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domingo, 23 de novembro de 2014

Samantha Power alerta contra “fadiga da intervenção”... e aparece fantasiada de líder de gangue em canal “jovem”!

20/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na tendinha do Cudum: Um canal de televisão que só mostrará “protestos de jovens”, 24 horas por dia, sete dias por semana. Haja “protestos”! :-D)) Coróóóózes!
A “realidade” perdeu TOTALMENTE A VERGONHA. O Quadrado dos Loucos, agora, vai é adorááááá! KKKKKKKK.  Avisa lá, Bruno Cava! Avisa a Ivana! 8-D))



(CNN) – A bandeira negra do ISIS tremula acima dos prédios do governo líbio. Carros de polícia exibem o brasão da “organização”. O estádio de futebol é usado para execuções públicas. Cidade na Síria ou no Iraque? Não. Uma cidade na costa do Mediterrâneo, na Líbia (vídeo acima, em inglês).

Homens do Estado Islâmico no Iraque e na Síria [ing. ISIS] já controlam agora completamente a cidade de Derna, população de 100 mil habitantes, próxima à fronteira com o Egito e a apenas 200 milhas do litoral sul da União Europeia.

Samantha Power alerta...

Samantha Power, embaixadora dos EUA à ONU, alertou o povo dos EUA contra uma espécie de “fadiga da intervenção”, enfatizando que a liderança dos EUA é hoje mais necessária do que nunca, ante ameaças do vírus ebola e do Estado Islâmico.

Acho que está havendo muito dessa coisa de “Ora, a intervenção não deu muito certo”... Quer dizer: ninguém deve se pôr a extrair lições exageradas – disse Power na 4ª-feira (19/11/2014), na reunião “Defense One Summit”.

Mas... e que lições, então, Power quer extrair de sua “intervenção” na Líbia?

******


Noutra aparição ontem, Power foi interrompida (vídeo acima, em inglês) por “protestos” num evento de lançamento de um canal a cabo dedicado aos protestos de juventude pró “mudança de regime”:

Os “manifestantes” que “protestavam” pareciam absolutamente talhados para “atuar” no evento do canal Fusion, reunião de jovens ativistas de todo o mundo, sob a bandeira “Levantem-se!” do novo canal a cabo — uma joint-venture entre o canal ABC que pertence à Disney e o canal Univision, em espanhol — destinado exatamente a dar cobertura aos movimentos de protesto pelo planeta. Foi Power aparecer e um grupo ergueu cartazes em que se lia “Para os Milenistas [ “Geração Y” ], você é um falcão de guerra” – repetindo o mote do canal Fusion, quando declarou publicamente que passava a criar programação destinada a uma estreita faixa demográfica. Em seguida, um “jovem” gritou: “Estamos aqui porque nos levantamos!”

Tudo naquela cena cheira a armação e fingimento, uma espécie de neo-“reality show”. “No três, vocês entram em quadro. 1, 2 ...”  E Power representou muito bem seu papel de “falcão de guerra” sob ataque de “jovens”.

A principal missão do novo canal é enriquecer seus proprietários. Mas também será usado para promover os interesses políticos dos apoiadores, inclusive de Samantha Power. Eis a missão do canal:

[O canal] Fusion tem a ver com elementos independentes e isolados que interagem para criar uma energia de mudar o mundo. As plataformas Fusion de mídia oferecem engajamento e influência, com a geração dos milenistas que lideram e participam em movimentos globais de protesto e com fortes pontos de vista em áreas como o noticiário, eventos diários, política, estilo de vida e cultura pop.

Tradução: É canal de televisão de propaganda que engajará a juventude pseudo “avançada”, para criar “apoio de base” às operações de mudança de regime provocadas e mantidas pelos EUA.

Combina perfeitamente com os projetos de Samatha Power. O novo canal orientado para “jovens”, com certeza jamais extrairá “consequências exageradas” das primeiras intervenções. O objetivo do canal dos “movimentos de protesto” é promover e fazer acontecer novas intervenções...


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

O pesado passivo sino-russo

26/05/2014, [*] Philippe Grasset, Blog DeDefensa
Notes sur un monde à mille temps” (Le lourd passif sino-russe)
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo - 22 a 24/5/2014
Foi semana agitada e quase histórica, se não plenamente histórica, pelas regras dos eventos humanos. Veremos o que a história fará dessa semana. Navegamos da reunião de cúpula Putin+Xi às eleições europeias, com um pouco mais de exotismo achocolatado de uma Ucrânia que fez sua eleição presidencial, enquanto, um pouco antes, a partir de 23 de maio, o Fórum Econômico de São Petersburgo (espécie de Fórum de Davos à moda russa) reunira uma elite do mundo econômico globalizado na qual não se via – ausência proclamada e anotada – a parte americanista. (...)

Em todos os casos, numa dessas raras vezes nas quais podemos nos deleitar, é preciso registrar que essa sucessão de eventos, toda ela, aconteceu sem a presença alardeada e oficial da “nação indispensável” que finge ter arregimentado à sua volta o resto do mundo que conta; e que toda essa sucessão de eventos fez-se em torno quase sempre, mas nunca muito longe da nação que os EUA tanto querem isolar do resto do mundo. Em outras palavras, os EUA são a nação ‘indispensável’, mas dispensável; e a Rússia é a nação em torno da qual tudo está convergindo, mas “isolada”.

O que se vê nessa constatação irônica, não é nem “tendenciosidade” nem viés de classificação, mas, mais simplesmente, a demonstração já fatigada, de tanto que se repete, de que é preciso desconfiar sempre do que parece ser o ‘fato’ em cuja produção as narrativas washingtonianas tanto obram; e que é mais que hora de admitir que, nesse mundo de 2014, reina a desordem. Habemus Barack Hussein Obama (...)

The Economist: revista burríssima

Mas nem por isso passemos tão rapidamente por The Economist. É inegável que a revista tem talento para expor a narrativa do suprematismo anglo-saxão, para dar novo ânimo a certezas periclitantes, para reinflar a húbris quando ela murcha e tomba, como vela de dentro da qual o vento escapou. Mas, de fato, The Economist só faz deixar perceber uma completa ignorância. Tudo isso se condensa numa frase lá publicada, que retomamos aqui para desenvolvê-la, porque esse desenvolvimento nos permitirá explicar melhor a “aliança” sino-russa e o que pensam dela os anglo-saxões:

Há apenas 40 anos, Richard Nixon e Henry Kissinger persuadiram a China a voltar-se contra a União Soviética e aliar-se aos EUA.  

Não e não. Tal coisa nunca aconteceu!

Que erro! Que absoluto nada saber das realidades das grandes culturas, nos turbilhões ideológicos do século XX! E a revista The Economist quer fazer-nos crer, aliás, porque a própria revista crê, ela mesma, nessa tolice – é a ignorância que brota da húbris anglo-saxônica – que Nixon-Kissinger teriam conseguido, em 1971 o prodígio de desfazer a formidável aliança sino-russa! Assim se reforça a ficção que inventou a habilidade maquiavélica do anglo-saxonismo (Nixon-Kissinger). Mas fato é que dois anos antes, no verão de 1969, no rio Amour que separava as duas potências comunistas, guardas-de-fronteira chineses e guardas-de-fronteira soviéticos trocavam tiros. A URSS preparava planos de ataque nuclear contra a China, antes de a China ter tempo para organizar força nuclear considerável. (Os EUA, que foram indiretamente informados, intervieram com todo o seu peso, para convencer os soviéticos a não reagir).

Richard Nixon e Henry Kissinger passeiam em Viena, Áustria  - Maio de 1972
Se, durante os anos 1960s, os soviéticos armaram o Vietnã do Norte por envios marítimos que passavam por Haiphong (definida como alvo fora dos limites para aviões dos EUA, de medo de atingirem, por erro, algum cargueiro russo), foi porque a via por estrada de ferro, que seria mais simples, passaria necessariamente pela China, e as primeiras viagens-teste terminaram em pilhagens sistemáticas dos trens russos, pelos chineses (nenhuma pilhagem foi jamais feita pelo Vietnã).

Só um único acordo sino-soviético satisfatoriamente firme foi jamais assinado entre 1949 (vitória de Mao na China) e 1953 (morte de Stálin), porque Mao tinha certa proximidade de métodos com Stálin, e, isso, apesar da experiência de uma URSS mais disposta a apoiar Chang Kai-Check contra o PC chinês durante os anos 1930. Quanto ao resto, os chineses jamais pararam de fazer chover cataratas de insultos contra os dirigentes soviéticos que vieram depois (Mao detestava Krutschev e nunca nem quis saber de Brejnev), todos classificados como “revisionistas” insuportáveis. O aggiornamento de 1971, de Nixon-Kissinger, com um Mao já envelhecido e um Chou En-lai que se curvava fleumático, era previsível, escrito na natureza das coisas, e evidentemente agradava aos chineses.

Tudo isso para dizer que não se trata, absolutamente, de ressuscitar, hoje, uma aliança sino-russa que nunca existiu.

William Rogers, Secretário de Estado (E); o então presidente dos EUA, Richard Nixon (C) e o presidente da China, à época, Chu Enlai, reunidos em Xangai em Fevereiro de 1972
Estereótipo à maneira anglo-saxônica

Assim, o espírito anglo-saxão que dirige o juízo geral do Bloco Atlanticista Ocidentalista (“bloco BAO”), persuadido do próprio brio e da própria visão avançadíssima, acabou por ficar, ele próprio, totalmente cativo dos estereótipos da Guerra Fria. (O grande experimento de Nixon-Kissinger – porque sim, foi um experimento – não foi, é claro, desfazer uma aliança que não existia, mas, isso sim, fazer EUA e Washington engolirem uma aproximação com a China, no momento em que a pulsão anticomunista dominava todas as cabeças, e metia a China de Mao, necessariamente, como parceira fundamental da URSS.

Essa situação explica também a tática adotada, de segredo total das negociações EUA-China, guardado até o último momento, da primeira viagem-surpresa de Kissinger, e tudo isso por medo de que as forças burocráticas em ação em Washington fizessem gorar o processo. Essa manobra bem-sucedida foi uma das causas do Watergate e da derrubada de Nixon pela versão verdadeira [sobre isso, ver comentário nesse blog Obama “é” Nixon, de 28/12/2009].)

Há pois dois paradoxos na atual situação.

O primeiro é que a política americanista desenvolveu-se depois da aceleração pela qual passou a crise ucraniana, segundo esse estereótipo da Guerra Fria, como se russos e chineses fossem novamente os aliados fundamentais da Guerra Fria (o que jamais foram), vale dizer: como se a aliança sino-russa se resumisse a uma dinâmica natural.

Samantha Power
O desestruturamento dessa política americanista é de tal ordem, reforçado por uma extraordinária arrogância de opinião e comportamento, que esse movimento que involuntariamente reforçou a aproximação russo-chinesa desenvolveu-se ao mesmo tempo em que os serviços do sistema de comunicação de Washington garantiam que a Rússia estaria “isolada” e que a China votaria conforme o desejo dos EUA, na Assembleia Geral da ONU. (A estupidez dessa sequência alcançou o auge quando a embaixadora Samantha Power dos EUA afirmou, no tom de certeza histérica que a caracteriza, que a abstenção dos chineses no voto que condenaria o referendo da Crimeia teria sido “prova” do alinhamento dos chineses às posições dos EUA. Como se sabe, era exatamente o oposto [ver o comentário de 28/3/2014).

Em outras palavras e para voltar à questão da dinâmica, a inacreditável pressão que Washington aplicou – seja contra a Rússia, na questão ucraniana, seja contra a China, na visita de Obama e no encorajamento anti-China que inflou entre os japoneses – provocou uma aceleração decisiva na aproximação sino-russa, que, a partir do encontro Putin+Xi tomou dimensão verdadeiramente estratégica. O cúmulo do ativismo americanista manifestou-se quando os EUA, adotando postura cenográfica à Snowden, acusaram a China de crime de “ciber-hostilidade” e inculparam quatro funcionários chineses (com fotos em cartazes de “Procurados”), no dia em que Putin chegava a Xangai.

Chama a atenção, aí, a rapidez da sequência de movimentos de política de arrogância patética dos EUA, em que se reuniram todas as imbecilidades possíveis, em sequência rapidíssima, para expor ao mundo o aspecto estratégico da aproximação sino-russa. Os EUA, excepcionais efetivamente, não fazem serviço pela metade.

A narrativa da entente Putin Obama

O segundo paradoxo é que o endurecimento dos antagonismos e o aspecto estratégico da aproximação sino-russa em pleno auge de crises desestabilizantes para os dois, faz-se em nome, principalmente, da moderação dos dois parceiros. Tanto Putin como a direção chinesa não deixam de exibir tendência centrista de extrema moderação na questão de suas relações com o Bloco Atlanticista Ocidentalista, por mais que o ‘ocidente’ os condene pelo oposto.

É essa moderação que impede chineses e russos de reagir com mais vigor, cada um de seu lado, às pressões do Bloco Atlanticista Ocidentalista, e é essa pressão antagonista do BAO que os empurra, para compensar o que se poderia tomar por fraqueza – com risco real de converter-se, sim, em fraqueza – a reforçarem-se mutuamente, exaltando a aproximação, até que a comunicação assuma o esboço de uma aliança estratégica fundamental.

Russos e chineses, adeptos obcecados da estabilidade e do equilíbrio nas relações internacionais, nada temem mais do que temem a desordem que a política dos EUA e do BAO suscita. Essa moderação de julgamento conduziu-os, paradoxalmente, por causa das pressões e desse sistema-extremismo do BAO que alimenta a desordem, a proclamar implicitamente uma aliança que também é vista como ato estratégico fundamental.

Pode-se ver facilmente que Putin a todo momento recoloca sobre a mesa sua vontade de moderação e apaziguamento. Diz que não se trata de segundo episódio da Guerra Fria, que ninguém quer (vide RT, 24/5/2014), – e todos lhe desejamos boa sorte!

Robert Parry
Robert Parry, do ConsortiumNews, em artigo de 24/5/2014, no qual detalha a política do Departamento de Estado dos EUA para a Ucrânia como “manual do fiasco diplomático”, garante que, segundo a narrativa habitual e à qual ele mesmo já muito contribuiu, que há uma nova tentativa de entente pessoal Putin-Obama, prevista para a ocasião das comemorações do desembarque de 6 de junho:

A questão chave na Ucrânia agora é: conseguirão Putin e Obama superar a histeria de bater no peito da Washington oficial, e desescalar a violência – bem como a retórica – para melhor sorte de todas as partes racionais que estão em confronto? Tenho informações de que Putin, embora irritadíssimo por Obama ter, de início, seguido a manada anti-Rússia, já recomeçou a trabalhar com Obama, com vistas a um possível encontro na Normandia, dia 6 de junho, nas cerimônias em honra aos 70 anos do Dia D.

Essa postura de Putin, que se considera ainda como tática e que é bem mais que apenas tática, acabou por atrair as críticas de seus principais seguidores, entre os quais dissidentes do bloco BAO.

Finian Cunningham
Por exemplo, eis o que disse Finian Cunningham, à rede PressTV.ir, dia 24/5/2014, sobre a declaração de Putin na qual reiterava que respeitaria “o veredito das urnas” na Ucrânia, dia 25 de maio:

O presidente Vladimir Putin da Rússia disse no Fórum Internacional de Negócios em São Petersburgo, que seu governo reconhecerá os resultados da eleição presidencial que se realiza nesse fim-de-semana na Ucrânia. Parece sinalizar considerável concessão que o líder russo faz, para aplacar o regime de Kiev apoiado pelo ocidente [...].

Mesmo assim, parece ser erro tático de Putin concordar com o que faça a operação de mudança de regime patrocinada pelo ocidente na Ucrânia e a campanha terrorista a que o regime está submetendo a população dissidente, e dar uma falsa credibilidade a uma eleição-farsa. Não se aplaca uma fera sem lei, com tapinhas no ombro. A fera sem lei – a Junta em Kiev apoiada por Washington – só entende a linguagem da força. Moscou melhor faria se condenasse aquele regime, como vinha fazendo até recentemente, e a ridícula eleição-farsa que a junta impostora está impondo ao povo ucraniano. Um governo de terroristas não deixa de ser governo de terroristas porque se oferecem algumas poucas urnas ao povo.

Sejam essas críticas fundamentadas ou não, e que Putin (e Xi) sigam visivelmente uma concepção moderada de política, nada disso impediu que se fizesse a aproximação sino-russa; assim sendo, as pressões prosseguirão pelo bloco BAO – o que implica que os dois países (Rússia e China), consequentemente, enfrentarão a necessidade de manter uma linha firme contra o bloco BAO. É uma lógica irresistível, que domina todos os atores, e que, para russos e chineses, os põe, finalmente e decididamente, no campo anti-Sistema.

Xi Jinping e Vladimir Putin em Pequim (maio/2014) - Acordo Santo Graal
Deslegitimação: fecha-se o círculo

Esses vários episódios mostram a grande desordem e a confusão das diversas políticas maquinadas pelo Sistema sapiens [orig. sapiens-Système] com as respostas antissistema que as acompanham e completam, ao final dessa “semana histórica”, “histórica” em sentido corriqueiro e “histórica” também por causa das notícias que saem do front democrático do exercício do direito de votar.

Por enquanto, não nos demoraremos na eleição triunfal do “rei do chocolate”, aplaudido como o salvador-mediador da Ucrânia dividida pela fúria e pela desordem. (Afinal, as notícias sobre o possível envolvimento do presidente checheno e de seus batalhões no caldeirão ucraniano podem revelar-se mais importantes...) Consideraremos aqui, agora, essas sim, a eleição do novo Parlamento Europeu, escrutínio em geral sem sabor nem vigor algum, mas que, dessa vez, toma dimensão extraordinária e inscreve-se sem hesitação nessa “semana histórica”.

Já se conhecem os resultados, e pode-se dizer que já se os conheciam antes, mas ver a coisa, aí, à nossa frente, é enorme choque psicológico. A compreensão do significado dessa eleição europeia vai contribuir um pouco mais a favor da empreitada já bem avançada de deslegitimar os sistemas-governança e sistemas-direção na Europa, e, com eles, a “ideia europeia”.

Enquanto o bloco BAO aí está em todos os cantos, de olho na brecha para ensinar suas surpreendentes lições de governança realista e moralista, mesmo assim ele continua a dissolver-se por dentro. De que valem tantas lições políticas na França e no Reino Unido, com essas eleições que dão o primeiro lugar ao Front National francês (25% dos votos) e ao UK Independence Party [Partido Independente do Reino Unido], UKIP britânico (28%), partidos que se situam necessariamente na lógica anti-Sistema?

Sobretudo a França, com seu sistema presidencial fortemente apoiado sobre a legitimidade, está hoje feito navio sem leme e timão para dirigi-lo, como bandeira sem mastro para içá-la. Há nisso tudo uma bela lógica: a crise da legitimidade francesa é perfeitamente proporcional à impostura das políticas feitas em nome da tal “legitimidade” depois de 2008-2009.

José Bové
Pode-se dizer, como dizia ontem à noite, em tom de lástima, o bravo José Bové, que trocou sua foice de insurgido anti-Sistema pela habitual recuperação-Sistema, que são apenas eleições europeias, “que as pessoas aproveitaram para votar na direita e manifestar sua cólera”. Parece ser bem verdade – embora pouco gentil com a Europa – mas é falar a favor do 25 de maio 2014, e sem avaliar o impacto do “fato democrático”, quer dizer: para ser séria a deslegitimação das autoridades oficiais, ela implica, pelo efeito contrário, a legitimação dos atos anti-Sistema, e seja qual for a via usada para impô-los.

... Mas o essencial, para nosso objetivo, continua a ser conectar esse evento à série que estamos examinando, a partir da reunião de cúpula sino-russa e do caldeirão ucraniano. Pode-se conectá-lo mediante uma observação sobre uma inesperada convergência, que amplia ainda a percepção desse fato maior da deslegitimação no interior do Sistema, essa terrível empreitada de cupins; vale dizer, a convergência entre a fúria popular contra as orientações políticas que as eleições europeias manifestam – o que legitima as eleições, curiosamente, pela via inversa – e a fúria das elites econômicas e investidoras, manifesta à meia-voz por um Reiner Hartmann, contra “essa gente que toma decisões políticas irresponsáveis” que captura as tais elites como reféns e atrapalha seus magníficos negócios russos...

Esses mesmos “irresponsáveis” deslegitimados pela sua base popular, que sofre sem alívio sob os golpes do sistema econômico que o Big Business lhes impõe, Big Business o qual, por sua vez, volta-se contra os “irresponsáveis” que o mesmo Big Business privou de poder político real... Fechou-se o círculo, full circle como dizem os amigos anglo-saxões, fechou-se o círculo das contradições do sistema levadas a um ápice de exacerbação particularmente rico e “federador” de várias crises, ao mesmo tempo crônicas e paroxísticas, segundo o dia, os humores e o gesto político. A infraestrutura crísica funciona que é uma beleza...

Uma escolha espiritual

... Porque, não há dúvidas, tudo está conectado, da aliança apertada e estratégica dos dirigentes ao mesmo tempo dentro do Sistema e anti-Sistema que são Putin e Xi, à estranha convergência da fúria dos oprimidos e dos opressores contra os mesmos “irresponsáveis” dos rumos políticos vítimas das manobras secretas do Sistema ao qual as manobras servem. O Sistema é efetivamente impiedoso. Devora seus filhos, os faz entre-destruirem-se uns os outros; semeia a tempestade e colhe os desastres do dia seguinte, até o ponto de sofrer, o próprio Sistema, em seus fundamentos; ele se autodestrói com a mesma voracidade que aplica a destruir toda e qualquer estrutura que atrapalhe seu caminho.

Nada disso tem qualquer sentido se não se lhe atribui um sentido de autoridade, vestindo o espetáculo dessa imensa desordem que se agarra com furor a quantos nós górdios e a quantas crises haja hoje dessa dimensão metafísica à qual recorremos constantemente, nós também. Ou nada compreendemos, porque nada há a compreender, e então nós balançamos sobre o nada a que fomos conduzidos por nosso niilismo; ou nada compreendemos, porque nosso olhar sempre habituado apenas aos sinais de nossa razão subvertida tampouco tem a necessária acuidade para franquear as dimensões decisivas.

Mais que uma conclamação objetiva da situação do mundo, há aí uma escolha para o espírito. É boa hora para falar do famoso “livre arbítrio” deles – que eles exerçam então o livre arbítrio, pela audácia do pensamento, mais que pelo respeito às encomendas [orig. audace de la pensée plutôt que par respect des consignes]...


[*] Philippe Grasset é argelino emigrado para a França em 1962. Bacharel em  Filosofia, três anos como publicitário e ao final de 1967 mudou-se para Liège (Bélgica), casou-se pela primeira vez (2 filhos 1970/71) e iniciou-se no jornalismo no diário La Meuse - La Lanterne, como cronista de política internacional e de segurança e também como crítico literário; Entre 1978/80 colaborou com publicações internacionais com crônicas sobre assuntos militares e de literatura. Tornou-se jornalista independente em 1985 lançando diversas publicações (Lettre d’Analyse); a editora Euredit SPRL (1987); Context (1994); e o sítio dedefensa.org (1999).

Quatro livros editados (3 ensaios; La drôle de détente em 1978, Le monde malade de l’Amérique em 1999, Chronique de l’ébranlement em 2003; e um romance histórico: Le regard de Iéjov em 1989) além de centenas de artigos.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pepe Escobar − “Ucrânia: O jogo de espera”

13/5/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É “governo” ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

E a suástica adentra ao Parlamento do Banderastão!
Tudo o que há para ver em matéria de mediocridade, nas elites políticas medíocres que supostamente representariam os “valores” da civilização ocidental, apareceu bem claro, à vista de todos, na reação daquelas elites aos referendos em Donetsk e Lugansk.

Os referendos podem ter sido coisa de última hora; podem ter sido organizados na correria; aconteceram no meio de uma guerra civil de facto; e, além do mais, foram realizados sob fogo – fogo, aliás, fartamente fornecido pela junta neofascista neoliberal da OTAN, a qual conseguiu inclusive assassinar alguns votantes em Mariupol. Processo imperfeito? Sim. Mas absolutamente perfeito em termos do que mostrou de um movimento de massas a favor do autogoverno e da independência política em relação a Kiev.

Jen Psaki - Porta-voz
Depto de Estado
Foi democracia direta em ação; não surpreende que o Departamento de Estado dos EUA tenha odiado tudo; e que tenha decidido vingar-se (QUE VERGONHA! Shame on you, US!).

O comparecimento foi gigante. A vitória do voto pela independência, indiscutível. Transparência, também, total: votação à vista de todos, em urnas de vidro, com monitores para acompanhar cada passo do processo, jornalistas ocidentais dos principais veículos alemães, mas também da Kyodo News Agency ou do Washington Post.

O que teria de vir depois que a República Popular de Donetsk se autoproclamou estado soberano e pediu que Moscou considere a integração do país à Federação Russa, não é a secessão, nem guerra civil generalizada, mas uma negociação.

Ficou perfeitamente claro, a partir da reação ponderada, equilibrada, do Kremlin:

Moscou respeita o desejo do povo de Donetsk e Lugansk e espera que a realização prática da decisão alcançada nos referendos seja feita de maneira civilizada.

O tom de cautela refletiu-se também no pedido, que o Kremlin encaminhou, para que a Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), ajude a construir a negociação.

Oleksandr Turchynov
Pois mais uma vez, há prova concreta de que a junta neoliberal neofascista da OTAN não quer negociar coisa alguma. Palhaço, rei da farsa, o presidente “interino” Oleksandr Turchynov rotulou  que o exercício da democracia direta teria sido aquela “farsa que os terroristas chamam de referendo”. E Washington e Bruxelas decidiram que os referendos teriam sido “ilegais”.

E tudo isso depois do massacre de Odessa; depois do surgimento de paramilitares neonazistas travestidos como soldados de uma “Guarda Nacional” (que os sabujos da imprensa-empresa norte-americana chamam de “nacionalistas ucranianos”); dúzias de agentes da CIA e do FBI agindo em território estrangeiro; mais de 300 dos inevitáveis mercenários da empresa Academi – ex-Blackwater. E o que mais esperar, se o atual secretário de Segurança Nacional ucraniano é o neonazista Andriy Parubiy, ex-comandante das “forças de defesa” de Maidan, e chefe de torcida de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas na IIª Guerra Mundial?!

Ex-Ucrânia com o  Banderastão (em vermelho)
O Banderastão – com seu remix dos esquadrões da morte à moda América Central dos anos 1980s – não reconhece referendos: prefere queimar vivos os “insetos” russos étnicos que se atrevam a ocupar prédios.

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É ‘governo’ ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

“Dever/Responsabilidade de Proteger”, R2P? Alguém se interessa?

O Império do Caos deseja – e o que mais desejaria? – caos e mais caos. Agora, o Império do Caos está apoiando descaradamente o “emprego do exército contra o próprio povo”; foi frase e ação absolutamente verboten – castigáveis com bombas da OTAN, ou ataques de jihadistas armados pela OTAN – na Líbia e na Síria. Mas agora, na Ucrânia, é perfeitamente normal.

Samantha Power
Na Líbia e na Síria – tentaram três vezes na ONU –  seria pretexto perfeito para R2P [Responsabilidade/dever de Proteger]. Mas na Ucrânia, agora, os “terroristas” – até a terminologia é a mesma dos idos de Dábliu-Bush – são a própria população; e os “mocinhos” são milicianos neonazistas de Kiev armados com correntes e metralhadoras.

A embaixadora dos EUA à ONU e chefe da torcida pró “R2P”, Samantha Power ultrapassou todos os níveis prévios de loucura-desatino, quando declarou que:  

(...) o massacre de civis pela junta neonazista da OTAN teria sido “razoável” e “proporcional”, acrescentando que “qualquer dos nossos países” teria feito o mesmo, ante tal nível de ameaça.

Berlin, por sua vez, tenta seguir a via diplomática, embora haja clara divisão entre os Atlanticistas linha dura e os capitães de indústria alemães – que já perceberam que Washington não terá meias medidas, e está decidida a destruir a sinergia econômica russo-alemã. O Império do Caos visa a erguer um muro entre aquelas duas metades, que se manifestaria, na prática, numa “invasão” russa. É verdade que Moscou poderia facilmente dar uma “de Samantha” e invocar o Dever/Responsabilidade de Proteger russos e russófonos na Ucrânia. Mas Putin é mestre de xadrez e absolutamente não cometerá a estupidez de inventar um novo Afeganistão bem ali, em suas fronteiras do oeste.

Quanto a Berlin, só a economia interessa. A Alemanha crescerá, no máximo, 1,9% em 2014. Com 6.200 empresas alemãs na Rússia e mais de 300 mil empregos alemães dependendo do comércio recíproco, as sanções à moda dos EUA são muito contraproducentes, embora a russofobia e a histeria da Guerra Fria 2.0 continue rampante, em certo sentido.

Vladimir Putin escrevendo...
Paris, por exemplo, já entendeu o recado. O contrato de US$1,66 bilhão, para vender dois porta-helicópteros classe Mistral à Rússia prosseguirá vigente, depois que diplomatas franceses admitiram que o cancelamento – em termos de penalidades e postos de trabalho cancelados – feriria muito mais gravemente a França, que a Rússia.

Há cerca de um mês, dia 10/4/2014, Putin escreveu carta crucialmente importante a 18 chefes de estado (cinco deles fora da União Europeia), cujos países importam gás russo através da Ucrânia. Foi mais do que claríssimo: Moscou não pode continuar a financiar sozinha toda a economia ucraniana, já praticamente em bancarrota. Entre descontos e mais descontos, e perdoando multas e mais multas, desde 2009 Moscou subsidia Kiev, uma conta que já alcança espantosíssimos US$35,4 bilhões. Os europeus, Putin escreveu, também têm de pôr dinheiro sobre a mesa.

José Manuel Barroso
Aquela espetacular, invencível nulidade & presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso, embora concorde que algum diálogo seria necessário, respondeu que a nova “regra” que a Gazprom estaria “implantando”, de só liberar gás para ser bombeado pela Ucrânia se o pedido for pago antecipadamente, era “preocupante”. Como se qualquer grande empresa europeia de energia estivesse disposta a perdoar credores que não paguem as contas!

Uma Ucrânia neutra, finlandizada, poria fim, com sentido positivo, à atual confusão. É questão, só, de esperar que a junta neofascista neoliberal da OTAN acabe de fracassar, e que vá prô inferno.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.