terça-feira, 25 de outubro de 2011

A raposa paquistanesa e o galinheiro afegão

EUA operam virada dramática na política do Af-Pak

25/10/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:

O Paquistão obteve retumbante vitória política, ao avaliar corretamente as vulnerabilidades dos EUA nessa situação, ao modelar cuidadosamente os “ativos estratégicos” do Paquistão e porque adotou posição civil-militar unificada.

A visita da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton a Islamabad semana passada revelou-se mais um momento de definição nos movimentos finais da guerra no Afeganistão. Aconteceu sob cerrada nuvem de fumaça de propaganda Foggy Bottom [1]  habitualmente recorre à diplomacia pública de alta estridência, quando o rabo da casaca de Tio Sam está pegando fogo e os reais movimentos para apagar o fogo, por muito pouco elegantes, devam ser mantidas ocultadas.

Foi exatamente o que aconteceu semana passada. Os diplomatas dos EUA suaram as camisas para apresentar ao pessoal da imprensa uma versão elegante-heróica dos fatos: Clinton estaria viajando ao Paquistão para falar muito grosso aos recalcitrantes generais do exército do Paquistão em Rawalpindi: “O Paquistão, queira ou não queira, tem de atacar a rede Haqqani que se esconde no Waziristão Norte, nas regiões da fronteira afegã, e não param de sangrar as forças dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Se o Paquistão não atacar, os EUA agirão suo moto”.

Os especialistas que atuam pela imprensa fizeram parecer que, com ou sem o Paquistão, os EUA atacariam os guerrilheiros (além de “conversar” com eles e, simultaneamente, “construir” o Afeganistão), e que as relações entre Paquistão e EUA estariam por um fio, a menos que os generais paquistaneses agissem já.

Situação militar atual dos EUA - OTAN no Af-Pak
Só muito raramente acontece, se alguma vez aconteceu, de “o mocinho” e “o bandido” embarcarem em missão conjunta. Nas conversações em Islamabad, Clinton estava acompanhada pelo diretor da Agência Central de Inteligência, CIA, David Petraeus; e por Martin Dempsey, comandante da Junta de Comandantes do Estado-Maior dos EUA, Martin Dempsey. Evidentemente, a missão de Clinton era vida ou morte. E o que conseguiu?

Uma virada dramática

Cinco fatos são já perfeitamente evidentes.

1. Os EUA reconheceram publicamente que o Paquistão tem papel chave no fechamento da guerra do Afeganistão.

2. Os EUA aceitaram publicamente a exigência sempre claríssima, do Paquistão, de que a rede Haqqani participe das conversações e o argumento de que excluir os Haqqani enfraqueceria todo o processo. A rede Haqqani é um dos mais importantes componentes da guerrilha liderada pelos Talibã, no Afeganistão.

3. Assim sendo, a nova abordagem, a partir de agora, será “apertar” os Haqqanis para que aceitem sentar à mesa de negociações – não mais tentar desqualificá-los como grupo terrorista intratável e irreconciliável.

4. Os EUA afinal entenderam os vários fatores por trás da resistência dos paquistaneses à ideia de iniciar operações militares no Waziristão Norte e, portanto, mudaram de posição e passaram a adotar “outras formas de ação” (como partilhar inteligência em tempo real com os paquistaneses e trabalhar por aí, com os paquistaneses, para debilitar as capacidades letais da rede).

5. Clinton várias vezes reconheceu as preocupações “legítimas” de Islamabad sobre a livre operação dos Talibã em paraísos protegidos em solo afegão, a partir de onde podem lançar ataques terroristas em solo do Paquistão. Por isso, doravante, os EUA “apressarão as ações militares” [ing. would “up the military tempo”] contra aqueles paraísos protegidos e tratarão de impedir que os Talibã ataquem o Paquistão.

Clinton também teve vários gestos para demonstrar que os EUA estão dispostos a movimentos inauditos – fez mais, até, em alguns momentos, do que seria razoável esperar que fizesse – no esforço determinado para reparar as dificuldades no relacionamento entre EUA e Paquistão. Clinton admitiu que os EUA tiveram “um encontro preliminar” com os Haqqani “essencialmente só para ver se eles apareceriam, pelo menos, para um encontro preliminar” [2], e, sim, agentes paquistaneses “ajudaram a facilitar” aquele encontro.

Deu um passo adiante: revelou que EUA e Paquistão trabalharam juntos para “tentar montar um processo que levaria, na sequência, a uma negociação real” com a rede Haqqani. Clinton, de fato, recalibrou toda a fórmula inicial dos EUA de “conversar, conversar, guerrear, guerrear”. Disse que “nós [os EUA] queremos mais conversa e menos guerra, mas, para chegar à conversa, temos de continuar lutando (...) estamos agora num ponto em que já há potencial para conversações”.

Clinton negou categoricamente que o governo Barack Obama tenha considerado, recentemente, a opção de ordenar incursões por terra em território paquistanês. “Jamais foi seriamente considerado”. Ao contrário, os EUA estão reiniciando [ing. rebooting] o diálogo estratégico com o Paquistão e estão preparando um novo plano de trabalho, “Porque nós, como vocês dizem, divergimos nos últimos meses, e agora queremos voltar aos negócios”.

Clinton também deu certificado de “sem objeções” às negociações entre o serviço secreto do Paquistão (ISI) e a rede Haqqani. Não poderia ter sido mais gentil:

Agora, todas as agências de inteligência têm contatos com tipos repulsivos. É parte do trabalho de ser agência de inteligência. Que contatos são esses, como são operacionalizados, quem tem contato com quem – estamos trabalhando juntos, agora, sobre tudo isso. Mas não creio que ou o serviço secreto do Paquistão ou a CIA tenham qualquer problema, por o pessoal de cada respectiva organização manter contatos com membros de grupos que têm agendas diferentes dos governos.

Assim sendo, acho que o que estamos dizendo é que usemos aqueles contatos para trazer esse pessoal à mesa de conversa, para ver se serão ou não cooperativos (...) foi a inteligência do Paquistão quem trouxe um membro da rede Haqqani para um encontro com a equipe americana [3]. Portanto, vocês tem de saber onde encontrá-los. Esse é o tipo de coisa que nós temos de examinar e entender como podem ser benéficas.

Clinton revelou depois das conversas, que, na avaliação do comandante do exército paquistanês Parvez Kiani, o Paquistão e os EUA já estavam “90% a 95% na mesma página”. Partilhou o otimismo do general. “Acho que nossas relações cooperativas, entre nossos militares, nossas agências de inteligência, estão de volta a uma trajetória para cima”. Questões residuais são assuntos para as partes “operacionais”.

Clinton disse que houve “discussões sérias, em profundidade”, sobre pontos “específicos” sobre “o processo de paz afegão, reconciliação, como fazemos, como fazemos funcionar”; e que os dois lados avançarão para que “conversas e a operacionalização aconteçam nos próximos dias e semanas, não meses ou anos, mas dias e semanas”. E explicou: “Precisamos de um plano de trabalho para realmente prosseguir, o que faremos e como faremos isso juntos”. Revelou que também surgiu o tema de um cessar-fogo no Afeganistão, como prelúdio para conversações.

Em síntese, os EUA deixam para o Paquistão o detalhamento do processo de “apertar os Haqqanis”, e há “acordo completo sobre tentar fazer avançar um processo de paz”. EUA e Paquistão já ultrapassaram “a desafiadora fase dos meses recentes” – como disse o ministro das Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar. [4]

Uma grande jogada

O que explica essa virada dramática na estratégia dos EUA? Em resumo apertado, o governo Obama avaliou que o Paquistão firmava pé, cada dia mais; e que estava surgindo um impasse – situação inaceitável, dado o prazo limite, que se aproxima rapidamente, para a retirada dos EUA do Afeganistão, em 2014. A forte pressão tática contra o Paquistão, a ponto de os EUA já terem erguido as espadas, não deu o resultado que os EUA esperavam nem qualquer sinal de estar funcionando.

Em suma, Washington afinal vê a futilidade de tomar o Paquistão como potência hostil e de tentar impor um acordo, no Afeganistão, absolutamente inaceitável pelos militares paquistaneses [5]. Os EUA, portanto, mudaram-se para estratégica absolutamente inovadora. O mantra, agora, é “incentivar” o Paquistão, convidando-o a desempenhar papel protagonista no Afeganistão, com algumas condições que também garantam que os interesses estratégicos dos EUA continuem protegidos.

Na essência, os EUA cedem ao Paquistão, dando-lhe a primazia no Afeganistão e encarregando o governo do Paquistão de negociar com o governo do Afeganistão um acordo de paz em que haja lugar para os Talibã, pondo fim ao banho de sangue e estabilizando o país.

Pode parecer, aos detratores do Paquistão (no Afeganistão, na região e internacionalmente), que se tenha aí coisa parecida com encarregar a raposa de tomar conta do galinheiro. Tem-se também de assumir que o Paquistão alterou sua agenda prévia. O Paquistão sempre visou a dominar o Afeganistão, vizinho mais fraco e menor, que mostrou tenacidade ou temeridade (dependendo do ponto de vista) e recusou-se a aceitar a Linha Durand – o que fez dos 2.500 quilômetros de fronteira com o Paquistão e a questão ainda não resolvida da nacionalidade dos pashtuns temas existenciais para a integridade do Paquistão como estado soberano.

Mas, para os EUA, trata-se de item de uma grande jogada que o Paquistão ficará muitíssimo tentado a aceitar, se feita com suficiente charme. O que os EUA esperam é apresentá-la como situação de “ganha-ganha”, com a estabilização do Afeganistão incluída como parte do que os EUA estão chamando de “visão Nova Rota da Seda”.

De fato, a história registrará que o cerne da missão de Clinton a Islamabad foi limpar o quadro do fim da guerra do Afeganistão, de tal modo que todos os protagonistas possam morder o suculento fruto do sempre pendente projeto “Nova Rota da Seda” dos EUA, para explorar as imensas riquezas minerais da Ásia Central.

Não por acaso, Clinton também incluiu o Tadjiquistão e o Uzbequistão nesse seu tour regional – os dois países que, além do Paquistão, podem vir a ter papel crucial no desenvolvimento de laços de comunicação que conectem a Ásia Central e os mercados mundiais. Nas capitais regionais, Clinton focou-se na “visão New Silk Road[6] [Nova Rota da Seda], que ela apresentará em conferência em Istambul dia 2/11/2011, num “esforço para conseguir que a região compre a ideia” – palavras de Clinton, não minhas.

Em Islamabad, disse claramente que sem o ativo apoio do Paquistão, o projeto New Silk Road não funcionará. Clinton exsudava otimismo. Conta com que, em termos da “visão Nova Rota da Seda”, até as intratáveis animosidades entre Índia e Paquistão possam ser aplacadas, com os dois rivais sul-asiáticos habituando-se ao nome do jogo: o objetivo final de qualquer boa política sempre terá de ter a ver com criar riqueza e prosperidade naquelas terras empobrecidas.

O governo Barack Obama fugiu o mais rápido que pôde da via em que insistia, de buscar a ferro e fogo um acordo no Afeganistão, falando diretamente com os Talibã, sem incluir o Paquistão nas conversações, e impondo a Islamabad um fato consumado (que não se consumou nem deu sinais de vir a consumar-se). Dito de outro modo, o Paquistão obteve retumbante vitória política, ao avaliar corretamente as vulnerabilidades dos EUA nessa situação, ao modelar cuidadosamente os “ativos estratégicos” do Paquistão e porque adotou uma posição civil-militar unificada.

Até aqui, tudo bem. É praticamente certo que ninguém jogará areia no ventilador, pelo menos até que Clinton exponha a tal “visão da Nova Rota da Seda” dos EUA, na conferência de vizinhos do Afeganistão e grandes potências em Istambul, daqui a uma semana. Mas... o que acontecerá depois disso?

Ainda há muitos imponderáveis. Em primeiro lugar e principalmente, pode ser que o Paquistão esteja querendo abocanhar mais, muito mais, do que pode mastigar. O pressuposto de que o Paquistão tenha influência decisiva sobre grupos Talibãs enfrentará teste duríssimo. Especificamente: o que dirão os Talibã da pretensão dos EUA de fixar presença permanente no Afeganistão? Estarão os Talibã dispostos a aceitar as bases dos EUA, como preço a pagar pela acomodação política – e, se não aceitarem, interessará ao Paquistão forçá-los a fazer o que não querem fazer? Até aqui, ainda é ambígua a posição do Paquistão sobre esse ponto.

Assim também, grupos não pashtuns certamente verão com suspeitas as intenções dos paquistaneses. A nova política dos EUA para o Afeganistão ainda insiste em não ver o Irã como ator chave. Clinton usou o tour regional também para falar em voltagem excessivamente alta contra os iranianos (que seriam os “bandidos”, inapelavelmente casados com perigosos tempos passados). O Irã estará vigiando de perto cada movimento do Paquistão, por pequeno que seja, daqui em diante.

Em Nova Delhi, capital vizinha, também haverá olhos atentos, agora que o apetite do Paquistão foi excitado, sobre o modo como os paquistaneses apresentarão a Obama sua própria “lista de desejos” (o que os paquistaneses logo farão, sem grande demora). A Nova Rota da Seda terá incubação demorada e, nas estepes da Ásia Central, esse tipo de fruto tende a azedar muito depressa.

Em todos os casos, Delhi considerará que, no longuíssimo prazo, todos estaremos mortos e, portanto, sempre lhe caberá enfatizar o aqui e o tangível. Os EUA talvez tenham de trabalhar a capital da Índia, para reduzir a influência que exerce em Kabul; talvez, em algum momento, os EUA tenham de tentar mediar a discussão sobre a Caxemira entre Índia e Paquistão; talvez os EUA consigam ressuscitar sua robusta parceria militar com o Afeganistão; talvez os EUA convidem a China, como “acionista”, no sul da Ásia.

Aprender a viver com os americanos nas vizinhanças não será experiência agradável para os especialistas e jornalistas indianos. Um dia, eles ouvem dizer que os Haqqanis são os assassinos que atacaram a Embaixada da Índia em Kabul – e, de fato, atacaram também a Embaixada dos EUA. E, hoje, o ar ferve de diz-que-disses sobre os EUA terem mudado de posição sobre os Haqqanis. O mais provável é que os especialistas e jornalistas indianos fiquem à espera do que dirá Tom Donilon, Conselheiro da Segurança Nacional dos EUA, que chega a Delhi essa semana e, afinal os informará sobre as tais fenomenais mudanças ocorridas nas políticas dos EUA. Então, por-se-ão a escrever sobre o que acontecerá, depois das mudanças fenomenais, a esse primeiro e único “parceiro indispensável” dos EUA no Sul da Ásia e em toda a região do Oceano Índico – a Índia, é claro.



Notas dos tradutores

[1] É nome de uma estação de metrô, em Washington, localizada na parte mais antiga da cidade, onde estão localizados vários prédios do governo dos EUA, entre os quais o conjunto de prédios do Departamento de Estado (e, também, o famigerado prédio Watergate). Aparece aí como metonímia e, também, como recurso metafórico de estilo: em inglês, a expressão foggy bottom, literalmente traduzida, equivale a algo como “fundão nevoento” (port. do Brasil), referência ao nevoeiro sempre mais persistente naquela parte mais baixa da topografia da cidade.

[2] 23/10/2011, “Islamabad Tonight with Nadeem Malik: Media Interaction with Hillary Clinton”,  entrevista transcrita da TV do Paquistão [em inglês].

[3] Sobre isso, ver 1/10/2011, MK Bhadrakumar, “O clã Haqqani está em conversações com os EUA”, em português. 


[5] Ver, sobre isso, 12/6/2011, M K Bhadrakumar, “Militares paquistaneses ‘enquadram’ os EUA”, em português.

[6] Sobre isso, ver 29/9/2011, “Under Secretary Hormats on U.S. New Silk Road Strategy” [em ingles].

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

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