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quinta-feira, 24 de março de 2011

OTAN: a um passo de cruzar o Mediterrâneo e invadir a África

Mas... sem autorização da ONU?!

Emb. M. K. Bhadrakumar
24/3/2011, M.K. Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Para quem observe a guerra da Líbia, com olhos para os desenvolvimentos diplomáticos, 22/3/2011 é data histórica. Presidentes de EUA, Grã-Bretanha e França, reunidos em teleconferência, aprovaram que o comando das operações na Líbia – Operação Alvorada da Odisséia – seja entregue à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). 

O vice-secretário conselheiro de segurança nacional para comunicações estratégicas, Ben Rhodes, anunciou:

“Os líderes [Barack Obama, David Cameron e Nikolas Sarkozy] decidiram que a OTAN deve desempenhar papel-chave na estrutura de comando que, doravante, se encarregará da implantação da no-fly zone”.

Separadamente, a chefe da política externa da União Europeia Catherine Ashton, confirmou: a OTAN assumirá o comando geral das operações. O secretário-geral da OTAN general Anders Rasmussen também disse que a aliança concluiu o planejamento e está pronta para assumir o comando da Operação Alvorada da Odisseia. 

Tudo isso, sem dúvida alguma, é momento de alteração histórica, verdadeiro marco de transformação de todo o sistema internacional na era pós-guerra-fria. 

A decisão de que a OTAN assumirá o comando da Operação Alvorada da Odisseia foi tomada por menos de meia dúzia de potências ocidentais. A ONU aprovou uma resolução [R-1.973] proposta por França e Grã-Bretanha, que autoriza que se tomem “todas as medidas possíveis” para proteger a vida de civis na Líbia e impor uma no-fly zone e um embargo, mas deixou aberta a decisão sobre quem implementaria a resolução e quais as modalidades de implementação que se admitem. Em outras palavras, menos de meia dúzia de potências ocidentais iniciaram moto suo a aplicação da R-1.973 conforme interpretação unilateral, que só elas mesmas construíram, de um mandato da ONU. Ignoraram protestos de vários cantos do mundo, inclusive a possibilidade de veto de dois estados representados no Conselho de Segurança da ONU. 

E, agora, se preparam para fazer ainda mais: decididram que a Operação Aurora da Odisseia será posta sob comando da OTAN. 

Em resumo, assistimos à primeira vez, desde que o sistema da ONU foi inventado, decisão de entregar à OTAN o comando de operação militar, como se fosse organização global credenciada para atuar em questões globais de segurança, e sem mandato específico da ONU. [No Afeganistão, as Forças Internacionais de Segurança, ISAF, têm mandado específico da ONU, periodicamente renovado conforme aconselhe o Conselho de Segurança, baseado em recomendações da secretaria-geral da ONU.] 

A menos que, na reunião de 5ª-feira (23/3) do CSONU, alguém requeira e obtenha autorização específica para essa ação da OTAN, está criado um precedente imensamente significativo e importante para o funcionamento futuro do sistema internacional para o século 21. 

Depois de a R-1.073 estar aprovada, o secretário de Defesa dos EUA correu à Rússia e lá encontrou o que se sabia que encontraria: dificuldades. 

Ainda não há informações confiáveis sobre o que (re)aconteceu na reunião altamente secreta entre o presidente russo Dmitry Medvedev e Gates, na dacha do líder russo em Gorky, 3ª-feira à noite. A Rússia permitirá que a OTAN invada a África e o Oriente Médio, como provedora de segurança regional? É preciso esperar para saber. Até agora, Moscou resistiu tenazmente à presença da OTAN no espaço pós-soviético.

É verdade que a diplomacia internacional muitas vezes é opaca. Ted Carpenter, Vice-Presidente de um influente think-tank com sede em Washington – o Cato Institute -- entende que Washington está disposta a fazer grandes concessões à Rússia (sobre mísseis de defesa, expansão da OTAN, a Ucrânia, a Rússia, a admissão da Rússia como membro da Organização Mundial do Comércio etc.] e a Pequim [sobre vendas de armas a Taiwan e a questão de direitos humanos no Tibete, a Coreia do Norte etc.], como “recompensa” em troca de as duas potências não vetarem a agenda dos EUA para a Líbia.

À primeira vista, Carpenter pode estar especulando; é homem de extrema direita. Mas o Cato Institute é especializado em estudos sobre as políticas dos EUA para a Rússia. Seja como for, devem-se esperar esclarecimentos da sessão da 5a-feira (24/3) do Conselho de Segurança da ONU para discutir a Líbia (que Trípoli requereu). 

A grande questão é como decidirão sobre o terrível precedente que já está criado pela R-1.973.

Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

domingo, 20 de março de 2011

O ocaso da Odisséia

21/3/2011, Beppe Grillo’s Blog 
 Odyssey Sunset  
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Caros jornalistas e políticos, por favor, não acreditem nos italianos.

Não há nada de humanitário no que estão fazendo: são atos de guerra. Guerra suja por energia, petróleo, gás. A França, que depois de Fukushima já não tem futuro nuclear, precisa de gás e petróleo. 

Pelo menos desde o tempo do massacre de Ustica [1], França e Itália lutam pelo controle do petróleo da Líbia, quando os céus da Itália viraram teatro da guerra com a França, aviões italianos e Gaddafi, que estava apresente e safou-se por um fio. Gaddafi foi apoiado pelos italianos nos anos 70s, for armado pelos italianos. Parte do exército da Líbia foi treinado na Itália em troca de relações privilegiadas para comprarmos gás e petróleo.

A seguir, os primeiros mísseis Tomahawk disparados contra a Líbia: !9/3/2011


Essa é guerra ensandecida que os europeus não desejam. Do modo como os italianos foram informados, não passaria de notícia de rodapé nos noticiários, como uma partida de futebol. China e Rússia são contra os ataques. A Alemanha absteve-se no CSONU e a União Africana rejeitou “qualquer tipo de intervenção estrangeira na Líbia, seja de que tipo for.” O presidente da Mauritânia Abdel Aziz disse bem claramente: “é crise gravíssima que se abate sobre um país irmão e que exige solução africana”. O presidente Aziz disse também que “nenhum representante da União Africana participou do encontro internacional sobre a Líbia, em Paris”. 

O CSONU aprovou “uma zona aérea de exclusão”. Não aprovou bombardeio que reduzisse a Líbia a ruínas. Centenas de mísseis disparados por EUA e britânicos contra “alvos”, numa operação batizada de “Alvorada da Odisseia”. 

Linguagem de videogame. Não é alvorada. É ocaso: o ocaso da odisséia.

Há hoje mais civis mortos pelas mãos de Obama, Cameron e Sarkozy ou em Benghazi que mortos pelas mãos de Gaddafi. Talvez os líbios mortos por mãos líbias valham, cada morto, duas mortes? 

O art. 11 da constituição da Itália diz que “a Itália rejeita a guerra como instrumento de agressão contra as liberdades de outros povos e também como meio para resolver controvérsias internacionais (...).”  Por que os partidos políticos não estão nas ruas, brandindo a Constituição, contra a guerra?

Estamos bombardeando uma nação muçulmana africana. Nenhuma nação, nem muçulmana nem africana participa do ataque “internacional” das potências ocidentais, ao lado dos “cruzados”, como Gaddafi os chama.

A Arábia Saudita invadiu o Bahrain, agitado por manifestações populares contra a ditadura. Quando começará o ataque dos “cruzados” contra os ditadores-xeiques? 

Gaza foi convertida em cemitério. Ninguém considerou necessária qualquer intervenção humanitária. A Itália é um porta-aviões cercado de navios canadenses, americanos e britânicos que entram e saem de nossos portos. Com que direito? Somos país de soberania limitadas, mas o que está acontecendo é demais. 

Fora! Fora da Itália as bases dos EUA, antes que seja tarde demais! O que sabemos sobre os rebeldes de Benghazi? Opõem-se a Gaddafi por quê? Por razões democráticas, tribais, econômicas ou religiosas? Propõem o quê, para a Líbia? Nada sabemos. Nada. 

Qualquer um aí, que precise de petróleo, que lance o primeiro Tomahawk, para carregar a responsabilidade do ataque. Em seguida os EUA lançaram 110 Tomahawks, para completar o serviço.




Nota de tradução
[1] Sobre o conflito entre Itália e França pelo controle dos recursos energéticos no norte da África. Segundo Priore e Fasanella (autores do livro Intrigo internazionale), esse seria o pano de fundo do massacre de Ustica.  Um avião italiano de passageiros explodiu, em circunstâncias jamais esclarecidas, sobre a cidade de Ustica, dia 27/6/1980. Suspeita-se de que tenha sido abatido por um caça francês. Em 2008, a Itália reabriu as investigações sobre o caso (TG2 Punto di vista, 17/5/2010).

quarta-feira, 16 de março de 2011

Líbios e o xeque do Bahrain: “rock’n roll” de sabres

Pepe Escobar

17/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ocidente “ilustrado” acaba de enviar mensagem ao povo líbio rebelde: as forças de Muammar Gaddafi terão de acabar com a raça de vocês, num mar de sangue, antes que o pessoal aqui decida alguma coisa. E mesmo que decidamos, será tarde demais. Desculpem. Foi mau. 

Quanto ao rei dos reis, teve de aumentar o gás para tomar aqueles pilares da inércia burocrática – a ONU, a União Europeia, a Liga Árabe; agora, está em marcha batida, depois de Ajdabiya já ter praticamente caído, apenas a 150 quilômetros de Benghazi, numa estrada de deserto praticamente vazia. O leste libertado da Líbia está batido, sovado e enrolado, assando, com sabre e tudo. 

Gaddafi disse que o ocidente blefava – e está ganhando a aposta. Riu do fracasso abjeto anglo-francês, que não conseguiu impor qualquer zona “no-fly” (não que a coisa o preocupasse; Gaddafi sempre preferiu artilharia pesada e tanques). Viu a inércia da Casa Branca, quando a Casa de Saud reprimiu com selvageria o “Dia de Fúria” na 6ª-feira. Registrou o silêncio da Casa Branca, quando a Arábia Saudita invadiu o Bahrain na 2ª. 

Viu logo o quanto, para Washington, é impensável qualquer mudança de regime tanto no Bahrain quanto na Arábia Saudita. E, por mais que o ocidente deseje mudança de regime na Líbia – concluiu ele –, nada arriscarão para consegui-lo. Deve ter dado uma espiada no índice democrático da Unidade de Inteligência de The Economist e lá viu que a Líbia aparece no 158º lugar, e a Arábia Saudita, no 160º. Estamos empatados – deve ter pensado: os dois temos petróleo e nem um nem outro deixaremos cair a peteca. 

Na Líbia e no Bahrain, a grande revolta árabe de 2011 parece ter chegado à linha vermelha: aqui, toda e qualquer mudança de regime pára – a Casa de Saud fica com o primeiro lugar no topo da pirâmide das ditaduras árabes, seguida pelos asseclas, os reinos e sheikados do Golfo. 

A cereja do bolo da hipocrisia é que, semana passada, os ministros de Relações Exteriores dos países do Conselho de Cooperação do Golfo declararam que o regime de Gaddafi ter-se-ia tornado “ilegítimo”. Conclamaram a Liga Árabe a “assumir suas responsabilidades e tomar as necessárias medidas para conter o banho de sangue na Líbia” – já depois de a máquina de repressão do Bahrain ter assassinado cidadãos desarmados e de a Arábia Saudita ter ameaçado fazer o mesmo. 

E que ninguém espere qualquer socorro da al-Jazeera do Qatar: a cobertura é abertamente favorável à invasão do Bahrain pelos sauditas, depois de a rede ter praticamente ignorado uma semana de protestos. Chame a coisa de “esprit de corps” de todos os membros do GCC. O rei Hamad al-Khalifa do Bahrain já implantou três meses de estado de emergência – os apoiadores insistem em não chamar de lei marcial – e autorizou os comandantes de suas forças armadas a fazer o que lhes pareça necessário para calar os protestos, podendo, inclusive, assassinar o próprio povo. 

Atenção às linhas vermelhas 

Os oficiais militares de Gaddafi também já viram de que lado continuam a soprar os ventos repressivos do deserto: bombardeio intenso e artilharia pesada os empurrarão até a terra prometida (recapturada). Por seu lado, o principal comandante militar rebelde o general Abdel Fattah Younis, ex-ministro do Interior de Gaddafi, que já tem a cabeça a prêmio (4 milhões de dólares), apostou a fazenda em que seus rastreadores localizariam as posições da artilharia e dos tanques de Gaddafi e fariam o serviço de sabotagem. Não funcionou. Recuou a linha vermelha em Adjabiya; a linha caiu no prmeiro dia. Só lhe resta defender-se desesperadamente, corpo a corpo, rua a rua – mas Gaddafi não desperdiçará infantaria: sua estratégia é bombardeio incansável até o juízo final. 

A Batalha de Benghazi é a última frente dos rebeldes. Como a estrada do mar se bifurca em Ajdabiya, a máquina de Gaddafi contornará Benghazi, tomará as cidades do leste, junto à fronteira do Egito, e dali sitiará Benghazi pelos dois lados. Há rios de sangue no horizonte. 

A história talvez comprove, em breve, que a Casa Branca conseguiu neutralizar o jogo duplo anglo-francês – explicitamente –, de nada fazer sobre a Líbia. Gaddafi foi “terrorista”, passou ao estágio de “o nosso filho-da-puta”, agora é “um bandido”, mas é bandido que Washington conhece. Desde o início, Washington temeu um pós-Gaddafi com tintas de islamismo. Pouco importa que o governo provisório de Benghazi tenha-se revelado tribal e nacionalista. Esperto, Gaddafi investiu na versão de rebelião conduzida pela al-Qaeda porque sabia que acreditariam. Como acreditaram. 

No final, o ocidente sequer ficará com o petróleo. Gaddafi acaba de dizer à TV alemã que as empresas ocidentais – exceto as alemãs (porque a Alemanha votou contra a zona de exclusão aérea) – podem dar adeus aos anos de bonança movida a petróleo líbio. “Não confiamos naquelas empresas. Conspiraram contra nós. Nosso petróleo agora irá para os russos, os chineses, os indianos.” Em outras palavras: para os BRICSs. 

Sejamos justos: ao presidente Barack Obama dos EUA só restou a fantasia de múmia. Depois da orgia de hegemonia preventiva, unilateral, dos neoconservadores à Bush, Obama já não tinha cacife para mais uma invasão imperialista de país muçulmano. Especialmente porque a Casa Branca deve ter percebido que o capital moral dos EUA no mundo árabe já é virtualmente igual a zero. 

Sobretudo, a Casa Branca aprendeu que a China – para nem falar dos demais BRICSs – era e continua a ser contra qualquer intervenção. A China tem imensos interesses na África e não quer sacudir o bote. E, além de tudo, com déficit de um trilhão de dólares, ninguém pode meter-se em traquinagens de zonas “no-fly”: os seus eleitores, sem tostão, entendem que deveriam ser eles o objeto de socorro humanitário, não os remotos líbios. 

O futuro é sombrio. Não haverá mudança de regime. Em vez disso, haverá um tsunami de sangue. A cavalaria norte-americana não aparecerá. E todos assistiremos às imagens da al-Jazeera como ovelhas silenciosas.

domingo, 13 de março de 2011

Líbia: o que Obama e a OTAN temem?

Marwan Bishara

Three questions to Marwan Bishara – Entrevista, 12/3/2011, Al-Jazeera, Qatar
“Três perguntas para Marwan Bishara”
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Al-Jazeera: Os ministros da Defesa dos países da OTAN reuniram-se na 5ª-feira, mas não decidiram ainda o que fazer sobre a Líbia. O senhor entrevistou Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN. O que dizem por lá?

Marwan Bishara: O secretário-geral da OTAN dedicou-se aplicadamente a nada dizer e nada desmentir. Foi extremamente cauteloso e não se comprometeu. De fato, não disse coisa alguma. 

A OTAN está dividida entre os que, como a Grã-Bretanha, querem ação imediata; e os que, como a Itália, temem que qualquer envolvimento da OTAN na região comprometa ainda mais o já complicado relacionamento nacional de cada um, com a Líbia. E há outras divisões como, por exemplo, a que separa Turquia e EUA, sobre a natureza e o papel da OTAN no Oriente Médio, com ou sem intervenção na Líbia.

Seja como for, todos concordam que (1) em nenhum caso, por hora, a ação da OTAN deve ser maior que a implantação de uma zona aérea de exclusão [NFZ, No-Fly Zone] e que (2) a NFZ só será possível se se cumprirem três exigências: (a) aprova-se outra Resolução do Conselho de Segurança, que amplie a Resolução 1.970; (b) a OTAN obtém apoio dos países da região para qualquer ação; e (c) a ação só será considerada se houver escalada muito forte da violência contra a população civil líbia. 

Antes da reunião da OTAN marcada para a próxima 3ª-feira para discutir a situação da Líbia, EUA e Europa já pediram a renúncia de Gaddafi, enquanto todos esperam os acontecimentos em três frentes: na ONU, na Liga Árabe e na União Africana.
A OTAN está monitorando a situação na Líbia, mas quais são as opções?
Al-Jazeera: Uma zona aérea de exclusão imposta pela OTAN pode levar a reação ainda mais violenta?

Marwan Bishara: Há riscos em qualquer campanha militar de longo termo, expansiva, coordenada pela OTAN contra país árabe. A OTAN perdeu toda a credibilidade e está muito fortemente desmoralizada aos olhos da rua árabe. Há determinados riscos em qualquer campanha militar de longo prazo, sempre dispendiosas, contra país árabe; e há riscos específicos, se a campanha militar for conduzido pela OTAN, que perdeu credibilidade aos olhos dos árabes, depois das guerras do Iraque e Afeganistão. As potências ocidentais sabem que estão numa posição precária: se invadirem ficam mal, se não invadirem, também ficam mal.

Além do mais, as três últimas zonas aéreas de exclusão implantadas sob comando da OTAN – no Iraque em 1991-1993, na Bósnia em 1993 e no Kosovo em 1999 – foram campanhas militares gigantescas, massivas, complexas, de alto custo, e que, bem feitas as contas, não alcançaram os objetivos declarados nem evitaram qualquer escalada da violência contra civis. A zona aérea de exclusão da OTAN, operação militar liderada pelos EUA no Kosovo, exigiu 38 mil ações militares, ao longo de 78 dias. 

Simultaneamente, ainda não se sabe se Rússia e China, membros com poder de veto, aprovarão nova Resolução da ONU, nas atuais circunstâncias, sobretudo agora, que as forças leais a Gaddafi recuperaram posições no oeste do país. 

Sem Resolução do Conselho de Segurança da ONU, alguma nova “coalizão de vontades” – quer dizer, campanha militar de exércitos do ocidente não autorizada pela ONU – pode implicar escalada ainda maior na guerra e erros muito graves, que podem levar a manifestações populares ainda maiores no Oriente Médio, sobretudo na Líbia. 

Al-Jazeera: Isso explica a hesitação na OTAN?

Marwan Bishara: Em boa medida, sim. As potências reunidas na OTAN temem que qualquer envolvimento militar amplo resulte em desastre ainda maior para o ocidente. 

Eles não estão muito seguros quando à escala e os riscos de uma zona aérea de exclusão, em termos gerais. Além disso, os países reunidos na OTAN têm diferentes prioridades nacionais em relação à Líbia, e ideias diferentes sobre o uso direto da força na região árabe.

Os EUA falaram em termos genéricos sobre uma zona aérea de exclusão, a qual, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, seria operação complexa, que implicaria manter sob bombardeio cerrado as defesas aéreas e o comando das comunicações. Tudo isso gera altos riscos e abre a possibilidade de escalada no plano militar. E Gates não é o único que está muito preocupado. 

Todo o governo Obama teme tomar decisões que, adiante, empurrem os exércitos norte-americanos ainda mais para o fundo da areia movediça que é o mundo árabe. A Casa Branca parece ter concluído que é mais interessante, do ponto de vista dos interesses dos EUA, não se aproximar muito das revoltas árabes. Estão analisando as coisas caso a caso, em termos de custos/benefícios diretos. Apoiar o rei-ditador no Bahrain, congratular-se com os revoltosos no Egito e na Tunísia e ganhar tempo no caso da Líbia são movimentos ‘normais’, do ponto de vista da nova abordagem “pragmática” que o governo Obama tenta adotar para a Região.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Por que a zona “no-fly” não decolará

Pepe Escobar

11/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ninguém sobrevive 41 anos no poder, sem aprender um ou dois truquezinhos de geopolítica. Raposa velha e sabida, o rei dos reis africanos Muammar Gaddafi parece ter estudado atentamente o tabuleiro de xadrez. E chegou a conclusão absolutamente definitiva: a tal zona no-fly [zona aérea de exclusão] não decola – invadirem a Líbia, então, é nunca! – do Conselho de Segurança da ONU. 

Como se leu ontem no Asia Times Online (em português, no blog redeastorphoto, “Brasil-Índia-África do Sul já viram que a revolta árabe obriga a remodelar a ordem mundial”), três países do grupo BRICS de emergentes – Brasil, Índia e África do Sul – já trataram de torpedear totalmente a opção “zona aérea de exclusão”. Os três são membros não permanentes do Conselho de Segurança. E os outros dois BRICSs – Rússia e China – são membros permanentes. Já há algum tempo, os BRICS têm coordenado suas decisões cruciais. No plano do ministério de Relações Exteriores, a Rússia, semana passada, já detonara a ideia da no-fly zone; e a China fez o mesmo, essa semana. Não bastasse, há também o Líbano – mais um membro não permanente do Conselho de Segurança. Com isso, são seis votos “não”. Que ninguém se engane: Gaddafi tem pedras na manga. 

De fato, nem o governo do presidente Barack Obama está explicitamente apoiando a opção “zona aérea de exclusão”. O chefe do Pentágono Robert Gates – mesmo contando com dois porta-aviões e 175 aviões da 6ª Frota dos EUA atracada em Nápoles, Itália – já disse, claramente, que o assunto é sério e que significa guerra, quer dizer, todos os riscos imagináveis de escalada plus todas as consequências não desejadas (lembrem da Bósnia). 

Os que apoiam a zona aérea de exclusão formam catálogo bem pouco confiável: as ex-potências coloniais africanas França e Grã-Bretanha; os neoconservadores nos EUA; e os seis países membros do Conselho de Cooperação do Golfo [orig. Gulf Cooperation Council (GCC)] – entre os quais o Bahrain (que já usou repressão letal contra manifestantes de oposição), a Arábia Saudita (que provavelmente fará a mesma coisa amanhã, nas manifestações marcadas pra o “Dia de Fúria” também por lá), Omã (que também provavelmente também fará, se os protestos continuarem) e o Qatar (cujas manifestações não estão sendo adequadamente divulgadas pela rede Al-Jazeera, mas cujo povo tem as mesmas aspirações democráticas que se veem nas ruas dos demais países membros do GCC). 

Ekmeleddin Ihsanoglu, secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica [orig. Organization of the Islamic Conference (OIC)], que reúne 57 países, também apoia a zona aérea de exclusão (mas a OIC ainda não tem posição oficial). O mesmo vale para a desfibrada e desdentada Liga Árabe; o GCC convocou reunião para discutir o tema. Quanto à União Europeia [orig. European Union (EU)], até o final da semana talvez tenham alguma posição firmada, mas não aposte nisso o seu filé & fritas. 

Até os movimentos da parte leste, libertada, da Líbia, estão confusos. Uns líderes do governo provisório em Benghazi querem, outros não (e boa massa de rebeldes). Não há qualquer indício de que o governo de Obama esteja sequer tentando, pelo menos, informalmente que seja, pesquisar as opiniões dos que estão lutando (e morrendo) nos combates, nem em inglês nem em árabe. 

Fale com a cadeira (o homem é surdo)

Enquanto isso, Gaddafi joga competentemente com o coringa al-Qaeda – do tipo “sem mim, o ocidente logo enfrentará a linha de montagem do califato islâmico, fazendo jorrar milhares de jihadistas para o outro lado do Mediterrâneo”. O pessoal que compra a retórica que Gaddafi vende é, claro, a extrema-direita e os fanáticos criptofascistas nos EUA e também em Israel. Dos islamófobos na Alemanha e Escandinávia, à nova queridinha da política francesa Marine Le Pen – filha que faz o gênero “comigo-é-sem-conversa-mole” do fundador da Frente Nacional, Jean Marie Le Pen – todos, em silêncio, festejarão a brilhante esperteza geoestratégica do Bom Coronel Gaddafi. 

Gaddafi jogou outra jogada esperta: mandou um enviado conversar com o Conselho Supremo do Exército Egípcio. A mensagem é clara: a tribo Awlad Ali – que controla a cidade de Salloum, no lado egípcio da fronteira com a Líbia – está fornecendo de tudo, comida e armas, aos rebeldes do leste liberado da Líbia. Gaddafi quer que suspendam o fornecimento. Gaddafi jogou. Não sabe, mas logo saberá, o que pensam os egípcios do exército-da-transição – e Omar “al-Tortura” Suleiman desapareceu das telas de televisão. 

Quem assista à cobertura pela rede al-Jazeera já sabe que os rebeldes são jovens esfarrapados e desorganizados e desempregados, todos comprometidos e engajados com muita paixão e coragem mas nenhum planejamento tático/estratégico, no que o Guardian de Londres bem descreveu como “drive-in war” [aproximadamente, “venha-e-entre-na-guerra” (NTs)]. Muitos desses jovens são da tribo Zintan. 

Por tudo isso, não surpreende que a fala de Gaddafi pela televisão, na madrugada da 4ª-feira, tenha sido dirigida a um público jovem de Zintan (nem havia muitos, nem pareciam muito interessados). O núcleo da retórica de Gaddafi é que todas as notícias que chegam da Líbia libertada trazem marcas da terminologia típica da al-Qaeda; e falou longamente sobre um Líbia unida e o povo, que deseja democracia. 

Argumento-chave dos que defendem a implantação na Líbia de uma zona aérea de exclusão, é que se “nós” – o ocidente civilizado – não interviermos na Líbia, o país decairá até o caos que se vê na Somália. Portanto, é útil sabem o que de fato está acontecendo na Somália. 

A Somália é crucialmente estratégica, em frente ao Iêmen, no Golfo de Aden, praticamente vizinho de porta dos países do GCC. Todos e mais alguém intervêm na Somália – da al-Qaeda à Etiópia, do Sudão às ‘organizações de caridade’ com base nos países do GCC. 

A União Africana [ing. African Union (AU)] assustou-se de verdade ante o perigo de Líbia e Egito suspenderem o financiamento de suas operações: por isso, os 8 mil ditos ‘pacificadores’ da AU (do Burungi e de Uganda) atacaram a al-Shabaab, uma coalizão somaliana apoiada por uma ala de jihadistas ligados a Osama bin Laden que controla boa parte do centro e sul da Somália, inclusive áreas chaves da capital Mogadishu. 

Ninguém sabe como acabará esse negócio de soldados ‘de paz’ apoiados pela ONU atacarem uma milícia islâmica. Mas Gaddafi com certeza usará qualquer coisa que aconteça como moeda para barganhar com a AU: alguma coisa como “se querem ver a cor do meu dinheiro e da minha ajuda, nem pensem em apoiar alguma zona no-fly”.

Eis como o rei dos reis da África interpreta o que se lê nas paredes da ONU: a zona aérea de exclusão, mesmo que venha a ser aprovada, será inócua – porque Gaddafi tem helicópteros armados com metralhadoras, tanques e poder de fogo superior. Gaddafi sabe que contingentes que venham para implantar a zona de exclusão aérea não podem invadir a Líbia – porque, se invadirem, o próprio Gaddafi se encarregará de demonstrar que, depois do Afeganistão e do Iraque, é a vez da Líbia ser destruída pela cruzada do homem branco que quer destruir o Islã (e roubar o petróleo local). 

Se a Arábia Saudita armar os rebeldes – como armou, nos anos 1980s, os “combatentes da liberdade” afegãos –, as armas podem ser capturadas pelo pessoal da al-Qaeda infiltrado em todos os grupos, e Gaddafi vence a guerra pela opinião pública. A CIA sempre pode subornar um dos generais de Gaddafi – ou, mesmo, um dos filhos dele. Afinal, o filho Mutassim já tentou um golpe para derrubar o pai. E alguém sempre pode recorrer à proverbial bala na nuca. Em todos esses casos, só Alá, para saber que tipo de doido substituirá Gaddafi. 

Não surpreende que o rei dos reis mostre-se tão relaxado e à vontade em suas vestes reais castanho-douradas. No que lhe diga respeito, é só questão de tempo e o jogo (encharcado em sangue) está ganho.