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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Conflicts Forum - Comentário da semana de 27/12/2013 até 3/1/2014

10/1/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François Hollande, Presidente da França, visitou o Rei Abdullah da Arábia Saudita em 29/12/2013 quando foi receber o "presente" de US$ 3 bilhões 
Eventos graves e preocupantes no Líbano: um presidente (Suleiman) que luta ansiosamente pela re-eleição (eleições previstas para maio); o “aviso”, pelo rei Abdallah ao presidente Suleiman, que o exército libanês deve atacar o Hezbollah (retaliação pela intervenção na Síria); o “presente” de US $3 bilhões à França, pelo rei saudita, para armar o exército libanês com armas francesas; e um presidente que conclui o discurso em que anunciou o “presente”, cantando “viva o Exército [do qual foi comandante], viva a Arábia Saudita e viva o Líbano!”.

E, noutra trilha, alertas de iminente deterioração das condições de segurança, emitidas pela liderança do Hezbollah (instruídas, muito provavelmente, pelo próprio serviço de inteligência); o assassinato de um ex-ministro (moderado!) do Movimento 14 de Março; ataque ao mufti (sunita) do Líbano, quando apresentava condolências no funeral de um jovem morto no atentado que vitimou o ministro (à frente de uma mesquita sunita), por membros do Movimento 14 de Março e radicais sunitas que o acusavam de traição (porque apoia o diálogo nacional); acusações (sem provas) contra Síria e Hezbollah de responsabilidade no assassinato de jornalistas e políticos; discursos de que o Movimento 14 de Março teria agora de deixar o poder; e uma declaração, do próprio presidente do Líbano, de que, sim, deseja formar um governo “de fato” sem a participação do Movimento 8 de Março (o presidente detinha a maioria num – já defunto – Parlamento), como precondição imposta pela Arábia Saudita em troca da doação dos $3 bilhões. E novas explosões de carros-bomba.

A linguagem sectária é incendiária; a polarização, óbvia: estará o Líbano alcançando o ponto de ignição, como antes dele, a Síria? O que se deve inferir do que está acontecendo no Líbano? Estarão as brasas da guerra à distância de sauditas-xiitas começando a incendiar em chamas, em total conflito sectário em toda a região (como as áreas de Fallujah e Anbar no Iraque, que já caíram, presas de movimentos· que esposam a “ideia” al-Qaeda, e 45 membros sunitas deixaram o Parlamento)?

Poucos na região diriam que o risco de conflito sectário está sendo exagerado, mas o que está acontecendo no Líbano tem, necessariamente, de ser analisado em contexto.

Hossein Mousavian
Quando Hossein Mousavian (ex-negociador nuclear iraniano e presidente da Comissão de Relações Exteriores do Conselho Nacional de Segurança do Irã, hoje professor em Princeton) em debate com o príncipe saudita Turki, no recente Diálogo de Manama, disse – clara e firmemente – que a tentativa do Golfo, de estrangular o “renascimento” do Irã, havia fracassado, muitos dos presentes ficaram chocados. Estava dizendo que o ponto de virada na luta para definir o futuro da região já fora superado e já era passado. (O príncipe Turki, é claro, discordou).

Contudo, se se considera a região, é claro que o governo sírio, nas últimas semanas, está rapidamente consolidando sua posição militar. A circunstância em Damasco, hoje, é muito diferente da que se tinha há algumas semanas (como o comprovaram visitantes que estiveram na cidade, em conversa conosco). É verdade que, num nível, as animosidades sectárias (particularmente as sauditas) alcançaram novos píncaros em toda a região. Mas está surgindo um fator novo – até aqui subavaliado: os sunitas absolutamente não estão unidos. Muitos temem, abominam, os salafistas e jihadistas que estão aparecendo na região empurrados pelo apoio oficial e privado do Golfo.

Chama a atenção, por exemplo, que o presidente Assad, em reunião com líderes sunitas na Síria está conseguindo atraí-los para uma guerra explicitamente formatada contra o wahhabismo e o salafismo, dizendo que essas seitas são uma distorção do Islã! Seria absolutamente impensável há um ano. Haverá ranger de dentes no mundo sunita.

Mas a maré está mudando, e a maioria silenciosa sunita está farta de extremistas e ideólogos (de todas as bandeiras), e só quer voltar à “normalidade” e a alguma segurança humana básica. É verdade no Líbano, como é verdade no Iraque, onde os sunitas também estão profundamente divididos, temendo o advento de tribunais “itinerantes” de aplicação da Xaria; a arbitrariedade caricata de imãs jihadistas locais; as mutilações e degolas promovidas por aqueles personagens vastamente ignorantes do que é a Lei Islâmica. As pessoas estão cansadas disso.

Os xiitas entendem que a Arábia Saudita obra para erguer o espectro de um conflito xiita-sunita generalizado. Mas nem os xiitas acreditam que a Arábia Saudita tenha capacidade suficiente, ou que seja suficientemente dura (ou ignorante) para ter sucesso na empreitada.

Michael Mullen
E o professor Mousavian não é o único que disse que a luta já ultrapassou o ponto de virada. Em recente briefing a políticos e funcionários do governo dos EUA, o recentemente aposentado ex-diretor da CIA, Michael Mullen, disse também, sim, que os sauditas erraram gravemente ao interpretar a posição dos EUA, e pressupor que os EUA os apoiariam incondicionalmente, “numa guerra que jamais poderiam vencer”. E um diplomata norte-americano, com vasta experiência na região, disse que “por hora, tudo indica que os senhores Assad, Nasrallah e Solimani venceram”.  

À maneira paradoxal das guerras, o Hezbollah, a Síria e o Irã estão agora conseguindo mobilizando os sunitas comuns em torno de uma plataforma anti-wahhabista, e descobrem que, tacitamente, todos partilham um interesse comum com os estados ocidentais: combater o jihadismo.

Essa virada dramática no mundo real é fonte de considerável confusão e muita consternação nos EUA e na Europa.

Habituados e condicionados por tanto tempo a elogiar a Arábia Saudita, sem dar qualquer atenção às relações ambíguas dos sauditas com movimentos sunitas radicais e ao papel dos sauditas na evolução daquela ideologia, EUA e Europa descobrem-se de repente já abraçados no mesmo leito com Irã e Síria, no que tenha a ver com ‘'a grande questão'’ do Oriente Médio (o crescimento do jihadismo). Isso é fonte de terrível consternação.

E quanto ao Líbano? Se se considera esse pano de fundo mais amplo, os eventos no Líbano apontam para mais desespero, que para alguma política ou estratégia efetiva.

Primeiro, porque, no Líbano, o mofado modelo ocidental de governo de “o vencedor leva tudo” é, simultaneamente, inconstitucional e em larga medida também impraticável. O Líbano jamais viveu sob arranjo desse tipo. A Constituição, para o bem ou para o mal, exige que os grupos religiosos partilhem o poder. Em todos os casos, para todos os grupos e seitas, e por lei, a exclusão de qualquer grupo religioso, que seja impedido de participar do governo, torna o governo ilegal. Será muito difícil para o presidente Suleiman levar adiante essa iniciativa. E já está suficientemente claro que, se insistir, sob o argumento de “proteger o governo”, enfrentará resistência feroz (por exemplo, também dos maronitas). É muito provável que o presidente tenha de desistir.

Em segundo lugar, o Parlamento – cujo mandato expirou, mas foi autoampliado, além da data prevista em lei – dificilmente daria um voto de confiança a arranjo tão viciado (o qual, leve a governo “tecnocrático” ou “neutro”, só tem, por objetivo, em todos os casos, opor-se ao Hezbollah). Sequer novas eleições – sob a hipótese remota de que se chegue a algum novo acordo geral sobre como realizá-las – oferecem melhor via para garantir um voto de confiança parlamentar. E, sem isso, nenhum governo terá legitimidade (o apoio eleitoral com que contava o Movimento 14 de Março evaporou em suas bases eleitorais em Sidon e Tripoli; assim, nada mais duvidoso que a maioria parlamentar).

Em terceiro lugar, o exército libanês é uma instituição nacional. Teve de ser cuidadosamente reconstruído, depois de ter sido desintegrado durante a guerra civil libanesa, sob a pressão de diferenças sectárias. Mover o exército nacional na direção de atacar um determinado grupo religioso será promover a fragmentação e a destruição, outra vez. Além do mais, os políticos libaneses sempre tendem a preferir a direção na qual sopram os ventos. Com os próprios norte-americanos a dizer que é possível que o presidente Assad permaneça onde está ainda por muito tempo, a maioria dos políticos libaneses tenderá a seguir o vento ocidental que ajuda Assad (vide Jumblatt), em vez de deixar que as próprias velas se enviesem com alguma súbita rajada de vento à moda Bandar. Em resumo: continuarão a esperar o resultado na Síria e o que surja da luta regional, antes de fechar todas as saídas.

Em síntese, é duvidoso que o povo libanês (com as exceções de praxe) tenha algum apetite pela divisão dos próprios cidadãos – nem as classes médias sunitas têm estômago para esse tipo de violência. A volta dos carros-bombas está realmente assustando os libaneses, e os faz relembrar episódios sombrios da história do Líbano, mas a responsabilidade comprovada pelo recente surto de violência permanece indefinidae é provável que, como em casos passados, assim permaneça.

Bandar bin Sultan
Mas a “estratégia” do chefe da inteligência saudita, príncipe Bandar, é clara: ele e “alguns” no Movimento 14 de Março esperam, muito provavelmente, que, instigando uma atmosfera de conflito sectário iminente depois dos recentes assassinatos; promovendo um “assalto ao poder”, pelo Movimento 14 de Março; e prometendo que o exército se realinhará na posição de “conter o Hezbollah”, eles empurrarão o Hezbollah na direção de uma segunda tomada defensiva de Beirute, como em 7/5/2008, o que, por sua vez, desacreditaria o Hezbollah e forçaria sua retirada da Síria (pela necessidade de concentrar sua força operacional no próprio Líbano e gerir a crise resultante).

É altamente improvável que o Hezbollah morda essa isca: o comprometimento do Hezbollah na Síria é relativamente pequeno; e o movimento sempre cuidou atentamente de preservar, na reserva, o núcleo duro de sua força de combate – contra um possível ataque israelense. Além disso, há já tempo considerável o Hezbollah prepara-se para o caso de crise doméstica que venha a exigir atividade simultânea em dois fronts.

Essa “tática” de Bandar, se (se!) for bem-sucedida (o que é improvável), pode dar alguma pequena vantagem a Bandar na guerra na Síria (a retirada do Hezbollah e o apoio libanês oficial ao Conselho Nacional Sírio). Mas Bandar erra ao superestimar a importância da contribuição militar do Hezbollah na Síria. Alguma retirada forçada do Hezbollah, caso aconteça, não alterará, só ela, o curso da guerra na Síria – cujos rumo e fluxo não estão fluindo a favor do príncipe Bandar.

O resultado mais provável dessa intervenção é que o Líbano deslizará para um pouco mais longe de conseguir governança efetiva no futuro próximo, e o já super distendido tecido do estado se distenderá ainda mais, aproximando-se mais do ponto de ruptura. A situação de segurança se deteriorará (vivem no Líbano pelo menos 1,2 milhão de refugiados sírios, muitos dos quais - estimados 40% estão armados –desesperados). Mesmo assim, o mais provável é que o Líbano evitará a luta civil. Mesmo que o presidente não tenha quem o substitua em maio, o que levará a completo vácuo de governança, o exército tem-se preparado para essa eventualidade, e crê ter base legal suficiente para evitar o total colapso. Não é futuro feliz para o Líbano, mas a responsabilidade pela infelicidade deve ser atribuída a quem tem indiscutível potencial para promover rompimentos, mas confunde ter força, com ter estratégia viável.

Os eventos no Líbano são sinal de desespero [dos sauditas], não de alguma realpolitik consequente. E reforçam a impressão de que a Arábia Saudita já sabe subconscientemente, que está perdendo essa guerra.





[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eleições no Irã – “Rouhani: tempo passado e consenso”

17/6/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online  - IRANIAN ELECTION
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente eleito da República Islâmica do Irã
Há confusão à vista, depois de uma semana de insistente propaganda segundo a qual o presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani, seria “reformista”. Rouhani, “reformista”?! E por qual outro motivo Mohammed Khatami, ex-presidente reformista do Irã, apoiaria sua candidatura? Seria portanto protegido de Khatami?

Aiatolá Ruhollah
Khomeini
Tudo isso é forçar o argumento. Rouhani tem o título honorário de Hojatoleslam, que significa “autoridade em Islã”. É homem do establishment político e religioso iraniano, e há décadas é membro dos dois mais altos corpos diretivos, intimamente associados ao crème de la crème do regime – a Assembleia dos Especialistas e o Conselho de Discernimento. E também presidiu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, de 1989 a 2005.

A carreira política de Rouhani começou no período pré-revolucionário. Foi seguidor ardente e apaixonado do Imã Khomeini – de fato, leva o crédito de ter sido o primeiro a chamar Ruhollah Khomeini de “Imã”, o primeiro Supremo Líder do Irã.

O ardor revolucionário de Rouhani como jovem clérigo chamou rapidamente a atenção de Khomeini. Foi membro do Parlamento (Majlis) iraniano desde o início em 1980 até 2000. Foi vice-presidente do Parlamento, na presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani no mesmo mandato. Quando Rafsanjani tornou-se presidente em 1989, levou Rouhani para o Conselho de Segurança. Rafsanjani também introduziu Rouhani no Conselho de Discernimento em 1991, em momento em que o presidente estava no auge de seu poder político.

Mohammed Khatami
Ao mesmo tempo, em 1992, Rafsanjani pôs Rouhani na presidência do Centro para Pesquisa Estratégica, um think tank que tem papel seminal na construção das políticas de segurança e de relações exteriores e nos serviços do Conselho de Discernimento.

Rouhani foi eleito para a Assembleia dos Especialistas em 2000 – com Rafsanjani, que já deixara a presidência. (Rafsanjani tornou-se vice-presidente da Assembleia dos Especialistas e, de 2007 a 2011, ocupou a presidência).

Aliás, Rouhani ainda é membro da Assembleia dos Especialistas e do Conselho de Discernimento, além do Conselho de Segurança.

Assim, o que emerge é que o povo iraniano elegeu, em eleições justas e limpas, com comparecimento às urnas de mais de 70% dos eleitores, e no primeiro turno, com maioria absoluta de 50,7%, um candidato que interessa ao establishment religioso, com impecável currículo de revolucionário, que goza de total confiança do Supremo Líder e que, pode-se dizer, controla as várias facções dentro do governo.

Akbar Hashemi
Rafsanjani
Rouhani só se tornou um grande “conciliador-curador” depois da presidência de Mahmud Ahmadinejad, de contestação e disputa contra o establishment religioso. Rafsanjani promoveu sua carreira, mas Rouhani manteve a confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei mesmo depois que começaram a aparecer divergências entre os dois velhos combatentes, e, evidentemente, há vastas afinidades intelectuais e políticas também com Khatami.

Rouhani é, sem dúvida, político muito bem dotado, que se adapta bem às circunstâncias mutáveis da revolução islâmica. Esse traço permitiu-lhe manter-se na posição chave de conselheiro de segurança em dois governos, de Rafsanjani e de Khatami, sem perder, durante décadas, a posição de membro do Conselho de Discernimento e da Assembleia de Especialistas.

Do ponto de vista do regime, Rouhani fez a ponte entre as presidências de Rafsanjani e de Khatami. Obviamente, era figura “grande” demais para trabalhar sob ordens de Ahmadinejad; e optou por converter-se, naquele momento, em conselheiro de Khamenei e seu representante no Conselho de Segurança.

Eleito para unir o país

Mahmud Ahmadinejad
O que explica a fácil eleição de Rouhani? Primeiro, é mandato no qual se integram todas as faces da sociedade iraniana – urbana e rural, classe média e intelectuais, clérigos, o bazaar... Foi eleito, porque encarna a solidariedade nacional, num momento em que o país enfrenta terríveis ameaças externas e internas, e qualquer desunião, fragmentação ou polarização só faria aumentar os perigos.

Para os eleitores iranianos, o papel principal do presidente sempre foi administrar a economia. Também a eleição de Ahmadinejad foi baseada em sua promessa de “trazer os ganhos do petróleo para a mesa do jantar”. O povo manifestou a própria angústia ante as dificuldades econômicas – principalmente a inflação alta e o desemprego; a frustração com os erros na administração da economia e com o crescente isolamento do Irã na Região.

Mohammed
Baquer Qalibaf
É importante notar que cerca de dois terços dos eleitores manifestaram preferir ou Rouhani ou o prefeito de Teerã, Mohammed Baquer Qalibaf. É significativo, porque os dois eram considerados os candidatos menos “ideológicos” e mais “gerencialmente eficientes”.

As sanções impostas pelo ocidente feriram muito profundamente a economia do Irã. Embora os eleitores atribuam as sanções à hostilidade das potências ocidentais contra a República Islâmica (que já tem 30 anos de história) e saibam que nenhum presidente conseguirá remover as sanções, eles também se dão conta de que uma política exterior ativa e criativa pode tornar as sanções menos efetivas – e até completamente não efetivas – como viram acontecer nas presidências de Rafsanjani e Khatami.

Dito de outro modo, a eleição de Rouhani deve ser interpretada como autorização para buscar interação construtiva com países vizinhos e com toda a comunidade internacional, consideradas as necessidades da economia iraniana.

Nesse sentido, chama a atenção que a eleição de Rouhani tenha sido acolhida com simpatia e bem recebida instantaneamente em todo o Golfo Persa. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Khalifa bin Zayed al-Nahyan foi rápido na saudação que enviou a Rouhani, em que manifesta o máximo interesse “em construir relações baseadas na cooperação” com o Irã.

Os EUA deram jeito de saudar a vitória de Rouhani, e a Casa Branca expressou “respeito pela manifestação do povo iraniano”, que demonstra que os iranianos “estão determinados a agir para modelar o próprio futuro”. O governo Obama declarou-se disposto a “engajar diretamente o governo iraniano”. É passo atrás, em relação às beligerantes declarações anteriores de altos funcionários, segundo as quais o resultado da eleição presidencial no Irã nada alteraria.

Washington foi colhida de surpresa pela votação expressiva e convincente que Rouhani obteve, que o poupou de um segundo turno desgastante e que o posiciona como interlocutor efetivo.

Salto de fé

Mas, de fato, a eleição de Rouhani faz alguma diferença para a política externa do Irã? Por um lado, há quem veja Rouhani como reformador “de fundo”, essencialmente reformador; e há Israel, do outro lado, que insiste em que nada mudou no Irã, e os EUA devem impor ao país sanções ainda mais duras.

A verdade está no meio do caminho entre esses dois extremos. Durante a campanha, Rouhani não se cansou de repetir, bem claramente, que promoveria políticas domésticas e externas nuançadas, pragmáticas e criativas. Embora clérigo, Rouhani não subscreve as linhas mais duras da política social. Em termos amplos, suas declarações ecoavam as mesmas linhas que já seguiu e implementou durante a presidência de Rafsanjani (e de Khatami).

Seyed Hossein
Mousavian
Na presidência de Khatami, foi o encarregado do dossiê nuclear, assistido por Seyed Hossein Mousavian – que hoje vive e trabalha nos EUA. Evidentemente, o governo Obama conhece bastante bem o pensamento de Rouhani. Mousavian tem defendido uma fórmula segundo a qual os iranianos preservariam o direito de enriquecer urânio, sob estritas garantias à Agência Internacional de Energia Atômica que satisfariam os EUA; em troca, Teerã seria “recompensada” com um aliviamento das sanções e com maior integração com a comunidade internacional.

Apesar de ser figura do establishment, Rouhani é reconhecido pela comunidade internacional pela visão nuançada e conciliatória que se viu quanto foi o principal negociador da equipe nuclear iraniana, na presidência de Khatami. Mas, naquele momento, o próprio Khatami era reconhecido pelo mesmo tipo de abordagem. Grande ironia é que George W. Bush tenha escolhido denunciar aquele mesmo Irã de Khatami, como parte do “eixo do mal”.

A grande pergunta, portanto, é até que ponto o governo Obama estará preparado para quebrar a crosta já ossificada, carregada de preconceitos, que encobre qualquer pensamento sobre o Irã entre influentes grupos das elites políticas nos EUA; e como o próprio Obama operará, caso decida erguer a cabeça e ignorar ou desafiar o lobby israelense, tomando nova posição, racional, em relação ao Irã de Rouhani.

Barack Obama: "Todas as opções estão sobre a mesa"
Em resumo, o governo Obama tem pela frente um enorme desafio, se optar por não dar um salto de fé e se persistir no curso atual. Afinal, qualquer melhora nas relações com o Irã demandará tempo e terá de ser processo lento e gradual, porque o clima tenso não cederá facilmente.

Feitas as contas, nada mais distante da verdade que apresentar Rouhani como “reformista” disposto a combater contra moinhos de vento, e que opor-se-ia ao establishment iraniano. Talvez não tenha a retórica combativa de Ahmadinejad nem a disposição bombástica para se posicionar nos palcos globais, nem usará o tom provocativo e controverso de seu predecessor nas questões regionais e internacionais.

Mas Rouhani não se desviará da rota traçada. Não pode ser diferente. É experiente demais, conhece o establishment e sabe que, nas eleições de 1997, Khatami foi eleito por arrasadora votação de 70% dos eleitores, mas as políticas iranianas permaneceram exatamente na mesma trilha, durante todo seu governo.

Ventos de mudança

Ali Akbar Velayati
Isso posto, os pensamentos e ações de todos os principais atores protagonistas aqui – não só Rafsanjani, Khatami e Rouhani, mas também outros candidatos como Ali Akbar Velayati ou Mohammed Aref – sinalizaram que há aguda consciência entre as elites políticas no Irã de que é preciso mudar, em termos das carências e necessidades do país e, também, para manterem-se afinados com o espírito do tempo.

As sanções foram o principal tópico na campanha eleitoral. O foco está mais circunscrito, hoje, na necessidade de o Irã ser mais pragmático nas relações com o mundo e na urgência de modernizar-se no plano doméstico.

As multidões que acorreram às ruas de Teerã para celebrar a vitória de Rouhani mostram também que, no plano popular, há altas expectativas de mudança. Rouhani e o coletivo da liderança política iraniana com certeza sabem disso.

As primeiras palavras de Rouhani depois da vitória eleitoral mostram o que opera em sua mente, como construtor de pontes:

Essa é vitória da sabedoria, vitória da moderação, vitória do crescimento e da consciência, e vitória do compromisso sobre o extremismo e o destempero. (...) Aperto calorosamente a mão de todos os moderados, reformistas e principistas [leia-se “conservadores”].

Aiatolá Ali Khamenei
Pode-se dizer também que Khamenei pôs-se ao lado da nação, até aqui, ao garantir aos candidatos plena exposição pública pela mídia e por todos os meios, de modo jamais visto, para que todos apresentassem suas plataformas e programas políticos. Assim, o livre jogo das paixões pôde acontecer antes das eleições, não depois, como em 2009.

A questão hoje, portanto, está reduzida a introduzir mudanças no próprio sistema islâmico iraniano. Pode-se dizer que a política iraniana está olhando para trás, para andar avante. Ahmadinejad deixa o legado do que se pode definir como presidência que mais dividiu, que uniu; e os eleitores definiram um posicionamento segundo o qual o país não poderá avançar se não houver passado consensual, do qual todos partilhem.

E assim aconteceu, paradoxalmente, que uma “terceira geração” de eleitores iranianos elegeu, para liderá-los, um discípulo-favorito do Imã Khomeini. É o mesmo que dizer que essa eleição enterrou a divisão entre reformistas e conservadores, na política iraniana. O cisma tornou-se irrelevante.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Pepe Escobar: “O que o Irã pensa do ocidente e de sua febre da guerra”


21/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Dado que não é possível acompanhar pessoalmente o robô Curiosity em suas andanças em Marte, não há como escapar da histeria do “Bombardeiem o Irã” que emana, incansável, de Telavive e dos sentinelas avançados de Telavive em Washington. Agora já há até opinionismo de terceira classe, a sugerir que o presidente Barack Obama dos EUA voe pessoalmente a Israel, para acalmar o duo pirado Bibi-Barak. [1]


Assim sendo, é hora de tomar rumo completamente diferente – e totalmente ausente das páginas da mídia-empresa ocidental – e ouvir o pensamento iraniano qualificado que se dedica a analisar o que realmente fermenta por baixo do rugido dos tambores de guerra – no que diga respeito a Irã, Turquia, mundo árabe e toda a Eurásia.

Hossein Mousavian
Pode-se começar com o embaixador Hossein Mousavian, pesquisador do Woodrow Wilson School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton; ex-porta-voz da equipe de negociadores iranianos para a questão nuclear de 2003 a 2005; e autor de The Iranian Nuclear Crisis: A Memoir

Escrevendo na página internet da Arms Control Association [2], Mousavian vai diretamente ao ponto: “A história do programa nuclear do Irã sugere que o ocidente, inadvertidamente, está empurrando o Irã na direção de armas nucleares”.

Em sete passos chaves, Mousavian mostra didaticamente como o processo se desenrolou – começando pela “entrada do Irã no campo nuclear”, possibilitada, aliás, por Washington: “nos anos 1970s, o Xá [do Irã] tinha planos ambiciosos para explicar o programa nuclear, prevendo 23 usinas nucleares até 1994, com apoio dos EUA”.

Mousavian mostra como, de 2003 a 2005, durante o primeiro governo Bush,

O Irã apresentou várias propostas [nucleares], que incluíram o compromisso declarado de que limitariam o enriquecimento no nível de 5%; de que exportariam todo o urânio baixo-enriquecido [orig. low-enriched uranium (LEU)] ou bastões de combustível nuclear que produzissem; de que assinariam um protocolo adicional aos acordos de salvaguardas com a AIEA e com o Código 3.1 dos arranjos subsidiários, que assegurariam nível máximo de transparência; e autorizavam a AIEA a inspecionar instalações não declaradas. Essas propostas visavam a superar as preocupações do ocidente sobre a natureza do programa nuclear iraniano, garantindo que nenhum urânio enriquecido seria desviado para algum programa de armas atômicas. A proposta iraniana também teria facilitado o reconhecimento, pela comunidade internacional, do direito de o Irã enriquecer urânio, nos termos do Tratado de Não Proliferação. Em troca desses compromissos que o Irã assumia, o dossiê iraniano na AIEA seria normalizado e o Irã teria acesso a uma mais ampla cooperação política, econômica e de segurança com a União Europeia. Além disso, também interessava ao Irã garantir o suprimento de combustível para o reator nuclear de pesquisas em Teerã, motivo pelo qual estava disposto a enviar o urânio enriquecido para algum outro país onde pudesse ser convertido em bastonetes/combustível.

O governo Bush recusou todos os oferecimentos do Irã. Mousavian recorda “encontro que tive naquele momento com o embaixador francês no Irã, Francois Nicoullaud, que me disse: Para os EUA, o Irã enriquecer urânio no próprio país é a linha vermelha que a União Europeia não pode ultrapassar”.

De onde se pôde concluir que “o ocidente não está interessado em resolver a questão nuclear. A única coisa que o ocidente deseja é obrigar o Irã a abandonar completamente seu programa de enriquecimento”. Efeito disso foi, como não poderia deixar de ser, que o Irã foi compelido a “modificar sua diplomacia nuclear e a acelerar o programa de enriquecimento, para assegurar-se a autossuficiência na produção do combustível nuclear”.

“Estoque zero”, quem se candidata?

Rode o filme para a frente, até fevereiro de 2010. Teerã propôs “manter o enriquecimento abaixo de 5%, desde que o ocidente assegurasse o combustível necessário para manter em atividade o reator de Teerã. O ocidente recusou essa proposta”.

Charge do Bira
Então, em maio de 2010, “o Irã construiu um acordo com Brasil e Turquia para trocar seu estoque de urânio baixo-enriquecido por combustível para o reator de pesquisas. O acordo baseou-se em proposta esboçada inicialmente pelo governo Obama com funcionários dos governo de Brasil e Turquia, em clima de entendimento que os fez crer que teriam as bênçãos de Washington para negociar com o Irã. Lamentavelmente, os EUA boicotaram o sucesso da negociação, ao rejeitar o acordo; e o Conselho de Segurança da ONU, em seguida, aprovou novas sanções contra o Irã”. Qualquer observador objetivo que acompanhe a história do dossiê nuclear iraniano conhece todos esses fatos.

Novamente, rodem o filme à frente, até setembro de 2011, “quando o Irã já dominava a tecnologia de enriquecimento a 20% e já acumulava estoque considerável; foi quando o Irã propôs suspender as atividades de enriquecimento a 20% e aceitar que o ocidente fornecesse os bastonetes-combustível para o reator de Teerã. Mais uma vez, o ocidente rejeitou a proposta; o que obrigou os iranianos a dar um passo adiante e passar a produzir seus próprios bastonetes-combustível”.

Sobre as conversações desse ano em Istambul e Bagdá, Mousavian destaca que “depois de cada bloqueio, de cada ação ocidental punitiva, o Irã fez avançar o seu programa nuclear”.

E a coisa ainda piora: “Comparação entre a declaração de 19 de junho, em Moscou, feita por Catherine Ashton, chefe da política externa da União Europeia e principal negociadora no grupo P5+1, e a declaração da mesma Ashton dia 14 de abril em Istambul mostra uma grande diferença. O P5+1, em junho, dá mais importância ao Irã cumprir suas obrigações internacionais, a saber, obedecer a resoluções do Conselho de Segurança da ONU, do que a que cumpra os deveres a que se obriga por ser signatário do Tratado de Não Proliferação. Vê-se hoje claro retrocesso em relação à posição em Istanbul. Indica que o foco volta, agora, a ser a suspensão das atividades iranianas de enriquecimento, demanda que sempre aparece para interromper quaisquer negociações, desde 2003.

O resumo é que “não só o ocidente empurrou o Irã a buscar a autossuficiência, mas, em todas as circunstâncias, tentou privar o Irã de seu inalienável direito de enriquecer urânio. Esse movimento impulsionou o Irã a buscar, a todo galope, controlar toda a tecnologia nuclear”.

A conclusão é inevitável: “Os progressos que o Irã obteve em seu programa nuclear é produto dos esforços do ocidente para isolar o Irã, ao mesmo tempo em que se recusou a reconhecer os direitos do Irã”.

Washington e seus seguidores europeus simplesmente não conseguem entender que “sanções, isolamento e ameaças não obrigarão o Irã a ajoelhar-se. Ao contrário, essas políticas só levaram a avanços no programa nuclear iraniano”. Mesmo sob as mais devastadoras sanções e a febre de “Bombardeiem o Irã” já chegando ao surto convulsivo, só uma consequência é garantida, diz Mousavian: “o Irã tende hoje a retirar-se do Tratado de Não Proliferação e a buscar sua bomba atômica”.

O que torna tudo isso ainda mais absurdo é que há solução que pode por fim a toda essa loucura:

Para atender às preocupações do ocidente sobre o estoque iraniano de urânio enriquecido a 20%, solução mutuamente aceitável para o longo prazo implicaria “estoque zero”. Sob essa abordagem, um comitê conjunto (Irã e P5+1) quantificaria as carências domésticas do Irã, em termos do quanto de urânio 20% o país carece para finalidades de pesquisa; e tudo que ultrapassasse essa quantia seria vendido no mercado internacional, ou imediatamente ‘empobrecido’ até voltar ao nível de 3,5%. Assim se asseguraria que o Irã não pudesse formar estoque permanente de urânio enriquecido a 20%, o que atenderia às preocupações internacionais sobre a possibilidade de o Irã construir bombas atômicas. Seria solução que salvaria as posições de todos, ao mesmo tempo em que reconheceria o direito dos iranianos de enriquecer seu urânio, assegurando ao país meios para negar qualquer interesse em construir armas atômicas.

Washington – e Telavive – algum dia aceitarão? Claro que não. Os cães da guerra continuarão a ladrar.

Um novo jogo de segurança

Também é reconfortante examinar a análise iraniana da situação síria.

Mehdi Mohammadi, na página internet IranNuc.IR  [3] escreve:

“....o medo que a maioria sunita tem, de uma minoria salafista, não é fator a desprezar; e é realidade muito frequentemente censurada, relevante para entender a situação em campo na Síria. É a mesma realidade que impediu a oposição de aceitar quaisquer formas de negociações e, até, eleições livres”.

Esse fato é absoluto anátema na cobertura que a imprensa-empresa ocidental tem dado à situação na Síria.

Mehdi Mohammadi
Mohammadi avalia corretamente as discrepâncias entre várias facções da Fraternidade Muçulmana (FM) dentro da Síria: há uma facção linha-dura que quer ver implantada a lei da Xaria; e outra, convencida de que o futuro de toda a região está, seja como for, nas mãos da FM – a qual está em missão de caráter divino; mas a maioria quer, isso sim, extrair a maior quantidade de dinheiro que consigam extrair da Arábia Saudita, aliando-se para isso com a França, os EUA, os sunitas no Líbano e na Jordânia: “esses são a espinha dorsal da oposição armada na Síria”.

O xis da questão é que, mesmo no melhor cenário, a FM “está cometendo gravíssimo erro estratégico (...). Ainda que o governo de Assad seja deposto, os EUA jamais permitirão que o governo sírio caia nas mãos da parte da Fraternidade Muçulmana que aspira a manter e, se possível, aprofundar ainda mais, o atual conflito com Israel”.

Mohammadi observa, também corretamente, como EUA, Israel, Arábia Saudita e Turquia “chegaram à conclusão de que o melhor modo de impedir que desenvolvimentos da Primavera Árabe ajudassem a aumentar o poder do Irã na região seria converter todo o real conflito em luta entre xiitas e sunitas”.

No fundo, como o Irã interpreta tudo isso? Segundo Mohammadi, “há alto grau de confiança em que o governo sírio não se deixará depor, no mínimo num prazo médio”. Além disso, “é muito pouco provável que Rússia e China cheguem a algum acordo com o ocidente sobre a Síria” e inclusive “sobre o dossiê nuclear iraniano”.

Teerã, pois, está apostando na possibilidade de que “Rússia e China consigam construir um front estratégico confiável, anti-ocidente”. E o autor conclui: “A equação estratégica da região, como resultado dos eventos hoje em curso na Síria, absolutamente não mudou em qualquer direção que possa prejudicar o Irã”.

Mohammad Farhad Koleini
Em entrevista à página internet “Iranian Diplomacy (IRD)” [4], Mohammad Farhad – ex-embaixador e analista de estratégia – comenta o modo como “alguns países árabes, que têm currículos muito sujos no campo dos direitos humanos, deram as mãos aos EUA, na atual correlação de forças na Síria, com vistas a definir um novo jogo de segurança. Mas esse jogo de segurança está sendo mal administrado e, com certeza, maculará a imagem internacional dos EUA”.

Koleini observa que, “enquanto o ocidente busca criar novo arranjo de segurança no Mediterrâneo”, Moscou tenta “não deixar que o ocidente imponha ali seu monopólio geopolítico”. Por isso, a abordagem russa “não está necessariamente focada no que realmente esteja ocorrendo dentro da Síria, mas tem em vista um pacote regional e o projeto de Moscou para regular esse pacote nas suas interações com o ocidente”.

Isso explica por que a Rússia “jamais permitirá que estados ocidentais imponham qualquer tipo de zona aérea de exclusão sobre a Síria”. É atitude confrontacional? Não, de modo algum: “A Rússia está fazendo o máximo possível para evitar, a qualquer preço, qualquer tipo de confrontação. A China sempre demonstrou, em todos os seus movimentos, que segue a mesma política”.

Mehdi Sanaei
Mehdi Sanaei, diretor do Grupo de Estudos sobre a Rússia na Universidade de Teerã e diretor do Iran and Eurasia Research Center (IRAS), escrevendo na página internet do jornal Tabnak News [5] vai ainda mais fundo: Moscou trabalha agora sob “nível sem precedentes de desconfiança quanto aos objetivos e intenções dos EUA no Oriente Médio e Eurásia”.

Quer dizer: podem todos esquecer o famoso “reset” das relações entre Washington e Moscou.

Sanaei refere-se ao famoso artigo sobre política externa que Putin publicou [6] às vésperas da eleição presidencial na Rússia: “Putin visou diretamente os EUA, acusando Washington de mentir e manipular a estrutura e as resoluções da ONU, servindo-se de dois pesos e duas medidas em inúmeras questões globais em diferentes países, além de perseguir interesses só seus, enquanto prega democracia”.

Sanaei descreve, também corretamente, o modo como os analistas russos veem a política externa do governo Obama, como “resultado de dois tipos de teorias: “realismo de última moda” e “neoliberalismo”. Por causa disso, os EUA realmente creem que todos os países do mundo possam ser classificados ou como “amigos” ou como “inimigos” dos EUA. Países hostis, portanto, têm de ser enfraquecidos, e a presença deles nas arenas estratégicas regional e global deve ser contida e, se possível, suprimida, em termos políticos, econômicos e culturais”.

Portanto, para Moscou, “uma nova onda da ordem do mundo foi iniciada pelos EUA para criar nova versão do velho sistema unipolar. Os principais alvos dessa onda, Moscou insiste, incluem o Norte da África, o Oriente Médio, o Irã, a Eurásia e, finalmente, China e Rússia”.

Koleini, dessa vez em artigo para o jornal Emrooz de Teerã [7], introduz o tema do Oleogasodutostão no relacionamento Irã-Rússia: “Apesar da cooperação com o programa de energia nuclear iraniano, a Rússia sempre desejou cortar a mão do Irã no mercado europeu de gás natural. Nessa direção, a Rússia interagiu com Turquia e alguns países do Leste Europeu no projeto Blue Stream. Isso prova, acima de qualquer dúvida, que a Rússia tenta alcançar a liderança na engenharia da estrutura de segurança na Europa, mediante sua política de energia, e reduzir a dependência da Europa de outras fontes de energia”.

Tudo isso, enquanto “tenta desempenhar papel de equilibração no caso nuclear do Irã”.

Koleini também oferece esboço do principal desafio para a “política eurasiana” que Putin explicitou antes de eleito: “O ponto é que o ocidente está projetando novos jogos políticos, sobretudo na Ásia Central, para criar problemas novos para a Rússia e afastar da Eurásia a atenção de Moscou, atraindo-a para esferas tradicionais da extinta União Soviética”.

Egito e Irã trocam beijos

Intelectuais iranianos têm monitorado atentamente a vizinha Turquia. Especialista em Turquia e Cáucaso, Elyas Vahedi observa como “o governo turco surgiu com conceitos como “nem religião de estado, nem estado religioso”, “governo secular, não homem secular”, “civilizar a Constituição”, “abertura democrática/abertura curda/abertura alawita” e “controle e supervisão civis sobre o exército”, e tem-nos usado para fortalecer e manter o controle político sobre o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP)”.

E, claro, antes da Primavera Árabe, toda a conversa girava em torno de “zero problemas com nossos vizinhos” e a doutrina da “profundidade estratégica” da Turquia.

Mas agora que a Turquia está metida na Síria, o governo do AKP “tenta justificar o próprio fracasso, declarando que a política de minimizar os problemas com países vizinhos teria entrado na segunda fase (...). A Turquia acredita que o principal traço da segunda versão de sua política é interação com povos de países vizinhos, não mais com governos vizinhos”.

Simplesmente não se sustenta, diz Vahedi: “Esse ponto de vista, apesar de algumas limitações, seria ainda, de certo modo, justificável em alguns países como Líbia, Egito e Tunísia; mas absolutamente não se aplica à Síria”. Além disso, Ankara “manteve-se em silêncio ante o suplício do povo do Bahrain, sob o pretexto de que os protestos políticos no Bahrain não seriam populares”.

Sobretudo, a política exterior da Turquia “também alimentou especulações de que Ankara participava do conflito xiita-sunita provocado e encenado pelo ocidente. O dano que essa ideia causará à posição e ao prestígio regionais e internacionais da Turquia custará caro demais a Ankara”.

Vahedi vê a Turquia, bem como a Arábia Saudita e o Qatar, como seguidores do ocidente, que lidera da retaguarda, no estilo típico de Obama. A Turquia “parece ter lido a mente do ocidente e tenta aceitar o papel que entende como o seu, a serviço do ocidente, à espera de obter algumas concessões do ocidente”. Mas não funcionará – por exemplo, a entrada da Turquia na União Europeia não acontecerá, ante a gigantesca oposição de França e Alemanha.

Para não falar que Ankara “enfrenta graves críticas que lhe vêm de figuras nacionalistas. Dizem que, o governo da Turquia fala da defesa dos direitos do povo sírio como sua primeira e principal prioridade, ao mesmo tempo em que direitos dos turcos são ignorados em Karabakh e nos Bálcãs, com a conivência das potências ocidentais”.

Ali Akbar Asadi, do Departamento de Relações Internacionais da University of Allameh Tabatabaei, discorre sobre os eventos chaves das semanas vindouras: o renovado relacionamento diplomático entre Irã e Egito – objeto da mais furiosa ira de Washington; o Departamento de Estado, em movimento infantilóide, insiste que o Irã “não merece” ser anfitrião da reunião do Movimento de Não Alinhados em Teerã, do qual participará o presidente Mohamed Morsi do Egito. [8]

Asadi vai direto à jugular – as petromonoarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) estão aterrorizadas ante a possibilidade de que “o Egito retome suas relações com a República Islâmica do Irã, ou, mesmo, de que estabeleça relações estratégicas com a Turquia, minando o poder e a influência do próprio CCG no novo equilíbrio do poder regional”.

Assim sendo, o GCC está fazendo o que costuma fazer: deixando jorrar um pouco de dinheiro. “Querem manter o Egito, como ator político grande e importante no mundo árabe, do lado deles”.

Estão também exigindo de Mursi e da FM que “não tomem qualquer medida para exportar sua revolução ou para ativar outros afiliados” da FM no GCC. E esperam que “o Cairo evite adotar nova abordagem para fortalecer o Hamás contra o Fatah, ajudando a população palestina e de Gaza, e mostrando-se em aberta e firme oposição contra o regime israelense”.

A política do GCC, apoiada pelo ocidente e por Israel, é “manter o Egito estrangulado em seus desafios domésticos” e, assim, incapaz de exercer “a liderança histórica que aspira a recuperar, no mundo árabe”.

Eis, então, apenas uma amostra da discussão intelectual em curso hoje no Irã. Comparada à histeria bombardeativa de que Telavive e Washington estão acometidas, soa como se esses analistas pensassem e escrevessem em Marte.
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Notas de Rodapé

[1]. 20/8/2012, Bloomberg - Jeffrey Goldberg em: An Obama Visit to Israel Could Stall Iran Attack
[2]. Julho/agosto 2012, Arms Control Assaciation  
[3]. Ver Iran Nuc, em persa
[4]. Ver “Iranian Diplomacy, em persa
[5]. Ver em Tabnak Professional News, em persa.
[6]. 27/2/2012, Russia and the changing world, Ria Novosti. Sobre esse artigo e a “volta de Putin” ao poder na Rússia, ver também: 6/3/2012, redecastorphoto em: PEPE ESCOBAR, “Agora é encarar: o czar voltou”, em português.
[7]. Ver em Tehrooz (Jornais de Teerã - jornal em persa e distribuído em .pdf)
[8]. 20/8/2012, Washington Post (Associated Press) em: EUA says Iran doesn’t deserve to host summit of Non Aligned Movement.