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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eleições no Irã – “Rouhani: tempo passado e consenso”

17/6/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online  - IRANIAN ELECTION
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente eleito da República Islâmica do Irã
Há confusão à vista, depois de uma semana de insistente propaganda segundo a qual o presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani, seria “reformista”. Rouhani, “reformista”?! E por qual outro motivo Mohammed Khatami, ex-presidente reformista do Irã, apoiaria sua candidatura? Seria portanto protegido de Khatami?

Aiatolá Ruhollah
Khomeini
Tudo isso é forçar o argumento. Rouhani tem o título honorário de Hojatoleslam, que significa “autoridade em Islã”. É homem do establishment político e religioso iraniano, e há décadas é membro dos dois mais altos corpos diretivos, intimamente associados ao crème de la crème do regime – a Assembleia dos Especialistas e o Conselho de Discernimento. E também presidiu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, de 1989 a 2005.

A carreira política de Rouhani começou no período pré-revolucionário. Foi seguidor ardente e apaixonado do Imã Khomeini – de fato, leva o crédito de ter sido o primeiro a chamar Ruhollah Khomeini de “Imã”, o primeiro Supremo Líder do Irã.

O ardor revolucionário de Rouhani como jovem clérigo chamou rapidamente a atenção de Khomeini. Foi membro do Parlamento (Majlis) iraniano desde o início em 1980 até 2000. Foi vice-presidente do Parlamento, na presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani no mesmo mandato. Quando Rafsanjani tornou-se presidente em 1989, levou Rouhani para o Conselho de Segurança. Rafsanjani também introduziu Rouhani no Conselho de Discernimento em 1991, em momento em que o presidente estava no auge de seu poder político.

Mohammed Khatami
Ao mesmo tempo, em 1992, Rafsanjani pôs Rouhani na presidência do Centro para Pesquisa Estratégica, um think tank que tem papel seminal na construção das políticas de segurança e de relações exteriores e nos serviços do Conselho de Discernimento.

Rouhani foi eleito para a Assembleia dos Especialistas em 2000 – com Rafsanjani, que já deixara a presidência. (Rafsanjani tornou-se vice-presidente da Assembleia dos Especialistas e, de 2007 a 2011, ocupou a presidência).

Aliás, Rouhani ainda é membro da Assembleia dos Especialistas e do Conselho de Discernimento, além do Conselho de Segurança.

Assim, o que emerge é que o povo iraniano elegeu, em eleições justas e limpas, com comparecimento às urnas de mais de 70% dos eleitores, e no primeiro turno, com maioria absoluta de 50,7%, um candidato que interessa ao establishment religioso, com impecável currículo de revolucionário, que goza de total confiança do Supremo Líder e que, pode-se dizer, controla as várias facções dentro do governo.

Akbar Hashemi
Rafsanjani
Rouhani só se tornou um grande “conciliador-curador” depois da presidência de Mahmud Ahmadinejad, de contestação e disputa contra o establishment religioso. Rafsanjani promoveu sua carreira, mas Rouhani manteve a confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei mesmo depois que começaram a aparecer divergências entre os dois velhos combatentes, e, evidentemente, há vastas afinidades intelectuais e políticas também com Khatami.

Rouhani é, sem dúvida, político muito bem dotado, que se adapta bem às circunstâncias mutáveis da revolução islâmica. Esse traço permitiu-lhe manter-se na posição chave de conselheiro de segurança em dois governos, de Rafsanjani e de Khatami, sem perder, durante décadas, a posição de membro do Conselho de Discernimento e da Assembleia de Especialistas.

Do ponto de vista do regime, Rouhani fez a ponte entre as presidências de Rafsanjani e de Khatami. Obviamente, era figura “grande” demais para trabalhar sob ordens de Ahmadinejad; e optou por converter-se, naquele momento, em conselheiro de Khamenei e seu representante no Conselho de Segurança.

Eleito para unir o país

Mahmud Ahmadinejad
O que explica a fácil eleição de Rouhani? Primeiro, é mandato no qual se integram todas as faces da sociedade iraniana – urbana e rural, classe média e intelectuais, clérigos, o bazaar... Foi eleito, porque encarna a solidariedade nacional, num momento em que o país enfrenta terríveis ameaças externas e internas, e qualquer desunião, fragmentação ou polarização só faria aumentar os perigos.

Para os eleitores iranianos, o papel principal do presidente sempre foi administrar a economia. Também a eleição de Ahmadinejad foi baseada em sua promessa de “trazer os ganhos do petróleo para a mesa do jantar”. O povo manifestou a própria angústia ante as dificuldades econômicas – principalmente a inflação alta e o desemprego; a frustração com os erros na administração da economia e com o crescente isolamento do Irã na Região.

Mohammed
Baquer Qalibaf
É importante notar que cerca de dois terços dos eleitores manifestaram preferir ou Rouhani ou o prefeito de Teerã, Mohammed Baquer Qalibaf. É significativo, porque os dois eram considerados os candidatos menos “ideológicos” e mais “gerencialmente eficientes”.

As sanções impostas pelo ocidente feriram muito profundamente a economia do Irã. Embora os eleitores atribuam as sanções à hostilidade das potências ocidentais contra a República Islâmica (que já tem 30 anos de história) e saibam que nenhum presidente conseguirá remover as sanções, eles também se dão conta de que uma política exterior ativa e criativa pode tornar as sanções menos efetivas – e até completamente não efetivas – como viram acontecer nas presidências de Rafsanjani e Khatami.

Dito de outro modo, a eleição de Rouhani deve ser interpretada como autorização para buscar interação construtiva com países vizinhos e com toda a comunidade internacional, consideradas as necessidades da economia iraniana.

Nesse sentido, chama a atenção que a eleição de Rouhani tenha sido acolhida com simpatia e bem recebida instantaneamente em todo o Golfo Persa. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Khalifa bin Zayed al-Nahyan foi rápido na saudação que enviou a Rouhani, em que manifesta o máximo interesse “em construir relações baseadas na cooperação” com o Irã.

Os EUA deram jeito de saudar a vitória de Rouhani, e a Casa Branca expressou “respeito pela manifestação do povo iraniano”, que demonstra que os iranianos “estão determinados a agir para modelar o próprio futuro”. O governo Obama declarou-se disposto a “engajar diretamente o governo iraniano”. É passo atrás, em relação às beligerantes declarações anteriores de altos funcionários, segundo as quais o resultado da eleição presidencial no Irã nada alteraria.

Washington foi colhida de surpresa pela votação expressiva e convincente que Rouhani obteve, que o poupou de um segundo turno desgastante e que o posiciona como interlocutor efetivo.

Salto de fé

Mas, de fato, a eleição de Rouhani faz alguma diferença para a política externa do Irã? Por um lado, há quem veja Rouhani como reformador “de fundo”, essencialmente reformador; e há Israel, do outro lado, que insiste em que nada mudou no Irã, e os EUA devem impor ao país sanções ainda mais duras.

A verdade está no meio do caminho entre esses dois extremos. Durante a campanha, Rouhani não se cansou de repetir, bem claramente, que promoveria políticas domésticas e externas nuançadas, pragmáticas e criativas. Embora clérigo, Rouhani não subscreve as linhas mais duras da política social. Em termos amplos, suas declarações ecoavam as mesmas linhas que já seguiu e implementou durante a presidência de Rafsanjani (e de Khatami).

Seyed Hossein
Mousavian
Na presidência de Khatami, foi o encarregado do dossiê nuclear, assistido por Seyed Hossein Mousavian – que hoje vive e trabalha nos EUA. Evidentemente, o governo Obama conhece bastante bem o pensamento de Rouhani. Mousavian tem defendido uma fórmula segundo a qual os iranianos preservariam o direito de enriquecer urânio, sob estritas garantias à Agência Internacional de Energia Atômica que satisfariam os EUA; em troca, Teerã seria “recompensada” com um aliviamento das sanções e com maior integração com a comunidade internacional.

Apesar de ser figura do establishment, Rouhani é reconhecido pela comunidade internacional pela visão nuançada e conciliatória que se viu quanto foi o principal negociador da equipe nuclear iraniana, na presidência de Khatami. Mas, naquele momento, o próprio Khatami era reconhecido pelo mesmo tipo de abordagem. Grande ironia é que George W. Bush tenha escolhido denunciar aquele mesmo Irã de Khatami, como parte do “eixo do mal”.

A grande pergunta, portanto, é até que ponto o governo Obama estará preparado para quebrar a crosta já ossificada, carregada de preconceitos, que encobre qualquer pensamento sobre o Irã entre influentes grupos das elites políticas nos EUA; e como o próprio Obama operará, caso decida erguer a cabeça e ignorar ou desafiar o lobby israelense, tomando nova posição, racional, em relação ao Irã de Rouhani.

Barack Obama: "Todas as opções estão sobre a mesa"
Em resumo, o governo Obama tem pela frente um enorme desafio, se optar por não dar um salto de fé e se persistir no curso atual. Afinal, qualquer melhora nas relações com o Irã demandará tempo e terá de ser processo lento e gradual, porque o clima tenso não cederá facilmente.

Feitas as contas, nada mais distante da verdade que apresentar Rouhani como “reformista” disposto a combater contra moinhos de vento, e que opor-se-ia ao establishment iraniano. Talvez não tenha a retórica combativa de Ahmadinejad nem a disposição bombástica para se posicionar nos palcos globais, nem usará o tom provocativo e controverso de seu predecessor nas questões regionais e internacionais.

Mas Rouhani não se desviará da rota traçada. Não pode ser diferente. É experiente demais, conhece o establishment e sabe que, nas eleições de 1997, Khatami foi eleito por arrasadora votação de 70% dos eleitores, mas as políticas iranianas permaneceram exatamente na mesma trilha, durante todo seu governo.

Ventos de mudança

Ali Akbar Velayati
Isso posto, os pensamentos e ações de todos os principais atores protagonistas aqui – não só Rafsanjani, Khatami e Rouhani, mas também outros candidatos como Ali Akbar Velayati ou Mohammed Aref – sinalizaram que há aguda consciência entre as elites políticas no Irã de que é preciso mudar, em termos das carências e necessidades do país e, também, para manterem-se afinados com o espírito do tempo.

As sanções foram o principal tópico na campanha eleitoral. O foco está mais circunscrito, hoje, na necessidade de o Irã ser mais pragmático nas relações com o mundo e na urgência de modernizar-se no plano doméstico.

As multidões que acorreram às ruas de Teerã para celebrar a vitória de Rouhani mostram também que, no plano popular, há altas expectativas de mudança. Rouhani e o coletivo da liderança política iraniana com certeza sabem disso.

As primeiras palavras de Rouhani depois da vitória eleitoral mostram o que opera em sua mente, como construtor de pontes:

Essa é vitória da sabedoria, vitória da moderação, vitória do crescimento e da consciência, e vitória do compromisso sobre o extremismo e o destempero. (...) Aperto calorosamente a mão de todos os moderados, reformistas e principistas [leia-se “conservadores”].

Aiatolá Ali Khamenei
Pode-se dizer também que Khamenei pôs-se ao lado da nação, até aqui, ao garantir aos candidatos plena exposição pública pela mídia e por todos os meios, de modo jamais visto, para que todos apresentassem suas plataformas e programas políticos. Assim, o livre jogo das paixões pôde acontecer antes das eleições, não depois, como em 2009.

A questão hoje, portanto, está reduzida a introduzir mudanças no próprio sistema islâmico iraniano. Pode-se dizer que a política iraniana está olhando para trás, para andar avante. Ahmadinejad deixa o legado do que se pode definir como presidência que mais dividiu, que uniu; e os eleitores definiram um posicionamento segundo o qual o país não poderá avançar se não houver passado consensual, do qual todos partilhem.

E assim aconteceu, paradoxalmente, que uma “terceira geração” de eleitores iranianos elegeu, para liderá-los, um discípulo-favorito do Imã Khomeini. É o mesmo que dizer que essa eleição enterrou a divisão entre reformistas e conservadores, na política iraniana. O cisma tornou-se irrelevante.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pepe Escobar: “E o vencedor é... Khamenei”


23/5/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Entreouvido na Vila Vudu: Pela primeira vez, em anos, houve veto, na nossa Roda de Conversa, contra traduzirmos artigo de Pepe Escobar – nossa unanimidade mais longeva, até ontem inabalada.  
O argumento que instruiu o veto da Zefa foi:

Ma ke porra de negócio é esse, agora, de escrever como se o Irã estivesse cometendo algum crime, por não ser nem querer ser “democracia” à moda do williamwaack?!

Melhor Khamenei – uma muraaaaalha na Resistência contra os EUA e Israel – que qualquer porra de “reformista” here, there and everywhere.

Zefa (Malalai Joya)
(E se o porra de reformista for “jovem”, chegado ao mundo quando o neoliberalismo já havia sido “naturalizado”, então, pior ainda, sô!). Queria o quê, o Pepinho Querido?! Queria que, numa briga desstamanhão, como a briga em que o Supremo Líder tá metido, contra EUA e Israel inteirinhos, ele deixasse os panacas do dedo verde udenista metidos a éticos, a laicos e a democráticos à moda williamwaack fazer o que quisessem?
É claro que não podia deixá! A revolução não é um piquenique.

Dado que nós não somos democráticos, nós traduzimos – porque o Elói quis traduzir; e registramos, apoiando integralmente, por unanimidade, o veto da Zefa.

Irã, 686 candidatos a candidatos à presidência nas eleições de 14/6/2013
Nada será deixado ao acaso. – Não se verá sequer algum tênue sinal de onda de protesto dos dedos verdes.

Em 2009, 475 candidatos registraram-se para concorrer à presidência do Irã. Só quatro foram aprovados pelo Conselho dos Guardiões – o todo-poderoso comitê de clérigos, com poder para revisar leis. Esse ano, nada menos que 686 registraram-se para concorrer às eleições de 14 de junho próximo. Foram aprovados oito.

Dentre os aprovados, não aparecem os dois pré-candidatos realmente controversos. Estão fora o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, codinome “O Tubarão” – na essência, conservador pragmático – e Esfandiar Rahim Mashaei, conselheiro e braço direito do presidente que sai, Mahmud Ahmadinejad.

Os que competirão nas urnas não são exatamente grandes estrelas: Mohammad Reza Aref, ex-vice-presidente; Hassan Rowhani, ex-chefe da segurança nacional; Mohammad Gharazi ex-ministro das telecomunicações; Saeed Jalili, secretário do Conselho Supremo da Segurança Nacional do Irã; Mohammad Bagher Qalibaf, prefeito de Teerã; Ali Akbar Velayati, conselheiro do Supremo Líder Aiatolá Khamenei para questões de política externa; Mohsen Rezaei, secretário do Conselho dos Experientes; e Gholam-Ali Haddad-Adel, presidente do Parlamento. Mas aí está, sim, uma espécie de lista ‘'quem é quem'’ dos agregados do núcleo mais central da República Islâmica – os chamados “principistas”.

Os oito candidatos à Presidência do Irã escolhidos pelo Conselho dos Guardiões
Tubarão fora d’água

Segundo o ministério do Interior, O Tubarão está fora de jogo, por causa da idade avançada (78). Não é bem assim. O Tubarão está fora porque era o principal nome dos moderados – já catalizando o apoio de muitos reformistas (excluídos).

Esfandiar Rahim Mashaei
Mashaei está fora porque representaria uma continuação de Ahmadinejad – apoiado por vários ministros do gabinete de Ahmadinejad e beneficiado por uma formidável máquina política populista que ainda seduz os iranianos pobres nas cidades e no interior do país. Faria avançar o movimento de Ahmadinejad a favor de Executivo independente. Nada é coisa consumada – ainda. Embora nem Rafsanjani nem Mashaei possam apelar, o Supremo Líder em pessoa pode dar uma mãozinha. Mas é pouco provável que dê.

Rafsanjani esperou até o último dia, 11 de maio, para registrar sua candidatura a candidato. O ex-presidente Khatami – afamado pelo “diálogo de civilizações” – não se registrou e, um dia antes de esgotado o prazo, anunciou seu apoio a Rafsanjani. Pode-se facilmente adivinhar que soaram sinos de alarme no aprisco do Supremo Líder.

Ali Akbar Hashemi Rafsanjani
O Tubarão foi recentemente confirmado presidente do poderoso Conselho dos Experientes – que supervisiona o governo (Khamenei ocupava o mesmo posto, enquanto viveu o Aiatolá Khomeini). Pode ser interpretado como uma espécie de prêmio de consolação.

Ahmadinejad, por sua vez, deu sinais de estar disposto a fazer chantagem – ameaçou cuspir todos os feijões de corrupção dentro da família do Supremo Líder, de que tem conhecimento. Ahmadinejad que não espere qualquer favor.

Aiatolá Khamenei
Assumindo que o Supremo Líder permaneça imóvel, ele próprio e seus subordinados em toda a elite política conservadora expuseram-se a grave risco – o risco decorrente de terem alienado completamente duas facções políticas muito significativas na República Islâmica. Mas, até as eleições, o Conselho dos Guardiãos já terá desimpedido o caminho para garantir vitória fácil a Qalibaf, ex-comandante da Força Aérea dos Guardas Revolucionários e atual prefeito de Teerã.

Qalibaf seria o mais perfeito veículo, politicamente correto, para o que tenho descrito desde 2009 como a ditadura militar do mulariato – a dominação, pelo Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos e clérigos conservadores, sob o comando do único que realmente decide, o Supremo Líder Khamenei, de toda a vida institucional no Irã.

Mohammad Bagher Ghalibaf
Matéria publicada em al-Monitor  faz referência a um lado nada gentil, de Qalibaf. O fato em si não surpreende. Infinitamente mais crucial é a questão sobre se Khamenei e os ultraconservadores conseguirão manter-se preservados numa torre de marfim, enquanto deteriora-se a situação econômica interna, e um altissonante eixo árabe sunita – amplamente instigado pelos EUA e apoiado por Israel – já late às portas do Irã.

Vote! Se não...

Nas próximas eleições, o Supremo Líder precisa muitíssimo de grande número de votos, para impulsionar a legitimidade do sistema. Por isso, as eleições municipais e rurais acontecerão, pela primeira vez, no mesmo dia em que se disputa a eleição presidencial.

Por um rápido período, pareceu que seria capaz de catalisar toda a oposição. Agora, os reformistas pregam o boicote, pregação que talvez se dissemine. Mas há um grande problema. Votar é obrigatório no Irã; se você não vota, suas chances de conseguir emprego no governo ou em organização semioficial ficam ameaçadas. Significa adeus a um precioso emprego fixo, com moradia grátis, nenhuma conta a pagar, salários decentes e benefícios.

Todos portam uma carteira de Identidade, com selos que comprovam o comparecimento às urnas, ano a ano. Muitos jovens urbanos letrados vão às urnas, mas votam em branco.

No Irã rural, as coisas são muito mais fáceis para o governo. Em dezembro de 2011, acabaram-se inúmeros subsídios para energia e bens domésticos. Para compensar o aumento da inflação, o governo começou a fazer pagamentos diretos a muitas famílias iranianas – assegurando o apoio dos eleitores em muitas províncias rurais.

Mir Hossein Mousavi
Para os ultraconservadores, nada é suficiente para impedir que se repitam os eventos de 2009, a onda verde, a vitória de Ahmadinejad sobre o reformista Mir Hossein Mousavi (que foi contestada), fúria nas ruas, demonstrações massivas, repressão violenta.

Mousavi, sua esposa (a artista Zahra Rahnavard), e o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi – todos figuras de destaque do Movimento Verde – estão em prisão domiciliar desde os grandes protestos de rua de fevereiro de 2011. A repressão não diminuiu – ao contrário (ver, por exemplo, matéria do Guardian).  E também respingou no campo de Ahmadinejad: até clérigos pró-Ahmadinejad foram perseguidos ou presos pelos serviços de segurança em algumas províncias, e cinco páginas de campanha pró Mashaie na Internet foram extintas.

Todas as redes virtuais privadas [orig. VPNs (virtual private networks)] foram fechadas, nos muitos cibercafés que há no Irã, e a velocidade da internet foi reduzida a passo de cágado.

Ainda que todo esse “aparelho de prevenção” funcione, e ainda que o Supremo Líder consiga eleger seu candidato (possívelmente, Qalibaf), a visão geral não é agradável.

O presidente pós-Ahmadinejad herdará uma paisagem política ultra fragmentada. Muita gente culpa a má administração do governo, tanto quanto as sanções internacionais, pelas imensas dificuldades do dia a dia. E a mesma hostilidade linha-duríssima contra os EUA, Israel e o eixo sunita. Uma espécie de desespero silencioso parece ser hoje meio de vida popular no Irã.


sábado, 30 de março de 2013

Uma estrela (iraniana) ascendente


27/3/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Burns
The best laid schemes o’mice na’men / Os melhores planos que ratos e homens façam,
Gay aft a-gley/Alegres depois do trabalho,
Na’lea’e us nought but grief a’pain/Só trazem luto e dor
For promised pay/pelo que um prometeu ao outro, mas não cumpriu.
[Robert Burns, “To a Mouse”/Para um rato]
[Íntegra, em inglês, em Poesia Escocesa]
[Epígrafe acrescida pelos tradutores]


Ali Akbar Velayati
Há exatamente um mês, quando escrevi [1] que um candidato a ser observado nas eleições presidenciais do Irã de 12/6 próximo seria Ali Akbar Velayati, ex-ministro de Relações Exteriores, foi um tiro no escuro, mas também opinião cevada na observação atenta dos corredores da política bizantina em Teerã e em Qom, nos últimos meses.

Bloomberg Businessweek acaba de chegar à mesma conclusão. [2] BB evidentemente serve-se de fontes de alto nível em Washington e em Teerã, para instruir seus artigos, e a minha única fonte é pura, incansável paixão por observar o Irã, alimentada por velha paixão por aquele país e seu belo povo.

De fato, é também minha opinião desejante, enviesada, indiano-cêntrica. Estive várias vezes na mesma sala com Velayati em Teerã e em Delhi, quando ele ali esteve como Ministro; e não tenho dúvidas de que sua ascensão ao poder como Presidente do Irã será magnífica novidade para a Índia – desde que, é claro, Delhi procure genuinamente reconstruir seus laços estratégicos com o Irã.

Velayati teve papel chave no movimento ascendente da curva das relações entre Índia e Irã, nos dez anos a partir do fim dos anos 1980s (quando o então Primeiro-Ministro da Índia fez movimento dramático de aproximação com Teerã).

O entendimento estratégico deu excelentes frutos, quando Teerã ajudou a Índia a conter a tempestade nos países muçulmanos, depois da destruição de Babri Masjid (1992), e a liderança iraniana mostrou incansável compreensão na questão das atrocidades então em curso nas regiões da Caxemira, no início dos anos 1990s.

Depois, o Irã ajudou a Índia a conter a detonação diplomática, relacionada ao problema da Caxemira, que os sauditas promoviam na Organização de Cooperação Islâmica, com o Irã, de fato, já organizando a resistência anti-Talibã conhecida como Aliança do Norte (1997). [3]

Eram tempos em que nenhum indiano se atreveria a subestimar o Irã como fator de estabilidade, com certeza no que tivesse a ver com interesses centrais da Índia. Boa parte de tudo isso aconteceu sob a orientação de Velayati. Tinha visão clara sobre as relações Irã-Índia e via essas relações como crucialmente importantes para o Irã.

Lembro perfeitamente a conversa, em Hyderabad House, no final de 1989, quando Velayati falou pela primeira vez da ideia do corredor Norte-Sul, como acesso da Índia à rota para a Rússia e a Ásia Central – de fato, delineou ali as potencialidades do projeto de um óleogasoduto Irã-Paquistão-Índia (IPI).

Oleogasoduto Irã - Paquistão - Índia 
É homem cordial, erudito, tem nervos de aço [4] e cabeça de negociador incansável. E é muito bem-humorado, capaz de fechar com risadas um dia de negociações duríssimas – talentos que muito ajudarão o Irã a acalmar as águas do Estreito de Ormuz.

Absolutamente todos sabem que Velayati manifesta e representa os interesses mais radicalmente fundamentais do regime iraniano. Mas é pragmático, dos que sabem que a política é a arte do possível.

Estreito de Ormuz - passagem de 40% do petróleo que abastece o ocidente
Tudo isso volta a ser extraordinariamente importante, porque o próximo presidente do Irã tem papel decisivo na modelagem do “Novo Oriente Médio” e da segurança regional e internacional.

E se e quando as conversações se iniciarem entre EUA e Irã, como provavelmente começarão depois de passadas as eleições de junho no Irã, Velayati é o homem mais qualificado para melhor negociar pelo Irã: goza da confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei; tem ampla e clara compreensão da política mundial e de como opera o sistema internacional; e fala perfeito inglês (embora com sotaque norte-americano). É garantia de conversa iluminadora, caso o Presidente dos EUA, Barack Obama, algum dia apareça para conversar com ele sobre guerra e paz no Oriente Médio – e depois resolva continuar o papo numa mesa menos formal, para falarem de ratos e homens. [5] 
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Notas dos tradutores

[1] 5/2/2013, Indian Punchline, MK Bhadrakumar em: A rising star in Iranian politics [Uma estrela ascendente na política iraniana]

[2] 26/3/2013, Business Week, Ladane Nasseri, em: Velayati May Run for Iran President as Calm to Ahmadinejad Storm

[3] Aliança Afegã do Norte [orig. ing. Afghan Nothern Alliance], oficialmente, Frente Islâmica Unida para Salvação do Afeganistão (em persa Jabha-yi Muttahid-i Islami-yi Milli bara-yi Nijat-i Afghanistan), foi frente militar formada no final de 1996, depois que os Talibã (Emirado Islâmico do Afeganistão) tomaram Cabul. A Aliança do Norte foi proposta por afegãos e lutou guerra de defesa contra o governo dos Talibã – com apoio de Rússia, Irã, Índia, Tadjiquistão e outros; os Talibã era apoiados pela al-Qaeda e pelo exército do Paquistão. Depois que os EUA invadiram o Afeganistão e lá implantaram o governo Karzai, no final de 2001, a Aliança do Norte dividiu-se, dando origem a vários partidos políticos.

[4] Ali Akbar Velayati discursava na ONU, como Ministro de Relações Exteriores do Irã, quando um dissidente saltou sobre ele, arrancou-lhe das mãos o discurso que lia e rasgou-o. Um segurança tirou o homem da sala. Velayati esperou calmamente, de mãos no bolso. “Alguém, da nossa delegação tinha cópia do texto e me entregou” – conta Velayati, recordando o episódio do início dos anos 1980s, em entrevista para a televisão iraniana. – “Achei a página 10, onde lembrava que havia parado, e continuei a ler” (ver no primeiro parágrafo do “link” da Nota [2]).

[5] Orig. mice and men. A expressão, do verso de Burns que se lê na epígrafe, dá título também ao romance Ratos e Homens de John Steinbeck, de 1937, cujo enredo também é relevante para compreender a metáfora que se lê aqui.
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.