quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Seminário “Crisis y revoluciones posibles”


Organizado pela Universidade Nômade, Espanha, La Tabacalera, 7/10/2011 


Conclusões de Toni Negri 
(fala transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu)



Michael Hardt: Raras vezes, quando se viaja para conferências, aprende-se alguma coisa. Dessa vez foi diferente. Há duas coisas que queria comentar: primeiro que, em muitas das intervenções, viu-se muita preocupação com o fracasso ou o sucesso das manifestações. Pode-se dizer que, sim, o sucesso confirmou-se, no processo de politização das pessoas, que me parece essencial. É difícil, nem sei se é útil e, de qualquer modo, ainda é cedo para falar de sucessos e fracassos. Outra coisa que queria destacar é o desejo de testar novas formas de instituição, a relação, digamos, com uma nova democracia, o desejo de não se institucionalizar de maneira burocrática, tradicional. Tenho de pensar mais, mas, sim, tudo isso foi muito rico, muito interessante.

Toni Negri: Permitam-me que repita coisas que já dissemos. E agradeço a todos. Michael e eu já estamos trabalhando, há alguns anos, num projeto de constituição, agora, já. O que me impressiona é a coincidência de pontos. Gostaria muito que se fizesse um resumo do que foi dito aqui, para podermos relacioná-lo com um esquema teórico, não que se sobrepõe, mas que compõe o que foi dito aqui. O importante dos conceitos é quando entram na realidade, como o sabem bem os muitos spinozistas que há aqui [risos]. Essa a história das constituições, que parece sempre muito abstrata, mas é sempre muito concreta. Uma companheira recordou aqui que, desde a Magna Carta, que regulava direitos e liberdades, já estava associada a outra constituição, sobre o uso dos bosques. Isso se está redescobrindo hoje: buscam-se novos direitos, essa abertura que vocês estão experimentando, essa coisa verdadeiramente nova, vivemos hoje a abertura da praça. A redescoberta do estar-junto conecta-se a algo de novo. São coisas completamente novas.

Alguém falou de Cochabamba, das comunas, na luta pela água. O que é o comum? Algo que não é o privado nem é o público. Como se constitui o comum? Como se institucionaliza o comum? Como se torna algo de todos, de maneira contínua, permanente, sistemática? Acho que essas demandas já estão dentro dos discursos de vocês.

Hoje exercitar um contrapoder não significa opor-se a um poder de maneira [dialética] simétrica. Significa impor a assimetria ao confronto, uma assimetria que, no ponto extremo, tem de ser imposta ao privado, com os direitos do comum, de um comum construído, contra o privado, isto é, contra a exploração, o endividamento, a alienação, a midiatização, o encarceramento, o empobrecimento, o desclassamento, e tudo que hoje essa sociedade produz.

Tive a sorte de estar em Sevilha, por acaso, durante a acampada de 15 de maio (15M). O que mais impressionava foi o quanto o movimento 15M preencheu um vazio político, que aconteceu imediatamente, que aconteceu quase como milagrosamente. Contudo, esse vazio político foi preenchido por um voto, que há em todas as constituições ocidentais hoje. Desse ponto de vista, tem razão o companheiro colombiano, que disse que ainda não entedemos que isso que estamos fazendo tem correspondências com o que já se vem fazendo nos vinte anos passados na América Latina, que não resolveu todos os problemas, sim. Mas não há dúvidas de que o que hoje se vê hoje pelo mundo tem correspondências com a experiência argentina, boliviana, e com a grande experiência brasileira, de transformação do movimento operário de Lula, e com grande força de governo, são, todas, grandíssimas experiências de novas gestões do comum e de transformação radical das constituições, sobretudo evidentemente das constituições coloniais. É que vivemos também um processo de transformação das constituições democráticas. Das constituições que nos foram ensinadas no século 18. Acabou esse período de domínio da burguesia. E também da propriedade privada. Acabou. O que digo a vocês é que avançamos na construção do comum.

Foi belíssima a intervenção da companheira, de Barcelona, eu acho, que falava dessa espécie de ‘novo clima’, que não tem forma, que não se encontra pronto, que se vai construindo na consciência, nessa direta, imediata transformação da linguagem, imediata transformação, da paixão, um estar-junto que não é um estar-junto amoroso, ou erótico, mas é algo profundamente, amorosamente, construtivo, algo que acho que se diz, em espanhol, “criacionista”, é algo de inovação, profundamente materialista.

Outra relação que me parece interessantíssima, que também se viu nas discussões, é a relação entre o pequeno e o grande. A reconquista, por exemplo, de pontos de enraizamento na cidade, na praça, nas vilas. É extremamente importante, porque são momentos de adesão central, mas que se exprime como uma representação que não é mais a representação do poder que tolhe. Porque a representação, na belíssima definição de Karl Schmitt, grandíssimo fascista, mas realista, que diz que “a representação é presença da ausência”. É a representação burguesa: a presença da ausência.

Como se faz para transformar uma ausência em uma presença? Essa questão é fundamental: a reapropriação da representação. Como se faz, para nos reapropriarmos da ausência?

Na Itália, nos anos 60, 70, nos reapropriamos de tudo de que nos podíamos reapropriar com as mãos. Como se faz para nos reapropriar com a cabeça, com o cérebro, com a vontade, com a inteligência? Isso é fundamental. Como se faz para nos reapropriar dessa representação por ausência, que, de fato, está repleta de propriedade privada, de comandos ditatoriais, de comandos completamente externos, disciplinares, de controles, que vêm de fora? Como se faz para reinventar a autonomia? Por que a autonomia não está dada. Temos de construí-la. Há sempre o paradoxo entre a autonomia e o comum. É sempre um par: de um lado a autonomia, de outro lado o comum. E não se confundem: um lado constrói o outro. O pequeno comum, que tem de ter uma presença e, do outro lado o wellfare que temos de construir de ponta a ponta.

A grande diferença entre o que se vê aqui e o que se vê na Itália, é que na Itália ainda sobrevivem os grupos. O movimento ainda não deu o salto, para uma ordem não liderística, não estruturada, com programa que nasça de modo autônomo; na Itália, ainda são burocráticos. Não sei de vocês, mas não sou otimista. Não entendo essa ideia de que, com a vitória da direita, o movimento passará a ser di se e per se, mais forte. Não acredito nisso, porque acho que a relação de força faz muito mal, e há muitas provas disso, não só na Itália, de extremismos que não fazem bem a ninguém, sobretudo não fazem bem a nós mesmos. O enfrentamento de forças não levará a mudança pacífica. É algo que temos de evitar, se for possível. Muito obrigado.

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