588, quando colidiram com a Armada espanhola.

Os escoceses elevaram o nível de ameaça local à segurança, de “Tô Puto”, para “Vampegá Esses Feládapúta”. Eles só têm esses dois níveis. Por isso, precisamente, os escoceses são postos na linha de frente do exército britânico há 300 anos.

John Cleese
O governo francês anunciou ontem que elevou o nível de alerta antiterrorismo, de “Corra” para “Esconda-se”. Só há mais dois níveis superiores de alerta antiterrorismo na França: “Queremos Colaborar” e “Nos Rendemos”. O nível mais alto de alerta antiterrorismo na França tornou-se necessário, por causa de recente incêndio que destruiu a fábrica francesa de bandeiras brancas, o que paralisou a capacidade militar do país.

A Itália também subiu o nível de alerta, de “Berre o Mais Alto Possível” para “Atenção à Pose de Militar para a Fotografia”. Acima desses, só restam “Operação de Combate deu Errado” e “Mudar de Lado”.

Na Alemanha, o alerta subiu de “Desdenhosa Arrogância” para “Vestir o Uniforme e Entoar Marchas Militares”. Acima desses, para níveis crescentes de ameaça iminente, há ainda “Invada País Vizinho” e “Perca a Guerra”.

John Cleese
Os belgas, por sua vez, fizeram feriado, como sempre. A única ameaça que preocupa os belgas é que a OTAN mude-se de Bruxelas.

Os espanhóis estão excitadíssimos, agora que seus submarinos novos estão prontos. Os submarinos espanhóis, de design arrojado, têm fundo de vidro transparente, para que a nova Marinha espanhola possa ver, in loco, a beleza da velha Marinha espanhola.

A Austrália, daquela “uma espécie de ingleses”, por sua vez, subiu o nível de alarme antiataques de “Tudo Bem” para “Vai Ficar Tudo Bem, Cara”. Restam mais dois níveis: “Uau! Acho que Teremos de Adiar o Churrasco no Fim-de-semana” e “O Churrasco foi Cancelado”. Até hoje, jamais foi decretado esse nível extremo de ameaça.

Saudações, 
John Cleese

Um último pensamento: A Grécia está em colapso, os persas (iranianos) estão perdendo a paciência e Roma é um caos. Bem-vindos de volta a 430 AC.
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[*] John Cleese nasceu em Weston-super-Mare, Somerset, Inglaterra em 27 de Outubro de 1939; é  comediante, ator, produtor e escritor. Membro fundador do grupo Monty Python juntamente com Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Jones e outras participações como: Terry Gilliam (ex-cartunista da revista MAD), Carol Cleveland, Neil Innes e Connie Booth, ex-mulher de John Cleese.

domingo, 1 de setembro de 2013

Que vida dura, dos trilhonários do AIPAC!


Os judeus dos EUA empurram Obama para a guerra

1/9/2013, Andrey Melekhov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama, estafeta do AIPAC
A vida é coisa esquisita! Sobretudo se você é trilhonário norte-americano do Comitê EUA-Israel de Assuntos Públicos, American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Por um lado, você quer ficar cada vez mais rico. Por isso os EUA usam tão freneticamente as campanhas militares de curto prazo, sempre vitoriosas: para lembrar a todos quem é o patrão do mundo. E nesse campo, o capital reunido no AIPAC não se dá jamais por satisfeito: a super produção é proibida; o que eles produzem tem de ser consumido, para ser rapidamente reposto, vale dizer, armas e munição. São rápidos, por isso nos planos para consumir armas e munição redundante, além de fazer seu show pelo mundo, em regiões ricas em petróleo, gás e outros itens.

Meio sempre útil e à mão para consumir bombas e até caríssimos Tomahawks e fazer baixar os estoques no mundo é despejá-los sobre a cabeça de aborígenes tolos o suficiente para não ver quais são os interesses dos EUA.

Por outro lado, se você é norte-americano trilionário membro do AIPAC, você é obcecado defensor de Israel. (...)

Há aí um paradoxo: os israelenses dependem dos EUA, façam o que fizerem, mas todos os dias, e cada vez mais, vão-se tornando vítimas da ganância e das ambições de seus patrícios co-norte-americanos do AIPAC que consideram os EUA exclusivamente como instrumento do gerenciamento financeiro global. É o que os eventos na Síria comprovam.

A guerra no país vizinho já tem dois anos, mas nunca, até agora, ameaçou diretamente a segurança de Israel. Porém, no instante em que Washington tornou pública sua intenção de usar força militar e fazê-lo a favor (imaginem só!) dos arqui-inimigos de Israel – os islamistas – imediatamente os cidadãos israelenses, que têm lastimável experiência de outras aventuras dos EUA, puseram-se a comprar máscaras antigás e preparar abrigos antibombas e calafetar janelas e verificar o funcionamento dos sistemas de alarme para o caso de ataque químico.

O AIPAC diz que: “O estado judeu é nosso único aliado e o único país do mundo cujos cidadãos estão recebendo máscaras antigás em massa”. Quer dizer, todos têm de defender Israel. É fácil ver que o AIPAC está preocupadíssimo. Mas nenhum judeu israelense jamais teria de cheirar o perfume das especiarias asiáticas através dos filtros de uma máscara antigás, se os trilionários do AIPAC não metessem o nariz em tudo, pelo mundo, e se não usassem seus Tomahawk para meter-se em assuntos de outros países, fingindo que administram conflitos que eles mesmos provocaram.

O paradoxo mais espantoso nessas circunstâncias é que os israelenses sempre estiveram expostos, como agora estão, ao risco de se tornarem vítimas de armas químicas, caso aliados dos EUA – os islamistas – decidissem usá-las, como as usaram agora, recentemente. (Ninguém concebe que governantes sírios se exporiam ao risco de ter de encarar um tribunal internacional, acusados de crimes contra a humanidade).

Amos Yadlin
A situação não poderia ser mais favorável para os radicais islamistas que acorrem à Síria, respondendo à convocação dos EUA para defenderem “a democracia”. Quando tiverem lançado um ou dois ataques com gás sarin contra Israel, então terão criado, para o ocidente, o contexto indispensável para derrubar o governo legal da Síria, por ação militar. Simultaneamente, os mesmos islamistas radicais muito apreciarão assistir pela televisão aos israelenses, que eles odeiam figadalmente, nas vascas da morte...

Israel compreende isso? Que ninguém duvide: compreende perfeitamente. Os mais importantes especialistas do Instituto para Estudos de Segurança Nacional de Israel, Amos Yadlin e Avner Golov explicaram claramente, em artigo do dia 29/8/2012, intitulado “Intervenção Militar dos EUA na Síria: o interesse estratégico maior, por trás da ação punitiva” [orig. “US Military Intervention in Syria: The Broad Strategic Purpose, Beyond Punitive Action”, INSS Insight, n. 459, 29/8/2013:

O principal temor é que a ação norte-americana na Síria venha a ter consequências não esperadas que expandam o objetivo e a duração de uma operação militar. Por exemplo, qualquer operação militar contra Assad pode fortalecer as organizações jihadistas.

Avner Golov
Mas... vejam só! Os militares norte-americanos não fazem outra coisa, há dois anos, que repetir exatamente isso! Os militares norte-americanos têm alertado seguidas vezes sobre, precisamente, esse risco. [1] Além dos muitos alertas que vieram de países considerados os principais opositores ao modo como os EUA tentam implementar sua política para o Oriente Médio, Rússia e China. E de nada adiantaram tantos alertas.

Paira no ar uma impressão de que os que governam “a única potência global” são arrastados pelos próprios planos e não há o que os detenha. Não, pelo menos, com armas convencionais. Só a bomba atômica consegue impedir as agressões dos abutres norte-americanos. Por isso, precisamente, o programa nuclear iraniano tanto irrita Washington. E os trilhonários do esquizofrênico AIPAC, apesar dos temores hoje em Israel, continuam a empurrar Washington na direção do conflito armado. (...)

Assim, afinal, se pode começar a compreender melhor as declarações do AIPAC: querem atacar imediatamente a Síria, antes que o Irã construa capacidade nuclear. Seria uma lição para os persas: a tentativa síria de deter os EUA terminou como tudo termina(ria), em intervenção armada. Como se os EUA cogitassem de deixar em paz o Irã, se não construir capacidade nuclear. Aí está o exemplo do Iraque, que conta outra história.

O mundo caminha para o caos. A razão é o vai-e-vem na cabeça da elite que governa os EUA, que já começam a bater cabeça entre elas mesmas, na sanha de dominar o mundo.

Um dia, armam islamistas para derrotar a União Soviética no Afeganistão. Em seguida, são vistas em prantos sobre as ruínas das torres gêmeas destruídas por jihadistas em New York. Um dia, põem a Fraternidade Muçulmana na presidência do Egito. Em seguida o depõem, com a ajuda de um golpe militar. Agora, Washington provoca islamistas para que ataquem a Síria, sem saber, as próprias elites governantes norte-americanas, o que fazer se os seus novos “aliados” usarem o gás sarin que lhes chegou tão facilmente, para envenenar israelenses, europeus e os próprios norte-americanos.


Washington não entende que é a política imperial dos EUA que empurra as nações a procurarem meios possíveis para se autodefender, inclusive armas de destruição em massa?
Washington não entende que foi a política norte-americana que fuzilou o “reset” com os russos? Ou que as contradições entre China e EUA são exacerbadas pelas tentativas norte-americanas para converter competição econômica em ação militar e confronto político?

Os EUA forçam outras nações a entrar na corrida armamentista e unir esforços para manter à distância os enlouquecidos trilhonários norte-americanos-israelenses do AIPAC. Por quanto tempo mais sobreviverá a loucura geral? O que acontecerá se mais dia,menos dia, Washington pisar “a linha vermelha” da paciência do mundo, depois de ter atropelado todas as oportunidades diplomáticas?

Ainda não aconteceu. Com isso em mente, difícil resistir à tentação de dizer ao povo dos EUA: acordem, contenham, pelo menos, esse “Prêmio Nobel [Bomba!] da Paz” aí, de vocês! Será que já não têm aí problemas que chegue? Será que o presidente eleito de vocês nada tem com que se preocupar, das dificuldades dos norte-americanos, a ponto de só pensar e falar sobre o destino da “democracia” no Oriente Médio?

E se tanto só pensa nisso, como é possível que a melhor solução que achou, até agora, seja aliar-se à Al-Qaeda, à Fraternidade Muçulmana e a outros jihadistas mantidos e armados com dinheiro dos cidadãos contribuintes norte-americanos? Se os EUA não estiverem tentando abocanhar as riquezas do Irã, que diferença fará se o Irã for nuclear ou não? E Israel, se parar de roubar terras palestinas e de matar palestinos, talvez até ainda consiga viver lá mesmo, e em paz. Se Israel sente-se ameaçada hoje, quem a ameaça são os mesmos islamistas que o presidente Obama continua a alimentar e armar à custa do minguado Tesouro dos EUA, com a incansável ajuda dos trilhonários do AIPAC.

Acordem, povos dos EUA! Ainda não é tarde demais!



Nota dos tradutores

[1] Hoje, o movimento dos Veteranos da Inteligência em Defesa da Sanidade (orig. Veteran Intelligence Professionals for Sanity) enviou carta aberta ao general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, em que pedem que, se os EUA atacarem a Síria, contra todos os alertas que o general encaminhou a Washington sobre os riscos dessa ação militar, o general Dempsey alegue “impedimento de consciência” para continuar naquele comando, e renuncie.

sábado, 15 de junho de 2013

Obama começa a destruir a Síria

14-16/6/2013, Franklin Lamb, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Franklin Lamb
Beirute – Por que Obama declarou guerra à Síria? A resposta curta é: Irã e Hezbollah, segundo fontes do Congresso dos EUA:

A vitória do exército sírio em al-Qusayr foi mais do que o governo Obama pode aceitar, dada a posição estratégica da cidade na região. A vitória das forças de Assad nessa cidade acrescenta a Síria à lista de vitórias do Irã, começando com o Afeganistão, Líbano, Iraque. Além da crescente influência do Irã no Golfo.

A perda de al-Qusayr perto da fronteira Síria-Líbano foi estrategicamente fatal para a derrota dos "rebeldes" da OTAN. A rota Damasco-Homs-Aleppo ficou aberta para as tropas de Assad

Outras fontes dizem que Obama não queria invocar ajuda militar direta aos rebeldes que lutam para derrubar o governo de Assad, nem queria ver militares norte-americanos na Síria, e por várias razões. Dentre elas, a falta de apoio, dentro dos EUA, para mais uma guerra norte-americana no Oriente Médio; a evidência de que não há alternativa viável para o governo de Assad; a posição da comunidade de inteligência dos EUA, do Departamento de Estado e do Pentágono, para quem uma intervenção na Síria teria consequências potencialmente desastrosas para os EUA e arrasaria qualquer influência positiva que os EUA ainda tenham conseguido preservar na Região.

O pacote de "democracy made in USA" de Obama... O mesmo da Líbia...

Em resumo, é a opinião de todos que entendem que qualquer envolvimento dos EUA na Síria levará a resultado ainda pior que o que se viu no Iraque; que intensificará uma guerra regional sectária, sem qualquer resultado positivo à vista.

Obama chegou a dar sinais de que estaria atuando com alguma seriedade, buscando um acordo diplomático negociado (antes de Qusayr) e viam-se até sinais positivos vindos de Damasco, Moscou, e até de Teerã – como disse John Kerry.

Mas tudo isso mudou, em parte porque os dois lados, Rússia e EUA, endureceram no quesito reivindicações. Consequência disso, o governo Obama acaba de abandonar completamente a via diplomática.

Em vários contatos com pessoal do Congresso dos EUA, ouvi que a equipe de Obama concluiu que o governo Assad não estaria aceitando a mensagem dos EUA ou não a estaria levando a sério. E que os avanços militares recentes do exército sírio, com o crescente apoio popular, significariam que nenhuma Conferência Genebra 2 seria jamais bem-sucedida em direção que interessasse aos EUA.

McCain e Lindsay Graham
Além disso, Obama estaria cada vez mais fraco no plano doméstico, além de vários escândalos – com destaque para as revelações que afinal vêm a público, sobre invasão massiva de privacidade dentro dos EUA, pela Agência de Segurança Nacional. E há também o “lobby pró-guerra”, comandado pelos senadores McCain e Lindsay Graham, que já disseram, até, que Obama teria traído o juramento que fez ao assumir a presidência e estaria pondo em risco “interesses da segurança nacional dos EUA”, porque estaria “entregando a Síria ao Irã – logo que Assad consiga conter o levante da oposição”. Esses dois senadores festejaram a conclusão sobre “armas químicas”. Durante meses, repetiram incessantemente que Obama não estava ajudando devidamente os “rebeldes”. “A credibilidade dos EUA está ameaçada” – disseram em declaração conjunta, essa semana. “Já não é hora para nos limitarmos só a pequenos passos. A hora exige ação para decidir” (e citaram os mísseis de longo alcance para destruir o poder aéreo e os mísseis de Assad).

Robert P. Casey
Outro senador neoconservador, Robert P. Casey Jr. (D-Pa.), disse que:

(...) as forças da oposição serão derrotadas se não receberem armamento mais pesado, mas acrescentou, só as armas talvez não bastem. Os EUA devem mover-se imediatamente para alterar o equilíbrio em solo na Síria, destruindo a aviação síria e implantando uma zona aérea de exclusão no norte da Síria, usando para isso os mísseis Patriot que temos na Turquia.

Segundo alguns analistas, Obama poderia, como alternativa, autorizar a entrega de armas e treinamento para a oposição síria na Jordânia, sem zona aérea de exclusão. Não foi considerada via possível, segundo esses meus interlocutores em Washington, porque o Pentágono quer pôr fim à crise síria até o fim desse verão [aqui, do inverno], como ouvi, em vez de:

(...) ter de trabalhar no longo prazo com bandos de jihadistas nos quais não se pode jamais confiar ou dos quais não se pode depender. O governo Obama, ao que parece, concluiu que entre entrar lá por pouco ou por tudo, melhor entrar de vez. Isso significa impedir o Irã de controlar a Síria, e o Hezbollah, de tomar conta do Líbano.

John Kerry
O secretário de Estado Kerry reuniu-se com mais de duas dúzias de especialistas militares dia 13/5/2013. O Washington Post está noticiando que Kerry entende que:

(...) fornecer armas aos rebeldes pode ser pouco e vir tarde demais, para realmente alterar a correlação de forças em campo na Síria; que a situação exige ataque militar para paralisar as capacidades militares de Al-Assad.

Fonte do Pentágono disse que EUA, França e Grã-Bretanha consideram uma ação decisiva para reverter o momentum de Assad e rapidamente construir ímpeto a favor dos “rebeldes”, com prazo que não exceda o fim desse verão [inverno aqui].

rei Abdullah
Pouco depois de iniciada aquela reunião, o rei Abdullah da Arábia Saudita voltou para a Arábia Saudita, de seu palácio em Casa Blanca, Marrocos, depois de receber telefonema de seu chefe de inteligência, príncipe Bandar Bin Sultan. Bandar, segundo o noticiário, tinha um representante na Casa Branca, presente às reuniões com a equipe de Obama. Os mesmos noticiários dizem que o rei Abdullah teria sido aconselhado por Kerry a preparar-se para rápida expansão no crescente conflito regional.

O que acontecer entre hoje e o fim do verão [inverno aqui] será provavelmente catastrófico para os sírios e talvez também para o Líbano.

Ninguém no Capitólio dá qualquer importância à “linha vermelha” das armas químicas, porque não há qualquer prova que já não fosse conhecida há meses, as mesmas que agora voltam a ser citadas para justificar o que pode tornar-se, essencialmente, guerra total contra o governo sírio e quem mais se interponha. Frases feitas sobre as 125 mortes que teriam sido causadas por armas químicas, não importa quem as tenha usado, somem, à vista das mais de 50 mil novas mortes nos próximos meses: esse é o número que os planejadores do Pentágono e a Casa Branca “orçaram”, como preço a pagar para derrubar o governo de Assad.

Em e-mail para mim, um funcionário da Comissão de Relações Externas do Senado escreveu:

(...) o presidente tomou a decisão de garantir toda a ajuda humanitária além de apoio político e diplomático à oposição que sejam necessários. Além disso, dará apoio direto ao Conselho Militar Supremo, inclusive apoio militar.

Ben Rhodes
Minha fonte citou palavras do vice-conselheiro de Segurança Nacional, Ben Rhodes, para a mídia, na mesma direção, dia 13/6/2013. 
Como parte dessa “ajuda humanitária”, os EUA estabelecerão nas próximas semanas uma

(...) zona aérea de exclusão limitada, humanitária, que começará a algumas milhas das fronteiras jordaniana e turca em algumas áreas militares em território sírio, e será implantada e apresentada como movimento limitado para treinar e equipar forças rebeldes e proteger refugiados.

Mas, na realidade, como todos vimos acontecer na Líbia, é praticamente certo que qualquer zona aérea de exclusão incluirá todo o território sírio.

As zonas aéreas de exclusão na Líbia já mostraram bem claramente que não existe “zona limitada”. Em resumo: uma “zona aérea de exclusão” significa declaração de guerra total. A partir do momento em que os EUA e seus aliados comecem qualquer “zona aérea de exclusão”, eles a expandirão sempre, cada dia com mais intensidade, e empreenderão incontáveis ataques militares para proteger suas “zonas” até derrubarem o governo sírio. “É angustiante esperar para ver como isso tudo acabará e como Irã e Rússia responderão” – concluiu uma das minhas fontes.

A Casa Branca está tentando convencer alguns poucos recalcitrantes no Congresso e a maioria da opinião pública norte-americana de que o envolvimento dos EUA será limitado e que a zona aérea de exclusão não implica a destruição total das baterias antiaéreas sírias. Mais e mais nonsense.

Na zona aérea de exclusão que testemunhei na Líbia, no verão de 2011, os EUA a apoiaram de todos os modos, com reabastecimento, guerra eletrônica, agentes especiais em terra e, em meados de julho, nem uma criança pedalando numa bicicleta foi poupada. Durante os 192 dias em que patrulharam as zonas aéreas de exclusão na Líbia, os países da OTAN fizeram 24.682 voos-ataques, incluindo 9.204 ataques a bombas. 

A OTAN anunciou que nunca errou alvo, mas isso também é mentira. 

Centenas de civis foram mortos na Líbia em ataques para implantar e manter a zona aérea de exclusão, que erravam o alvo, ou eram aviões que, simplesmente, descarregavam a munição transportada, antes de retornarem à base; foram aproximadamente 48 bombardeios por dia, usando vários tipos de bombas e mísseis, inclusive mais de 350 mísseis Tomahawks.

Robert Gates
Em depoimento ao Congresso, em 2011, o então secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates não mentiu quando explicou, discutindo a Líbia, que:

(...) uma zona aérea de exclusão começa com um ataque para destruir todas as defesas aéreas (...). Depois se pode voar por todo o país, sem se preocupar com nossos rapazes serem derrubados. Mas começa assim.

Em resposta a pergunta que lhe fiz, sobre como supõe que os eventos desenrolem-se nessa região nos próximos meses, um assessor muito experiente e atento, de um senador, respondeu:

Bem, Franklin... Talvez alguém tire um coelho da cartola e consiga sustar o ímpeto em direção à guerra. Mas, francamente, duvido. De onde estou, o que vejo é que a Síria que conhecemos em breve já não existirá. E talvez, com ela, sumam também outros países da região.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A provocação da União Europeia e a posição da Rússia

29/5/2013, Andrei Akulov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A. Akulov
Catherine Ashton
A ministra de Relações Exteriores da União Europeia (UE), Catherine Ashton, confirmou anteontem que, doravante, qualquer país membro da UE tem direito de decidir como melhor lhe parecer sobre exportações de armas para a Síria. Disse claramente que qualquer arma enviada à Síria deve “visar a garantir a proteção de civis”. E que os governos da UE deverão reexaminar a posição sobre sanções contra a Síria, antes do dia 1º de agosto próximo. É movimento que pode agravar a tragédia síria.

A União Europeia parece interessada em imiscuir-se, ela também, naquela guerra civil. Talvez não haja ainda planos para embarque imediato de armas para os “rebeldes”, mas a União Europeia enviou sinal claro ao mundo, de que está dando um passo unilateral, pela primeira vez, na direção de intensificar esforços para fazer gorar a única medida em que todas as esperanças estão depositadas: a conferência de paz proposta pela Rússia e apoiada pelos EUA.

William Hague
Foi decisão difícil para alguns países, mas necessária e correta para reforçar o empenho internacional com vistas a alcançar solução diplomática para o conflito na Síria. Foi importante para a Europa enviar sinal claro ao regime de Assad, de que terá de negociar seriamente, e de que todas as opções permanecem sobre a mesa, se não o fizer - disse William Hague, ministro britânico das Relações Exteriores, em declaração escrita.

Completo nonsense. Só há um modo de interpretar tudo isso: deram um ultimatum à Síria, exatamente antes da conferência. Ou obedece à União Europeia, ou...

Parece, isso sim, que enfiaram um touro numa loja de porcelanas. Isso não é exemplo de diplomacia aproveitável.

Na verdade, foi discussão difícil, na UE, a questão de armar ou não armar os “rebeldes” sírios. Grã-Bretanha e França lideraram os esforços para levantar o embargo de armas para a Síria. Os dois países sugeriram uma união com o Qatar, para fornecer armas aos “rebeldes”, com o objetivo de fortalecer os grupos moderados e permitir-lhes manter distância dos extremistas já muito fortemente armados que há entre os “rebeldes”. E houve vozes, que a liderança da UE ignorou, que recomendaram prudência, porque as armas podem acabar em “mãos erradas”. Seja como for, só Grã-Bretanha e França defenderam a entrega das armas aos “rebeldes”.

Chuck Hagel
No início do mês, o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel disse que Washington está reconsiderando a política de não fornecer armas aos “rebeldes”. A Comissão de Política Exterior do Senado norte-americano acaba de aprovar projeto de lei que autoriza o Executivo a entregar armas às forças da oposição ao governo sírio. O senador John McCain entrou na Síria pela fronteira da Turquia dia 27 de maio, o que fez dele o funcionário de mais alto escalão do governo dos EUA que esteve no país durante a guerra. Ali o Republicano do Arizona reuniu-se com 18 comandantes do Exército Sírio Livre, em região próxima da fronteira norte do país.

Pelo visto, qualquer senador norte-americano pode fazer o que lhe dê na telha, onde bem entenda, sem precisar apresentar-se aos governos legítimos dos países visitados (ou invadidos?) e sem precisar de autorização para cruzar fronteiras nacionais.

Em Damasco, Essam Khalil, deputado sírio, criticou a decisão da União Europeia, dizendo que esforços para armar os “rebeldes” induzirão a oposição a crer que não seja necessário buscar solução pacífica para o conflito. Até agora, esse é o primeiro comentário público, feito por membro do Partido Baath no Parlamento sírio.

A Rússia e a entrega dos S-300

Falando em conferência de imprensa em Moscou, dia 28 de maio, o vice-ministro russo de Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, disse que o fracasso da União Europeia, que não soube manter o embargo de vendas de armas para a Síria, pode afetar diretamente o resultado da próxima conferência internacional sobre a Síria. Segundo ele,

(...) vê-se aí um reflexo de posições dúbias e vacilantes, e uma tentativa de golpe direto contra a conferência internacional sobre a Síria proposta pelo ministro Lavrov e pelo secretário John Kerry, dia 7 de maio.

Comentando a questão do fim do embargo de armas da UE anunciado dia 27 de maio, o diplomata russo culpou os líderes europeus, por estarem “soprando para aumentar as chamas do conflito”. Lembrou que os mísseis antiaéreos S-300 não podem, evidentemente, ser usados contra forças “rebeldes” – porque os “rebeldes” não têm força aérea.

Ryabkov disse que a Rússia mantém o objetivo de obter solução política para a crise síria e que uma conferência de paz e um cessar-fogo são os dois primeiros passos essenciais para pôr fim ao banho de sangue. Enfatizou que os sistemas de mísseis russos S-300, que são mísseis terra-ar, podem ajudar Damasco a defender-se contra qualquer possível intervenção por forças externas ao conflito.

Os mísseis S-300 são uma série de sistemas de mísseis russos de longo alcance para defesa aérea, projetados para interceptar mísseis balísticos, considerados os mais potentes de sua classe. Os mísseis têm alcance para interceptar alvos aéreos à distância de 200km, dependendo da versão usada. Tão logo os mísseis terra-ar russos estejam entregues, a Síria terá controle mais efetivo de seu espaço aéreo. Os mísseis S-300 são amplamente reconhecidos entre analistas da Defesa, como um dos modelos mais avançados do arsenal de armas antiaéreas.

Sergei Ryabkov
Ryabkov disse que ninguém pode acusar a Rússia de estar fornecendo armas a grupos insurgentes ou “rebeldes”. A Rússia está entregando armas ao estado sírio, às autoridades sírias legítimas:

A Federação Russa, em primeiro lugar, está entregando armas às legítimas autoridades que governam o legítimo estado sírio. Esse não é argumento oco ou abstrato: é muito concreto, legal e legítimo. Não estamos fornecendo armas a um ou outro grupo, de mercenários ou de terroristas. Estados podem, legitimamente, fornecer e receber armas.

E acrescentou:

Por definição, esses sistemas não podem ser entregues a grupos militantes rebelados contra governo legítimo e legal. A Federação Russa entende que esses mísseis são fator de equilibramento e estabilização. Entendemos que movimentos estratégicos desse tipo, em vasta medida, impedirão que um ou outro “cabeça quente” consiga ampliar o conflito sírio, convertê-lo à escala internacional, o que acontecerá, se ali se envolverem atores externos.

Alexander Grushko
Alexander Grushko, enviado russo à OTAN, disse que espera que o ocidente encontre meios para não enviar armas aos “rebeldes” sírios.

Esperamos que não o façam, porque a mensagem mais importante, hoje, é convencer todos os lados envolvidos de que não há opção, além do diálogo político, naquela específica situação.

Perspectivas para a Conferência de Genebra

Em encontro com jornalistas depois de reunião, em Paris, com Kerry, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, disse que a conferência para pôr fim à guerra civil na Síria é “alta necessidade”. Mas disse que, sim, ainda se vê alguma luz no fim do túnel:

Não é tarefa fácil. É alta necessidade. Mas entendo que, quando os EUA e a Federação Russa tomam esse tipo de iniciativa, há boas chances de sucesso.

Sergey Lavrov
Falando sobre a conferência internacional sobre a Síria, em entrevista para a rádio “Voz da Rússia”, o ministro Lavrov disse que Rússia e EUA têm visões diferentes sobre alguns aspectos da conferência planejada para facilitar uma solução para a crise síria mediante diálogo político.

Para Lavrov, os EUA ainda não entenderam que os “rebeldes” sírios terão de constituir e enviar à conferência uma única delegação a qual, por definição deve representar todas as forças de oposição que há na Síria.

Outro ponto ainda em discussão é que os EUA relutam em convidar o Irã. Ryabkov disse que:

(...) a chamada conferência Genebra-1, que se realizou dia 1/6/2012, foi um sucesso, mas o próximo passo não pode ser dado sem a presença de Arábia Saudita, Irã e Egito, na conferência seguinte – disse ele. – Infelizmente, nossos parceiros estão em posição inflexível, dispostos a impedir que o Irã participe da conferência. É posição errada, porque todos conhecemos bem a grande influência de Teerã na Síria e em toda a região.

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Qualquer análise que se faça, por superficial que seja, para extrair as lições óbvias que se aprendem da história recente de conflitos armados, mostra que, a partir do instante em que começa o fornecimento de ajuda militar, inclusive o fornecimento de armas a um país ou partido ou grupo envolvido em conflito, o fornecedor perde completamente qualquer possibilidade de controlar o destino final das armas.

A situação no Mali é bom exemplo de distribuição não controlada de armas, que ali chegaram contrabandeadas da Líbia. A regra infalível é que as armas sempre acabam nas mãos mais erradas. Os líderes da União Europeia jamais disseram coisa alguma sobre como planejam controlar o destino das armas que se dispõem a fornecer aos “rebeldes”, depois de as armas entrarem na Síria.

Na verdade, a decisão da UE visa apenas a estimular a intervenção militar na Síria, fazendo gorar, se puderem, qualquer tentativa de conferência de paz... Entrega de armas a governos internacionalmente reconhecido, de país membro da ONU, que continua plenamente no controle do Estado e pode ser julgado por seus atos é muito diferente de entregar armas a gangues sem organização ou bandeira comum, sem liderança, sem acordo, sem representante possível, porque cada gangue daquelas está em guerra também contra outras gangues, quando não estão em guerra também, genericamente, contra “o ocidente”.


Não parece haver dúvida possível de que a atitude correta é melhorar as condições de autopreservação do governo sírio, fornecendo-lhe armamento de defesa. Sobretudo agora, depois da decisão da UE que é, antes de tudo, movimento de provocação, de quem deseja, não o fim da guerra, mas que a guerra continue.