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terça-feira, 16 de julho de 2013

Mubarakismo sem Mubarak: “A luta pelo Egito”

12-14/7/2013, [*] Joseph Massad, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mohamed Mursi discursa logo após ser eleito
Desde que Mohamed Mursi foi eleito presidente do Egito em eleições democráticas maculadas pela corrupção eleitoral e pelos subornos promovidos por seu adversário mubarakista Ahmad Shafiq, uma coalizão de liberais egípcios, nasseristas, esquerdistas – inclusive socialistas e comunistas de vários tipos – e até salafistas e membros renegados da Fraternidade Muçulmana (FM) começaram, lentamente, mas firmemente, a estabelecer uma aliança com a burguesia reinante ao tempo de Mubarak e políticos daquele governo, para derrubar Mursi, temendo que ele e seu partido estivessem preparando uma tomada do poder “à moda dos nazistas”, para destruir a nascente democracia egípcia.

O cenário que temem é aquele que levou os nazistas em 1933 a estabelecerem um estado totalitário. Em julho de 1932, nas eleições para o Reichstag (parlamento) alemão, o partido nazista recebeu 37% dos votos, o que fez dele o maior partido no Parlamento. Dia 30/1/1933, o presidente da Alemanha, Paul von Hindenburg, indicou Hitler para o posto de Chanceler do Reich, posto no qual Hitler chefiava um gabinete no qual havia uma minoria de ministros nazistas. Um mês adiante, dia 27/2/1933, agentes provocadores incendiaram o prédio do Parlamento. Hitler acusou os comunistas de golpe para derrubar o presidente democraticamente eleito e requereu ao Presidente da República de Weimar que lhe desse poderes emergenciais para suspender as liberdades civis, para que pudesse caçar os comunistas e prendê-los, dissolver partidos políticos e conter a imprensa. O decreto que deu a Hitler todos esses poderes ficaria conhecido como “Decreto do Incêndio do Reichstag”. Dia 23/3/1933, o Parlamento alemão deu poderes ditatoriais a Hitler, fixando o estado e o regime nazista totalitário.

A aliança anti-Mursi, que começou a formar-se de fato em agosto de 2012, começou vacilante, mas em novembro de 2012 já era orgulhosa e muito assertiva, depois do infame Decreto Constitucional de Mursi, que centralizava o poder político nas mãos do presidente. Com a ajuda dos juízes de Mubarak, a burguesia mubarakista e o Conselho Supremo das Forças Armadas, que governaram o Egito por um ano e quatro meses depois da derrubada de Mubarak, já haviam dissolvido o Parlamento democraticamente eleito depois do levante, composto de uma maioria de islamistas, sob argumentos técnico-legalistas, antes da eleição de Mursi. Fizeram-no com o apoio de liberais e esquerdistas, que se apresentavam com verdadeiros líderes do levante de 25 de janeiro que derrubara Mubarak e que temiam que islamistas eleitos, que eles desprezavam, não seriam parte do levante, mas “aderidos” à sua “revolução”. Poucos dias antes das eleições, os militares também emitiram um decreto constitucional limitando os poderes do presidente eleito, e enfeixando mais poderes nas mãos dos militares.

O medo dos liberais e esquerdistas era que a Fraternidade Muçulmana fosse o partido nazista do Egito – que estariam fingindo ser democratas até chegarem ao poder, quando então se recusariam a deixá-lo e eliminariam o processo democrático, para estabelecer uma ditadura islamista.

Incêndio do Reichtag (Parlamento alemão) provocado pelos nazistas  em 27/2/1933

Que juízes nomeados por Mubarak tenham dissolvido um parlamento democraticamente eleito não pareceu incomodar muito os liberais e esquerdistas, mas horrorizaram-se quando Mursi assinou seu Decreto Constitucional, que visava a conter o poder dos juízes de Mubarak, que o próprio Mursi tentara depor, sem sucesso. De fato, o Decreto Constitucional foi visto como uma espécie de “Decreto do Incêndio do Reichstag” – o que bem poderia ter sido. Mursi logo voltaria atrás e cancelaria o Decreto, em resposta à manifestação popular. Mais recentemente, já se manifestou arrependido de tê-lo assinado.

Os feitos de Mursi

O governo Mursi pareceu surpreendentemente dócil e amigável em relação a interesses ocidentais, inclusive em relação a Israel, cujo presidente Shimon Peres foi chamado, por Mursi, de “meu caro amigo” em carta presidencial oficial. Ao contrário da esperada crescente amizade com o Hamás, o governo Mursi fechou mais vezes a fronteira em Rafah, que Mubarak; a coordenação de segurança com Israel tornou-se mais íntima que nos tempos de Mubarak; e, para piorar ainda mais as coisas, Mursi, com o exército egípcio e a ajuda dos norte-americanos, destruiu a maior parte dos túneis entre Gaza e o Sinai, construídos por palestinos para trazer alimentos e bens, durante o interminável sítio desde 2005 – e que nem Mubarak atrevera-se a destruir. Mursi fez ainda mais, ao mediar conversas entre Israel e o Hamás durante o mais recente ataque israelense contra Gaza; e garantiu que o Hamás não voltaria a lançar foguetes contra Israel, sem garantir qualquer contrapartida israelense. É verdade que Mursi recusou-se a reunir-se com líderes israelenses, mas até Mubarak recusou-se a visitar Israel durante anos, antes de ser derrubado, e retirou de Israel o embaixador egípcio, como protesto contra políticas israelenses. Um dos principais atos de Mursi antes de ser recentemente derrubado não foi fechar a embaixada israelense, como amigos e inimigos dos islamistas diziam que ele faria. Em vez disso, fechou a embaixada síria, em apoio à insurreição islamista de direita em curso na Síria.

Hosni Mubarak
No poder, Mursi e seu governo deram continuidade a políticas de Mubarak, de reduzir o setor público e os gastos sociais em guerra contra os pobres egípcios, a maioria da população, e impulsionaram políticas econômicas neoliberais a favor dos ricos e poderosos, inclusive um acordo com o FMI (jamais formalizado, não por falta de empenho de Mursi), que ampliaria ainda mais as medidas de austeridade já aplicadas contra os pobres. De fato, Mursi nada fez para alterar as leis trabalhistas e tributárias, implantadas sempre para favorecer os ricos e oprimir os trabalhadores, empregados de classe média e os pobres em geral. Mursi não processou os generais por crimes pelos quais têm sido denunciados repetidas vezes (em vez disso, cobriu-os de honras de estado e prêmios e converteu vários dos generais que aposentou em conselheiros do presidente); não levou a julgamento a corrupta burguesia mubarakista que pilhou o Egito durante três décadas e meia. Tampouco levou a julgamento o aparelho de segurança, que manteve, o mesmo que continuou a reprimir as manifestações no Egito durante seu governo.

Como presidente, Mursi – saído da ala direita e neoliberal da Fraternidade Muçulmana (se comparado a ‘Abd al-Mun’im Abu al-Futuh, mais “centrista”, que também concorreu à presidência e perdeu as eleições) – estava interessado numa aliança entre a burguesia islamista neoliberal, cujo membro mais visível é Khayrat al-Shatir (que foi impedido de concorrer à presidência por tribunais mubarakistas), e a burguesia mubarakista.

Khayrat al-Shatir
Diferentes de al-Shatir, filho de um rico comerciante, que fez sua fortuna no Egito, muitos dos islamistas ricos, embora não todos, fizeram as respectivas fortunas no Golfo. Foram alijados, pode-se dizer, impedidos de participar da pilhagem do Egito, que ficou reservada aos empresários do círculo mais íntimo de Mubarak. E aqueles alijados passaram, agora, a aspirar a um lugar na mesa do banquete da pilhagem no Egito. Mursi obteve o aval dos militares e a aprovação dos EUA, pelo menos até a semana passada, pelo muito que tentou convencer a burguesia mubarakista a permitir que os islamistas partilhassem da pilhagem do Egito. Mas a burguesia mubarakista jamais cedeu nem um palmo de terreno.

A resposta dos mubarakistas

A burguesia mubarakista respondeu que o Egito pertencia a eles; que só eles continuariam a pilhá-lo, sozinhos (embora sempre tenham incluído na pilhagem os norte-americanos, sauditas, emiradis e, claro, os israelenses); e que não permitiriam que islamistas começassem a mover-se no território deles. Tendo alijado os pobres egípcios, os camponeses, os operários e as classes médias de baixa renda, quando preferiu favorecer a cúpula da Fraternidade Muçulmana e as burguesias islamistas e mubarakistas, além dos militares, Mursi não encontrou outro grupo, exceto a Fraternidade Muçulmana, no qual se apoiar, depois que o exército o abandonou e a coalizão que conspirava com os militares intensificou os ataques contra o governo.

Mamdouh Hamzah
A burguesia mubarakista pôs todo o seu império de mídia a operar furiosamente contra Mursi e a Fraternidade Muçulmana. Semana após semana, hora após hora, puseram em campo pela televisão, pelos jornais, nas mídias sociais – especialmente pela empresa Facebook, mas também pela empresa Twitter – uma campanha de vilificação, demonização, de incansável tiroteio. Jornalistas apresentadores de programas de televisão puseram-se a pregar, até, a derrubada violenta do governo de Mursi. Membros da oposição, como o engenheiro e milionário Mamdouh Hamzah, convocaram claramente o exército para que derrubasse o governo eleito.

Houve campanhas também financiadas pelos sauditas e emiradis, contra o Qatar, patrocinador da Fraternidade Muçulmana em todo o mundo árabe, apresentado como o único monstro financeiro dedicado a comprar tudo no Egito, inclusive o Canal de Suez e as pirâmides. O comediante Bassem Youssef (muito popular entre a burguesia e as elites endinheiradas do Cairo e Alexandria, mas praticamente desconhecido da maioria dos pobres egípcios nas cidades e no interior do país – porque não entendem a maioria de suas referências ocidentais e ao mundo dos ricos) pôs-se a demonizar o Qatar com uma paródia de um canto nacionalista árabe, dos anos 50s, em que se falava do Qatar não como “a pátria árabe”, mas como objeto de adulação, por conta dos gordos investimentos qataris no Egito (alguns reais, outros inventados). Ninguém, nem na imprensa ,nem pelos teatros da cidade deu-se o trabalho de explicar que os investimentos de empresas sauditas, emiratis e norte-americanas (e as propriedades que já têm em solo egípcio) excedem em muito tudo que os vorazes qataris possuem ou são apresentados como se possuíssem. O Qatar era o demônio da vez.

A ironia é que, enquanto os qataris sempre foram patrocinadores e engenheiros das tomadas pela Fraternidade Muçulmana em todos os países árabes nos quais houve levantes, inclusive no Egito, ou onde sofreram o correspondente revés imposto pelos qataris, como na Líbia e até na Síria, os sauditas e emiradis sempre foram ativos patrocinadores das contrarrevoluções e dos antigos regimes.

Bassem Youssef
Enquanto isso, a imprensa e os especialistas “midiáticos” continuam a falar de Mursi como o novo “Hitler” e da Fraternidade Muçulmana como “Partido Nazista”. O altamente ocidentalizado Bassem Youssef chegou a exibir a bandeira nazista num dos episódios de seu programa de televisão, como se fosse a bandeira da Fraternidade Muçulmana, convencido de que a bandeira nazista seria facilmente identificada pelos egípcios e que provocaria horror. A julgar pela reação das claques que formam o público daquele programa, e que reagiu com indiferença à bandeira (que a maioria dos egípcios simplesmente não conhece, diferentes nisso dos públicos ocidentais, ávidos consumidores de filmes de Hollywood sobre a 2ª Guerra Mundial); exceto em alguns círculos políticos e intelectuais, a cena teve impacto limitado. Mas tampouco faltariam colunistas de jornais e acadêmicos, a repetir as analogias com Hitler e os nazistas. Um colunista de jornal equiparou o recentemente indicado Ministro da Cultura, a Goebbels. Mais grave que essa comparação, apenas retórica, contudo, foi o conjunto da obra – uma completa barragem de propaganda e mentiras anti-Mursi distribuída pelas grandes empresas de mídia. Essa, sim, foi campanha de tal porte, que bem mereceria ser comparada aos feitos de Goebbels.

Gamal Abd El Nasser
Deve-se ter em conta que as acusações de nazistas são frequentemente usadas no mundo da política para encobrir vários tipos de golpe.

Mursi não é sequer o primeiro presidente egípcio acusado de ser “um novo Hitler”. Em 1954, à luz do “Caso Lavon”, Israel chamou Nasser de “Hitler do Nilo”, por perseguir espiões e terroristas israelenses. Franceses e britânicos fizeram o mesmo, quando se preparavam para invadir o Egito, em 1956 – e divulgavam que estariam combatendo um Nasser fascista: apresentavam-se assim como antifascistas, quando, de fato, atacavam presidente anti-imperialista.

Os liberais ocidentais que apoiaram a invasão dos EUA na Península Arábica em 1991 e no Iraque em 2003 para derrubar Saddam, também muito falavam do próprio antifascismo, para encobrir o ataque a inimigo anti-imperialista.

Mas a ninguém da imprensa ou a nenhum especialista midiático jamais ocorreu chamar Hosni Mubarak, ditador por 30 anos, de Hitler. Ironicamente, o único presidente egípcio que flertou com o nazismo, embora só na juventude, foi ninguém menos que Anwar Sadat.

Salvador Allende
No caso de Mursi, a campanha midiática contra ele e a Fraternidade Muçulmana, capitaneada pelas redes CBC e ONTV de televisão por satélite (ambas as empresas de propriedade de elementos da burguesia mubarakista), ultrapassou em muito a campanha que a CIA patrocinou, pelo jornal El Mercurio, contra o presidente chileno Salvador Allende, antes de ser derrubado por golpe também patrocinado pela CIA em 1973. Não estou dizendo que Mursi seja um Allende, mas, sim, que Mursi tem inimigos que não são totalmente diferentes dos inimigos que Allende enfrentou. (De fato, também houve marchas de mulheres de classe média que batiam panelas, e sindicalistas do sindicato dos caminhoneiros, no Chile, dentre outros setores, que fizeram greves e manifestações contra o governo Allende).

Circularam boatos de que o governo de Mursi, anti-palestinos e cada vez mais anti-Hamás, estaria fornecendo eletricidade aos habitantes de Gaza pobres e sitiados (boatos que já se comprovaram falsos), eletricidade a qual o governo Mursi estaria roubando do povo egípcio e cujo roubo seria a causa de inúmeros apagões no Cairo e por todo o país.

Outros boatos diziam que Mursi estaria entregando o Sinai ao Hamás e aos palestinos. Ainda outros boatos diziam que elementos do Hamás estariam sendo “importados”, para provocar liberais e esquerdistas egípcios, que se opunham às políticas de Mursi. Apenas uma semana antes de ser deposto, circularam boatos, sem nem vestígio de qualquer prova, segundo os quais Mursi teria importado 1.500 homens do Hamás para que atacassem manifestantes anti-Mursi que se preparavam para as grandes manifestações públicas do dia 30 de junho que exigiam a renúncia do presidente.

A histeria coletiva estimulada pela imprensa e que tomou conta do país foi de tal magnitude, que até liberais e acadêmicos de esquerda conhecidos pelo pensamento moderado, desertaram de suas faculdades críticas e mergulharam de cabeça no universo dos boatos distribuídos por Facebook e veículos de jornalismo marrom, que se tornaram sua única fonte primária de formação e de informação.

A confrontação

Não há qualquer dúvida de que o governo de Mursi não dava sinais de que desistiria de seus planos, as estupidezes incluídas (para nem falar das políticas liberais e da quase inacreditável incompetência para governar o país, que já bastariam para desacreditá-lo completamente), a começar pela inclusão de membros da Fraternidade Muçulmana e outras forças islamistas em posições chaves no governo, nas comissões constitucionais e em toda a burocracia. É verdade que Mursi convidou muitos nomes da oposição, durante todo o ano em que permaneceu no poder, para compor suas comissões, o gabinete, para integrar-se à burocracia e, até, para compor sua equipe de assessores (alguns aceitaram e participaram do governo, por algum tempo). Mas a maioria rejeitou os convites, temendo, legitimamente em alguns casos, que viessem a ser usados como máscara para o que temiam que fosse um programa de “Ikhwanization” (em árabe, a Fraternidade Muçulmana recebe o “apelido” de Ikhwan) do estado – o que foi astronomicamente exagerado em todas as mídias mubarakistas. Outros renunciaram aos postos de conselheiros que haviam aceitado, porque Mursi recusou-se a seguir seus conselhos – coisa que, segundo fontes da Fraternidade Muçulmana, também acontecia com conselhos que recebia de conselheiros de sua própria Fraternidade.

Mas a incompetência da presidência da Fraternidade Muçulmana não foi a única razão pela qual o país deteriorou-se durante o ano passado. Para cada lado para o qual Mursi olhasse, os mubarakistas criavam obstáculos contra qualquer movimento. A burocracia do governo recusava-se a cooperar com o governo; os juízes o detinham a cada passo que tentasse, a polícia recusava-se a policiar as ruas. A burguesia mubarakista, como se vai revelando aos poucos na imprensa internacional, fabricou uma crise de energia que estaria causando racionamentos massivos de combustíveis e eletricidade, e que desapareceu completamente, por milagre, no instante em que Morsi foi derrubado do poder.

Tamarod...
Assim se construiu o cenário para uma mobilização de massas de grandes proporções que um novo “movimento” que se autodenominou “Tamarod” (palavra que, de fato, significa “motim” e em alguns contextos “rebelião”, mas que absolutamente não significa “rebelde” como seus fundadores, apoiadores e toda a mídia ocidental traduziram, erradamente), e que convocou as demonstrações do dia 30 de junho, primeiro aniversário da posse de Mursi como presidente do Egito. Todo o espectro da coalizão, que se formou e consolidou-se depois da eleição de Mursi, inclusive a Frente de Salvação Nacional, formada rapidamente, logo depois de Mursi lançar seu Decreto Constitucional, uniu-se para exigir que Mursi deixasse o governo. Conseguiram mobilizar milhões de pessoas nas ruas, culminando nas manifestações de 30 de junho.

Firmou-se um acordo com o exército (e os EUA), na sequência do qual o exército declarou um golpe, derrubou Mursi e começou furiosa caça às bruxas, à qual se uniram entusiasticamente membros da população, interessados em dar cabo da Fraternidade Muçulmana. Queimaram-se prédios e escritórios e instalações da Fraternidade Muçulmana em todo o país (ações comandadas sempre por manifestantes “pacíficos”), inclusive o escritório central, no Cairo. O golpe não foi chamado de golpe, e membros da coalizão popular que o apoiou declararam que quem falar de “golpe” será declarado “inimigo do povo egípcio” – como muita gente divulgou por Twitter e Facebook.

Mohamed El Baradei
Redes e canais islamistas de televisão foram fechados, minutos depois de o golpe ter sido anunciado; Mursi foi sequestrado pelos militares e mantido preso em prédio militar cuja localização é mantida em segredo, e os mais altos membros da Fraternidade Muçulmana ou foram também presos, ou tornaram-se fugitivos. Os mais altos membros da Frente de Salvação Nacional e o nada carismático Mohamed El-Baradei não hesitaram em defender a repressão militar em contatos com líderes e políticos ocidentais, esperando ser indicados para o governo pós-golpe, como prêmio de reconhecimento por seus esforços para vender ao mundo, como se fosse revolução democrática, o golpe de estado; e, mesmo, para convocar um “recall das eleições”.

Um dos primeiros atos dos líderes do golpe foi fechar indefinidamente a fronteira de Gaza, estrangulando, efetivamente, a Faixa e sua população de palestinos. Trataram também, imediatamente, de demolir os túneis que haviam escapado da mais recente campanha de destruição. A xenofobia no Egito, contra palestinos, cada vez mais também contra sírios e iraquianos, já assume proporções fascistas. Os líderes do golpe distribuíram um pronunciamento ameaçando com prisão e outras punições, os cidadãos daquelas nacionalidades e residentes no Egito que participassem das manifestações.

A cena festiva que se vê no Cairo evoca ironicamente o triunfalismo fascista e suas festividades na Europa dos anos 1930s, muito mais que manifestações democráticas. Mas quem declarou o golpe não foi a Fraternidade Muçulmana, como fomos preparados para esperar ao longo de um ano inteiro, nem foi a Fraternidade quem meteu a oposição na cadeia e fechou suas estações de televisão, queimou seus escritórios e caça a oposição pelas ruas, conclamando a população a delatar oposicionistas à polícia.

De fato, durante o ano de governo de Mursi nenhuma televisão ou jornal foi fechado, nem, e especialmente, os muitos deles que pregavam a rebelião e a derrubada violenta de governo democraticamente eleito. Sim, alguns jornalistas foram processados por insultar o presidente no Egito, mas pode-se dizer que nenhum outro país algum dia conheceu nem uma pequena parte dos insultos que Mursi recebeu durante seu governo, (para nem falar do tipo de linguagem que a imprensa usou para humilhá-lo) e crime pelo qual alguns foram, quando muito, multados. Embora não tenha conseguido intervir com sucesso na mídia de propriedade privada, Mursi agiu nos jornais estatais e substituiu seus editores, muitos dos quais eram mubarakistas, mas muitos dos quais, também, eram editores eleitos, com pauta própria.

Movimento Tamarod no elegante bairro de Zamalek no Cairo em 11/7/2013
Nas ruas do Cairo, sente-se o terror da caça às bruxas, e os alvos já não são apenas os que se identifiquem como membros da Fraternidade Muçulmana. Porteiros pró-golpe de prédios elegantes no bairro de Zamalek – para dar um pequeno exemplo – perseguem e ameaçam outros porteiros, acusados de apoiar a Fraternidade. Esses, já não saem de casa, temendo pela própria vida, desde que o golpe foi anunciado. O que está acontecendo em bairros mais divididos de classe média, nas periferias mais pobres, nas cidades menores e no interior do país é muito pior que ataques a tiros e incêndios, nos quais se envolvem os dois lados. O próprio exército atirou e matou dezenas de manifestantes pró-Mursi que se opunham ao golpe. Somado à adulação fascista ao exército e à polícia que se vê à plena força, isso pode bem indicar o início de uma tão temida guerra civil e de pogroms massivos contra os que sejam identificados como “inimigos” do Egito e do povo egípcio.

Os liberais e os esquerdistas

Como explicar que liberais e esquerdistas apoiem golpe contra a ordem democrática pela qual lutaram, encenem uma “revolução” contra a “democracia”, em aliança com a burguesia mubarakista e com os próprios militares que tão duramente criticavam há apenas um ano, até que cedessem o poder a um governo eleito?

Os militares e a burguesia e os juízes de Mubarak evidentemente não mudaram. Mas, sim, os liberais e esquerdistas mudaram. Seu raciocínio faz lembrar o filme futurista distópico hollywoodiano A nova lei (Minority Report, 2002), no qual as autoridades processam pessoas por “pré-crimes” – quer dizer, por crimes que cometeriam no futuro, se não fossem presos antes de cometê-los. Alegam que a Fraternidade Muçulmana daria um golpe antidemocrático e põem-se a reprimir os Irmãos; e quanto ao futuro crime que previram que a Fraternidade e Mursi cometeriam, a coalizão anti-Mursi teve de intervir e puni-los hoje, para impedir governo eleito de agredir a democracia... no futuro!

Mas foram os liberais e os esquerdistas que ajudaram a preparar e dar o golpe, e que puseram fim a uma democracia eleitoral incipiente, e que hoje perseguem e processam a Fraternidade Muçulmana por crimes reais e imaginários, não o contrário. Dado que seu golpe foi popular, insistem eles, “conclui-se” que manifesta a vontade do povo. Mas, então, o povo também queria o fascismo, e também quis o nazismo? Como seria esse tipo de suposto argumento pró-democracia, como dizem que é? Respondem que trabalhadores e pobres uniram-se às manifestações. Mas também houve trabalhadores e pobres nos comícios fascistas e nazistas. E também os há nos comícios da Fraternidade Muçulmana.

Manifestação de partidários da Irmandade Muçulmana em 26/12/2012
A esquerda está dizendo que seu apoio ao golpe e sua aliança com a burguesia mubarakista comprador são, na verdade, de natureza anti-imperialista e que se unem contra a mídia ocidental pela cobertura atual, que seria “orientalista”, de seu golpe (como se a mídia ocidental algum dia tivesse sido outra coisa, além de orientalista, na cobertura de nossa parte do mundo, em todos os tempos), cobertura que consideram hostil; e para que Obama tenha talvez de cortar a ajuda militar, obedecendo à lei que o impede de estender sua ajuda a líderes de golpes no Terceiro Mundo (quando se sabe que Carter e Reagan encontraram meio para burlar aquelas leis nos anos 1970s e 1980s, quando subcontrataram Israel para que ajudasse os ditadores aliados dos EUA na América do Sul e Central e na África do Sul do Apartheid; e Obama, sem dúvida, também encontrará meio para burlar as mesmas leis). Seja como for, a ajuda militar dos EUA ao Egito para 2013 já foi paga; e a ajuda para 2014 ainda nem entrou na pauta de discussões do Congresso e não entrará antes do outono. Mas que ninguém se preocupe: altos diplomatas israelenses já estão empenhados no lobby, na Casa Branca e no Departamento de Defesa dos EUA, para que a ajuda militar ao Egito não seja interrompida.

Outro argumento, esse legítimo, que liberais e esquerdistas apresentam é que quando eles e outros uniram-se ao levante de janeiro e fevereiro de 2011 que levou à derrubada de Mubarak e à tomada do governo pelo exército que, desde então, passou a governar diretamente o país, poucos falaram daquele levante como “golpe”: falavam de “revolução. E, hoje, quando o que se vê é outro levante massivo e o exército outra vez interveio, mas sem se autodesignar para governar, não falta quem fale de “golpe”.

Esse raciocínio é correto, embora pouco preciso, porque deixa sem considerar a questão central. Em fevereiro de 2011, o exército recusou-se a receber ordens de um ditador não eleito e não atirou contra civis, o que ajudou a derrubar o ditador; e em julho de 2013, o exército derrubou presidente eleito por mais da metade dos eleitores egípcios em eleições democráticas.

Liberais e esquerdistas que hoje apoiam o golpe estão furiosos contra os EUA e gritam “Imperialistas” contra os norte-americanos que não apoiaram imediatamente sua revolta contra a democracia, aparentemente sem considerar o quanto os EUA de fato fizeram para construir o golpe por trás da cena. Publicamente, Obama tem tentado todas as espécies de acrobacias verbais para acalmar os liberais e esquerdistas, cuidando para não chamar o golpe, de golpe. A fúria endereçada contra os EUA, contudo, não é necessariamente anti-imperialista. Ela é, muito mais, disparada por uma ferida narcísica: porque os EUA (como o exército egípcio) aliaram-se, embora temporariamente, com a Fraternidade, não com os liberais e esquerdistas e claramente, depois, abandonaram a Fraternidade e deram luz verde para o golpe. O muito que gritam é o modo de eles tentarem atrair os EUA de volta para o campo deles... onde os EUA já estão.

Abdel Fattah Al Sisi
O Wall Street Journal já manifestou suas expectativas e esperanças de que o general Sisi venha a ser o Pinochet do Egito. Alguns liberais têm reclamado que, se os Republicanos estivessem no poder, não teriam dado apenas a resposta “soft” ao seu golpe, que receberam, dizem eles, dos Democratas. Mas os EUA, quanto a isso, não dormiram no ponto.

Os EUA são aliados de todos os partidos no Egito e estão dispostos a deixar que os egípcios escolham quem governará, para que os EUA, então, possam pôr-se a lhes dar ordens como sempre deram primeiro a Mubarak, depois à Fraternidade Muçulmana. A única coisa que ocupa o pensamento dos norte-americanos é que seus interesses estejam bem protegidos – e, até agora, ninguém, nenhum membro das coalizões pró-Mursi e anti-Mursi ousou ameaçar aqueles interesses. Todos só fazem mostrar o quanto desejam servir aos interesses dos EUA: basta que os EUA os apoiem. Nos últimos dois anos e meio, os norte-americanos esforçam-se para determinar quem, dentre todos os que disputam a posse dos meios para bem servi-los, conseguirá, com mais sucesso, estabilizar o país, para que os EUA possam continuar a controlar tudo, como antes.

Nazistas, islamistas, liberais e esquerdistas

Há um ano, só ouvimos que Mursi é Hitler, que os Irmãos são nazistas, e que estão consolidando o próprio poder para que, adiante, possam atacar tudo e todos. É possível que tenham tais planos, mas até hoje não se viu nem vestígio de prova disso. O que aconteceu foi exatamente o oposto: foi a coalizão de liberais, nasseristas, esquerdistas, salafistas e a burguesia mubarakista que conclamou antes e festejou e apoiou depois o golpe, que foi obra do exército de Mubarak. Diferente da Fraternidade Muçulmana que jamais controlou o exército ou a polícia, esses dois corpos continuam a ser absolutamente fiéis à burguesia mubarakista – da qual os liberais e esquerdistas são aliados.

Os egípcios foram inundados com imagens de que os “islamofascistas” estariam destruindo a cultura do Egito e sua identidade, com intolerância, pensamento estreito, nenhum preocupação inclusivista e políticas antidemocráticas. Mas foram os liberais e esquerdistas – talvez se os possa chamar de “fascistas seculares” – que se comprovaram menos abertos, menos tolerantes e com certeza menos democráticos que os “islamofascistas”.

Nos EUA, um ditado ensina que “conservador é um liberal de terno e colete” – significando de modo norte-americano e classista, que quando o liberal se envolve com os pobres, é para ser contra eles... o que o converte em conservador. No caso do Egito, pode-se facilmente dizer que “secular fascista é um democrata liberal que foi derrotado pelos islamistas em eleições democráticas”.

Golpe Militar no Egito apoiado pela esquerda
O golpe do exército, que os esquerdistas, dentre outros, apoiam, não foi golpe dado por oficiais de classe média com consciência social e anti-imperialista que contam com o apoio de forças progressistas anticapitalistas para derrubar o controle capitalista local e imperial e o ditador que o comanda (quando os Oficiais Livres organizaram seu golpe em 1952, em apenas poucas semanas já haviam deslocado os senhores feudais e redistribuíram a terra entre os camponeses pobres). O golpe, hoje, foi dado por generais de exército que recebem gorda pensão anual, a título de ajuda militar, dos EUA imperiais, e que sempre protegeram Mubarak e sua burguesia. Essa liderança militar derrubou o presidente democraticamente eleito (eleito, apesar de sua incompetência no governo e os serviços que prestavam ao capital local e internacional).

Alguns dos esquerdistas que hoje festejam o golpe parecem sentir que a mobilização foi bem sucedida porque agora o povo é educado e consciente de seus direitos que a Fraternidade Muçulmana estava assaltando. Mas a educação que os membros da coalizão anti-Mursi receberam, incluídos aí os trabalhadores e os pobres que se uniram aos comícios, é a mesma educação distribuída pela burguesia mubarakista, que usa para isso seus impérios midiáticos. Não foi educação que enfatizasse as políticas neoliberais e contra-pobres da Fraternidade Muçulmana, que destacasse os direitos dos trabalhadores, os direitos dos camponeses, o direito ao salário mínimo, etc..

A educação que o império midiático mubarakista distribuiu é educação que não educa para a libertação dos pobres, dos trabalhadores, dos camponeses, da baixa classe média do Egito, para alertá-los contra a pilhagem do Egito e da vida dos egípcios, levada a cabo por agentes capitalistas e imperialistas. Aquela é educação que só educa a burguesia “secular” mubarakista e seus sócios, ensinando-a a competir contra a burguesia neoliberal da Fraternidade Muçulmana e de seus patrocinadores qataris.

O fato de o Rei da Arábia Saudita e o Ministro de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, patrocinadores dos norte-americanos e da burguesia mubarakista, terem sido os primeiros a enviar congratulações aos líderes do golpe, minutos depois de o golpe ter acontecido, mostra claramente quem, na avaliação deles, foi libertado de quem. Poucas horas depois do golpe, a burguesia mubarakista também celebrava.

Mohamed Fuad
Na 5ª-feira, 4 de julho, o cantor egípcio Mohamed Fuad, que chorara na televisão dois anos e meio antes, manifestando sua tristeza e desespero pela derrubada de seu amado Mubarak, foi convidado para abrir o pregão da Bolsa de Valores do Cairo, que ganharam bilhões de libras, desde o golpe. Se os qataris e a burguesia da Fraternidade Muçulmana venceram a primeira batalha contra os sauditas com a derrubada de Mubarak e, em seguida, também a segunda batalha, quando a Fraternidade Muçulmana foi eleita, os sauditas e a burguesia mubarakista lançaram sua última batalha - que venceram, com a remoção da Fraternidade Muçulmana – festejada como a vitória final na guerra pelo Egito.

Os objetivos do levante egípcio desde o início incluíam, como objetivo primário, a justiça social. Ambos, mubarakistas e Fraternidade Muçulmana tinha política unificada contra a agenda de justiça social do levante. Mas o golpe anti-Fraternidade, que começou violento e ainda levará muitos de seus apoiadores a recorrer a meios violentos, agora que foram derrotadas todas as manifestações pacíficas, transformaram o levante, de levante contra o regime mubarakista e seu aparelho de segurança e de negócios, em movimento que agora se incorporou à guerra incansável que Mubarak sempre fez contra a Fraternidade.

Se liberais e esquerdistas querem ver democracia real com segurança social e padrões de vida decentes para a maioria dos egípcios que são pobres, então a derrubada do governo da Fraternidade Muçulmana, por força militar, só continuará a impedir que tudo aquilo se concretize no Egito. De fato, a derrubada do governo da Fraternidade Muçulmana, por força militar, só trará mais injustiça econômica e mais repressão.

Se esquerdistas e liberais calculam que sua aliança com a burguesia mubarakista e o exército seja aliança tática e temporária, e que conseguirão ultrapassá-la e arrancar o poder do exército, como arrancaram da Fraternidade, o futuro se encarregará de comprovar que esse projeto não passa de triunfalismo ingênuo ou de otimismo teatralizado. Mas já é bem claro hoje, com o crescimento massivo da repressão policial e militar – e repressão para a qual até o povo está sendo arrastado – que aquela aliança só fez reforçar os mubarakistas e o exército, além de enfraquecer qualquer voz que ainda clame por alguma futura democracia no Egito, real ou apenas formal.

Capturado pelas festividades populares fascistas em torno do exército, o Egito é hoje governado por um exército cujas lideranças foram nomeadas por Mubarak e serviram ao governo de Mubarak; e tem por presidente um juiz nomeado por Mubarak; e sua polícia é a mesma polícia usada por Mubarak. Chamar de golpe ou não chamar de golpe, cada um decida como preferir.

O que se vê hoje no Egito é mubarakismo sem Mubarak.




[*] Joseph Massad leciona Política Árabe Moderna e História Intelectual na Universidade de Columbia em New York. É autor de The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O sultão da Turquia deplora a queda do faraó

10/7/2013, M K Bhadrakumar [*], Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito: Golpe Militar
O golpe militar no Egito expôs o duplifalar sem princípios dos estados árabes sunitas do Golfo Persa, da União Europeia e dos EUA.

O único país que tomou posição clara desde o primeiro momento é a Turquia, o que, por sua vez, faz entrever novas linhas frágeis, de ruptura, na política do Oriente Médio.

Rei Abdullah (AS)
As oligarquias autocráticas do Golfo Persa correram a comemorar a derrubada do governo eleito de Mohamed Mursi, derrubado pelos militares egípcios. O rei Abdullah da Arábia Saudita despachou telegrama de congratulações para o Cairo, horas depois de anunciada a derrubada de Mursi.

É palpável o sentimento de júbilo por a Fraternidade Muçulmana, que encabeça os levantes populares contra os regimes do Golfo Persa, ter perdido o poder no Egito. Afinal a política real surge, destruindo a fachada segundo a qual o principal problema do Oriente Médio hoje seria uma rixa sectária sunita-xiita.

Quanto às lideranças europeias e norte-americanas, têm medo de chamar o golpe de golpe, porque suas próprias leis podem impedi-los de continuar a negociar como sempre com o chefe do exército egípcios, general Abdel-Fattah el-Sisi.

Poder manter negócios com o regime de Sisi no Cairo é absolutamente imperativo para a estratégia regional dos EUA – porque a segurança de Israel está envolvida em qualquer negociação. Ao ameaçar “suspender” a ajuda militar, o governo de Obama tem esperanças de manter Sisi sob rédea curta.

A bússola de Erdogan

Assim sendo, a Turquia ficou encarregada de dar nome aos bois. E bem quando Recep Tayyip Erdogan ia virando alvo das críticas ocidentais por suas tendências autocráticas, é ele quem assume a cátedra, para defender a causa da democracia liberal no Egito.

Ahmed Davutoglu
As declarações de Ancara vieram em forte tom de condenação contra o golpe no Egito. O ministro das Relações Exteriores Ahmed Davutoglu disse:

Líder que chegue ao poder com apoio do povo só pode ser removido por eleições. É inaceitável que líderes democraticamente eleitos, sejam derrubados, seja pela razão que for, por meios ilegais, ou por golpe (...). A Turquia tomará partido ao lado do povo egípcio.

Um dos deputados e o porta-voz do Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, Huseyin Celik, não mediu as palavras:

Amaldiçoo o sujo golpe no Egito. Espero que as imensas massas que levaram Mursi ao poder defenderão seu voto (...) Temos de aplaudir a posição firme de Mursi. Correrá sangue, se os apoiadores de Morsi enfrentarem os militares e os grupo anti-Mursi (...) Nem por isso estamos dizendo que Mursi e seus apoiadores devam engolir esse golpe.

Recep Erdogan
O próprio Erdogan tratou de ridicularizar o duplifalar da União Europeia. Perguntou:

O Ocidente não está com a democracia? Não se esforça tanto para implementar a democracia nos países? Aí está um teste de sinceridade. E o Ocidente fracassou no teste, mais uma vez. Não existe “golpe democrático”. A União Europeia esqueceu mais uma vez os próprios valores, ao não chamar o golpe, de golpe (...) Mursi cometeu erros; ele também pode cometer erros. Quem jamais errou?

Bem claramente, é Erdogan vivendo seu melhor momento no teatro político do Oriente Médio muçulmano. É político esperto. Por que, pois, está fazendo isso? Qual seu cálculo político?

Não há dúvidas de que Erdogan conta com polir sua própria imagem, aparecendo como democrata, depois de sua imagem ter sido bastante arranhada, depois do modo como enfrentou os protestos populares na Turquia. Está expondo seus detratores ocidentais como gente sem espinha dorsal e sem consistência.

Mohamed Mursi
Em segundo lugar, reafirma seu projeto ideológico, no qual o Islã e a democracia são compatíveis. Isso ecoa na política interna turca. Em terceiro lugar, Mursi sempre foi amigo íntimo e aliado próximo de Erdogan.

Simultaneamente, Erdogan lançou vigorosa campanha diplomática para “desfazer” o golpe no Egito. A sugestão de Ancara é que não há necessidade de governo interino e as eleições devem acontecer imediatamente.

Contudo, como se lê no jornal Hurriyet, a Turquia está se percebendo sozinha que:

(...) seu maior desapontamento advém de seus maiores aliados árabes, a saber: Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos, que correram a festejar o novo governo de transição e o exército, autores do golpe.

Seja como for, Erdogan persistirá em sua campanha. Ele sabe que se faz amado pelo sentimento pan-islamista no Oriente Médio e que, no processo, consolidará sua base na Turquia, para o ano eleitoral crucialmente importante que se avizinha. Erdogan está em posição mais sólida que os muitos que, dentro e fora da Turquia, puseram-se a dar-lhe lições de democracia.

Os turcos avaliam que o golpe aproxima-se de uma encruzilhada; e que é só questão de tempo, para que a opinião pública egípcia comece a posicionar-se contra a junta militar. Isso tornará inevitável a volta da Fraternidade Muçulmana ao poder.

Convicção do sultão

Entretecida em tudo isso, a uma dimensão criticamente importante, que tem a ver com a política interna turca, que vive em fermentação e adentrará águas desconhecidas nos próximos meses, com o país aproximando-se de uma transição política altamente sensível no ano que vem, que terá ecos importantes em relação ao futuro do Partido AKP e, de fato, em relação à tumultuada carreira política do próprio Erdogan.

Protestos na Praça Taksim (no arvoredo o Parque Gezi - Istambul)
Os protestos na Turquia ameaçam tomar a forma de confrontação entre “secularistas” e islamistas, e há a sempre presente figura dos militares que se veem como guarda pretoriana do estado.

Erdogan ainda controla a própria casa, mas o chão germina sob seus pés. Há o presidente Abdullah Gul, que acalenta ambições de permanecer em mais um mandato, e está crescendo; há rumores de que Gul trabalha para um realinhamento político que divide do AKP e cria uma ampla coalizão anti-Erdogan.

Abdullah Gul
Gul, de fato, tomou posição claramente diferente de Erdogan sobre os protestos na Turquia, mostrando-se moderado e razoável, disposto a tolerar opiniões divergentes da sua. O que disse sobre o golpe no Egito aproximava-o das vozes de Obama e da União Europeia.

Assim sendo, do ponto de vista de qualquer dos protagonistas externos que se poderiam envolver na “mudança de regime” no Egito, direta ou indiretamente – EUA, Israel, União Europeia e, principalmente, a Arábia Saudita – Gul aparece como figura mais “orgânica”, hoje, para comandar a nave turca.

Mas Erdogan, por sua vez, não é Beckam. Seu apelido, no tempo em que jogava futebol, no meio do campo, era “Imã Beckenbauer” – alusão à estrela Beckenbauer do futebol alemão. E hoje é também o sultão. E pode, a qualquer momento, também, denunciar o blefe do golpe egípcio.

Sem dúvida, a declaração do Irã, na 2ª-feira (8/7/2013), condenando os militares egípcios e denunciando o envolvimento do ocidente e de Israel no golpe fortalece a plataforma de Erdogan. Se planejava ser o único pró-democracia, a decisão de Teerã altera essa matriz.

As duas maiores potências regionais no Oriente Médio desafiaram abertamente a junta militar egípcia. A chamada “rua árabe” não será insensível a isso, e essa ação terá ali um impacto profundo. Será difícil resistir a uma plataforma turco-iraniana, em termos geopolíticos, para os árabes entusiastas do golpe – principalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Também para Israel, a sensação de júbilo pode ser sido efêmera. O melhor que Israel poderia esperar é que o golpe no Egito dividisse o Oriente Médio muçulmano, mas, ao que tudo indica, ironicamente, pode acabar por unificar as forças do islamismo na região.

Assim, na 2ª-feira (8/7/2013), outra vez, a escala alarmante da violência aplicada pelos militares contra os Irmãos, já levou o Partido Nusra, os salafistas apoiados pela Arábia Saudita, a distanciar-se do governo de transição.

Foi a maior fissura que surgiu na falange de elementos variados que levou ao putsch anti-Mursi.

Mohamed El Baradei
Significativamente, o muito respeitado líder liberal Mohamed El Baradei que representa o Movimento Tamarod (movimento rebelde que comandou os protestos na Praça Tahrir) também já pediu “investigação independente” sobre a violência. Pode ter soado também como voz dissidente.

Até agora, a junta militar ainda não conseguiu montar governo provisório viável. E, sobretudo, a decisão de resistir que a Fraternidade está mostrando, contra os militares, pegou-os todos de surpresa.

Evidentemente, os Irmãos não têm planos de permanecerem sentados no frio por outros 85 anos, antes de voltarem a reclamar o poder político.

Tudo isso sugere fortemente que a posição adotada pela Turquia (e pelo Irã) pode, afinal, predominar. Os últimos desenvolvimentos certamente reforçaram a convicção do sultão, de que ele está “do lado certo da história”.
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MK Bhadrakumar [*] foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.