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terça-feira, 5 de maio de 2015

Afeganistão: O que se oculta por trás do ataque dos Talibã a Kunduz?

1/5/2015, [*] MK Bhadrakumar, Asia Times Online rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


(...) e surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a volta dos Talibã em ataques no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.


Afeganistão - Divisões Administrativas
(clique na legenda para aumentar)
A atual ofensiva dos Talibã no norte do Afeganistão, focada em capturar Kunduz, faz-me lembrar os dias finais, tensos e angustiantes, do tempo que servi como diplomata em Tashkent nos últimos anos da década dos 1990s, e os Talibã surgiram na região de Amy Darya, deixando um rastro de sangue, horror e vingança. Quando a cidade de Kunduz caiu sob controle dos Talibã daquela vez, dois fatores comprovaram-se decisivos.

●– O primeiro foi o tradicional predomínio do grupo Mujahideen Hizb-i-Islami liderado por Gulbuddin Hekmatyar (agente favorito dos Interserviços de Inteligência do Paquistão [orig. Inter-Services Intelligence, ISI durante a “jihad afegã”) naquela região, onde vive população pashtun de dimensões consideráveis.

●– O segundo foi a realidade, ali constatável em campo, de que a marcha inexorável dos Talibã para dentro da região de Amu Darya, depois que capturaram Cabul em 1996, era de fato operação dos militares paquistaneses, para ir empurrando (e eventualmente estrangulá-las nos estreitos confins do Vale do Panjshir) as forças residuais da Aliança do Norte lideradas por Ahmad Shah Massoud.

Afeganistão - Vale do Panjshir (hachurado)
(clique na legenda para aumentar)
Esses dois fatores voltam à cena hoje – embora de modos diferentes. A verdadeira “identidade” entre os Talibã e Hezb-i-Islami – que sempre foi muito rala (apesar da influência do ISI paquistanês sobre os dois grupos) e sempre intrigou muito a olho nu, porque as dinâmicas locais sempre entravam em ação no labirinto das políticas tribais e regionais; e dado o papel confuso dos “comandantes em campo” – continua a ser criticamente importante mesmo hoje.

De fato, a política durante a presidência de Hamid Karzai consistia em “terceirizar” a segurança e as redes de inteligência para o Hizb-i-Islami, assim explorando os medos existenciais desses últimos de serem invadidos por enxames de Talibã. Evidentemente portanto, se o ISI continua a controlar o Hizb-i-Islami, o ISI poderia alterar a dinâmica no campo de batalha em Kunduz (embora o grupo insurgente esteja hoje relativamente muito enfraquecido, se comparado ao que foi nos últimos anos 1990s).

Claro, o resumo disso depende de onde, exatamente, está o serviço secreto paquistanês ante a atual ofensiva dos Talibã. A posição oficial do Paquistão é de que Islamabad não encoraja “o aumento da violência” que advém da ofensiva de primavera dos Talibã. Até aí, nada de novo. Mas o fato que realmente conta é que o ISI de modo algum poderia não ter percebido tamanho influxo de insurgentes, inclusive dos chamados combatentes “estrangeiros” (chechenos, uzbeques, etc.), que cruzava a fronteira para dentro do Afeganistão para apoiar uma ofensiva prolongada, dos Talibã, contra Kunduz. Isso, principalmente quando estão em pleno andamento operações militares paquistanesas nas áreas tribais adjacentes.

Aviação paquistanesa bombardeou alvos
na fronteira com o Afeganistão (1/5/2015)
Nesse caso, qual o plano de jogo dos serviços secretos do Paquistão? Será o caso de supormos que os Talibã escaparam completamente ao controle dos paquistaneses? Ou é o caso de os Talibã terem agora uma agenda própria? Ou os Talibã estão agindo a serviço de um ou outro ou vários outros serviços de inteligência? Isso, por um lado.

Há muitos indícios de que o clima das relações afegãs-paquistanesas possa deteriorar em breve, se o Talibã pressionar robustamente com a atual ofensiva. O jornal paquistanês Down  observou que Kabul e Islamabad também abrigam mútuos ressentimentos:

Há também a questão muito maior da reconciliação interna no Afeganistão que parece não estar avançando – impasse que está começando a tornar-se visível em termos de acusações nada diplomáticas que começam a ser ouvidas outra vez entre Paquistão e Afeganistão.

Do ponto de vista afegão, a abertura sem precedentes do presidente Ashraf Ghani para Islamabad não gerou a desejada cooperação em termos de usar a influência do Paquistão sobre os Talibã Afegãos, para empurrá-los até a mesa de negociações.

Do ponto de vista paquistanês, apesar da Operação Zarb-i-Azb, Operação Khyber-II e do massacre da escola em Peshawar, o estado afegão não respondeu com a presteza necessária às preocupações de segurança dos paquistaneses, nessa hora de necessidade. Confiança, como sempre, é item de oferta sempre pequena dos dois lados.

Claro que os Talibã, praticamente com certeza, há muito tempo têm uma agenda para a Ásia Central. Ninguém precisa contar novamente sobre o nexo entre os Talibã e os grupos militantes do Uzbequistão, Xinjiang, Caxemira e Norte do Cáucaso. Esse é o ponto no qual a atual ofensiva dos Talibã contra Kunduz, na qual os militantes da Ásia Central estão tendo, como já se sabe, papel chave, ganha seu significado regional.

Ásia Central - mapa político
A atual ação dos Talibã pode bem ter o objetivo de enfraquecer a capacidade da Rússia para resistir contra as tentativas dos extremistas para desestabilizar a Ásia Central e o Norte do Cáucaso. O controle sobre o norte do Afeganistão pode ajudar os Talibã – e seus grupos afiliados na Ásia Central – a negar “profundidade estratégica” aos grupos tadjiques e uzbeques nos estados vizinhos da Ásia Central. Tradicionalmente, a inteligência russa sempre trabalhou bem com esses grupos, na antiga oposição que sempre fizeram aos Talibã e a afiliados da al-Qaeda.

Por tudo isso, surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a presença dos Talibã no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.

Leiam um colunista da revista National Interest, que explica o que a Rússia pode estar enfrentando: “ISIS em movimento: o mortal problema islamista, na Rússia”. Significativamente, o presidente Putin “revelou” (porque era informação sigilosa), em entrevista à televisão, que a inteligência russa tem provas de negociações clandestinas, inclusive com troca de logística, entre os EUA e os separatistas chechenos. Mas aqui entramos em região de fumaça e espelhos.

Por fim, as “Iniciativas do Cinturão e Estradas” [as Rota(s) da Seda”] da China, podem nem decolar, se tiverem de dar o primeiro passo nessas terríveis circunstâncias na Ásia Central.

China e Paquistão fecham acordo de investimento
em infraestrutura de US$ 40 bi (20/4/2015)
Será que se viam ares de “xeque-xeque-mate” na manhã depois da recente visita do presidente chinês Xi Jinping ao Paquistão? Ou agora, às vésperas da esperada inclusão do Paquistão (e do Irã) como membros plenos da Organização de Cooperação de Xangai – o que converte esses dois estados regionais em garantidores da segurança e da estabilidade na Ásia Central?

Não há respostas fáceis. Entrementes, nos informam que o “Estado Islâmico” (EI) está trabalhando para renascer em Kunduz. Um comentarista afegão disse à rádio Deutsche Welle essa semana, que:

(...) o EI recrutou várias centenas de combatentes no Chardarra, distrito de Kunduz. O governador da província já confirmara a informação há alguns meses. Naquele momento, os funcionários disseram que o grupo poderia lançar algum grande ataque. Agora que já atacaram Kunduz, as autoridades confirmaram que aumentou muito o número de militantes estrangeiros em Kunduz, que lutam contra forças afegãs. Testemunhas oculares dizem também que é muito alto o número de jihadistas estrangeiros.

Não há dúvidas de que se devem, sim, considerar as mais sinistras possibilidades, sobretudo agora, quando os alemães já dizem insistente e veementemente que é indispensável uma “instalação” de longo prazo, de militares dos EUA e da OTAN, no Afeganistão – independente do que desejem ou digam o povo afegão e os governos regionais.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Paquistão: “Cresce a fúria em Islamabad contra a OTAN”


12/7/2012, Malik Ayub Sumbal, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 Malik Ayub Sumbal
ISLAMABAD. Dezenas de milhares de ativistas de organizações jihadi banidas chegaram a Islamabad essa semana, para protestos contra a decisão do governo do Paquistão de reabrir a rota de suprimentos da OTAN até o Afeganistão.

Uma coalizão de mais de 40 partidos religiosos, conhecida como Difah-e-Pakistan Council – Conselho de Defesa do Paquistão [ing. Defense of Pakistan Council (DOC)] – reuniu-se à frente do Parlamento em Islamabad. Os organizadores da manifestação falam de 500 mil manifestantes, mas o número real está mais próximo de 50 mil.

O protesto está sendo liderado por Hafiz Muhammad Saeed, comandante do Jamaat-ud-Dawa (JuD), conhecido formalmente como Lashkar-e-Taiba (LeT). O LeT tem sido acusado de responsável por vários ataques terroristas na Índia, dentre os quais o ataque, em 2001, contra o Parlamento indiano, e o ataque de novembro de 2008, em Mumbai. Em abril, os EUA anunciaram recompensa de $10 milhões pela prisão de Hafiz Saeed, acusado de ser o principal planejador da noite de terror em Mumbai. 

Outro grupo também banido, Harkat-ul-Mujahideen (HuM), também participa do que o DPC está chamando de “longa marcha sobre Islamabad”. O HuM é comandado por Maulana Fazlur Rehman Khalil, um dos cofundadores do grupo militante islamista Harakat-ul-Ansar, formado no início dos anos 1990 na Índia.

Maulana Fazlur
Rehman Khali
Segundo a página Global Jihad na internet, “Maulana Fazlur Rehman Khalil foi um dos cinco co-signatários, com Rifaai Taha, Ayman Al-Zawahiri e Sheikh Mir Hamza, secretário do grupo Jamiat-ul-Ulema-e-Pakistan, da fatwa que Osama Bin Laden lançou, dia 23/2/2008”. Intitulada “Frente Islâmica Mundial pela Jihad contra os Judeus e os Cruzados” [orig. The World Islamic Front for Jihad against the Jews and Crusaders], essa fatwa é considerada uma declaração de guerra, pela al-Qaeda, contra as democracias ocidentais lideradas pelos EUA.

Vários outros grupos participaram do protesto, entre os quais o Jamaat-i-Islami e o Ahle Sunnat Wal Jamaat, conhecido antigamente como Sipah-e-Sahaba no Paquistão (SSP). O SSP é dos mais conhecidos grupos sectários em ação no Paquistão; esteve envolvido no massacre de milhares de muçulmanos xiitas nos anos 1990s.

Malik Ishaq, um dos comandantes da organização (banida) Lashkar-i-Jhangvi, libertado há poucos meses da prisão de Kot Lakhpat em Lahore, também é alto comandante do DOC e participou ativamente da “longa marcha”.

Em novembro, o Paquistão fechou o trecho da estrada afegã da OTAN que cruza território paquistanês, como retaliação contra ataques de jatos dos EUA que mataram 24 soldados paquistaneses. Depois de meses de negociações, Islamabad afinal concordou em reabrir a estrada semana passada, depois de a secretária de Estado dos EUA Hillary Rodham Clinton ter pedido desculpas formais pelo assassinato dos soldados.

Rotas de suprimentos dos EUA-OTAN na Asia Central
O ministro do Interior do Paquistão Rehman Malik proibiu que as organizações banidas entrassem em Islamabad e ameaçou prender imediatamente os que desobedecessem. Mas as forças de segurança não fizeram nenhuma prisão. Críticos dizem que a ameaça de Malik teve o único objetivo de demonstrar aos EUA e à comunidade internacional que o governo do Paquistão continuará a manter-se longe das organizações banidas.

Hamid Gul
Ex-diretor geral do serviço secreto paquistanês Inter-Services Intelligence Agency (ISI), general Hamid Gul, confirmou, em entrevista por telefone a Asia Times Online que as forças de segurança “não se atreverão” a prender manifestantes reunidos e liderados por organizações legítimas. Gul falou de Gujranwala na província Punjab, onde liderava uma parte da longa marcha. 

Longo comboio de carros continua a rodar na direção de Islamabad – disse Gul. Muitos outros jihadis se reunirão ao comboio em frente ao prédio do Parlamento, e dizem que de lá não sairão, até que o governo do Paquistão volte a bloquear a rota pela qual passam suprimentos para a OTAN.

Falando aos manifestantes reunidos, líderes religiosos têm repetido que, a menos que a estrada de suprimentos para a OTAN seja fechada, os protestos podem converter-se em manifestações mais agressivas. O DoC também está convocando para outras “longas marchas” contra as linhas de suprimento da OTAN, nos dias 16-17 de julho, de Peshawar até Torkham, ponto de passagem na fronteira com o Afeganistão.

Fontes confiáveis confirmaram que militantes ativos no Baloquistão, nas Áreas Tribais sob Administração Federal e na privíncia Khyber Pakhtunkhwa já planejam ataques contra qualquer tipo de veículo que conduza suprimentos para a OTAN. Partidos religiosos também planejam fechar Peshawar e a passagem pelo desfiladeiro Khyber.

Funcionários e agentes dizem que vários grupos, também nas agências de inteligência do Paquistão, apoiam os protestos das organizações banidas, o que é novidade e indica rejeição às políticas dos EUA também nessas agências.

Rotas de suprimentos EUA-OTAN no Af-Pak congestionadas
“Se os EUA podem abrir a porta dos fundos de sua diplomacia, para negociar abertamente com os Talibã e a al-Qaeda, por que o Paquistão e seus órgãos de inteligência não poderiam apoiar jihadistas e organizações banidas que lutam pela sobrevivência do Paquistão como nação soberana?” – disse um alto funcionário de um dos serviços de inteligência do Paquistão, em entrevista a Asia Times Online.

“Essa guerra não é nossa, mas também sofremos duras perdas. Agora, atacam também a soberania do Paquistão. Nada mais esperem de nós, sobretudo contra quem não é nosso inimigo” – disse ele. – “Tudo tem limite.” 

sábado, 1 de outubro de 2011

O clã Haqqani está em conversações com os EUA

1/10/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
US gets through to the Haqqani clan, finnaly
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:
O que se lê aqui, abaixo, são os chamados FATOS, na melhor forma que os fatos podem ter: carregados de opinião, de desejo e de ‘lado’. 
Fatos assim são sempre gratuitos: com a internet, basta colhê-los e distribuí-los, tudo de graça. O que o Grupo GAFE (Globo-Abril-Folha-Estadão) e vários blogs jornalísticos de repetição, no Brasil e em todo o mundo, noticiaram e noticiarão sobre esse caso – todos SEMPRE E SÓ repetindo matéria das agências internacionais [1] – é jornalismo. 
E jornalismo nada tem a ver com fato. 

O fato é vida em movimento. O jornalismo é necessariamente empresa. Empresa visa ao lucro sempre e necessariamente. Empresa, lucro e fato são materiais imissíveis.

O fato é gratuito, aparece sempre em diferentes versões e é preciso conhecer muuuuitas versões, para que se construa (cada um a sua) informação relevante.

O jornalismo é trabalho comprado dos jornalistas empregados, vendido a leitores-telespectadores pagantes e existe para gerar mais-valia aos empresários proprietários. Por isso, é feito para repetir muitas vezes só umas poucas versões de tudo.

O jornalismo é necessariamente viciado e vicioso.

Quem precisa de jornalismo (além dos próprios empresários e jornalistas, que fazem do jornalismo meio de vida)?!
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O presidente Barack Obama pisou pela primeira vez na linha pedregosa das relações EUA-Paquistão, com alguma diplomacia pessoal. Injetou ali uma fórmula para “salvar-a-própria-cara”, falando dos alegados vínculos que haveria entre o Paquistão e a rede Haqqani em tom de ambiguidade estratégica, o que recoloca Washington em posição de voltar a conversar com Islamabad.

O mantra agora, é que a inteligência dos EUA não tem tanta certeza quanto o ex-comandante do estado-maior das forças armados, almirante Mike Mullen, de que haveria algum vínculo entre o Paquistão e a rede Haqqani. “A inteligência ainda não está tão clara quanto nós [os EUA] gostaríamos que estivesse sobre que tipo de relação há [entre o Paquistão e os Haqqani]” [2]. Brilhante! Obama continuou: “Mas minha posição é que, haja ou não engajamento ativo dos paquistaneses com os Haqqani, ou se o Paquistão apenas os deixa operar livremente (...), eles é que terão de tratar desse problema.”

O ponto crucial é que Obama falou ontem, 6ª-feira, já sabendo perfeitamente que os EUA afinal conseguiram estabelecer contato com os Haqqanis há três dias, na 3ª-feira. Agora já se sabe que os EUA chegaram a Haji Mali Khan na 3ª-feira. HMK não é um qualquer, só mais um tio de Sirajuddin Haqqani. É reconhecido por gente que sabe do que fala como o CÉREBRO [maiúsculas no original] da rede Haqqani, o homem que comanda as operações. A declaração da OTAN acerta num ponto: HMK é o “reverenciado líder” do clã Haqqani.

A parte mais fascinante, é que HMK, na prática, entregou-se. HMK é agora o intermediário entre os EUA e Siraj.

O enigma está em saber se os paquistaneses arranjaram essa falsa prisão de HMK, ou se o plano partiu dos Haqqanis, que podem ter visto aí um meio para fazer contato direto com os EUA. O mais provável é que tenha havido uma combinação das duas coisas, o que explica por que Obama apareceu pessoalmente em cena, com palavras de conciliação dirigidas ao Paquistão.

Meu palpite é que a visita repentina do chefe do serviço secreto do Paquistão (ISI) Shuja Pasha ao quartel-general da CIA, na 3ª-feira, tenha tido outro objetivo além de olharem-se todos eles, olhos nos olhos. Especialistas têm repetido que Pasha fez mais do que falar sem papas na língua a David Petraeus. Mas... seria preciso ir até Langley, só para isso? Hmm…

Engraçado também que o presidente do Paquistão Asif Zardari tenha corrido a responder à abertura de Obama, clamando por urgente diálogo. Claro que, quando rascunhava a coluna que o Washington Post publicou [3], Zardari também já sabia o que Obama sabia e só nós não sabíamos – ou seja: que a CIA já estava “dialogando” com HMK.

O caleidoscópio mudou de configuração. Hamid Karzai está numa sinuca de bico. Sabe que, sempre que EUA e Paquistão alinham-se, ele passa a ser fator descartável. No cenário que se vai configurando, Karzai sabe que sua melhor chance está em fazer-se de “estraga festa”. Afinal, ele é presidente do Afeganistão e seu imprimatur é indispensável para qualquer encenação-folha-de-parreira denominada “processo de paz liderado pelo Afeganistão”, sem o qual EUA e Paquistão ficarão paralisados.

Karzai já anunciou que já não lhe interessa reconciliar-se com os Talibã; e Kabul já disse publicamente que o assassinato de Burhanuddin Rabbani foi planejado no Paquistão. Desnecessário dizer que, isso, Karzai só fez no sábado, um dia depois da fala de Obama. E, sim, Karzai também já sabia o que nós só ficamos sabendo ontem, isto é, que HMK já estava em conversações com os EUA desde a 3ª-feira.

Karzai ainda pode encontrar um aliado natural: os líderes da velha Aliança do Norte, que também temem qualquer acerto entre EUA e Paquistão. Na próxima semana, Karzai visitará New Delhi. Essa visita vai ficando mais interessante de observar, a cada momento.




Notas dos tradutores

[1] TODO o grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de SP, Estadão) publicou a mesma notícia, igualzinha, pura repetição de matéria distribuída pelas (sempre as mesmas) agências. Quem duvidar que comprove (e basta completar a pesquisa porque, por aqui na Vila Vudu, temos coisa melhor a fazer):


[2] Matéria da Associated Press, por exemplo, em Obama won’t back Mullen’s claim on Pakintan  (em inglês).

[3] 30/9/2011, “Talk to, not at, Pakistan” [Fale com o Paquistão, não para o Paquistão], Asif Ali Zardari, Washington Post,  (em inglês).


Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pepe Escobar - "Paquistão: na alça de mira do Pentágono"

Pepe Escobar

30/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
  

Ver também
8/6/2011, “Os EUA insuflam uma nova Guerra Fria”, MK Bhadrakumar 
16/6/2011, “CIA tenta amotinar o exército do Paquistão”, MK Bhadrakumar


A Síria terá de esperar. A próxima parada, na estrada da “guerra longa” cunhada pelo Pentágono, parece que será no Paquistão. Sim, já há guerra no que o governo de Barack Obama batizou de Af-Pak. Mas o tempo vai fechar e a hora está chegando, agora cada vez mais perto, para a parte “Pak”. Pode-se chamar de campanha “nenhuma bomba deixada para trás”.

Al-Qaeda é coisa do passado; afinal de contas, há homens da al-Qaeda, como Abdelhakim Belhaj, já no comando de Trípoli. O novo mega bicho-papão fabricado em Washington é hoje a rede Haqqani. 

Uma incansável indústria de fabricar consenso contra a rede Haqqani já roda a pleno vapor, ativada por uma constelação dos suspeitos neoconservadores de sempre, oferta sortida de republicanos inventadores de guerras, “funcionários do Pentágono” e o complexo militar-industrial ativo na corporação da imprensa-empresa. 

A rede Haqqani, força de 15-20 mil combatentes pashtuns liderada por Jalalludin Haqqani, mujahideen que combateram contra os soviéticos, é componente chave da guerrilha afegã, de suas bases na área tribal paquistanesa do Waziristão Norte. 

Para o almirante Mike Mullen, chefe do Comando Militar Conjunto dos EUA [ing. US Joint Chiefs of Staff], a rede Haqqani “atua como verdadeiro braço da agência de serviço secreto do Paquistão, Inter-Services Intelligence (ISI)”. Mullen demorou nada menos que 10 anos, desde o início do bombardeio norte-americano contra o Afeganistão, para descobrir isso. Merece um Prêmio Nobel da Paz. 

Segundo a narrativa do governo dos EUA, o serviço secreto do Paquistão deu sinal verde para que a rede Haqqani atacasse a Embaixada dos EUA em Kabul, dia 13 de setembro. 

O chefe do Pentágono Leon Panetta andou dizendo que, como resposta, Washington poderia tomar iniciativa unilateral. Significa que vasto número de agricultores pashtuns, inclusive mulheres e crianças, que já estão sendo dizimados ao longo de meses em ataques dos aviões-robôs norte-americanos (drones), devem ser classificados como coadjuvantes numa operação humanitária. 

A “guerra longa” do Pentágono, também conhecida como “guerra ao terror”, pode custar à economia paquistanesas espantosos 100 bilhões de dólares – e mais de 30 mil mortos, grande parte dos quais são civis. Em guerra de “nenhuma bomba deixada para trás”, deve-se esperar que o “dano colateral” continue a crescer. 

Em dúvida, leia o livro

Previsivelmente, o chefe do exército do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kiani – por falar dele, eterno queridinho do Pentágono – nega que o ISI divida o leito com os Haqqanis. Fato é que, sim, dividem. Mas muito mais obsceno é o discurso atual do Paquistão – segundo o qual os EUA fracassaram vergonhosamente no Afeganistão e, agora, tentam culpar o Paquistão pelo desastre.

O almirante Mullen, pelo menos, diz o que se lê no livro indispensável de Syed Saleem Shahzad, Inside al-Qaeda and the Taliban: Beyond Bin Laden and 9/11. No livro, Saleem, que foi chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão, detalha como o legendário – e vaidoso – Jalalludin Haqqani (que ainda tinge o cabelo) jamais deixou de ser um dos principais senhores-da-guerra Talibã; e como o serviço secreto do Paquistão jamais deixou de mantê-lo informado de que ataques do próprio ISI contra o próprio Haqqani, seu filho e sua rede, não passavam de pirotecnia.

Os Haqqanis têm base no Waziristão Norte, mas comandam grande parte do show em Paktia, Paktika e Khost do outro lado da fronteira. O astuto Jalalludin jurou total fidelidade ao líder Talibã Mulá Omar – que todos sabem que está escondido em Quetta, na província paquistanesa do Baluquistão, mas mantêm-se misteriosamente invisível até aos melhores olhos celestes dos EUA. 

Crer que o ISI simplesmente se livraria dos Haqqanis, ou que desmantelaria suas bases no Waziristão Norte, para que não mais pudessem atacar os EUA e as forças da OTAN no Afeganistão é puro mais desejar que raciocinar. Os militares paquistaneses tem cachorro grande na luta afegã, chamado Talibã – que eles mesmos inventaram no início dos anos 1990s.

Mais importante que isso, os Haqqanis são força na qual o Paquistão sempre poderá manter, como uma espécie de exército de reserva, para fazer frente à crescente influência da Índia no Afeganistão. 

Quando a ministra de Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar diz que os EUA “não podem dar-se o luxo de alienar o Paquistão”, está absolutamente certa. Se acontecer, o Talibã histórico imediatamente superturbinará a sequência já praticamente ininterrupta de ataques letais dentro do Afeganistão. O Talibã Paquistanês (Tehrik-e-Taliban Pakistan, TTP) turbinará os ataques transfronteiras, de Kunar e Nuristan no Afeganistão, contra Dir e Bajaur no Paquistão. E grupos militares linha-dura no Paquistão sentir-se-iam ainda mais motivados para livrar-se, de vez, do governo civil.

Dado que Washington em certa medida treina e equipa os militares de Islamabad, e a Agência Central de Inteligência, CIA, é também íntima do ISI paquistanês, há quem suponha que Islamabad “pertença” a Washington.

Até pertence – mas só até certo ponto. Seria útil que alguém organizasse um seminário em Washington para explicar que o exército paquistanês tem agenda muito diferente da agenda do serviço secreto; e que o ISI é infiltrado de células secretas de bandidos; uma dessas células pode ter assassinado Saleem Shahzad.

Os militares paquistaneses trabalham hoje para tirar do Talibã “histórico” liderado pelo Mulá Omar, e também do Hizb-e Islami de Gulbuddin Hekmatyar, a maior parte da influência que têm no Afeganistão. Mas, ao mesmo tempo, aquelas células linha mais dura que há dentro do ISI querem continuar a apoiar a rede Haqqani, que veem como ferramenta para manter subjugado qualquer futuro governo afegão.

A hora de Pequim entrar no jogo

A coisa vai realmente pegar fogo se – quando – o consortium Pentágono/ CIA/ Casa Branca ordenar que helicópteros das Forças Especiais dos EUA violem a soberania do Paquistão (à moda do que já aconteceu em Abbottabad, no ataque para matar Osama bin Laden), e ataquem os Haqqanis, quando então haverá risco de confronto direto com o exército do Paquistão. O primeiro-ministro Yousuf Raza Gilani já convocou reunião de emergência exatamente para analisar essa específica possibilidade. 

Se acontecer, Islamabad com certeza se mobilizará e fará o que tiver de fazer para desmantelar a rede logística de suprimentos, crucialmente importante, que vai do porto de Karachi, no sul, até o desfiladeiro Khyber, interrompendo o fluxo de suprimentos para os soldados da OTAN no Afeganistão. Esse movimento destruirá qualquer possibilidade de partilhamento de inteligência e cooperação nas ações de contraterrorismo/contrainteligência. E até a al-Qaeda obterá melhores condições para viver em todo o Paquistão – e não só nas áreas tribais. 

Isso, para nem falar que o Paquistão tem exército de 610 mil soldados, com cerca de mais 500 mil reservistas. Se se considera que nada além de 15-20 mil Talibã conseguiram manter as tropas de EUA/OTAN cercadas no Afeganistão ao longo de anos, a matemática ajuda a explicar a via que resta a Washington, como única saída: desastre. 

O Paquistão é um dos principais ativos geopolíticos da China. Não há dúvida alguma de que Pequim já fez todos os cálculos e já viu que a estratégia enlouquecida de Washington – ou incontrolável impulso para lançar operações “cinéticas” a torto e a direito – só pode resultar em alienação total do Paquistão. 

O ministro chinês de Segurança Pública Meng Jianzhu – o mais alto funcionário da segurança chinesa – esteve em Rawalpindi na 2ª-feira. Não por acaso, o ministro do Interior declarou que “a China sempre aparece ao nosso lado, nos momentos mais difíceis”. Meng, por sua vez, disse que se discutiram meios para “contribuir para a segurança nacional e a estabilidade na região”. [1]

Também na semana em curso, o exército do Paquistão iniciou manobras conjuntas no Punjab com forças da “amiga especial do Paquistão”, a Arábia Saudita. Com amigas especiais como Pequim e Riad para compensar equipamento militar ou renda perdidos, não surpreende que os generais paquistaneses não estejam, exatamente, paralisados de desespero. 

Washington, sim, está desesperada, urgentemente necessitada de fazer alguma coisa. Nesse contexto, o que se pode esperar? 

Esperem um festival de aviões-robôs drones MQ-9 Reapers, dronando o Waziristão Norte até a morte. O que para o presidente Barack Obama dos EUA é “ferramenta de capacidades únicas”, para os agricultores pashtuns é arma de terroristas. 

Esperem ataque depois de ataque, sem parar, pelos drones comandados de uma sala de controle na base da força aérea dos EUA em Nellis, Nevada. 

Esperem chuva de mísseis estratégicos bombardeando sem parar, e danos colaterais espetaculares. 

Esperem mais ataques de forças de operações especiais ordenados pelo Comando Militar Conjunto dos EUA para “matar/capturar”. 

Esperem nova gigantesca Lista de Resultados Prioritários do Comando Militar Conjunto [ing. Joint Prioritized Effects List], exatamente como houve no Afeganistão; é lista sem nomes: só números de telefones celulares ou por satélite. Se o seu número entrar nessa lista por engano, considere-se desde já assado no fogo do inferno (à moda dos mísseis Hellfire). 

Esperem vingança eterna, imorredoura, mortal, dos pashtuns contra os norte-americanos, que virá, inevitável como a morte e os impostos. 

E, sobretudo: esperem que a tal “guerra de baixa intensidade” vire, a qualquer instante, guerra de intensidade vulcânica. 



Nota dos tradutores