segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sarkozy, Obama e o Iluminismo


28/10/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Sem violência física, é possível obrigar alguém a cuspir a goma de mascar que esteja mascando com evidente prazer?

A Rússia provou que sim. 

Esse é o contexto no qual se insere o sucesso da diplomacia russa na reunião do Conselho de Segurança da ONU, sobre a Resolução n. 1.973, na 5ª-feira passada.  

Dmitry Rogozin
O formidável enviado russo à OTAN, Dmitry Rogozin, que sabe fazer com as palavras o que só políticos excepcionalmente bem dotados fazem, disse uma vez, em agosto, que a aliança ocidental estava “mastigando a Resolução n. 1.973”, como se fosse goma de mascar, para mostrar deliberadamente que não dava nenhuma importância nem à Resolução nem ao Conselho de Segurança. 

A R 1.973 garantiu uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia, e o Ocidente foi em frente e bombardeou a Líbia até destruir o país, matou milhares de civis inocentes e esquartejou Muammar Gaddafi com uma faca (há imagens, que não se deve divulgar, mas existem). 

Sarkozy
Ocorre-me que já ninguém sabe dizer o que teriam a ver, hoje, a história da civilização ocidental e aquele famoso “Iluminismo”, se se veem hoje esses crimes bárbaros. O Iluminismo terá sido só mais um mito? Será que o ocidente algum dia saiu da Idade das Trevas – seus Nicolas Sarkozy e Barack Obama et al.? 

Seja como for, nunca antes a diplomacia russa no período pós-soviético trabalhou tão brilhantemente pela causa da paz, como ao apresentar ao Conselho de Segurança da ONU, 5ª-feira, o projeto de Resolução que exigia o fim imediato das operações da OTAN na Líbia. A iniciativa só apareceu no último momento, quando a OTAN movimentava-se já, sob um ou outro pretexto, para aplicar o golpe da legitimidade política, fazendo crer ao mundo que o povo líbio, coletivamente, estaria clamando pela permanência de tropas ocidentais na Líbia.


O movimento dos russos foi impecavelmente lógico. Afinal, os céus líbios já estão livres da artilharia mortífera de Gaddafi. Quem precisaria de “zona aérea de exclusão”? 

Super - Obama
Engraçado é que a Resolução apresentada pelos russos, e que pôs fim aos delírios da OTAN na Líbia, foi aprovada por unanimidade. Sarkozy e Obama ficaram sem alternativa. É mais que justo que, hoje, os russos, que obrigaram o “ocidente” a cuspir a goma de mascar que tanto estavam gostando de mastigar, estejam rindo sozinhos. Muito justo.

Em termos geopolíticos, a OTAN ficou, agora, numa sinuca de bico. Toda a agenda da OTAN, que previa abrir asas e voar para o norte da África e ali fazer ninho, dependia de a OTAN permanecer na Líbia. Mas Washington e Bruxelas cederão assim facilmente, sem luta?

Uma coisa é certa: Rússia e China não cairão em nenhum “golpe da Resolução do Conselho de Segurança”... no caso da Síria.

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

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