Mostrando postagens com marcador Irina Lebedeva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irina Lebedeva. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Ocidente e a Ucrânia: cenários possíveis

8/2/2013, Irina Lebedeva, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Irina Lebedeva
O relatório Ucrânia 2020 foi publicado em 2010 pelo Center for Global Affairs (CGA). O documento apresenta possíveis opções para o desenvolvimento político da Ucrânia. O professor Michael Oppenheimer (Center for Global Affairs, New York University), foi o criador do projeto.

Os eventos na Ucrânia parecem desenvolver-se hoje segundo, não um, mas todos os “três cenários” descritos no documento.

James Sherr (Russia and Eurasia Program, Chatham House) escreve no prefácio que o CGA participou dos projetos conduzidos pelo Departamento de Estado, Departamento da Defesa, Conselho de Inteligência Nacional, CIA, Institute for Peace, Brookings Institute, Council on Foreign Relations e pelo Conselheiro Científico do Presidente dos EUA. Praticamente todos os especialistas em Ucrânia conhecidos, dos EUA, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Bélgica, da Polônia e de outros estados participaram do projeto do CGA... [mas nenhum representante da Rússia nem especialista em Rússia].

Yulia Tymoshenko
Não será surpresa que, algum dia, se os escritórios do Partido Batkivshchyna da Ucrânia [partido de Yulia Tymoshenko] forem revistados, encontrem-se ali excertos desse manual de “o que fazer”, redigido pelos norte-americanos como se fosse algum “relatório”.

Em 2010, há apenas poucos anos, os autores do Relatório conseguiram “antever” que o Partido Svoboda [ex-Partido Nacional Socialista da Ucrânia; é hoje o mais forte partido da direita na Ucrânia] viria a liderar “protestos populares”; a renúncia do Primeiro-Ministro Nikolay Azarov e a ascensão de Arseniy Yatsenyuk [em 2009, criara a “Frente para a Mudança”]... Conforme se lê no Relatório, haveria ataques antissemitas contra Yatsenyuk por causa de sua nacionalidade, mas seria fácil descartá-los como “ridículos”.

Stepan Bandera
O cenário que o Relatório pinta prevê que o Partido Svoboda seria deixado de lado, ultrapassado pelos militantes do Trizub [o tridente: Deus, no céu e na terra], organização que reverencia a chamada Organização dos Nacionalistas Ucranianos liderada por Stepan Bandera [Em 2011, os partidos comunistas ucranianos pediram ao Parlamento (Rada) o banimento de todas essas organizações de extrema direita, denunciadas como organizações nazistas]. No Relatório “Ucrânia-2020”, toda essa gente aparece descrita como “elementos moderados”.

Por tudo isso, conforme o Relatório “prevê”, logo se aprofundaria o processo de “ucranização”, o que provocaria “elementos russos”. O Relatório recomenda a privatização dos ativos estratégicos, portas abertas para investidores ocidentais, créditos assegurados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, pondo fim aos “tabus soviéticos” contra a venda de terras a estrangeiros; e o envolvimento supervisionado da China, que é apresentada como inimigo da União Europeia e concorrente da Rússia, o que levaria à expulsão da Frota do Mar Negro do porto de Sebastopol; e mudança na Constituição da Ucrânia, para converter o país em república parlamentarista ou presidencial-parlamentarista. (Mas o Relatório não explica quem votaria para eleger Yatsenyuk nas eleições presidenciais...).

Cenário Um: Fragmentação do Autoritarismo Fracassado. Para os autores do Relatório, essa opção é desvantajosa para os EUA e para a Federação Russa.

Cenário Dois: Consenso Nacional Conduzindo a Reformas. É a melhor opção, do ponto de vista de Washington e da União Europeia.

Cenário Três: Autoritarismo Estratégico. Aqui, o Relatório “prevê” um desenvolvimento de eventos pelo qual o presidente Yanukovych mantém o poder. É uma espécie de “Plano B”. Neste cenário, o presidente Yanukovych terá de curvar-se, para manter a legitimidade. Terá de fazer todos os tipos de concessões a “investidores estrangeiros”, implementar reformas constitucionais e estruturais, aceitar empréstimos que lhe ofereçam para suavemente empurrar a Rússia para bem longe da esfera de seus interesses estratégicos.

Viktor Yanukovich, Presidente da Ucrânia
As forças externas já criaram o caos na Ucrânia, mas não se sabe se conseguirão controlá-lo. Yanukovych já foi avisado de que pode ter o destino de Milosevic na Sérvia ou de Gaddafi na Líbia. A “comunidade internacional” presunçosamente acredita que os nacionalistas ucranianos hoje inflados serão, na sequência, facilmente domesticáveis.

Haverá dinheiro para os democratas pró-ocidente, sob a condição de que implementem as “reformas” acima mencionadas (questão sobre a qual a oposição “confiável” já está conversando. E, sobre isso, Yatsenyuk lembrou recentemente o Plano Marshall).

O Relatório considera a história da Aliança do Atlântico Norte e várias vezes menciona o Plano Marshall, para o caso da Ucrânia, que seria como “duas metades da mesma noz”.

Mas depois da 2ª Guerra Mundial, os EUA não garantiram à Europa arruinada um empréstimo gratuito: houve acordos de natureza semicolonial que incluíram instalar ali “armas secretas da OTAN”. E não será o Pravy Sektor (aliança dos grupos de mais extrema direita), mas essas estruturas da OTAN, que desempenharão a função de “mão de ferro” que levará a Ucrânia à integração com a Europa e os EUA.

***
Washington está diante do risco de novos fracassos de diplomacia, que ferem a imagem do país no exterior. É hora de perguntar em que foram consumidos $5 bilhões de dólares dos contribuintes norte-americanos.

Victoria "Fuck European Union" Nuland
A quantia é a que informaram a secretária-assistente de Estado, Victoria Nuland e o vice-secretário de Estado do Gabinete de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, em audiência no Senado, em janeiro, ao falarem dos sucessores ucranianos dos que apoiavam as ideias de Stepan Bandera e Roman Shukhevych.

Os mesmos ditos moderados do Trezub nomeados em honra de Stepan Bandera estiveram sob constante supervisão pelos centro euroatlânticos.

Abra aleatoriamente qualquer página do jornal Ukrainian Weekly (editado nos EUA). Ali se veem pulular as ideias dos colaboracionistas ucranianos. O jornal mantém escritórios em Kiev. Se se lê, veem-se muitas coisas interessantes sobre os “compromissos” passados dos que se “manifestam” nas ruas da Maidan Nezalezhnosti [Praça Independência] e na Rua Grushevsky.

Dmytro Yarosh
Desde que Victor Yanukovych foi eleito presidente da Ucrânia, o jornal Ukrainian Weekly só noticia e destaca as atividades do Pravy Sektor, histórias sobre tortura de prisioneiros na Ucrânia contemporânea; clama por apoio aos “patriotas ucranianos” que destroem monumentos da era soviética. Oferece também farta informação elogiosa sobre Dmytro Yarosh, líder militante da extrema direita, do Pravy Sektor, e sobre o coordenador do Pravy Sektor (apelido, Pilipas) Andrei Tarasenko, que anda contando histórias sobre treinamento de militantes (jovens que nunca prestaram serviço militar, agora ensinados a “virar homens”, aprendendo a usar punhais e armas de ar comprimido). O mesmo jornal oferece também informação sobre outros “bravos nacionalistas” e modos para conter “a intervenção russa”. E o jornal ainda traz recomendações de “revolucionários sérvios”, que contam como derrubaram “ditadores”.

Um pouco antes, as edições de Ukrainian Weekly viviam cheias de histórias de fazer gelar o sangue, sobre intrigas entre comunistas e Moskali, termo ucraniano depreciativo para “russos”, e sobre o Golodomor – o genocídio organizado por russos, para exterminar a população ucraniana.

É uma vergonha que, sem contar com informação de fonte independente, a diplomacia norte-americana sirva-se desse tipo de fonte para, a partir disso, construir políticas para a Ucrânia.

Zbigniew Brzezinski
A arrogância da maioria dos diplomatas e congressistas norte-americanos não surpreende mais ninguém. Em janeiro, durante audiência para discutir a Ucrânia, até alguém já tão entrado em anos como Zbigniew Brzezinski ainda lá estava a dar “aulas” aos senadores, “ensinando” que, antes de os russos aparecerem os ucranianos já acalentavam o sonho de unir-se à Europa; e por isso que o sonho dos ucranianos tem de ser apoiado. Depois de esse sonho realizado, lança-se uma “reação Dominó”, e a multinacional Rússia seguirá exatamente a mesma boa trilha que a levará a se tornar membro da OTAN!

Os dois filhos de Zbigniew Brzezinski mantêm-se muito próximos da OTAN. Ian Brzezinski é membro Senior Fellow do International Security Program e faz parte do Grupo de Conselheiros Estratégicos do Conselho do Atlântico. E Mark Brzezinski, advogado, trabalhou para o Conselho de Segurança Nacional do presidente Clinton, como especialista em Rússia e Sudeste Europeu; foi sócio de McGuire Woods LLP; e é hoje embaixador dos EUA na Suécia. Muito ativo na venda de aviões militares.

Por que Victoria Nuland – que se tornou presença obrigatória em todas as páginas e blogs humorísticos na Ucrânia e na Rússia, por ter andado distribuindo coelhinhos e sanduíches na Praça Maidan – apareceu em Kiev outra vez, na véspera do início dos Jogos de Inverno de Sochi, e pôs-se a dizer que os que estivessem insatisfeitos com “o regime Yanukovych” ou voltassem à ideia da integração com a Europa ou tomassem “o caminho da guerra”?

É onde a mentalidade de clã – velho carrasco da política externa dos EUA – entra em cena.

O clã ao qual pertence Victoria Nuland não é menos influente que o de Brzezinski. O marido, Robert Kagan, é conhecido intelectual dedicado a temas de política externa, analista e colunista de grandes jornais. Sente-se muito a vontade entre os “especialistas” ativos nos mais importantes think-tanks norte-americanos e tem acesso aos mais influentes veículos da imprensa-empresa norte-americana. Kagan muito se empenhou na operação militar na Líbia. Trabalhou muito, também, na oposição a Obama-candidato, como assessor de Mitt Romney. Foi quem instruiu Romney a declarar que a Rússia seria o inimigo geopolítico número 1 dos EUA. Seu irmão, Fred Kagan, é autor de inúmeros livros e artigos publicados em todo o mundo.

A carreira de Victoria Nuland sempre seguiu de perto o colapso da União Soviética: ela estava, então, em Moscou. E testemunhou as “mudanças tectônicas” da política externa dos EUA a partir daquele momento. Foi ela que mobilizou todas as suas habilidades para encontrar pretextos para a intervenção no Afeganistão, invocando o artigo 5º do Tratado de Washington, em 2001, quando os EUA invadiram o Afeganistão. Depois, foi representante dos EUA no Conselho do Atlântico Norte. A experiência dela na OTAN está sendo mobilizada novamente agora – o coração a está arrastando de volta para o Leste europeu...






domingo, 20 de março de 2011

Resolução da ONU autoriza líbios a matar líbios (e EUA/OTAN a matar os que sobrarem)


Irina
Lebedeva

19.03.2011 | 10:03 , Irina Lebedeva (US), Strategic Culture Foundation  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dia 17/3, o Conselho de Segurança da ONU aprovou Resolução n. 1.973, que não só impõe uma zona aérea de exclusão sobre território líbio (restrição que se aplica só a aviões de Gaddafi, do qual todos os hoje agressores foram aliados até ontem), mas também autoriza estados-membros da ONU a tomar “todas as medidas necessárias” para proteger alguns civis, mas não todos, dado que os partidários civis de Gaddafi são definidos como inimigos militares. Dez dos 15 membros do CSONU aprovaram a resolução, e Rússia, China, Alemanha, Índia e Brasil abstiveram-se. 

A nova Resolução também reforça as sanções impostas à Líbia: mais sete membros do governo líbio foram incluídos na lista de pessoas cujos bens foram congelados (já haviam sido congelados os depósitos no ocidente do Banco Central da Líbia, da Libyan Investment Authority e da National Oil Corporation). 

A Resolução também exige que Gaddafi – mas não a oposição armada – aceite imediato cessar-fogo nos termos da Resolução, para por fim à violência contra civis, e em obediência a lei internacional. Nada poderia ser mais incerto, dado que as forças do governo líbio têm sido atacadas por aviões que os rebeldes obtiveram por vias ainda não elucidadas, pouco antes da votação na ONU. 

A Resolução do CSONU foi aprovada em momento em que o filho de Gaddafi já falava em reforma política e em anistia para os rebeldes e em que a Turquia já sugerira que Gaddafi indicasse um presidente para conduzir uma transição pacífica e se afastasse, como se fez no Egito e Tunísia. A Resolução aparece, sobretudo, não no início das confrontações, mas quando já havia guerra há bastante tempo, em momento em que as forças de Gaddafi começavam a recuperar terreno e só lhes faltava atravessar trecho do deserto onde não há civis, para chegar a Benghazi, onde a oposição ainda resiste – o que equivale a dizer que a ONU deixou morrer muitos civis; só se movimentou em momento em que não há risco imediato de mais mortes entre os civis e apresenta-se para atacar nas áreas onde a oposição ainda resiste, essas, sim, áreas urbanas populosas. 

A Resolução n. 1.073 cria condições para massiva intervenção na Líbia e implantação de governo “dos rebeldes” – que não se identificaram até agora com nenhum projeto político, mas já receberam a promessa de que receberão apoio irrestrito de uma muito vaga “comunidade internacional” que não tem aval popular e só tem um também muito fluido aval institucional, da própria ONU e do CSONU, instituição onde as grandes potências militares nascidas da II Guerra Mundial têm votos de privilégio, com direito a veto, e as demais nações têm, no máximo, o direito de manifestar oposição formal. 

De fato, não se sabe a favor de que projeto político a dita “comunidade internacional” manifesta na ONU já se alinhou e ataca.

Toda a imprensa-empresa internacional aprovou em uníssono a nova Resolução, mostrando cenas de adolescentes armados e até crianças, fotografados e filmados em festa, à frente do prédio do Conselho Nacional do Governo de Transição em Benghazi. 

O Le Monde afastava-se, em 24/2, dessa suspeita uniformidade: noticiou que a al-Qaeda no Magreb já manifestou integral apoio aos rebeldes (em francês)

Antes da Resolução n. 1.973 ser aprovada, o vice-chanceler da Líbia Khaled Kaim já dissera em conferência de imprensa que a Líbia respeitaria um cessar-fogo aprovado pela ONU. E ontem, em entrevista ao jornal Le Monde, o mesmo vice-chanceler lamentava que a Resolução refletisse posição bélica tão precipitada e agressiva, que põe em risco a unidade e a integridade da Líbia. Na entrevista, o vice-chanceler líbio denunciou uma conspiração de França, Grã-Bretanha e EUA/OTAN para dividir o país. Para Kaim, a Resolução “autoriza” líbios a matar líbios, e “autoriza” EUA/OTAN a matar os que sobrarem.

O chefe da diplomacia francesa Alain Juppé apareceu em New York em plena campanha anti-Líbia e assim, respondeu, embora indiretamente, à pergunta sobre a origem dos tanques, artilharia, helicópteros e jatos bombardeiros que atacaram as forças de Gaddafi na Líbia. 

Juppé pregou abertamente imediata intervenção militar na Líbia antes da votação no CSONU e disse que a ofensiva era questão de horas, não de dias. A França descartou o plano de ataques aéreos no instante em que a Resolução fosse aprovada, mas é evidente que, desde antes, os países reunidos no CSONU – certos de que nem Rússia nem China se exporiam aos riscos de vetar a Resolução – escolheram não descartar “nenhuma das alternativas”. Situação absolutamente idêntica à que se viu na Iugoslávia, em 1999, antes de o país começar a ser bombardeado.