segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Assad, “raids” no Líbano, e a Síria vai mergulhando na guerra civil

Robert Fisk

17/10/2011, Robert Fisk, The Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Tanques que atravessam a fronteira com o Líbano; quatro sírios que fazem oposição ao governo de Damasco sequestrados no Líbano, supostamente num veículo que pertenceria à embaixada síria em Beirute; um caminhão carregado de munição e lança-granadas destinadas aos opositores do presidente Bashar al-Assad do outro lado da fronteira libanesa, capturado pelo exército do Líbano – para nem falar da manifestação monstro a favor de Bashar em Damasco, semana passada (sírios que chegam ao Líbano dizem havia um milhão de pessoas nas ruas). Todas as tragédias têm seu mistério, mas a tragédia síria já está assumindo proporções de “E o vento levou”. 
Milhares de simpatizantes reunindo Assad em Damasco
 Milhares de simpatizantes pró- Assad reunindos em Damasco 
No céu, acima da manifestação gigante a favor de Bashar Al-Assad, em Beirute, voavam helicópteros militares com enormes bandeiras da Rússia e da China – os dois amigos da Síria no Conselho de Segurança que vetaram as sanções da ONU contra o governo de Damasco, semana passada. Era o antídoto perfeito para todos os filmetes de YouTube que mostram manifestantes mortos e criancinhas moribundas, para nem lembrar a fotografia infame de uma menina que teria sido degolada pela polícia secreta da Síria e que, logo depois, foi mostrada viva e bem e, claro, usando véu. Não se entende nada? Pelo menos já sabemos, da boca da própria oposição a Assad, que as “gangues armadas” que Assad diz que está combatendo realmente existem – embora usem uniforme militar.

Mas comecemos pelas incursões na fronteira. Depois de beneficiarem-se da presença militar da Síria no Líbano por 29 anos – o exército sírio saiu do Líbano em 2005 – os libaneses mostraram-se ligeiramente incomodados quando os rapazes de Bashar apareceram muito perto da fronteira libanesa, aparentemente à caça de contrabandistas de armas semelhantes aos que dirigiam o caminhão, perto de Halba, semana passada. E quando um sírio dirigiu até poucos metros adiante da fronteira e explodiu uma granada na direção de uma fábrica abandonada, a coisa ficou um pouco mais grave. Houve pelo menos três incursões gravadas, de sírios, em território libanês – cerca de outras oito não foram confirmadas e só há suspeitas – e, durante uma delas, perto da cidade de Ensal, um homem morreu. Descobriu-se que se tratava de um residente sírio, que viva ali. A fronteira, desnecessário dizer, é notoriamente difícil de ver. Um certo Robert Fisk, há alguns anos, cruzou a fronteira, sem nem perceber. Mas o governo do Líbano (o Hizbollah inclusive, também apoiador do regime sírio) protestou contra o que seria massiva agressão à soberania do Líbano.

Preocuparam-se consideravelmente menos com o caminhão carregado de armas que rumava para a fronteira, no ponto em que há uma passagem não oficial, em Wadi Khalek, onde presumivelmente era esperado pelas “gangues armadas”, boa e bela incursão contra a soberania da Síria. Mas os jornais da oposição em Beirute – que em grande medida representam os sunitas e parte da comunidade cristã – perguntaram, sarcasticamente, por que as forças de segurança do Líbano eram tão rápidas para descobrir caminhão de contrabandistas e tão lerdas para fazer os tanques sírios darem meia volta na fronteira.

Agora, sobre o caso de Chibli al-Aysoouni, 86 anos, fundador do partido Baath original que deixou a Síria em 1966, antes de a família Assad chegar ao poder. Contra o regime, mas inativo desde 1992 – viveu autoexilado no Egito, Iraque e nos EUA – al-Aysoouni desapareceu de sua casa, na cidade de Aley, nas montanhas libanesas, dia 24 de maio; nunca mais foi visto. 

Depois, três irmãos sírios da família Jassem foram sequestrados por “desconhecidos” à frente de uma delegacia de polícia no leste de Beirute, onde estavam para tirar da cadeia o irmão, Jasem Merii Jasem, que foi visto distribuindo folhetos clamando por “mudança democrática” na Síria.

No momento, ninguém deu muita atenção a esses desaparecimentos, embora embaixadores da União Europeia já tivessem falado sobre o caso ao governo de Beirute, quando o exército libanês devolveu a Damasco três militares sírios desertores. Temendo que os mesmos não fossem recebidos com chá e bolo junto à lareira, os embaixadores alertaram que a coisa poderia ser denunciada como crime contra a humanidade. Mas a explosão política só aconteceu na semana passada.

Deputados libaneses revelaram que, em reunião fechada de uma comissão parlamentar, o general Ashraf Rifi, o gentil, amigável, de olhos sempre vermelhos, chefe da Força paramilitar de Segurança Interna do Líbano, denunciou que veículos da embaixada síria em Beirute foram usados em seqüestros, o que teria sido confirmado por documentos e fotos feitas por câmeras de segurança no estacionamento da embaixada no setor oeste de Beirute – além de ter sido confirmado também por “agentes de segurança”. A verdade parece ser que os carros eram dirigidos por agentes da própria Força de Segurança Interna, do próprio Rifi. 

Mas a coisa engrossou – de fato, tornou-se grudenta – quando transpirou que a unidade que faz a guarda da embaixada síria é comandada pelo primeiro-tenente libanês Salah Hajj, filho do major-general Ali Hajj, um dos quatro oficiais libaneses presos por quatro anos pela ONU, acusado de envolvimento no assassinato, em 2005, do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, do Líbano – até que a ONU resolveu que haviam sido envolvidos no complô por provas falsificadas e libertou os quatro homens.

Ouviram-se explosões de fúria, vindas do gabinete do inteligente embaixador da Síria no Líbano, Ali Abdel Karim Ali – que acabara de ler um livro sobre o Líbano, cujo autor é o jornalista que aqui escreve –, que transmitiu ao ministro do Exterior do Líbano Adnan Mansour, sua indignação por aquelas extraordinárias acusações terem sido feitas contra ele. Negou tudo e exigiu que o general Rifi apresentasse provas. – Rifi, indiscutivelmente policial de alto escalão, que faz oposição ao governo libanês, manteve-se desde então, em silêncio. A Síria e o Líbano, disse o embaixador Ali, estavam sendo vítimas de “um complô americano-sionista”. A Síria sairá mais forte das atuais dificuldades, do que nunca antes.

E, nesse fim de semana, apareceu o alerta da ONU, de que a Síria se encaminha para “guerra civil plena” – prima distante, suponho, da guerra civil normal do tipo líbio –, enquanto sobe o número de mortos em sete meses de protestos anti-Assad, sempre segundo a ONU, já chegando a 3 mil, 187 dos quais, crianças. No sábado, a imprensa libanesa publicou fotos de um jovem sírio de 14 anos, Ibrahim al-Chaybane, que teria morrido num hospital sírio, baleado no peito por forças de segurança da Síria. Claro, logo a imagem apareceu em YouTube. 

Uma unidade de desertores do exército sírio, composta, diziam eles mesmos, de vários milhares – estatística produzida, provavelmente, pelo departamento do “é-mais-ou-menos-isso” – apareceu agora na internet, com fotos de uns poucos soldados uniformizados; movimento audacioso que também prova que os opositores de Assad, sejam “gangues” ou não, estão, sem dúvida alguma, armados.

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