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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A raposa paquistanesa e o galinheiro afegão

EUA operam virada dramática na política do Af-Pak

25/10/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:

O Paquistão obteve retumbante vitória política, ao avaliar corretamente as vulnerabilidades dos EUA nessa situação, ao modelar cuidadosamente os “ativos estratégicos” do Paquistão e porque adotou posição civil-militar unificada.

A visita da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton a Islamabad semana passada revelou-se mais um momento de definição nos movimentos finais da guerra no Afeganistão. Aconteceu sob cerrada nuvem de fumaça de propaganda Foggy Bottom [1]  habitualmente recorre à diplomacia pública de alta estridência, quando o rabo da casaca de Tio Sam está pegando fogo e os reais movimentos para apagar o fogo, por muito pouco elegantes, devam ser mantidas ocultadas.

Foi exatamente o que aconteceu semana passada. Os diplomatas dos EUA suaram as camisas para apresentar ao pessoal da imprensa uma versão elegante-heróica dos fatos: Clinton estaria viajando ao Paquistão para falar muito grosso aos recalcitrantes generais do exército do Paquistão em Rawalpindi: “O Paquistão, queira ou não queira, tem de atacar a rede Haqqani que se esconde no Waziristão Norte, nas regiões da fronteira afegã, e não param de sangrar as forças dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Se o Paquistão não atacar, os EUA agirão suo moto”.

Os especialistas que atuam pela imprensa fizeram parecer que, com ou sem o Paquistão, os EUA atacariam os guerrilheiros (além de “conversar” com eles e, simultaneamente, “construir” o Afeganistão), e que as relações entre Paquistão e EUA estariam por um fio, a menos que os generais paquistaneses agissem já.

Situação militar atual dos EUA - OTAN no Af-Pak
Só muito raramente acontece, se alguma vez aconteceu, de “o mocinho” e “o bandido” embarcarem em missão conjunta. Nas conversações em Islamabad, Clinton estava acompanhada pelo diretor da Agência Central de Inteligência, CIA, David Petraeus; e por Martin Dempsey, comandante da Junta de Comandantes do Estado-Maior dos EUA, Martin Dempsey. Evidentemente, a missão de Clinton era vida ou morte. E o que conseguiu?

Uma virada dramática

Cinco fatos são já perfeitamente evidentes.

1. Os EUA reconheceram publicamente que o Paquistão tem papel chave no fechamento da guerra do Afeganistão.

2. Os EUA aceitaram publicamente a exigência sempre claríssima, do Paquistão, de que a rede Haqqani participe das conversações e o argumento de que excluir os Haqqani enfraqueceria todo o processo. A rede Haqqani é um dos mais importantes componentes da guerrilha liderada pelos Talibã, no Afeganistão.

3. Assim sendo, a nova abordagem, a partir de agora, será “apertar” os Haqqanis para que aceitem sentar à mesa de negociações – não mais tentar desqualificá-los como grupo terrorista intratável e irreconciliável.

4. Os EUA afinal entenderam os vários fatores por trás da resistência dos paquistaneses à ideia de iniciar operações militares no Waziristão Norte e, portanto, mudaram de posição e passaram a adotar “outras formas de ação” (como partilhar inteligência em tempo real com os paquistaneses e trabalhar por aí, com os paquistaneses, para debilitar as capacidades letais da rede).

5. Clinton várias vezes reconheceu as preocupações “legítimas” de Islamabad sobre a livre operação dos Talibã em paraísos protegidos em solo afegão, a partir de onde podem lançar ataques terroristas em solo do Paquistão. Por isso, doravante, os EUA “apressarão as ações militares” [ing. would “up the military tempo”] contra aqueles paraísos protegidos e tratarão de impedir que os Talibã ataquem o Paquistão.

Clinton também teve vários gestos para demonstrar que os EUA estão dispostos a movimentos inauditos – fez mais, até, em alguns momentos, do que seria razoável esperar que fizesse – no esforço determinado para reparar as dificuldades no relacionamento entre EUA e Paquistão. Clinton admitiu que os EUA tiveram “um encontro preliminar” com os Haqqani “essencialmente só para ver se eles apareceriam, pelo menos, para um encontro preliminar” [2], e, sim, agentes paquistaneses “ajudaram a facilitar” aquele encontro.

Deu um passo adiante: revelou que EUA e Paquistão trabalharam juntos para “tentar montar um processo que levaria, na sequência, a uma negociação real” com a rede Haqqani. Clinton, de fato, recalibrou toda a fórmula inicial dos EUA de “conversar, conversar, guerrear, guerrear”. Disse que “nós [os EUA] queremos mais conversa e menos guerra, mas, para chegar à conversa, temos de continuar lutando (...) estamos agora num ponto em que já há potencial para conversações”.

Clinton negou categoricamente que o governo Barack Obama tenha considerado, recentemente, a opção de ordenar incursões por terra em território paquistanês. “Jamais foi seriamente considerado”. Ao contrário, os EUA estão reiniciando [ing. rebooting] o diálogo estratégico com o Paquistão e estão preparando um novo plano de trabalho, “Porque nós, como vocês dizem, divergimos nos últimos meses, e agora queremos voltar aos negócios”.

Clinton também deu certificado de “sem objeções” às negociações entre o serviço secreto do Paquistão (ISI) e a rede Haqqani. Não poderia ter sido mais gentil:

Agora, todas as agências de inteligência têm contatos com tipos repulsivos. É parte do trabalho de ser agência de inteligência. Que contatos são esses, como são operacionalizados, quem tem contato com quem – estamos trabalhando juntos, agora, sobre tudo isso. Mas não creio que ou o serviço secreto do Paquistão ou a CIA tenham qualquer problema, por o pessoal de cada respectiva organização manter contatos com membros de grupos que têm agendas diferentes dos governos.

Assim sendo, acho que o que estamos dizendo é que usemos aqueles contatos para trazer esse pessoal à mesa de conversa, para ver se serão ou não cooperativos (...) foi a inteligência do Paquistão quem trouxe um membro da rede Haqqani para um encontro com a equipe americana [3]. Portanto, vocês tem de saber onde encontrá-los. Esse é o tipo de coisa que nós temos de examinar e entender como podem ser benéficas.

Clinton revelou depois das conversas, que, na avaliação do comandante do exército paquistanês Parvez Kiani, o Paquistão e os EUA já estavam “90% a 95% na mesma página”. Partilhou o otimismo do general. “Acho que nossas relações cooperativas, entre nossos militares, nossas agências de inteligência, estão de volta a uma trajetória para cima”. Questões residuais são assuntos para as partes “operacionais”.

Clinton disse que houve “discussões sérias, em profundidade”, sobre pontos “específicos” sobre “o processo de paz afegão, reconciliação, como fazemos, como fazemos funcionar”; e que os dois lados avançarão para que “conversas e a operacionalização aconteçam nos próximos dias e semanas, não meses ou anos, mas dias e semanas”. E explicou: “Precisamos de um plano de trabalho para realmente prosseguir, o que faremos e como faremos isso juntos”. Revelou que também surgiu o tema de um cessar-fogo no Afeganistão, como prelúdio para conversações.

Em síntese, os EUA deixam para o Paquistão o detalhamento do processo de “apertar os Haqqanis”, e há “acordo completo sobre tentar fazer avançar um processo de paz”. EUA e Paquistão já ultrapassaram “a desafiadora fase dos meses recentes” – como disse o ministro das Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar. [4]

Uma grande jogada

O que explica essa virada dramática na estratégia dos EUA? Em resumo apertado, o governo Obama avaliou que o Paquistão firmava pé, cada dia mais; e que estava surgindo um impasse – situação inaceitável, dado o prazo limite, que se aproxima rapidamente, para a retirada dos EUA do Afeganistão, em 2014. A forte pressão tática contra o Paquistão, a ponto de os EUA já terem erguido as espadas, não deu o resultado que os EUA esperavam nem qualquer sinal de estar funcionando.

Em suma, Washington afinal vê a futilidade de tomar o Paquistão como potência hostil e de tentar impor um acordo, no Afeganistão, absolutamente inaceitável pelos militares paquistaneses [5]. Os EUA, portanto, mudaram-se para estratégica absolutamente inovadora. O mantra, agora, é “incentivar” o Paquistão, convidando-o a desempenhar papel protagonista no Afeganistão, com algumas condições que também garantam que os interesses estratégicos dos EUA continuem protegidos.

Na essência, os EUA cedem ao Paquistão, dando-lhe a primazia no Afeganistão e encarregando o governo do Paquistão de negociar com o governo do Afeganistão um acordo de paz em que haja lugar para os Talibã, pondo fim ao banho de sangue e estabilizando o país.

Pode parecer, aos detratores do Paquistão (no Afeganistão, na região e internacionalmente), que se tenha aí coisa parecida com encarregar a raposa de tomar conta do galinheiro. Tem-se também de assumir que o Paquistão alterou sua agenda prévia. O Paquistão sempre visou a dominar o Afeganistão, vizinho mais fraco e menor, que mostrou tenacidade ou temeridade (dependendo do ponto de vista) e recusou-se a aceitar a Linha Durand – o que fez dos 2.500 quilômetros de fronteira com o Paquistão e a questão ainda não resolvida da nacionalidade dos pashtuns temas existenciais para a integridade do Paquistão como estado soberano.

Mas, para os EUA, trata-se de item de uma grande jogada que o Paquistão ficará muitíssimo tentado a aceitar, se feita com suficiente charme. O que os EUA esperam é apresentá-la como situação de “ganha-ganha”, com a estabilização do Afeganistão incluída como parte do que os EUA estão chamando de “visão Nova Rota da Seda”.

De fato, a história registrará que o cerne da missão de Clinton a Islamabad foi limpar o quadro do fim da guerra do Afeganistão, de tal modo que todos os protagonistas possam morder o suculento fruto do sempre pendente projeto “Nova Rota da Seda” dos EUA, para explorar as imensas riquezas minerais da Ásia Central.

Não por acaso, Clinton também incluiu o Tadjiquistão e o Uzbequistão nesse seu tour regional – os dois países que, além do Paquistão, podem vir a ter papel crucial no desenvolvimento de laços de comunicação que conectem a Ásia Central e os mercados mundiais. Nas capitais regionais, Clinton focou-se na “visão New Silk Road” [6] [Nova Rota da Seda], que ela apresentará em conferência em Istambul dia 2/11/2011, num “esforço para conseguir que a região compre a ideia” – palavras de Clinton, não minhas.

Em Islamabad, disse claramente que sem o ativo apoio do Paquistão, o projeto New Silk Road não funcionará. Clinton exsudava otimismo. Conta com que, em termos da “visão Nova Rota da Seda”, até as intratáveis animosidades entre Índia e Paquistão possam ser aplacadas, com os dois rivais sul-asiáticos habituando-se ao nome do jogo: o objetivo final de qualquer boa política sempre terá de ter a ver com criar riqueza e prosperidade naquelas terras empobrecidas.

O governo Barack Obama fugiu o mais rápido que pôde da via em que insistia, de buscar a ferro e fogo um acordo no Afeganistão, falando diretamente com os Talibã, sem incluir o Paquistão nas conversações, e impondo a Islamabad um fato consumado (que não se consumou nem deu sinais de vir a consumar-se). Dito de outro modo, o Paquistão obteve retumbante vitória política, ao avaliar corretamente as vulnerabilidades dos EUA nessa situação, ao modelar cuidadosamente os “ativos estratégicos” do Paquistão e porque adotou uma posição civil-militar unificada.

Até aqui, tudo bem. É praticamente certo que ninguém jogará areia no ventilador, pelo menos até que Clinton exponha a tal “visão da Nova Rota da Seda” dos EUA, na conferência de vizinhos do Afeganistão e grandes potências em Istambul, daqui a uma semana. Mas... o que acontecerá depois disso?

Ainda há muitos imponderáveis. Em primeiro lugar e principalmente, pode ser que o Paquistão esteja querendo abocanhar mais, muito mais, do que pode mastigar. O pressuposto de que o Paquistão tenha influência decisiva sobre grupos Talibãs enfrentará teste duríssimo. Especificamente: o que dirão os Talibã da pretensão dos EUA de fixar presença permanente no Afeganistão? Estarão os Talibã dispostos a aceitar as bases dos EUA, como preço a pagar pela acomodação política – e, se não aceitarem, interessará ao Paquistão forçá-los a fazer o que não querem fazer? Até aqui, ainda é ambígua a posição do Paquistão sobre esse ponto.

Assim também, grupos não pashtuns certamente verão com suspeitas as intenções dos paquistaneses. A nova política dos EUA para o Afeganistão ainda insiste em não ver o Irã como ator chave. Clinton usou o tour regional também para falar em voltagem excessivamente alta contra os iranianos (que seriam os “bandidos”, inapelavelmente casados com perigosos tempos passados). O Irã estará vigiando de perto cada movimento do Paquistão, por pequeno que seja, daqui em diante.

Em Nova Delhi, capital vizinha, também haverá olhos atentos, agora que o apetite do Paquistão foi excitado, sobre o modo como os paquistaneses apresentarão a Obama sua própria “lista de desejos” (o que os paquistaneses logo farão, sem grande demora). A Nova Rota da Seda terá incubação demorada e, nas estepes da Ásia Central, esse tipo de fruto tende a azedar muito depressa.

Em todos os casos, Delhi considerará que, no longuíssimo prazo, todos estaremos mortos e, portanto, sempre lhe caberá enfatizar o aqui e o tangível. Os EUA talvez tenham de trabalhar a capital da Índia, para reduzir a influência que exerce em Kabul; talvez, em algum momento, os EUA tenham de tentar mediar a discussão sobre a Caxemira entre Índia e Paquistão; talvez os EUA consigam ressuscitar sua robusta parceria militar com o Afeganistão; talvez os EUA convidem a China, como “acionista”, no sul da Ásia.

Aprender a viver com os americanos nas vizinhanças não será experiência agradável para os especialistas e jornalistas indianos. Um dia, eles ouvem dizer que os Haqqanis são os assassinos que atacaram a Embaixada da Índia em Kabul – e, de fato, atacaram também a Embaixada dos EUA. E, hoje, o ar ferve de diz-que-disses sobre os EUA terem mudado de posição sobre os Haqqanis. O mais provável é que os especialistas e jornalistas indianos fiquem à espera do que dirá Tom Donilon, Conselheiro da Segurança Nacional dos EUA, que chega a Delhi essa semana e, afinal os informará sobre as tais fenomenais mudanças ocorridas nas políticas dos EUA. Então, por-se-ão a escrever sobre o que acontecerá, depois das mudanças fenomenais, a esse primeiro e único “parceiro indispensável” dos EUA no Sul da Ásia e em toda a região do Oceano Índico – a Índia, é claro.



Notas dos tradutores

[1] É nome de uma estação de metrô, em Washington, localizada na parte mais antiga da cidade, onde estão localizados vários prédios do governo dos EUA, entre os quais o conjunto de prédios do Departamento de Estado (e, também, o famigerado prédio Watergate). Aparece aí como metonímia e, também, como recurso metafórico de estilo: em inglês, a expressão foggy bottom, literalmente traduzida, equivale a algo como “fundão nevoento” (port. do Brasil), referência ao nevoeiro sempre mais persistente naquela parte mais baixa da topografia da cidade.

[2] 23/10/2011, “Islamabad Tonight with Nadeem Malik: Media Interaction with Hillary Clinton”,  entrevista transcrita da TV do Paquistão [em inglês].

[3] Sobre isso, ver 1/10/2011, MK Bhadrakumar, “O clã Haqqani está em conversações com os EUA”, em português. 


[5] Ver, sobre isso, 12/6/2011, M K Bhadrakumar, “Militares paquistaneses ‘enquadram’ os EUA”, em português.

[6] Sobre isso, ver 29/9/2011, “Under Secretary Hormats on U.S. New Silk Road Strategy” [em ingles].

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Clinton oferece a palma da paz ao clã Haqqani

12/10/2011, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Ver também
29/7/2010 – “O Paquistão e suas batalhas”.


A secretária de estado Hillary Clinton sinalizou abertamente, em entrevista à Reuters [1] que Washington está aberta a conversações com a rede Haqqani. Disse, em essência que o inimigo de hoje pode ser o interlocutor de amanhã, na busca da paz. Assim como hoje os soldados dos EUA e da rede Haqqani estão-se matando uns os outros, também podem perfeitamente, ao mesmo tempo, estar em conversações.  

É verdade. Assim se decidem as guerras. No Vietnã, os guerrilheiros comunistas mantinham fogo cerrado contra os EUA, mesmo durante a contagem final, quando a evacuação dos norte-americanos já estava em andamento, do telhado da embaixada dos EUA em Saigon. Clinton deixou claro que os EUA optaram por não incluir os Haqqani na lista de organizações terroristas – o que criaria grave dificuldade para os futuros negócios dos EUA com o clã.

É muito significativo o momento em que Clinton faz esse aceno aos Haqqanis. Haji Malik Khan já está sob custódia dos EUA, em local ignorado, há mais de uma quinzena [2]. Khan é um dos mais altos líderes do clã Haqqani e parente próximo de Jalaluddin e Siraj. Presumivelmente, já houve contatos com os Haqqanis, [3] e Clinton pôde avançar nas medidas de “construir confiança”, com aquela declaração pública. Esse tipo de sinal é típico da diplomacia de bastidores. Pelo tom conciliatório da fala de Clinton, pode-se supor que os contatos estejam numa fase preliminar.

A Índia tem de mover-se com muito cuidado no front afegão. Entre hoje e a próxima conferência de Bonn, em dezembro, as coisas podem avançar muito rapidamente. Para assegurar-se, os EUA quererão engajar seriamente os Talibã, desde o primeiro momento. Esperava-se que os Talibã pudessem ser persuadidos a participar do processo em Bonn. Ainda há chance de que isso aconteça. Desnecessário dizer que tudo depende da rapidez com que os EUA consigam persuadir o Paquistão a cooperar.

Restam algumas outras questões. Que lugar resta a Hamid Karzai, nesse quadro? E, claro, o que acontecerá agora, com o acordo estratégico Índia-Afeganistão? Não há respostas fáceis. Que surpreendente virada [4] estamos vendo acontecer, afinal de contas, no Grande Jogo!



Notas dos tradutores (em inglês)

[2] 10/10/2011, em: “The capture of Mali Khan”
[4] 11/10/2011, em: “A twist in the Great Game”

Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

domingo, 2 de outubro de 2011

No Paquistão, os EUA foram enquadrados outra vez

Yousuf Gilani

(e Yousuf Gilani, do Paquistão, vive seu melhor momento)
2/10/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline

Ver também
10/5/2011, “Militares paquistaneses ‘enquadram’ os EUA”, MK Bhadrakumar

Impossível não ver o tom triunfante na voz do primeiro-ministro do Paquistão Yousuf Gilani, em seu discurso em Multan, ontem [1]. O Paquistão venceu em grande estilo, no impasse com os EUA. Mas, na minha avaliação, o maior vitorioso foi o próprio Gilani, como agente político, no quadro da política do Paquistão. Foi perfeito, não só na queda de braço que disputou contra Washington e venceu, fazendo valer a opinião do Paquistão, mas, também porque ofereceu magnífica solução para o quartel-general em Rawalpindi [2], o que fará muita diferença na política interna do Paquistão no próximo governo. E dizer que foi escolhido para o cargo, pelo presidente Asif Zardari, em boa parte porque sempre foi considerado conciliador e “apolítico”. 

Vejam bem: Gilani hoje dá as cartas e pôde dizer que o diálogo entre Paquistão e os EUA será feito “em base de igualdade e confiança mútua”. Depois, mostrou ao presidente do Afeganistão Hamid Karzai que é preciso sair do palácio e trabalhar incansavelmente para conseguir arrancar o melhor possível, de uma situação adversa. 

Já conseguiu garantias formais [3], dos EUA, de que nenhum soldado dos EUA porá os pés no Waziristão. Obrigou o almirante Mike Mullen a desdizer-se na questão do nexo que haveria entre o Paquistão e a rede Haqqani. E, pelo sim, pelo não, também arrancou dos porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado a confirmação de que o almirante Mullen não fala pelos EUA. 

Como se não bastasse, também obrigou o presidente Barack Obama a agir pessoalmente, publicamente, para ajudar a aplicar um indispensável bálsamo no orgulho ferido do Paquistão.

O mais sensacional é que o Paquistão conseguiu também presentear os EUA com uma “saída estratégica” no caso do Afeganistão [4], que os EUA absolutamente não podem descartar: o contato direto com o clã Haqqani. 

A beleza dessa arquitetura política é que, agora, será a vez de os EUA fazerem o máximo possível para defender os “legítimos interesses” do Paquistão no Afeganistão, porque essa é a única via que restou aos EUA para defender, inter alia, os próprios interesses norte-americanos.

A mudança tectônica que já se constatou na diplomacia pública dos EUA, com o que disse o embaixador dos EUA no Paquistão, Cameron Munter [5] (e seu colega na Austrália) diz muito sobre as dimensões do sentimento de gratidão e alívio em Washington. É o melhor momento de Gilani.



Notas dos tradutores

Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pepe Escobar - "Paquistão: na alça de mira do Pentágono"

Pepe Escobar

30/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
  

Ver também
8/6/2011, “Os EUA insuflam uma nova Guerra Fria”, MK Bhadrakumar 
16/6/2011, “CIA tenta amotinar o exército do Paquistão”, MK Bhadrakumar


A Síria terá de esperar. A próxima parada, na estrada da “guerra longa” cunhada pelo Pentágono, parece que será no Paquistão. Sim, já há guerra no que o governo de Barack Obama batizou de Af-Pak. Mas o tempo vai fechar e a hora está chegando, agora cada vez mais perto, para a parte “Pak”. Pode-se chamar de campanha “nenhuma bomba deixada para trás”.

Al-Qaeda é coisa do passado; afinal de contas, há homens da al-Qaeda, como Abdelhakim Belhaj, já no comando de Trípoli. O novo mega bicho-papão fabricado em Washington é hoje a rede Haqqani. 

Uma incansável indústria de fabricar consenso contra a rede Haqqani já roda a pleno vapor, ativada por uma constelação dos suspeitos neoconservadores de sempre, oferta sortida de republicanos inventadores de guerras, “funcionários do Pentágono” e o complexo militar-industrial ativo na corporação da imprensa-empresa. 

A rede Haqqani, força de 15-20 mil combatentes pashtuns liderada por Jalalludin Haqqani, mujahideen que combateram contra os soviéticos, é componente chave da guerrilha afegã, de suas bases na área tribal paquistanesa do Waziristão Norte. 

Para o almirante Mike Mullen, chefe do Comando Militar Conjunto dos EUA [ing. US Joint Chiefs of Staff], a rede Haqqani “atua como verdadeiro braço da agência de serviço secreto do Paquistão, Inter-Services Intelligence (ISI)”. Mullen demorou nada menos que 10 anos, desde o início do bombardeio norte-americano contra o Afeganistão, para descobrir isso. Merece um Prêmio Nobel da Paz. 

Segundo a narrativa do governo dos EUA, o serviço secreto do Paquistão deu sinal verde para que a rede Haqqani atacasse a Embaixada dos EUA em Kabul, dia 13 de setembro. 

O chefe do Pentágono Leon Panetta andou dizendo que, como resposta, Washington poderia tomar iniciativa unilateral. Significa que vasto número de agricultores pashtuns, inclusive mulheres e crianças, que já estão sendo dizimados ao longo de meses em ataques dos aviões-robôs norte-americanos (drones), devem ser classificados como coadjuvantes numa operação humanitária. 

A “guerra longa” do Pentágono, também conhecida como “guerra ao terror”, pode custar à economia paquistanesas espantosos 100 bilhões de dólares – e mais de 30 mil mortos, grande parte dos quais são civis. Em guerra de “nenhuma bomba deixada para trás”, deve-se esperar que o “dano colateral” continue a crescer. 

Em dúvida, leia o livro

Previsivelmente, o chefe do exército do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kiani – por falar dele, eterno queridinho do Pentágono – nega que o ISI divida o leito com os Haqqanis. Fato é que, sim, dividem. Mas muito mais obsceno é o discurso atual do Paquistão – segundo o qual os EUA fracassaram vergonhosamente no Afeganistão e, agora, tentam culpar o Paquistão pelo desastre.

O almirante Mullen, pelo menos, diz o que se lê no livro indispensável de Syed Saleem Shahzad, Inside al-Qaeda and the Taliban: Beyond Bin Laden and 9/11. No livro, Saleem, que foi chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão, detalha como o legendário – e vaidoso – Jalalludin Haqqani (que ainda tinge o cabelo) jamais deixou de ser um dos principais senhores-da-guerra Talibã; e como o serviço secreto do Paquistão jamais deixou de mantê-lo informado de que ataques do próprio ISI contra o próprio Haqqani, seu filho e sua rede, não passavam de pirotecnia.

Os Haqqanis têm base no Waziristão Norte, mas comandam grande parte do show em Paktia, Paktika e Khost do outro lado da fronteira. O astuto Jalalludin jurou total fidelidade ao líder Talibã Mulá Omar – que todos sabem que está escondido em Quetta, na província paquistanesa do Baluquistão, mas mantêm-se misteriosamente invisível até aos melhores olhos celestes dos EUA. 

Crer que o ISI simplesmente se livraria dos Haqqanis, ou que desmantelaria suas bases no Waziristão Norte, para que não mais pudessem atacar os EUA e as forças da OTAN no Afeganistão é puro mais desejar que raciocinar. Os militares paquistaneses tem cachorro grande na luta afegã, chamado Talibã – que eles mesmos inventaram no início dos anos 1990s.

Mais importante que isso, os Haqqanis são força na qual o Paquistão sempre poderá manter, como uma espécie de exército de reserva, para fazer frente à crescente influência da Índia no Afeganistão. 

Quando a ministra de Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar diz que os EUA “não podem dar-se o luxo de alienar o Paquistão”, está absolutamente certa. Se acontecer, o Talibã histórico imediatamente superturbinará a sequência já praticamente ininterrupta de ataques letais dentro do Afeganistão. O Talibã Paquistanês (Tehrik-e-Taliban Pakistan, TTP) turbinará os ataques transfronteiras, de Kunar e Nuristan no Afeganistão, contra Dir e Bajaur no Paquistão. E grupos militares linha-dura no Paquistão sentir-se-iam ainda mais motivados para livrar-se, de vez, do governo civil.

Dado que Washington em certa medida treina e equipa os militares de Islamabad, e a Agência Central de Inteligência, CIA, é também íntima do ISI paquistanês, há quem suponha que Islamabad “pertença” a Washington.

Até pertence – mas só até certo ponto. Seria útil que alguém organizasse um seminário em Washington para explicar que o exército paquistanês tem agenda muito diferente da agenda do serviço secreto; e que o ISI é infiltrado de células secretas de bandidos; uma dessas células pode ter assassinado Saleem Shahzad.

Os militares paquistaneses trabalham hoje para tirar do Talibã “histórico” liderado pelo Mulá Omar, e também do Hizb-e Islami de Gulbuddin Hekmatyar, a maior parte da influência que têm no Afeganistão. Mas, ao mesmo tempo, aquelas células linha mais dura que há dentro do ISI querem continuar a apoiar a rede Haqqani, que veem como ferramenta para manter subjugado qualquer futuro governo afegão.

A hora de Pequim entrar no jogo

A coisa vai realmente pegar fogo se – quando – o consortium Pentágono/ CIA/ Casa Branca ordenar que helicópteros das Forças Especiais dos EUA violem a soberania do Paquistão (à moda do que já aconteceu em Abbottabad, no ataque para matar Osama bin Laden), e ataquem os Haqqanis, quando então haverá risco de confronto direto com o exército do Paquistão. O primeiro-ministro Yousuf Raza Gilani já convocou reunião de emergência exatamente para analisar essa específica possibilidade. 

Se acontecer, Islamabad com certeza se mobilizará e fará o que tiver de fazer para desmantelar a rede logística de suprimentos, crucialmente importante, que vai do porto de Karachi, no sul, até o desfiladeiro Khyber, interrompendo o fluxo de suprimentos para os soldados da OTAN no Afeganistão. Esse movimento destruirá qualquer possibilidade de partilhamento de inteligência e cooperação nas ações de contraterrorismo/contrainteligência. E até a al-Qaeda obterá melhores condições para viver em todo o Paquistão – e não só nas áreas tribais. 

Isso, para nem falar que o Paquistão tem exército de 610 mil soldados, com cerca de mais 500 mil reservistas. Se se considera que nada além de 15-20 mil Talibã conseguiram manter as tropas de EUA/OTAN cercadas no Afeganistão ao longo de anos, a matemática ajuda a explicar a via que resta a Washington, como única saída: desastre. 

O Paquistão é um dos principais ativos geopolíticos da China. Não há dúvida alguma de que Pequim já fez todos os cálculos e já viu que a estratégia enlouquecida de Washington – ou incontrolável impulso para lançar operações “cinéticas” a torto e a direito – só pode resultar em alienação total do Paquistão. 

O ministro chinês de Segurança Pública Meng Jianzhu – o mais alto funcionário da segurança chinesa – esteve em Rawalpindi na 2ª-feira. Não por acaso, o ministro do Interior declarou que “a China sempre aparece ao nosso lado, nos momentos mais difíceis”. Meng, por sua vez, disse que se discutiram meios para “contribuir para a segurança nacional e a estabilidade na região”. [1]

Também na semana em curso, o exército do Paquistão iniciou manobras conjuntas no Punjab com forças da “amiga especial do Paquistão”, a Arábia Saudita. Com amigas especiais como Pequim e Riad para compensar equipamento militar ou renda perdidos, não surpreende que os generais paquistaneses não estejam, exatamente, paralisados de desespero. 

Washington, sim, está desesperada, urgentemente necessitada de fazer alguma coisa. Nesse contexto, o que se pode esperar? 

Esperem um festival de aviões-robôs drones MQ-9 Reapers, dronando o Waziristão Norte até a morte. O que para o presidente Barack Obama dos EUA é “ferramenta de capacidades únicas”, para os agricultores pashtuns é arma de terroristas. 

Esperem ataque depois de ataque, sem parar, pelos drones comandados de uma sala de controle na base da força aérea dos EUA em Nellis, Nevada. 

Esperem chuva de mísseis estratégicos bombardeando sem parar, e danos colaterais espetaculares. 

Esperem mais ataques de forças de operações especiais ordenados pelo Comando Militar Conjunto dos EUA para “matar/capturar”. 

Esperem nova gigantesca Lista de Resultados Prioritários do Comando Militar Conjunto [ing. Joint Prioritized Effects List], exatamente como houve no Afeganistão; é lista sem nomes: só números de telefones celulares ou por satélite. Se o seu número entrar nessa lista por engano, considere-se desde já assado no fogo do inferno (à moda dos mísseis Hellfire). 

Esperem vingança eterna, imorredoura, mortal, dos pashtuns contra os norte-americanos, que virá, inevitável como a morte e os impostos. 

E, sobretudo: esperem que a tal “guerra de baixa intensidade” vire, a qualquer instante, guerra de intensidade vulcânica. 



Nota dos tradutores