domingo, 16 de outubro de 2011

O Rasputin de Putin

Peter Pomerantsev, London Review of Books, vol. 33, n. 20, p. 3-6, 20/10/2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Pensamento que, dividido em quatro, uma parte é astúcia. As três outras, só covardia.” Shakespeare, Hamlet, ato IV, cena 4 (solilóquio de Hamlet 4.4.35-69)
(Epígrafe acrescentada pelos tradutores)

O próximo ato da história da Rússia está para começar: Putin e Medvedev sairão do palco por um instante, trocarão de roupa e emergirão para representar cada um o papel do outro. Putin, outra vez presidente. Medvedev, primeiro-ministro. É a apoteose do que se conhece como “democracia administrada” e triunfo máximo do autor do roteiro do show, chefe ideólogo e eminência parda de Putin, Vladislav Surkov, o “demiurgo do Kremlin”. Conhecido também como o “rei dos fantoches, o homem que privatizou o sistema político russo”, Surkov é o verdadeiro gênio da era Putin. Conheça-o e você conhecerá, não só a Rússia contemporânea, mas um novo tipo de política de poder, filha do autoritarismo, muito mais sutil que os tiranos do século 20.

Há algo de querubim no rosto liso, gorducho, de Surkov e, nos olhos, algo de demônio. Tem formação de diretor de teatro. Depois, tornou-se homem de Relações Públicas. Hoje seu papel oficial é “vice-chefe da administração presidencial”, mas ninguém tem maior influência que ele na política russa. É o inventor do conceito de “democracia soberana”, segundo o qual as instituições democráticas existem sem liberdades democráticas; foi quem converteu a televisão em máquina de propaganda kitsch a serviço do culto a Putin; e também inventou grupos de jovens pró-Kremlin que gostam de ser comparados à Juventude Hitleriana, que espancam jornalistas estrangeiros e de oposição e queimam livros “não patrióticos” na Praça Vermelha. Mas isso é só parte da história.

Nas horas vagas, Surkov escreve ensaios sobre arte conceitual e letras para grupos de rock. É fã do gangsta rap. Há uma foto de Tupac sobre sua mesa, ao lado da foto de Putin. E é suposto autor de um romance que é sucesso de vendas, Almost Zero [Quase Zero]. “Suposto”, porque o romance foi publicado (em 2009) por Natan Dubovitsky, pseudônimo – e a esposa de Surkov é chamada de Natalya Dubovitskaya. Oficialmente, Surkov é autor do prefácio, no qual nega que seja o autor do romance e, em seguida, contradiz-se: “O autor desse romance é sujeito sem originalidade obcecado por Hamlet”; e, adiante: “é o melhor livro que li em toda minha vida”. Em entrevistas, chegou bem perto de admitir a autoria, embora ninguém jamais tenha ouvido confissão completa. Tenha de fato escrito todas as palavras, ou não, não perde ocasião de associar-se ao romance.

O romance é uma sátira da Rússia contemporânea; o herói, Egor, é homem de Relações Públicas, corrupto, dos que servem a qualquer senhor que lhe pague o aluguel. Ex-editor de poesia de vanguarda, Egor trabalha agora comprando textos de escritores empobrecidos, confinados ao submundo, e vendendo os direitos autorais a ricos burocratas e gângsteres com ambições artísticas que os publicam como se fossem obra deles. O mundo dos Relações Públicas e editores é pintado no romance como extremamente perigoso. Cada empresa editora tem suas próprias gangues, cujos membros matam-se a tiros para obter os direitos de publicação de Nabokov e Pushkin, e os serviços secretos infiltram agentes naquele mundo, para seus específicos fins imundos. É exatamente o tipo de livro que os grupos dos jovens de Surkov queimam na Praça Vermelha.

Nascido no interior da Rússia, filho de mãe solteira, Egor cresce para converter-se em rato de livraria, desencantado com a ideologia confusa do final da União Soviética. Nos anos 1980s, muda-se para Moscou, onde vive na periferia do cenário boêmio; nos anos 1990s, torna-se um ‘guru’ no campo das Relações Públicas. Em linhas gerais, essa trajetória tem muitos pontos em comum com a de Surkov, cujos detalhes eram praticamente desconhecidos, até que um artigo publicado em Novoye Vremya, no início de 2011, ofereceu a história real. Surkov nasceu em 1964, de mãe russa e pai checheno, que partiu quando o filho ainda era pequeno. Contemporâneos de escola relembram o colega que fazia piadas com as manias do professor em Komsomol, usava calças de veludo e cabelos longos à Pink Floyd, escrevia poesia e fazia sucesso com as garotas. Foi aluno nota 10, cujos ensaios sobre literatura eram lidos em reuniões de professores: não era o único a achar-se esperto demais para acreditar no cenário político e social que o cercava.

Nos anos 1980s e início dos 1990s, a Rússia passava por diferentes modas, em velocidade estonteante: a estagnação soviética levou à perestroika, que levou ao colapso da União Soviética, à euforia liberal e, em seguida, ao desastre econômico. Como acreditar em alguma coisa, quando tudo à sua volta muda tão depressa? Surkov abandonou vários cursos universitários, de metalurgia a direção teatral, passou pelo exército, pôs-se a frequentar festas boêmias, tinha explosões de violência (foi expulso da escola de arte dramática por causa de uma briga). Surkov, nos termos em que aparece descrito num dos telegramas diplomáticos distribuído por WikiLeaks, sempre se viu como gênio incompreendido, mas demorou a encontrar a verdadeira vocação.

Treinava artes marciais num clube com Mikhail Khodorkovsky, então uma das estrelas emergentes do jovem empresariado russo. Khodorkovsky contratou-o como guarda-costas, entendeu que podia usar mais os miolos que os músculos de Surkoav e logo o promoveu a gerente de Relações Públicas. Logo se tornou conhecido pela capacidade, não só para criar engenhosas campanhas de Relações Públicas, mas, também, para manipular os demais e conseguir ver suas campanhas promovidas, pela grande imprensa, com uma mistura de charme, violência e suborno. “Surkov age como um Chekista dos anos 1920s e 1930s” [1] – disse Dmitry Oreshkin, analista político. “Sempre fareja o ponto mais fraco dos outros”. A partir daí, ocupou postos de chefia em bancos e canais de televisão. Em 1999, foi convidado para integrar o governo de Yeltsin. Mais designer que burocrata, logo se destacou. Foi dos principais contatos com imprensa-empresa na promoção da campanha presidencial de Putin em 2000. Desde então, enquanto tantos de seus colegas caíram em desgraça, Surkov tem conseguido manter-se no jogo, se reconstruindo para atender às carências dos patrões. “Slava é um camaleão” – segundo Boris Nemtsov, destacado político da oposição: “Sob Yeltsin, foi democrata; sob Putin, é um autocrata”. 

Num dado momento, começou a temer que tanto sucesso atraísse sua desgraça: começaram boatos de que teria ambições presidenciais, boato perigoso, sobretudo em círculos políticos; e Surkov imediatamente fez vazar sua história de filho de pai checheno, até aí mantida secreta, como modo de declarar que jamais concorreria aos mais altos postos; ou, pelo menos, é o que se diz. Foi seu modo de dizer “conheço meu lugar”. Um de seus ex-patrões descreve-o como “pessoa fechada, com muitos demônios na alma. Não consegue ver-se no mesmo nível que o resto da humanidade. Tem de estar acima ou, sendo necessário, abaixo: é ou o senhor ou o escravo.” 

As partes mais interessantes de Almost Zero acontecem quando o autor deixa a sátira social e apresenta o mundo interior de seu protagonista. Egor é descrito como “um Hamlet vulgar” capaz de ver sob a superficialidade do próprio tempo, mas incapaz de qualquer sentimento genuíno por qualquer um ou qualquer causa: “Seu self estava trancado numa casca de noz (...) por fora só suas sombras, bonecos. Via-se como quase autista, fingindo contato com o mundo externo, falando aos demais com voz falsa para pescar o que quisesse da fauna de Moscou: livros, sexo, dinheiro, comida, poder e outras coisas úteis”. O romance refere-se repeticamente a Hamlet – embora Prospero fosse talvez mais adequado –, com os demais personagens principais comparados aos Atores, “preparados para representar atos pastoris, tragédias ou qualquer coisa entre uns e outras”. O romancista Eduard Limonov descreve Surkov como alguém que “converteu a Rússia num teatro pós-moderno, no qual ele faz experimentos com modelos políticos velhos e novos”. Há aí alguma verdade. Na Rússia contemporânea, diferente da velha URSS ou da atual Coreia do Norte, o cenário muda constantemente: pela manhã, o país é uma ditadura; à hora do almoço, é democrático; no jantar, uma oligarquia, e todo o tempo, nos bastidores, empresas de petróleo são expropriadas, jornalistas assassinados, bilhões mandados para longe. Surkov está no centro do show, num momento patrocinando skinheads nacionalistas, no momento seguinte apoiando grupos de direitos humanos. É uma estratégia de poder baseada em manter eternamente confusa qualquer oposição, uma eterna troca de máscaras, sem fim, porque indefinível.

Essa fusão de despotismo e pós-modernismo, na qual nenhuma verdade é afirmável, reflete-se na loucura que cresce entre a elite russa, por programação neurolinguística e hipnose Eriksoniana: modalidades de manipulação subliminal que se baseiam, em grande parte, em confundir o oponente, desenvolvidas nos anos 1960s nos EUA. Há em Moscou uma infinidade de centros de programação neurolinguística e de hipnose, freqüentados por todos os tipos de aspirantes ao poder, que pagam milhares de dólares para aprender o segredo de converter-se no próximo grão-mestre manipulador. 

Autores franceses pós-modernos recentemente traduzidos dão peso filosófico ao modelo Surkoviano de poder. François Lyotard, teórico francês do pós-modernismo, só começou a ser traduzido na Rússia no final dos anos 1990s, exatamente quando Surkov passou a trabalhar para o governo. O autor de Almost Zero adora invocar conceitos de Lyotard, como a quebra das grandes narrativas culturais e a fragmentação da verdade – ideias que soam novíssimas na Rússia. Um blogueiro observou que “o número de referências a Derrida no discurso político já cresceu muito além do razoável. Em recente conferência, o deputado Ivanov, da Duma, citou Derrida três vezes e Lacan, duas”. Num eco do destino do socialismo no início do século 20, a Rússia adotou um modismo intelectual ocidental supostamente libertário e converteu-o em instrumento de opressão.

No tempo dos sovietes, funcionários do estado pelo menos fingiam nominalmente que acreditavam no comunismo. Hoje, o presidente dos principais canais de televisão na Rússia, Vladimir Kulistikov, que trabalhou para a Radio Free Europa, anuncia, com orgulho, que “posso trabalhar com qualquer poder com o qual me mandem trabalhar”. Desde que você tenha mostrado lealdade nos momentos que contam, você é livre para fazer o que bem entenda do seu tempo de folga. Um super proprietário de galerias de Moscou assessora o Kremlin em assuntos de propaganda, ao mesmo tempo em que em suas galerias, exibe arte anti-Kremlin; o diretor de cinema mais em voga faz filme blockbuster satirizando o regime de Putin, ao mesmo tempo em que freqüenta as festas de Putin; e Surkov publica romance sobre a corrupção do sistema e escreve letras de rocks denunciando o regime de Putin – letras que, noutros tempos, o poriam na cadeia.

Na Rússia Soviética, você tinha de renegar qualquer noção de liberdade artística, se quisesse uma fatia do bolo. Na Rússia de hoje, se você for esperto e tiver talento, pode ter as duas coisas. Gera-se assim um tipo inimitável de fusão, da propriedade feudal mais primitiva, com uma ironia arqui-pós-moderna. Cartaz de propaganda que se via por todo o centro de Moscou no início de 2011 captura com perfeição esse clima. Com design de cartaz nazista, mostrava jovens louros, de ar germânico, contemplando uma gloriosa paisagem de montanhas alpinas. Abaixo, lia-se “A vida está cada vez melhor”. Seria erro supor que houvesse alguma ironia humorística no cartaz, mas tampouco é coisa séria. É, pode-se dizer, as duas coisas simultaneamente. Diz que essa é a sociedade em que vivemos (uma ditadura), mas estamos só brincando de ditadura (até fazemos piada da ditadura), mas brincando a sério (estamos ganhando muito dinheiro nessa brincadeira de ditadura e a ditadura não permitirá nenhum tipo de subversão das regras). Há alguns meses, houve uma enorme ‘festa-Putin’ num dos mais glamurosos clubes de Moscou. Strippers dançavam penduradas em mastros, cantando “Quero você, primeiro-ministro”. É a mesma lógica. Todos somos genuínos lambe-botas do chefão, mas, como somos pessoas liberadas, gente do século 21, que apreciamos os filmes dos irmãos Coen, lambemos as botas com um sorriso de ironia, ao mesmo tempo em que reconhecemos que, se algum dia errarmos o passo, logo estaremos mortos.

Esse é o mundo que Surkov criou, mundo de máscaras e poses, colorido, mas vazio, com nada de substrato além do apreço ao poder pelo poder e pela acumulação de vastas riquezas. O país vive conforme o roteiro escrito pelo quase-diretor de teatro. A vitória de Surkov parece total. Mas, de fato, não é. Almost Zero não é o único campeão de vendas escrito por membro da elite política e econômica da Rússia. 

Em janeiro, Khodorkovsky, velho amigo de Surkov, o magnata do petróleo que continua preso, convertido agora em destacado dissidente político, publicou uma seleção de ensaios e entrevistas. Surkov e Khodorkovsky têm complexa história pessoal comum. Khodorkovsky, pelo que se diz, jamais confiou plenamente em Surkov. Por isso, quando seu jovem diretor de Relações Públicas pediu-lhe sociedade com direito a voto na empresa de petróleo e no banco, Khodorkovsky recusou. Brigaram. E muitos dizem que essa inimizade foi fator decisivo na condenação e prisão de Khodorkovsky. 

Hoje os dois livros são como a representação da fenda intelectual que divide a Rússia. Os ensaios de Khodorkovsky tratam, principalmente, do que o autor pensa sobre o futuro político da Rússia. Na cadeia, Khodorkovsky converteu-se à social-democracia e denuncia o capitalismo de cassino que lhe permitiu acumular fortuna. Não são ideias originais. O que chama a atenção no livro de Khodorkovsky é o tom – sereno, digno, comedido. Khodorkovsky nem ataca seus carcereiros, nem se ajoelha, embora o que se espera que faça seja, precisamente, ajoelhar-se. [2]

No que tenha a ver com o Kremlin, o cenário ideal, ao qual se renderam quase todos os demais oligarcas, seria que Khodorkovsky baixasse a cabeça, suplicasse perdão, assinasse uma confissão falsa: a estratégia da velha KGB. Ele recusa-se a fazer isso – o que o converteu em figura de destaque dos liberais. Ninguém supõe que seja puro de coração, nem ele nem qualquer dos outros bilionários dos anos 1990s, mas sua atitude hoje, no quadro do conformismo Surkoviano, impressiona. Julgamento recente condenou-o a mais seis anos de cadeia, acusado por ter, de certo modo, roubado sua própria empresa de petróleo. Como se não bastasse, o juiz anunciou, na fala final, que dois ex-ministros, que haviam deposto a favor de Khodorkovsky, depuseram, de fato, contra ele, depois de reanalisadas as provas. O que era branco virou preto, o preto, branco. O ponto central é o próprio absurdo: o Kremlin declarou que controla completamente toda a realidade e que o que diga, por ridículo que seja, é a verdade.

Desde o julgamento de Khodorkovsky, têm havido alguns surtos de protesto, de personagens antes leais. Primeiro, uma glamurosa ballerina, não conhecida pela coragem política, desligou-se do partido que Surkov criou, quando sua assinatura apareceu em documento público de denúncias contra Khodorkovsky. Depois, o assessor de imprensa do tribunal no qual Khodorkovsky foi condenado, admitiu, em lágrimas, que o juiz fora obrigado a ler, como sua fala final, documento preparado pelo Kremlin. Mais recentemente, Mikhail Prokhorov, o mais famoso dos oligarcas que ainda permanece fora na cadeia, denunciou Surkov como “mestre manipulador de fantoches”; imediatamente depois da denúncia, Prokhorov perdeu o posto de presidente da Comissão Presidencial para a Modernização. 

A foto de Khodorkovsky olhando por trás das barras de sua cela, que se vê na capa de seus Collected Essays mudou de significado. Quando foi preso, em 2003, essa imagem anunciava a dominação e o poder de Putin, o homem que prendera e domesticara, do dia para a noite, os mais poderosos oligarcas. “Você não passa de fotografia que saiu da capa da revista Forbes, para a cadeia” – dizia aquela imagem. O trabalho de Surkov foi assegurar que aquela foto aparecesse no maior número possível de páginas de jornal e telas de televisão. Oito anos depois, Khodorkovsky continua preso, mas a imagem diz algo mais: “Vocês me veem atrás das grades, mas toda a Rússia é uma prisão”.

Caso claro de dizer que branco é preto, a imprensa controlada por Surkov refere-se aos liberais que apóiam Khodorkovsky como “demo-esquizos” (ru. Demoshiza, contração de “democratas esquizofrênicos”), quando é a ideologia Surkoviana que é, em sentido vulgar, esquizofrênica: quem exige alguma coerência hoje são os apoiadores de Khodorkovsky. O rótulo “demo-esquizo” serve também ao útil propósito de misturar “democracia” e “doença mental”. 

O adjetivo “democrático” tem infeliz destino na Rússia: é usado quase sempre como sinônimo depreciativo de “barato”, “de baixa qualidade”: McDonald tem preços “democráticos”; a entrada de alguns clubes noturnos sórdidos, também pode ser dita “democrática” – quer dizer: por ali, entra qualquer um. Alguns restaurantes também se orgulham de ser “democráticos”: os proprietários são filhos de ex-dissidentes soviéticos e, nesses restaurantes, artistas, cineastas, jornalistas e outros “demo-esquizos” podem fumar, beber, comer e curtir a noite toda.

Descobri-me eu também num desses restaurantes, tarde da noite, quando, finalmente, depois de um mês de telefonemas, pedidos, súplicas e chantagem, consegui arranjar um ingresso para assistir à versão teatral de Almost Zero, a peça de teatro mais exclusiva que essa Moscou tão profundamente teatral jamais viu. O preço oficial do ingresso mais barato era 500 dólares. No mercado negro, os ingressos chegam rapidamente aos quatro dígitos. Para mim, custou duas garrafas de champanhe e a garantia de que uma das atrizes principais poderia hospedar-se sem pagar na casa de parentes meus em Londres. Mas nem assim consegui assento regular. Quem me recebeu no teatro só me deixou entrar depois que as luzes apagaram. Deram-me uma almofada e mandaram-me sentar no chão à frente da primeira fila. Minha cabeça bateu, a noite inteira, contra a coxa perfumada de uma modelo impossivelmente perfeita, ao lado, o marido, com cara de serial killer e ar de não estar gostando do arranjo. Havia muitos como esses dois, na platéia: os espertos, os do poder, os que mandam no país, e suas estonteantes mulheres satélites. Não são gente que se veja com frequência pelos teatros, mas estavam lá porque era o que tinham de fazer: se encontrassem Surkov, poderiam dizer o quanto adoraram essa peça fascinante que ele não escreveu. A outra metade da plateia estava lotada de gente da facção artística da cidade: empresários, produtores, diretores, atores. Estavam lá por razão semelhante: Surkov é famoso pelo auxílio financeiro que dá a teatros e festivais. Não poderiam não ter assistido à peça.

“Jamais assistirei àquilo”, disse uma conhecida jornalista, no tal restaurante “democrático”. “Nem chego perto, de coisas que tenham a ver com Surkov. E Serebrennikov, aquele merda? Quem imaginaria que cairia tão baixo? Mamando assim, desavergonhadamente, no Kremlin!” Serebrennikov é o diretor da peça. É famoso por dirigir peças escandalosas e subversivas, e por nunca tirar os óculos escuros. Para muitos, é um gênio; a colaboração dos Serebrennikov e Surkov é o equivalente de Brecht montar peça escrita por Goebbels. Em Moscou, há quem jamais perdoará tal parceria. 

Mas Serebrennikov encontrou jeito aradiloso de atravessar esse terreno perigoso. Sua montagem de Almost Zero transformou o romance. Seu Egor é herói faustiano, que vendeu a alma ao diabo, mas agora a quer de volta. Sua vida rasa, vazia, com festas, sexo fácil e humilhações casuais, é o inferno. Esse Egor é emocional e destroçado pela culpa, exatamente o contrário do herói gelado do romance. Em cenas acrescentadas, não existentes no romance, os atores de Serebrennikov falam diretamente ao público, acusando os presentes de viverem despreocupadamente em mundo de nepotismo, corrupção e violência. Os boêmios presentes riram, desconfortáveis. Os maridos durões das esposas satélites olhavam fixamente à frente sem piscar, como se as provocações nada tivessem a ver com eles. Vários não voltaram depois do intervalo. Assim, o grande diretor conseguiu o que queria, conquista característica da Era Surkov: agradou aos políticos chefes – Surkov patrocina um festival de artes que Serebrennikov dirige –, ao mesmo tempo em que preservou sua integridade liberal. Um pé na canoa de Surkov, o outro na canoa de Khodorkovsky. Grande desempenho.

“A vida na Rússia” – disse-me aquela jornalista no bar democrático – “ficou melhor, mas deixa um pós-gosto amargo”. Bebeu um gole. “Você percebeu que Surkov parece nunca envelhecer? Não tem uma ruga.” Bebemos e conversamos. Sobre a obsessão de Surkov com Hamlet. Minha acompanhante lembrou uma interpretação da peça sugerida por uma professora de literatura que se converteu em produtora de bandas de rock (trajetória “muito Moscou”).

“Quem é a figura central em Hamlet?” – ela perguntou. “Quem é o demiurgo que manipula toda a situação?” Respondi que não sabia.

“Fortinbras” – disse ela –, “o príncipe coroado da Noruega que, no final, toma a Dinamarca. Horácio e a trupe de atores que visitam o castelo de Hamlet estão a serviço de Fortinbras: sua missão é enlouquecer Hamlet, empurrando-o para o abismo, e fomentando o conflito em Elsinore. Releia a peça. O pai de Hamlet matou o pai de Fortinbras; Fortinbras tinha todos os motivos para buscar vingança. Sabe-se que o pai de Hamlet não foi bom rei, Horácio diz exatamente isso, na peça; ele e os atores estavam longe do reino há muitos anos: partiram para afastar-se do reinado do pai de Hamlet. Teriam tido contato com Fortinbras na Noruega? No final da peça, Horácio fala com Fortinbras, como espião que apresente o relatório de missão cumprida. Conhecendo a natureza instável do jovem Hamlet, eles contratam a trupe de atores para arrastá-lo a uma série de atos que derrubarão a casa reinante em Elsinore. Por isso, todos veem o espectro, no início da peça. Depois, quando só Hamlet o vê, já está alucinando. Os moscovitas veem essa subtrama imediatamente. Vivemos aqui muito mais próximos do mundo de Shakespeare.” 

No mapa da civilização, Moscou – com sua política de dissimulação de capa e espada (capa de griffe e espada com punho de diamantes), seus espiões envenenadores, barões-burocratas e oligarcas exilados que planejam revoluções de longe daqui, seus Cecil-Surkovs cochichantes nas orelhas do poder, seus Raleigh-Khodorkovskys prisioneiros na Torre – é bem perto de Elsinore.



Notas dos tradutores
[1] Cheka - Chrezvychaynaya Komissiya (Comissão Russa Extraordinária) (pr. russo [tɕɛ.ˈka]) foi a primeira de várias organizações de segurança do estado soviético, criada por Lênin em dezembro de 1917. Depois de 1922, a Cheka foi reorganizada em vários grupos, cujos membros continuaram a ser chamados “chekistas”, até o final dos anos 1980s. 

[2] Ver, sobre o livro de Khodorkovsky: Keith Gessen, “Cell Block Four”, London Review of Books, vol. 32, n. 4, 25/2/2010, pp. 3-7. [em inglês]

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